Livro de Consolação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 11 de 26

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Livro de Consolação

Capítulo X

—Que tem razão. Melhor é que não se vejam. Mas eu peço licença para visitar o snr. Taveira.

—Tamanha honra lhe pediria eu, se me não faltasse a ousadia.

—Adeus. Não lhe desbarato mais tempo. Abraço o irmão de meu filho, e deponho nas suas mãos o meu socego e a innocencia de minha filha. Defenda-nos a ambos, já que eu perdi quem devêra a esta hora velar a honra de seu velho pae e a inexperiencia de sua irmã.

Abraçaram-se estreitamente, chorando ambos.{119}

 

X

Venez après cela crier d'un ton de maître

Que c'est le cœur humain qu'un auteur doit

connaître!

Toujours le cœur humain pour modèle et pour loi!

Le cœur humain de qui? le cœur humain de quoi?

Celui de mon voisin a sa manière d'être.

Mais, morbleu! comme lui j'ai mon cœur humain,

moi.

ALF. DE MUSSET.—Namouna.

Chegada a noite d'aquelle dia, e já corrida a hora costumada das visitas, Anna Vaz perguntou a Julia:

—Que será isto? elles não vem!

—Estava a scismar n'isso tambem eu...

—Olha que ha desgraça!... Não vês o papá tão carrancudo?

—Já reparei... Vae tu até lá dentro, e não voltes á sala sem me ouvir tocar no cravo.

Anna sahiu, e Julia aproximou-se do commendador que lia, ou fingia lêr, o Astro da Lusitania.

—Que ha de novo? Está lendo o artigo do nosso deputado?— perguntou ella, curvando-se para o periodico.—Já li... Ninguem dirá que d'aquelle rapaz tão{120} sereno e moderado possam saltar essas faiscas de colera contra as ideias antigas! É um ethna escondido em moitas de flores, não acha, snr. commendador?

—É um apostolo de boa fé, um peito cheio de honra, que se offereceu ao martyrio das ideias novas. Tem a devoção dos cathecúmenos de todas as religiões. Trabalha para os que hão de vir, não é para elle. Sahiu d'uma familia illustre do velho Portugal para servir de degrau aos que hoje calçam sapatos ferrados.

—Porque não o aconselha? Diga-lhe que seja mais prudente no que escreve; que não esteja a ganhar inimigos... Quem sabe lá onde isto vae dar? Os prejuizos não se pulverisam com palavras, nem com gazetas. Eu ouço todos os dias vaticinar que este governo ha de durar pouco. Em casa do tio Gião ouvi hontem dizer que os monarchas formaram o congresso de Laybac para enfrear as demasias da liberdade, e que D. João VI não levára a mal que o governador da Ilha Terceira resistisse á proclamação do systema constitucional.

—Vejo-a muito enfronhada em politicas de seu tio desembargador Gião, minha senhora D. Julia!—observou graciosamente o commendador.

—A mim que se me dá de politicas!—retorquiu a dama.—O que eu desejo é não vêr expostas com tanto perigo as pessoas que estimamos. O Pimenta parece-me que adoptou mais sensato papel nestas tragedias. Não quer saber de nada; não se importa com gazetas nem com governos. A emigração aproveitou-lhe... É verdade, elles não virão hoje? São dez horas!{121} O Taveira talvez esteja na reunião dos deputados; mas o outro onde estará? São horas do chá...

—Se são horas, não esperemos, menina, que elles não vem.

—Ah! o snr. commendador já sabia que não vem?!

—Já. Fallaremos ámanhã, snr.ª D. Julia. Eu hei-de procural-a... —E abaixando a voz, continuou em segredo:—Eduardo Pimenta comportou-se indignamente comigo. Se lhe não dou a novidade de se estar planeando um casamento n'esta casa sem minha licença, escuso de motivar-lhe o rompimento de relações com tão inconveniente amigo. Pelo que toca a Venceslau Taveira, esse não vem porque não quer. Sinto-o devéras. É homem de honrada tempera. Lastimo que os seus amigos o não mereçam...

D. Julia, cogitando na inquietação da amiga, não prolongou as segredadas confidencias. Acercou-se disfarçadamente do cravo e dedilhou no teclado. O commendador ergueu o rosto de sobre o periodico, fitou a hospeda e disse-lhe:

—Onde está Anna?

