Joseph Anton: Memórias
9. Sua ilusão milenarista
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.
Foi a coisa m ais difícil que ele j am ais tivera de dizer ao filho. Zafar não estava esperando por isso, ou tinha conseguido elim inar da cabeça essa possibilidade, então ficou trem endam ente chocado. De m uitas form as, ele era m ais parecido com a m ãe do que com o pai. Tinha o tem peram ento introvertido dela, seus olhos verdes, seu gosto pela aventura; haviam andado de quadriciclo nas m ontanhas de Gales e passado j untos sem anas em férias ciclísticas na França. Ela estivera lá para ele todos os dias ao longo da crise da vida de seu pai e o aj udara a ter um a infância e a crescer sem ficar louco. De seus pais, não era ela que Zafar devia perder.
“Ah, m eu doce filho am oroso”, ele escreveu no diário, “que dor terei de aj udá-lo a enfrentar.” A radiografia m ostrou que o câncer tinha atingido o osso e isso tam bém era um a coisa que o pai de Zafar teria de lhe contar. Os olhos do rapaz ficaram cheios de lágrim as, ele com eçou a trem er e perm itiu brevem ente ser abraçado. Os m édicos disseram que, se Clarissa reagisse bem ao tratam ento, poderia talvez esperar m ais alguns anos de vida. Ele não acreditou e resolveu que tinha de contar ao filho das possibilidades som brias. “Zafar”, ele disse, “a única coisa que sei sobre câncer é que, quando ele tom a conta do corpo, vai m uito depressa.” Ele estava pensando em seu próprio pai, a velocidade com que o m ielom a o havia m atado no fim . “Sei”, Zafar disse, querendo que ele concordasse, “m as ela ainda tem m eses e m eses, certo?” Ele balançou a cabeça. “Infelizm ente”, disse ele, “pode ser questão de sem anas, ou de dias m esm o. No fim , pode ser com o despencar num precipício.” Zafar pareceu ter levado um a bofetada. “Ah”, disse, e repetiu: “Ah”.
Ela estava no Ham m ersm ith Hospital, piorando depressa. Tim disse que tinham descoberto que o câncer estava tam bém nos pulm ões e que ela estava com m áscara de oxigênio para aj udar a respirar, e não podia com er alim entos sólidos. A velocidade do declínio era aterrorizadora. Os m édicos do Ham m ersm ith não sabiam o que fazer com sua fraqueza.
Não podiam operar nem com eçar a quim ioterapia até resolverem o problem a do líquido nos pulm ões e ela só ficava cada vez m ais fraca.
Estava realm ente m orrendo, ele entendeu. Apagava-se depressa.
Zafar telefonou para o sr. Waxm an, o m édico chefe do Ham m ersm ith, e Waxm an disse a ele que não era adequado discutir o caso por telefone, m as concordou em conversar com o rapaz se ele fosse até o hospital. “Isso não parece nada bom ”, Zafar disse, e tinha razão. Então foi falar com o clínico geral de Clarissa, que adm itiu ter com etido “dois erros graves”. Não tinha levado a sério a dor no peito quando ela a m encionara pela prim eira vez e não revira sua posição quando ela continuou reclam ando das dores. “Oitenta e cinco por cento das dores no peito são causadas por estresse”, ele disse, “e eu fiquei com a estatística.” Além disso, ela havia feito um a m am ografia m enos de dois m eses antes e estava tudo bem . Mas o câncer não voltara a atacar seu seio. Ela reclam ara de dor desde j unho ou com eço de j ulho, Zafar disse, e o m édico não tinha feito nada. Agora, aquele hom em insensível, grosso e cruel estava dizendo ao filho de um a m ulher prestes a m orrer: “Ela teve um câncer m uito sério antes, sabe, e não tenho certeza de que tenha aceitado isso. Agora, está com os dias contados”.
“Eu vou pegar esse filho da puta”, ele escreveu em seu diário. “Vou pegar.”
Foi com Zafar ao quarto de Clarissa na tarde de terça-feira, 2 de novem bro de 1999. Ela estava abatida, m acilenta e m uito fraca, com m uito m edo. Mal conseguiu assinar o nom e nos cheques que disse que tinha de m andar. Ela não queria assinar o testam ento, m as acabou assinando. Waxm an falou em com eçar a quim ioterapia im ediatam ente porque era sua única chance, e disse que havia 60% de probabilidade de sucesso, m as não pareceu m uito convincente. O rosto de Zafar estava pesado de desespero e, em bora seu pai tentasse soar o m ais positivo possível, não adiantou m uito.
Na m anhã seguinte, Waxm an disse que Clarissa tinha poucos dias de vida. Com eçaram a quim ioterapia, m as ela teve um a reação negativa e tiveram de interrom per o tratam ento. Não havia m ais nada a fazer. “Há, sim ”, disse Zafar, que passara a noite vasculhando a internet e encontrara um a droga m ilagrosa. O sr. Waxm an disse a ele, gentilm ente, que era tarde dem ais para tudo aquilo.
