Louca para Casar
Capítulo Dois
Preso em um engarrafamento no caminho para casa naquela noite, olhando a neve cair sem parar e o movimento rítmico do limpador do pára-brisa, Simon pegou o telefone para ligar para Milly. Digitou os dois primeiros números e, em seguida, mudou de ideia e desligou o aparelho. Ele só queria ouvir a voz dela, fazê-la rir, imaginar seu rosto enquanto ela falava. Mas ela poderia estar ocupada, ou achá-lo ridículo por telefonar por impulso, sem ter nada para falar. E se Milly ainda não tivesse chegado em casa, ele acabaria tendo que falar com a Sra. Havill.
A Sra. Havill era a única coisa em Milly que Simon mudaria, se pudesse. Olivia era uma mulher bastante agradável, ainda atraente, encantadora e divertida; ele entendia por que ela era uma figura popular em eventos sociais. Mas o modo como tratava a filha o irritava profundamente. Ela agia como se Milly ainda fosse uma garotinha de 6 anos, ajudando-a a escolher roupas, dizendo-lhe para usar um cachecol, querendo saber exatamente o que ela faz cada minuto do dia. E o pior de tudo, na opinião de Simon, era que Milly não parecia se incomodar com isso. Ela deixava a mãe acariciar seus cabelos e dizer "Boa menina" e telefonava obedientemente quando achava que chegaria tarde em casa. Ao contrário da irmã mais velha, Isobel, que há muito tempo comprara o próprio apartamento e saíra de casa, Milly parecia não querer se tornar independente.
Consequentemente, sua mãe continuava a tratá-la como criança. Além dela, o pai e a irmã agiam praticamente da mesma maneira. Eles riam quando Milly expressava opiniões acerca de temas atuais, menosprezavam sua carreira e discutiam questões importantes sem consultá-la. Recusavam-se a ver a mulher inteligente e entusiasmada que ele via; nunca a levavam a sério e negavam-se a elevá-la ao status de adulta.
Simon tentara falar com Milly sobre a família dela, tentara fazê-la ver como eles a subestimavam e a limitavam. Mas ela simplesmente se mostrara indiferente e dissera que eles não eram tão cruéis. E quando ele reforçou a critica, ela se aborreceu. "É bondosa e afetuosa demais para ver qualquer falta neles", pensou Simon, saindo da estrada principal de Bath em direção a Pinnacle Hall. E ele a ama por isso. Mas as coisas terão que mudar quando eles se casarem, quando tiverem sua própria casa. Após se tornar uma mulher casada e, talvez um dia, mãe, o foco de Milly será outro, e sua família terá que respeitar isso e aceitar o fato de que ela não e mais a menininha deles.
Ao se aproximar de Pinnacle Hall, ele digitou o código de segurança no controle do portão e esperou, impacientemente, que ele se abrisse - os pesados
portões de ferro com o nome "Pinnacle" forjado na parte frontal. Havia luzes acesas em todas as janelas; os carros estavam estacionados em suas vagas e a ala dos escritórios ainda se encontrava em atividade. A Mercedes vermelha de seu pai estava bem diante da casa, um carro enorme, reluzente e arrogante. Simon o odiava.
Ele estacionou seu Golf em uma vaga reservada e caminhou sobre cascalho coberto de neve em direção a casa; uma mansão do século XVIII que funcionara como um luxuoso hotel nos anos de 1980 e que dispunha de um complexo de lazer e uma bela ala de quartos anexos. Harry Pinnacle a comprou quando os proprietários foram à falência e a transformou novamente em uma residência, instalando a sede de sua empresa na ala anexa. Ele costumava dizer para os repórteres que era bom ficar fora de Londres, afinal, estava se tornando um velho. Fazia-se um momento de silencio, então todos riam. Em seguida, Harry sorria e tocava o sino para que fosse servido mais café.
A sala revestida de lambris estava vazia e cheirava à cera. Do escritório particular de Harry, onde se percebia a luz acesa, Simon ouviu a voz do pai, abafada pela porta, seguida de uma risada. O ressentimento, sempre latente, começou a formigar em sua pele, e ele cerrou os punhos dentro dos bolsos.
