Louca para Casar
Capítulo Quatro
Na manhã seguinte, Milly acordou revigorada. A comida farta, o vinho e a conversa da noite anterior pareciam ter desaparecido do seu corpo; ela se sentia leve e cheia de energia.
Ao entrar na cozinha para tomar o café da manhã, um casal de hóspedes de Yorkshire, o Sr. e a Sra. Able, cumprimentaram-na com um cordial aceno de cabeça.
– Bom dia, Milly! – disse sua mãe, que falava ao telefone. – Há outra entrega especial para você. – Ela apontou para uma caixa grande que estava no chão. - Ah, e chegou uma garrafa de champanhe que eu guardei na geladeira.
– Champanhe! – exclamou Milly. – E o que é isso? – Ela se serviu de uma xícara de café, sentou no chão e começou a rasgar o papel do embrulho.
– Parece algo interessante – disse a Sra. Able em tom encorajador.
— E Alexander disse que encontrará às dez e meia — acrescentou Olivia.
— Para tirar algumas fotos e resolver uns detalhes.
— Ah — disse Milly, nervosa. — Tudo bem.
— Você devia se maquiar antes — sugeriu Olivia, olhando para a filha com ar crítico. — Querida, você está bem?
— Claro. Claro que sim.
— Oi, Andrea — disse Olivia, voltando a falar ao telefone. — Sim, eu recebi sua mensagem. E francamente, fiquei intrigada.
Com as mãos trêmulas, Milly começou a arrancar o plástico que ainda envolvia o presente, sentindo o pânico aumentar cada vez mais. Ela não queria ver o fotógrafo. Queria fugir como uma criança e tirá-lo da mente.
— Bem, acho que Derek terá que comprar um fraque — dizia Olivia com firmeza. — Andrea, estamos falando de um casamento elegante, não de um evento qualquer em um salão paroquial. Portanto, um bom terno não será suficiente — observou revirando os olhos para Milly. — O que é isso? — perguntou para a filha, apenas movendo os lábios e apontando para o presente.
Em silêncio, Milly exibiu um par de malas Louis Vuitton, fitando-as. Outro presente suntuoso. Tentou sorrir, tentou parecer feliz, mas só conseguia pensar no medo que a atormentava. Ela não queria sentir os olhos de Alexander examinando minuciosamente seu rosto mais uma vez. Queria se esconder até estar seguramente casada com Simon.
— Muito Bom! — disse Olivia.
— Nossa! — admirou-se a Sra. Able. — Geoffrey, dá só uma olhada neste presente de casamento. Quem enviou, querida?
Milly olhou o cartão.
— Alguém de quem nunca ouvi falar.
— Um dos amigos de Harry, imagino — sugeriu Olivia, colocando o telefone no gancho.
— Eu nunca vi um casamento como esse — disse a Sra. Able, balançando a cabeça. — Vou ter muitas histórias para contar quando voltar para casa!
— Eu falei do cortejo de entrada, não falei? — perguntou Olivia com ar de contentamento, indo até o fogão. — Um organista virá especialmente de Genebra. Ele é o melhor, ao que parece. E haverá um toque de trombetas quando Milly chegar à igreja.
— Toque de trombetas! — repetiu a Sra. Able, olhando para Milly. — Você vai se sentir uma princesa.
— Coma um ovo, querida. — pediu Olivia.
— Não, obrigada — recusou Milly. — Vou tomar apenas um café.
— Ainda está um pouco frágil depois da noite passada. — Olivia, distraída, quebrou alguns ovos em uma panela. — Foi um jantar maravilhoso, não foi Milly? — Ela sorriu para a Sra. Able. — Tenho que admitir: Harry é um anfitrião impecável.
— Ouvi falar que ele oferece jantares de negócios sofisticadíssimos — comentou a Sra. Able.
— Devem ser mesmo — assentiu Olivia — Mas, naturalmente, quando é algo só para nós, as coisas são diferentes. — Ela deu um breve sorriso nostálgico. — Não há uma formalidade sufocante; nós apenas nos divertimos. Comemos, bebemos, conversamos... — Ela voltou os olhos ao Sr. e Sra. Able para assegurar-se de que eles estavam prestando atenção. — Afinal, Harry, é um amigo próximo. E logo será parte da família.
— Isso é inacreditável — disse o Sr. Able. — Harry Pinnacle parte da sua família. E você, administrando uma pensão.
— Uma pensão de prestígio — completou Olivia. — Faz uma diferença!
— Geoff! — sussurrou a Sra. Able para o marido em tom de reprovação.
— Você deve jantar na casa dele com frequência — retrucou rapidamente, olhando para Olivia. — Considerando que ele é um amigo tão chegado.
— Bem... — ponderou Olivia. A fatia de ovo que ela segurava oscilou no ar.
‘’Duas vezes’’, pensou Milly. ‘’Foram duas vezes.’’
