Louca para Casar

Sophie Kinsella · Capítulo 1 de 19

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Louca para Casar

Prólogo

 

Um grupo de turistas parou, boquiaberto, para admirar Milly vestida de noiva nos degraus do cartório. Eles lotaram a calçada em frente, enquanto os transeuntes de Oxford, acostumados ao fluxo cotidiano, apenas desviavam, sem se dar ao trabalho de reclamar. Alguns olhavam na direção do cartório para ver o que causava tamanho alvoroço, e, tacitamente, admitiam que o jovem casal realmente formava um par que chamava atenção.

Alguns chegaram a sacar suas câmeras, e Milly sorria feliz para eles, deleitando-se com a atenção recebida e tentando visualizar em sua mente a imagem que formava ao lado de Allan. Seu cabelo espetado e loiríssimo brilhava sob o sol da tarde; o véu alugado pinicava, a renda de náilon do vestido parecia desconfortavelmente úmida onde quer que tocasse seu corpo. Mesmo assim, ela estava alegre e tomada pela euforia. E sempre que olhava para Allan, seu marido, uma nova e intensa onda de emoção percorria seu corpo, obliterando toda e qualquer outra sensação.

Ela chegara a Oxford há apenas três semanas. As aulas haviam terminado em julho e, enquanto seus amigos planejavam viagens a Ibiza, Espanha e Amsterdã, Milly tinha sido enviada a um curso de secretariado em Oxford. Muito mais útil do que umas férias bobas, anunciara sua mãe em tom firme. E pense na vantagem que você terá sobre seus concorrentes na hora de procurar um emprego. Mas Milly não estava interessada em vantagens. Ela só queria um bronzeado e um namorado. Afora isso, não queria saber de mais nada.

Assim, no segundo dia do curso de datilografia, ela deu uma escapada depois do almoço. Achou um cabeleireiro barato e, num ímpeto de liberdade, repicou e clareou o cabelo. Em seguida, sentindo-se leve e feliz, vagou pelas ruas monótonas e ensolaradas de Oxford, embrenhando-se por frias abóbadas de mosteiros e capelas, espreitando atrás de arcos de pedra, tentando encontrar um lugar para tomar banho de sol. Foi pura coincidência ela ter escolhido o gramado do Corpus Christi College justamente em frente aos aposentos de Rupert, e ele ter decidido passar aquela tarde sem fazer nada, apenas deitado na grama ao lado de Allan, bebendo Pimm's.

Ela já os observara discretamente quando eles passaram, fizeram um brinde e acenderam um cigarro. Fitara-os mais atentamente quando um deles tirou a camisa, revelando o torso bronzeado. Chegara a ouvir alguns trechos da conversa que flutuava pelo ar, e se viu disposta a conhecer aqueles jovens despretensiosos e bonitos. Quando, de repente, o mais velho se dirigiu a ela, seu coração pulou de empolgação.

— Tem isqueiro? — O sotaque era americano e o tom era irônico e animado.

— Sim — gaguejou ela, tateando o bolso. — Tenho sim.

— É que somos muito preguiçosos. — Os olhos do mais jovem, mais tímidos e mais inseguros, encontraram os seus.

— Eu tenho um isqueiro, bem atrás daquela janela — disse, apontando para um arco de pedra cujo vão era dividido por uma barra vertical. — Mas está muito quente para andar até lá.

— Gostaríamos de retribuir seu gesto oferecendo um copo de Pimm's — disse o americano, estendendo a mão. — Prazer, Allan.

— Rupert — apresentou-se o outro.

Pelo restante da tarde, ela se refestelou na grama na companhia deles, embebedando-se de sol e álcool. Flertou e riu, fazendo ambos gargalharem com suas descrições engraçadas das secretárias do curso. Experimentou uma expectativa crescente com o passar das horas, uma vibração sexual cada vez mais intensa por se tratar de dois jovens, ambos lindos. Rupert era esbelto e louro como um leão jovem; seu cabelo era uma auréola dourada e brilhante, os dentes brancos contrastavam com a pele lisa e bronzeada. Allan tinha o rosto enrugado e o cabelo grisalho nas têmporas, mas os olhos verde-acinzentados do rapaz faziam seu coração pular quando cruzavam com os seus. A voz dele acariciava seus ouvidos como seda.

