Louca para Casar
Capítulo Três
Às oito e meia, Olivia e Milly chegaram a Pinnacle Hall. Elas foram recebidas por Simon, que as conduziu até a imensa e pomposa sala de estar.
– Nossa! – exclamou Olivia, indo em direção à lareira.
– Que maravilha!
– Vou pegar um champanhe– disse Simon. – Papai ainda está ao telefone.
– Vou tentar falar com Isobel novamente – disse Milly em tom hesitante.
– Vou usar o telefone da sala de jogos.
– Isso não pode esperar? – perguntou Olivia. – O que você tanto quer falar com ela?
– Nada – respondeu Milly imediatamente. – Nada. Eu só... preciso falar com ela. - Ela engoliu em seco. – Não vou demorar.
Quando os dois saíram, Olivia acomodou-se em uma cadeira, admirando o retrato acima da lareira. Era uma pintura a óleo, ricamente emoldurada, que parecia ter sido comprada junto com a casa; na realidade, era uma foto da avó de Harry ainda menina. Harry Pinnacle era tão conhecido por ter vencido na vida por conta própria que muitos acreditavam que ele havia enriquecido do nada. O fato de ele ter frequentado uma escola particular cara só estragava a lenda, assim como os vultosos empréstimos dos pais, que o ajudaram a começar os negócios. Esses detalhes eram geralmente ignorados por todos, inclusive pelo próprio Harry.
A porta se abriu, e uma garota loura e bonita, usando um blazer elegante, entrou na sala, trazendo uma bandeja com algumas taças de champanhe.
– Simon não vai demorar. Ele acabou de lembrar que precisava enviar um fax – justificou ela.
– Obrigada – disse Olivia, pegando uma taça com um sorriso discreto e elegante.
A moça saiu e Olivia bebeu um gole do champanhe. O fogo da lareira aquecia seu rosto, sua cadeira estava confortável, a música clássica tocava agradavelmente em caixas de som ocultas. "Isso é que é vida", pensou. Ao mesmo tempo, sentiu uma pontada de angústia – metade satisfação e metade inveja – ao se dar conta de que, em breve, sua filha estaria fazendo parte deste mundo. Em Pinnacle Hall, Milly já se sentia em casa, como se estivesse na Bertram Street, número 1. Acostumou-se facilmente a lidar com os empregados de Harry, estava habituada a sentar-se ao lado de Simon em jantares elegantes. Naturalmente, ela e o noivo podiam afirmar que eram como qualquer outro jovem casal, que o dinheiro não era deles, mas a quem eles tentavam enganar? Seriam ricos um dia. Extremamente ricos. Milly poderia ter tudo o que quisesse.
Olivia segurou a taça com mais força. Quando o noivado fora anunciado, ela ficara atônita. Ter qualquer espécie de ligação com o filho de Harry Pinnacle já era bom. Mas casar, e tão rapidamente, era uma bênção. À medida que os planos de casamento avançavam e se tornavam mais concretos, ela sentia cada vez mais orgulho de si mesma por disfarçar sua satisfação, por tratar Simon naturalmente, como qualquer outro jovem galanteador, por minimizar, para si mesma e para quer outra pessoa, a importância daquele casamento.
Mas agora, poucos dias antes da cerimônia, seu coração voltara a bater acelerado de felicidade. Dentro de apenas alguns dias, o mundo inteiro veria sua filha casar com um dos solteiros mais cobiçados do país. Todas as suas amigas bem na verdade, todos os seus conhecidos – teriam que reverenciá-la enquanto ela estaria em posição de destaque, reinando no casamento mais grandioso, mais elegante e mais romântico que já tinham visto. Era como se Olivia tivesse passado a vida inteira planejando esse acontecimento; um evento que superava até seu próprio casamento, que tinha sido uma cerimônia simples. Mas essa ocasião seria repleta de pessoas importantes, influentes e ricas; todas forçadas a ficar em segundo plano, enquanto ela e naturalmente Milly seriam o centro das atenções.
Dentro de alguns dias, ela estaria usando a roupa feita por um estilista importante, sorrindo para as inúmeras câmeras e observando suas amigas e conhecidos, além dos parentes invejosos, boquiabertos com o luxo da festa. Seria um dia maravilhoso, um dia que ficaria gravado na memória de todos, para sempre. “Como um filme lindo”, pensou Olivia feliz. “Um lindo e romântico de Hollywood.”
