Livro de Consolação
Capítulo IX
A desgraça não os tomará de assalto. Bom é
esperal-a, para que a alma se lhe affaça, e o
supportal-a seja menos exulcerante.
LUCIANO,—Da Astrologia.
D. Julia não se ficou todo o dia scismatica, a remirar-se no espelho. Os cavallos ainda escarvavam as lagens apostos á traquitana. Sahiu, e foi, como tencionava, a casa do commendador Vaz.
—Olha que estou afflicta, Lulu!—exclamou Anna, atirando-se-lhe aos braços.
—Afflicta! que é?
—O papá, hoje depois de almoço, ficou sósinho comigo, e esteve a dizer-me que Venceslau era muito bom rapaz, muito esperto, muito fidalgo, e que ainda havia de ser um grande homem em Portugal.
—E depois? aposto que te fallou em casares com elle?
—Isso mesmo... Já viste infelicidade assim?
—Então o Venceslau pediu-te?{100}
—Eu sei cá! Talvez... Não sei... O papá nada me disse, senão isto: que eu seria a mais ditosa creatura, se casasse com elle.
—E tu, fizeste biquinho? choraste?—voltou Julia, rindo.
—Chorei muito, mas foi no meu quarto; porque o papá, vendo que eu não respondia sim nem não, esteve a olhar para mim com os olhos mal encarados, e disse-me: «dar-se-ha caso que a tua cabeça tenha lido alguma leviandade? Anna, vê lá o que fazes e o que tens feito. Com teu pae não ha segredos nem disfarces.» E, depois, disse já muito zangado: «Respondes ou não? Se a tua boa estrella te dér por marido Venceslau, agrada-te este casamento?» Eu que havia de responder, Lulu? Dize lá, tu que respondias?
—Eu sei, filha!.. essas respostas só sabe dal-as quem se vê nos apertos de taes perguntas. Respondeste que sim?
—Fiquei atemorisada... nem soube o que respondia... Respondi que fazia o que o papá quizesse... Elle então deu-me a beijar a mão e sahiu; e eu fui chorar para o meu quarto. D'ahi a pouco, voltou o papá, bateu-me á porta, eu limpei as lagrimas e escondi as cartas de Eduardo que estava a lêr. Disse-me elle então que ia dar ao Venceslau os parabens por ter sahido deputado ás côrtes; e tornou a fazer-me a mesma prégação das virtudes e talento do Taveira, dizendo que elle era deputado aos vinte e oito annos, e seria ministro de estado antes de ter quarenta. Ora que me importa a{101} mim cá isso? não me dirás? Aqui tens, Lulu, quanto eu sou desgraçada! Foi Deus que te trouxe. Tu has de valer-me, has de aconselhar-me, sim?
—Socega—respondeu Julia.—Se o teu casamento com Venceslau depende da vontade do noivo, estás tu bem.
—Sim? conta lá o que sabes!... que sabes tu, Julinha?
—Sei que Venceslau não te ama.
—Não? ai que alegria! quem t'o disse?
—O Eduardo.
—Sim? viste-o hoje?
—Esteve em minha casa.
—Esteve? que foi lá fazer? Eu não sabia que elle ia lá!
—Foi contar-me o que passára com o Taveira a teu respeito. O amigo affirmou-lhe que não teve ideia alguma de te amar, mas elle, apezar d'isso, desconfia que sim...
—Oh diacho! isso é máo?
—O que é máo?
—Se o papá lhe pergunta se elle quer casar comigo, e elle diz que sim... E depois? ai! que má sorte a minha!... Que desgraça!
—Que lamuria, Deus da minha alma!—atalhou D. Julia sorrindo ás lastimas e gesticulação da linda creança.—Não te disse eu já que Venceslau não te ama?
—Disseste, sim.{102}
—Pois se te não ama, que importa que teu pae lhe offereça uma esposa que elle não quer?
—Achas, Lulu?
—Acho; mas...
—Que é?... estás com medo que elle queira? é isso?—voltou já muito alarmada a filha do commendador alternando as ancias desabaladas com os tregeitos jubilosos.