A internet. Uma palavra que estavam aprendendo a usar. Foi o ano em que alguém usou pela primeira vez a palavra Google em sua presença. Agora havia esses novos horizontes eletrônicos, essa nova “terra incógnita que se espalha a cada olhar”, na qual o Augie de Bellow localizara um dia a aventura humana. Se esse “Google” existisse em 1989, o ataque a ele teria se espalhado tão mais depressa e amplamente que ele não teria a menor chance. Ele tivera sorte de ser atacado pouco antes do alvorecer da era da informática. Mas nesse dia não era ele que estava morrendo.
Clarissa tinha m enos de 24 horas de vida, disseram , e ele estava sentado em sua cam a, segurando a m ão dela e a de Zafar, e Zafar segurava a outra m ão dela e a dele. Tim e a esposa, Alison, e as am igas íntim as de Clarissa, Rosanne e Avril, estavam lá. Então, a certa altura, ela deslizou para algo pior que o sono e Zafar puxou-o de lado para perguntar: “Você disse que o final era m uito rápido — é isso? Parece que a vida se escoou do rosto dela”. Ele pensou: sim , pode ser, e foi se despedir dela. Inclinou-se e a beij ou três vezes nos lados da cabeça — e bang, ela se sentou, ereta, e abriu os olhos. Nossa, foi um beijo e tanto, ele pensou, e ela então virou-se e olhou diretam ente em seu rosto, e perguntou com terror no olhar: “Não estou m orrendo, estou?”. “Não”, ele m entiu, “só descansando”, e durante o resto da vida ele se perguntou se tinha sido certo m entir. Se fizesse essa pergunta em seu leito de m orte, ele esperaria que lhe dissessem a verdade, m as tinha visto o terror nela e não conseguira pronunciar as palavras. Depois disso, durante algum tem po ela pareceu m ais forte e ele com eteu outro erro horrendo. Levou Zafar para descansar algum as horas em casa. Mas enquanto estavam dorm indo ela apagou outra vez e ficou além do poder órfico do am or para cham á-la de volta. Dessa vez ela não voltou. Às 00h50, o telefone tocou, ele ouviu a voz de Tim e entendeu a loucura que tinha feito. Zafar, aquele j ovem grande, chorou em seus braços durante todo o traj eto para o hospital enquanto a polícia os levava para Ham m ersm ith depressa com o o vento.
Clarissa m orreu. Ela m orreu. Tim e Rosanne estavam com ela no fim . Seu corpo ficou escondido por um a cortina num a ala. A boca ligeiram ente aberta, com o se tentasse falar. Estava fria ao toque, m as não inteiram ente fria ainda. Zafar não conseguiu ficar com ela. “Isso não é m inha m ãe”, ele disse, e saiu do quarto, não olhou m ais para ela na m orte. Ele próprio não conseguiu ficar longe dela. Sentou-se a seu lado e falou com ela durante toda a noite. Falou do prolongado am or deles e de sua gratidão pelo filho. Agradeceu de novo por ela ter sido m ãe do rapaz durante aqueles tem pos difíceis. Foi com o se os anos de separação desaparecessem e ele teve outra vez com pleto acesso em ocional a um eu anterior, um velho am or, no m om ento exato em que aquelas coisas se perdiam para sem pre. Ele foi dom inado pela dor e soluçou incontrolavelm ente, culpando a si m esm o por m uitas coisas.
Ficou preocupado de Zafar tentar trancar seu sofrim ento, com o a própria Clarissa talvez fizesse, m as em vez disso seu filho falou durante dias, lem brando-se de todas as coisas que ela e ele tinham feito j untos, os passeios de bicicleta, as férias navegando, a tem porada no México. Foi m aravilhosam ente m aduro e valente. “Estou m uito orgulhoso de m eu m enino”, seu pai escreveu no diário, “e vou envolvê-lo em m eu am or.”
Clarissa foi crem ada no sábado à tarde, 13 de novem bro de 1999, no crem atório de Golders Green. Acom panhar o carro fúnebre foi insuportável. A m ãe dela, Lavinia, vendo a filha com eçar sua últim a j ornada, desm oronou com pletam ente e ele pôs o braço em torno dela enquanto ela chorava. Passaram pela Londres de Clarissa, a Londres em que tinham vivido j untos e separados — Highbury , Highgate, Ham pstead. Ah, ah, ele uivava por dentro. Havia m ais de duzentas pessoas esperando por ela no crem atório e a tristeza estava no rosto de todos. Junto ao caixão ele falou do com eço deles, de com o a tinha visto levando chá para Mam a Cass Elliot no palco de um evento filantrópico, com o seus am igos Connie Carter e Peter Hazel-Sm ith tinham arranj ado um j antar à quatre para apresentar os dois, com o ele esperara por ela durante dois anos. “Eu m e apaixonei depressa, ela devagar”, ele disse. Com o o filho deles havia nascido, seu m aior tesouro, num dom ingo de j unho. Depois do nascim ento, a parteira o pusera para fora enquanto lim pavam e vestiam a j ovem m ãe, ele tinha cam inhado pelas ruas de dom ingo vazias, procurando flores, e pagara um exem plar do The Sunday Times com um a nota de dez libras só para poder dizer ao vendedor da banca: “Fique com o troco. Acabei de ter um filho”. Nunca discordamos a seu respeito, Zafar, e agora ela vive em você. Olho em seu rosto e vejo os olhos dela.