JAMES HAVIL CHEGOU À Pinnacle Hall e puxou o pesado cordão da campainha de ferro forjado. Enquanto esperava ser atendido, olhou ao redor e franziu a testa. O lugar era bonito demais, perfeito demais. Era um clichê da opulência, mais parecia com um macabro filme hollywoodiano do que com uma residência de verdade. “Se isso é que o dinheiro pode comprar”, pensou ele, enganando a si mesmo, “então pode guardá-lo. Eu prefiro a vida real.”
Ele percebeu a que a porta da frente se encontrava entreaberta, e entrou. O fogo crepitava na enorme lareira, e os lustres estavam todos acesos, mas não havia ninguém por perto. Ele olhou cuidadosamente ao redor, tentando distinguir as portas com lambris. Uma daquelas portas dava para a enorme sala de estar, a que tinha cabeças de cervos, conforme se lembrava de visitas anteriores. Mas qual delas? Por alguns segundos ficou indeciso e então, irritado consigo mesmo, seguiu em direção à porta mais próxima e a escancarou.
Mas não era a porta certa. A primeira coisa que viu foi Harry. Ele estava sentado diante de uma enorme mesa de madeira, atento ao telefone. Ao ouvir a porta se abrir, ele ergueu a cabeça grisalha, semicerrou os olhos e, demonstrando irritação, fez um sinal para que James saísse.
– Desculpe – murmurou James baixinho, recuando.
– Sr. Havill? – murmurou alguém atrás dele. – Desculpe não ter atendido a porta imediatamente. – James se virou e viu uma moça loura que ele reconheceu como uma das assistentes de Harry. – Poderia me acompanhar, por favor... – disse ela com delicadeza, conduzindo-o para fora do escritório.
– Obrigado – disse James mais aliviado.
– Os outros estão na sala de estar. Pode me dar seu casaco.
– Obrigado – disse James novamente.
– Se o Senhor precisar de mais alguma coisa – prosseguiu a moça delicadamente –, é só falar. Está bem? – “Em outras palavras”. Pensou James ressentido, “não fique perambulando por aí.” A moça deu-lhe um sorriso gentil, abriu a porta da sala de estar e fez um gesto para ele entrar.
O AGRADÁVEL MUNDO DE sonhos de Olivia foi interrompido quando a porta se abriu de modo repentino. Imediatamente, ela ajeitou a saia e sorriu, achando que se tratava de Harry. Mas era a moça loura novamente.
– Seu marido está aqui. Sra. Havill – disse ela, abrindo passagem para James.
Ele entrou na sala. Como tinha vindo diretamente do escritório. Seu terno cinza-escuro estava amassado e ele parecia cansado.
– Faz muito tempo que você chegou? – perguntou ele.
– Não – respondeu Olivia com uma alegria forçada. – Não muito.
Ela se levantou e foi em direção ao James com a intenção de cumprimentá-lo com um beijo. Pouco antes de Olivia alcançá-lo, a moça se retirou discretamente e fechou a porta.
Olivia parou de repente, sentindo-se constrangida. Nos últimos anos, o contato físico entre os dois só acontecia na frente de outras pessoas. Agora, sentia-se desajeitada por estar tão perto dele sem ter ninguém à sua volta, sem uma razão. Ela olhou para o marido, esperando um incentivo, mas o olhar dele era inexpressivo; ela não conseguiu detectar nenhum sentimento. Por fim, ela se inclinou para a frente, um tanto ruborizada, e deu-lhe um beijo no rosto. Recuou imediatamente e bebeu um gole do champanhe.
– Onde está Milly? – perguntou James com indiferença
– Foi dar um telefonema.
Olivia observou James se servir de uma taça de champanhe e beber um gole. Em seguida, ele foi ate o sofá e se sentou, esticando as pernas confortavelmente. Seu olhar dirigiu-se à cabeça do marido. Seu cabelo escuro estava úmido da neve, mas bem - penteado, e ela se viu analisando distraidamente a divisão lateral do cabelo dele. Quando ele virou cabeça, ela rapidamente desviou o olhar.
