Livro de Consolação
Capítulo XXI
C'est un mort..............................
Que cette horrible fin puisse épurer son âme.
PONROY.—Formes et couleurs.
Quando Venceslau entrou ao pateo do palacete do commendador, andava elle passeando no casarão rente da rua, recinto abandonado onde se viam as reliquias de equipagens, significativas de antiga e extincta opulencia.
—Nunca o encontrei aqui, meu commendador!—disse o deputado.—Está no seu museu archeologico... Estas carruagens devem ser as locomotivas que transponham a ideia velha para fóra das fronteiras, quando a mandarmos civilisar-se a Argel... Mas não lhe vejo rosto para gracejos... Que temos? onde estão os ciumosos?
—Lá em cima, e eu fugi para os não ouvir... Escute... Não ouve chorar minha filha?... Escute... olhe...
—Ouço.{260}
—Vá lá, meu amigo. Estão na salêta proxima do quarto. A sua presença ha de conter Eduardo, e evitar que a pobre menina seja enxovalhada por algum insulto de lacaio. Olhe que brados elle está dando em quanto ella chora... Que verdugo!...
Venceslau subiu á primeira sala, passou á segunda e entrou n'um longo corredor que abria na ante-camara de Eduardo. Quando chegou a meio do corredor, pareceu-lhe ouvir o nome de Julia entre os soluços de D. Anna Vaz; e, ao mesmo tempo, um estropear de passos rapidos, que lhe levavam para mais longe as vozes já indistinctas.
Hesitou se devia atravessar a ante-camara, e seguil-os no interior da casa ou retroceder; mas os gritos supplicantes da amiga de sua esposa attrahiam-no, commiserando-o.
Bosquejemos a parte da casa onde está passando o conflicto.
A saleta, em que principiou a vigorosa altercação, exacerbada muitas vezes n'aquelle dia, tem tres portas: uma que abre para o corredor onde está Venceslau; outra que diz para a alcova onde demoram os leitos dos tres meninos; e a terceira que leva á camara dos esposos. N'esta camara ha outra porta que communica para outros repartimentos, por entre os quaes ha escada para um patim, que dá sahida para o quintal ajardinado. Esta era a serventia regular de Eduardo, quando recolhia tarde, entrando pela porta do quintal que entestava com a rua dos Cavalleiros.{261}
Ao avisinhar da salêta colligiu Venceslau que Eduardo, seguido da esposa, que talvez o ia retendo em grandes clamores, sahiu do quarto, e evadiu-se pelo interior da casa, descendo ao quintal para esquivar-se ás importunas lastimas.
N'esta acertada conjectura, deliberou Venceslau seguil-os, bem que ainda, ao entrar na salêta, o contivesse o decoro de atravessar uma alcova de esposos.
Durante os breves segundos da perplexidade, reparou em papeis dispersos no pavimento. Suppoz que eram cartas occasionaes da desordem, talvez colhidas ardilosamente nas algibeiras do imprevidente marido.
Venceslau envergonhar-se-hia da sua sombra, se se curvasse a devassar alguma d'aquellas cartas; mas, sobre uma banqueta que occupava o centro da ante-camara, estava meio amarrotado um papel escripto, cujos caracteres deram logo e mais de perto na vista de Venceslau.
Era lettra de D. Julia.
Hesitou ainda em lançar mão do papel; mas a particularidade dos signaes impressos na carta por mão que a enrugasse, estimulou-o a vêr que phrases deram causa ao phrenesi de Eduardo. Tanto quanto a rapidez de tal juizo consentia, Venceslau imaginou que o pessimo marido se exasperára, talvez, por ter lido cartas de compaixão de Julia para a sua mortificada amiga.
Pegou do papel, distendeu-o, leu a primeira palavra no alto da lauda, alisou um vinco onde uma lettra parecia desfeita, releu e... vibrou-se todo no estremecer{262} dolorosissimo de homem que um subito ferro encravou pelo peito. A palavra era querido. A lettra final d'ella não era um a.
