Livro de Consolação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 16 de 26

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Livro de Consolação

Capítulo XV

Flor la vimos primero, hermosa y pura,

Luego....

FRANCISCO DE RIOJA.—Epist. moral.

—O homem que V. Ex.ª ha de amar—disse padre Manoel, inculcando-se inspirado de cima, e accentuando de pausas solemnes as syllabas da prophecia—o homem que V. Ex.ª ha de amar é o mais digno de ser amado: chama-se Venceslau Taveira.

Era a segunda vez que D. Julia ouvira e adivinhára tal presagio; uma, quando os labios de Anna se entreabriram ao interno ephta de illuminada; outra, quando o padre, carregando os dedos de rapé, e silvando chromaticamente a pitada, espiritava no cerebro a previdencia dos matrimonios acertados. E como a fidalga o escutasse silenciosa, sem levantar olhos do recosto da cadeira, onde apoiava o cotovêllo, o capellão proseguiu:

—Minha senhora, vou dar-lhe conta da missão de que V. Ex.ª me não encarregou...

—Que missão!?—perguntou ella, erguendo o rosto.{178}

—Circumvagando eu os olhos por quantos cavalheiros, ha tres mezes, frequentam esta casa—respondeu o padre compassando as vozes—e, procurando, entre tantos, um que merecesse ser o esposo da filha do snr. desembargador Paulo Henrique, encontrei-o. E porisso que ás perecedouras riquezas da fortuna cega não quiz Deus ajuntar sempre as riquezas immortaes da virtude, acontece que o homem mais digno de V. Ex.ª, seja o mais pobre que vem a esta casa.

—Bem...—atalhou D. Julia—; mas deixe-me interrompel-o com uma observação que devia anteceder o seu cuidado de me procurar marido. O snr. padre Manoel não devia escolher entre as pessoas que vem a minha casa; mas sim entre as pessoas que me tivessem dado signaes do seu amor. Venceslau Taveira é homem de quem nunca ouvi palavra mais affectuosa do que é costume dizer-se ás pessoas que se respeitam ou simplesmente se estimam. O snr. padre Manoel sabe que elle, n'esta casa, o que mais conhece é a livraria; e em quanto á volta de mim ou do meu patrimonio se dispendem as lisonjas, está o sabio a lêr os amores dos poetas latinos. Estou convencida ha muito da honradez de Venceslau. Estou até em crêr que a sua indifferença não seja orgulho do talento. Convenho na distincção que o snr. padre Manoel lhe dá; mas não são essas qualidades as que promettem um bom marido. A mulher, que se casa, aprecia a sciencia e a virtude do esposo; mas, além de tudo isso, deseja ser amada. Quem lhe disse que Venceslau me ama? foi elle?{179}

—Não, minha senhora.

—Ora ahi está!... Que quer então, padre Manoel? Que eu vá pedir-lhe o obsequio de me conceder o seu amor?

—Eu ainda não disse a V. Ex.ª a minha missão—replicou o padre.—Se dá licença...

—Diga então.

—Ha muitos dias que eu andava sondando o espirito de Venceslau a respeito de V. Ex.ª

—O espirito ou o coração?

—Deixemo-nos d'essas distincções romanescas, minha senhora! O coração é um orgão do apparelho do sangue. O espirito ou alma é o motor das nossas cogitações. Não estou fallando poetica nem rhetoricamente. Se eu quizesse dizer que procurava aneurismas ou outras irregularidades de circulação, diria que sondei o coração de Venceslau; mas, se o meu intuito era indagar actos puramente moraes, digo que lhe sondei o espirito.

—Está bom: fico sciente. Ora conte lá o que sondou.

—Sondei que elle sentia por V. Ex.ª profunda estima, e aquelle grande respeito que se deve a uma dama bella, nova, rica, e sobre tudo honradora da memoria do primeiro e unico homem que amou. Dizendo-lhe eu que não cessava de instar com V. Ex.ª para que tomasse estado, advertiu-me elle que seria difficil o meu desejo, porque a fidalga não poderia amar alguem, depois de ter amado Antonio Vaz, que Deus tem. Tornei eu, redarguindo-lhe que Antonio Vaz, ao sahir d'este{180} mundo, lhe entregára o retrato da sua adorada noiva, por ser elle—o confidente de tantas angustias e saudades—alma digna de receber as lagrimas do amigo que morria, e as de V. Ex.ª que o ficava carpindo. Logo, conclui eu, se ha homem digno de ser amado pela snr.ª D. Julia, minha senhora, é aquelle que Antonio Vaz julgou digno das suas confidencias e da mensagem do moribundo para a sua amada.