– Então – disse ela, tentando iniciar uma conversa. Mas logo desistiu e bebeu um gole do champanhe. Foi até a janela, abriu a pesada cortina de brocado e admirou a neve. Ela mal conseguia se lembrar da última vez que ficara sozinha em um cômodo com James, nem da última vez que conversaram com naturalidade. Alguns assuntos passaram por sua cabeça como se fossem comida na esteira rolante do caixa do supermercado, mas todos eram insípidos e difíceis de usar para iniciar uma conversa. Se falasse sobre a última fofoca de Bath, teria que começar lembrando quem eram os personagens principais. Se falasse a respeito do problema com o sapato que iria usar na cerimônia, teria que explicar primeiro a diferença entre cetim duchesse e chijfon de seda. Nada do que ela pensava em dizer parecia compensar o esforço de dar o primeiro passo.
Antigamente, a conversa entre os dois fluía como as águas de um rio. James ouvia as histórias da mulher com prazer; ela ria de seu humor irônico. Eles se curtiam, divertiam-se juntos. Mas ultimamente todas as piadas do marido pareciam ter traços de uma amargura que ela não entendia, e um desinteresse tenso surgia no rosto dele sempre que ela começava a falar.
Portanto, permaneceram em silêncio até que, finalmente, a porta se abriu. Milly entrou e lançou um breve sorriso forçado a James.
– Olá, papai. Você veio.
– Conseguiu falar com Isobel? – perguntou Olivia.
– Não – respondeu Milly rapidamente. – Não sei o que ela está fazendo. Tive que deixar outra mensagem. – Ela olhou para a bandeja. – Ah. Uma bebida viria a calhar.
Ela pegou uma taça de champanhe e a ergueu.
– Saúde.
– Saúde! – repetiu Olivia.
– A sua saúde, querida – disse James. Todos beberam e houve um breve momento de silêncio.
– Eu interrompi alguma coisa? – indagou Milly.
– Não – disse a mãe. – Você não interrompeu nada.
– Que bom – assentiu Milly displicentemente, indo até a lareira e torcendo para que ninguém falasse com ela.
PELA TERCEIRA VEZ, A ligação cairá na caixa postal. Toda vez que ouvia os toques, sentia uma explosão de raiva, uma certeza irracional de que Isobel estava ouvindo e simplesmente não atendia o telefone. Tinha deixado uma breve mensagem, e ficou fitando o aparelho durante alguns minutos, mordendo o lábio, aguardando desesperadamente que a irmã ligasse de volta. Isobel era a única pessoa com quem ela poderia falar, a única que a ouviria calmamente, que pensaria em uma solução em vez de dar um sermão.
Mas o telefone permanecera silencioso. Isobel não ligara de volta. Milly segurou a taça de champanhe com mais força. Não conseguia suportar esse pânico oculto e persistente. Quando estava a caminho de Pinnacle Hall, permanecera em silêncio no carro, conjurando pensamentos tranquilizadores. ''Alexander nunca se lembraria", disse a si mesma repetidas vezes. Tinha sido um encontro de dois minutos, há dez anos. Ele não poderia se lembrar. E mesmo se lembrasse, ele não diria nada a respeito. Ficaria quieto e faria seu trabalho. Pessoas civilizadas não causam problemas deliberadamente.
– Milly? – A voz de Simon interrompeu seus pensamentos e ela teve um sobressalto típico de quem está com a consciência pesada.
– Oi – respondeu. – Conseguiu enviar o fax?
– Sim. – Ele bebeu um gole de champanhe e olhou para ela mais atentamente. – Você está bem? Está parecendo tensa.
– Eu? – Ela sorriu. – Não, está tudo bem.
–Você está tensa – insistiu Simon, e começou a massagear seus ombros suavemente. – Preocupada com o casamento. Estou certo?
– Sim - assentiu Milly.
– Eu sabia.
Simon pareceu satisfeito, e Milly não disse nada. Ele gostava de pensar que tinha essa sintonia com as emoções dela, que sabia do que a noiva gostava e não gostava, que era capaz de detectar seu mau humor. E ela adotara o costume de concordar com ele, mesmo quando suas afirmações eram completamente equivocadas. Afinal, era muito carinhoso da parte dele fazer uma tentativa. A maioria dos homens nem se daria ao trabalho.
Além disso, esperar que ele acertasse sempre seria injusto. Na maioria das vezes nem ela sabia ao certo como se sentia. As emoções geravam matizes em sua mente como cores em uma paleta– algumas duradouras, outras momentâneas, mas todas se misturavam em um embate indivisível enquanto o humor de Simon parecia manifestar-se de maneira clara e uniforme, como uma fileira de blocos de construção de brinquedo. Quando estava feliz, ele sorria. Quando estava zangado, fechava a cara.
