Livro de Consolação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 19 de 26

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Livro de Consolação

Capítulo XVIII

 

C'etait incompréhensible, inouï, miraculeux...

A. DUMAS.—Amaury.

A criada antiga, que dormia na recamara de D. Julia, segredou ao padre Manoel Ferreira que a fidalga, durante as noites seguintes á decisão de casar-se, poucas horas descansára, e algumas vezes dava uns ais tão do amago da alma que parecia gemer em grande afflicção.

O padre comprehendeu poeticamente as insomnias, attribuindo-as ao alvoroço proprio de noiva. Bem é de entender que o sabio, nos seus livros latinos, não tinha lido casos de noites desveladas por motivos molestos, se era amor quem desafinava a harmonia das funcções empenhadas no phenemeno do somno. Não obstante o silencio dos classicos romanos a tal respeito, padre Manoel indagou da propria fidalga a causa das suas noites{218} mal dormidas. Respondeu D. Julia que a preoccupavam receios de infelicidade, resultantes d'um casamento pouco meditado e talvez incompetente, assim a Venceslau como a ella.

O capellão, atonito com tal resposta, nem de leve curou de lhe dissipar as apprehensões; antes, muito de sizo, se offereceu para desfazer o que intempestivamente fizera, espacejando com qualquer honroso subterfugio o cumprimento da promessa, até que Venceslau, cavalheiro pundonoroso, aconselhado por sua dignidade, desquitasse a noiva do compromisso.

D. Julia repugnou tal evasiva, declarando com fidalgo entono que desadorava entrar em porfia de pundonor com Venceslau. E concluiu dizendo que a sua palavra estava dada.

—E o seu coração, minha senhora?—perguntou o padre.

—O meu coração...—murmurou ella—morreu quando as pulsações cessaram no coração do primeiro e unico homem que amei.

E o capellão, fitando-a silencioso e magoado, de si para comsigo julgou que D. Julia não podia ser dada como exemplo de senhora perfeita, moralmente fallando.

E, desde esta hora, padre Manoel, sentindo sobre a consciencia o gravame de tremenda responsabilidade, andava triste, como assombrado, a cogitar e a pedir a Deus que interviesse de modo que o casamento não se realisasse.{219}

Deus não o attendeu, ou interveiu mysteriosamente. Como quer que fosse, o casamento fez-se no fim do anno 1821.

Foi muito soado o caso em Lisboa, e muito invejado o provinciano. O juro dos quinhentos mil cruzados da consorte deu-lhe direitos á consideração publica muito mais relevantes que os do talento acrisolado por altas virtudes de patriota. Haveria quem lhe emulasse a qualidade de primeiro orador e preconisado ministro; mas a de proprietario da mulher, que representava duzentos contos, seria capaz de ajuntar á inveja o respeito abjecto—mascara do odio. E, comtudo, os habitos de Venceslau Taveira mantiveram-se no mesmo grau de solicitude, trabalho e mediania. A traquitana de sua esposa ninguem lh'a viu em frente do paço das Necessidades, onde então legislava o congresso. Madrugava mais que os seus collegas abastados para poder chegar ao mesmo tempo que as carruagens d'elles. O seu trajar arguia decente mediocridade, auxiliada pelo esmero na limpeza; não era o surrado desalinho com que desculpamos os philosophos, quando nos fallece direito a mandal-os lavar a cara.

Este proceder de Venceslau recendia aromas de virtude, era abnegação que muito louvava padre Manoel Ferreira; porém D. Julia de Miranda não se admirava nem comprasia. Em conta de affectação orgulhosa foi que ella tomou a isempção do marido, julgando-se por isso menospresada na riqueza. Quanto a ser amada, confessava D. Julia que o era como seria qualquer outra{220} menina pobre que não désse tão brilhante, e tão desdenhada independencia a seu esposo.

O viver intimo de Venceslau, em verdade, destoava do que é costume serem maridos amantissimos, em quanto a corôa nupcial se não desmaia de todo.

Tinha horas de gabinete, e então folgava que Julia se detivesse a contemplal-o folheando livros, tirando notas, arquitectando discursos, e comparando a indole da nação ignorante com os luminosos codigos das nações civilisadas. Isto não é bem poetico; realmente não é.