Quando Rupert se deitou de costas e, olhando para o céu, disse "Vamos sair para comer alguma coisa esta noite?", ela pensou que ele a estava convidando para um encontro. Sentiu-se tomada por uma alegria repentina; reconhecendo, logo em seguida, que preferia que o convite tivesse partido de Allan.

Mas logo depois, Allan disse:

— Claro!

Depois, ele se debruçou e, sem a menor cerimônia, beijou Rupert na boca.

Após o terrível choque inicial, Milly percebeu que, estranhamente, não se incomodou com aquilo. Aliás, era melhor assim: dessa forma, ela teria os dois para si. Naquela noite, os três foram a San Antonio, onde ela se deliciou com os olhares invejosos de duas secretárias que ocupavam uma mesa ao lado. Na noite seguinte, ouviram jazz em um velho gramofone, beberam julepo de menta, e ela aprendeu a enrolar cigarros de maconha. Em uma semana, eles se tornaram um trio inseparável.

Não demorou muito, Allan a pediu em casamento.

Imediatamente, sem pensar, Milly aceitou a proposta. Supondo que ela não estivesse falando sério, Allan riu e começou a explicar sua condição. Ele falou sobre vistos, funcionários do Ministério do Interior, sistemas antiquados e discriminação contra gays. O tempo todo ele a olhou com ar de súplica, como se ainda precisasse de mais argumentos para convencê-la. Mas ela já estava convencida, já vibrava de emoção só de pensar em usar um vestido de noiva e segurar um buquê; seria a coisa mais excitante que faria em toda a sua vida. Só quando Allan, franzindo a testa, disse "Não consigo acreditar que estou pedindo que alguém viole a lei por mim!", e que ela se deu conta do que estava acontecendo. Mas a ligeira inquietação que começava a afligir sua mente não se comparava a alegria que a dominou quando Allan a abraçou e murmurou em seu ouvido: "Você é um anjo." Milly sorriu, sem fôlego, e disse do fundo do coração: “Ah, que nada".

Agora estavam casados. Haviam feito os votos rapidamente: Allan, em tom formal, surpreendentemente sério; Milly, com a voz trêmula, tentando controlar o riso. Em seguida, ambos assinaram os registros. Primeiro ele, com a mão rápida e destra; depois ela, tentando produzir a assinatura perfeita exigida pela ocasião. E, para surpresa de Milly, estava feito. Eles eram marido e mulher. Allan esboçara um sorriso tímido e a beijara. Ela ainda sentia levemente o toque dos lábios dele, e seu dedo anelar continuava desconfortável com a aliança de ouro.

— Chega de fotos — disse Allan. — Não queremos chamar atenção.

— Só mais um pouquinho — pediu Milly rapidamente. Fora muito difícil convencer Allan e Rupert de que ela deveria alugar um vestido de noiva e, agora que o estava usando, queria prolongar o momento o máximo possível. Ela chegou mais perto de Allan e segurou-lhe o braço, sentindo a textura áspera do terno contra sua pele. Uma forte brisa de verão começou a despentear seus cabelos, balançando o véu e refrescando a parte de trás de seu pescoço nu. Um panfleto com um programa de teatro era arrastado ao longo da sarjeta vazia e seca; do outro lado da rua, os turistas começavam a se dispersar.

— Rupert! — gritou Allan. — Chega de fotos!

— Espere! — disse Milly desesperada. — E o confete?

— Tudo bem — assentiu Allan, tolerante. — Acho que não podemos esquecer o confete da Milly.