Simon sempre odiou o pai. Harry Pinnacle abandonara a esposa quando o filho tinha 3 anos. Sua mãe jamais esclarecera os motivos da separação, mas Simon sabia que a culpa era do pai, tão dominador, arrogante e antipático; tão determinado, criativo e incrivelmente bem-sucedido - esta última característica era a que Simon mais odiava.
A história era conhecida por todos. No mesmo ano em que o filho completou 7 anos, Harry Pinnacle abriu uma pequena loja de sucos, chamada Fruit'n Smooth. A loja, com seus balcões cromados, transformou-se em um sucesso imediato. No ano seguinte, ele abriu uma filial. Um ano depois, uma terceira loja. Três anos após abrir o estabelecimento, passou a vender franquias e, em meados dos anos 1980, havia lojas Fruit'n Smooth em todas as cidades, e Harry Pinnacle estava multimilionário.
À medida que seu pai prosperava e emergia das páginas internas dos cadernos de economia para as manchetes dos jornais, o jovem Simon acompanhava seu progresso com rancor. Os cheques chegavam todo mês, e sua mãe sempre exaltava a generosidade de Harry. Mas ele nunca aparecia, e Simon o odiava por isso. Quando o rapaz estava com 19 anos, a mãe morreu e Harry Pinnacle voltou a entrar em sua vida.
A expressão no rosto de Simon se tornou obscura, e ele sentiu as próprias unhas cravarem as palmas das mãos ao se lembrar do momento em que viu o pai pela primeira vez depois da separação, há dez anos. Andava pelo corredor do hospital em que sua mãe estava internada, desesperado de tristeza, raiva e
cansaço. De repente, ouviu uma voz chamar seu nome e, ao levantar os olhos, viu um rosto que lhe era familiar de inúmeras fotografias de jornal. Familiar, e ainda assim estranho. Ao fitar o pai em silêncio, tornado pelo choque, percebeu suas próprias características no rosto do homem. E mesmo sem querer, sentiu as emoções emergirem; sensações instintivas, como as de um bebê. Teria sido tão fácil abraçar o pai, permitir-se compartilhar o sofrimento que sentia, aceitar essa tentativa de diálogo e fazer dele um amigo. Mas, ao perceber que começava a ceder, Simon abafou seus sentimentos. Harry Pinnacle não merecia seu amor, e jamais o teria.
Depois do enterro, Harry acolheu Simon em sua casa. Deu-lhe um quarto e um carro e o levou em viagens luxuosas. Simon aceitou tudo educadamente. Mas se Harry pensava que compraria o afeto do filho enchendo-o de presentes caros, estava enganado. Embora o ódio adolescente do rapaz tivesse abrandado, ele fora substituído por uma determinação inabalável de superar o pai em todos os sentidos: administraria um negócio bem-sucedido e ganharia dinheiro. Porém, diferentemente do pai, ele teria um casamento feliz, criaria os filhos para amá-lo, tornaria-se o chefe de uma família feliz e estável. Teria a vida que Harry nunca tivera, e o pai o invejaria e o odiaria por isso.
Assim, ele deu início ao seu projeto, abrindo a própria editora. Começou com três boletins informativos, lucros razoáveis e grandes perspectivas, que nunca se concretizaram. Após três anos de luta, seus lucros se reduziram a zero e, no fim do quarto ano, ele declarou falência.
A humilhação ainda consumia Simon quando ele se lembrava do dia em que foi obrigado a admitir ao pai que havia falido, o dia em que teve que aceitar a oferta de Harry, vender o apartamento e voltar para Pinnacle Hall. Seu pai lhe servira uma dose de uísque, proferia alguns clichês sobre derrota e vitorias e oferecera um emprego nas Empresas Pinnacle, que Simon recusara imediatamente com algumas palavras de agradecimento. Mal conseguia olhar o pai; mal conseguia olhar para quem quer que fosse. Sentindo-se no fundo do poço, desprezava a si mesmo quase quanto tanto quanto desprezava o pai. Todo o seu ser estava atormentado pela frustração e pela vergonha.
Por fim, acabou arranjando um emprego como vendedor de anúncio em uma revista de negócio pouco conhecida.
Estremecera quando Harry lhe dera os parabéns; estremecera ao ver o pai folheando rapidamente a modesta publicação, tentando encontrar palavras de elogio, “Não é nada assim tão maravilhoso”, dissera de maneira defensiva. “Mas pelo menos estou trabalhando.” Pelo menos ele estava trabalhando; pelo menos os dias seriam preenchidos; pelos menos poderia começar a pagas suas dívidas.