Em quanto o volatil espirito da menina avoejava das conjecturas risonhas para as tristes, e D. Julia, presumindo-se interprete do coração humano, folgava de serenar ou alvorotar as inquietações da sua candida amiga, corria o seguinte dialogo entre o commendador e o deputado.
—A minha admiração—dizia Francisco Vaz—foi grande quando hoje li a fausta nova da sua eleição, meu caro senhor e amigo...
—Admirou a grandeza do encargo em tão pequeno vulto? Tambem eu me assombro da irreflexão do governo, que me indicou e do povo que me elegeu, quasi sem me conhecer.
—Não foi isso que me admirou, cavalheiro que sabe tão destramente embeber no arco da modestia a frecha da ironia. Innocente como a pomba, com sua malicia de serpente, seu maganão!—dizia o commendador espirrando uns sorrisos de inoffensiva perspicacia.—Sabe o que me admirou? foi a nenhuma importancia que{103} V. S.ª dava ás honras que lhe estavam eminentes. Já hontem o meu amigo sabia que era representante em côrtes e não quiz dar-me a satisfação de m'o annunciar!
—Se o ser eleito me désse gloria, V. S.ª seria o primeiro a participar do meu desvanecimento; porém, se a missão me é penoza, como hei-de eu suppôr que os meus amigos se regosijem?
—Ora vamos, ora vamos. Deixemos os Cincinnatos desprendidos da gloria ao fabulario da historia romana. Eu não consinto á natureza humana tal desapêgo, mormente se a façanha incrivel se dá em moço de vinte e oito annos, pouco abastado em bens...
—Pouco!—interrompeu Venceslau a sorrir.—Parece-me que eu já disse ao snr. commendador que vivo do meu trabalho, e que, se a doença me impedir de escrever, terei de pedir um catre ao hospital.
—Ó pavorosa imaginação! ó ingrato amigo!—acudiu o commendador, batendo-lhe no hombro com ares de affectuoso despeito.—Venceslau Taveira, se adoecer, não vae para casa do velho Francisco Vaz; não, senhor; Francisco Vaz é um desprezivel amigo; o doente irá para o hospital. Com effeito, moço! paga-me generosamente!—proseguiu severisando o aspecto.—O enfermeiro de meu filho Antonio, o caridoso anjo que adoçou o fel da agonia do exilado, o amigo que deu lagrimas e sepultura ao cadaver de meu filho, é o mesmo que diz ao velho pae do seu morto companheiro: «Eu, se adoecer, não quero o teu leito, nem os teus cuidados, nem a tua gratidão! Irei para o hospital, para que não{104} possas pagar-me parte da divida de teu filho, que me expirou nos braços.»
Venceslau abraçou o commendador com enthusiasta commoção, murmurando:
—Se o offendi, perdôe-me em nome de seu filho. Eu não suppuz que V. S.ª désse tal interpretação ás minhas palavras irreflectidas.
—Está perdoado, porque peccou involuntariamente. Bem sabia eu que não ha orgulho tamanho em homem que exercitou a caridade com tantos... Póde ser que o amigo intimo de meu filho despreze as honras de deputado, e acceite com vaidade o coração de pae que lhe offerece o pae do seu defuncto amigo.
Venceslau curvou-se e beijou a mão do commendador, o qual, exultando, e estreitando ao seio o moço, continuou;
—Quer-me parecer que ha o que quer que seja providencial na sua intimidade com o meu Antonio!... Vou fazer-lhe uma pergunta, snr. Taveira: O meu filho nunca lhe disse que tinha uma irmã?
—Muitas vezes me fallou d'ella, como se falla de uma creancinha muito formosa, e d'uma irmã acariciada como filha. Quando Antonio Vaz morreu, a snr.ª D. Anna teria, quando muito, sete annos. Recordo-me dizer-me elle, dias antes de morrer, que seria menor a sua paixão de acabar tão longe dos seus, se a irmã estivesse em edade de comprehender a angustia do pae, e podésse consolal-o com os sentimentos do coração capaz de intelligentes lagrimas. «É muito nova—dizia elle—verá{105} chorar o pae, terá alguns momentos de saudade, e irá logo depois distrahir-se com os seus brinquedos.»