– Deixe-me adivinhar o que você está pensando – murmurou Simon no ouvido dela. - Você está lamentando o fato de não estarmos sozinhos esta noite.
– Não – disse Milly com franqueza. Ela se virou e olhou diretamente para ele, inspirando o seu familiar perfume almiscarado.
– Eu estava pensando no quanto eu te amo.
ERAM NOVE E MEIA da noite quando Harry Pinnacle entrou na sala com passos largos.
– Mil desculpas – disse. – Eu sei que isso é imperdoável.
– Harry, é completamente perdoável! – exclamou Olivia, que, a essa altura, estava na quinta taça de champanhe. – Nós entendemos!
– Eu não – murmurou Simon.
– E desculpe não ter falado com você mais cedo, no escritório – disse Harry dirigindo-se a James. – Era um telefonema importante.
– Não se preocupe – aquiesceu James de maneira formal.
Houve uma breve pausa.
– Bem, não vamos perder mais tempo. – Harry virou-se para Olivia e, com uma mesura, anunciou: – Primeiro as damas.
Eles atravessaram o corredor lentamente ate a sala de jantar.
– Você está bem, filha? – perguntou James a Milly ao se sentarem diante da magnífica mesa de mogno.
– Ótima. – Ela deu-lhe um sorriso tenso.
Mas Milly não estava bem, pensou James. Ele a vira entornando champanhe como se estivesse desesperada, estremecendo toda vez que o telefone tocava. Será que ela estava indecisa sobre o casamento? Ele se inclinou na direção dela.
– Lembre-se, filha – disse baixinho. – Você não tem que levar o casamento adiante se não quiser.
– O quê? – Milly deu um pulo, como se tivesse sido picada por um inseto, e James acenou com a cabeça de maneira tranquilizadora.
– Caso você mude de ideia em relação a Simon, agora ou até no dia do casamento, não se preocupe. Podemos cancelar tudo. Ninguém vai se incomodar.
– Não quero cancelar nada! – sibilou Milly . De repente, ela percebeu que estava prestes a chorar. – Eu quero me casar com Simon! Eu o amo.
– Ótimo - disse James. - Então, tudo bem.
Ele se acomodou na cadeira, passou os olhos ao redor da mesa, olhou para Simon e se viu inexplicavelmente irritado. O rapaz tinha excelentes qualidades: boa aparência, família rica e personalidade equilibrada. E nitidamente adorava Milly. Era gentil com Olivia e atencioso com o restante da família. Não havia motivo para se queixar. James admitiu a si mesmo que, naquela noite, estava muito propenso a reclamações.
Tivera um dia horrível no trabalho. A empresa de engenharia, em cujo departamento de finanças ele trabalhava, passara por um processo de reestruturação nos últimos meses. Naquele dia, rumores infindáveis culminaram com o anúncio de que haveria quatro demissões em cargos de menor importância no seu departamento. As notícias deveriam ser confidenciais, mas obviamente acabaram se espalhando: quando ele saiu do escritório, os membros mais jovens da equipe ainda estavam curvados sabre suas mesas. Alguns mantinham a cabeça baixa, outros levantaram os olhos, assustados, quando ele passou. Todos tinham família e prestações. Nenhum deles podia se dar ao luxo de perder o emprego. Nenhum deles merecia isso.
Quando chegou em Pinnacle Hall, estava muito deprimido com tudo aquilo. Ao estacionar o carro, decidiu que, quando Olivia perguntasse como tinha sido o seu dia, ele diria a verdade pela primeira vez. Talvez não contasse tudo imediatamente, apenas o bastante para deixá-la preocupada, para fazê-la entender a tensão com a qual lidava. Mas ela não perguntou nada, e certo orgulho o impedira de contar sua história voluntariamente, de admitir sua vulnerabilidade. Não queria que a mulher o visse como se ele fosse apenas mais um de seus projetos de caridade. Entre pôneis abandonados e crianças com necessidades especiais, um marido patético.
