Livro de Consolação
Capítulo VII
—Isso é pavoroso!—disse Eduardo Pimenta, contando com o applauso dos circumstantes.
Riu-se apenas o capellão, talvez despeitado por vêr que um profano lhe tomava a mão no seu direito de moralisar ácerca da inutilidade do dinheiro. E ninguem mais applaudiu a reclamação faceta do interruptor. Venceslau, porém, encarando-o com boa sombra, respondeu:
—Bem se vê que este meu amigo está rico!... A moral dos pobres é sempre o pavor dos que se receiam que ao apostolado da esmola se siga a tentativa do roubo...{83}
VII
Franqueza e mais franqueza. Assim é que a
amisade
Póde ter duração e dar felicidade.
VISCONDE DE CASTILHO—No Avarento.
Se as sympathias de quem lê este livro começam a divorciar-se do viuvo de Antonia, apresso-me a divulgar um galhardo lance que deve restituil-o á estima das familias.
Eduardo, tres dias depois dos successos contados no anterior capitulo, procurou Venceslau, e abriu-lhe a sua alma d'este feitio:
—Volto a buscar o amigo extremoso que, depois de dez annos, me deixou vêr que tudo n'este mundo é imperfeito, sem excepção dos amigos.
Venceslau, ouvido o esperançoso exordio, depoz a penna, recostou-se á espalda da cadeira, fixou-o com attenção menos cordeal que admirada, e esperou em silencio.{84}
E o querido de D. Anna, com a firmeza e gravidade dos arrojos nobres, proseguiu:
—Houve um tempo em que tu, Venceslau, compadecido da insulação em que vias a minha pobre alma, raciocinavas amigavelmente reprovando a fraqueza menos de mulheril a que a saudade me extenuára, a ponto de inutilisar a minha aptidão para o trabalho, para o dever e para tudo que é proprio de homem. Eu escutava-te, soffreando ora as lagrimas, ora a indignação: as lagrimas, quando realmente me via inutil, a depender das tuas liberalidades; a indignação, quando se me pedia esforço incompativel com a minha amargura. Esta doença moral durou nove annos, queimando-me nas suas febres, e lacerando nas suas roscas de fogo o melhor da minha mocidade, introvertendo-me no devorar-se intimo da alma, em quanto, á volta de mim, os meus companheiros de exilio se distrahiam com o trabalho, ou se acalentavam com esperanças. Entrei na patria, chorando, em quanto os outros jubilavam, restituidos ás familias e recompensados com as posições e empregos de que se estão gosando. Quiz, porém, a Providencia que um raio de luz entrasse á noite profunda do meu coração, quando as supplicas da minha infeliz esposa alcançaram talvez da bondade divina que desviasse dos meus labios a taça da desesperação. Ao mesmo tempo que o desejo de viver renascia do seu sepulchro de nove annos, o cortejo das miserias que me confrangiam a virilidade e nobreza do meu caracter, deram-me treguas, permittindo o céo que a maldição de meu pae não chegasse{85} a esterilisar o meu patrimonio. A minha felicidade parecia recomeçar, ou antes começava para mim, quando de repente se levanta uma nuvem a negrejar no horisonte que tão claro se me prefigurava nos sonhos; mas, ao travez d'esta nuvem, transluzia-se-me uma imagem de mulher, formosa e innocente como ha doze annos eu vira outra que depois a chuva das lagrimas apagou. Esta segunda, santa e ao mesmo tempo sinistra visão, é Anna Vaz, é aquelle anjo de resgate que tu me apontaste na via dolorosa da minha paixão. Venceslau, o teu caracter é nobilissimo; é, mas o meu entendimento não sonda todos os seus arcanos. Ha delicadezas reconditas nas grandes almas; ha mysterios de abnegação que se não descortinam sem grande iniciação de virtudes que não tenho. Bem longe estava eu de suspeitar que tu amavas a filha do commendador; bem longe estavas tambem tu de me communicar esse segredo. Duas maravilhas para mim: uma, a reserva, para quem a não devias ter; outra, a renuncia para quem seria capaz de t'a acceitar. De qualquer das fórmas considerado o teu proceder, assombras-me, porque és homem, porque és bom, porque tens vinte e oito annos; todavia, se melhor pondero a tua indole, isto que em mim é assombro talvez se deva considerar incapacidade para entender o melindre da tua honradez, nas grandes e nas pequenas coisas, na politica e na moral, nos actos da consciencia e nos do coração. Não obstante, Venceslau Taveira, consente que eu te pergunte porque me não disseste que amavas D. Anna Vaz?{86}
—Porque eu não amava D. Anna Vaz—respondeu serenamente o interrogado.