—Vem ahi.

A menina entendeu o relance d'olhos de Julia. Detiveram-se alguns minutos silenciosos na sala. O velho continuou a ler, em quanto Julia, interrogada pelos olhares anciados de D. Anna, esperava o ensejo favoravel de apartar-se com ella e revelar-lhe as más novas.

Do mesmo passo que o commendador ouvia contrafeito as prophecias politicas de um primo conego da patriarchal,{122} que alli ia sempre, depois de ceia, digerir o bôlo copioso, psalmeando threnos em prosa de conego sobre a futura perdição dos cabidos, D. Julia referia, commentando as palavras do pae da sua amiga.

D. Anna Vaz, primeiro estupefacta, depois agitada, e por fim afogada em lagrimas, escondeu o rosto no seio de Julia para que as criadas lhe não ouvissem o soluçar. Baldaram-se as consolativas esperanças da confidente, que parecia não ter nenhumas nos seus alvitres. Pelo espirito de qualquer d'ellas não sombreou sequer o mau pensamento de recorrer da vontade paterna para o poder civil. N'aquelle tempo as paixões das donzellas, contrariadas pelos paes, raras vezes iam dizer da sua justiça no tribunal. Usavam-se então umas mordaças, que fechavam os respiraculos dos corações rebeldes ao alvedrio paternal: era o convento. O mais egregio amor de mulher, leal ao seu amador, era aquelle que de bom animo vestia o habito monacal, e depunha aos pés da cruz a corôa do noivado. Estas nupcias com o divino esposo quasi sempre se contrahiam, levando a esposa o coração repleto de odio e calor do inferno para o cenobio, onde mais tarde a benigna hypocrisia lhe segredava refrigerios e tonicos restaurantes.

N'isto cogitava D. Julia de Miranda, quando disse á sua amiga:

—Faz o que te peço, filha. Não mostres resistencia á vontade de teu pae. Finge-te resignada. Entrega ao tempo o que não podemos conseguir com irritações; que não vá teu pae fechar-te no convento, onde eu estive{123} dois annos por causa de teu irmão. Cuidei que poderia recalcitrar, porque era tratada com mimo de filha unica. Enganei-me. Fui convidada a dar um passeio até ao Campo Grande; voltamos a visitar a tia Clotilde no convento de Sant'Anna; entrei na portaria para abraçal-a; e lá fiquei infernada até que meu pae me tirou por saber que teu irmão, envolvido com os jacobinos, emigrára para Londres. Aprende de mim, filha. Dissimula quanto poderes, e confia no tempo e nos milagres da tua constancia.

—Na morte é que eu confio...—replicou Anna, apertando a mão de Julia.

—Tens febre... A tua mão escalda!—clamou a surprehendida senhora.

—Vou deitar-me... Doe-me muito a cabeça... Não posso voltar á sala... Está lá gente, e não quero que me vejam assim... Olha, se vires Eduardo, dize-lhe que me escreva, que me deixe morrer com a certeza de que elle me lamenta e ama, sim? Não te custa a trazer-me as cartas, Julia?

—Não, filha; sem tu m'o recommendares, já eu tencionava dar-te esse prazer; mas com a condição de que has de ter coragem e prudencia.

—Pois sim, pois sim: faço o que tu quizeres...

—Então, vem á sala.

—Não posso, Julia... Olha que me sinto muito doente. Hei de estar melhor ámanhã, depois de chorar muito.

O commendador, n'este lanço, mandava perguntar{124} á filha se o chá teria demora, porque o conego, eructando o mal esmoido repasto nocturno, reclamava uma bebida digestiva.

Foi Julia á sala, e disse que a sua amiga se deitára molestada da cabeça.

Francisco Vaz cravou os olhos coruscantes na hospeda e murmurou:

—Já?! tão cêdo...

—São onze horas—disse Julia.

—Não me refiro ao relogio; é á cabeça—replicou o commendador, acerando a ironia com um sorriso, que deu que scismar ao primo conego.

Depois do chá, D. Julia ainda foi á alcova de Anna. Encontrou-a a ler as cartas de Eduardo, humidas de lagrimas. Beijou-a reiterando promessas e esperanças que ella fundava no muito amor que o pae lhe tinha.

