Livro de Consolação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 23 de 26

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Livro de Consolação

Capítulo XXII

Venceslau atravessou a salêta, e parou no limiar da alcôva.

Os meninos tinham acordado ao troar do tiro. Estavam sentados na cama, espavoridos, com os loiros cabellos riçados em anneis, e os olhos spasmodicos, brilhantes, fitos na mãe que os abraçava, e escondia o rosto entre elles.

—Não se aterre, senhora!—disse serenamente Venceslau.— Olhe que não morre... Essas creanças não tem pae... é preciso que tenham mãe... Se fossem meninas,{269} se d'essas creanças podessem fazer-se mulheres, seria misericordioso estrangular as futuras herdeiras da sua infamia... Viva... peça a esses dous innocentes que a defendem da morte do remorso... E, se elles algum dia lhe perguntarem pelo pae, diga-lhes que as mulheres perdidas não sabem quem é o pae de seus filhos...

O homicida atravessou a salêta, relançando um olhar inexprimivel ao cadaver.

Quando sahia, viu o padre, que difficilmente se tinha em pé, com as mãos postas para elle.

—Snr. padre Manoel—disse o marido de Julia—tenha a bondade de procurar ámanhã no Limoeiro o assassino Venceslau Taveira.{270} {271}

 

XXII

Seule, elle reste assise, et son front sans couleur

Du remords qui s'approche a dejà la pâleur.

A. DE VIGNY.—Poesies.

Venceslau esperou o diluculo do dia seguinte, nas lages do Caes das Columnas onde a ventania do mar, encrespando o Tejo n'aquella noite de novembro, borrifava aguaceiros glaciaes.

Mas elle, enroupado na sua febre, sentia refrigerar-se-lhe a fronte, se os pegões de vento lh'a roçavam, irriçando-lhe os cabellos.

Ás vezes, n'aquella treva exterior, relampagueava um sulco de luz. E elle, ao clarão sulphuroso do corisco, via um cadaver boiando á flor da onda, e então era um rir asperrimo do louco—a epilepsia dos beiços onde espumava o rancor; e, logo depois, chorava, se, ao lampejo alvacento d'outra fulguração, via um berço com{272} duas creanças queridas, acorrentado no esquife de uma mulher, que a voragem ora sorvia, ora regolphava aos clarões da procella.

Não meditava, não comparava, não carpia os bens da honra perdidos, nem se confrangia das punhaladas do coração. Era a agonia estupida.

Os syndicos da alma, quando se demoram a descrevel-a n'aquella impenetravel escuridão, illudem-nos. Nós não sabemos graduar o frio e o fogo d'esses infernos. Os que passaram por ahi, não sabem dizer o que viram. A fantasia dos que lá não foram, por mais calcinadas que lhe flammegem as imagens, apenas vingará dar-nos em sombra as vascas do corpo que se esfacella; as da alma, não.

Á primeira luz da manhã, Venceslau parecia ir caminho da casa onde deixára um cadaver. Não ía. Parou na travessa do Secretario da guerra, onde morava o corregedor do crime José Antonio da Silva Pedroza, seu companheiro de emigração.

Fez-se annunciar a tempo que o magistrado ainda dormia. Não o attenderam os creados que o não conheciam. Sentou-se no escabello do pateo, esperando. Mais tarde entrou um official de justiça que conheceu o grande orador, o rico fidalgo das Amoreiras. Cortejou-o reverentemente, e foi acordar o corregedor, dizendo-lhe que o conselheiro, official-maior da secretaria dos negocios estrangeiros, o esperava no pateo desde o romper da manhã.

O magistrado, erguendo-se em inquieta expectação,{273} foi recebel-o á sala, e fez pé atraz ao vêr-lhe o transtorno das feições.

—V. S.ª a estas horas aqui?... grande caso!... Ha revolta?...

—Snr. Pedroza—disse Venceslau.—Vi um homem na ante-camara de minha mulher. Matei-o. Não sei se era o crime que o levou alli, se a intenção do crime. Matei-o. Eu era amigo d'este homem, amigo de dezeseis annos, valedor nas suas miserias, consolador nas suas lagrimas. Matei-o, porque o tinha amado como os infelizes bons amam os infelizes bons e máos.

—Snr. conselheiro—disse o corregedor.—Nós fômos companheiros no desterro. V. S.ª tinha dois amigos: um era Antonio Vaz que lhe morreu nos braços; o outro era...