—Então amaste-a depois que desconfiaste da minha dedicação?
—Nem antes nem depois.
—Amigo, abre-me a tua alma, se ainda me prezas. Não te julgues abatido da tua dignidade com semelhante revelação. Se fui teu competidor, a ignorancia me desculpa. Poderia accusar-te eu d'este dissabor, culpando-te o resguardo que tens para os mais communicativos sentimentos. Conheço o primor dos teus brios; sei que regeitarás a mulher que não teve espirito bastante para entrar ao secreto das tuas intenções. Não pódes arguil-a, meu amigo, porque ninguem te ouviu palavra indicativa de affeição superior ás affeições triviaes das salas. O commendador disse algumas vezes a D. Julia que tu deixáras o coração onde deixaste o habito de noviço. Os amigos d'elle e teus pasmavam que sahisse do mosteiro quem tão de molde nascera para as frialdades do claustro e desdens da vida social. Em meio d'estas apreciações, não era natural que a innocente Anna entendesse melhor a tua indole...
—Que desperdicio de palavras!—atalhou Venceslau Taveira, vencido da impaciencia, que elle tantas vezes subjugava a esforços de cortezia.
—Eu já sabia que principiava a cansar a tua attenção—replicou Eduardo, dissimulando a custo o dezar.—O que tenho que dizer-te é pouco mais, todavia o que mais importa. Deponho nas tuas mãos a inabalavel{87} resolução de desviar o espirito d'essa mulher que é causa innocente dos nossos primeiros desgostos, e peço á tua bondade que me absolvas da culpa, se delinqui, não te adivinhando. Se eu souber ou podér descobrir que o ausentar-me da casa do commendador te é aprazivel, mais grato me será a mim o sacrificio do que a ti. O que eu repulso com todas as forças da minha honra é a imputação de rival do meu maior amigo.
—Respondo—voltou Venceslau, retomando a penna para continuar o seu artigo.—Não amei a filha do commendador. Zelei a dignidade da familia que nos recebeu cordealmente. Demasiei-me comtigo em transcendencias de melindres, que, melhor avisado, eram pieguices. Se Anna Vaz te ama, paga-lhe com honrado amor a divida. Se tens coração e brios, se crês que esse amor é luz para durar e não relampago para deslumbrar, apagar-se e tecer-te mais espessas trevas, ama a creatura que te ama. O commendador estima-te: se lhe pedires a filha, persuado-me que lhe será agradavel conceder-t'a. Quanto a riquezas, ouço dizer que elle as não tem; mas sobeja-lhe a mediania. Nunca te conheci ambicioso. O que tens sobra-te á felicidade, se a procurares áquem da opulencia. Não sei que mais deva dizer-te sobre o ponto.
Eduardo não redarguiu. Havia o que quer que fosse adstringente e intallador na garganta do homem. Preparára-se para outro desfecho. Contava com lances irritantes que explicassem a sua ausencia da casa do commendador. A situação por tanto era a mesma, era boa,{88} mas elle queria peoral-a. Venceslau não amava D. Anna; mas elle, para acerbar o trago do seu absyntho, queria immolar-se ao amigo, recolher outra vez o coração ao seu tumulo, revestir o crepe d'uma segunda viuvez, e recomeçar o seu ir-se d'olhos no céo pelas regiões sombrias da saudade immortal.
Devia ser isto o que martellava o peito do homem, quando elle entrou no pateo d'um palacete ás Amoreiras.
Morava ahi D. Julia de Miranda. Estavam os cavallos postos á traquitana; e já na escada fremiam os vestidos da fidalga, quando elle entrou.
—Está aqui, snr. Pimenta!—exclamou Julia.—Procura-me ou vae de passagem?
—V. Exc.ª vae sahir; voltarei, quando lhe não for tão incommodo.