Os m eses que se seguiram foram talvez o m om ento m ais deprim ente para Zafar porque, além do luto por sua m ãe, sua casa na Burm a Road foi vendida e ele teve de procurar outro lugar para viver. Além disso, a razão para ele deixar Exeter, um a turnê m usical com um a dupla de dj s cham ada Phats e Sm alls que ele estava prom ovendo, deu errado e Tony, seu sócio nos negócios, desapareceu, deixando-o responsável por algum as dívidas bastante altas, e seu pai perdeu um a som a de dinheiro para socorrê-lo, então ele sentia, em resum o, que tinha perdido tudo, a m ãe, o trabalho, a casa, a segurança, a esperança, e ali estava seu pai dizendo que provavelm ente ia se separar de Elizabeth e m udar para os Estados Unidos, e, bem , era m esm o ótim o.
Foi m uito bom poder dizer, uns doze anos no futuro, que Zafar provou que o cam inho que escolhera era certo para ele, que trabalhou com incrível em penho abrindo seu cam inho e desenvolveu um a carreira bem -sucedida na área de entretenim ento, relações públicas e até no m undo dos agentes, que ele era universalm ente am ado e respeitado, e que chegou um m om ento em que as pessoas pararam de dizer a ele: “Ah, você é filho de Salm an” e passaram a dizer para seu pai: “Ah, você é pai de Zafar”.
Caro eu, 52 anos,
É mesmo? Seu filho mais velho está em pedaços no chão de tristeza pela morte da mãe e também de horror existencial pelo futuro, seu filho mais novo tem apenas dois anos e você está em Nova York procurando apartamento, e em Los Angeles perseguindo sua quimera que sempre se vestia como Pocahontas no Halloween, sua decadência? É esse que você é? Rapaz, que bom que você virou eu.
Sinceramente,
Eu, 65 anos.
Caro 65,
Você cresceu?
Sinceramente,
52
“Som os a m esm a pessoa”, ela disse a ele, “querem os as m esm as coisas.” Ele com eçou a apresentá-la a seus am igos de Nova York, e a conhecer os dela, quando estava na cidade com ela, sabia que um a vida nova no Novo Mundo era o que queria; um a vida com ela. Mas havia um a pergunta que não queria calar: Até que ponto ele estava pronto a ser cruel na busca de sua própria felicidade?
Havia outra pergunta tam bém . Será que as pessoas teriam m uito m edo da nuvem acim a de sua cabeça para lhe vender um lugar para m orar? Em sua própria opinião, a nuvem estava evaporando, m as a opinião dos outros era outra coisa. Houve apartam entos de que ele gostou, em TriBeCa e em Chelsea, cuj as negociações não prosperaram porque os construtores entraram em pânico e disseram que, se ele se m udasse para o prédio, ninguém m ais ia querer m orar ali. Agentes im obiliários disseram que entendiam a posição dos construtores. Ele estava som briam ente determ inado a derrotar essas obj eções.
Ele pegou um avião para Los Angeles para ver Padm a e, em sua prim eira noite lá, ela provocou um a briga desconcertante. O m undo não podia ser m ais claro ao lhe dizer que ele estava no lugar errado, com a m ulher errada, na cidade errada, no continente errado, na hora errada. Ele saiu do apartam ento dela e foi para o Bel-Air Hotel, reservou lugar num voo para Londres e telefonou a Padm a para dizer que o encanto se rom pera, que ele tinha caído em si, que ia voltar para a esposa.
Telefonou para Elizabeth e disse que tinha m udado de planos, m as horas depois Padm a estava em sua porta im plorando perdão. No fim da sem ana, ela o fizera voltar atrás outra vez.
Na época e depois, ficou claro para ele que esses m eses de vacilação causavam m ais dor a Elizabeth do que qualquer outra coisa. Ele tentou se despedir e sufocou. Tentou ir em bora e tropeçou. E, quando oscilava para a frente e para trás, m achucava-a m ais e m ais. Voltou a Londres e Padm a m andou-lhe e-m ails de ardente desej o. Espere. Eu só quero agradar a você. Estou só esperando até poder te matar de felicidade.
Enquanto isso, poucos dias antes do Natal, a casa da Bishop’sAvenuefoi assaltada.
