Louca para Casar
Capítulo Dezesseis
CAPÍTULO DEZES S EIS
Quando chegou na base da escada, Milly parou e pousou a mala no chão.
— Não sei se quero ir.
— Como assim não sabe? — perguntou Esme de forma enérgica, entrando no hall. Ela usava um chapéu de pele e tinha nas mãos um par de luvas pretas de couro e um mapa rodoviário. — Vamos! Está ficando tarde.
— Não sei se quero mesmo viajar. — Milly se sentou na escada. — Sinto como se estivesse fugindo. Talvez fosse melhor ficar, reunir coragem e enfrentar.
Esme balançou a cabeça.
— Querida, você não está fugindo. Está apenas agindo de modo sensato. Se ficarmos aqui, você vai passar o dia inteiro com o rosto apoiado na janela, chorando. Se viajarmos, pelo menos haverá uma vista diferente para ajudá-la a esquecer.
— Mas eu deveria avisar meus pais.
— Eles ainda estarão aqui na segunda-feira, e devem estar muito ocupados agora.
— Bem, então eu deveria ficar e ajudá-los.
— Milly — disse Esme, impaciente — , você está sendo ridícula. Neste momento, o melhor para você é se isolar em um lugar distante, tranquilo e discreto, onde poderá refletir de forma apropriada uma vez na vida. Passe um tempo fora, busque o equilíbrio novamente, analise suas prioridades.
Milly fitou o chão por um momento.
— Tem razão — assentiu afinal. — Eu preciso de uma oportunidade para pensar.
— É claro que precisa! Você precisa de paz, serenidade e de um tempo sozinha. Se for para casa, só vai encontrar confusão e pressão emocional. Principalmente por parte da sua mãe.
— Ela ficou muito chateada. Queria muito que o casamento acontecesse.
— É claro que ela ficou chateada. Todos nós ficamos. Mas agora que você não vai mais se casar, precisa pensar na vida de um modo diferente. Certo?
Milly suspirou e se levantou.
— Certo. Tem razão. Um fim de semana no campo é exatamente do que estou precisando.
— Você não vai se arrepender. — Esme sorriu. — Vamos pegar a estrada.
O Daimler de Esme estava estacionado na frente da casa, debaixo de um poste de luz. Quando entraram no carro, Milly se virou para olhar pela janela traseira.
— Parece o carro de Isobel — disse.
— Há um monte de Peugeot como o dela por toda parte — murmurou Esme. Em seguida, virou a ignição, e o som de Mozart invadiu o carro.
— É o carro de Isobel! — confirmou Milly, olhando com atenção. — O que ela está fazendo aqui?
— Bem, infelizmente não podemos esperar. — Esme engatou a primeira marcha. — Você pode ligar para ela quando chegarmos ao hotel.
— Não, espere! — protestou Milly. — Ela está saltando. Está vindo na nossa direção. Pare! — Esme acelerou, e Milly a fitou horrorizada. — Esme, pare! — insistiu. — Pare o carro!
ENQUANTO SE APROXIMAVA, ISOBEL viu o carro de Esme se afastar do meio-fio e entrou em pânico. Ela começou a persegui-lo, arfando no ar frio do inverno, tentando desesperadamente não perder Milly de vista. O máximo que conseguia ver era o cabelo louro da irmã na janela do luxuoso Daimler. Percebeu que ela a vira e dissera algo a Esme, mas o carro não parou. Furiosa, Isobel viu o automóvel desaparecer no final da rua. "Quem essa vaca pensa que é? Para onde está levando Milly?" Tomada pela adrenalina e pela raiva, ela apertou o passo com um esforço sobre-humano. Começou a correr, com o olhar fixo na lanterna traseira do Daimler, sem saber o que faria quando Esme dobrasse a esquina e pegasse a estrada principal.
Mas o semáforo no final da rua estava vermelho, e Esme foi forçada a reduzir a velocidade. Sentindo-se uma atleta olímpica vencedora, Isobel alcançou o carro e começou a bater na janela. Ela podia ver Milly aflita, gritando com a madrinha e tentando puxar o freio de mão. De repente, a porta do carona se abriu e ela saltou, quase caindo no chão.
— O que aconteceu? — perguntou Milly, ofegante, a Isobel. — Achei que devia ser algo importante.