—Não, senhor: suba. Eu ia a compras que posso adiar, e talvez fosse jantar com a minha Annica; mas, como não sou esperada, não receio que ella se queixe. Suba. Ha muito que eu ambicionava o prazer da sua visita.
Eduardo deu-lhe o braço, e entrou pela primeira vez nas magestosas e severas salas do desembargador Miranda, que se prezava (isto vae como nota) de ter n'ellas as principaes alfaias dos marquezes de Tavora, condemnados ao supplicio por seu pae— acquisição, a das alfaias, legitimamente feita, por ter sido um brinde do marquez de Pombal ao ministro que, em particular e não por sentença, incumbíra os tres carrascos de mostrarem{89} previamente á marqueza de Tavora, D. Leonor, os supplicios reservados para o esposo, filho e parentes.
Ditas as frivolidades usuaes, Eduardo ageitou o semblante ao proposito, e por esta maneira respondeu á curiosidade de D. Julia:
—Sahi ha pouco de casa de Venceslau Taveira...
—Foi talvez—interrompeu a dama—felicital-o por ter sido eleito deputado? Eu mandei-lhe agora mesmo o meu bilhete de visita. Não sabe quanto folguei com esta prova dada ao talento e á virtude d'aquelle rapaz! Deve-o a si, á sua dedicação, e a nenhuns protectores.
—É verdade, minha senhora, Venceslau é um complexo de excellencias que ha de ir muito longe, se a distincção é carreira em Portugal. Fui lá; mas, snr.ª D. Julia, o meu espirito ia tão preoccupado d'outro assumpto que nem me occorreu dar-lhe os emboras. V. Ex.ª consente-me que eu seja rasgadamente franco nas melindrosas confidencias que lhe vou fazer?
—Oh! pois não!
—Dá-me a honra de eu a considerar minha amiga?
—E sou deveras, snr. Pimenta.
—E portanto faculta-me a liberdade de lhe fallar como se falla a... uma irmã?
—Assim é que me consideram as pessoas de quem sou sincera amiga.
—V. Ex.ª tem n'essa conta a snr.ª D. Anna Vaz.
—E muito no intimo da minha alma. Não lh'o disse ella?
—Raras vezes tenho trocado duas phrases com a{90} snr.ª D. Anna; mas facilmente conheci a intimidade que liga dois anjos. Quando voltei do desterro, era eu em Lisboa um como desamparado dos mais vulgares affectos. Ninguem me saudou, ninguem me deu o festival abraço do bem-vindo; nada me deu a conhecer que pizava chão da patria; o céo era pesado e silencioso para mim como o do exilio; todas as physionomias me eram estranhas: vi-me proscripto entre os homens que fallavam a minha lingua, sem me darem d'ella uma das doces palavras que fazem sentir a patria na alma e no coração. Repulso das caricias da familia para os braços d'uma adorada mulher, nas agonias do trespasse, como que, ao mesmo tempo, me vi viuvo e orphão. Arrastei o meu lucto, oito annos de emigrado, e, ao saltar em terra portugueza, a dôr pungia-me mais, porque não achei ninguem que me désse um peito onde encostasse o rosto coberto de lagrimas. Redobrou-se-me o tedio da vida. Invejei a paz dos mortos. Abominei-me pela cobardia de viver...
—Tendo um amigo como Venceslau Taveira!...—interrompeu D. Julia, retendo a custo as lagrimas justificadas pela toada plangente d'aquella bem discursada elegia.
—Venceslau—tornou o lastimado Pimenta—é um caracter nobilissimo; porém n'elle as operações reflexivas e frias da razão predominam as outras faculdades. Não sei se elle é capaz de grandes paixões; mas experimentei que as paixões alheias não o desvairam das linhas que pautou aos actos do seu bem ordenado{91} juizo. Venceslau consolava-me com as theorias e dictames dos pensadores de gabinete; mas eu, fóra do ambiente sereno do meu amigo, encontrava as tempestades soltas que me baldeavam a alma por quantos golphãos se abrem aos pés de quem uma vez tomou nos braços o cadaver d'uma mulher formosa e amada, e o collocou debaixo da enxada de um coveiro.
N'este lance, Eduardo, quanto dos olhos marejados cumpria inferir, tinha ante si o phantasma de Antonia, não como apparição do anjo consolador, mas sim a reprovar-lhe a invocação da sacratissima memoria para o entrecho d'uma comedia ignobil, com seus entremeios de declamação tragica.