—Matei esse...—atalhou o homicida.

—Bem morto...—murmurou o juiz.

—A justiça me julgará.

—Está julgado; mas fuja... cá o livraremos.

—Não fujo. Dê-me V. S.ª um mandado de prisão para me eu apresentar ao carcereiro. Desde o momento que me accusei ao executor da lei, estou preso.

O corregedor abraçou-o, dando livre curso ás lagrimas.

Como não tivesse áquella hora escrivão que lavrasse o mandado, escreveu ao carcereiro, enviando-lhe o preso que deveria ser hospedado em sua casa.

N'aquelle tempo os ministros criminaes podiam ter{274} d'estes rasgos, sem receio que a imprensa lhes lembrasse a egualdade dos criminosos perante a lei.

Em quanto o preso seguia só para o Limoeiro, o corregedor mandava lavrar auto, e entregar o cadaver á viuva, ou ao coveiro da mais proxima egreja.

Quando Venceslau chegou ao pateo da cadeia, já lá estava o padre Manoel Ferreira.

O réo apertou-lhe a mão silenciosamente, e enviou ao carcereiro a carta.

Acudiu logo o funccionario a conduzil-o aos seus aposentos.

—Onde é o meu quarto?—perguntou o preso.

—É toda a minha casa, snr. conselheiro.

—Não lh'a acceito, mas muito grato lhe fico. Se me quer favorecer, dê-me um quarto, onde eu esteja sósinho.

—Ninguem virá incommodar V. S.ª sem sua ordem.

O carcereiro sahiu da confortavel salêta onde ficaram o preso e o capellão.

Assim que ficaram a sós, o padre apertou-o contra o peito que lhe rebentava em lagrimas.

Venceslau não pôde reter as suas; porém, se o padre queria abrir ensejo de conversarem sobre os successos d'aquella noite, era estorvado por um gesto afflicto.

Não obstante, o capellão pôde dizer que D. Julia tinha sahido ás duas horas da manhã com os filhos para a sua quinta da Ericeira, e que não deixára ordem nenhuma a respeito da casa.{275}

—De mim não tem ordens a receber, snr. padre Manoel—acudiu Venceslau.

—Pois de quem?

—Essa pergunta diz mal com a sua provada honra. Na casa, onde V. S.ª é capellão, deixei uns poucos de livros, que receberei, porque são os utensilios do meu pão de cada dia. Recebel-os-hei porque sou pobre; e porque a Providencia me ha de defender com elles a razão, e corroborar a honra.

—Mas os seus filhos...—balbuciou o padre.

—Silencio!—interrompeu Venceslau.—Por piedade, calle-se... e deixe-me! Que novo inferno me vem trazer aqui!... Meus filhos!... Filhos d'ella, sim, padre! filhos da mulher a quem eu deixei um cadaver, sobre o qual, ella... e elles... podem rezar suffragios por alma de... seu pae!

—Oh! por Deus!... Essa suspeita é horrenda... e injusta!...

—Basta!—bradou Venceslau.—Vá, snr. padre Manoel, que me está despedaçando...

E levou-o até á porta impellindo-o com quanta brandura cabia na delicadeza, incompativel com o arrebatamento.

O padre foi encontrar a justiça no palacio das Amoreiras. Os aguazís e visinhos devassavam a alcova de Julia, os leitos, os vestidos em desalinho nos cabides, a guarda-roupa estofada de setins e velludos, as roupas brancas das creancinhas, os sapatos da fidalga com as{276} fitas de rojo, e alli á beira de tudo isto, que respirava a felicidade conjugal, as delicias da intimidade, estava um cadaver rôxo, nú para o exame, com uma chaga escalavrada entre a quarta e quinta costella, e uns meandros de sangue denegrido a serpejarem-lhe peito abaixo até á cintura.

D'ahi a pouco parou a sege funeraria que devia conduzir a tumba a casa da viuva. Era acompanhada por seis homens de crepes, a pé, com os cirios apagados pelas rajadas do vento.

Padre Manoel perguntou ao escudeiro do commendador qual era a situação de D. Anna Vaz.

—Está fechada com os filhos e com o snr. commendador— respondeu o escudeiro.—Ouvi chorar os meninos, mas ella não na ouvi. A aia disse-me que a senhora morre.