— E é muito importante! — anunciou Isobel, ofegante e com o rosto vermelho, quase incapaz de falar, tamanha a raiva que sentia. — É muito importante! Ah, meu Deus! — Ela afastou o cabelo dos olhos e forçou-se a respirar fundo. — Para começar, acho que vai gostar de saber que foi esta vaca que dedurou você. — Com desprezo, ela apontou para Esme, que a fitou do banco do motorista, enfurecida.
— Como assim? — perguntou Milly. — Foi Alexander.
— Não foi Alexander, foi ela! Estou mentindo? — gritou Isobel para
Esme.
— Isso é verdade? — Milly fitou Esme com os olhos arregalados. — É verdade?
— Claro que não! — respondeu ela, com sarcasmo. — Por que eu faria uma coisa dessas?
— Para se vingar de Harry, talvez — disse Isobel em tom mordaz.
— Você esta falando um monte de bobagens!
— Não estou, não. Ele me contou tudo sobre você. Tudo.
— Ele fez isso? — perguntou Esme com desdém.
— Fez — respondeu Isobel friamente.
Esme lançou um olhar frio para Isobel. Então fez um gesto de compreensão.
— Entendi. Quer dizer que é isso... — Ela deu um sorriso arrogante para Isabel. — Eu devia ter adivinhado. As mulheres da família Havill têm realmente uma queda por dinheiro, não é?
— Você é uma filha da puta, Esme — xingou Isobel.
— Não estou entendendo — disse Milly, olhando para as duas mulheres. — Do que vocês estão falando? Esme, você contou mesmo ao cônego Lytton que eu era casada?
— Sim, contei. E foi para o seu próprio bem. Você não queria se casar com aquele pedante imaturo e moralista!
— Você me traiu! — gritou Milly. — Você é a minha madrinha! Deveria me apoiar!
— Eu estou apoiando.
Atrás delas, uma fila de carros começava a aumentar. Um deles buzinou, e Isobel gesticulou com impaciência.
— Milly, escute — disse Esme. — Você é boa demais para se casar com Simon Pinnacle! Sua vida ainda nem começou. Será que não entende? Eu salvei você de uma vida de tédio e mediocridade.
— É isso que você pensa? — perguntou Milly, aumentando o tom de voz. — Que me salvou?
Outros carros começaram a buzinar. No final da fila, um motorista abandonou o carro e começou a andar pela rua.
— Querida, eu a conheço muito bem — começou Esme. — E sei que...
— Você não me conhece! — interrompeu Milly. — Nem um pouco. Não conhece nada! Todos vocês acham que me conhecem, mas ninguém me conhece de verdade! Vocês não têm ideia de como eu sou por baixo disso tudo aqui...
— Por baixo disso tudo o quê? — desafiou Esme.
Milly fitou a madrinha em silêncio, ofegante e com o rosto esverdeado sob a luz do semáforo. Então, desviou o olhar.
— Com licença. — Uma voz masculina truculenta as interrompeu. — Vocês viram o sinal?
— Sim — respondeu Milly, atordoada. — Devo ter visto.
— Ela já esta saindo — disse Isobel, batendo a porta do carro — Venha, Milly. — Ela tomou o braço da irmã. — Vamos embora.
NO CARRO DE ISOBEL, Milly, recostada no banco, massageava a testa. A irmã dirigia em alta velocidade, mas com segurança, e se voltava para observá-la de vez em quando, sem dizer nada. Após alguns minutos, Milly se ajeitou e jogou o cabelo para trás.
— Obrigada, Isobel.
— Não tem de quê.
— Como adivinhou que foi a Esme?
— Tinha que ser. Ninguém mais sabia. Como Alexander não tinha contado a ninguém, só podia ser ela. E... — Ela fez uma pausa. — Havia outras razões.
— Que razões? — perguntou Milly, olhando para Isobel. — Que história foi aquela de se vingar de Harry?
— Eles tiveram um caso. Vamos dizer que não deu certo.
— Como você sabe?
— Ele contou ao Simon. E a mim. Eu estava na casa dele agora há pouco. — Isobel ruborizou e pisou mais forte no acelerador.
— Está tudo bem?
— Sim — respondeu Isobel. Mas o rubor em seu rosto se intensificou, e ela não encarou a irmã. O coração de Milly disparou.
— Isobel, o que está acontecendo? O que Esme quis dizer com "vocês tem uma queda por dinheiro"?
Isobel não respondeu, mas arranhou a marcha ao engatá-la. Em seguida, ao tentar ligar a seta para virar à esquerda, acionou o limpador de para-brisa por engano.
— Merda — vociferou. — Droga de carro!
