Livro de Consolação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 12 de 26

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Livro de Consolação

Capítulo XI

 

Qualquer honesta se abala,

Como sabe que é querida.

CAMÕES.—Filodemo.

Observou Venceslau Taveira que o seu amigo, ouvindo lêr a complacente carta do commendador, manifestou mais que moderadamente o seu contentamento. Estranhando-lhe a quasi indifferença, perguntou-lhe se a noticia lhe era desagradavel, e se a conformidade do pae ao amor da filha despoetisava a noiva.

Respondeu Eduardo, alteando a fronte, que a injuria da despedida era muito recente, e a honra da readmissão pouco desejada.

Taveira obtemperou com a sobranceria do seu amigo. Pareceu-lhe bem aquelle pundonor: achou até natural que os brios e o coração se digladiassem dentro do nobre peito do rapaz. Isto, porém, não impediu que elle desculpasse o velho e resalvasse a menina da responsabilidade, a fim de amolentar as asperezas timbrosas de Eduardo, o qual se considerava offendido em sua justa{138} hombridade de plebeu pela propria mulher que talvez imaginasse descer os degraus de sua gerarchia para lhe dar a mão. É o que elle dizia, encaracolando o bigode e avincando a testa.

Insistiu Taveira declinando da amorosa menina as queixas do plebeu irritado. Teve que fazer. A ralé, se traja ao bizarro, e se tem nos miolos o fervilhar das aspirações, destampa em orgulhos desmesurados: faz saudades do barão feudal. Dava-se em Eduardo, ao que parecia, o sangrar da ferida antiga. O viuvo da filha dos Portugaes tinha nas cavernas da alma latibulos de rancor ás raças, aos pergaminhos, e nomeadamente aos paes que lhe não offereciam as filhas e os vinculos. De mais a mais, além d'estes pontos-de-honra, outras procellas lhe emborrascavam o animo quando elle, de subito, fez esta pergunta:

—Que dote tem ella?

—Eu sei lá!...—respondeu o outro enleado.

—Eu devia ter indagado...

—Sim, tu, e não eu, a dever ser algum. Se casas com o dote, começas pelo fim. Devias estudar o archivo do commendador, antes de pôr a sonda ao coração da filha, acho eu.

—Fallemos serios—volveu o galan dos olhos tristes e das palpebras morbidas.—Parece-te inutil isto de saber-se com quanto um homem póde contar, quando se constitue chefe de familia?

—Parece-me util; é sem duvida util mercantilismo. Mas o util nem sempre se combina com o agradavel,{139} como aconselha o poeta romano. E, n'este caso, essa averiguação, sobre ser desagradavel, é extemporanea. Já te disse: acabas por onde devias principar. Suppõe tu que farejas os contadores de Francisco Vaz, e não achas lá aroma de vintem! Que fazes? Retiras o requerimento á mão da menina, visto que a menina se não presume herdeira?

—Se retiro o requerimento? Eu não requeri nada... não a pedi...

—É verdade, não a pediste... Fui eu quem a pediu para ti, por me haveres dito que ella se suppunha amada, e não embaida por velhacaria de mercador que anda de armazem para armazem comparando e apalavrando fazenda. Entretanto, respeito a dote, não te informes comigo. Como vês, tens aberta a porta do commendador: pergunta-lh'o. E, se elle te disser que é pobre, e as lavaredas do amor se apagarem no teu peito, suicida-te.

—Que me suicide?!—bradou espantado o sugeito, que annos antes andára a metter-se nas tezouras da parca.

—Sim, homem—voltou Venceslau tregeitando no sorrir um gesto de aborrecimento, se não era de menospreço.—Mata-te por egoismo. O amor proprio de um homem de bem deve ministrar-lhe o veneno ou o punhal suicida, quando se lhe está abrindo um abysmo de... de... não me lembra a palavra...

—É pena que te não lembre...—acudiu ironicamente o outro.{140}

—Ah!... lembrou: de infamia.

—Mercês!—redarguiu Eduardo—se fosses um qualquer homem, respondia-te no campo da honra; mas ao amigo, que comprou com os seus favores o direito de me aviltar, digo: obrigado!

—Ao campo da honra vão os honrados—concluiu Venceslau, erguendo-se de golpe, e tomando o chapéo.—Tenho que fazer... Não me dá Deus horas baldias para palestras d'esta especie.

E sahiu arrebatadamente.

Eduardo seguiu, deu-lhe o braço já na rua, e disse-lhe em tom de muita brandura:

—Nunca te imaginei condição tão brava, Taveira! A tua honra tem espinhos...

—Pois não te firas, Eduardo... Temos duas estradas. Segue uma das duas por onde nunca possamos encontrar-nos.

—Ao menos permitte que hoje á noite nos encontremos em casa do commendador.

—Como te aprouver... adeus.

Venceslau foi para as côrtes, e Eduardo para casa de D. Julia de Miranda.

—Parabens!—exclamou ella, quando entrou á sala, onde era esperada pelo noivo de D. Anna Vaz.—Quem diria? Olhe que bonito e rapido desfecho teve o romance, que parecia complicar-se em tenebrosos enredos!

—É verdade, minha senhora!...

—Tambem me dou a mim os emboras pela auspiciosa{141} intervenção que tive n'estes bem-logrados amores!

—Obrigado, snr.ª D. Julia—respondeu elle glacialmente.