— Depende — disse Olivia, lançando um sorriso amável a Sra. Able. — Não temos uma frequência, um compromisso obrigatório. Às vezes, ele fica fora do país por várias semanas. Quando volta, quer apenas passar uns dias tranquilos na companhia dos amigos.
— Você já esteve na casa dele em Londres? — perguntou a Sra. Able.
— Não — respondeu Olivia com pesar. — Mas Milly já foi. Ela também esteve na casa de campo na França. Não, é meu amor?
— Sim.
— É um salto e tanto na sua vida, querida. — disse Sr. Able. — Imagine só entrar para a alta sociedade da noite para o dia.
Olivia engoliu em seco, num esforço para se controlar diante da afirmação.
— Parece até que Milly vem de uma família carente — replicou. — Você está acostumada a lidar com todo o tipo de pessoas, não é, querida? Na escola onde ela estudava havia uma princesa árabe — acrescentou Olivia, dando ao Sr. Able um olhar de satisfação. — Qual era mesmo o nome dela?
— Eu preciso ir — disse Milly, incapaz de suportar os comentários. Ela se levantou sem ter tomado o café.
— Está certo — ponderou Olivia. — Use um pouco de maquiagem. Vai ficar melhor nas fotos.
— Está bem — concordou Milly um pouco hesitante. Ela parou na porta da cozinha e perguntou para a mãe de forma casual: — Por acaso Isobel ligou para mim esta manhã?
— Não. Ela deve ligar mais tarde.
AS DEZ E QUARENTA, Alexander surgiu na sala de estar.
— Oi, Milly. Desculpe o atraso.
Milly levou um susto. Sentiu-se como se a tivessem chamado para uma prova ou fosse a sua vez de entrar no consultório do dentista.
— Não tem problema — disse ela, pousando a Country Life que fingira estar lendo.
— Tudo bem. — Olivia surgiu logo atrás de Alexander. — O que você acha de tirar algumas fotos ao lado da janela, ou perto do piano?
— Fique exatamente onde está — disse Alexander com um olhar perscrutador para Milly, que estava sentada no sofá. — Vou ter que usar um pouco de luz...
— Alguém quer café? — perguntou Olivia.
— Eu quero — respondeu Milly imediatamente e, sem olhar para trás, apressou-se para fora da sala. A caminho da cozinha, ela se olhou no espelho. Sua pele estava ressecada, seus olhos pareciam assustados; sua aparência em nada lembrava a de uma noiva feliz. Com os punhos fechados, cravando as unhas na palma da mão, ela se forçou a sorrir diante do próprio reflexo. Tudo ficaria bem. Se ela conseguisse ao menos agir de modo confiante, tudo ficaria perfeito.
Quando voltou, a sala havia sido transformada em um estúdio fotográfico. Um tecido branco encontrava-se estendido no chão, e sombrinhas brancas e tripés de luz rodeavam o sofá no qual Olivia estava sentada, sorrindo constrangida para a câmera.
— Estou posando no seu lugar, filha! — disse ela alegremente.
— Está nervosa? — perguntou Alexander a Milly.
— De jeito nenhum — respondeu ela com ar impassível.
— Deixe-me ver suas unhas, querida — pediu Olivia, levantando-se. — Se for mostrar o anel...
— Elas estão perfeitas — interrompeu Milly, puxando a mão. Depois, caminhou cuidadosamente sobre o tecido branco, sentou no sofá e olhou para Alexander com toda a calma que conseguiu reunir.
— Ótimo — disse Alexander. — Agora relaxe. Acomode-se. Afrouxe as mãos. — Ele fitou-a durante algum tempo com olhar crítico. — Pode jogar o cabelo para trás?
— Acabei de lembrar! — exclamou Olivia. — Aquelas fotografias de que lhe falei. Vou buscá-las.
— Tudo bem — concordou Alexander distraidamente. — Milly, agora quero que você se recoste um pouco e sorria.
Sem perceber, Milly se viu obedecendo às ordens do rapaz. Ao sorrir, ela sentiu o corpo relaxar, afundando nas almofadas do sofá. Alexander parecia completamente preocupado com a câmera. Qualquer sugestão de que já haviam se encontrado anteriormente parecia ter sido esquecida. Não havia por que se preocupar, disse a si mesma, confiante. Tudo daria certo. Olhou para o anel, que brilhava em seu dedo, e deslocou ligeiramente as pernas para uma posição mais confortável.
— Aqui estão elas — disse Olivia, aproximando-se rapidamente de Alexander com um álbum de fotografias. — São de Isobel, um pouco antes da formatura. Nós achamos que ficaram maravilhosas, mas não temos o olhar de um profissional. O que acha?
— Muito boas — disse Alexander, olhando-as rapidamente.
— Você acha mesmo? — - Olivia pareceu satisfeita. Ela folheou as páginas de trás para frente. — Aqui está Isobel novamente. Nesta também. — Ela folheou mais um pouco. — E esta é uma foto de Milly, mais ou menos na mesma época. Deve ter uns dez anos. Olha só o cabelo dela!