A essa altura, pensou James, ele já deveria ter se acostumado com Olivia, como fato de que ela não estava muito interessada nele, de que a vida dela era repleta de outras preocupações, de que dava mais atenção aos problemas de suas amigas tagarelas do que a ele. Afinal, os dois haviam conseguido estabelecer uma vida estável e funcional juntos. Se não eram almas gêmeas, pelo menos havia um tipo de simbiose entre eles. Cada um cuidava da própria vida, e tudo transcorria de maneira cordial nos pontos em que tinham algo em comum. James se resignara a esse acordo tácito há muito tempo, achava que era tudo de que precisava. Mas não era. Ele precisava de mais, queria mais. Desejava uma vida diferente, antes que fosse tarde.
– Eu gostaria de propor um brinde.
A voz de Harry interrompeu os pensamentos de James e ele franziu a testa. Lá estava ele: Harry Pinnacle, um dos homens mais bem-sucedidos do país e futuro sogro de sua filha. James sabia que essa união o tornava alvo da inveja de seus amigos e sabia que deveria estar feliz com a segurança financeira de Milly. Mas recusava-se a se alegrar como fato de ela se tornar membro da família Pinnacle; ao contrário da esposa, recusava-se a se deleitar com a curiosidade fascinada de seus amigos. Ele ouvira Olivia mencionar o nome de Harry numa conversa ao telefone, assumindo uma intimidade com ele que James sabia que ela não tinha. Ela explorava a situação ao máximo, e seu comportamento o deixava morto de vergonha. Certos dias, ele preferia que Milly nunca tivesse conhecido o filho de Harry Pinnacle.
– À Milly e Simon – declarou Harry com sua voz rouca, que fazia com que suas declarações parecessem mais importantes que as dos outros.
– À Milly e Simon – repetiu James, erguendo a pesada taça veneziana.
– Este vinho é simplesmente delicioso – disse Olivia.Você e expert em vinhos como em todas as outras coisas, Harry?
– De jeito nenhum – respondeu ele. – Conto com pessoas de bom gosto que sugerem para mim o que comprar.
Acho tudo igual.
– Ah, não acredito! Você esta sendo modesto – exclamou Olivia. Incrédulo, James observou a esposa tocar a mão de Harry com intimidade. Quem ela achava que era? Virou-se, ligeiramente enojado. O movimento chamou a atenção de Simon .
– Saúde, James – disse ele, erguendo a taça. – Ao casamento. – Sim - anuiu James, e bebeu um enorme gole de vinho.
– Ao casamento.
AO VER TODOS BEBENDO, Simon sentiu um súbito nó na garganta e tossiu.
– Há uma pessoa faltando aqui esta noite, e eu gostaria de propor um brinde a ela. – Ele ergueu sua taça. - A minha mãe.
Houve um momento de silêncio e ele notou que os olhares se voltaram para a cabeceira da mesa. Então, Harry ergueu sua taça.
– À Anne – disse ele com expressão séria.
– À Anne – repetiram James e Milly.
– Era esse o nome dela? – perguntou Olivia com o rosto corado. – Eu sempre achei que fosse Louise.
– Não – disse Simon. – Era Anne.
– Bem – disse Olivia – se você diz... – Ela ergueu sua taça. – A Anne. Anne Pinnacle. – Ela bebeu e olhou para Milly, como se tivesse acabado de se lembrar de algo. – Você não está planejando manter seu nome de solteira, não é, querida?
– Acho que não – respondeu Milly. – Mas devo manter o nome Havill no trabalho.
– Ah, não! – exclamou Olivia. – Pode causar confusão.
Melhor adotar o sobrenome Pinnacle para tudo!
– Acho uma boa ideia manter sua independência, Milly – disse James, concordando com a filha. – O que você acha, Simon? Você se incomodaria se Milly mantivesse o sobrenome Havill?
– Para falar a verdade eu gostaria que compartilhássemos o mesmo sobrenome. Afinal, nos iremos compartilhar todo o resto. – Ele se virou para Milly e sorriu. – Mas, ao mesmo tempo, ficaria triste se Milly Havill deixasse de existir. Afinal, foi por ela que eu me apaixonei.
– Muito comovente! – exclamou James.
– Você cogitaria mudar seu nome para Havill? – perguntou Harry, do outro lado da mesa. Simon olhou para o pai com determinação.
– Sim. Se Milly realmente quisesse.
– Não! – exclamou Olivia. – Você não quer, não é, querida?
– Não acho que você teria mudado o seu nome pelo da mamãe, teria papai? – perguntou Simon.
– Não. Não teria.