Três meses após começar a revista, ele conheceu Milly. Um ano depois, pediu-a em casamento. Seu pai, maus uma vez, o parabenizara; ofereceu-se para ajudar a comprar o anel de noivado. Mas Simon recusara a oferta. “Prefiro fazer as coisas ao meu modo”, dissera, olhando o pai bem dentro dos olhos, imbuindo de uma nova confiança, quase uma ar de desafio. Se não conseguia derrotar o pai nos negócios, então o derrotaria na vida familiar. Ele e Milly teriam um casamento perfeito: amariam-se, ajudariam-se, entederiam-se. Os problemas seriam discutidos, as decisões seriam tomadas em conjunto, o afeto seria expresso livremente. Os filhos trariam ainda mais felicidade. Nada daria errado. Simon experimentara o fracasso uma vez; não queria experimentá-lo novamente.
De repente, seus pensamentos foram interrompidos por outra risada vinda de dentro do escritório, uma conversa murmurada e, em seguida, o toque agudo que significava que Harry havia recolocado no gancho o antiquado aparelho de telefone que usava em sua linha particular. Simon esperou alguns minutos, respirou profundamente, aproximou-se da porta e bateu.
AO OUVIR A BATIDA na porta, Harry Pinnacle levou um susto. Rapidamente, guardou na gaveta a pequena fotografia que tinha nas mãos. Então, para se garantir, trancou a gaveta. Por um momento, permaneceu imóvel, fitando a chave, perdido em pensamento.
Tornaram a bater na porta, ele levantou a cabeça. Afastou a cadeira da escrivaninha e passou as mãos pelos cabelos grisalhos.
– Sim? – Disse e viu a porta ser aberta.
Simon entrou, deu alguns passos e lançou um olhar furioso para o pai. Era sempre assim. Ele batia à porta do escritório e era obrigado a ficar esperando do lado de fora, como um empregado. Harry nunca lhe dissera que não precisava bater; ele nunca sequer pareceu contente ao ver o filho. Dava a impressão de estar sempre impaciente, como se Simon estivesse interrompendo algum negócio importante. “Mas isso é besteira”, pensou Simon. “Você não esta no meio de nenhum negócio importante. Você é apenas um cretino arrogante.”
Seu coração estava disparado; ele estava pronto para um confronto. Mas não podia permitir falar nenhuma das palavras ofensivas que rodeavam sua mente.
– Oi – Disse com a voz tensa. Depois, agarrou o encosto de uma cadeira de couro e fulminou o pai com os olhos, esperando, de alguma forma, provocar uma reação. Mas Harry limitou-se a olhar para ele e, após um momento, suspirou e pousou a caneta na mesa.
– Oi, como foi seu dia?
Simon fez um gesto de indiferença, e desviou o olhar.
Quer um uísque?
– Não obrigado.
– Bem eu quero.
Ao se levantar para servir da bebida, Harry viu o rosto do filho num momento de descuido. Estava tenso, triste e zangado. O rapaz estava tomado pela raiva, à mesma desde que Harry o vira pela primeira vez, do lado de fora do quarto de hospital em que sua mãe estava internada. Naquele dia, ele cuspiu nos pés do pai e se afastou, antes que Harry pudesse dizer qualquer coisa. A partir de então, uma culpa horrível começou a crescer em Harry, uma culpa que o apunhalava toda vez que o rapaz o fitava com os mesmos olhos desolados da mãe.
– Como foi seu dia? – perguntou ele, levantado o copo à boca.
– Você já perguntou isso.
– Certo. É verdade. – Harry provou a bebida forte e imediatamente sentiu-se melhor. Tomou outro gole em seguida.
– Eu vim aqui – começou Simon – para lembrar a você o jantar desta noite. Os Havill estarão presentes.
– Eu me lembrei – disse Harry, pousando o copo. – Falta pouco para o grande dia. Está nervoso?
– De jeito nenhum – respondeu Simon imediatamente.
Harry deu de ombros.
– É um compromisso importante.
Simon fitou o pai. Sentia uma porção de palavras se formarem em sua cabeça, palavras retidas, que vinha carregando por anos como um peso constante.
– Bem – ele se viu dizendo –, você não entende muito de compromisso, não é?