— Bem legal — elogiou Alexander automaticamente. Mas ao se virar para olhar mais de perto, ele parou, petrificado. — Espere — pediu. — Deixe-me ver esta melhor. — Ele tomou o álbum das mãos de Olivia, observou a fotografia durante alguns segundos e fitou Milly, incrédulo.
— Ela cortou e descoloriu o cabelo sem nos avisar! — disse Olivia em tom de brincadeira — Ela era meio rebelde naquele tempo! Não dá para acreditar, vendo agora, não é?
— Não — assentiu Alexander. — Não dá mesmo para acreditar. — Ele continuou olhando para o álbum, boquiaberto. — A noiva! — disse lentamente, como se estivesse pensando em voz alta.
O coração de Milly disparou. Ela fitou Alexander com expressão de desamparo, nervosa, sem se atrever a mover um músculo sequer. Ele lembrou. Ele se lembrou dela. Mas se mantivesse a boca fechada, tudo continuaria bem. Ele só precisaria manter a boca fechada.
— Bem — disse Alexander, finalmente levantando os olhos. — Que diferença! — Ele olhou para Milly, sorrindo com o canto da boca. Ela o encarou com o estômago revirado.
— É o cabelo — disse Olivia, ansiosa. — É só isso. Quando mudamos o penteado, o resto parece mudar também. Você devia me ver com o cabelo preso em um coque.
— Não acho que seja só o cabelo — retrucou Alexander. — O que você acha Milly? Foi só o cabelo? Ou há mais alguma coisa diferente?
Ele encarou Milly, e ela o fitou apavorada.
— Não sei. — Ela conseguiu responder após um momento.
— É bem estranho, não é? — disse Alexander, apontando para o álbum.
— Você, há dez anos... e agora, uma mulher completamente diferente. — ele fez uma pausa, colocando o filme na câmera. — E aqui estou eu.
— Esta é uma ótima foto de Isobel em uma peça de teatro da escola — disse Olivia, mostrando a fotografia a Alexander, que a ignorou.
— A propósito, Milly — disse ele informalmente — , eu não perguntei antes. Este é seu primeiro casamento?
— Claro que é o primeiro casamento! — exclamou Olivia, dando uma risadinha. — Ela parece velha o bastante para estar se casando pela segunda vez?
— Nunca se sabe — ponderou Alexander, ajustando a câmera — Nos dias de hoje... — Um súbito flash disparou, e Milly estremeceu como se estivesse sendo atacada. — Relaxe — sugeriu, e o brilho de um sorriso passou por seu rosto. — Se conseguir.
— Você está linda, querida — observou Olivia, levando as mãos ao peito.
— Só perguntei — prosseguiu Alexander — porque tenho feito muitas fotos de segundo casamento. — Ele fez uma pausa e observou Milly por cima da câmera. — Mas não é o seu caso.
— Não — repetiu Milly com a voz sufocada. — Não é o meu caso.
— Interessante — insistiu Alexander.
Milly lançou um olhar apreensivo à mãe, mas Olivia apresentava a mesma expressão educadamente confusa que exibia quando os executivos que se hospedavam na pensão começavam a falar de softwares ou da cotação de iene. Ao perceber o olhar de Milly, ela acenou com a cabeça e começou a se afastar, submissa.
— Eu voltou depois, está bem? — sussurrou ela.
— Claro — disse Alexander. — Agora, vire a cabeça para esquerda. Excelente. — O flash disparou novamente. A porta se fechou devagarinho atrás de Olivia.
— Então, Milly — começou Alexander. — O que aconteceu com seu primeiro marido?
Milly sentiu a sala girar, cada músculo do seu corpo se contraiu. Ela olhou fixamente para a lente da câmera, em silêncio.
— Relaxe as mãos — instruiu o fotógrafo. — Elas estão tensas. Tente se soltar. — Ele bateu mais algumas fotos. — Vamos, qual é a história?
— Não sei do que você está falando — retrucou Milly com a voz apática. Alexander riu.
— Vai ser preciso inventar algo melhor. — Ele estendeu o braço e ajeitou uma das sombrinhas brancas. — Você sabe exatamente do que estou falando. E parece óbvio que ninguém, além de mim, sabe. Estou intrigado. Experimente cruzar as pernas — acrescentou, olhando-a através da lente. — Coloque a mão direita sobre o joelho para mostrar o anel. E a outra, sob o queixo.
Mais um flash. Milly olhava desesperadamente para a frente, tentando pensar em uma reação, um fora, uma resposta incisiva. Mas seus pensamentos eram inconsistentes, desarticulados, como se sua mente tivesse sido dominada pelo pânico. Sentia-se presa ao sofá pelo medo, incapaz de fazer qualquer coisa a não ser obedecer às instruções dele.