– Bem – continuou Simon, tenso –, a diferença é que estou preparado para por meu casamento acima de qualquer coisa.
– A diferença – repetiu Harry – é que o nome de solteira de sua mãe era Parry. Já imaginou, Harry Parry! – Olivia riu e Simon disparou-lhe um olhar furioso.
– A questão – retrucou Simon em voz alta – é que o nome é algo irrelevante. E o casal que faz um casamento dar certo. Não os nomes.
– E você, naturalmente, é expert em casamento – replicou Harry.
– Sou mais do que você! Pelo menos ainda não destruí o meu! – Todos ficaram em silêncio. Os Havill permaneceram com os olhos fixos em seus pratos. Simon olhou para o pai, ofegante. Então, Harry deu de ombros.
– Tenho certeza de que você e Milly serão muito felizes. Nem todo mundo tem a mesma sorte.
– Não é uma questão de sorte – retrucou Simon furioso. – Sorte não conta! –Ele fitou James e Olivia. – O que vocês acham que faz um casamento dar certo?
– Dinheiro – respondeu Olivia antes de dar uma gargalhada. – Brincadeira!
– É cumplicidade, não é? – perguntou Simon. Ele se inclinou para a frente com ar sério. – Compartilhar, dialogar, conhecer um ao outro profundamente. Concorda, James?
– Tenho que admitir que você tem razão – respondeu ele antes de beber um gole do vinho.
– Você está absolutamente certo, Simon – assentiu Olivia. – Na verdade, eu ia dizer que cumplicidade é muito importante.
– Eu colocaria o sexo antes da cumplicidade – disse Harry. – Sexo de qualidade e em grande quantidade.
– Bem, eu não saberia muito a respeito disso – retrucou James com ironia.
– James! – exclamou Olivia antes de dar uma risada. Simon fitou o futuro sogro com curiosidade. Em seguida, olhou para Milly. Mas ela não parecia estar ouvindo a conversa.
– E você, Harry?- perguntou Olivia com os olhos semicerrados.
– Eu?
– Nunca pensou em se casar novamente?
– Estou velho demais para me casar.
– Bobagem! Você pode encontrar uma esposa encantadora com facilidade.
– Se você diz...
– Não tenho dúvida. – Olivia bebeu outro gole de vinho – Eu mesma me casaria com você! – Ela deu um riso.
– Gentileza sua – disse Harry.
– De jeito nenhum – retrucou Olivia, tremulando sua taça. – Seria um prazer. Sinceramente.
HAVIA UMA VARIEDADE DE sobremesas para escolher.
– Nossa! – exclamou Olivia, indecisa entre a mousse de limão e a torta de chocolate. – Ah, não sei qual vou querer.
– Então coma as duas – sugeriu Harry.
– Esta falando sério? Não tem problema? Alguém vai comer as duas? – Olivia olhou para todos ao redor da mesa.
– Não vou querer nada – disse Milly, amassando o guardanapo entre os dedos.
– Você não está de dieta, não é? – perguntou Harry.
– Não – respondeu Milly. – Só não estou com fome. – Ela esboçou um sorriso para Harry, e ele acenou com a cabeça educadamente. Ele era um homem gentil, pensou ela. Reconhecia isso, embora Simon não o admitisse.
– Você é igualzinha a Isobel! – disse Olivia. – Come como um passarinho.
– Ela não tem tempo para comer – explicou James.
– Como ela está? – perguntou Harry com delicadeza.
– Muito bem! – respondeu James com súbita animação. – Alavancando a carreira, viajando pelo mundo...
– Ela tem namorado?
– Ah, não. – James sorriu. – Ela trabalha demais. Isobel sempre teve uma personalidade independente. Não vai se prender a ninguém sem pensar bem.
– Tudo é possível – objetou Olivia. – Ela pode conhecer alguém a qualquer momento! Algum executivo interessante.
– Deus nos livre – retorquiu James. – Você consegue ver Isobel se estabelecer com algum executivo chato? Além disso, ela ainda é muito jovem.
– Ela é mais velha do que eu – lembrou Milly.
– É verdade– anuiu James –, mas vocês são muito diferentes.
– Diferentes como? – Milly encarou o pai. As tensões do dia pulsavam de maneira insuportável dentro de sua cabeça, e ela ficou subitamente nervosa. – Como somos diferentes? Você está querendo dizer que eu sou burra demais para fazer qualquer coisa a não ser me casar?
