Livro de Consolação
Capítulo XIV
—Não me dê foros de philosopho, meu bom amigo—volveu o deputado, atinando com o intuito do velho.—Verdade é que, se a philosophia é ou foi officio de gente mal enroupada e mal alimentada, eu, pelo que toca ao alimento, estou a ponto de professar o stoicismo dos famintos mais celebres da Grecia e Roma. São seis horas e não jantei ainda. Recebo as ordens de V. Ex. as
—Se recebe as nossas ordens—disse D. Julia—ámanhã irá jantar comnosco á sua casa das Amoreiras.
—Beijo as mãos de V. Ex.ª por tamanha honra...
—Mas se a patria o impedir?—tornou ella.
—É vão o receio, minha querida senhora. A patria por em quanto janta, e deixa jantar os seus filhos. Não se trata de lhe matar a fome; da indigestão de lautos banquetes é que eu e outros mezinheiros a queremos curar.{167}
XIV
Cuida que as namora todas.
SA DE MIRANDA.—Egloga.
Desde que o desembargador do paço Paulo Henrique Henriques de Miranda fallecera, os candelabros e serpentinas nunca mais illuminaram as salas luxuosamente estofadas com as alfaias dos Tavoras. A herdeira, porque vivia magoada e era só, esquivou-se a receber as antigas relações de seu pae, e até dos proprios parentes se desonerou, não pagando visitas além das cerimoniosas. Poucas horas do dia demorava na sombria casa; e o restante d'ellas e o mais da noute eram de Anna Vaz e do commendador que ella considerava sua familia.
O capellão, padre instruido, que devia ordenação e bens de fortuna ao desembargador Paulo, muito tempo lidou com D. Julia, instando-a a casar-se, a fim de repôr aquella casa no esplendor antigo, aviventar as salas{168} desertas, dar vozes áquelles corredores funebres, e crear os netos do illustre desembargador, cujos parentes lateraes elle desadorava por immensamente brutos. «Se esta casa—dizia quasi iracundo o padre Manoel Ferreira— resvalava aos grandes abysmos de ignorancia em que jazem seus primos, receio bem, fidalga, que seu pae a maltratasse no céo, embora V. Ex.ª lá subisse virgem, e, de mais a mais, martyr das suas quimeras. Caze-se, minha senhora! caze-se!»
D. Julia galhofava com o capellão, e dizia-lhe:
—Não se afflija, padre Manoel, que eu hei de casar. Vá pensando no noivo, que eu faço o mesmo. Que seja galante, gentil, poeta... ouviu?
—Poeta!—resmuneava o clerigo com reprovativo esgar.—V. Ex.ª não sabe o que são poetas em Portugal? Aqui não ha Horacios nem Racines, nem Virgilios nem Delillos, honrados pelas musas, e coevos dos grandes reis na immortalidade. Cá, os poetas são os ebrios do café das Parras e do Nicola do Rocio. É o ex-frade corruptissimo Macedo, era o virulento Bocage, é o safadissimo histrião José Daniel, e quem mais? Poetas!... Poeta era o snr. desembargador do paço, a quem o meu amigo Francisco Manoel do Nascimento mandou lá do desterro odes puro horacianas em resposta d'outras; pois saiba, exc. ma snr.ª, que seu pae, sendo poeta que não invejava Garção, nunca admittiu ás suas salas esses poetastros, que por ahi ornejam a trocar sonetos magros pelas sopas gordas d'uns Mecenas dignos d'elles. Olhe-me o Tolentino... aquelle pedintão...{169}
—Está bom, padre Manoel!—suspendia D. Julia—não me leccione a historia dos poetas que detesta; mas escolha-me um que faça odes como Horacio, e Georgicas como o seu Virgilio: ache-m'o que eu prometto devorciar-me d'elle se me obrigar a ouvir-lhe os poemas.
O bom do padre, a rir e a tabaquear, citava alguns versos latinos, já quando a fidalga ía longe do supplicio de ouvir-lh'os.
Isto veiu ao ponto de se dizer agora que o capellão se alegrou devéras quando viu sentados á mesa grande—que estivera devoluta no lapso de nove annos,—o commendador Vaz, sua filha, o genro, e, sobre todos lhe dava prazer infinito, Venceslau Taveira, o moço em quem elle venerava virtudes sem alardo e conhecimentos ponderosos da latinidade classica.
Ao primeiro convite seguiram-se outros para banquetes em que reverberavam a baixela antiga, os cristaes da Saxonia, as louças indiaticas, a opulencia dos Henriques de Miranda, herdadas d'um celebrado avô, ministro e valido, que tão funesta e deshonestamente privára com Affonso VI.
