Livro de Consolação
Capítulo XVI
—Resolução tomada hoje.
—Veiu cá elle?
—Não... Eu te contarei tudo... Vae praticar a heroica virtude de fechar a carta, que não esteja eu a privar-te da benção de tua santa mãe... Adeus, até á noite.{187}
XVI
Melius est pubere, quàm uri.
Melhor é cazar-se do que queimar-se.
S. PAULO.
Seguidamente procurou D. Julia o capellão no seu escriptorio e disse-lhe:
—Snr. padre Manoel, mande sahir a traquitana, e vá á camara dos deputados convidar o snr. Venceslau Taveira a jantar hoje comigo. Peço á sua probidade nunca desmentida que lhe não diga a conversação que tivemos.
—Que tem V. Ex.ª? o seu espirito está desasocegado!—notou o padre com a mágoa do muito que lhe doía vêl-a estranhamente agitada.
—Vá! não me pergunte nada agora... Eu me confessarei á sua boa alma, quando me sentir mais tranquilla.
—Bem sei...—murmurou o padre—bem sei...{188}
E ella, fixando-o maviosamente parecia dizer: «se sabe...»
A improvisa deliberação de Julia é lance que nos revela indole generosa, mas precipitada; alma capaz de virtudes impetuosas, mas raras vezes encaminhadas á direita vereda por onde ellas conduzem á felicidade estavel. Convém saber que ha logica de ferro, pauta rigorosa nos actos encadeados da vida estreme de romance. As phantasias energicas e destemperadas que partem aquella cadeia, conhecem mais tarde que os élos quebrados eram a parte mais solida por onde a esperança devia prender-se á realidade.
De prompto occorre á sizuda leitora d'este livro que D. Julia resolveu repentinamente casar, quando a sua amiga lhe pedia conselho—a ella, unica pessoa que sabia o segredo da paixão de seu marido. Affastal-o de repellão, fulminar-lhe as esperanças, defender-se do ultraje com a respeitabilidade de esposa, e esposa de Venceslau Taveira—o amigo e bemfeitor de Eduardo—este foi o sentimento elevado que a impulsou a decidir do seu destino, como se os destinos impendessem d'estas determinações instantaneas. Foi um relampago que lhe allumiou o futuro; mas, se o fulgor electrico abrange dilatada circumferencia, densa escuridade se tece depois aos que apalpam rochas áridas que a luz azulejára como kioskes.
De mais d'isso, o reverso da ideia irreflectida não offerece contraste que a desdoira, sendo parte n'ella a vaidade, por não dizer soberba? Dispor de antemão da{189} condescendencia de homem tal como Venceslau, era fiar talvez de mais no iman dos seus quinhentos mil cruzados, ou illudir-se muito com a já desluzida belleza dos seus vinte e nove annos, ou então enlaçar presumpçosamente essas duas prendas ás graças do espirito que, em verdade, lhe davam a primazia entre as suas contemporaneas.
Se o padre Manoel, syndico do animo do deputado, se houvesse illudido nas suas analyses; se Venceslau nos sahir mais austero philosopho que o divino Socrates—para quem Aspazia e Lais eram espectaculos dignos da admiração do universo—a vaidade de Julia será derrotada irrisoriamente aos olhos de Eduardo; e o cahir de tamanha altura, onde ella se fantasiou alçada pela honra, dará o estrondo d'um escandalo ridiculo nas salas de Lisboa.
Antes da chegada de Venceslau Taveira já a tortura da incerteza flagelava D. Julia de Miranda, a ponto de sentir-se desvigorosa de espiritos para honestamente abrir conferencia de tanto melindre.
N'este desanimo dessimulado pela viveza propria do temperamento, a encontraram o deputado e o clerigo.
No semblante de Venceslau transparecia tambem a turvação das conjecturas. Aquelle convite era o primeiro, particularissimo, e subitamente resolvido. Até aqui havia chegado a confidencia do padre, cujo contentamento extraordinario devia ter mysteriosa significação nas perplexidades do convidado.{190}
Observou o hospede que D. Julia, a só com elle, denotava acanhamento desacostumado. A conversação esfriava no trivial. A politica era chamada á pratica, por ella mesma que tantas vezes a matraqueára, pedindo ao orador que deixasse a noiva em casa a fazer leis, quando lhe désse a honra de a visitar.
