Livro de Consolação

Camilo Castelo Branco · Capítulo 21 de 26

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Livro de Consolação

Capítulo XX

—Suppomos...

—Que acontecia?—insistiu o capellão.

—Que elles estavam a esta hora mortos—respondeu o deputado.

D. Julia fitou com certo assombro o placido rosto do marido, e disse:

—Pois tu... eras capaz de matar...

—E de morrer, minha filha.{244} {245}

 

XX

É assim o viver.

ALVARES D'AZEVEDO.—Obras, tom. III.

Este capitulo abrange o espaço de quatro annos.

Em 1827, D. Anna Vaz tem tres filhos. Eduardo Pimenta perdeu o emprego com grave desdouro de sua probidade politica, por ter acompanhado o brigadeiro Sepulveda ao encontro do infante D. Miguel em Santarem, quando em 1823, José de Souza Sampayo, depois visconde de Santa Martha, e o conde de Amarante, acclamaram o principe, e tentaram nomear uma regencia presidida por D. Carlota de Bourbon.

Venceslau, por affecto a D. Anna Vaz e ao commendador, quiz reintegrar o homem a quem chamava ainda amigo, desculpando-lhe a queda com os fumos da lisonja em que o haviam aturdido as familias da alta nobreza com quem elle se relacionára, já por parentesco{246} de sua mulher, já porque assim cuidava sanear o aleijão de um baixo nascimento. O generoso fidalgo beirão perdoava esta miseria ao filho do lavrador de S. João de Nogueira, cujos primeiros amores já denotavam aspirações levantadas.

Eduardo, porém, rejeitou a valiosa intercessão do amigo, declarando que não queria nada de constitucionaes nem de absolutistas; que não tinha fé nas virtudes civicas de quem quer que fosse, nem sacrificaria a sua dignidade nas aras profanadas de algum idolo. Venceslau sorriu-se áquella negação das virtudes civicas, e de si para comsigo entendeu que Eduardo era um louco, subordinado ao influxo d'algum astro funesto.

Entretanto, o viver do marido de D. Anna Vaz, na sociedade que lhe admirava o talento, a reconsideração de ideias, e os discursos ora scepticos, ora enthusiastas; que lhe admirava tambem a figura, aureolada pelo romanticismo da sua mocidade—o viver de Eduardo Pimenta em meio de espiritos arrogantes, mas ineptos, era o que as lagrimas de sua mulher davam a entender.

Eduardo tinha lido os poemas de Lord Byron. Admirava com inveja aquelle feito e refeito heroe da eterna legenda, onde á volta de um homem fatal se acatovellam dezenas de mulheres a amal-o, a chorar e a morrerem de amor. O dom João fervia-lhe nos miolos, aquecido um pouco pela temperatura calida do sangue, e bastante pelo fogo da phantasia. Isto de phantasia era coisa pouquissimo vulgar em portuguezes d'aquelle tempo, se elles não haviam corrigido lá fóra a sua compleição,{247} prevertendo a boa indole de frades com que até aquelle tempo toda a gente nascia em Portugal —indole provavelmente devida á preponderancia que exerciam os frades no phenomeno das reproducções, psycologicamente fallando.

Allucinado, pois, pelo seu modêlo poeticamente immoral, Eduardo, com quanto não immolasse illustres victimas, e já encontrasse muitas sem sacrificadores, ganhou fama de bem-quisto de senhoras titulares, e realmente era. Contaram-se n'aquelles annos casos de ciumes palacianos em que elle era o personagem menos irrisorio; arrufos conjugaes, projectados divorcios, reclusões em severos claustros, etc.; mas tudo isto eram atoardas que lhe esmaltavam a reputação.

Este genero de costumes involvia despezas grandes, a pompa no trajar, os bailes, a liberalidade no despender em natalicios, o hombrear com os ricos, e deslumbral-os em lances generosos.

Em menos, pois, de tres annos, Eduardo sem officio nem aptidão para tornar lucrativa a sua intelligencia, gastou os quinze mil cruzados do patrimonio e contrahiu dividas caucionadas pelo futuro dote de sua mulher.

Em 1827, o commendador Vaz dissera a Venceslau Taveira que os seus netos chegariam a mendigar, e sua filha, quando elle fechasse os olhos, teria de vender o leito de sua mãe.

A estima do marido de Julia por Eduardo Pimenta diminuira proporcionalmente com os creditos do seu amigo d'outro tempo. O homem austero não podia desculpar{248} o vadio que, depois de bandear-se com os fautores do absolutismo, rejeitára petulantemente o perdão e o emprego, para se andar a fazer praça escandalosa das serodias verduras de rapaz solteiro, com o enfatuamento de homem de boas aventuras. Poucas visitas se faziam reciprocamente; mas d'esta omissão dera o exemplo D. Anna Vaz.