— Você está escondendo alguma coisa, Isobel.
— Não é nada.
— O que você foi fazer em Pinnacle Hall? — O tom de voz de Milly se tornou mais alto. — Com quem você foi falar?
— Com ninguém.
— Não me faça de boba! Você e Simon tem se encontrado em segredo?
— Claro que não! — respondeu Isobel, rindo. — Não seja ridícula.
— Como é que eu vou saber? Se minha própria madrinha me traiu, por que minha irmã não faria o mesmo?
Isobel olhou para Milly. Ela estava pálida e tensa, e suas mãos agarravam o banco do carro.
— Pelo amor de Deus, Milly. Nem todo mundo é Esme Ormerod! É claro que eu não estou saindo com Simon.
— Bem, então o que é? Isobel, diga o que está acontecendo!
— Tudo bem! Tudo bem. Vou contar. Eu ia fazer isso depois, com calma, mas levando em consideração que você está tão desconfiada... — Ela voltou os olhos para a irmã e respirou fundo. — É Harry.
— O que é que tem Harry?
— A pessoa com quem eu saia. Ele é... — Isobel engoliu em seco. — O pai. — Ela olhou para Milly, que permanecia pálida e confusa. — Do bebê, Milly! É... com ele que eu estava saindo.
— O quê? — A voz de Milly invadiu o carro como o grito de um pássaro — Você está saindo com Harry Pinnacle?
— Sim.
— Ele é o pai?
— É.
— Você tem um caso como pai do Simon? — A voz de Milly ficava cada vez mais alta.
— Tenho! — respondeu Isobel, receosa. — Mas... — Ela parou de falar ao perceber que a irmã irrompera em soluços. — Milly, o que houve? — Ela estava com o rosto entre as mãos. Lágrimas também brotaram nos olhos de Isobel, embaçando sua visão. — Querida, sinto muito. Sei que é uma péssima hora para contar isso. Ah, Milly, não chore!
— Não estou chorando — esclareceu, tentando se conter. — Não estou chorando!
— O que então...
— Estou rindo! — Milly respirou fundo e olhou para Isobel, irrompendo em uma risada histérica novamente. — Você e Harry! Mas ele é tão velho!
— Ele não é velho!
— É sim! Ele é ancião! Tem o cabelo grisalho!
— Bem, não me importo. Eu o amo. E vou ter o bebê!
Milly fitou a irmã. Ela continuava a olhar para a frente com uma expressão desafiadora, mas seus lábios estavam trêmulos e lágrimas rolavam pelo seu rosto.
— Ah, Isobel, desculpe! — disse Milly, aflita. — Eu não quis dizer isso! Ele não é velho. — Milly, fez uma pausa. — Tenho certeza de que vocês farão um belo casal.
— É. De velhos cafonas — completou Isobel, ligando a seta para virar a direita.
— Não! — Milly sufocou uma gargalhada. — Não posso acreditar. Minha irmã envolvida com Harry Pinnacle. Eu sabia que você estava aprontando alguma coisa. Mas nunca poderia adivinhar; nem em um milhão de anos. — Ela levantou os olhos. — Alguém mais sabe?
— Simon.
— Você contou a ele antes de contar para mim? — perguntou Milly, ofendida. Isobel revirou os olhos, irritada.
— Milly, você esta parecendo à mamãe! — disse em tom de censura. — E, se quer saber, eu não contei a ele antes de contar a você. Na verdade, ele nos pegou em flagrante.
— Como, na cama?
— Não, claro que não!
Milly deu uma risada.
— Bem, não sei. Poderia ter sido. — Ela observou o perfil de Isobel. — Você sabe mesmo guardar segredos.
— Você não fica para trás!
— É, acho que não fico mesmo — assentiu Milly, após um momento de silêncio. — Mas sabe de uma coisa... — Ela esticou as pernas e colocou os pés no painel. — Nunca considerei meu casamento com Allan exatamente um segredo.
— E o que foi, então?
— Não sei — respondeu Milly, vagamente. Então, pensou por um momento e acrescentou: — Segredo é algo que você tem que manter escondido. Mas o casamento parecia... algo que tinha acontecido em um mundo diferente.
Algo que nunca existiu de fato neste mundo. — Ela olhou pela janela e percebeu as cercas vivas, escuras como tinta preta, passarem rapidamente diante de seus olhos. — Ainda penso nisso dessa forma. Se ninguém tivesse descoberto, ele não teria existido.
— Você é louca — declarou Isobel, ligando a seta para a esquerda.