—Quem sabe?—concluiu ella, modificando a sua primeira opinião—talvez que um poucochinho de febre assuste o extremoso coração de teu pae, e, em vez de te levar á sepultura, te conduza aos braços do teu Eduardo!...

Este erotico dizer, que não revia candor d'alma capaz de edificar as virgens legendarias, foi apimentado por certo sorriso que travaria ao acre da malicia feminil, se tal conjectura coubesse em dama tão exemplar na edade em que os impulsos da innocencia não são vulgares.

O velho, á meia noite, mandou saber de sua filha. Soube que a menina estava muito afogueada, e ao mesmo{125} tempo pedia á sua criada de quarto que a cobrisse com mais cobertores, porque tiritava de frio. Ante-manhã já o inquieto pae andava no corredor contiguo ao quarto da enferma. A creada sahiu espavorida da antecamara, dizendo que a fidalga, ahi pelas tres horas, delirára na febre, e se lançára do leito a querer abrir as janellas, quando a chuva estalava nas vidraças.

—Vá dizer á menina que eu quero vêl-a—mandou o commendador já attribulado.

Abeirou-se o velho do leito, onde ella o esperava, encostando a cabeça esvahida á almofada do espaldar. Elle chamou-a cariciosamente, apalpando-lhe as faces esbrazeadas; e ella, sorrindo-lhe com meiguice de quem implora indulgencia, beijou-lhe a mão.

Poucas palavras se trocaram, e nenhuma que viesse ao ponto da causa da doença. Disse o pae que ia chamar medico. Pediu-lhe a filha com um gesto meigo que não, e accrescentou:

—Isto não é nada, papá.

Não obstante, o medico, chamado com urgencia, receitou-lhe o que quer que fosse medicinalmente gastrico, entendendo que a viscera mais nobre, o estomago, devia ser a primeira a medicar-se.

Tanto o pae como a filha repelliram a sciencia representada n'uma poção em que de certo não entrava o contra-veneno do amor. Bem sabia o commendador que os phyltros cupidineos não cedem aos revolucivos que debellam as lombrigas.

D. Julia chegou ao meio dia, encerrou-se com a{126} doente, e deu-lhe uma receita de virtudes febrifugas. O doutor, quem quer que fosse, ao avêsso do ancião de Coz, abreviava a arte para alongar a vida. Era medico de mão cheia. Leu a febril menina o bilhete de Eduardo, e para logo as rosas do rosto se desmaiaram nos alvores da assucena. O pulso quebrou, os labios purpurejaram-se, e a arida lingua lubrificou-se. Milagres que a cada passo se topam nos florilegios, por influxo de agentes d'outra procedencia. N'estes, ha therapeutica do céo; n'aquelles prodigios de natureza toda humana, entra droga das boticas de Fausto, de Hamlet, de Manfredo, e de outros heroes do luciferino bardo que cantou as «Trevas».

Contou Julia que, ás nove da manhã, escrevêra a Eduardo, pedindo-lhe conta dos casos tristes do dia anterior. O moço correu ao palacio das Amoreiras, e referiu que Venceslau o prevenira da conversação com o commendador.

Se Julia, mais sincera que condoída de sua amiga, relatasse as impressões que Eduardo lhe deixára, diria que o viu menos consternado do que era de esperar, e tão christã ou stoicamente conformado á sua desventura, que faria inveja a Epictéto ou Kempis. Seria crueza não omittir este escuro traço do caracter do seu confidente. A ferida da sua amiga queria balsamos, e não cauterio. Semelhante denuncia iria coar a peçonha da desconfiança —a tortura da morte—áquella alma flammejante de fé.

As poucas linhas do bilhete, ainda assim, continham{127} duas phrases dignas do Secretario dos Amantes. Eduardo Pimenta promettia luctar contra a desgraça, e succumbir na lucta quando não podesse sahir com a victoria. Estes dizeres cadenciosos e arredondados andavam na voga, no respigo dos ledores das novellas de madame Cottin e do abbade Prevost.

Sem embargo, Anna rejubilou-se, e decerto se levantaria reanimada aos olhos do pae, se Julia não lhe advertisse que seria bom espacejar a convalescença, já para amollecer o coração do velho, já para afastar suspeitas de correspondencia clandestina.

