Louca para Casar
Capítulo Sete
CAPÍTULO S ETE
Na manhã seguinte, Milly e Isobel esperaram um grupo de quatro hóspedes se dirigir até a cozinha e saíram, antes que Olivia pudesse perguntar aonde elas iam.
— Certo — disse Isobel assim que se aproximaram do carro. — Acho que tem um expresso para Londres às oito e meia. Você não pode perdê-lo.
— E se ele disser alguma coisa? — perguntou Milly, olhando para a janela do quarto de Alexander. Seus lábios começavam a tremer no ar frio da manhã. — E se ele disser algo a Simon enquanto eu estiver fora?
— Ele não vai falar nada — assegurou Isobel, com firmeza. — Simon vai passar a manhã inteira trabalhando, não é? Alexander nem sequer irá vê-lo. E quando ele sair do escritório, você já vai ter descoberto o que aconteceu. — Ela abriu a porta do carro. — Vamos.
— Não consegui dormir — disse Milly quando a irmã deu partida no carro. — Estava tão tensa. — Ela enrolou uma mecha de cabelo no dedo, soltando-a em seguida. — Durante dez anos pensei que fosse casada. E agora... talvez não seja!
— Milly, você não tem certeza — lembrou Isobel.
— Eu sei. Mas faz sentido, não faz? Por que Allan daria início aos tramites do divórcio e não iria até o fim? É lógico que ele teria ido até o fim.
— Talvez.
— Não seja tão pessimista, Isobel! Foi você mesma quem disse...
— Eu sei. E realmente espero que você esteja divorciada. — Ela olhou para a irmã. — Mas não acho que devemos comemorar antes de ter certeza.
— Não estou comemorando. Pelo menos não ainda. Estou somente... esperançosa.
Elas pararam em um sinal e observaram uma fileira de crianças, todas vestidas com parcas vermelhas iguais, atravessarem a rua.
— É claro que, se o seu encantador amigo Rupert tivesse se dado ao trabalho de telefonar, a esta altura você já poderia ter entrado em contato com Allan — prosseguiu Isobel. — Você já saberia.
— É mesmo. Safado. Como pode me ignorar assim? Ele deve saber que estou com algum problema. Por que eu telefonaria? — O tom de voz de Milly aumentou, incrédula. — Como alguém pode ser tão egoísta?
— A maioria das pessoas é egoísta — afirmou Isobel. — Eu sei do que estou falando.
— E como ele de repente arranjou uma esposa?
Isobel deu de ombros.
— Aí está à resposta. Foi por isso que ele não retornou a ligação.
Milly passou a palma da mão pela janela embaçada do carro e olhou para a rua. Nas calçadas, pessoas seguiam apressadas para o trabalho, transformando a neve da manhã em lama e observando os cartazes berrantes em que se lia liquidação nas lojas fechadas.
— Então, o que você vai fazer? — perguntou Isobel repentinamente. — Se descobrir que está divorciada?
— Como assim?
— Vai contar tudo ao Simon?
Milly permaneceu em silêncio por um momento.
— Não sei — respondeu lentamente. — Talvez não seja necessário.
— Mas Milly...
— Eu sei que deveria ter contado a ele — interrompeu Milly. — Poderia ter feito isso há vários meses e resolvido tudo. — Ela fez uma pausa. — Mas não contei. E agora não posso fazer mais nada. É tarde demais.
— E daí? Você pode contar agora.
— Mas agora é diferente! O Casamento é daqui a três dias. Já está tudo pronto. Por que estragar tudo com... isso?
Isobel ficou em silêncio e Milly virou a cabeça para a janela defensivamente.
— Pelo jeito, você acha que eu deveria contar tudo de qualquer maneira. Pelo jeito, você acha que não se pode ter segredos para alguém que se ama.
— Não — retrucou Isobel. — Na verdade, não acho nada disso. — Surpresa, Milly olhou para a irmã, que desviou o olhar, as mãos agarrando o volante com força. — Você pode perfeitamente amar alguém e guardar um segredo.
— Mas...
— Se for algo que incomodaria o outro desnecessariamente. Algo que a pessoa não precisa saber. — A voz de Isobel tornou-se ligeiramente áspera. — Há segredos que precisam ser guardados.
— Que tipo de segredo? — Milly fitou Isobel. — Do você esta falando?
— Nada.
— Você tem um segredo?
Isobel permaneceu em silêncio. Durante alguns minutos, Milly encarou a irmã, examinando seu rosto, tentando compreender sua expressão. De repente, ela percebeu. Uma terrível descoberta.
— Você está doente, não é? Ah, meu Deus, agora tudo faz sentido. Por isso você está tão pálida. Você tem algo e não quer nos contar! — Milly elevou o tom de voz. — Você prefere esconder de todo mundo! Até quando? Até morrer?