Bery l, a faxineira, chegou e encontrou a porta da frente escancarada e um a das m alas deles e a caixa de ferram entas de Zafar na entrada. Todas as portas internas do andar térreo estavam abertas, o que tam bém não era habitual. Tinham o costum e de trancá-las à noite. Ela achou que ouviu m ovim ento no andar de cim a, gritou, não obteve resposta, apavorou-se, resolveu não entrar e cham ou Frank Bishop. Frank ligou para ele no celular, m as ele estava dorm indo e a cham ada caiu na caixa postal. Então Frank ligou no telefone fixo e acordou Elizabeth, que rosnou para ele: “Saia da cam a”. Janelas do andar de cim a tinham sido abertas tam bém , além das venezianas e cortinas. Ele com eçou a percorrer a casa. Acordou Zafar, que não tinha ouvido nada. Encontrou outra j anela aberta. Em seu estúdio, a m edalha da Ordre des Arts e des Lettres havia desaparecido, bem com o um a câm era. Seus laptops, passaporte e câm era de vídeo estavam todos intocados. Seu relógio e alguns dólares am ericanos tinham sido levados, m as o cartão do Am erican Express que estava bem ao lado do dinheiro perm anecia lá. Nenhum a j oia de Elizabeth estava faltando; um anel de brilhante, plenam ente visível, continuava em seu lugar. O estéreo de Zafar havia desaparecido, e alguns ornatos da sala de estar, um Ganesha de m etal branco, um a presa de m arfim com prada na Índia no com eço dos anos 1970, um a caixa de prata, um a lupa antiga e um pequeno Corão octogonal com ilum inuras que a avó de Clarissa, May Jewell, dera para ele antes do casam ento. E na sala de j antar toda a prataria havia desaparecido, com sua caixa de m adeira. Só isso.
A j anela do quarto principal estava inteiram ente aberta. Tratava-se de um ladrão hábil. Ele tinha entrado pela j anela do quarto, deixado pegadas de lam a no chão e não acordara ninguém . Era um a ideia assustadora. O hom em havia passado por eles e nenhum dos três tinha aberto os olhos. Será que o ladrão sabia em casa de quem havia entrado, de quem era a m edalha que roubara? Teria reconhecido o hom em adorm ecido em sua cam a? Sabia do perigo que ele próprio corria? Se houvesse um policial na casa, ele provavelm ente teria sido m orto.
Todo m undo estava bem . Isso era o principal. Mas será que a casa havia sido descoberta? Frank Bishop chegou, Bery l entrou, e chegaram agentes da Yard para avaliar a situação. Se se tratava de um ladrão de Natal, o que era o m ais provável, era extrem am ente im provável que ele revelasse a localização da casa a terroristas islâm icos, ou m esm o fosse à im prensa, o que seria incrim inador. Então, restava ficarem firm es, esperar pelo m elhor. Sim . Era isso que iam fazer.
Elizabeth foi ver Carol e levou Milan. Ele foi deixado com seu agoniante autoquestionam ento. As com em orações do m ilênio se aproxim avam e ele estava dilacerado. Ah, e no Irã relataram que quinhentos “linhas-duras” tinham proposto vender um rim cada um para levantar dinheiro para seu assassinato, o que poderia resolver o problem a. Uma cura garantida para todas as doenças, com o dissera Thom as Morus do m achado do carrasco.
Joseph Heller m orreu, e um bom hum or grandioso foi em bora com ele. Jill Craigie m orreu, e um a grande bondade partiu com ela.
Na noite de Ano-Novo, o guru das relações públicas Matthew Freud e sua noiva, Elisabeth, filha de Rupert Murdoch, convidaram -nos para o Dom o do Milênio. Ele levou Elizabeth, Zafar, Martin e Isabel, e Susan, a nova babá, ficou em casa cuidando de Milan. No Dom o, Tony Blair parou para apertar a m ão de Matthew e Elizabeth e apertou a m ão dele tam bém . Quando chegou a hora de cantar “Auld lang sy ne”, a rainha teve de segurar na m ão de Blair e a expressão em seu rosto era de ligeiro desprazer. Elizabeth pegou na m ão dele e a expressão no rosto dela era de
terrível am or e angústia. Should auld acquaintance be forgot and never brought to mind?,b eles cantaram , e então era m eia-noite, os sinos tocaram por toda a Inglaterra e o bug do m ilênio Y2K não atacou, não houve ataques terroristas, a nova era com eçou e nada estava diferente. Não existia m agia nos m om entos. Só os seres hum anos podiam produzir transform ações, m agníficas ou diabólicas. O destino estava nas m ãos deles.
Caro Milênio,
Você é um blefe. A mudança de 1999 para 2000 só seria o milênio se tivesse havido um Ano Zero antes do Ano 0001, e não houve, o que quer dizer que os 2 mil anos estarão completos no fim do ano 2000 e não no começo. Esses sinos e fogos de artifício, as festas na rua estavam todos um ano adiantados. O verdadeiro momento transformador ainda está por vir. E, como estou escrevendo isto de meu lugar que tudo sabe no futuro, posso dizer com completa autoridade que veremos a eleição nos Estados Unidos em novembro de 2000 e os bem conhecidos eventos subsequentes em setembro de 2001, um ano depois deste falso milênio, quando as coisas realmente mudaram.