Este dia e o seguinte passaram atormentados para o commendador. O medico, na segunda visita, farejou da arca do peito para dentro molestia inviolavel ás pilulas. Belleza, edade, respiração suspirosa, rubor dos lagrimaes, olhos pisados, e outros symptomas de inflammação psycologica, illucidaram o diagnostico. Declarou, pois, o doutor, sem auxilio da nomenclatura greco-latina, que a doente padecia da alma, e que o debil temperamento da sua organisação ainda imperfeita muito a custo resistiria ás commoções devastadoras. Era o systema d'este medico: primeiro o apparelho digestivo; depois o espiritual, se as doentes eram novas e solteiras. O segundo prognostico havia-lhe rendido a mais selecta clinica da capital. Muitos maridos d'aquelle tempo os levára elle ás enfermas capituladas de éthicas, como os medicos de hoje em dia lhes levariam das pharmacias garrafas de oleo de figados de bacalhau ou sulphato de ferro soluvel de Lerás.{128}

Compenetrado da consulta, o commendador lembrou-se aterrado que sua mulher e seu filho haviam morrido pthysicos. A perda da filha prefigurou-se-lhe calamidade superior a quantas elle poderia fantasiar, casando-a com homem somenos de Eduardo. Penetravam-no já de antemão espinhos de remorso. A ternura encarecia-lhe o perigo; e o quebranto moral proprio da edade arguia-o de inclemencia e fereza.

Tão rapido precipitára as invectivas contra Eduardo, quanto depois, ligeiramente e a só comsigo, rebatia os proprios argumentos.

—E se ella morre!—exclamava elle, invocando agora o juizo de Julia, tendo menosprezado os judiciosos dictames de Venceslau.— Que lhe diz o seu coração, minha amiga? Ella ama-o tanto que não possa esquecel-o? As distrações serão inuteis? Se fossemos para a quinta do Riba-Tejo..., se a minha boa Julia a levasse para a sua bella vivenda de Collares, conseguiriamos restaurar aquelle coração que ainda ha pouco era tão innocente, tão meu, tão alegre?... Que me diz, D. Julia?

—Façam-se as diligencias; mas desconfiemos do resultado. É o primeiro amor. Tem a força que aniquila todas as outras. Anna amou sem reflectir; a reflexão, que vem depois do amor entranhado, não aproveita. Foi assim que eu amei seu filho, snr. commendador. Bem sabe que trances padeci, que violencias arrostei, que inuteis severidades empregou meu pae. Nem o convento, nem as ameaças de me privar do patrimonio{129} me demoveram. A ideia de morrer, em vez de me acovardar o animo, alentava-me. Que valeram tantas dôres? Morreu elle, vergando ao pezo da minha cruz, e eu sobrevivi... para me condoer de quem soffre das minhas agonias. Tenho muito dó de sua filha, meu bom amigo, muitissimo. Hoje encontro-a mais animada, porque lhe dei esperanças, como os medicos as dão a uma thysica já nas ultimas vascas; mas se ámanhã eu não podér animal-a, a febre voltará, e depois Deus sabe se no peito d'ella está o germen da terrivel doença...

—Por piedade, não me diga isso, Julia... Esse punhal toda a noite me golpeou no coração... O meu grande terror é esse: é a morte da mãe, que um dia se queixou do peito, salivou sangue, cahiu esvahida, desfigurou-se, e... vinte dias depois, expirava-me nos braços, procurando com as mãos as cabeças dos filhinhos...

O velho, afogado por crebros gemidos, calou-se, enxugando as lagrimas que lhe resvalavam aos beiços trémulos da commoção.

D. Julia balbuciou expressões de enternecido allivio, e conseguiu conduzir o commendador ao quarto da filha, insinuando-lhe que só a presença d'ella, n'aquelle momento, lhe seria consolação.

Estava já em pé a doente, quando o pae se annunciou. Tinha-lhe ouvido as vozes trementes de lagrimas. Erguera-se pressurosa, qual se os remorsos de affligir o estremecido velho a pungissem. Lançou-se-lhe nos braços, chorando, como quem se accusa de não poder vencer-se. Era condição divina a d'aquella creatura! Se,{130} tres mezes antes, a vissem ajoelhada diante do Christo sombrio da claustra, Anna Vaz seria uma santa. Se Eduardo Pimenta, o moço pallido, aureolado pela tragedia do amor que o revestira do crepe sympatico da viuvez, não fitasse n'ella os olhos tristes da meiguice que pede as consolações amantissimas d'outra alma, a creança seria ainda para seu pae o sorriso que do céo lhe enviava, em labios innocentissimos, a chorada esposa.