Ainda assim, Venceslau informado pelo commendador, procurou assiduamente Eduardo, instando-o a empregar-se, a cahir em si, a cortar relações que o abysmavam, e a pensar no futuro de seus tres filhinhos, lavados pelas lagrimas da mãe.

A commoção do reprehendido parecia sincera, quando elle se prestou a servir a nação, a quebrar os encantos da sua aziaga estrella, e a restaurar em fim a honra e a felicidade da sua familia.

Amiudaram-se então as visitas de D. Anna, instigadas já pelo marido, que a movêra pela dependencia em que estavam do deputado, já pelo pae que inteiramente ignorava os despeitos da filha, e por amor d'ella e dos netos lhe aconselhava acolher-se ao valimento de Venceslau.

N'este tempo D. Julia tinha dous filhos, ambos meninos, entre tres e cinco annos. A vida domestica, bem que estrellada pelos dous anjos, parecia-lhe escura. A pouco e pouco, o marido, cada vez mais enredado na politica, lhe fôra obrigando suavemente o animo a conformar-se com os deveres de senhora de casa, e a desligar-se da intimidade dos parentes.{249}

D. Julia rica, festejada, sedenta de competir em fausto com as damas de mais voga, reagia surdamente aos affectuosos conselhos de Venceslau. Elle, porém, com habil descrição, ia cedendo ás menores exigencias, e cortando n'estas até a reduzir ao orgulho de não fazer nenhumas—orgulho onde se levedam fermentos de amarissimos resultados.

Casos politicos de importancia um apenas alterou o monotono, mas agitado, duello do liberal contra a tyrannia. Em 1824 foi convidado pelo ministro dos negocios estrangeiros, marquez de Palmella, a ser o secretario particular, o collaborador dos seus notaveis actos diplomaticos. N'aquelle anno, operou D. Miguel o movimento de 30 d'abril, que ficou na historia conhecido pela Abrilada. N'esse mesmo dia foi preso o marquez de Palmella e com elle o seu secretario, á ordem do infante, por intermedio do intendente Belforte; mas já no dia 5 de maio o ex-ministro e Venceslau eram soltos, graças ao corpo diplomatico.

Repostas as coisas no antigo estado, com a sahida do infante no dia 13, Venceslau alcançou empregar Eduardo na secretaria da guerra, abonando-lhe a lealdade, bem que o commendador o quizesse exonerar de tão perigosa fiança.

N'este em meio, o ar de renovada estima que parecia reatar os corações das duas senhoras, emborrascou-se outra vez. D. Anna Vaz valia-se de desculpas com o pae para não seguir o marido a casa de Julia; esta, sem queixar-se ao marido da ausencia da sua amiga, dizia{250} que D. Anna era muito mais affectuosa quando Eduardo carecia de emprego.

Quaesquer que fossem os juizos de Julia, havia um sinistro esculca, de carrancudo aspecto, que parecia querer-lh'os escutar no silencio da alma: era o padre Manoel Ferreira.

Este previsto sabio andava sobre brazas desde que vira o antipathico Pimenta frequentar de novo o palacio das Amoreiras, bem que nunca só, nem a horas desacostumadas, mas sempre acompanhado da esposa, ou quando Venceslau era certo em casa. Se, relançando a vista ardilosa entre Julia e Eduardo, cuidava ter colhido um gesto intencional de ruim sentido, a raiva esbravejava-lhe nos olhos, e as comichões do nariz eram taes que lh'o avermelhavam como irrupção de bertoeja. Que vira elle, afinal? Dois olhares melancolicos e timidos, duas almas silenciosas a confidenciarem-se os seus sombrios destinos.

Ah! mas que dupla vista a do padre!

No fim d'aquelle anno de 1827, uma creada velha de D. Julia despediu-se da casa que servira cincoenta e dois annos. A ama forcejou por demovel-a, interpondo a auctoridade do capellão, cuja confessada era. Baldou-se a interferencia do padre.

Sahiu a creada, deixando grandemente suspeitoso o confessor. Que motivo teria ella para deixar a casa onde já sua mãe havia nascido? Que iria ella fazer em um cazebre de Campolide, sem parentes, só, no termo da vida e tão descaroadamente apartada de Julia que se{251} lhe creára no colo? Perguntas que o padre fazia ao seu familiar demonio, que lhe andava negaceando ás cavalleiras de Eduardo.