Assim que era tempo, ia para as côrtes, e recolhia com a maxima pontualidade a jantar; mas, se os negocios do estado implicavam á exactidão do repasto domestico, o funccionario, submissso ao sacrificio, não antepunha o gozo da familia aos deveres de cidadão estipendiado para a servir. A poesia aqui tambem não é que farte para um madrigal.

As noites eram todas de sua esposa. Se ella sahia a bailes ou visitas, de bom rosto a acompanhava; mas uma por outra vez lhe disse, beijando-a e ameigando-a:

—Não passarias melhor a noite no socego da tua salêta comigo, com os teus livros, e com a doce companhia do teu fogão?

Julia algumas vezes cedia suavemente ao brando convite; Venceslau, porém, notou com secreta mágoa que ella, por volta das dez horas da noite, difficilmente resistia aos enfados do coração que se manifestam em abrimentos de bocca.

A esposa deitava-se; e o esposo ia para o seu gabinete{221} onde trabalhava até ás tres da manhã. Se ha n'isto poesia, confessemos que em casa de cada mercieiro ha inspirações para tres opopêas.

E porque não iria Anna Vaz passar as noites com a sua amiga? Por que não ía Julia esparecer saudades da juventude, se as tinha, na familiar convivencia do commendador?

É simples a resposta; mas ha que presagiar calamidades n'ella.

Marcado o dia do casamento, Venceslau convidára Eduardo a ter parte na sua festa do coração, assignando como testemunha na egreja. O commendador tambem foi como padrinho e madrinha a filha. Os restantes do pequeno cortejo eram alguns deputados anciãos e militares companheiros do exilio do noivo.

Eduardo apresentou-se na ceremonia com certa compostura grave, melancolica; porém de modo algum suspeita. Anna, docil aos preceitos de Julia, mas talvez mais submissa aos do coração, espionava involuntariamente os raios vizuaes do esposo. Escassas vezes o colheu em flagrante delicto. A noiva por sua parte parecia esconder mais do que elle o relance furtivo de olhos; todavia, se alguem lhe chamava a attenção para Eduardo, se Venceslau lhe dizia: «o Pimenta está pallido e triste», ella encarava-o com desassombro, e respondia qualquer coisa, sorrindo banalmente, como se fosse uma tola vulgar.

O banquete das nupcias foi modesto, moderadamente animado, e concorrido de velhos que nem sequer primavam{222} nas jogralidades proprias do acto, e sempre bem acolhidas, quando vem auctorisadas pelas cans; que o impudor senil tem fôro de graça lusitana, segundo parece, em festins de noivado. Os coroneis e os legisladores commensaes de Venceslau fallavam de politica e de batalhas. Venceslau foi eloquente n'estes assumptos. Padre Manoel Ferreira manteve-se em silencio meditabundo. O commendador conversou sempre com Julia. E Eduardo nunca se mostrou tão apontado em attenções carinhosas a D. Anna.

O restante da noite correu mais animada, graças ao espiritismo dos coroneis, que tinham brindado repetidas vezes á liberdade, e ungido com profuzas libações o seu athletico odio contra o despotismo. Os legisladores tambem.

Findo o saráo, Eduardo apertou a mão da esposa do seu amigo, e pôde ceciar umas palavras que ella ouviu com a audição interior da alma: «Nunca mais».

Ninguem a viu descorar; mas ella desconfiou que a vissem, porque lhe quiz parecer que o sangue se lhe congestionára no peito e que ao longo das faces lhe resvalára a sensação do frio. Imaginações, talvez. Nervos.

Ao outro dia, D. Anna Pimenta, a hora desacostumada, e menos propria de visitar noivas recentissimas, appareceu em casa de Julia. Eram onze da manhã, e já encontrou Venceslau a sahir. Aos reparos da esposa do seu amigo respondeu elle que não podia faltar ao congresso, onde se pleiteavam graves projectos de lei. A amorosa senhora não pôde sequer por delicadeza louvar{223} semelhante patriotismo. Lá no seu recondito juizo diria talvez ella, em prosa menos pedestre, que não havia lei em projecto que valesse uma formosa mulher já realisada.