— Não sou! — retrucou Milly. Em seguida, apontou para o sapato de camurça rosa contra o vidro. — - Já ia me esquecendo, gostou do meu sapato?
— Achei lindo.
— Custou cinquenta pratas. Simon acharia horroroso. — Então, com um leve ar de satisfação, acrescentou: — Pensei em cortar o cabelo, também.
— Boa ideia — concordou Isobel sem prestar muita atenção.
— E clareá-lo. E fazer um piercing no nariz. — Ela deu de cara com o olhar horrorizado da irmã e sorriu. — Ou algo assim.
QUANDO SE APROXIMARAM DE Pinnacle Hall, Milly subitamente se deu conta de onde estava e estremeceu.
— Isobel, o que está havendo?
— Estamos indo à Pinnacle Hall
— Isso eu já percebi. Mas por quê?
Isobel não respondeu imediatamente.
— Acho que você vai ter a resposta quando chegarmos lá.
— Não quero ver Simon — disse Milly — , se é isso que esta planejando. Se você armou algum encontro, pode esquecer. Não quero vê-lo.
— Você sabia que ele foi procurá-la esta tarde para se desculpar? — perguntou Isobel. — Levou flores e tudo. Mas Esme não o deixou entrar. — Ela olhou para a irmã. — E agora, mudou de ideia?
— Não — respondeu Milly. — É tarde demais. Ele não pode retirar as coisas que disse.
— Acho que ele está realmente arrependido — disse Isobel ao se aproximar dos portões de Pinnacle Hall — , se é que isso muda alguma coisa.
— Não quero saber — retorquiu Milly. Quando o carro atravessou o portão, ela se encolheu no banco. — Não me incomodo de encontrar Harry. Mas não quero ver Simon. Eu simplesmente não quero vê-lo.
— Perfeito. Não foi para vê-lo que eu a trouxe até aqui. Há outra pessoa que quer falar com você. — Ela desligou o motor e olhou para Milly. — Prepare-se para uma surpresa.
— Qual? — Mas Isobel já havia saído do carro e andava direção à porta da casa. Hesitante, Milly saiu também e começou a segui-la, pisando sobre o cascalho que estalava sob seus pés. Num gesto automático, seus olhos se voltaram para a janela do quarto de Simon, no lado esquerdo da casa. As cortinas estavam fechadas, mas ela pode ver uma fresta de luz. Ele provavelmente estava atrás das cortinas, observando-a. Sentiu uma leve apreensão e começou a andar mais rápido, pensando no que Isobel dissera. Ao se aproximar da entrada, a porta se abriu de repente e uma pessoa alta surgiu das sombras.
— Simon! — disse Milly, sem pensar.
— Não. — A voz suave de Rupert atravessou o ar da tarde. Quando ele deu um passo para frente, seu cabelo louro ficou visível sob a luz. — Sou eu, Milly.
Ela parou, perplexa.
— Rupert? — perguntou, incrédula. — O que está fazendo aqui? Você estava em Londres.
— Eu vim de trem. Precisava vê-la. Não havia ninguém na sua casa, então resolvi vir até aqui.
— Suponho que você já esteja sabendo — disse Milly, voltando a andar sobre o cascalho. — Meu segredo foi revelado. O casamento foi cancelado.
— Eu sei. Por isso estou aqui. — - Ele esfregou o rosto e a encarou. — Milly, eu fui procurar Allan para você.
— Você o encontrou? Já? — Milly aumentou o tom de voz empolgada. — Onde ele está? Está aqui?
— Não. — Rupert aproximou-se e segurou as mãos de Milly. — Tenho más notícias. Allan... Allan morreu. Morreu há quatro anos.
Milly o fitou atordoada, como se alguém tivesse jogado um balde de água fria nela. Allan está morto. O pensamento rodeou sua mente como uma espécie de corpo estranho, impossível de ser assimilado ou digerido. Não podia
ser verdade. Allan não podia estar morto. Pessoas dessa idade não morrem. Era ridículo.
Ao olhar para Rupert, ela sentiu um desejo súbito de rir, de transformar aquela informação na piada que com certeza era. Mas Rupert não estava rindo. Ele a fitava com um desespero estranho, como se esperasse por uma reação, uma resposta. Milly pestanejou algumas vezes e engoliu, sentindo a garganta áspera e seca como uma lixa.
— O quê... Como? — balbuciou. Imagens de acidentes de carro percorreram sua mente. Em seguida, visualizou desastres de avião e destroços espalhados, vistas pela televisão.