—Que seccura, santo Deus! que frieza a sua, snr. Eduardo! E eu a imaginal-o doido de alegria como todos os que amam anjos com o rosto e o coração da minha Annica! Ai! se ella agora o visse decerto...

—Me não amava?

—Decerto abafava de mágoa de o ter amado... Que tem? que genio é o seu? que é isso?!

—É a fatalidade—respondeu funeralmente o joven pallido.

—Não sei o que é a fatalidade... Explique-se.

—Quer V. Ex.ª que eu lhe diga o que é a fatalidade?... Ah! não queira ouvir...

—Quero... diga... Preciso entender o enigma da sua alma...

—A fatalidade é o calix intransmissivel. É a attracção do abysmo. É o resvalar por despenhadeiro onde não ha aresta de rocha em que se recravem os dedos. É o supplicio de Tantalo, a braza viva nos labios e a torrente da agua a derivar por diante da enorme agonia da sêde. É o tormento de Mezencio: o vivo enleiado ao cadaver. A fatalidade é o abutre que roía o figado immortal do acorrentado do Caucaso. É o estanque de lagrimas onde se afogam as esperanças, apenas nascidas. É o clamor incessante d'uma alma, que sóbe até o céo nas azas da fé, e desce até ao inferno{142} abatida com o pezo das suas maldições. É duvidar de Deus, quando a face bate nas lageas do templo, e o coração se confrange e arde sem aura refrigerante. A fatalidade é o holocausto forçoso da vida n'um altar onde a victima não leva sequer a compaixão dos que sabem que alli se está suicidando um homem. É a vacillação incomportavel de quem balanceia entre matar-se para esquecer e sacrificar-se para que o não deshonrem as vaias das multidões. A fatalidade, snr.ª D. Julia, é não ter eu morrido quando me atirei á bayoneta e ás balas no fragor das pelejas. A fatalidade é ter eu olhos e alma, e o torturar da vaga esperança, quando a imagem d'uma mulher predestinada me appareceu a apontar-me a voragem onde eu devia engolphar-me. A fatalidade, emfim, senhora, é tel-a eu visto; é... tel-a eu amado.

Esbofada a vulcanica declamação, D. Julia ergueu-se placidamente, soberanamente, hirta, severa, formosa de magestosos assomos, e disse:

—Se é o snr. Eduardo Pimenta quem está em casa de Julia de Miranda, amiga de Anna Vaz, peço-lhe que se esqueça de ter aqui entrado.

—Perdão, minha senhora!—balbuciou o galan, como quem não trazia mais diamantes no thesouro da memoria.—Perdão!

—Perdoei, porque... esqueci.

—Perdôa—volveu elle com alguma felicidade—perdôa, porque... matou. Eu vou ser marido de D. Anna Vaz, snr.ª D. Julia. Ha de vêl-a feliz...

—Praza a Deus... mas... duvído.{143}

—Ha de vêl-a feliz... ha de vêl-a sorrir para mim sem suspeitar que lhe sorri nos meus labios a morte... o sorrir do martyr para o cutello, a palavra indulgente do Christo para os seus verdugos. Agora, uma supplica... Segredo, minha senhora! Que ella o não saiba... Não me prive da gloria de ser eu só desgraçado. Se ella vê em mim o coração que se abraza do seu amor, deixe-a ser feliz; diga-lhe que eu a amo... prometto a V. Ex.ª que nunca a desmentirei...

—Mas... enganou-a... mentiu-lhe... para quê? objectou D. Julia, enredada nos amphiguris d'aquellas tiradas de Arlincourt.

—Não a enganei... forçou-me a fatalidade a adoral-a...

—E então?... Que incomprehensivel!... que indecifravel adoração!... Pois não me diz que adorava a minha amiga? Por que deixou de adoral-a?!

—Porque a mão do anjo negro me trouxe, desde o tumulo da primeira mulher que amei, até ao segundo calvario onde eu devia amar a segunda, mostrou-me... V. Ex.ª Eu disse tudo, senhora! Agora odeie-me; mas não me denuncie. O seu silencio ha de deixar-me agonisar lentamente; a sua denuncia... fulminar-me-ha... A minha morte é desnecessaria á sua glorificação.

Disse e sahiu.

Não era odio o mais caustico sentimento que Eduardo incutiu no animo de Julia. Tambem não era asco nem sequer desprezo. A fidalga ficára agitada, mas não febril dos estos da indignação. Viu-se escarlate no espelho,{144} e nenhuma das hypotheses explicativas da congestão sanguinea das faces lhe pareceu realmente ser pudor. Vêr-se ao espelho seria acaso; curiosidade de remirar o seu aspecto rubente de colera é que não era. Ella não sabia que estava iracunda e rubra. Fulgurou-lhe no espirito um relampago de electricidade tão offuscante que fechou os olhos. Teve pejo de si:—pudenda alma que se sentia estremecer no lapso da candura ao indecoro! Atirou-se a uma cadeira estofada, e abarcou o rosto nas mãos convulsas. Quando se levantou, as lagrimas embebiam-se no ardor das faces. Aquellas lagrimas eram as perolas que o seu bom anjo derramava sobre o seio onde os latejos do coração respondiam aos clamores da consciencia. N'este lance, enclavinhou os dedos das mãos, e comprimiu com ellas o arfar do peito. E, depois, tirando um profundo gemido, murmurou: «Se eu podesse amar um homem!»{145}