—Que disse elle?...—interrompeu a curiosa vivacidade da senhora.

—Disse que V. Ex.ª o honrava com a sua amisade, e que este sentimento era o maximo galardão que elle devia esperar da fraternal cordialidade com que aliviára algumas mágoas de Antonio Vaz.

—Isso é amor?

—Queira V. Ex.ª esperar... Passados alguns dias, chamei a pratica ao mesmo assumpto; e, quando elle menos esperava, perguntei-lhe ex-abrupto: «Se a snr.ª D. Julia escolhesse para esposo o snr. Venceslau Taveira?» Elle poz-me os olhos espantados, e tartamudeou esta resposta: «O snr. padre Manoel Ferreira tem illusões proprias de quem as não gastou em desenganos.»—Que quer isso dizer?—voltei eu bastante esperançado n'uma resposta que me servisse de itenerario n'esta peregrinação até ao arco do altar.—«Quer dizer (respondeu o modestissimo moço) que a snr.ª D. Julia de Miranda tem quinhentos mil cruzados; tem provavelmente adoradores que façam consistir toda a sua actividade em adoral-a; tem a alma preza á saudade de{181} outra que alguma vez a visita e enlucta em meio das pompas dos seus bailes. Um homem pobre—continuou elle—circumscripto aos deveres que contrahiu com a patria, sujeito a perseguições d'odios politicos, ameaçado com o desterro, e até com a morte no campo da batalha ou no patibulo, tal homem seria o involuntario algoz da felicidade d'uma senhora que o acceitasse para os gosos da vida intima, cercada por tantos perigos.» Dito isto, Venceslau foi procurado por ordem de V. Ex.ª, que o mandava chamar á sala, para o apresentar a seu tio o snr. conde de Villa-Cova. Eu segui-o, e espionei-lhe os olhos n'aquella noite. E que vi eu com interior satisfação, minha senhora? que elle andava por entre os reposteiros a contemplar V. Ex.ª, e que, ás vezes, se se affastava para a sala dos retratos, era para estar só, mergulhado em funda meditação. Eis-aqui, exc. ma snr.ª, o que ha passado. Digne-se agora dizer-me se eu tenho precisão de lh'o ouvir confessar, para saber que elle a ama?!

—Precisa—respondeu ella prompta e serenamente.

—Preciso? Perguntar-lh'o-hei.

—Não pergunte. O padre Manoel tracta isto de casamentos pelo systema antigo da Biblia. O patriarcha mandava recado á matriarcha; e, quadrando a resposta, casavam.

—O povo de Deus era assim.

—Concordo; mas a gente, de hoje em dia, não...

—Não é de Deus?—atalhou o padre.

—Estou que é; mas Deus é que não manda o seu{182} divino espirito presidir aos casamentos da freguezia dos Martyres ou de Santa Justa.

—Ah! não se me faça espirito-forte, fidalga!—exclamou sombriamente o padre.—Aquelles livros de seu pae... aquelles livros de Rousseau... a Encyclopedia... etc., etc!... Olhe que Venceslau, posto que sapientissimo e sectario da liberdade, e lido em tudo que o seculo XVIII escreveu contra Deus, entra nos templos, ajoelha, ora, e crê que a alma de sua mãe lhe radía de sua luz celestial nas escuras veredas da vida!...

—E eu então sou atheista? Não creio em Deus, porque entendo que não é bonito ir o meu capellão perguntar a um sugeito se elle me ama? Ah padre, padre! a sua intelligencia tem ás vezes uns eclipses que nem por isso o tornam comparavel ao sol...—disse ella rindo com o consenso do clerigo que tambem escancarou as mandibulas em sincera gargalhada.

E, no tocante a casamento nada mais tractaram, porque D. Anna Pimenta vinha desde a sala de espera chamando Julia acceleradamente.

—Que é, filha!!—exclamou a amiga, indo recebêl-a nos braços.

—Manda embora o capellão—disse-lhe ella ao ouvido.

O padre retirou-se antes de avisado, porque viu grande afflicção no rosto de D. Anna.

A esposa de Eduardo, trémula, offegante, e incendida de febril anciedade, disse entre soluços:

—Olha que venho afflictissima... Deixa-me respirar...{183} Depois que Eduardo sahiu, fui á escrivaninha d'elle, e achei, pela primeira vez, uma gaveta fechada. Como ando muito suspeitosa de que elle corteja a tua prima Nazareth, desconfiei que n'aquella gaveta devia estar alguma carta d'ella...