– Não! – disse James. Ele pareceu surpreso. – Claro que não! O que eu quero dizer é que Isobel é mais aventureira do que você. Ela gosta de correr riscos.
– Eu já corri riscos! – gritou Milly. – Corri riscos sobre os quais você não sabe nada! – Ela parou abruptamente e fitou o pai, ofegante.
– Calma, Milly – pediu ele. – Tudo que estou querendo dizer é que você e Isobel são diferentes.
– Eu prefiro você – sussurrou Simon para a noiva. Ela deu-lhe um sorriso agradecido.
– Aliás, James, o que há de errado com executivos? – perguntou Olivia. – Você é um, não é? E eu casei com você.
– Eu sei, amor – ponderou James sem empolgação. Mas eu espero que Isobel encontre alguém com uma posição melhor do que a minha.
MAIS TARDE, QUANDO os pratos de sobremesa estavam sendo retirados, Harry pigarreou para obter a atenção de todos.
– Não quero fazer alarde – disse ele. – Mas tenho um presentinho para o jovem casal.
Simon ergueu os olhos na direção do pai defensivamente. Ele havia comprado um presente com o próprio dinheiro para dar a Milly está noite. E planejava surpreendê-la quando estivessem tomando café. Mas o que quer que Harry tivesse comprado seria, com certeza, mais caro do que os brincos que ele havia escolhido. Discretamente, ele tateou a procura da pequena caixa de couro escondida no bolso e pensou em deixar a surpresa para outra ocasião, um dia em que não teria que competir com o pai. Porém, uma onda de indignação o atingiu. Por que ele deveria se envergonhar? Talvez seu pai pudesse se permitir gastar um pouco mais do que ele. Mas, como poderia ser diferente?
– Tenho um presente também – disse Simon, tentando parecer casual. – Para Milly.
– Para mim? – indagou Milly meio confusa. – Mas eu não comprei nada para você. Pelo menos, nada para está noite.
– Mas não precisava – disse Simon.
Ele se debruçou e suavemente jogou o cabelo louro de Milly para trás, expondo suas pequenas orelhas rosadas. O gesto pareceu levemente erótico, e, ao fitar sua pele perfeita e inspirar seu doce perfume almiscarado, sentiu-se tornado por um desejo impetuoso. "Danem-se os outros", pensou. Olivia, com sua insuportável presunção; Harry, com todo o seu dinheiro. Ele tinha o corpo divino de Milly só para si, e era isso que importava.
– O que é? – disse Milly.
– Primeiro o seu, papai – disse Simon, sentindo-se generoso.
– O que você comprou?
Harry tateou o bolso e, por um momento, Simon ficou desesperado, achando que ele iria retirar um par de brincos idênticos ao que ele havia comprado. Mas em vez disso, Harry pôs uma chave sabre à mesa.
– Uma chave? – perguntou Milly. – Para quê?
– Um carro? – indagou Olivia incrédula.
– Não é um carro – respondeu Harry. – É um apartamento
Todos ficaram surpresos. Olivia abriu a boca para falar, mas desistiu.
– Você só pode estar brincando – disse Simon. – Você comprou um apartamento?
Harry empurrou a chave sobre a mesa.
– Todo seu.
Simon fitou o pai, sentindo uma serie de emoções inconvenientes virem à tona. Ele tentou experimentar um sentimento de gratidão, mas tudo que conseguia sentir era desgosto, além do início de uma raiva defensiva e dolorosa. Percebeu que Milly olhava para Harry com olhos brilhantes, abismada, e sentiu um súbito desespero.
– Como... – começou ele, tentando reunir o tom correto e agradecido, mas só conseguia parecer rabugento. – Como você pode saber se nos vamos gostar?
– É aquele que você queria alugar.
– Aquele em Marlborough Mansions?
Harry fez que sim.
Aquele que você queria alugar. Aquele que você não pode pagar.
– O apartamento em Parham Place? – sussurrou Milly. – Você o comprou para nós?
Simon fitou o pai e teve vontade de socá-lo. Foda-se ele por ser tão generoso.
– Isso é muito gentil de sua parte, Harry – disse James. – Muita consideração.
Harry deu de ombros.
– Uma coisa a menos para eles se preocuparem.
– Ah, querida! – disse Olivia, segurando a mão de Milly – Vai ser perfeito. E é perto da nossa casa.