—Enganou-se o meu infeliz filho—disse o commendador enxugando os olhos.—A creança tinha coração de mulher. Quando eu lhe disse «teu irmão é morto», Anna abraçou-se a mim, debulhada em chôro, exclamando:—Não morra, meu querido pae; deixe-me primeiro morrer a mim, que fico sem ninguem n'este mundo. Este grito da menina que presagiava a orphandade, deu-me forças sobre-humanas. Defendi-me da morte com a minha filha no colo. E, quando me sentia desfallecer e estalar de saudade, voltava-me para Deus, mostrava-lhe a creança, e dizia «Se me deixaes morrer, Senhor, aqui a tendes, amparae-m'a!» Foi ella quem me amparou a mim; ás suas reminiscencias estava eu sempre pedindo memorias de meu filho; ella contava-me as pueris historias que lhe ouvira; mostrava-me as bonecas e bugiarías que lhe elle dera. Se me via chorar, chorava, e folgava de me vêr chorar, dizendo que eu, depois que respirava assim da cerrada oppressão, lhe parecia mais animado. Eu cobrei alivios de muito amargurar-me. Ha saudades que esquecem delidas por esperanças. Não pude eu esquecel-as assim. Outras nunca esquecem, mas deixam de pungir: dóem, mas desafogam-se no seio d'um bom anjo que nol-as leva á alma que choramos. O meu anjo medianeiro com meu filho era Anna. Ella vinha contar-me em sobresalto que vira em sonhos o irmão a sorrir-lhe. E eu acreditava; e, se ella piedosamente me enganasse, ainda assim abençoaria{106} a sua caridade. Aqui tem, snr. Venceslau, proseguiu o commendador restaurando o folego afadigado por soluços que, a espaços, lhe embargavam a voz—aqui tem o que foi a minha filha em menina muito tenra; e hoje, que ella vae nos seus dezeseis annos, peço-lhe, snr. Taveira, que desculpe ao amor paternal, o bom conceito em que a tenho...
—Em que a temos todos os que a conhecemos.
—Alegra-me essa opinião—exclamou o velho com vehemencia —enche-me de santa vaidade, porque vem d'uma sincera alma! Não quiz Deus que meu filho Antonio participasse da minha alegria, encontrando a creança, que me deixou nos braços, a amparar nos seus a minha velhice. Como elle amaria esta irmã! como seria bem-aventurado a esta hora entre os dous santos amores que o esperavam—o de Julia, a sua amada desde a infancia, e o da irmã, que rivalisaria com a esposa no empenho de o cumularem de contentamentos! E quem sabe, snr. Venceslau Taveira, quem sabe se meu filho, tentando completar a felicidade sempre imperfeita n'esta vida, pensaria no modo de identificar em coração á sua familia o honrado companheiro de desterro, o consolador nos desalentos, o irmão na soledade da terra alheia, o confidente nas saudades cruciantes, o enfermeiro na doença, o exemplo emfim da coragem, da probidade, e do esforço caritativo, d'essa grande virtude dos ricos, e divino prodigio dos pobres...
—Oh snr. commendador!—atalhou Venceslau—a sua amisade vae tão adiante do que eu fui e sou...{107}
—Quem sabe—ajuntou Francisco Vaz, apertando convulsamente ambas as mãos do deputado—quem sabe se meu filho, para fazer seu e da sua querida familia o homem de bem, lhe diria um dia, mostrando-lhe a irmã: «Venceslau, se amas esta doce creatura, sê meu irmão; sê filho de meu pae que t'a offerece; entra no seio das nossas mais intimas alegrias; deixa-nos afazer á ideia de que não é só a gratidão, mas tambem laços de sangue que nos prendem.» Que responderia ao seu Antonio Vaz, snr. Taveira?
O interrogado, colhido de sobresalto, emmudeceu, enfiou, passou a mão pela fronte, e sentiu momentos de verdadeira angustia.
Estranhando a confusão silenciosa, o commendador não podia dilucidar o que havia aviltador ou respeitavelmente justificado n'aquella mudez, semelhante a uma resposta negativa e indelicada.