Leu a carta rapido, offegante, respirando a trancos, sopesando o arfar do peito. Dizia assim:
«Calcula a minha inquietação, meu E.! Não pude dissuadir a creada... Sahiu, regeitando todas as minhas dadivas. Foi uma desgraça que ella te visse... Devo isto ás tuas imprudencias. O que mais me assusta é o padre, que está espantado com tal sahida. Elle tem sido o confessor d'ella. Se a interrogar no confessionario, arranca-lhe o segredo. E depois?... que hei de eu fazer?!... Espero que o padre me não denuncie... mas com que olhos me ficarão espionando os passos!... Não voltes aqui em quanto eu não te avisar. Vae todas as tardes ao logar que sabes. Lá irá ter a minha carta; mas, repito, não voltes aqui sem que eu t'o diga. Prudencia, ouviste? Olha que a situação é muito seria... Tenho-te dito muitas vezes que o V. é capaz de tudo... Adeus. Cuidado com as minhas cartas...»
Venceslau, terrivelmente sereno, depoz o papel sobre a mesa, retrocedeu ao longo do corredor, e, no fim, parou, escutando passos em uma das salas. A este tempo já elle ouvia o chorar de D. Anna que tambem retrocedêra para o seu quarto. O andar, que escutava, era do pae de D. Anna que subira para as salas e estava esperando o effeito da intervenção do amigo.
Venceslau, estugando o passo surdamente, passou{263} sem rumor na alcatifa da sala de espera, desceu a escada, e sahiu á rua.
O commendador, entretanto, como não ouvisse vozes, mas sómente o arquejar da filha, murmurando: «ah! pobres creancinhas!» seguiu o corredor, e foi dar com ella apanhando do chão as cartas espalhadas.
—Que papeis são esses?—perguntou o commendador.
—Nada, meu pae... cartas...
—O Venceslau sahiu com Eduardo?
—O Venceslau!—disse ella com espanto.—Onde está elle?!
—Veiu para aqui... ha de haver cinco minutos... não o viste?
—Não, meu pae! Elle esteve aqui? aqui? n'esta salêta?— exclamou Anna.
—Esteve, sim, filha.
—E viu estas cartas?—bradou com as mãos afincadas nas fontes.
—Se viu estas cartas?... Eu sei lá, filha... O Venceslau era incapaz de ler papeis que estivessem no teu quarto... Mas, se essas cartas são o que eu entendo, que importaria que as visse?
—Jesus! Virgem Santa!—volveu D. Anna, enclavinhando os dedos, e estirando os braços supplicantes para uma imagem da Mãe de Christo.
—Mas onde está elle?—tornou o velho.—Se não sahiu pelo quintal, por onde é que foi? Eu estava na sala do meio, e não o vi passar na sala de espera...{264}
—Não? não viu?...—perguntou ella precipitando as vozes acompanhadas de gestos de pavor.
—Não, menina...
—Então é que viu as cartas... sabe tudo... sabe tudo...
—O que?—acudiu o commendador assombrado.
—Ai! quem fosse procurar Eduardo...—exclamou ella, agitando-se d'um para outro angulo da salêta—ó meu pae, salve-o, salve-o; mande procurar meu marido, que Venceslau mata-o... Estas cartas são de Julia...
—De Julia?!—bradou o velho, encostando-se tremente ao alizar da porta—De Julia? Julia é amante de teu marido?... Venceslau foi deshonrado pela mulher?... Oh! não me digas isso, filha!... Tu estás cega pela paixão do ciume... Deixa-me vêr essas cartas...
—Não queira vel-as... não queira... Mas, meu pae, olhe que o Venceslau mata Eduardo... Acuda aos seus netos...
O commendador fitou na filha os olhos chammejantes de odio, que raiára de sangue o alvor do spasmo, e murmurou:
—Se o matar... matou o mais infame dos homens... porque matou o assassino da felicidade, da honra e do futuro do seu bemfeitor...
—Mas...—insistiu Anna com as mãos postas—mas eu amo-o... eu quero que elle viva... fugirei com elle e com os meus filhos para onde o pae quizer que vamos... Deixe-me ir a mim procural-o...{265}
—Não sahirás d'esta casa... Não sei se é sangue, se lodo que te gira nas veias... Não sahirás d'esta casa, Anna!... e se teu marido aqui voltar, quem o mata... sou eu!
Simultaneamente com a prolongada lucta entre o velho inflexivel e a dilacerada alma d'aquella santa, recebia D. Julia este bilhete do marido:
«Juliazinha, era uma tormenta de ciumes que deixei abonançada. Não te dê cuidado. Depois d'estas borrascas, reponta no céo dos amantes a serena claridade. O ministro mandava um correio procurar-me, quando eu chegava a S. Roque, já de volta para casa. Tive de retroceder, e sei que tenho tarefa até á meia noite. Não esperes por mim. Janta. Se eu podér desembaraçar-me, irei; mas não poderei, porque ha reunião de deputados no ministerio dos negocios estrangeiros. Adeus, querida. Teu V.»