Venceslau Taveira, constrangido pela urbanidade, concorria ás festas da sumptuosa dama.
Aos jantares lautos seguiram-se os bailes; onde a nobreza ostentava aos olhos reflexivos do deputado a incuria desleixada do seu porvir, a serodia soberba da stirpe,—o tronco secular corroido pela ignorancia, com{170} alguma folhagem nas vergonteas ressequidas pelo sol ardente dos novos tempos.
Não contribuia Venceslau com a sua parte de contentamento para os prazeres da liberal hospedeira. Se ella o buscava entre os que jogavam, dançavam ou zumbiam amoriscados á volta das colmeias, não o via. Perguntava a Eduardo se o seu amigo lhe teria sido levado de casa pela mãe patria. Ia o marido de D. Anna em demanda do philosopho, e encontrava-o na bibliotheca e mais o padre Manoel Ferreira folheando um Tibullo de 1465, commentado por Vulpus, ou quejando estafermo embalado no berço da arte typographica.
Reconduzido ás salas, Taveira esforçava-se por aquinhoar da alegria contagiosa dos outros, e, á força de fingir-se alegre, simulava um provinciano emparvecido na contemplação dos collos despeitorados, das espaduas brancas como as faces destingidas de rubente pejo, dos minuetes mais ridiculos que lascivos, da refinação assucarada dos colloquios, e do ar, nem sempre fragrante de todas aquellas vaporações de flores desbotadas e de epidermes escandecidas.
Mas a cortezia era inefficaz a violental-o. Assim que os olhos da fidalga o desfitavam, elle ahi ia á sala onde alguns magistrados anciãos satyrisavam os máos costumes da geração nova, não levando em conta que a geração arguida era a dos seus filhos, educados por elles. Venceslau tractava-os com veneração, cedia-lhes a vantagem nos debates politicos, e captivava d'esta arte a estima dos mais testudos absolutistas.{171}
Quem o seguia sempre com admiração e amisade era padre Manoel, para quem o reboliço dos bailes já seria intoleravel, se Venceslau Taveira, de vontade ou sem ella, os não frequentasse. E, ao mesmo tempo que este affecto entranhado lhe deliciava as noites mal dormidas, uma paixão inversa o inquietava. O capellão aborrecia Eduardo Pimenta, em tanto extremo que o malsinava de ignorante, de vaidoso da sua profissão de petimetre, de bonifrate sem proposito de marido, olhando para todas as damas com tregeitos e galanices de piza-verdes, cacarejando uns dizeres improprios de homem casado, e apenas perdoaveis aos que andam de amoríos com quantas levianas fazem barato das suas finezas. Esta censura não era elle homem que a calasse comsigo. Sempre que lhe cahia a talho, desembuchava as azías do animo nos ouvidos de D. Julia, que lh'as ouvia indulgente por saber que o padre derivava sempre a objurgatoria em louvor de Venceslau Taveira.
A opinião do clerigo era n'alguns pontos injusta. O genro do commendador, se não ia á bibliotheca pasmar-se nas edições quinhentistas, e antes se queria nas salas a extasiar-se na nitidez dos typos do seculo XIX—era iniquidade acoimal-o de ignorante. Estylo, fórma, geito dramatico, attitudes ao romantico, verbo e nervo como á moderna se diz, isso tinha elle, como raros do seu tempo. E a menos valiosa d'estas qualidades bastaria, nas salas, a sobrepujal-o ao seu amigo Venceslau, o misantropo, que entre as Thais e as Dydimas de Lisboa era importuno decerto com as suas, ainda bem que{172} silenciosas, austeridades de Timão atheniense. Que o chefe do commissariado andasse galanteando as damas dos bailes de D. Julia é menos verdadeiro. O capellão, a tal respeito, sabia menos que a dona da casa. Se alguem podia queixar-se era ella.
Mas não se queixava.
O silencio, nas mulheres dignas, quando a impertinencia da paixão immoral as ultraja, é virtude superior. As que medem a grandeza dos dissabores que resultam de repudiarem á vista de testemunhas as finezas d'um homem desvairado, mantêm-se honradamente affectando que o não percebem em publico, e defendendo-se em particular com o desprezo.
Pouco mais ou menos era assim que D. Julia de Miranda procedia com Eduardo Pimenta.
Devia de ser, todavia, descommunal o sentimento que esporeára o marido da formosa Anna, tres mezes depois de casado, a entremetter nas paginas de um livro, que Julia andava lendo, uma carta phraseada a sabor de lagrimas, as mais commoventes que podem sahir de peito ferido pelo primeiro amor!