Uma manhã, sahiu de casa, e foi a Campolide. Entrou em casa da velha, fechou a porta, deteve-se duas horas, e, quando sahiu, trazia os olhos humidos, as faces enrugadas por mais dez annos de velhice, e as pernas trementes, vagarosas e vergando ao pezo da dôr que lhe empedrára o coração.

Entrou no seu escriptorio, atirou-se para cima da cama, com a face entre as mãos, meditou largo espaço; e, afinal, abalado por subita deliberação, subiu á sala de espera, e mandou pedir á snr.ª D. Julia se fazia favor de descer á sala do archivo.

A esposa de Venceslau descorou. Desde que era casada, nunca o padre a chamára a intender em papeis do archivo. A sahida da creada, e a auctoridade do confessionario, pareciam dar-lhe horas crueis, denunciadas pela fixidez averiguadora com que fitava o capellão.

Desceu a fidalga ao archivo. O padre esperava-a com a mão na chave. Apenas ella entrou, correu a lingua da fechadura; e, mantendo-se em pé defronte da senhora, disse:

—Como eu soubesse que V. Ex.ª estava perdida...

—Perdida!...—interrompeu D. Julia.

—Não me interrompa, senhora. Como eu soubesse que V. Ex.ª estava perdida, consultei a alma de sua virtuosa mãe e de seu honrado pae, pedindo-lhes que me inspirassem. O milagre de a levantarem do seu abysmo,{252} não podiam elles fazer-m'o; porém, fechar esse abysmo aos olhos de seu marido, isso sim, isso lhes pedi com estas lagrimas que estou chorando na sua presença...

—Mas que é?... que vae dizer-me?... que calumnias?—disse precipitadamente D. Julia, gesticulando uns movimentos de cabeça e braços que arguiam mais terror que assombro.

—Não gastemos exclamações, minha senhora. Eu não sou capaz de accusal-a sem a certeza de que V. Ex.ª é criminosa. Respeito-a na queda, porque a conheci e amei na pureza dos anjos. Não sou ecco de calumnias. Sou uma das pessoas que tem o segredo da sua desgraça. As altercações são inuteis, são extemporaneas. Não percamos tempo. Responda, snr.ª D. Julia: afóra a creada, que sahiu d'esta casa, e eu que brevemente sahirei, quem sabe esta grande desgraça? Quem viu aqui entrar, a horas desencontradas de seu marido, esse ingrato e infame homem?

—Ninguem...—balbuciou D. Julia, tapando o rosto com as mãos. Depois, sacudindo a cabeça com impetuosa colera, perguntou:—A quem devo eu a desgraça? quem fez este casamento?... quem me aconselhou a victimar a minha liberdade a um homem que me fez envelhecer em contacto com o gelo da sua alma? Eu não precisava de um sabio, snr. padre Manoel, para ser feliz. Deixasse-me estar solteira, que eu era virtuosa...

—Tudo que fiz, minha senhora, V. Ex.ª m'o auctorisou... Não discutamos... A minha razão perturba-se,{253} e eu depois receio que a snr.ª D. Julia não tenha um amigo que a salve. Se a consciencia me arguir de ter eu sido o agente d'este casamento, e eu não podér combatel-a, creia que morro de dôr, de vergonha e remorso. Não me diga tal, que me obriga a ajoelhar diante de seu marido a pedir-lhe perdão de lhe haver dito que V. Ex.ª havia de ser honrada como sua mãe.

—Virgem Maria!—exclamou anciosa D. Julia.—Não faça isso... pedem-lh'o os meus filhos...

—E não lhe pediram seus filhos que fosse honesta?...—replicou severamente o capellão.—Ter dois filhos, dois anjos da guarda, dois amparadores, affectos tão grandes com que encher a sua alma... ter dois filhos... e resvalar por entre elles á voragem!...

—Olhe que me despedaça!...—murmurou ella, contorcendo-se, em postura supplicante.—Lembre-se de meu pae...

—Seu pae... matal-a-hia... Eu, por mim, choro-a... porque não pude saber isto um dia antes da sua perdição... não pude salval-a eu... a quem seu pae a entregou...

Padre Manoel arquejava, debulhado em pranto, fincando os pulsos na fronte.

—V. Ex.ª... a snr.ª D. Julia...—proseguiu elle—aquella menina que eu adorava... está ahi... polluida... por quem, meu Deus?... Onde aquelle scelerado veiu continuar as devassidões das alcovas em que achou já perdidas as mulheres... V. Ex.ª... a esposa{254} de Venceslau Taveira... amante do miseravel esposo da sua infeliz amiga D. Anna Vaz!...