—Impressionei-o dolorosamente!—balbuciou o velho.—Receba-me como gracejo de louco ou de amigo essas palavras que o perturbaram, snr. Taveira.
Venceslau abraçou-o com impetuoso fervor, e disse:
—Faça-me justiça!...
—Completa e sincera, meu amigo. Comprehendi-o... Isso é nobre; e tudo que nos vem da honra, seja alegria ou tristeza, é sempre um sentimento que deve expandir-se nos braços do homem de bem. Sei o que é. Eu devia suspeital-o. Os moços da sua condição encontram esposas á competencia, e não o revelam porque a fatuidade desdoura, profana e deslustra o segredo,{108} que é a mais bella caução do amor sisudo e competente ao homem honesto. Se V. S.ª não guardasse tanto o seu segredo, evitava-lhe este desgosto. A mim, o lance, bem que pouco usual, não me afflige. Offereci-lhe minha filha: offereci-lhe tudo que tenho, toda a minha riqueza; dei-lhe a maxima prova de quanto o prézo: estou contente; desobriguei-me de parte da divida de meu filho—divida de amor, que não podia ser paga em outra moeda. Agora, não me esteja assim pensativo, snr. Taveira!... fallemos n'outra coisa.
—Não, senhor, fallemos d'esta—replicou Venceslau já tranquillo. —Principío por asseverar ao snr. commendador Vaz que conheço em Lisboa duas senhoras: sua filha, que amo como irmão, porque ella, bem que lhe sobejem qualidades proprias para ser estimada, é irmã do meu amigo Antonio Vaz. A outra senhora é D. Julia, que respeito e considero, porque vi tanta lagrima saudosa a encarecer-lhe as virtudes, que me afiz a vêl-a do desterro como um anjo, e na patria como senhora de quem as outras devem aprender a lealdade na viuvez. Durante o meu exilio, a minha mocidade, snr. Vaz, namorou-se do trabalho, da fortuna avára dos que lá viveram das lides do espirito. As amantes d'esta especie costumam ser tão zelosas e egoistas das nossas attenções, que nos não abrem ensejo de pensar nos affagos d'outra. Foi assim comigo a fortuna do proscripto. Ou luctar com as extremas privações, deshonrando-me nos expedientes que ellas aconselham; ou lidar sempre, ora escrevendo, ora ensinando; mas, tendo{109} sempre em vista a inutilidade do coração, debaixo d'um casaco cossado e remendado. Não amei ninguem na terra alheia; não amo ninguem na minha. Sou aqui o que fui lá fóra: um operario labutando o pão quotidiano. Escasseia-me o tempo nas obrigações urgentes; não tenho podido desbaratal-o em diversões da alma, em preoccupações deliciosas que denotam ferias de espirito e necessidades levantadas acima do positivismo da vida commum. Sou pobre, como V. S.ª sabe. Entretanto, snr. commendador, pobreza e trabalho não esterilisam o coração. O homem, fiado no seu braço robusto ou em sua intelligencia productora, está bem no caso de poder aspirar ás consolações e alentos d'uma esposa, que lhe alumie a solidão escura do seu gabinete, e lhe duplique o esforço para a lucta. Algumas vezes me entreluziu ao animo quebrantado a doce alliança da intelligencia com os prazeres do coração. Figurou-se-me vêr perpassar por diante d'esta banca, onde a aurora de cada dia me encontra, uma imagem vaga, com o sorriso da coragem nos labios, e a luz da esperança nos olhos, fixos em mim, que a contemplava como a varonil inspiração dos meus rudes trabalhos. Era o relampago do secreto fogo que não se extinguiu—era talvez o estremecer dos sentimentos abafados no recondito da alma. Bem póde ser, snr. commendador, que o fogo chammejasse, e o sentir abafado se expandisse, no momento em que V. S.ª agora mesmo me disse que eu podia ser o esposo da snr.ª D. Anna Vaz. Eu cuidaria{110} então que era ella a imagem entrevista nos meus enlevos; sentiria a subita mudança do sonho para a realisação; e, se a surpreza me cortasse as palavras de reconhecimento, o meu silencio teria a eloquencia das lagrimas. Sua filha, snr. commendador—proseguiu Venceslau apoz uma grande pausa—sua filha não me ama...