No Dia de Reis, apenas duas sem anas depois de Elizabeth ter levado Milan para visitar a “avó”, Carol Knibb tentou com eter suicídio, deixando cartas para diversas pessoas, inclusive Elizabeth. Ela disse que não acreditava em seu tratam ento e que preferia “acabar com tudo”. Não conseguiu porque não tom ou m orfina suficiente. Seu m arido, Brian, acordou-a e, em bora ela tenha dito depois que preferia que ele não a tivesse acordado, provavelm ente o teria feito sozinha. Estava na ala de isolam ento porque, no estado em que se encontrava, qualquer ligeira infecção poderia ser fatal. Sua contagem de glóbulos brancos era dois (devia ser doze) e a contagem de glóbulos verm elhos tam bém estava m uito baixa. A quim ioterapia tivera um efeito m uito destrutivo. Brian telefonou para o m édico de Edward Said, Kanti Rai, que disse que, sim , havia outros tratam entos disponíveis nos Estados Unidos, m as não podia j urar que fossem m elhores do que os cuidados que ela estava recebendo. Elizabeth ficou m uito abalada com a tentativa de suicídio de Carol. “Ela era com o um a rocha para m im ”, disse, e acrescentou: “Mas, de certa form a, eu sou m inha própria rocha desde que m inha m ãe m orreu”. Ele a abraçou para consolá-la e ela disse: “Você ainda...”, m as calou-se e saiu da sala. Algum a coisa apertou com força seu coração.
Seu aniversário chegou e ele levou Elizabeth, Zafar e cinco dos am igos m ais antigos dela para j antar no Ivy. Mas quando voltaram para casa ela o confrontou e exigiu saber o que ele ia fazer. Ele falou do efeito destrutivo do conflito entre a vontade dela de ter m ais bebês e a dele de ir para Nova York, e pela prim eira vez ele pronunciou a palavra divórcio.
O fim de um casam ento não tem nenhum a originalidade. Aquele que está term inando se afasta lentam ente, enquanto o que não quer que term ine oscila entre o am or triste e a raiva vingativa. Havia dias em que ele se lem brava das pessoas que tinham sido e encontrava um j eito de ser generoso e com preensivo, m as esses dias ficaram m ais raros. Então vieram os advogados e depois disso os dois ficaram zangados, e o que estava term inando parou de se sentir culpado, você entrou em minha vida andando de bicicleta, trabalhando comoeditora assistente, morando no sótão de alguém como inquilina e quer sair do casamento como uma multimilionária, e a que não queria que acabasse fez tudo o que teria j urado nunca fazer e dificultou para o que queria term inar ver seu filho, nunca vou perdoar você, você arruinou a vida dele, não estou pensando em você, estou pensando nele, e tiveram de levar o caso ao tribunal e o j uiz teve de dizer aos dois que eles não deviam estar num tribunal porque deviam ao filho um a solução. Aquelas não eram as pessoas que os dois eram de verdade. Essas pessoas acabariam reaparecendo com o tem po, depois que a que estava sendo abandonada encontrou a Ilusão pessoalm ente em Nova York e a ofendeu com um vocabulário que ninguém sabia que ela conhecia, depois que resolveram com o com partilhar o filho, em algum m om ento naquele futuro depois do fim da guerra, quando a dor com eçara a se apagar eles se reconquistaram e se lem braram de que gostavam um do outro, e que além de gostarem um do outro tinham de ser bons pais para seu filho, e então um diabrete de cordialidade se insinuou na sala, e logo m ais estavam discutindo as coisas com o adultos, ainda discordando, discordando bastante, na verdade, e ainda perdendo a paciência às vezes, m as conseguindo conversar, até se encontrar, achando um rum o não tanto um para o outro, m as para si m esm os, e até conseguindo, às vezes, sorrir.
E o que levou ainda m ais tem po, porém acabou acontecendo, foi a volta de um a am izade, que perm itiu que fizessem coisas com o um a fam ília outra vez, com er um na casa do outro, sair para j antar e ir a um cinem a com os m eninos, até tirar férias j untos na França, na Índia e, sim , nos Estados Unidos tam bém . Acabaria se tornando um relacionam ento do qual se orgulhar, um relacionam ento rom pido, pisado e rom pido de novo, m as depois reconstruído, não com facilidade, não sem m om entos de destrutividade, m as lentam ente, seriam ente, pelas pessoas que eles eram de fato, que ressurgiram da arm adura da ficção científica, da fantasia de m onstros de cinem a em que o divórcio os tinha transform ado.