— Um primeiro casamento não é algo ilegal, você sabe? — observou Alexander. — Portanto, qual é o problema? Seu noivo desaprovaria? Ou seria o pai dele? — Ele bateu mais algumas fotos e colocou um novo rolo de filme na máquina. — É por isso que você está guardando segredo? — Ele a olhou pensativo. — Ou talvez haja mais detalhes nessa história. — Ele aproximou o rosto da câmera. — Você poderia se inclinar para a frente?
Milly moveu o corpo. Estava tensa, sentia a pele formigar.
— A propósito, eu ainda tenho uma fotografia sua — continuou ele. — Vestida de noiva, nos degraus do cartório. Ficou ótima, quase a emoldurei.
A sala brilhou novamente com mais um flash. Milly estava tonta de tanto medo. Lembrou-se daquele dia em Oxford, dos turistas tirando fotos enquanto ela sorria, estimulando-os. Como ela pôde ter sido tão burra? Como ela...
— Claro, você está muito diferente agora — prosseguiu Alexander. — Quase não a reconheci.
Milly esforçou-se para erguer os olhos e encará-lo.
— Você não me reconheceu — disse ela com um leve tom de súplica na voz. — Você não me reconheceu.
— Bem, não sei — retrucou o fotógrafo, balançando a cabeça. — Guardar segredos do seu futuro marido, Milly, não é um bom sinal. — Ele tirou o suéter e jogou-se em um canto. — O pobre rapaz merece saber. Alguém deveria contar a ele.
Milly moveu os lábios para falar, mas não conseguiu emitir nenhum som. Nunca se sentira tão assustada em toda sua vida.
— Assim está perfeito — afirmou ele, observando-a através da lente. — Mas procure não franzir a testa. — Ele desviou os olhos da câmera e sorriu. — Pense em coisas boas.
Depois do que pareceram horas, ele terminou.
— Certo — disse ele. — Você está liberada. — Milly levantou-se e fitou-o em silêncio. Se ela contasse a história toda, talvez ele pudesse se compadecer. Ou não. De repente, viu-se dominada por um tremor incontrolável. Não podia arriscar.
— Quer alguma coisa? — perguntou Alexander, afastando o rosto da câmera.
— Não — respondeu Milly. Por um instante, seus olhares se cruzaram, e uma sensação de pânico atravessou seu corpo. — Obrigada.
Ela se dirigiu à porta mais rápido possível, tentando não demonstrar pressa. Esforçou-se para virar a maçaneta calmamente e saiu da sala. Ao fechar a porta atrás de si, sentiu-se prestes a chorar de alívio. Mas o que deveria fazer agora? Fechou os olhos por alguns segundos, voltou a abri-los e pegou telefone. A esta altura, ela já sabia o número de cor.
— Oi — atendeu a voz na caixa postal. — Se quiser deixar uma mensagem para Isobel Havill, por favor, fale após o sinal.
Milly bateu o telefone com raiva. Precisava falar com alguém. Não aguentava mais. Então, teve uma súbita inspiração e apanhou o telefone novamente.
— Alô — disse quando a ligação foi atendida. — Esme? É Milly. Preciso muito falar com você.
A MADRINHA DE MILLY morava em uma casa grande e bonita ao norte da cidade, distante da rua principal e cercada por um jardim murado. Enquanto Milly subia a rampa em direção à entrada, Esme abriu a porta e seus dois cães brancos e de corpo alongado, da raça whippet, correram na neve e pularam alegremente sobre ela.
— Sosseguem, seus brutos — exclamou Esme, da porta. — Deixem a pobre Milly em paz. Ela está sensível.
Milly a encarou.
— É tão evidente assim?
— Claro que não — ponderou Esme, tragando o cigarro e apoiando-se na porta. Seus olhos escuros e examinadores encontraram os da afilhada. — Mas você não costuma ligar pedindo para me ver com urgência. Suponho que haja algo errado.
Milly percebeu a expressão avaliadora de Esme e ficou constrangida.
— Não exatamente — disse, afagando a cabeça dos cachorros de maneira casual. — Eu só queria conversar com alguém, e Isobel está longe...
— Conversar sobre o quê?
— Não sei bem — respondeu Milly, engolindo em seco. — Todo tipo de coisa.
Esme deu outra tragada.
— Todo tipo de coisa. Estou intrigada. É melhor você entrar.
A lareira crepitava na sala de estar e uma jarra de vinho quente com especiarias exalava um vapor perfumado no ar. Quando Milly entregou o casaco a Esme e, agradecida, afundou no sofá, perguntou-se mais uma vez como uma mulher tão sofisticada podia ter qualquer relação de parentesco com seu pai, uma pessoa tão simples.