—Como?—interrompeu Francisco Vaz, erguendo-se de golpe, e batendo rijo a bengala no pavimento.—Como sabe que minha filha o não ama?
—Como sei que a não amo eu tambem. O meu coração, posto que inexperiente, adivinhal-a-hia, se lhe eu motivasse algum sentimento distincto da amisade, que lhe mereci, como amigo de seu irmão, e affectivo apreciador de seu pae. Eu não podia ser amado, porque os meus breves instantes de conversação com a snr.ª D. Anna foram sempre alheios da minima referencia ao amor, ás vagas coisas do coração com que as horas se aligeiram e saboreiam nas salas, segundo julgo da intimidade dos que são ou dos que parecem ser felizes. Praticávamos ácerca do nosso saudoso Antonio, ou dialogávamos em francez sobre assumptos que me pareciam adequados á perspicacia intellectual de tão habil menina...
—Sei isso, snr. Venceslau—sobreveiu o commendador.—Está-me V. S.ª dando ares de quem se justifica de honrado comportamento.
—Não me justifico, snr. Vaz: explico a suprema{111} quietação da minha alma em presença d'uma senhora que eu estimava como se estima uma irmã favorecida de excellentes qualidades.
—Que ainda assim V. S.ª não podia amar...
—Não vem acertada essa reflexão; consinta o snr. commendador esta rudeza. As excellentes qualidades são amaveis; mas não é dever da mulher que as tem acceitar o culto de quem lh'as reconhece; nem é judicioso a quem lh'as admira revelar-lhe a sua dedicação, além dos limites do respeito. Era, todavia, muito de esperar que a snr.ª D. Anna Vaz inspirasse um grande amor e ao mesmo tempo o sentisse pelo homem a quem o inspirasse. Isso aconteceu.
—Que é? pois minha filha ama alguem?—interrogou Francisco Vaz com aspecto iracundo.
—Ama, sim, senhor.
—Quem?
—O meu, o nosso amigo Eduardo Pimenta.
O commendador percorreu tres vezes o estreito escriptorio do deputado, enxugou o suor da calva, comprimiu a testa com ambas as mãos e murmurou:
—Deu-me um profundo golpe, snr. Taveira!... Estou a braços com a desgraça...
—Eis-ahi uma dôr que me assombra!—redarguiu o jornalista.— Que conceito, pois, fórma V. S.ª de Eduardo?
—Não sei, não sei que presagios me despedaçam o coração! Não lhe conheço vicios... ninguem o accusa, ninguem o denegriu na minha presença, tenho-o recebido{112} com affectuosa familiaridade; pois, apesar d'isso, eu não queria que tal homem casasse com minha filha. E, se eu impugno tal casamento, qual é a dignidade de Eduardo Pimenta em requestar minha filha?
—Seria indignidade grande requestal-a com a certeza de que V. S.ª recusa conceder-lh'a.
—Pois, snr. Taveira, auctoriso-o a declarar ao seu amigo que lhe nego minha filha. Não ha nada mais explicito e summario.
—E, se o meu amigo me perguntar que actos de sua vida o desconsideram na opinião do snr. commendador, que responderei?
—Responda que um pae não é obrigado a justificar a sua vontade.
—Muito bem. Eduardo não póde honestamente voltar a casa de V. S.ª
—É claro.
—Foi por tanto expulso de sua casa, snr. Vaz, o homem que eu lhe apresentei, não é assim?
—Elle é que se fez indigno da minha estima.
—Seja qual for a causa, o meu amigo foi expulso; e eu, que ainda me não vexo de o haver apresentado, expulso me considero tambem.
—O senhor!? que desconchavo!
