Livro de Consolação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 6 de 26

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Livro de Consolação

Capítulo V

Ah Senhor,

Amor sejais vós de nós

E não haja amor com dor.

GIL VICENTE.—Farças.

No coração juvenil e compassivo do fidalgo beirão a historia d'estes amores deixou a melancolia piedosa propria de animos que ainda não padeceram.

Cuidam que a dôr experimentada afina o sentimento, e abrolha as flores perfumadas da compaixão quando lhe orvalham lagrimas alheias? Não é absolutamente verdade. Os muitos infelizes são por via de regra os menos sensiveis. Os desgraçados são egoistas. Não sabem, não podem, não querem consolar, porque se julgam credores das consolações dos outros.

Ao principiar da vida, a ignorancia do mal pende á condolencia e amiseração dos que choram. O homem que então nos contrasta a nossa alegria com lagrimas, e os hymnos de graças á Providencia com blasphemias,{52} assombra-nos. Das muitas flores e luz que nos abrilhantam e aromatisam a vida, formamos o reverso espantoso da escureza e avidez do desditoso que nos dá a entrever o mal, nem sequer sonhado nas nossas noites serenas. Então é o compadecerem-se de infantil dó umas almas predestinadas a revezes, abaladas por vaticinios lugubres do seu destino.

Não ha pois fiar-se a gente n'aquella compaixão da heroina de Virgilio que, recordando os seus, se pungia dos alheios males.

São peitos impenetraveis os cicatrisados de muitos golpes. O que ahi está dentro é a sciencia da vida com a terrivel certeza de que o mal é necessario e fatalissimo. Esta sciencia que nos vem por morgadio herdado, obra, não sabemos se divina, se diabolica da serpente do paraiso, dá-nos ares de philosofantes selvaticos, inflexos e frios. As lagrimas com que intentam amollecer-nos são como outras que já choramos sem mais utilidade que vingarmos affogar n'ellas o germen da confiança nos homens, e—quantas vezes!—da fé em Deus. E, se esta sublime palavra, e inenarravel sentimento, DEUS, chega a desluzir-se nos lances em que o invocamos, os affligidos cessem de confiar em nós. Devorem-se, salvem-se pelo despejo ou pelo suicidio, que a religião não lhes alvitra melhores recursos que a philosophia: tanto monta Jesus como Platão. Nem nós podemos encarecer a efficacia dos balsamos que nos coaram ao coração apenas um torpor, a paralysia das faculdades amantes da vida, ignorando-lhe as condições{53} durissimas, o terrivel desdem com que adormecemos debaixo da mancenilha, sem recear-lhe as exhalações homicidas.

Venceslau solicitou a estima de Eduardo, e affeiçoou-se-lhe com estremecida amisade. No fervor do seu affecto, parecia ser elle a providencial indemnisação á desventura do moço repulso dos braços do pae para os braços da esposa moribunda. Raras horas se apartava d'elle, velando-lhe as do repouso, e privando-se da convivencia dos alegres mancebos que se espantavam de tamanha devoção e tão desusado sacrificio a um desgraçado vulgar.

Por março de 1811 retirou o exercito francez de Santarem, perseguido por Wellington. Eduardo, ao entrar em Pombal, abraçou Venceslau, e disse-lhe tranquillamente:

—Vamos ter batalha decisiva. Heide morrer n'ella. Separa-te desde já de mim, que não quero vêr lagrimas, nem ouvir palavras piedosas em meio dos gritos dos agonisantes.

Pouco depois, escaramuraçaram as avançadas dos dois exercitos. Ao primeiro recontro, Eduardo Pimenta, arrancando do pôsto muito distante dos piquetes, embrenhou-se pela selva das bayonetas que retiniam dentro da cerrada bruma da polvorada. Em breve lanço, o impetuoso official cahiu cortado do ferro inimigo, e, quando a nuvem se rarefez, viu á sua beira Venceslau, descolchetando-lhe a farda para examinar-lhe as feridas.{54}

Eduardo, cerrando os dentes, abafava o grito da dôr; faltava-lhe, porém, vigor para repugnar ao curativo.

Um cirurgião francez disse a Venceslau que nenhum dos ferimentos era mortal. O ferido então abriu um riso de raiva á desgraça de sentir-se viver, e murmurou:

—Não sou um desgraçado vulgar...

E, rodeando a vista pelos moribundos roixos dos paroxismos, accrescentou:

—Eram talvez felizes esses que ahi morrem. Um d'elles fallou em sua mãe, e o outro pediu a Deus que lhe amparasse os filhos... Vês, Taveira? A providencia deixa morrer esses, e quer que eu viva, e que por nenhuma d'estas feridas eu possa arrancar a alma da sua cruz.

 

Não é tão raro morrer quem ardentemente o deseja?

Sei de homens desesperados que se offereceram em alvo, no ponto onde a metralha das pelejas varria as victimas a rôdo. Sei d'outros que procuraram a morte nos focos mais ardentes da peste. Vi uns que romperam contra as lavaredas das casas incendiadas simulando caridade heroica no proposito do suicidio. Vi alguns que se entregaram cegamente á medicina. E não morreram!

A morte praz-se em destillar ás gotas a peçonha do seu calix na garganta onde fervem e affogam soluços,{55} se as lagrimas da saudade derivam sobre o suor gélido da agonia. Foi a morte creada á porta do paraizo, quando a nossa archi-avó comeu o pomo. Creada como castigo, o seu officio é matar, dilacerando; unhar com a ponta da garra um por um os liames da vida, distendel-os devagar, descansando a intervallos, para que a seiva da esperança os reforce, e depois a angustia lateje n'elles em redobro. Como castigo, missão que o Creador lhe deu, a morte seria indigna do seu officio, se nos decepasse de um golpe. As trevas subitas, a paragem do coração, um dormir suave, um esquecermo-nos de tudo—morrer no instante em que tudo bom d'este mundo nos sorria esmaltado de todas as estrellas—seria supplicio condigno do affrontamento que Eva e o logrado marido fizeram ao Creador?

Não. Á morte urgia-lhe, em cumprimento do seu encargo, maior dominio sobre as potencias espirituaes que ella (convence-te, ó razão!) não mata, mas tortura.

Ahi está um coração de pae a arquejar em soluços de moribundo. Ha tres dias que se debate nas ultimas vascas. No decurso d'esses tres dias, ha visto muitas vezes os filhos que o chamam, que lhe affastam dos olhos os cabellos humidos, que lhe enxugam nas faces lividas umas lagrimas onde vae diluida a derradeira claridade das pupilas baças. Pois tres dias não bastam á maceração do holocausto e ás dilicias do sacrificador que sahiu do paraiso com o peccado!? Não. Aquelle homem está assim penando, ha de assim penar mais tres, mais seis,{56} mais nove dias, porque expia pelo corpo vibrante de nevrozes, e pela alma que se revolve em suas lagrimas.

Meu Deus, meu Deus, que triste, que procelloso, que vilipendio vos seria o mundo, se a minha alma só podésse entender vossa força nas dôres, nos medos, na morte, na viuvez, na orphandade, nos ricos sem caridade, nos pobrinhos sem enxerga!

Afaça-se, leitor, obsequiosamente a este meu velho sestro de vagamundear á volta dos assumptos, vestindo as nudezas da ideia com umas roupagens variegadas. É pensão da velhice, e talvez desejo perdoavel de fazer pensar as pessoas que abrem uma novella justamente para não pensarem.{57}