Esme Ormerod e James Havill eram primos de segundo grau. Ela fora criada em Londres pelo lado mais rico da família, e James mal a conhecia. Porém, logo depois que Milly nasceu, ela se mudou para Bath e, educadamente, entrou em contato com James. Olivia, impressionada com esse exótico laço familiar do marido, imediatamente a convidou para ser madrinha de Milly, com a intenção de estreitar os laços de amizade entre as duas. No entanto, isso não aconteceu. Esme nunca se tornou grande amiga de Olivia; até aonde Milly sabia, ela não tinha grandes amizades com ninguém particular. Em Bath, todos conheciam a bela Esme Ormerod. Muitos iam às festas na casa dela, admiravam suas roupas fabulosas e os novos itens da coleção de objetos de arte espalhados pelos cômodos, mas poucos podiam alardear que a conheciam bem. Milly, que entre todos os membros da família era quem mais convivia com ela, nunca sabia o que ela pensava ou como reagiria diante de uma situação específica.
Milly também não sabia ao certo como Esme se sustentava. Embora sua origem fosse mais abastada, todos reconheciam que o dinheiro da família não era suficiente para financiar, por si só, a vida confortável de Esme ao longo de todos esses anos. As poucas pinturas que ela ocasionalmente vendia não eram suficientes sequer para mantê-la confortável, segundo dizia o pai de Milly. Afora isso, ninguém tinha conhecimento de nenhuma outra fonte de renda. A fortuna de Esme era motivo de muita especulação. Um dos últimos rumores que circularam em Bath davam conta de que ela viajava para Londres uma vez por mês para prestar serviços sexuais inefáveis a um velho rico, que lhe pagava uma generosa mesada. Ao ouvir a fofoca, Olivia reagiu indignada: "Francamente, que absurdo!" Porém, logo em seguida afirmou: "Mas não duvido de que seja possível...”
— Coma alguma coisa — disse Esme, servindo uma bandeja de biscoitos finamente confeitados.
— São lindos! — disse Milly, indecisa entre um coberto com espirais de cacau em pó e outro salpicado com flocos de amêndoas. — Onde você os comprou?
— Em uma lojinha que descobri — respondeu Esme.
Milly experimentou o de cacau e, imediatamente, um sabor achocolatado divino se espalhou em sua boca. Esme parece comprar tudo em lojas pequenas e desconhecidas, ao contrário de sua mãe, que preferia estabelecimentos grandes e famosos: Fortnum & Mason, Harrods, John Lewis.
— E então, como estão os preparativos para o casamento — perguntou a madrinha, sentando-se no chão em frente da lareira e arregaçando as mangas do suéter de caxemira cinza. O pingente de opala, que ela sempre trazia pendurado no pescoço, reluzia sob a luz do fogo.
— Está tudo bem — respondeu Milly. — Sabe como é. Esme deu de ombros, demonstrando total desconhecimento, e a afilhada se lembrou de que não via ou falava com a madrinha há varias semanas, ou até meses. Mas isso era comum. A relação entre as duas sempre fora pontuada por fases desde que Milly chegara à adolescência. Quando tinha algum problema, ela ia direto para a casa de Esme e sempre era compreendida, sempre era tratada como adulta. Ela passava vários dias na casa da madrinha, refletindo, adotando seu vocabulário ou ajudando-a a preparar refeições sofisticadas com ingredientes dos quais Olivia nunca ouvira falar. Ficavam na sala de estar bebendo vinho e ouvindo música de câmara. Milly se sentia culta e madura, e jurava que no futuro viveria como Esme. Alguns dias depois, ela voltava pra casa retomava sua vida exatamente do ponto em que deixara, e a influência de Esme acabava se restringindo somente a descoberta de uma expressão nova ou das qualidades do azeite prensado a frio.
— Então, querida — disse Esme — , se não é o Casamento, qual é o seu problema?
— É o casamento — confessou Milly. — Mas é um tanto complicado.
— É com Simon? Vocês brigaram?
— Não — respondeu Milly imediatamente. — Não. Eu apenas... — Ela suspirou profundamente e pousou o biscoito na bandeja. — Eu preciso de um conselho. Um... conselho hipotético.
— Um conselho hipotético?
— Isso — assentiu Milly, aflita. Ela olhou bem nos olhos madrinha. — Hipotético.
— Entendi — disse Esme após um momento de silêncio. Ela deu um sorriso dissimulado. — continue.
A UMA DA TARDE, Simon recebeu um telefonema de Paris.
— Simon? É Isobel.
— Oi, Isobel! Como vai?
— Você sabe onde está Milly? Estou tentando falar com ela. — A voz de Isobel parecia ridiculamente distante e inaudível para quem estava em Paris, pensou Simon.
— Ela não está no trabalho?
— Acho que não. Escute, vocês brigaram ou algo assim? Eu vi que ela tentou ligar para mim várias vezes.
— Não — respondeu ele espantado. — Pelo menos não que eu saiba.
— Então deve ser por outra razão — disse Isobel. — Vou tentar achá-la em casa. Tudo bem, vejo você quando voltar.
— Espere! — pediu Simon repentinamente. — Isobel queria pedir uma coisa.
— Sim? — Simon teve a impressão que ela estava desconfiada. Ou talvez fosse apenas paranoia sua. Ele sempre achou Isobel um pouco ardilosa. Para começar ela falava pouco. Sempre conversavam. Ele acabava sempre se sentindo constrangido diante de seu olhar observador e inteligente. Ele ficava indeciso sobre o que ela pensava a respeito dele. Ele gostava dela, mas também achava um tanto intimidadora.