Ele levou a mão ao bolso e lançou no ar uma porção de rodelinhas de papel multicoloridas. Neste momento, outra rajada atingiu o véu de Milly e, desta vez, o arrancou da pequena tiara de plástico presa ao cabelo e lançou-o no ar como uma nuvem diáfana de fumaça. O adereço aterrissou no chão, aos pés de um rapaz de cabelos escuros, de aproximadamente 16 anos, que se abaixou e o apanhou. Ele o observou cuidadosamente, como se examinasse um artefato estranho.

— Ei! — chamou Milly imediatamente. — Isso é meu! — E começou a descer os degraus, deixando um rastro de confete atrás de si. — Isso é meu — repetiu, com todas as letras, a medida que se aproximava do rapaz, temendo tratar-se de um estudante estrangeiro, que talvez não entendesse inglês.

— Tudo bem — disse ele em tom sério e educado. — Eu o peguei.

Ele lhe entregou o véu e ela sorriu constrangida, tentando um breve flerte. Mas a expressão do rapaz não se modificou; por trás do reflexo dos óculos redondos, Milly percebeu um leve desprezo, tipicamente adolescente. Sentiu-se um tanto ridícula, vestida de noiva e sem o adereço da cabeça.

— Obrigada — disse ela, pegando o véu. Ele deu de ombros.

— De nada.

O rapaz a observou enquanto ela, pouco a vontade diante de seu olhar fixo, prendia as camadas de tule no lugar.

— Parabéns — acrescentou ele.

— Parabéns por quê? — perguntou Milly sem pensar. Então, ergueu os olhos e ruborizou. — Ah sim, claro. Obrigada.

— Que você tenha um casamento feliz — disse o rapaz em tom inexpressivo. Ele acenou com a cabeça e, antes que Milly pudesse dizer algo mais, foi embora.

— Quem era? — perguntou Allan, surgindo ao seu lado.

— Não sei — respondeu Milly. — Ele desejou um casamento feliz.

— Um divórcio feliz seria mais apropriado — disse Rupert, apertando a mão de Allan. Milly viu que ele resplandecia de alegria e estava mais bonito do que nunca.

— Milly, sou muito agradecido a você — disse Allan. — Nós dois somos.

— Não há o que agradecer — admitiu ela. — Honestamente, foi divertido!

— Bem, mesmo assim. Compramos uma coisinha para você. — Allan dirigiu o olhar a Rupert e, em seguida, retirou do bolso uma pequena caixa. Entregou-a a Milly. — Pérolas de água doce — explicou, quando ela a abriu. — Esperamos que você goste.

— Adorei! — disse Milly com os olhos brilhando. — Vocês não precisavam ter se incomodado!

— Fizemos questão — disse Allan com ar sério. — Para agradecer por ser uma grande amiga e uma noiva perfeita. — Ele prendeu o colar no pescoço de Milly e ela corou de satisfação. — Você está linda — constatou de modo afetuoso. — A esposa mais bela que um homem poderia desejar.

— E agora, que tal um champanhe? — anunciou Rupert.

Eles passaram o resto do dia navegando pelo rio Cherwell, bebendo champanhe vintage e fazendo brindes rebuscados. Nos dias que se seguiram, Milly passou todo o tempo livre com Rupert e Allan. Nos fins de semana, iam de carro para a zona rural e faziam piqueniques requintados sobre toalhas de estampa xadrez. Visitaram Blenheim, e Milly insistiu em assinar o livro de visitantes como Sra. Allan Kepinski. Três semanas depois, quando o curso de secretariado acabou, Allan e Rupert organizaram uma despedida: reservaram uma mesa no Randolph, fizeram-na pedir três pratos e não a deixaram ver os preços no cardápio.

No dia seguinte, Allan levou-a até a estação, ajudou-a a colocar sua mala no compartimento de bagagens e secou suas lágrimas com um lenço de seda. Em seguida, deu-lhe um beijo de despedida, prometeu escrever e disse que, em breve, se encontrariam em Londres.

Milly nunca mais o viu.