Quando um criado entrou á sala a saber se a fidalga mandava servir o jantar, D. Julia deu o braço a Venceslau Taveira, e foi dizendo:
—Somos sós, e mais o capellão. Ainda bem que na pessoa de padre Manoel Ferreira está symbolisada toda a academia real das sciencias. Eu concedo que fallem latim, e convidem para a meza todos os classicos romanos da minha livraria. Sinto não ter um triclinio para offerecer a Horacio; mas sentar-se-ha no collo do padre. Cicero, se vier; irá para o collo do snr. Taveira.
—Convidaremos Corinna, para que V. Exc.ª tenha alguem no regaço, disse o deputado.
O capellão, que já os estava esperando, ouviu a fineza do politico, e acudiu logo:
—Fallam da infiel amante de Ovidio?
—Não, senhor—disse Venceslau—fallavamos da poetisa grega...
—Rival de Pindaro—ajuntou o padre—a qual cinco vezes foi premiada nos jogos olympicos...
—Primeiro discurso academico!—atalhou D. Julia.—Não lh'o disse eu, snr. Taveira? Padre Manoel, continue, que eu sirvo-o de sôpa, se o snr. Venceslau não quizer acceitar o meu logar.{191}
—Ó minha senhora, apresso-me a receber tamanha honra...— disse Taveira.
—Gosto de o vêr ahi, snr. futuro secretario de estado...—disse o capellão.—Está na cadeira do snr. desembargador do paço Paulo Henrique. Nove annos esteve empacotada; e, tirante a snr.ª D. Julia, ninguem mais occupou essa cadeira. Não ha ainda quarenta e oito horas que eu perguntei a S. Ex.ª: «quando verei alli sentado seu marido?»
D. Julia córou, e o deputado tambem; mas padre Manoel, que não córava nos banquetes sem poder explicar o pudor com a alcoolisação do seu rico sangue, continuou:
—Voltando a Corinna, se viessem fallando da celebre amada do desterrado do Ponto, citar-lhes-hia a canção do banquete em que o poeta lhe impropéra a perfidia...
—Má iguaria nos banqueteava, padre Manoel!—contraveiu D. Julia.—Antes uma canção de amor fiel, quando a censura do crime não tem auditorio a quem possa aproveitar. Eu fico pela lealdade do snr. Venceslau aos seus mais caros affectos...
—E eu serei o fiador de V. Ex.ª—acudiu o deputado—mas se eu abono a lealdade de quem ama uma saudade, V. Ex.ª fica pelo vago amor de quem namora uma esperança. A favor da snr.ª D. Julia está o passado que funda em provas incontestaveis; eu, de mim, não posso consentir que V. Ex.ª me abone, sendo coisa tão incerta o futuro.{192}
—Eu referia-me ao seu amor privativo da patria—explicou a dama.
—A patria é como aquelle pão de que o homem não póde unicamente alimentar-se, na phrase do Evangelho—retorquiu Venceslau.—Varias vezes V. Ex.ª e a snr.ª D. Anna Vaz, motejando com bondosa graça a diligente assiduidade com que tento cumprir meus deveres, me tem dado fóros de selvagem desconversavel e alheio da lei commum do amor, que tanto influe no sybarita como no estoico. O gracejo era uma lisonja, visto que eu merecia as amaveis censuras de SS. Ex. as, mas, em verdade, minha senhora, se eu me vangloriasse de ser o que as minhas amigas imaginam, tarde ou cedo as faria rir da minha enfatuada insensibilidade.
—Pois quê?!—exclamou o padre—snr. Taveira, bebo á sua saude. Nunc est bibendum. Gósto d'essa franqueza! Homo sum et nihil a me alienum, etc.
—Estamos em casa de Mecenas—disse, sorrindo, D. Julia.— Entrou Horacio, e lá está a discretear com o padre.