— Para falar a verdade, é um favor. Você poderia me ajudar a comprar um presente para Milly?
— Que tipo de presente?
“Se fosse a Milly”, pensou Simon, “teria gritado ‘claro!’ imediatamente, e só depois perguntaria os detalhes.”
— Queria comprar uma bolsa Chanel. Poderia me ajudar escolher?
— Chanel? — repetiu Isobel, incrédula. — Você sabe quanto custa uma bolsa dessas?
— Sei.
— É muito caro.
— Não tem problema.
— Simon, você é louco. Milly não quer uma bolsa Chanel.
— Quer sim!
— Não é o estilo dela.
— Claro que é — retrucou Simon. Milly gosta de peças clássicas e elegantes.
— Se você pensa assim... — retrucou Isobel em tom apático. Ela suspirou e perguntou: — Simon, isso tem alguma coisa a ver com o presente que seu pai comprou?
— Não! Claro que não. — Ele hesitou. — Como você ficou sabendo disso?
— Mamãe me contou. Ela falou dos brincos também. — a voz de Isobel abrandou-se. — Veja bem, eu posso imaginar que não foi um momento fácil para você. Mas não é motivo para gastar todo o seu dinheiro em uma bolsa cara.
— Milly merece o melhor.
— Ela tem o melhor. Ela tem você!
— Mas...
— Escute, Simon. Se você realmente quer comprar algo para Milly, compre alguma coisa para o apartamento. Um sofá. Ou um tapete. Ela iria adorar.
— Tem razão — admitiu ele após um momento de silêncio.
— Claro que tenho razão.
— É que... — Simon soltou o ar dos pulmões. — Meu pai!
— Eu sei — ponderou Isobel. — Mas o que você pode fazer? Ele é um milionário generoso. É um ordinário.
Simon estremeceu diante da afirmação.
— Nossa, você não tem mesmo papas na língua, hein? Acho que prefiro sua irmã.
— Por mim, está ótimo. Olha, eu preciso desligar. Tenho que pegar o avião.
— Está certo. Obrigada, Isobel. Estou realmente agradecido.
— Tudo bem. Até logo. — E desligou antes que Simon dizer alguma coisa.
— BOM — DISSE MILLY. Ela ergueu os ombros e, desviando o olhar, fitou a luz bruxuleante do fogo. — Vamos imaginar uma pessoa. E que essa pessoa tem um segredo.
— Uma pessoa — repetiu Esme, olhando-a de forma esquisita. — E um segredo.
— Sim — continuou Milly ainda fitando o fogo. — E vamos supor que ela nunca contou isso a ninguém. Nem para o homem que ama.
— Por que não?
— Porque ele não precisava saber — respondeu Milly em tom defensivo.
— Porque foi apenas uma coisa estúpida e irrelevante que aconteceu há dez anos. E se viesse à tona, arruinaria tudo. Não somente para ela, mas para todos.
— Ah. Um segredo dessa magnitude.
— Isso. Um segredo dessa magnitude. — Milly respirou fundo e prosseguiu: — E vamos supor... — Ela mordeu o lábio — Vamos supor que alguém que conhece esse segredo de repente tenha aparecido. E ameaça contar tudo.
Esme suspirou lentamente.
— Entendi.
— Mas a dona do segredo não sabe se ele está falando sério ou não. Ela acha que ele pode estar apenas brincando.
Esme acenou com a cabeça, como se estivesse analisando a situação.
— A questão é: o que ela deveria fazer? — prosseguiu Milly. Ela olhou bem nos olhos de Esme. — Deveria... contar ao namorado? Ou ficar quieta e torcer para que nada aconteça?
Esme pegou o maço de cigarros.
— É realmente um segredo que precisa ser mantido? — perguntou. — Ou é somente um descuido bobo com o qual ninguém se incomodaria? Será que essa pessoa não está exagerando?
— Não, de jeito nenhum. É um segredo importante. Algo como... — Milly fez uma pausa. — Como um casamento anterior. Ou algo assim.
Esme arqueou as sobrancelhas.
— Esse, com certeza, é um segredo importante.
— Ou algo assim — repetiu Milly. — Não importa o que seja. — Ela olhou diretamente para Esme. — A questão é que ela manteve esse segredo por dez anos. Ninguém jamais soube. Nem precisa saber.
— Certo. Entendi. — Esme acendeu um cigarro e o tragou profundamente.
— Então, o que você faria se fosse essa pessoa? — perguntou Milly, enquanto Esme soltava, pensativa, uma nuvem de fumaça.
— Qual é o risco desse cara contar tudo?
— Não sei — respondeu Milly. — No momento, bem pequeno, eu acho.
— Eu não diria nada. Por enquanto. E tentaria encontrar um modo de manter o cara calado.
— Esme deu de ombros. — Aos poucos tudo irá se dissipar.