Isso levaria anos para acontecer, e exigiria que sua Ilusão o apunhalasse no coração e desaparecesse de sua vida, não num a nuvem verde de fum aça com o a Bruxa Má do Oeste, m as num j ato particular de um velho Patinhas McPato, para seu m undo particular de Péssim a Penugem e outros lugares cheios de m aldade e dinheiro. Depois de oito anos, durante os quais ela lhe disse em m édia um a vez por sem ana que ele era velho dem ais para ela, ela acabou com um pato duzentos anos m ais velho, talvez porque Patinhas McPato podia abrir a porta encantada que a levaria ao secreto m undo de sonhos da subvenção infinita, da vida vivida sem lim ites na Big
Rock Candy Mountain com os pássaros, as abelhas e as árvores cigarreiras;c e porque num a sala particular de sua cúpula do prazer particular em Patoburgo, Estados Unidos, havia um a piscina cheia de dobrões de ouro e eles podiam m ergulhar do tram polim baixo e nadar durante horas, com o o Tio Patinhas gostava de nadar, na tranquilizante liquidez do dinheiro dele; e que im portava se ele era am igo íntim o de Duck Cheney e se John McDuck (sem parentesco) lhe dissesse que podia escolher a em baixada am ericana que quisesse depois da derrota de Barack Obam a?, isso não im portava, porque no porão de seu castelo particular havia o Diam ante do Tam anho do Ritz e na caverna no coração da Montanha Pato, que ele havia com prado num golpe em preendedor de capitalism o havia m uito tem po, no período j urássico em que ele era apenas um patinho setenta prim averas antes, seu m anso tiranossauro ladeado por seus fiéis velociraptors protegia de todos os saqueadores seu fabuloso tesouro do dragão, sua m ontanha de dinheiro particular e incontável.
Quando ela partiu para o m undo de faz de conta, a realidade voltou. Elizabeth e ele não se casaram de novo, nem viraram am antes de novo, porque isso não teria sido realista, m as foram capazes de se tornar pais m elhores e tam bém os m elhores am igos, e suas verdadeiras personalidades apareceram não na guerra que travaram , m as nas pazes que fizeram .
No ano 2000 aquela velha história, a fatwa, efetivam ente reem ergiu de quando em quando. Ele estava em Manhattan parado na calçada da Barrow Street depois de procurar por um possível apartam ento para alugar quando o secretário do Exterior britânico ligou para seu celular. Que coisa estranha, ele pensou, estou parado aqui sem proteção, cuidando da minha vida, enquanto Robin Cook me diz que seu equivalente iraniano Kharrazi prometeu que todo mundo no Irã está por trás do acordo, mas a inteligência britânica continua não acreditando, e por falar nisso Kharrazi diz que a história dos homens venderem os rins não é verdade, blábláblá. Ele havia virado um a chave em sua cabeça e não ia m ais esperar que o governo britânico ou o Irã dessem sinal verde, ele ia construir sua liberdade sozinho ali m esm o nas calçadas de Nova York e, se conseguisse encontrar um lugar para m orar, isso iria realm ente aj udar.
Havia um apartam ento na rua 65 com a Madison, na frente da loj a Arm ani. O teto não era alto e o apartam ento não era bonito, m as estava a seu alcance e o dono estava disposto a vendê-lo para ele. Era um prédio cooperativado, então ele tinha de ser aprovado pelo conselho, m as o proprietário era o diretor do conselho e prom eteu que não haveria problem a, o que provava que m esm o diretores de conselhos de cooperativas do Upper East Side podiam ignorar o que as pessoas realm ente pensavam deles, porque, quando chegou a hora da entrevista, a hostilidade do conselho com o candidato não podia ser explicada inteiram ente pela nuvem acim a da cabeça deste. Ele chegou a um apartam ento cintilante, povoado por dam as com laquê no cabelo, cuj os rostos não se m exiam , com o se fossem personagens com m áscaras de um a tragédia grega, e m andaram que ele tirasse os sapatos para proteger o fofo tapete branco no chão. Seguiu-se um a entrevista tão superficial que só podia significar duas coisas: que as deusas m ascaradas j á haviam decidido dizer sim , ou que j á haviam decidido dizer não. No fim da reunião, ele disse que agradeceria um a decisão rápida, diante do que a m ais grandiosa das grandes dam as encolheu os om bros eloquentem ente e disse através da im obilidade orestiana de seu rosto que a decisão ocorreria quando ocorresse e acrescentou: “Nova York é um a cidade m uito dura, senhor Rushdie, e tenho certeza de que o senhor entende por quê”. “Não”, ele sentiu vontade de dizer, “não, na realidade, não entendo por quê, m adam e Sófocles, poderia m e explicar?” Mas ele sabia o que ela estava dizendo de fato. “Não. Só por cim a de m eu corpo botoxado lipoaspirado, de m inha costela rem ovida e de m inhas irrigações de cólon. Nunca, nem em um m ilhão de anos.”
Nos anos seguintes, ele de vez em quando desej ou se lem brar do nom e daquela senhora, porque devia a ela um grande “obrigado”. Se tivesse sido aprovado pelo conselho, teria sido obrigado a com prar o apartam ento de que não gostara de fato. Ele não foi aprovado, e naquela m esm a tarde encontrou seu lar. Às vezes era difícil não acreditar no Destino.