Um lampejo de raiva atravessou o rosto de Harry, e Simon estremeceu. Esperava que seu pai gritasse, incitando-o a uma reação ainda mais revoltada. Mas tão repentinamente quanto tinha aparecido, a ira desapareceu e ele se afastou em direção às enormes janelas, deixando Simon frustrado.
– O que há de errado com compromisso? – gritou ele – O que há de errado em amar uma pessoa por toda a vida?
– Nada – respondeu Harry sem se virar.
– Então, por que... – Simon parou. Houve um longo silêncio, acentuado apenas pelos estalidos do fogo da lareira. O jovem fitou o pai, que permaneceu de costa. “Diga algo”, pensou ele, desesperado. “Diga alguma coisa, seu cretino.”
– Vejo você as oito – disse Harry finalmente.
– Perfeito – retrucou Simon com a voz marcada pela mágoa. – Nos vemos então. – E, num ímpeto, saiu do escritório.
Harry fitou o copo em sua mão e praguejou. Não tinha a intenção de aborrecer o rapaz. Ou talvez tivesse. Ela não podia confiar nos próprios motivos, não podia controlar seus sentimentos. A compaixão rapidamente se transformava em irritação; a culpa rapidamente se transformava em raiva. As boas intenções em relação ao filho desapareciam no instante em que o rapaz abria a boca. Uma parte dele ansiava pelo momento e que Simon se casaria e deixaria sua casa, assumindo sua própria família e lhe dando finalmente um pouco de paz. Outra parte temia isso; não queria nem pensar a respeito.
Com a expressão sombria, Harry serviu de outra dose de uísque e voltou para a mesa. Logo depois, pegou o telefone, discou um número e escutou, impaciente, o sinal de chamada. Então, com a expressão mal-humorada, bateu o telefone no gancho.
MILLY ESTAVA À MESA da cozinha com o coração disparado, louca para fugir. Era ele. Era o rapaz que ela vira em Oxford depois do casamento com Allan, aquele que apanhara seu véu. Ele estava mais velho, com o rosto mais sério, e tinha uma barba rala. Mas os óculos metálicos redondos eram os mesmos, assim como a expressão arrogante, quase debochada. Naquele momento, ele se inclinava para trás na cadeira, fitando-o com ar curioso. “Não se lembre”, pensou Milly, sem se atrever a encontrar o olhar fixo do rapaz. “Pelo amor de Deus, não se lembre de mim.”
– Aqui está você – disse Olivia, aproximando-se da mesa. – Cuidei das suas flores, querida. Não basta simplesmente colocá-las na água e esquecer-se delas!
– Eu sei – murmurou Milly. – Obrigada.
– Quer mais chá, Alexander?
– Sim – respondeu o rapaz, entregando-lhe a xícara. – Muito obrigada. – Olivia o serviu, depois sentou-se e sorriu.
– Isso é maravilhoso – disse ela – É como se o casamento já estivesse realmente acontecendo! – Ela tomou um gole do chá. – Milly, você mostrou seu anel a Alexander?
Lentamente, com um movimento tenso, Milly ergueu a mão direita. O olhar observador do rapaz percorreu, de forma enigmática, o clássico aglomerado de diamantes. Então ele olhou para ela.
– Muito bonito – disse, antes de tomar o chá. – Você vai se casar com o filho de Harry Pinnacle, o herdeiro da rede Fruint’n Smooth, não é?
– Exatamente – respondeu Milly com relutância.
– Um ótimo partido – insinuou Alexander.
– Ele é um rapaz maravilhoso – retorquiu Olivia imediatamente, como sempre fazia quando alguém mencionava a fortuna ou a família de Simon. – A voz de Alexander expressava um tom levemente irônico. – Trabalha para o pai?
– Não – respondeu Milly com a voz estranha e desconcertada. – Ele trabalha com publicidade.
– Ah, sim – assentiu Alexander. Houve um momento de silêncio. Ele bebeu outro gole do chá e olhou para Milly, franzindo o cenho. – Ainda acho que conheço você de algum lugar.
– É mesmo? – indagou Olivia – que engraçado!
– Bem, eu não me lembro de tê-lo visto antes. – Milly tentava parecer despreocupada.
– É, querida – Olivia disse –, mais você não é muito boa para guardar feições, não é? – Ela se virou para Alexander.