O immediato pensamento que assaltou Julia foi retirar-se a uma das suas quintas no Alto Minho; mas semelhante fuga, sem causa justificativa na sociedade que a cortejava, pareceu-lhe covardia, ao mesmo tempo que o temerario galan teria motivo a lisongear-se do expediente, reputando-o vacillação.
Não fugiu. Fechou a carta, lacrou-a, enviou-a á repartição em que Eduardo era certo em determinadas{173} horas. Elle abriu, releu-a de espaço, e quando chegou ao fim, encontrou duas linhas de pulso estranho que rezavam assim: Não lerei outra; mas, se ella vier, pedirei á minha amiga D. Anna Pimenta que m'a leia.
Ao outro dia a fidalga foi jantar com o commendador: ia alegre, contentissima de seu nobre feito. Máo agouro! Mulher que, em lances analogos, crê praticar um heroismo, e d'isso se compraz em sua consciencia, ha de faltar-lhe o folego para subir muitos degráos na escada da virtude.
Eduardo assistiu melancolico ao jantar, e respondeu friamente ás caricias da esposa. O commendador olhava-o de esconso, e fitava olhos piedosos na filha assustada. Julia fingia-se despreoccupada; e, a seu pezar, mais que nunca, n'aquelle dia, se recolheu n'uma concentração desacostumada.
A noite d'este dia passou vagarosa e triste. Não obstante, as assembleias aos domingos continuaram no palacio das Amoreiras.
Eduardo Pimenta, desatinado ou precavido, fez praça de namorado a varias senhoras, que lhe não estremaram os galanteios das attenções e obsequiosas lisonjas, como era de esperar d'um cavalheiro amestrado na polidez estrangeira. Á excepção de uma ou duas, ou talvez tres, menos conscias da cortezia parisiense, e portanto portuguezas da lei antiga n'isto de amar quem as amava, as restantes senhoras, se deram suspeitas a padre Manoel Ferreira, sahiram impollutas. D. Anna, porém, affligia-se secretamente dos modos cortezãos do{174} marido, porque não via tão azougados os moços solteiros á volta das mulheres e reparava nos sorrisos que ellas entre si trocavam, ao passo que a olhavam de travez lastimando-a ou escarnecendo-a.
Neste desatino do homem preponderava o estulto despique do amor despeitado. Beliscar a vaidade de Julia, melindrar-lhe o amor proprio, irrital-a, dar-lhe a certeza de que outras mulheres mais viçosas e não menos fidalgas o não desdenhavam: tal era a manha trivial do sugeito. Julia, por sua parte, dissimulava o azedume que lhe fazia aquelle vil artificio em sua propria casa, e dizia muitas vezes á sua consciencia que todo o seu despeito era isso, e de modo nenhum o orgulho de ser comparada. Como quer que fosse, e por mais protestos que fizesse de si para comsigo, é certo que ella, relampagueando olhares severos a uma ou outra condessa, que reclinava a face languida ao hombro de Eduardo, segredava á sua amiga a baixa conta em que tinha a moralidade das suas parentas. Depois, repêza da inconsiderada confidencia, affligia-se, desmentia-se, pedia á esposa de Eduardo que não desse valor aos sustos proprios da amisade; e occultasse do marido as suspeitas que lhe ella infundia por excesso de zelo, e receio de dissabores domesticos.
Que desconchavadas incongruencias!
Estas torvações de entendimento precedem a cegueira da alma, á semelhança d'aquelles pontos escuros que se enredam e prenunciam a cegueira dos olhos. A medicina chama a estes prodromos da amorose «moscas»:{175} a linguagem do povo diz que as nevoas da vista da alma, em crise de cegar, são «peneiras».
D. Julia de Miranda, um dia, desceu a luz da razão aos arcanos da sua alma. Córou de si; retranziu-se de pejo; porque vira passar diante da dignidade abatida, a imagem soberba de Eduardo, e não podéra odial-o.
Desde esta hora, a amiga de Anna Vaz meditou na salvação da sua honra já denegrida. D'esta vez o alvitre da fuga cedeu o passo a outro mais sereno e estavel. Pensou em casar-se, pensou em amar, em transferir o seu coração a peito alheio que lh'o defendesse das injurias d'uma paixão ignominiosa. Louvavel deliberação!
Padre Manoel Ferreira viu a fidalga melancolicamente reconcentrada, e, com instancias repetidas, arrancou-lhe estas palavras que ella exclamava pela terceira vez:
—Se eu podesse amar um homem!{176} {177}