A canção do U2 — “sua” canção — estava tocando no rádio e os dj s pareciam gostar dela. “No film e”, Padm a dissera a ele, “tenho de fazer o papel de Vina Apsara. Sou perfeita para ele. É óbvio.” How she made me feel, how she made me real [O que m e fez sentir, com o m e fez existir]. “Mas você não é cantora”, ele disse, e ela ficou furiosa. “Estou fazendo aulas de canto”, disse. “Meu professor disse que tenho m uito potencial.” Os direitos para cinem a haviam sido com prados recentem ente pelo piratam ente ousado produtor português Paulo Branco e o film e seria dirigido por Raúl Ruiz. Ele conheceu Branco e propôs Padm a para o principal papel fem inino. “Claro”, disse Branco. “É perfeito.” Naquela época, ele não havia aprendido com o traduzir para o inglês a fala de produtor. Não se deu conta de que o que Branco estava dizendo de fato era: “Claro que não”.
Ele alm oçou em Londres com Lee Hall, o fam oso roteirista de Billy Elliot, indicado ao Oscar, que tinha adorado O chão que ela pisa e estava ansioso para trabalhar no roteiro. Quando Ruiz se recusou a sequer encontrar Hall, o proj eto com eçou a perder força rapidam ente. Ruiz contratou um roteirista argentino, Santiago Am igorena, um falante do espanhol que escreveria o roteiro em francês para ser depois traduzido para o inglês. O prim eiro tratam ento dessa quim era,
desse inconsistente roteiro pushmi-pullyu,d era previsivelm ente horrendo. “A vida é um tapete”, um dos personagens tinha de dizer, “e só podem os ver seu desenho com pleto em nossos sonhos.” Essa era um a das m elhores falas do diálogo. Ele protestou com Branco e perguntaram se ele estaria disposto a revisar o roteiro com Am igorena. Ele concordou, pegou um avião para Paris, conheceu Santiago, um bom hom em e sem dúvida excelente escritor em sua língua. Depois das conversas, porém , Am igorena m andou-lhe um segundo tratam ento que tinha o m esm o m isticism o opaco do prim eiro. Ele respirou fundo e disse a Branco que gostaria de escrever um tratam ento sozinho. Quando enviou seu roteiro para Branco, disseram que Raúl Ruiz se recusara a lê-lo. Ele telefonou para Branco e perguntou: “Ele não vai nem ler? Por quê?”. “Você tem de entender”, Branco respondeu, “que estam os no universo de Raúl Ruiz.” “Ah”, ele disse, “pensei que estávam os no universo do m eu rom ance.” O proj eto gorou irrecuperavelm ente dias depois e o sonho de Padm a de representar Vina Apsara chegou a um final prem aturo.
“Nova York é um a cidade dura, senhor Rushdie.” Certa m anhã, ele acordou e topou com um a fotografia de página inteira de Padm a na capa do Post e, ao lado dela, debaixo de um a foto pequena com o um inseto dele m esm o, a m anchete em letras de cinco centím etros: m orrer por ele.
E no dia seguinte, no m esm o j ornal, havia um cartum em que o rosto dele era visto através do visor do rifle de um atirador. A legenda dizia: não sej a boba, padm a, aqueles iranianos m alucos nunca vão vir atrás de m im em nova y ork. E de novo algum as sem anas depois, no Post outra vez, havia um a fotografia dos dois j untos andando por um a rua de Manhattan e a m anchete vale a pena m orrer por ele. A notícia apareceu em toda parte e em Londres o editor de um j ornal disse que seu escritório estava “inundado” de cartas pedindo que os roy alties de Rushdie fossem confiscados porque ele estava “caçoando da Grã-Bretanha” ao viver abertam ente em Nova York.
Ela ficou com m edo. Sua foto estava em todos os j ornais do m undo e ela se sentia vulnerável, disse. Na sala de Andrew Wy lie, ele encontrou-se com agentes da divisão de inteligência da polícia de Nova York que foram surpreendentem ente tranquilizadores. De certa form a, o Post tinha lhe feito um favor, disseram . O j ornal anunciara sua chegada à cidade tão ruidosam ente que, se algum dos “bandidos” que eles estavam m onitorando estivesse interessado, haveria um a reação im ediata. Mas não houve nenhum a perturbação da Força. Estava tudo calm o. “Acham os que ninguém está interessado no senhor a esta altura”, disseram a ele. “Então, não tem os nenhum problem a com seus planos.”
