Livro de Consolação
Capítulo XXIII
Venceslau ergueu-se amparado nos braços do capellão, encarou-o muito a fito, e tartamudeou:
«—Que diz? morta?...
«—Rendeu o espirito a Deus, ás duas horas da manhã, na sua quinta da Ericeira. Quando o vigario lhe ministrava a extrema-uncção, a moribunda chamou-me, e, pondo as mãos nas cabeças de seus filhos, disse-me: «Juro-lhe, na presença de Deus, onde vou dar contas da minha vida, que Venceslau é o pae d'estes dous innocentinhos, que vão ficar sem mãe.» Duas horas depois, estava no tribunal divino.
Venceslau inclinou a fronte ao peito do padre, e murmurou: «perdôa-lhe, ó justiça divina!...»{281}
XXIII
Do ferro o peito atravessado tinha
De que o sangue ainda fresco lhe manava.
GABRIEL P. DE CASTRO.—Ulyssea.
Os amigos do marquez de Palmella compelliram Venceslau Taveira a sahir para Londres, quando os primeiros actos precursores do absolutismo deram rebate á emigração dos liberaes mais expostos ao odio.
Sabia-se que o fogoso deputado era, sem impedimento da sua queda, rancorosamente visto pelos realistas, que lhe sobrepunham aos delictos de liberal a sobrecarga de assassino.
A vasta parentella da viuva de Eduardo Pimenta conjurára em vingar a inconsolavel senhora, inflexivel contra o homem, que lhe matára o marido, e deixára com vida a mulher em cujo quarto o encontrára. N'esta{282} conjuração o commendador Vaz era de todo estranho. Desde a hora em que a tumba do genro entrára em casa, o velho sahira com os netos para o Riba-Tejo, deixando a filha entregue aos parentes.
Venceslau, porém, resistira ás insinuações dos amigos, até ao momento em que lhe figuraram os filhos trajando lucto por seu pae, morto no patibulo. Levaram-no, pois, á deliberação de exilar-se, entregando os meninos a padre Manoel Ferreira, depois de os haver tido comsigo um mez, na quinta do Lumiar.
E, como o padre lhe perguntasse por que via as remessas de dinheiro haviam de ser feitas para Londres, Venceslau respondeu que todos os haveres de D. Julia eram dos filhos, e elle nada receberia do patrimonio das creanças.
Expatriou-se, na vespera do dia em que era procurado á ordem de José Antonio de Oliveira Leite Barros, aquelle celebrado conde de Basto, que se mascarrou de sangue para dar uns longes de semelhança com o marquez de Pombal, injuriando-o.
A intelligencia de Venceslau Taveira, durante os quatro annos de exilio, quedou-se no torpor esteril d'onde nunca mais resurgiu. Espirito e coração haviam sido fulminados da mesma morte. O marquez de Palmella, sentando-o á sua mesa, e forçando-o a vestir-se da sua guarda roupa, venerava-o mais que n'aquelles annos em que o consultava nos casos melindrosos da sua missão diplomatica. Se ás vezes, em signal de preito{283} a um talento apagado pelas lagrimas, o convidava a pensar em perigosas conjuncturas diplomaticas, Venceslau entrava-se d'uma tristeza consternadora, e dizia:
—Perdido... tudo negro n'este pobre espirito...
E era deploravel no convencimento da sua inutilidade. Pedia a Deus que lhe apagasse a luz, que o queimava, sem lhe alumiar a razão escurecida.
Em 1832 despediu-se do marquez e alistou-se na expedição de D. Pedro IV.
Desembarcou no Mindello, vestiu a farda de simples soldado, entrou nas principaes batalhas, e de quasi todas sahiu ferido.
O governo do Porto reintegrou-o no seu antigo posto de official maior de secretaria, cujo serviço lhe era penoso, porque o cansaço, á menor applicação, lhe abastecia as trevas do entendimento.
Levantado o cêrco foi para Lisboa, e avisou o padre Manoel, de quem, a grandes intervalos, recebia cartas em nome supposto.
O filho mais velho tinha então onze annos e o outro nove. Eram ambos educados no Collegio dos Nobres, e denotavam dotes de rara capacidade.
O padre apresentou ao official maior as contas da sua administração, dando-lhe a guardar alguns contos de reis excedentes ás despezas. Venceslau rejeitou o deposito, insistindo em declinar de si a minima interferencia na herança de seus filhos.
Indagou da existencia de D. Anna Vaz. Disse-lhe{284} o padre que o commendador era fallecido; que os credores de Eduardo Pimenta haviam penhorado as duas quintas e palacete do patrimonio da viuva, e que esta se acolhêra ao convento da Encarnação, onde vivia pobremente. Quanto aos tres filhos alguns parentes se haviam encarregado de os educar.
O governo constituido mandou pagar ao conselheiro official maior os ordenados suspensos durante a emigração. Recusou-os.
Habitava um quarto andar na rua da Rosa das Partilhas, e alimentava-se d'uma taverna que occupava os baixos da casa. E, como os remanescentes do seu ordenado abastavam para vida mais desafogada, elle enviava mensalmente uma quantia ao convento da Encarnação, mediante padre Manoel Ferreira, que não era todavia o portador da esmola. O capellão do mosteiro, adestrado por conselho do outro, dava o dinheiro a D. Anna Vaz, dizendo-lhe que uma illustre dama, que a conhecêra na abastança, lhe pedia licença para a soccorrer em tão honrada quanto penosa viuvez.
Em 1834, a cholera-morbus entrou no Collegio dos Nobres. Venceslau ordenou ao padre, administrador da casa de seus filhos, que os transferisse para o seu palacio das Amoreiras. Ao mesmo tempo, o contagio feria tambem o pae. Padre Manoel achou-o no leito, quando lhe levava nova de ser fallecido um filho. Chorou, mas enguliu o segredo nas lagrimas. O enfermo disse-lhe então serenamente:{285}
—Posso morrer; os atacados n'este predio têm morrido todos. Levo saudades dos meus filhos;... mas deixo-lh'os. Nunca lhes conte a historia de sua mãe.
E o padre a ouvil-o, e a estancar nos olhos o sangue do coração!
Quando lá voltou no dia seguinte, encontrou Venceslau livre de perigo; mas como era já de dois gumes o ferro com que devia cortar-lhe os fios da vida, calou-se ainda. O segundo filho estava moribundo.
Um dia, Venceslau, já convalescente, disse ao padre que lhe levasse os filhos ao Campo Grande, que os queria vêr.
—Não m'os conduza aqui—accrescentou elle—porque ainda ha colericos n'este predio.
E o padre, cahindo em joelhos, poz as mãos, e exclamou:
—Coragem, senhor!
—Que vae dizer-me, padre Manoel?
—Que os seus filhos...
—Morreram?