—Póde ser que eu ignore as praticas da boa sociedade. Se ellas diversificam do modo como eu as professo, abstenho-me de as aprender. Quem apresenta, no gremio d'uma familia, pessoa que desmereceu a estimação que lhe deram, retira-se ao mesmo tempo, ou envergonhado{113} do ultrage que o seu vil amigo commetteu, ou offendido da injuria que se lhe faz, se elle é expulso immerecidamente. Não questiono sobre a justiça ou injustiça com que V. S.ª o repelle: qualquer das hypotheses me aconselha a não voltar á casa defeza a Eduardo Pimenta.
—E sacrifica-me ás indiscrições de Eduardo Pimenta, snr. Taveira? Quer-me convencer de que o procedimento d'elle é regular?
—Já disse ao meu bom amigo que me abstinha de contestar a razão dos seus aggravos; mas, se V. S.ª me força a defender-me, defendendo Eduardo, afoitamente lhe confesso que o não culpo. Amar a snr.ª D. Anna, que é amavel como formosa e como rica das graças do espirito, não é delicto, ainda mesmo que os meritos de quem a ama não possam egualal-a. A Eduardo faltam pergaminhos; nasceu na casa de lavradores; os brazões de seu pae eram os utensilios da lavoura. Prouvera a Deus que o fanatismo o deixasse viver e morrer na obscura honra dos que lidam de sol a sol, e obedecem ao preceito da incessante lida, sem blasfemar da Providencia que instituiu as desigualdades da fortuna. Amargamente pagou Eduardo Pimenta o acaso de ter nascido plebeu. D'essa enorme culpa resultou-lhe a perseguição, o carcere, o desterro e a morte da esposa que o adorava...
—Consequencias do erro...—atalhou o commendador.
—Do erro?{114}
—Sim, da culpa de cortejar uma dama illustre que não podia ser d'elle sem arrostar grandes perigos, sem desdourar seus parentes, sem se atirar a si mesma aos abysmos cavados pela desobediencia. Que fez elle amando a mulher nascida em outra esphera? matou-a; formou os elos da corrente que a levou de rôjo á sepultura. Com que direito affrontou elle as leis sociaes?
—Quaes leis?... Não sabia eu que o meu amigo tinha affrontado algum direito...
—O direito consuetudinario, a ordem de coisas, o estylo que rege os costumes. Se o amor votado por plebeu a mulher nobre causa a desgraça d'essa mulher, tal amor, com quanto os poetas o celebrem, é calamidade que faz chorar muita gente, e desata laços que nunca mais se refazem.
—Essas ideias, snr. Vaz—redarguiu Venceslau—são boas; mas permitta o céo que o genero humano vingue d'aqui a um seculo não vêr a fronteira que divide o coração plebeu do coração fidalgo. Quando esse oiro das almas sahir depurado do cadinho dos annos, as ideias de V. S.ª serão acoimadas de absurdas ou transviadas do trilho por onde a luz do christianismo nos vae alumiando. Não argumentemos sobre o ponto, porque ainda não é tempo de se abraçarem os adversarios. Antonio Vaz, o fidalgo, filho do decimo commendador de Santa Christina de Almudena pensava como eu; e, nas nossas palestras de socialismo e regeneração do homem, nunca nos lembramos que nossos bisavós haviam ganhado, com o sangue proprio e com{115} a vida de seus paes mortos em Alcacer-kibir, no Ameixial ou Montes Claros, as commendas que a liberdade nos vae tirar como mal adquiridas. A liberdade, que nós andavamos servindo, é essa que nos desbalisa e nivela com os filhos dos criados de nossos avós.
—Boa a fizeram...—resmuneou o fidalgo.
—Nada fizemos: foi o tempo. A luz, que doira e aquece as penedias dos montes, não é d'ellas, é do sol. O fructo não se enverdece e sazona a si: é o calor dos dias successivos. O instrumento obedece ao impulso; a ideia é o motor do braço. Seu filho e eu tinhamos nascido, quando a França se refundia e recaldeava ao fogo reconcentrado do lavor de seculos. Entramos na torrente; fomos levados; um é morto ao pé do berço da liberdade; o outro não foge da morte; mas nenhum de nós, tendo uma irmã, lhe poria o preceito de estudar heraldica para saber que timbre e escudo lhes cumpria descobrir nos corações dos homens que as requestassem.