D. Julia, d'esta feita, não pôde estancar duas lagrimas, signaes da enternecida admiração que lhe estava entrando na alma pelos desastres de tão sensivel quanto infeliz moço. E elle continuou, guardadas as pausas da arte scenica:
—Quando Venceslau me convidou a ser apresentado ao commendador Vaz, dizia-me uma voz secreta que este passo de tão simples natureza seria na minha existencia uma phase nova, o marco erguido entre dois abysmos—o que se fechou e outro que se abre.
—Porque?!—atalhou D. Julia.
—O presentimento, minha senhora; a vista dupla dos grandes desgraçados...—a sombra do anjo negro que esvoaça á volta de mim, e ás vezes me rossa no peito com a aza, como ave nocturna que bate na pedra de uma sepultura. Agora diga-me V. Ex.ª se o meu{92} presagio era chimera de visionario. Entrei na sala do commendador, e vi duas senhoras. Na face de uma desabotoavam-se em sorrisos as flores do primeiro abril do coração; na face da outra havia uns toques de dôr, a pallidez reflexa dos luctos do espirito, a formosura esculptural de estatua que se curva a chorar sobre uma urna de cinzas. Esta era V. Ex.ª; a outra, a innocencia radiando alegrias, era a snr.ª D. Anna Vaz. Eu contemplei-as ambas com o olhar profundo de quem já viu muita alegria de repente morta, e não viu ainda resurgir aurora de dia bonançoso para quem uma vez sentiu anoitecer-se-lhe tudo que lhe era claridade. Contemplei-as, e disse comigo: «Aquella que sorrí não me comprehenderia; aquella que já chorou, e tem os vestigios de lagrimas no rosto, saberia comprehendel-a eu.
D. Julia, n'esta passagem, abaixou os olhos, menos pudibundos que sensiveis á fulguração penetrante dos olhares de Eduardo. E logo, inspirado pelo mavioso gesto da dama, continuou:
—V. Exc.ª concedeu-me liberdade de irmão... recorda-se?
—Sim...
—Não me está accusando no silencio da sua alma?
—De quê?
—Nem me accusará?...
—Posso eu prever até onde irão as suas confidencias?
—Estão em principio, minha senhora... não tardo a concluil-as... Mas...—disse elle com suspensivo receio,{93} adocicando o aranzel á feição de galan timido:—No semblante de V. Exc.ª ha uma alteração que me está opprimindo...
—Isso é illusão de V. S.ª; mas não se admire, se me vê mais triste... Eu não posso ouvir friamente referencias ás desventuras que V. S.ª não ignora...
—Disse-m'as Venceslau. Bastou que elle me lembrasse o nosso companheiro de emigração, aquelle gentil espirito a quem V. Exc.ª está honrando com esses prantos, que nenhum homem, nenhum amor, nenhuma paixão fará estancar.
A este tempo, D. Julia embebia no lenço as lagrimas e abafava os soluços.
—Dôr respeitabilissima! coração fechado ao alvorejar de esperanças!—proseguiu Eduardo enfaticamente.—Como ousaria voltar eu a pôr olhos na face da martyr, sem medo de profanal-a! Quantos homens a teriam visto e amado, snr.ª D. Julia! quantos labios se teriam cerrado, afogando as temerarias revelações d'um amor vehemente! Quantos pensariam disputar á memoria de Antonio Vaz morto o coração da sua esposa promettida, do anjo comtemplativo de uma imagem entrevista no céo! Eu não! e todavia...
D. Julia fez um gesto de antôjo, que eu, na minha ignorancia de traduzir todos os gestos de senhoras, não me atrevo a certificar que fosse enfado. Era um mover-se altivo de cabeça e um alçar de olhos com um franzido de fronte—coisas que a gente vê nos palcos e{94} nas salas, sem decidir onde o movimento obedece á rubrica, ou á natureza.
Como quer que fosse, Eduardo quasi que se estupidificou e amarelleceu, principalmente quando a filha do desembargador, abrindo um sorriso acre, disse:
—Cuidei que o snr. Pimenta ia fallar-me da minha amiga Anna Vaz.