D. Julia, mortalmente pallida, sentou-se, expedindo um ai gemente, um som rouco das valvulas do coração, como se o sangue lhe confluisse a torrentes. Não seria facil decidir se era remorso, se vergonha, se colera: seria tudo a um tempo.

Aproximou-se o padre, tomou-lhe a mão fria, e disse-lhe com brandura:

—Olhe que só Deus é testemunha do que eu lhe disse... Eu hei de sahir d'este mundo sem a denunciar... Reanime-se, que eu não hei de ser-lhe peor algoz que a sua propria consciencia... Eu vou sahir d'esta casa... porque a presença de seu marido, d'hoje em diante, seria para mim o maior tormento... Não posso encarar aquelle honradissimo homem... vituperado, trahido... e por quem?... Ó meu Deus—clamou elle pondo as mãos—porque não me déstes o beneficio da morte antes d'esta horrivel certeza!

D. Julia soluçava, debatendo-se, ora afogando as faces nas mãos, ora erguendo-as supplicantes.

E o padre, contemplando-a n'aquelles desesperados movimentos, disse:

—Eu cuidei que o crime endurecia mais a coragem para lhe affrontar as consequencias. Pois nunca previu o remorso? Não conhecia o homem que a chafurdou na lama das libertinas das suas sordidas proezas? Não o comparou com seu marido?{255}

Estas phrases duras e hervadas batiam tão pungentes no peito da atormentada mulher, que o padre, olhando-a já compassivo, imaginou vêr-lhe no rosto a lividez cadaverica da mãe que morrêra thysica.

Acercando-se então d'ella com brandura e lagrimas na voz, continuou:

—Snr.ª D. Julia, peço-lhe emenda de vida... Não sei que mais possa nem deva pedir-lhe. Promette-me, senhora, promette nunca mais...

Foi n'este passo interrompido o padre por um gesto afflicto de Julia.

No mesmo lanço do rez da casa do archivo, estava o páteo da casa, onde, n'aquelle instante, soavam uns passos que ella reconheceu.

Era Venceslau Taveira, que se antecipára duas horas.

D. Julia subiu celeradamente as escadas, entrou no seu quarto, compoz o semblante, e cogitava indecisa no que diria ao marido se lhe elle notasse a desfiguração.

N'este comenos, entrou elle na ante-camara, chamando-a.

Ella sahiu, e elle, ao vêl-a, disse-lhe:

—Choraste?... Então já sabes alguma coisa da pobre Anna Vaz?

—Não... que é?...

—Pois não sabes?... porque choraste, filha?

—Tristeza... dôres de peito... o presentimento da morte...{256}

—Ó filha...—disse elle acariciando-a.—Que lembrança!... Deixei-te alegre, a brincar com os filhos... Que tens tu, Julia?

—Nada...

Esta palavra deu nos labios tremulos de Julia um sonido gemente, ao mesmo tempo que as lagrimas a quatro deslisavam nos cantos da bocca.

E Venceslau mergulhava uma profunda vista d'alma no abysmo d'onde sahiam aquellas lagrimas. Tudo trevas.

—Eu suppuz que a pobre Anna Vaz te escrevêra...—tornou Venceslau, procurando desassombrar o silencio em que estiveram alguns segundos.

—Não...—disse ella, cobrando alento do insuspeito ar do marido.

—Recebi este bilhete do commendador, e sahi immediatamente das côrtes. Lê... Eu t'o leio. «Meu nobre amigo. Vae hoje um inferno n'esta casa. Romperam-se os diques da prudencia. A minha santa filha, por já não poder com o martyrio, insurgiu contra o algoz. Sei que o facho d'este incendio, que me queima o restante da vida, é o ciume; porém, a nobre menina, se eu lhe pergunto a causa nova d'esta insupportavel affronta—insupportavel em relação d'outras que soffreu com paciencia—chora, e não me responde. Rogo-lhe, meu querido Venceslau, amparador do meu chorado Antonio, que o seja tambem da malfadada irmã. Venha applacar esta feia tormenta que ameaça engulir a vida da minha infeliz Anna.»{257}

—Aqui tens a carta—proseguiu Venceslau.—Não quiz lá ir sem te avisar. Se quizesses ir tambem...

—Não posso...—disse ella no maior grau de quebranto moral.— Vae tu... depois me dirás... Vae...

E apertou-lhe a mão estremecidamente.

—Tens fogo n'esta mão... acudiu o esposo com enternecido susto.

—É febre... disse ella, fitando-o piedosamente.{258} {259}