—Graceja, snr. Taveira? Não escolhe a opportunidade...— increpou o commendador com sincera mágoa.
—Não gracejo com V. S.ª: é com os preconceitos. Se eu os combati com as armas, não é muito que os desattenda com a ironia. E, depois, todas as razões que V. S.ª allegar contra o casamento de sua filha serão boas, exceptuada a da incompatibilidade dos nascimentos. O snr. Vaz é illustrado. Se pertence ao passado pelos appellidos, deve-se ao edificio do futuro pela intelligencia, e á humanidade collectiva pelo coração, e de modo nenhum á raça exclusiva dos nobres pelo acaso{116} do nascimento. O pae de Antonio Vaz deve ser por força um alto espirito: de troncos verminosos não bracejam frondes com seiva de tão generoso sangue. Tal pae corre-lhe o dever de consentir que os abusos da ignorancia sejam motejados na sua presença, e que os paes, sacrificadores das filhas no infamado altar das tradições genealogicas, sejam malsinados de tyrannos.
—O seu apostolado, snr. Taveira—replicou o velho—é temporão em respeito á época; e é tardio em relação a mim. Sessenta annos não se remoçam; das raizes da educação inveterada não abrolham as flores com que em França os sans-culottes vestiam a deusa da Razão. Estou muito velho, e sou pae muito extremoso. Gósto da liberdade comedida, desde que odiei o despotismo que levou á forca meu parente Gomes Freire de Andrade. Abomino por egual o despotismo dos reis e o despotismo do povo. Repito que desejo a victoria dos programmas liberaes; mas reprovo que, em nome d'elles, me queiram a mim esbulhar da liberdade de casar minha filha com quem eu quizer. Repugna-me dal-a ao snr. Eduardo Pimenta, de quem aliás não recebi maior offensa que o intento de captar o amor de minha filha, sem consultar as minhas luminosas ou obscuras ideias ácerca de tal casamento. Contra esta resistencia não me parece que a liberdade bem entendida legisle reacções.
—Pelo contrario—obtemperou Taveira—as leis protegem os paes, submettendo os filhos menores ao seu consentimento; e eu, indigno legislador, se tal lei não existisse, propôl-a-hia. Emfim, não se enfade mais V. S.ª{117} com esta discussão esteril. Eu me encarrego, conforme á sua ordem, de avisar o meu amigo. Como elle tem pundonor, não ha motivo para que as inquietações de V. S.ª continuem. Hoje veiu elle aqui dar um testemunho da sua probidade. Suspeitou que eu amava a senhora D. Anna Vaz, porque lhe censurei indirectamente que a cortejasse. Tomou á conta de zelos a minha intervenção nos seus affectos; e offereceu-me sacrifical-os á minha felicidade, se eu alimentava alguma esperança contrariada por elle que me não soube adivinhar. Creio que o desconvenci da sua desconfiança. Ora o homem que se victimava a um amigo, de melhor vontade e com mais honrado primor se ha de immolar a um pae tão respeitado quanto estimado. Vá por tanto V. S.ª bem certo de que cessam hoje os seus sobresaltos. Eduardo não volta a sua casa...
—E o snr. Taveira?
—Já disse ao snr. commendador que devo á leal camaradagem de nove annos a observancia de um dever que implica desdouro para o meu amigo, se eu me esquivar a cumpril-o.
—Mas—volveu Francisco Vaz, depois de um longo silencio, acompanhado de gestos que significavam desgosto e perplexidade —não é possivel combinarem-se a continuação da frequencia de minha casa com a desistencia das intenções do seu amigo? Não poderá elle ser meu hospede sem ser o namoro de minha filha?
—Sei pouco do coração humano, snr. Vaz; e por isso appéllo da minha ignorancia para a experiencia que{118} lhe deram a V. S.ª os annos e a vida das salas. O entreverem-se duas pessoas que se amam e violentamente se apartam, será bom expediente para as desligar? Se os olhos do rosto se contemplam, deveremos suppor que os olhos da alma se fechem? Que responde V. S.ª?