—Não se enganou, minha senhora...
—Já sei que me vae dizer que sentiu por ella o digno amor que lhe tem declarado nas suas cartas...
—Sem duvida...
—E eu lhe assevero que ella o ama com toda a candura e sinceridade dos quinze annos.
—Ignorando que me realisou o presagio dos renovados infortunios...
—Que infortunios!.. Vê tudo tão negro, senhor Eduardo!...
—Como hei-de eu dizer a V. Ex.ª que vou fugir da sua amiga, á semelhança de quem foge d'um segundo abysmo?
—Fugir!... que ingratidão!...
—E que injustiça me faz, snr.ª D. Julia! Ingrato, eu! Se uma alma invocada podésse descer do céo a depôr contra essa dolorosa iniquidade!... Eu, que nem pude ser ingrato a uma sombra!...
—Se não é ingrato, que nome darei ao homem que motivou um amor extremo, e diz que vae fugir da pobre menina que nenhum desgosto lhe deu? Quem o obriga a fugir?{95}
—A honra.
—Pois semelhante amor deshonra-o?
—Condemna-me aos olhos de Venceslau Taveira. V. Ex.ª sabe-o.
—Que sei eu? Que Taveira tem umas singulares theorias a respeito do cavalheirismo...
—Sabe mais... Sabe que Taveira amava D. Anna Vaz quando eu lhe fui, em funesta hora, apresentado.
—Não tenho a certeza de que elle a ama...
—Mas attribuiu a ciumes a má vontade com que elle me via bemquisto da amiga de V. Ex.ª
—É verdade, suspeitei ciumes; mas V. S.ª mais de perto e com melhor percepção lhe terá sondado o espirito...
—É insondavel... Disse-me que a não amava; mas tambem me não soube dizer porque eu não devia amal-a.
—E em resultado d'essa conferencia enigmatica, deixa V. S.ª de amar a minha innocente amiga!... Não sei qual dos dois é mais excentrico! Pobres mulheres! Vá lá uma alma dar-se infantilmente a um coração frio que traz o seu amor n'um prato da balança, e uns problematicos pontos de honra na outra!... Acha bonito que seja sacrificada a minha amiga á conciliação cavalheirosa de V. S. as? Ai! felizes aquellas que não amaram nunca!... e as que amaram e perderam um homem de coração, fechem os olhos para o amor como elle os fechou para a vida... Acabei de entender o fim da sua visita—continuou D. Julia com mui senhoril compostura{96} e gravidade.—Vem encarregar-me de avisar Anna Vaz que...
—Não, minha senhora—accudiu Eduardo—o infortunio é conciliavel com a delicadeza. Quando me eu lembrasse de encarregar V. Exc.ª de tal commissão, o meu logar era no pateo com os creados d'esta casa, e não n'esta sala onde V. Exc.ª me está honrando, e soffrendo com mais que extrema indulgencia. Vim, minha senhora, pedir-lhe que me diga até que ponto o que devo a Venceslau e o que devo á filha do snr. commendador Vaz podem congraçar-se sem despundonor para mim. Vim, minha senhora...
E, levantando-se de impeto melodramatico, fitou D. Julia com estranha fixidez, e ajuntou:
—Vim pedir-lhe a sua amisade...
—Tem-n'a, sincera, profunda e inalteravel.
—Não tenho...
—Não tem? outra singularidade! Porquê?!...
—Porque V. Exc.ª, prêsa sagradamente á memoria de Antonio Vaz, não póde ser verdadeiramente amiga do homem que, a não poder merecel-a, quereria ser na sua alma a imagem d'um morto bem amado.
E sahiu apertando-lhe com estremecimento a mão.
D. Julia não respondeu senão palavras balbuciantes, ou porque estivesse digerindo a substancia d'aquellas palavras abstruzas, ou porque ficasse passada do imprevisto desfecho do dialogo.
Sei mal o que foi, e sei menos ainda que scismar era{97} o seu com a face encostada á palma da mão direita, relançando a espaços a vista para um grande espelho, onde se via toda. Estaria ella perguntando á copia do aço se o original estava nos seus momentos de formosura quando o gentil moço lhe dizia coisas d'uma escandecencia original?
A gente sabe lá o que as senhoras dizem aos espelhos!...{98} {99}