— Leucemia — declarou Rupert.
Milly levou outro susto e a base de sua coluna começou a formigar.
— Ele estava doente? — perguntou, tentando se recompor. — Naquela época, em Oxford, ele já estava doente?
— Não. Ele adoeceu depois.
— Ele... sofreu muito?
— Acho que não — respondeu Rupert, desolado. — Mas não sei ao certo. Eu não estava com ele.
Milly permaneceu em silêncio por alguns segundos.
— Está tudo errado — disse ela. — Ele não devia... — Um nó na garganta a impedira de terminar a frase. — Ele não devia ter morrido. Allan não merecia morrer.
— Não mesmo — assentiu Rupert com a voz trêmula.
Os dois se entreolharam e, naquele instante, compartilharam diversas lembranças. Então, em um gesto instintivo, ela abriu os braços. Rupert praticamente se jogou no seu abraço, tropeçando no cascalho, e aninhou a cabeça no ombro dela. Milly o abraçou com força e olhou para o céu escuro. Lágrimas a impediam de ver as estrelas nitidamente e quando uma nuvem passou pela lua, ocorreu-lhe, pela primeira vez, que ela era viúva.
QUANDO ISOBEL ENTROU NA cozinha, Simon, que estava sentado diante da enorme mesa de jantar, ergueu os olhos. Tinha nas mãos uma taça de vinho e, diante dele, o Financial Times aberto, mas Isobel desconfiou de que ele não estivesse lendo.
— Oi — cumprimentou ele.
— Oi. — Isobel se sentou diante dele e pegou a garrafa de vinho. Durante algum tempo, os dois permaneceram em silêncio. Ela lançou um olhar curioso para Simon. Ele estava cabisbaixo, evitando seu olhar, como se travasse uma espécie de luta interior.
— Então — disse ele afinal. — Quer dizer que você está grávida. Parabéns.
— Obrigada. — Isobel sorriu. — Estou muito feliz.
— Que bom. Isso é ótimo. — Simon pegou a taça e tomou um longo gole.
— Será seu meio-irmão. Ou irmã.
— Pois é.
Isobel lançou-lhe um olhar piedoso.
— Está com dificuldade para lidar com isso?
— Bem, para falar a verdade, só um pouquinho! — disse Simon, pousando a taça na mesa. — Você ia ser minha cunhada. Agora, não vai mais. Então, de repente, você vai ser minha madrasta e vai ter um bebê!
— É, eu sei. É tudo muito repentino. Desculpe. Do fundo do coração. — Pensativa, ela tomou um gole do vinho. — A propósito, como você quer me chamar? "Madrasta" é uma palavra meio comprida. Que tal "mãe"?
— Muito engraçado — retrucou Simon, irritado. Ele bebeu outro gole, apanhou o jornal e tornou a pousá-lo sobre a mesa. — Onde está Milly, afinal? Eles estão conversando há um tempão.
— Calma. De um tempo para ela. Milly acabou de descobrir que o marido está morto.
— Eu sei. Mas mesmo assim... — Simon se levantou e foi até a janela, virando-se em seguida. — E o que você acha desse tal de Rupert?
— Não sei. Devo admitir que eu esperava um cafajeste. Mas esse cara parece... — Ela pensou por um momento. — Muito triste. Ele só parece muito triste.
— A VERDADE — começou Rupert — é que eu nunca deveria ter me casado com ela. — Ele estava inclinado para a frente, com a cabeça apoiada sabre os nós dos dedos. Ao lado dele, Milly passou os braços em torno dos joelhos. Estavam sentados em um muro baixo que ficava atrás da ala do escritório; acima deles, como uma segunda lua, brilhava o relógio do antigo estábulo. — Eu sabia o que eu era. Sabia que estava vivendo uma mentira. Mas achei que conseguiria. — Ele olhou para Milly, desolado. — Realmente achei que conseguiria!
— Conseguiria o quê? — perguntou ela.
— Ser um bom marido! Um marido normal e digno. Fazer as coisas que todo mundo faz. Oferecer jantares, ir à igreja, admirar nossos filhos em uma peça de Natal na escola... — Ele parou de falar e fitou o vazio. — Nós estávamos tentando ter um filho, sabia? Francesca engravidou no ano passado. O bebê ia nascer em março. Mas ela acabou perdendo a criança. Agora todos vão agradecer a Deus por ela ter abortado, não vão?
— Não — disse Milly, indecisa.