— Você acha mesmo? — perguntou Milly, encarando-a. — Realmente pensa assim?
Esme sorriu.
— Querida, quantas vezes você passou a noite em claro preocupada com algo e, de manhã, se deu conta de que não havia nada a temer? Quantas vezes se apressou em encontrar uma desculpa por uma péssima atitude e acabou percebendo que ninguém notou que você tinha feito algo errado? — Ela tragou.
— Nove em cada dez vezes é melhor não dizer nada, agir de maneira discreta e esperar que tudo prossiga naturalmente. E ninguém precisa saber. — Esme fez uma pausa. — Hipoteticamente falando, claro.
— Sim, claro.
Houve um momento de silêncio, quebrado apenas pelo estalido do fogo. Do lado de fora, a neve voltara a cair em flocos espessos e difusos.
— Tome mais um pouco de vinho — sugeriu Esme. — Antes que esfrie. E coma um biscoito.
— Obrigada — murmurou Milly. Ela apanhou um biscoito de fondant de laranja e o fitou. — Você não acha que eu... quero dizer, a pessoa, deve ser franca e contar tudo ao namorado.
— Por quê?
— Porque... porque ela está prestes a casar com ele!
Esme sorriu.
— Querida, essa é uma ideia romântica. Mas uma mulher nunca deve tentar ser franca com um homem. É impossível.
— Como assim, impossível? — indagou Milly.
— Bem, pode-se até tentar — corrigiu-se Esme. — Mas, basicamente, homem e mulheres não falam a mesma língua. Eles têm... reações distintas. Basta colocá-los diante de uma mesma situação. O homem irá reagir de modo totalmente diferente da mulher.
— Sim, e daí?
— E daí conclui-se que eles sãos estranhos um para o outro. E a verdade
que não dá para ser completamente franco com alguém que você não compreende.
Milly pensou por um momento.
— As pessoas que têm um casamento feliz por muitos anos se compreendem — disse.
— Eles se esforçam — retrucou Esme — empregando uma mistura de linguagem de sinais e de boa vontade, além de algumas frases usadas durante os anos de convívio. Mas não se compreendem. Não tem acesso às valiosas profundezas da alma do outro. Não compartilham a mesma língua. — Ela deu outra tragada. — E não existe intérprete para isso. Talvez poucos.
— Então você está querendo dizer que não existe casamento feliz?
— O que estou dizendo é que não existe casamento baseado na verdade
— corrigiu Esme. — Felicidade é outra coisa. — E soltou uma nuvem de fumaça.
— Acho que você tem razão — assentiu Milly, hesitante, e deu uma olhada no relógio. — Esme, tenho que ir embora.
— Tão rápido?
— O pessoal do escritório de Simon marcou uma festinha.
— Ah, sim. — Esme bateu um cigarro em um cinzeiro de madrepérola.
— Bem, espero ter ajudado com seu probleminha.
— Não muito — disse Milly bruscamente. — Na verdade, estou mais confusa do que antes.
Esme sorriu.
— Ah, querida. Desculpe. — Ela analisou por um momento o rosto da afilhada. — Então, o que você acha que essa... pessoa irá fazer?
Houve silêncio.
— Não sei — respondeu Milly, finalmente. — Realmente não sei.
JAMES HAVILL SAIU DO escritório na hora do almoço e foi direto para casa. Quando chegou, o lugar estava imerso na tranquilidade do meio-dia, exceto pelo ruído de seus passos. Ele permaneceu no hall por um momento, atento ao possível som de vozes. Mas a casa parecia vazia, exatamente como ele esperava. Milly estaria trabalhando; a diarista já teria ido embora. A única pessoa que poderia estar em casa era Olivia.
Ele subiu as escadas sem fazer barulho. Ao chegar no andar de cima, seu coração começou a disparar. Planejara esse encontro durante toda a manhã, participara das reuniões pensando apenas no que falaria à esposa. No que diria e como diria.
A porta do quarto dela estava fechada. Antes de bater James fitou por um momento à pequena placa de porcelana em que se lia: PRIVATIVO.
— Quem é? — A voz feminina pareceu assustada.
— Sou eu — respondeu ele, abrindo a porta. O quarto estava aquecido pela lareira elétrica, ‘’aquecido demais’’ pensou. Olivia encontrava-se em sua poltrona floral desbotada diante da televisão. Seus pés estavam apoiados no banco que ela mesma havia estofado. Tinha uma xícara de chá ao seu alcance e, nas mãos, um vestido de seda em tom rosa pálido.
— Oi — disse James. Ele deu uma olhada na TV. Bette Davis, com ar blasé, em preto e branco, dialogava com um homem de queixo quadrado. — Não queria incomodá-la.
— Tudo bem — disse Olivia. Ela apanhou o controle remoto e reduziu o volume da voz de Bette Davis a um murmúrio quase inaudível. — O que você acha?
— Do quê? — perguntou James, espantado.