Encontrou Julia no toucador, sentada, em frente do alto espelho, n'um reclinatorio de estofo cramezim, com os opulentos cabellos a serpearem sobre as rendas do penteador, e umas travessas d'oiro a desviarem-lh'os das fontes. A posição languida da noiva, um pouco antes, denotava abatimento moral, um ar reflexivo de quem se quer imaginar n'um sonho infeliz, e não póde tirar dessa forçada quimera senão tristezas.

Mas, ainda assim, quando ouviu passos e conheceu a tosse nervosa de Anna Vaz, desanuviou a face, illuminou-a d'um sorriso, e apertou nas suas as mãos da amiga.

—Tão cedo?—perguntou ella.—Tu vens febril!...

—E agitada, porque vim a pé... Venho despedir-me...

—Para onde vaes?!

—Para a quinta do Riba-Tejo. O Eduardo esta manhã, ergueu-se ás seis horas, e pediu-me carinhosamente licença para ir passar á quinta algum tempo. Eu disse-lhe logo que o acompanhava; elle mostrou-se grato á minha dedicação, e resolvemos partir ámanhã de madrugada. Agora preciso dizer-te o que penso de meu marido. Esta resolução de sahir sei eu, e tu tambem sabes, d'onde procede; mas eu não lhe disse a menor palavra{224} a tal respeito, deixando-o persuadir da minha ignorancia. Creio que elle te ama... digo-te isto sem lagrimas, porque já chorei quantas tinha... Se elle foje de ti para te esquecer, espero que a nossa tranquillidade se restabeleça. Da minha parte, seguirei até ao fim os teus dictames. Hei-de fingir sempre que tudo ignoro, por amor d'elle, de meu pae, de ti... e de mim tambem... Olha, Julia, sorri-me uma esperança... Póde ser que o nosso primeiro filho seja o anjo de reconciliação entre nós. Pareceu-me que os olhos d'elle me encaravam com extraordinaria ternura, quando ha dias lhe disse, que eu, d'aqui a quatro mezes, havia de vêl-o a acalentar nos braços a nossa creancinha... Porque não choro eu agora ao despedir-me de ti? porque te amo, Julia, apesar de saber que és mais amada que eu? Sabes porque é? Quando se tem no seio um filho, as lagrimas estancam-se, e os odios não podem empeçonhar o coração onde se está formando a alma d'um innocentinho... Deixemos passar esta borrasca... Tempo virá em que sejamos muito felizes...

—Eu? Nunca mais...—murmurou Julia.

—Porquê?...

—Não torno a ser o que era antes que á casa de teu pae entrassem estes dois homens fataes, um que escureceu a tua alegria, e o outro... que eu não...—E susteve-se, como envergonhada de si mesma.

—Que tu...—instou Anna.

—Nada, filha... não me interrogues... Olha... eu{225} amei teu irmão... amei-o quando tinha a edade e as illusões da infancia... Elle morreu... e envolveu na sua mortalha o meu coração...

—Mas... para que...—disse D. Anna hesitante.

—Para que casei, queres tu perguntar-me?...

—Sim...

—Se eu t'o disser... has de querer ajoelhar aos pés da tua amiga victimada... e eu levantar-te-hei nos meus braços para te pedir que não me faças responsavel dos teus dissabores...

—Dize... que eu não te entendi...

—Para que me casei?... para que teu marido me respeitasse casada... Para que me casei com Venceslau? Para ter por defeza da minha dignidade o homem que teu marido mais respeita...

D. Anna abraçou-a com vehemencia, bebeu-lhe as lagrimas nos beijos, e murmurou:

—É impossivel que Deus não te dê o galardão de tanta virtude... Esse grande sacrificio ha de trazer-te dias de inefavel contentamento...