Tomou nas suas o velho as mãos da filha. As arterias não arfavam de mais nem a epiderme denunciava perturbações de máo agouro; mas assim mesmo, os olhos do pae já não viam nas feições de Anna o viço purpurejado da saude, o sorrir florescente dos dezeseis annos. Deu-lhe o braço, e levou-a á sala, onde o fogão aquecia o ar d'aquelle famoso janeiro de 1821.

Anna aconchegou-se da fogueira; D. Julia sentou-se defronte, e o commendador entre as duas.

A passagem do quarto para a sala ao longo dos corredores frios constipára a menina. Tossiu com pouco esforço; mas, na audição do pae, aquelle accesso dava o som aspero das crepitações pulmonares; figurou-se-lhe estar ouvindo tossir sua mulher.

Nublou-se-lhe o semblante, e revia-se-lhe nos olhos a turvação da alma.

—Anna—disse elle, tomando-lhe a mão com extremada caricia— eu quero que sejas feliz; quero até que sejas infeliz, mas que vivas. Reanima-te, filha. Dou-te licença para casares com Eduardo.

A menina beijou-lhe a mão fervorosamente, e inclinou{131} a cabeça ao braço d'elle, como se quizesse esconder a exultação que devia parecer reprehensivel ao amor de seu pae.

—Crês, minha filha, que a vida te será mais agradavel, cazando? —interrogou o velho; e, sem aguardar resposta, voltou-se para D. Julia, accrescentando:—Que pergunta, que frivola pergunta! É o mesmo que perguntar a um cego, se crê que lhe ha de ser mais agradavel vêr!... Casarás, filha; mas com uma condição que teu pae propõe: não me deixarás; o amor, que me tinhas, dá-o a teu marido; mas não me deixarás, não?

—Ó meu papá, nunca! por alma de minha mãe lhe juro que nunca o deixarei, nem amarei menos do que hoje.

—Não jures, Anna... Pede á alma de tua santa mãe que te guie; mas não a invoques para affiançar as mudanças da tua vida...

—Meu papá!—replicou a filha perturbada pela solemnidade da objecção—se me julga capaz de o amar menos, então não me diga que case. É melhor que eu...

—Que tu, filha?

—Que eu morra, com a certeza de o não ter affligido...

—Eu bem sabia que tu eras a boa creança, o adoravel coração que és... Por isso é que eu cuidava que nenhum homem te merecia... E se pensei em te dar a outro, foi porque, entre tantos com que lidei no espaço de quarenta annos, eu nunca tinha encontrado condição{132} mais nobre de homem, na flor da juventude, mas sem mocidade... Entretanto, os amigos d'este homem, que a tua innocencia não viu, devem ser dignos d'elle. Se Venceslau Taveira assevera que Eduardo Pimenta é honrado, seja teu marido Eduardo Pimenta. Agora, minha filha, não me estejas doente; paga-me esta alegria que te dou; alegra-te, vive, renova a côr sadía das tuas faces desmaiadas... Dize-me ámanhã que estás boa, e me não has-de deixar, n'esta escurecida velhice, a esperar o beneficio da morte, sósinho, entre tres sepulturas.

Ergueu-se o commendador, e passou ao seu gabinete. Escreveu, e enviou a carta a Venceslau Taveira. E, depois, apoiou o rosto sobre os braços cruzados na banca, e chorou longo tempo. Ao emergir d'este lethargo, levantou-se de golpe, e murmurou: «Meu Deus! em que se funda o presagio da desgraça de minha filha! Que ha no rosto d'aquelle homem que me está aterrando! Ha dois dias que eu o via com affecto; não lhe admirava as virtudes nem arguia os vicios; pintava-se-me um como tantos que a sociedade préza; porém, desde que o imagino tão identificado á minha vida, esposo de minha filha, que fatidico horror é este!...