—O latim é de Terencio—illucidou o erudito—e quer dizer que o snr. Venceslau Taveira é homem como os outros... Como os outros, quero dizer, os raros que se lhe assemelham na virtude e na sabedoria, na modestia e na moral, na vida illibada e...
—Pelo amor de Deus—interrompeu o deputado.—Parece que me está dictando a necrología, snr. padre Ferreira! Não usurpe aos mortos essas hyperboles... Veja os meus defeitos para que eu me considere tambem{193} examinado nas imperfeições menores. Já não é pequeno aleijão moral o defeito de coração que me censuram...
—Pois que quer?—volveu D. Julia—como hei-de eu julgar a sua indifferença em meio de tantas damas formosas e espirituosas que frequentam esta casa? Nenhuma o impressionou?
—Admirei-as... e passei, sem que ellas me vissem.
—Mas admirar...
—Admirar não é amar. As estatuas do Louvre admiram-se, e não se amam. A mãe que nos affaga, ama-se e não se admira. O amor brota da alma. A admiração forma-se no entendimento. Uma coisa tem muito d'arte; a outra deve ser espontaneamente natural.
—Materia estranha é essa em que não tenho voto—disse padre Manoel, engatilhando a pitada ao nariz.
—O homem do Evangelho não é o de Terencio—assentiu Venceslau.
—Mas—voltou o clerigo—posto que o Evangelho me não ensine nem consinta que eu aprenda experimentalmente o processo do amor, sei que Jesus Christo, instituindo o Sacramento que cinge com indissoluvel nó duas almas, santificou o amor que as identifica. D'este sacratissimo amor percebo eu; não se me importa saber se vem antes ou se vem depois da admiração; se é espontaneo da alma, se a alma é estimulada por affectos de natureza menos psycologica. Ha opiniões. Grammatici certant.{194}
Venceslau sorriu, sem encarar em D. Julia, que provavelmente não entendeu a phrase nem o sorriso.
E o padre seguiu n'este dizer mesurado e solemne:
—Ha de haver trinta e seis annos que o snr. doutor Paulo Henrique era solteiro e eu estudante in minoribus, já então familiar d'esta hospedeira casa, onde me fiz gente. Bem que eu fosse filho do mordomo do fidalgo, a honra de me sentar a esta mesa já vem d'esse tempo. O joven doutor folgava de me ouvir recitar versos dos poetas cezarios, e dava-me a honra de lhe ouvir os seus magnificos hexametros. Fallavamos um dia de outros assumptos menos litterarios, mas não menos poeticos. Conversavamos de amores, mas amores honestos como a mocidade de então os tratava theorica e praticamente, eis que o snr. doutor me disse, respeito a casamento: «Olha, Ferreira, eu não ando por salas em damarias de peralvilho; abomino os insulsos requebros com que os namorados parecem noviciar antes de professarem votos tantas vezes quebrantados. Se eu encontrar mulher que me deixe viva saudade, e desejo de tornar a vêl-a, indago-lhe da vida; e se as informações m'a derem ao sabor da ideia que fórmo da esposa excellente, pergunto-lhe se me quer para marido. Se me responder que sim, a minha mulher ha de ser essa.» Pouco tempo depois, na cadeira em que está sentada a snr.ª D. Julia, estava a snr.ª D. Maria das Dores Mascarenhas, mãe de V. Ex.ª, exemplar de todas as virtudes conjugaes, tão amada na vida, quanto chorada na morte.{195} Sendo já fallecida sua Ex. ma mãe, estava V. Ex.ª, menina de nove annos, no logar onde a vejo, eu estava onde estou, e o snr. desembargador alli. Recordamos então com lagrimas a nossa pratica passada nove annos antes; e seu pae, correndo-lhe a mão pelas faces, disse: «permitta o céo que esta creança seja amada como foi sua mãe; e que as galanterias das salas e os fumos da lisonja lhe não offusquem o entendimento na escolha de marido.» Contava quinze annos esta senhora, quando Antonio Vaz, cadete de cavallaria, a cortejou. O snr. desembargador foi avisado. Soube cujo filho era o moço. Não lhe desfez na geração honrada e antiga; mas, averiguando qualidades proprias—que eram o essencial para o snr. desembargador—descobriu que Antonio Vaz, tendo amado uma filha segunda, formosa e todavia pobre, se esquivára de compromissos havidos com ella para requestar a rica herdeira, a snr.ª D. Julia. Tal foi a origem dos dissabores que lhe amarguraram os derradeiros annos, e vestiram de pesado lucto a mocidade da constante senhora, sacrificada não ao capricho, mas á moral sublime de seu pae. Prézo-me de fazer justiça á memoria do meu bemfeitor, sem apoucar nos merecimentos de Antonio Vaz. Elle era digno de tal esposa, desde o momento que ella o considerou digno de si...