D'esta carta, assim placida e amoravel, transluziu-se no animo alvoroçado de Julia receio e desconfiança.
Deu-se pressa em escrever com febril agitação. Chamou um lacaio, confidente unico, e deu-lhe uma carta.
Eram cinco horas da tarde.
O lacaio foi encontrar-se com Eduardo Pimenta debaixo dos arcos das Aguas-livres.
Deu-lhe a carta, em que Julia concisamente lhe pedia que não a procurasse, mas lhe escrevesse a referir-lhe os acontecimentos domesticos d'aquelle dia. Á intimação positiva de lá não ir, nenhuma explicação ajuntava.{266} «Elle—concluia a carta—escreveu-me agora, dizendo-me que só vem á meia noite; mas eu estou muitissimo assustada. Não venhas.»
Eduardo pesou as apprehensões de Julia, e não lhes achou gravidade. O creado esperava alguma resposta vocal.
—Não digas nada á senhora—ordenou-lhe o generoso confidente—mas ás dez horas abre-me a porta da cocheira; e, depois que eu lá estiver, então irás dizer á senhora que eu entrei.
Dito isto, foi ao Hotel de França, na praça dos Romulares, saboreou os acepipes do condimentoso jantar, digeriu-os em alegre palestra com os convivas, conversou das logrativas lorettes de França, das alabastrinas mulheres de Londres, das morenas de Sevilha, das pallidas de Lisboa, e fez-se ouvir e invejar dos admiradores de seu espirito e das famosas aventuras.
Ás nove horas e meia, carregou pela quarta vez o seu cachimbo de procelana e ouro, apertou a mão dos discipulos e sahiu.
Ás dez entrou na estrebaria do palacio das Amoreiras, e enviou o recado á fidalga, quando ella estava no seu quarto contemplando os filhos adormecidos.
Por volta das onze, padre Manoel Ferreira, cujos aposentos nivelavam com o jardim, ouviu que lhe batiam mansamente na vidraça de uma janella. Collou o ouvido ás portadas interiores, e perguntou assustado quem era.{267}
—Abra a janella, padre Manoel—disse Venceslau a meia voz.
O capellão reconheceu-o, e disse que ía abrir a porta.
—A porta não... a janella...—insistiu o outro.
Cumprida a ordem, Venceslau Taveira transpoz o peitoril.
—Que é isto?! Snr. Venceslau, porque entra d'esta maneira em sua casa?!—perguntou o padre a tremer de susto.
—Abra o mais subtilmente que poder.
E apontava-lhe para a porta de communicação com o pateo onde estava a escada de serventia para o andar nobre.
—Agora—disse Venceslau, sahindo—não me siga.
—Ó snr. Taveira!... onde vae?...—balbuciou o padre.
—Sabe onde vou?!—inquiriu severamente o marido de Julia.
—Não, senhor.
—Então porque se assusta?
—Estranho isto...
—Bem. Fique!—respondeu sêccamente.
Minutos depois, D. Julia, pondo a mão nos labios de Eduardo, segredava-lhe:
—Espera... não ouviste nada?...
—Não...
—Pareceu-me ouvir uns passos abafados na sala...
Eduardo fitou o ouvido, e apesar de pallido e enfiado, murmurou: {268}
—Não é nada...
N'este lance, abriu-se a porta da salêta, como se a impellisse um repellão de vento.
Entre as hombreiras da porta estava Venceslau com uma pistola empunhada.
Julia, já de pé, soltou um grito estridulo, e fugiu para o quarto onde estivera contemplando os filhos.
Eduardo, ao levantar-se, fêl-o como de um salto de cadaver sacudido pela electricidade: tão de morto era a amarellidão do seu terror! Ergueu os braços inteiriçados. É impossivel conjecturar se o impulso d'aquelle movimento de indefinivel agonia era aggredir ou supplicar. A pederneira da pistola estalejou na cassoleta. Um dos braços de Eduardo retrahiu-se, e a mão, batendo rija no lado esquerdo do peito, parecia querer reprezar a vida no ponto onde entrára uma bala. Rodou meio giro sobre si, amparando a fronte na outra mão; e, resvalando pela espalda da cadeira onde estivera sentado, cahiu vasquejante.