E, n'este emtanto, D. Julia de Miranda, testemunhava medianamente commovida o jubilo da sua amiga. Póde ser que ella, vendo desfechar o drama d'estes amores tão depressa quanto ao avêsso de suas previsões, se arguisse de imperfeita amiga, escondendo de Julia dous traços equivocos, senão maus do caracter de Eduardo. Um—aquellas amphibologicas palavras, que lhe elle{133} dissera um dia antes, e ella recebêra com tal qual severidade. Outro—a supportavel tristeza com que Eduardo, n'aquelle mesmo dia, lhe referira a quebra de suas relações com o commendador. Se outra causa menos para louvar-se era parte na limitada satisfação de Julia, quando a noiva de Eduardo festejava a sua inesperada ventura, não é facil averiguar, em quanto o curso dos successos nos não remover a triple muralha que véda o insondavel coração das creaturas predestinadas a distincções deploraveis.

Bem que inexperta e apenas alumiada pela escassa luz matinal do seu amor, Anna Vaz reparou, entristecida, n'estas palavras enigmaticas de Julia:

—Fez-me impressão o enthusiasmo de teu papá quando fallou de Venceslau! O rapaz decerto é o complexo de boas qualidades que teu pae avalia; nós, porém, as mulheres, temos o coração nos olhos, e o juizo no coração. O nosso vêr é tão diverso do reparar da experiencia! Quem nos diz que o melhor marido seria o menos amavel á primeira vista? Eduardo tem a eloquencia sympathica e melancolica do soffrimento que lhe deixou uma paixão contrariada; Venceslau tem o ar sereno de quem nunca soffreu nem motivou dôres a ninguem. Estes dois homens são a consolação ao pé da desgraça. O coração cheio de balsamos ao lado do coração cheio de lagrimas. Um amou muito, o outro não amou nunca. Eduardo tem um passado que ha de vir aguar-lhe as alegrias do presente. Venceslau, quando amar, ha de ser todo a felicidade do momento, a primeira{134} florescencia da alma sem imagem de mulher morta ou viva que venha confrontar-se com outra...

—Mas que quer dizer isso?!—interrompeu Anna.—Tu bem sabes que eu não amo o Venceslau.

—Pois não sei, filha!... O que eu te queria dizer é que, se em vez de amar Eduardo amasses o outro, talvez o teu anjo da guarda te inspirasse melhor...

—Porquê?... Não me disseste tantas vezes que o Eduardo era sympathico e muito amavel?...

—E eu digo-te agora o contrario?

—Mas achas que o outro seria melhor...

—Melhor para a felicidade da vida intima, filha; mas o coração não calcula o que ha de vir pelo tempo além...

—Tu atterras-me Julia!—exclamou a enleada menina, fitando na impenetravel amiga os seus olhos explendidos.

—Has de ser sempre creança!... volveu a desconcertada confidente, emendando as demazias da sua imprudencia.—Estou conversando comtigo, que vaes ser senhora; e tu queres que eu não tenha vinte e oito annos, e te falle a linguagem das meninas.

—Pois sim... mas tu desconfias de Eduardo...

—Eu desconfio?

—Sim... hontem não me dizias isso...

—E hoje que te digo?

—Que eu seria mais feliz se amasse o Taveira...

—Ai! que calumnia!... Calla-te, que ahi vem teu pae.{135}

O commendador entrou. A filha contemplou-o, e disse meigamente:

—O papá chorou?

—Se chorei? sim, filha... Dá-me os parabens, que chorei. Chorar é esmagar a dôr. As lagrimas são o sangue das angustias que os padecentes podem afogar entre as mãos. Quando ellas vencem, o homem não chora; morre.

—Morrer, meu Deus!—exclamou Anna.—Ó papá, meu querido papá!... não me falle em morrer, que eu já não quero...—E susteve-se por segundos.

—Que não queres, filha?... Pobre anjo!... não ousou proferir a palavra, receiando que lh'a acceitasse... Ai! não, minha pobre Anna... Has de casar com Eduardo... Se houveres de morrer, a teu pae basta-lhe a dôr... O remorso seria um supplicio que a minha alma nunca experimentou...

Ficaram os tres largo espaço silenciosos. Librava-se no ambiente d'aquella sala o archanjo das propheticas agonias.{136} {137}