—Mal cabidas reminiscencias...—murmurou D. Julia magoada.
—Tristes...—observou Venceslau—mas sempre bemquistas da alma que não as quer nem póde esquecer. Entretanto, sendo ambas as memorias veneraveis,{196} uma do pae que foi illudido, outra, a do primoroso moço que não podia mentir-me, peço á snr.ª D. Julia que respeite por egual a memoria do seu pae, que viu a infelicidade atravez das nevoas do seu affecto paternal, e a memoria do coração que se deliu nas lagrimas do primeiro amor, flagellado por quantos supplicios podia consagrar uma sepultura.
Susteve-se, compenetrado da impertinencia do logar com a funeral memoria, e disse commovido:
—Absolva-me V. Ex.ª d'esta indiscrição... Eu hei de ser sempre o homem inculto, que se deixa levar para onde a alma o leva, sem vêr quando a tristeza ou a alegria competem ás occasiões.
—A culpa não é sua—desculpou D. Julia—quem nos deu este quarto de hora escuro, foi o snr. padre Manoel Ferreira... nem eu sei para quê...
—Primeiro para commemorar—respondeu o imperturbavel capellão—o profundo juizo do pae de V. Ex.ª respectivamente a casamentos; segundo para lhe defender a memoria, em presença de sua filha, da arguição iniqua, mas involuntaria, que lhe fez o snr. Venceslau Taveira, quando ha dias me disse que o snr. desembargador tolhera a felicidade da snr.ª D. Julia. Enganaram-no, meu honrado amigo. O snr. desembargador, amando extremadamente sua filha, teve da bondade divina o dom da previsão, e anteviu que, depois de sua morte, viria guiado pela Providencia a esta casa o homem predestinado a ser esposo e pae de sua filha, esposo pelo amor e pae pela seriedade do seu porte e madureza{197} de juizo. Ora, o homem previsto e vaticinado pelo pae d'esta senhora... era Venceslau Taveira.
Não espere o leitor que se lhe dê o esboço de grandes assombros e perturbações. Se elles não se espantaram do remate do discurso, é justo que eu me contenha nos limites do mais moderado espanto. D. Julia rozou-se, abriu um sorriso pudibundo, que lhe agraciou angelicalmente os labios silenciosos; mas fitou os olhos no prato, onde depozera o talher, e só os levantou, quando Venceslau Taveira principiou fallando.
Vão vêr que nas palavras d'elle transluz amor; mas amor sem o enthusiasmo pautado e obrigado em casos d'esta natureza. É alma sincera e rija, que opéra sem o complicado apparelho nervoso com que se fabricam os extasis e os spasmos que a natureza copía dos palcos. Tem o coração subordinado ao raciocinio. Faltam-lhe ahi as fragrancias e as musicas que perfumam a palavra e lhe dão o rythmo apaixonado. Mas não é isso a esterilidade, o desapego, a aridez que imbebe as lagrimas improductivas como areal onde os orvalhos não verdejam uma hervinha. É indole corrigida pela severidade dos costumes, prevalecimento da razão sobre os sentimentos que a fantasia não desabotoou na razão propria. Venceslau orçava pelos trinta annos. N'esta edade, o amor, pela primeira vez experimentado, não abrolha em luxuosas florescencias. O arrebol do coração encontra já o meio-dia do espirito. Quasi que uma luz serena e egual neutralisa os incertos esplendores da outra. E, se ha escuridade no intimo sentir d'essa edade, a luz{198} ideal resvala pelo seio frio do gear da desgraça, e não o aquece. A condição do deputado não era bem esta; mas tambem não era optima para exuberar delicias no coração de mulher que o amasse ambiciosa das idolatrias do amor virginal. Talvez coubesse aqui averiguarmos se Julia o amava; protrahiremos a penosissima resposta: ella que responda opportunamente. Pelo emtanto, vejamos que sahida elle deu áquelle passo angustioso, de que o leitor e eu nos tirariamos tartamudeando lyrismos dignos de mais levantada historia.