D. Julia empallideceu. Arfava-lhe o coração, com o terror de ter sido encontrada a carta que ella devolvera, com duas linhas de sua lettra; e, posto que a justificação lhe sahisse facil e digna, a sua posição em tal conflicto era má.

D. Anna desattenta ao gesto denunciativo da amiga, proseguiu:

—Procurei uma chave que servisse, e achei-a. Abri a tremer a gaveta, e vi estas tres folhas de papel, dobradas em carta, mas sem sobrescripto. Li-as, e fiquei certa de que Eduardo está ardentemente apaixonado por uma mulher quem quer que seja... Lê tu, vê se podes adivinhar a quem essa carta é escripta; mas lê depressa, que eu quero ir repôl-a na gaveta antes que Eduardo venha da repartição.

Julia, com tremente voz, leu a carta. Logo no primeiro periodo se lhe acclarou o destino, por estas palavras: Se V. Ex.ª cumprir a ameaça que me escreve—se me denunciar, fará duas victimas. Mata uma innocente, e ordena ao criminoso que se suicide: será obedecida.

—Que quererá isso dizer?!—perguntou Anna.—Quem será essa innocente e esse criminoso?... E que ameaça lhe faria a tal mulher?... Podes decifrar isso?

—Eu não, filha... Que mysterio!...—balbuciou{184} Julia. E continuou lendo, e relançando a furto os olhos em toda a extensão da lauda, buscando perturbada alguma inicial que a denunciasse.

O conteudo da longa carta era vago, declamatorio, tiradas funebres de prosa campanuda com muito lardo poetico de céos, infernos, furias, anjos precitos, archanjos da morte, calices de fel, esponjas de vinagre, golgothas, estrangulação de suicida, almas devastadas, arestas d'abysmos, e o mais que cabe nas cavernas lôbregas d'um peito romantico, onde uma vez entraram as novellas de Anna Radcliffe.

Lida a carta, Julia suspirou desafogadamente o seu sobresalto, e disse enternecida:

—E tu que fazes agora, filha?

—Que hei de eu fazer?! nada...

—Então vaes fechar a carta onde a encontraste?

—Vou...

—E não dizes nada a teu marido?

—Acho que não... porque, se lh'o digo, ha desordem grande em casa, e meu pobre pae morre de paixão. Tu não vês como elle já está soffrendo só de me vêr triste, e de o vêr a elle tão descuidado de nós?...

—Nem a teu pae dizes nada?...

—Deus me livre!... Se elle via esta carta, estalava de dôr...

—Tu és uma sancta!—exclamou D. Julia, abraçando-a arrebatadamente.

—O que eu sou é uma grande desgraçada!—emendou Anna.— Que me dizes então, Lulu?{185}

—Que queres que te diga, se o teu plano está feito? Quem a si mesma se aconselha com tanta dignidade, não tem necessidade de conselho.

—O que eu queria era que tu descobrisses quem é a mulher; e, se ella fosse tua relação, a expulsasses d'esta casa, ou me não convidasses a mim...

—Dizes-me isso tão desabridamente, filha! Não te convidar a ti!...

—Digo-t'o com amargura, mas sem desabrimento, minha amiga. Que gosto posso eu ter em vir a uma casa onde sei que ha uma mulher que me escarnece...

—Bem vês, menina, que a mulher a quem esta carta foi escripta não póde escarnecer-te... Não vês que ella despreza teu marido!

—Sim? despreza?

—Pois que diz essa carta? É um desesperado queixume contra a mulher que o repelliu. Tomáras tu, meu amor, que todas assim procedessem, quando elle as requestar...

—Tens razão, Julia! tens razão! Olha que eu nem tive socego de espirito para entender a carta... Olha, vou mais contente... Póde ser que elle a esqueça... Mas esta carta assim apaixonada, se ella vem a recebel-a, talvez que...

—O ame?

—Sim...

—Não, filha, não receies. A mulher de coração ama sem este mixtiforio de maravalhas, e a mulher de intelligencia zomba d'estes estrondos de palavras. Sabes tu{186} outra coisa? Teu marido leu maus romances, e principia a escrevel-os peores. Deixa-o sangrar a veia do genio que não vá morrer apopletico. Não faças caso d'isso... Ai! já me esquecia!... Não te vás sem uma novidade...

—Que é?

—Vou casar-me.

—Sim? com...

—Com o teu vaticinado. Adivinhaste.

—Venceslau?

—Sim.

—Não t'o disse eu?!... Mas ainda hontem estiveste comigo á noite, e nada me disseste!