—Nenhuns... ha-de trazer-me apenas—e já não é pouco—a satisfação de te ver socegada.... Vae, filha, e escreve-me sempre que possas. Se vires que elle quer voltar a Lisboa antes de me ter esquecido como se esquece uma mulher já desfeita na sepultura, avisa-me, que eu hei de mover Venceslau a ir viajar... Depois, quando eu voltar, estarei velha e tu ainda nova e bella. Os cabellos brancos não tardam. As rugas já me começam na alma... Ha uma velhice que nos passa do coração{226} para o rosto... é a saudade... é vêr o passado feliz lá ao longe, e o presentir a morte no frio que nos cerca...

—Mas, ó meu Deus!—exclamou Anna, pondo as mãos— Venceslau Taveira não te ama?

—Ama com o amor dos trinta annos, quando desde os vinte se procuram e encontram as paixões na politica, na meditação e no estudo... Não vês isto? Casei hontem; e meu marido foi hoje ás dez horas para o congresso, depois de me dizer que prevía a emancipação do Brazil em breve tempo, e que hoje mais que nunca os bons portuguezes deviam acercar-se do leito da mãe patria que ia perder a filha que lhe era o amparo da velhice. E se visses a gravidade com que elle me discursava estas coisas? Parecia um pae illustrando a ignorancia de uma filha!... Ó Anna... se eu tivesse coração... se houvesse casado com Venceslau amando-o muito, que lagrimas me não custaria este desengano!...

—Pois, sim—redarguiu Anna Vaz—convenho que Venceslau seja tudo que dizes, mas verás que nunca te ha de dar a mágoa da perfidia...

D. Julia sorriu-se com aspereza, ironia, e talvez motejo d'essa virtude da lealdade que apenas lhe lisongeava o orgulho.

—E tu verás—proseguiu aquella perfeita alma cheia de lagrimas, quando a outra sorria—verás que te ha de amar cada dia mais; e que, depois das suas occupações, virá para ti cheio de alegria, e sedento dos suaves prazeres da vida intima...{227}

—Porque o não amaste, Anna?—perguntou de salto e desapropositadamente D. Julia.

—Porque o não amei?... Se eu amava Eduardo...

—Viste-os ao mesmo tempo... ou, mais exactamente, viste primeiro Venceslau... Porque o não amaste?—insistiu a arguciosa dama.

—Se elle me tivesse amado, antes que Eduardo me escrevesse, eu de certo lhe correspondia, porque me pareceu sempre estimavel, nobre, honrado, fallando de meu irmão com as lagrimas nos olhos, e respeitando meu pae, que o presava extremamente.

—Sei isso... mas o teu coração, á vista d'elle, não sentiu os estremecimentos que lhe causou Eduardo.

—Bem sabes como foi, filha!... Eduardo, á segunda vez que foi a nossa casa, estando eu a tocar, disse-me que, se o não podia salvar com o amor, que lhe tocasse musicas bem tristes que o podessem salvar com as lagrimas... Estas palavras acharam em minha alma toda a sensibilidade d'uma rapariga innocente... Depois vieram as cartas... depois... tu sabes tudo como se passou...

—Sei...

—Mas que perguntas me fazes!... Ó Julia, se não amavas Venceslau, não devias casar. A tua dignidade não precisava que um marido a defendesse. Ha quantos annos eu te conheço pretendida e amada; e nunca te vi receosa de ninguem! Bastava o teu desprezo para rebater os mais atrevidos. O sacrificio, que fizeste da tua liberdade, para que eu te não julgue causa dos meus occultos{228} desgostos, era desnecessario. Tão confiada estava eu na tua virtude de solteira como na de casada...

—Sacrifiquei-me então inutilmente?—interrompeu Julia.

—Inutilmente não, que eu irei jurar que se eras um anjo para mim, és agora uma victima da santa amisade que me tens; mas inutilmente para a tua honra, isso sim; porque não é teu marido que te ensina os deveres; és tu que os prescreves ás tuas paixões...

—Quaes são as minhas paixões?—perguntou D. Julia por tão estranha maneira que incutiu na amiga receio de a ter offendido.

—Eu não digo que as tenhas, filha...—emendou ingenuamente D. Anna.

—Então?

—Queria eu dizer que tu dominarias as tuas paixões, se fossem más... Comprehendeste, Julia?...