— Do vestido de Isobel! — disse Olivia, erguendo a seda cor-de-rosa. — Achei meio sem graça, então resolvi enfeitá-lo com umas rosas.
— Está lindo — declarou James com os olhos na TV, tentando entender o que Bette Davis dizia. Ela havia desabotoado as luvas; será que pretendia desafiar o homem de queixo quadrado para uma briga? Ele olhou para a esposa. — Eu queria falar com você.
— E eu com você — retrucou Olivia, apanhando um caderno vermelho que estava perto da sua cadeira. Após consultar algumas páginas, ela continuou: — Em primeiro lugar, você verificou o trajeto até a igreja na prefeitura?
— Eu conheço o caminho — disse James.
Olivia suspirou irritada.
— É claro que conhece. Mas você sabe se vai ter alguma obra ou manifestação no sábado? Não! Por isso temos que telefonar para prefeitura. Esqueceu? — Ela começou escrever no caderninho. — Não se preocupe. Eu mesma farei isso.
James ficou em silêncio. Em seguida, olhou ao redor, procurando algum lugar para sentar, mas não havia outra cadeira. Após uma breve hesitação, sentou-se na beira da cama. O edredom de Olivia era macio e exalava levemente o perfume dela. Estava estendido de maneira impecável sobre a cama, junto com as almofadas de renda imaculadas e assexuadas, como se ela nunca dormisse ali. Talvez ela não dormisse mesmo. James não via a face interno do edredom de Olivia há seis anos.
— Outra coisa — prosseguiu ela. — Sobre as lembrancinhas para os convidados.
— Lembrancinhas para os convidados?
— Sim, James — disse Olivia em tom impaciente. — Lembranças para convidados. Hoje em dia os noivos dão lembrancinhas aos convidados.
— Pensei que fosse o contrário.
— São as duas coisas. Os convidados dão presentes aos noivos e nós damos presentinhos aos convidados.
— E quem dá presente para nós? — perguntou James. Olivia revirou os olhos.
— Você não está ajudando, James. Eu e Milly já organizamos tudo para cada convidado receba uma taça para champanhe.
— Bem, então está perfeito. — James respirou fundo. — Olivia...
— Mas eu estava pensando, será que um arranjo de rosas não seria mais original? Dá só uma olhada. — Ela apontou para uma revista aberta no chão. — Não é lindo?
— Um arranjo para cada convidado? O lugar vai ficar parecendo uma floresta.
— Um miniarranjo — explicou Olivia, impaciente. — Do tipo que cabe dentro da bolsa, como dizem por ai.
— Olivia, você não tem mais o que fazer além de organizar os miniarranjos de rosas de última hora?
— Talvez você tenha razão — assentiu Olivia com uma expressão triste. Ela pegou a caneta e riscou um item no caderno. — Agora o que mais?
— Olivia, escute por um momento — pediu James. Então pigarreou. — Eu queria falar sobre... sobre o que irá acontecer. Depois do casamento.
— Pelo amor de Deus, James! Vamos pelo menos deixar passar o casamento antes de começarmos a falar sobre o que irá acontecer depois. Já não bastam os detalhes com os quais tenho que me preocupar?
— Apenas ouça, sem me interromper. — James fechou os olhos e respirou profundamente. — Acho que ambos sabemos que as coisas serão diferentes quando Milly se casar, não é? Quando ficarmos somente nós dois nesta casa.
— O pagamento do coral... — murmurou Olivia, contando nos dedos. — -Arranjos de lapela...
— Não há razão para fingir que as coisas vão continuar como estão.
— Suportes para bolo...
— Temos nos afastado ao longo dos anos. Você tem a sua vida, e eu tenho a minha...
— Discurso! — disse Olivia, levantando os olhos com ar triunfante. — Você já escreveu o seu discurso?
— Sim — disse James, fitando-a. — Mas ninguém parece estar escutando.
— Acho melhor você fazer duas cópias de suas anotações. Eu posso guardar uma, só para prevenir. — Ela sorriu satisfeita.
— Olivia...
— Vou sugerir o mesmo a Simon. Deixe-me anotar isso.
Ela começou a escrever, e James voltou à atenção para a TV. Bette Davis caía nos braços do homem de queixo quadrado; lágrimas brilhavam em seus cílios.
— Certo — disse Olivia. — Bem, é isso. — Ela olhou o relógio e levantou-se. — Agora tenho que sair para falar com o maestro do coral. Você queria me dizer mais alguma coisa?
— Bem...
— É que estou um pouco atrasada. Desculpe. — Ela fez um gesto para que James se levantasse e pôs a seda cor-de-rosa cuidadosamente sobre a cama.
— Até logo!
— Certo — disse James. — Até logo.
Ao sair do quarto, ele fechou a porta e se viu fitando a pequena placa novamente.
— O que eu queria falar — disse ele para a porta — é que pretendo ir embora depois do casamento. Quero uma nova vida. Entendeu?
Silêncio total. James deu de ombros e se afastou.