– Eu sou exatamente como você, Alexander. Nunca esqueço um rosto.
– Eu trabalho com rostos. – lembrou. – Passo a vida prestando atenção às feições. – Seus olhos percorreram o rosto de Milly e ela estremeceu. – Seu cabelo sempre foi assim: – perguntou subitamente. O coração de Milly pulou de medo.
– Não – respondeu ela, agarrando a xícara com força. – Eu... Uma vez, eu o tingi de vermelho.
– Não ficou muito bom – observou Olivia enfaticamente. – Eu sugeri que ela fosse ao salão que eu costumo ir, mas ele nem ligou. Então, como era de se esperar...
– Não é isso – replicou Alexander, cortando Olivia. Ele se voltou novamente para Milly e franziu a testa. – Você morou em Cambridge?
– Não – respondeu Milly.
– Mas Isobel morou – disse Olivia triunfante. – Você deve estar se referindo a ela!
– Quem é Isobel? – perguntou Alexander.
– Minha irmã – respondeu Milly, animada por uma súbita esperança. – Ela... ela se parece comigo.
– Ela estudou línguas modernas – completou Olivia
E agora está se dando muito bem. Viaja pelo mundo inteiro como intérprete de conferências. Conhece todos os líderes mundiais. Ou pelo menos...
– Como ela é? – indagou Alexander.
– Ali está uma foto dela. – Olivia apontou para uma fotografia acima da lareira. – Vocês deviam se conhecer antes do casamento – acrescentou ligeiramente, vendo que Alexander examinava a foto atenciosamente. – Tenho certeza que vocês têm muitas coisas em comum!
– Não era ela – afirmou Alexander, virando-se para Milly. – Ela não se parece nada com você.
– Ela é mais alta do que Milly – observou Olivia antes de acrescentar, pensativa:
– Você é bem mais alto, não é, Alexander?
Ele se levantou.
– Eu preciso ir. Tenho um encontro no centro da cidade.
– Um encontro – repetiu Olivia. – Que bom, alguém especial?
– Um velho amigo dos tempos de escola – explicou Alexander, olhando para Olivia como se ela fosse louca.
– Bem, divirta-se!
– Obrigada. – Alexander fez uma pausa no vão da porta.
– Verei você amanhã. Milly. Vou tirar algumas fotos informais e poderemos conversar sobre o que você quer. – Ele acenou e foi embora.
– Nossa! – exclamou Olivia assim que ele saiu. – Que jovem interessante.
Milly permaneceu imóvel. Fitava a mesa, segurando a xícara com força, o coração disparado.
– Você está bem querida – perguntou a mãe, olhando para ela.
– Estou. Está tudo bem. – Ela se forçou a sorrir e a tomar um gole do chá. Estava tudo bem, disse a si mesma.
Nada tinha acontecido. Nada iria acontecer.
– Eu dei uma olhada no portfólio dele. Ele é realmente muito talentoso. Ganhou prêmios e tudo mais!
– É mesmo. – O tom de Milly era apático. Ela apanhou um biscoito, olhou-o e colocou-o de volta no lugar, tomada por um medo súbito. Mas, e se ele lembrasse e contasse a alguém exatamente o que a vira fazer a dez anos? E se tudo viesse à tona? Seu estômago revirou só de pensar no assunto; estava apavorada.
– Ele e Isobel realmente deviam se conhecer – dizia Olivia. – Assim que ela voltar de Paris.
– O quê? – As palavras da mãe chamaram a atenção de Milly. – Por quê?
– Ela fitou Olivia, que deu de ombros. – Mãe, não! Você não está falando sério?
– É apenas uma ideia – redarguiu ela, defensivamente.
– Que possibilidade a pobre Isobel tem de conhecer um homem, escondida em salas de conferência enfadonhas o dia todo?
– Ela não que conhecer ninguém. Principalmente quem você quer que ela conheça! – Milly estremeceu. – Principalmente ele!
– O que há de errado com ele?
– Nada – respondeu Milly rapidamente. – É que ele... não combina com Isobel.
A imagem da irmã veio à mente de Milly, e o que ela viu foi uma mulher inteligente e sensata. De repente, sentiu uma onda de alívio: falaria com Isobel. Ela sempre sabia o que fazer. Milly olhou o relógio.