— É claro que vão. Todos dirão que foi uma benção. — Os olhos azuis de Rupert estavam inchados. — Talvez eu esteja sendo egoísta. Mas eu queria aquele filho. Queria demais aquele filho. E eu... Eu teria sido um bom pai.
— Ele teria sorte de tê-lo como pai.
— Bondade sua. — Rupert deu um leve sorriso. — Obrigado.
— Mas filho não é cola, não é mesmo? — lembrou Milly. — Um filho não consegue unir os pais e segurar um casamento.
— Não. Com certeza, não. — Ele pensou por um momento. — O mais estranho é que eu não considero minha relação com Francesca um casamento. Ou pelo menos o que eu chamaria de casamento. Nós éramos como dois trens, correndo lado a lado, sem se dar conta da existência um do outro. Nunca discutíamos, nunca batíamos de frente. Para falar a verdade, nós mal nos conhecíamos. Tudo era muito civilizado e prazeroso, mas não verdadeiro.
— Você era feliz?
— Não sei. Eu fingia ser. Durante um tempo, cheguei até a me enganar.
Houve silêncio. Em algum lugar, à distância, uma raposa uivou. Rupert suspirou e esticou as pernas.
— Vamos entrar? — sugeriu.
— Tudo bem — respondeu Milly vagamente. Rupert a olhou com curiosidade por um momento.
— E você? — perguntou ele finalmente.
— E eu?
— Você sabe que a morte de Allan muda tudo.
— Eu sei — assentiu Milly, examinando as mãos atentamente. Então, levantou-se. — Vamos. Estou com frio.
AO OUVIR A PORTA da frente sendo aberta, Simon se levantou de forma abrupta, como se uma corrente elétrica tivesse atravessado seu corpo. Ele passou a mão pelo cabelo e começou a andar desajeitadamente até a porta da cozinha, verificando a própria aparência no reflexo do vidro ao passar por uma janela sem cortinas. Isobel o observou com as sobrancelhas arqueadas.
— Ela provavelmente não vai querer falar com você — observou Isobel. — Você a magoou demais.
— Eu sei — admitiu Simon. — Eu sei. Mas... — Ele pegou a maçaneta, hesitou por alguns segundos e abriu a porta.
— Boa sorte — gritou Isobel.
Milly estava parada perto da porta de entrada da casa com as mãos nos bolsos. Quando ouviu os passos de Simon, ergueu os olhos. Ele a fitou. Ela parecia diferente, como se os eventos dos últimos dois dias tivessem modificado seu rosto, seu corpo inteiro.
— Milly — começou ele com a voz trêmula. Ela o cumprimentou com um gesto de cabeça — Milly, me desculpe. Sinto muito. Eu não quis dizer nada do que disse. — As palavras caiam dele como maçãs de uma árvore. — Eu não tinha o direito de falar com você daquele jeito. Não tinha o direito de dizer aquelas coisas.
— Não tinha mesmo — disse Milly, baixinho.
— Eu fiquei muito magoado e assustado. E saí ofendendo você sem pensar. Mas se me der outra chance, eu vou… Vou me redimir. — Os olhos de Simon brilharam de lágrimas. — Milly, não me importo se você era casada. Não
me importo se você tem dez filhos. Tudo que eu quero é ficar com você. — Ele se aproximou. — Portanto, peço que você me perdoe e me dê outra chance.
Houve um longo silêncio.
— Eu perdoo — disse Milly afinal, fitando o chão. — Eu perdoo você, Simon.
— Jura?
Ela deu de ombros.
— Sua reação foi perfeitamente compreensível. Eu devia ter contado a você desde o início.
Houve um silêncio desconfortável. Simon se aproximou um pouco mais e tentou segurar as mãos de Milly, mas ela estremeceu. Ele desistiu e pigarreou.
— Eu soube o que aconteceu com ele — disse Simon. — Sinto muito.
— Pois é.
— Você deve estar...
— É.
— Mas... — Ele hesitou. — Você sabe o que isso significa?
Milly o encarou como se ele falasse uma língua estrangeira.
— O quê? — perguntou ela.
— Bem. Isso significa que podemos nos casar.
— Não, Simon.
Ele empalideceu.
— Por que não? — perguntou ele, mantendo a voz branda. Por um breve momento, o olhar de Milly encontrou o de Simon, mas logo se desviou.
— Quero dizer que não podemos nos casar.
Enquanto Simon a fitava, incrédulo, Milly se virou e foi embora.