Esses planos com preendiam um a política deliberada de ser visto em público. Ele não se “esconderia” m ais. Iria com er no Balthazar, no Da Silvano, no Nobu, iria ao cinem a, a lançam entos de livros, seria visto se divertindo tarde da noite em lugares da m oda com o o Moom ba, no qual Padm a era bem conhecida. Inevitavelm ente iriam caçoar dele em alguns lugares, por ter se transform ado em um a espécie de m onstro festeiro, m as era o único j eito que ele conseguia im aginar de m ostrar às pessoas que ele não precisava ter m edo, que as coisas iam ser diferentes agora, que estava tudo bem. Só vivendo abertam ente, visivelm ente, destem idam ente, e aparecendo nas notícias por isso, ele podia reduzir o clim a de m edo à sua volta, que era agora, em sua opinião, um obstáculo m aior do que qualquer am eaça iraniana que ainda restasse. E, apesar das frequentes crises de m au hum or de Padm a, de sua capacidade de se com portar com o um a m odelo m im ada, de sua frieza nada infrequente em relação a ele, era preciso reconhecer, ela concordava que era assim que ele devia viver e estava disposta a ficar a seu lado, m esm o quando em Besant Nagar, Madras, o avô dela, K. C. Krishnam urti — “K. C. K.” —, dava entrevistas dizendo que estava “horrorizado” com a presença desse Rushdie na vida de sua neta.
(Nos anos que viveram j untos, ele visitou os parentes de Padm a em Madras diversas vezes. K. C. K. logo desistiu de sua oposição ao relacionam ento dos dois, incapaz, com o disse, de negar à sua querida neta tudo o que ela dissesse que lhe trazia felicidade. “Esse Rushdie”, por sua vez, veio a considerar a fam ília de Padm a com o a m elhor parte dela, a parte indiana em que ele tanto queria acreditar. Ele ficou especialm ente próxim o da irm ã m uito m ais nova de sua m ãe, Neela, que era m ais com o um a irm ã m ais velha de Padm a do que um a tia, e para ele foi quase com o ter um a nova irm ã. Quando Padm a estava com sua fam ília de Madras, que era gente bem -hum orada, sem frescuras, ela se tornava outra pessoa, m ais sim ples, m enos afetada, e a com binação dessa sim plicidade m adrasiana com sua beleza assom brosa era absolutam ente irresistível. Às vezes, ele pensava que, se os dois pudessem construir um a vida fam iliar que a fizesse se sentir segura naquele pequeno m undo de Besant Nagar, ela poderia ser capaz de m anter seu m elhor lado despretensioso, e se conseguisse isso os dois sem dúvida poderiam ser felizes. Mas não era isso que a vida lhes reservava.)
A Orestíada estava em cartaz no National Theater em Londres e, com o a m á vontade da im prensa continuava (e no Irã tinha havido o costum eiro barulho de “nós vam os m atar você” do aniversário da fatwa, fazendo com que ele se perguntasse pela m ilésim a vez se era sensato fazer o que estava fazendo), ele se perguntou se tam bém seria perseguido pelas Fúrias até o fim de seus dias, as três Fúrias: o fanatism o islâm ico, a crítica da im prensa e um a esposa abandonada e zangada; ou se ele conseguiria, com o Orestes, rom per um dia com a m aldição sobre sua casa, ser perdoado pela j ustiça de algum a Atena m oderna e ter perm issão para viver seus dias em paz.
Estava escrevendo um rom ance cham ado Fúria. Tinha sido convidado a escrever para o “presente” da Sem ana do Livro Holandesa, o prim eiro autor não holandês a receber essa honraria. Todo ano, durante a Sem ana do Livro Holandês, “presente” era dado a todos que com prassem um livro num a livraria. Centenas de m ilhares de exem plares eram distribuídos. A m aior parte consistia em livros curtos, m as Fúria estava se tornando um rom ance de tam anho norm al. Apesar de tudo o que estava acontecendo em sua vida, o rom ance estava brotando dele, insistindo em ser escrito, exigindo existir com um a urgência que quase o assustava. Na verdade, ele estava trabalhando num outro rom ance, Shalimar, o equilibrista, m as Fúria havia se introm etido e em purrado Shalimar tem porariam ente para fora de sua m esa.
No cerne de seu livro estava a ideia de que ele chegara a Manhattan quando a cidade acreditava estar vivendo um a idade dourada — “a cidade fervia de dinheiro”, ele escreveu — e ele sabia que esses m om entos de ápice sem pre tinham breve duração. Resolveu que queria assum ir o risco criativo de captar o m om ento enquanto estava vivendo nele, abandonar a perspectiva da história e m eter o nariz no presente, colocá-lo no papel enquanto ainda estava acontecendo. Se acertasse, pensou, então os leitores contem porâneos do livro, principalm ente em Nova York, experim entariam o prazer do reconhecim ento, a satisfação de dizer a si m esm os: Sim, é desse jeito mesmo, e no futuro o livro traria de volta à vida aquele m om ento para os que eram m uito j ovens para tê-lo vivido, e eles diriam : Sim, devia ser desse jeito, era assim. Se não acertasse... bem , onde não havia risco de fracasso tam bém não havia possibilidade de sucesso. A arte era sem pre um risco, sem pre realizada no lim iar da possibilidade e sem pre questionava o artista, e era assim que ele gostava.