– Mais uma vantagem – disse Simon antes que pudesse se controlar. James olhou para ele e pigarreou diplomaticamente.
– E o presente de Simon? – perguntou.
– Isso mesmo – disse Milly. Ela se virou para o noivo e tocou sua mão suavemente. – O que é?
Simon enfiou a mão no bolso e, em silêncio, entregou a pequena caixa. Todos olharam quando ela a abriu e exibiu dois pequenos e reluzentes brincos de diamante.
– Ah, Simon – disse Milly, olhando para ele, emocionada.
– Que lindo!
– Bonitinho – observou Olivia com desdém. – Ah, Milly! Imagine só! Parham Place!
– Vou colocá-los - disse Milly.
– Não precisa fazer isso agora – disse Simon ainda tentando se controlar, sentindo o coração disparar de raiva e mágoa. Era como se todos rissem dele. Inclusive Milly. – Não é nada muito especial.
– Claro que é – retrucou Harry em tom de censura.
– Não é não! - Simon se viu gritando. – Comparado a uma porra de um imóvel!
– Simon – disse Harry calmamente –, ninguém esta fazenda essa comparação.
– Eles são lindos! – disse Milly . – Dá uma olhada.
Ela jogou o cabelo para trás e os pequenos diamantes brilharam sob a luz das velas.
– Bonito – concordou Simon sem erguer os olhos. Ele sabia que estava piorando as coisas, mas não conseguia fazer nada para impedir isso. Sentia-se como um menininho humilhado.
Harry ficou de pé.
– Vamos tomar café – propôs a James. – Nicki irá servi-lo na sala de estar.
– Claro – assentiu James, aproveitando a sugestão. – Vamos, Olivia.
Os três saíram da sala de jantar, deixando Milly e Simon em silêncio. Após um momento, Simon viu que Milly o fitava. Ela não estava rindo, tampouco demonstrava compaixão. Ele se sentiu envergonhado.
– Desculpe – murmurou. – Estou agindo como um babaca.
– Eu ainda não o agradeci pelo presente.
Ela se inclinou para a frente e beijou-o com carinho. Simon fechou os olhos e segurou o rosto dela, sentindo apenas aquela doce sensação. Aos poucos, conseguiu afastar a imagem do pai do pensamento e sua irritação começou a diminuir. Milly era toda sua e nada mais realmente importava.
– Vamos fugir – disse ele repentinamente. – Dane-se o casamento. Vamos fazer do nosso jeito, em um cartório.
Milly se afastou.
– Você quer mesmo fazer isso? – perguntou. Ele não tinha falado sério, mas ela o fitava atentamente. – Topa, Simon? – insistiu com uma leve ansiedade na voz. –Amanhã?
– Bem – replicou ele um pouco espantado. – Nós podemos fazer isso. Mas você não acha que todos ficariam enfurecidos? Sua mãe nunca me perdoaria.
Milly fitou-o por um momento, e mordeu o lábio.
– Tem razão. É uma ideia idiota. – Ela empurrou a cadeira e se 1evantou.
– Vamos. Está pronto para agradecer a seu pai? Ele é muito gentil, sabia?
– Espere – pediu Simon. Ele estendeu o braço e segurou a mão dela com força. - Você fugiria mesmo comigo?
– Sim– respondeu Milly sem afetação. – Claro.
– Pensei que sonhasse com o casamento: o vestido, a festa, todos os seus amigos...
– Eu sonho. Mas... – Ela desviou o olhar e encolheu ombros ligeiramente.
– Mas desistiria de tudo e fugiria – disse Simon com a voz trêmula. – Abriria mão da festa. – Ele fitou Milly e percebeu que nunca experimentara tanto amor, tamanha abnegação. – Nenhuma outra garota faria isso. – A voz dele estava tomada pela emoção. – Como eu te amo. Não sei o que fiz para merecer você. Venha aqui.
Ele a sentou sobre os joelhos e começou a beijá-la no pescoço. Em seguida, tentou abrir o sutiã dela e puxou desesperadamente o zíper da saia.
– Simon... – advertiu Milly .
– Vamos fechar a porta– sussurrou ele. – Eu coloco uma cadeira debaixo da maçaneta.
– Mas seu pai...
Ele nos deixou esperando um tempão – murmurou Simon contra a pele quente e perfumada de Milly . – E agora, e ele quem vai nos esperar.