—O silencio da snr.ª D. Julia convence-me de que o snr. padre Manoel Ferreira deu ás suas palavras o espirito de respeito que se deve a V. Ex.ª, e o de sinceridade que ouso pedir para mim. O que vou dizer, minha senhora, será dito sem commoção. A felicidade alvoreceu na minha vida pela primeira vez; mas, não tendo eu visto senão homens desgraçados pelo amor, a experiencia das dôres alheias faz que o raio da luz nova toque já menos ardente na minha alma, tendo de atravesar a frialdade da razão. Ouça-me V. Ex.ª: eu vi-a no exilio espelhada nas lagrimas de Antonio Vaz; vi-a ajoelhada ao pé da vala onde eu ajudei a descer o caixão; vi-a nos dias eternos de oito annos de proscripto, e procurava nos olhos do seu retrato a scintillação do pranto. Ha muito tempo, pois, que V. Ex.ª vive nas minhas meditações, na minha poesia triste;—porque tambem eu fui poeta, não para cantar amores ou saudades e ainda menos esperanças, mas para me enlevar nos espectaculos do soffrimento a que assisti. O poeta adopta{199} as imagens da sua fantazia e com ellas fórma a ideal convivencia em regiões de luz ou de trevas; eu tambem vesti de crepe uma suave e pallida imagem de mulher, unica em minhas contemplações: era V. Ex.ª Interrogando o meu coração, impunha-lhe violentamente o preceito de me enganar; amordaçava-o para que me elle não dissesse que eu poderia apagar a saudade de Antonio Vaz, e renovar no seio puro d'outro affecto um segundo amor. Além d'isto, retrahia-me o escrupulo da deslealdade ás cinzas do meu amigo: parecia-me que era ultrajar-lh'as afoitar-me a pedir para mim a felicidade que elle anhelou, e mais acerba lhe fez a desesperação que aos olhos embaciados pela morte se mostra ainda a negrejar e a sumir-se no abysmo do passado. Descendo do alto ponto d'estas considerações ao vulgar e mais positivo do juizo social, vi que muitos homens abastados, e ao mesmo tempo prendados de amaveis dons, rendiam a V. Ex.ª o preito de seus affectos, sem todavia lhe perturbarem a serenidade da sua heroica renunciação. Ao mesmo tempo, olhando em mim, com a reflexão que me esclarece os meritos alheios, via-me pobre, desvalido das qualidades que dispensam a riqueza, incapaz de pedir ao artificio os donaires e geitos que modificam a rudeza natural, peorada pela soledade do gabinete e preoccupação de estudos incompativeis com as finas graças da cortezia. Se algumas vezes, um intimo alvoroço me dizia que V. Ex.ª me honrava com estranhas distincções, eu mandava immudecer o amor proprio, e explicava a mim mesmo a{200} estima de V. Ex.ª pelo sentimento de gratidão ao confidente de Antonio Vaz —ao homem que lhe trouxera no retrato d'elle o ultimo lampejo dos olhos que a tinham contemplado. Iria mal a meu caracter franco fingir-me surprezo por este imprevisto abalo. Hoje, quando o snr. padre Manoel Ferreira me convidou a jantar com a snr.ª D. Julia, experimentei a nunca sentida impressão que produz os ineffaveis estremecimentos do susto, da vaidade, do orgulho, do jubilo das creanças—felicidade febril que eu sentia nas palpitações do coração. O amor que a tantos homens se manifesta em commoções, que augmentam de intensidade, com intercadencias de despeitos, com irritações de ciumes, com o remorso até das injustiças que se commettem—o amor, que nasce já santificado pela pureza do seu destino, esse, minha senhora, o deposíto aos pés de V. Ex.ª