– Que horas são agora em Paris?
– Por quê? Você vai telefonar?
– Sim – Respondeu Milly. – Quero falar com Isobel. – De repente, ela se sentiu desesperada. – preciso fala com Isobel.
ISOBEL HAVILL VOLTOU ao quarto do hotel às oito horas da noite e viu que a luz de mensagens de seu telefone piscava insistentemente. Ela coçou a testa e abriu o minibar. O dia tinha sido mais cansativo do que o habitual. Sua pele estava ressecada devido ao ar-condicionado da sala de conferências; sua boca tinha gosto de cigarro e café. Passara o dia todo escutando, traduzindo e falando ao microfone, nos tons baixos e comedidos que a tornavam uma profissional altamente requisitada. Agora sua garganta doía, e Isobel estava impossibilitada de falar qualquer coisa. Sua cabeça parecia estar em um turbilhão, em consequência do debate enérgico e multilíngue.
Com um copo de vodca na mão, ela entrou lentamente no banheiro de mármore branco, acendeu a luz e, por alguns segundos, observou seus olhos avermelhados. Chegou a abrir a boca par dizer algo, mas desistiu. Sentia-se incapaz de pensar, de formular uma única ideia a respeito de si mesma. Por várias horas, seu cérebro agira apenas como um potente canal de informações. Ainda estava focando exclusivamente na tradução das palavras, impedindo assim que seus pensamentos interrompessem o fluxo de ideias e poluíssem a tradução com suas próprias opiniões. Trabalhara de maneira impecável o dia todo, sem fraquejar, sem perder a calma. Agora sentia-se como uma concha vazia e seca.
Ela bebeu toda a vodca e, quando pousou o copo na prateleira de vidro, o tinido a fez estremecer. No espelho, seu reflexo mostrava uma expressão apreensiva. Durante todo o dia, ela conseguira afastar este momento. Mas agora estava sozinha, seu trabalho havia terminado e ela não tinha mais desculpas.
Com as mãos trêmulas, abriu a bolsa e tirou um pacotinho de farmácia, de onde puxou uma pequena caixa oblonga. Em seu interior. Havia uma folha com instruções impressas em francês, alemão, espanhol e inglês. Passou os olhos impacientemente por todas as versões, notando que o parágrafo em espanhol havia sido mal traduzido e havia uma discrepância na versão alemã. Mas todos pareciam concordar em um detalhe: o curto espaço de tempo até obter o resultado. Só um minuto, Une munute, Um munut.
Sem acreditar no que estava acontecendo, ela fez o teste, deixou o pequeno frasco na borda da banheira e voltou para o quarto. Sua jaqueta ainda estava jogada na enorme cama; o telefone continuava piscando. Ela apertou o botão de mensagem, foi ao minibar e serviu-se de outra vodca. Faltam trinta segundos.
“Oi, Isobel. Sou eu.” A Vos grave de um homem encheu o quarto, e Isobel estremeceu. “Ligue para mim quando puder. Tchau.”
Isobel olhou o relógio. Quinze segundos.
“Isobel. É Milly. Escute, estou precisando muito falar com você. Por favor, por favor, pode ligar assim que ouvir este recado? É muito, muito urgente.”
– E quando não é? – perguntou Isobel em voz alta.
Ela olhou o relógio novamente, respirou fundo e voltou ao banheiro. A pequena faixa azul era visível antes mesmo de se chagar à porta. Ela quase desmaiou.
– Não – sussurrou. – Não pode ser. – Ela se afastou do frasco como se estivesse fugindo de algo contaminado, e fechou a porta do banheiro. Com as mãos trêmulas, estendeu o braço para pegar a vodca. Mas, num ímpeto, parou antes de tocar o copo. Um desânimo solitário apoderou-se dela.
– Isobel? – gritou a voz no aparelho. – É Milly novamente. Estarei na casa do Simon esta noite, pode telefonar para lá?
Não – Vociferou Isobel com uma súbita vontade de chorar. – Eu não posso, está bem? – Ela apanhou o copo, bebeu tudo de uma vez e o espatifou na mesa de cabeceira. Porém, mais lágrimas encheram seus olhos e ela já não conseguia controlar a respiração. Como um animal ferido, rastejou até a cama e enterrou a cabeça no travesseiro. Quando o telefone tocou novamente, começou a chorar baixinho.