 

{277}

 

Todos os homens assignalados por talento e encargos publicos procuraram o preso. No primeiro dia, Venceslau, sem força para reagir, recebeu-os. A visita era silenciosa, funeral, como a dos que vão desanojar um viuvo extremoso. O encarcerado apenas chorou nos braços de um homem que lhe disse: «Dou-te os parabens, porque a não mataste. A tua condemnação maior, e talvez unica, ser-te-hia haver morto a mulher, que amaste tanto.» Então, sim, chorou. O homem que disse aquellas palavras, tão penetrativas aos abysmos do coração, chorava, quando m'as repetia, quarenta e um annos depois. Era o tenente de cavallaria, que em 1868, se chamava o general Pedro da Silva, a quem devo o titulo d'este livro.

E, se bem me recordo, o general proseguiu n'este theor, referindo-se á epoca do encarceramento:{278}

«O padre Manoel Ferreira e eu eramos as unicas pessoas recebidas no quarto de Venceslau, o n.º 6 do ultimo andar, onde, n'aquelle tempo se lia ainda aberto no alisar de uma porta o nome de Bocage que alli estivera preso por atheu. O padre Manoel Ferreira, não ousava proferir o nome de Julia; mas particularmente me contou a mim que ella na madrugada do dia seguinte á grande desgraça, soffrêra uma febre cerebral, indo na sege, caminho da Ericeira. E ajuntou, nas diversas vezes que a tal respeito conversamos, que a doença de peito com successivas hemorragias, ia tão adiantada que, na opinião do medico, os tecidos pulmonares estavam dilacerados. Pedia-me então o padre que fosse eu preparando Venceslau para dispôr dos filhos, logo que ella expirasse.

«Ora eu evitava quanto podia fallar em creanças, porque o meu amigo reconcentrava-se; e, se as lagrimas o não desabafavam, a dôr prostrava-o por tal maneira que fazia recear a loucura. Os filhos do carcereiro visitavam-no. Elle acariciava-os com uns carinhos tão doces e ao mesmo tempo tão angustiados, que eu tive de pedir ao pae dos pequeninos que os prohibisse de ir ao quarto do preso.

«Venceslau era indifferente ao processo; mas a justiça, independente de solicitações, andou tão pressurosa nos seus deveres, que em meado de janeiro—mez e meio depois do delicto— o réo foi julgado e absolvido.

Á sua entrada no tribunal fez-se um rumor de compadecido assombro. Venceslau, que então contava trinta{279} e sete annos, tinha encanecido. Os sulcos da velhice, abertos pelas lagrimas, arrugavam-lhe o rosto, cujas feições pareciam estar como atrophiadas, paradas, immoveis d'aquelle sombrio marasmo da demencia estupida e morta.

«Ao sahir do carcere, entrou na carruagem do marquez de Palmella, que então era nosso ministro em Londres, e de lá providenciára em favor do seu intelligente secretario e collaborador no ministerio dos negocios estrangeiros. Por conselho dos medicos, levamol-o para a quinta do marquez, no Lumiar, onde eu passei com elle as horas vagas do serviço militar, até fevereiro do seguinte anno de 1828, em que chegou D. Miguel.

«Estavamos em uma sala triste por tarde tenebrosa de janeiro, quando chegou padre Manoel Ferreira, e me chamou de parte, para me dizer entre soluços que a infeliz D. Julia tinha morrido, pouco depois que em confissão lhe jurára pelo futuro da sua alma, e na presença da sagrada Eucharistia, que Venceslau era o pae dos seus filhinhos.

«—E onde estão os meninos?—perguntei eu ao padre.

«—Deixei-os entregues ás suas amas, e venho saber que destino devo dar-lhes.

«—O snr. padre Manoel—disse eu—tem n'este lance a uncção religiosa que requer semelhante revelação. Revista-se de animo, e diga-lh'o, porque é inevitavel avisal-o, e não póde espaçar-se a noticia.

«O padre entrou á sala onde Venceslau, ao pé do{280} fogão, parecia amolentado n'um lethargico dormir em que passava os dias e as noites, como se o cerebro, a pouco e pouco, se estivesse repassando da narcotisação da morte.

«O padre apertou-lhe a mão, espertou-o, e quedou-se longo espaço a contemplal-o, até que Venceslau lhe disse:

«—Porque chora, padre Manoel?

«—Choro por seus filhos...

«—Não venha ensopar mais fel na esponja...—murmurou Taveira.

«—Venho pedir-lhe que consinta que seus filhos o vejam. As creançinhas já não tem mãe. A snr.ª D. Julia é morta.