— Milly! Eu não vou morrer. Não estou doente.
— Bem, qual é seu segredo, então?
— Eu nunca disse que tinha um. Eu estava falando teoricamente. — Isobel entrou no estacionamento da estação. — Chegamos. — Em seguida, abriu a porta do carro e, sem olhar para a irmã, saltou.
Com relutância, Milly a seguiu. Assim que chegaram ao saguão da estação, um trem partiu de uma das plataformas e um grupo de passageiros que havia acabado de chegar circulava por ali. Pessoas despreocupadas, felizes, com suas sacolas e acenando para amigos. Pessoas para quem a palavra "casamento" significava felicidade e celebração.
— Ah, meu Deus — disse Milly, alcançando Isobel. — Não quero ir. Não quero descobrir nada. Só quero esquecer tudo isso.
— Você tem que ir. Não tem escolha. — De repente, o rosto de Isobel se tornou muito pálido. — Compre a passagem, eu volto logo — disse ela, ofegante. E para surpresa de Milly, ela começou a correr em direção ao banheiro feminino. Observou-a por um momento e, logo, se virou.
— Uma passagem para Londres, ida e volta para hoje, por favor – pediu à atendente. O que havia de errado com Isobel? Ela não estava doente, mas também não estava normal. Não podia estar grávida; afinal, nem tinha namorado.
— Pronto. — Isobel reapareceu ao seu lado. — Comprou a passagem?
— Você está grávida! — sibilou Milly. — Não é?
Isobel deu um passo para trás, como se tivesse levado um tapa no rosto.
— Não.
— Está sim. É óbvio!
— O trem sai dentro de um minuto — informou Isobel, olhando para o relógio. — Você vai acabar perdendo o horário.
— Você está grávida e não me contou! Caramba, você deveria ter me contado. Eu vou ser tia!
— Não — retrucou Isobel, tensa. — Não vai não.
Milly fitou-a atônita. Então, com um susto, ela entendeu o que a irmã quis dizer.
— Não! Você não pode fazer isso! Não pode! Você não está falando sério.
— Não sei. Não sei, está bem? — Isobel se aproximou de Milly, segurou suas mãos e deu alguns passos para trás, como um animal enjaulado.
— Isobel...
— Você tem que pegar o trem. Vá. — Ela fitou Milly com os olhos brilhantes. — Ande logo!
— Pegarei um trem mais tarde — sugeriu Milly.
— Não! Você não tem tempo. Vá agora!
Milly encarou a irmã por alguns segundos silenciosa. Jamais vira Isobel tão vulnerável; isso a deixou preocupada.
— Tudo bem — assentiu. — Eu vou.
— Boa sorte.
— Falaremos sobre... sobre isso, quando eu voltar.
— Talvez.
Quando, no portão de embarque, Milly se virou para dar adeus, Isobel já havia ido embora.
ISOBEL CHEGOU EM CASA e encontrou Olivia esperando por ela na cozinha.
— Onde está Milly? — perguntou a mãe.
— Ela foi a Londres, mas volta ainda hoje.
— A Londres? Fazer o quê?
— Comprar um presente para Simon. — Isobel pegou uma lata de biscoito. Olivia fitou-a.
— Você está falando sério? Ela foi a Londres? Ela poderia muito bem comprar um bom presente para ele aqui, em Bath.
— Ela quis ir a Londres — disse Isobel, abrindo a lata. Algum problema?
— Claro — replicou Olivia, contrariada. — É lógico! Você sabe que dia é hoje?
— Sei — respondeu a filha, saboreando o biscoito. — Quinta-feira.
— Exatamente! Faltam só dois dias! Tenho mil coisas para fazer e Milly deveria estar me ajudando. Que falta de responsabilidade!
— Dê um tempo a ela. Milly já tem muito com que se preocupar.
— Eu também, querida! Tenho que fazer um pedido extra de folhetos da cerimônia e verificar o serviço de jantar. Para completar, a tenda acabou de chegar. Quem vai comigo conferir se está tudo certo?
Houve silêncio.
— Ah, céus — disse Isobel, enfiando outro biscoito na boca. — Tudo bem, eu vou.
SIMON E HARRY CAMINHAVAM ao longo da Parham Place, uma rua larga, elegante e cara. O local costumava ser movimentado a essa hora do dia, pois seus moradores — profissionais liberais, advogados e executivos dos mais altos escalões da indústria — estão saindo para o trabalho. Uma bela morena que entrava em um carro sorriu para Simon quando eles passaram; alguns metros adiante, pedreiros sentados nos degraus de entrada de uma residência tomavam chá.
— Chegamos. — Harry parou em frente a uma escadaria de mármore que terminava em uma porta azul brilhante. — Está com as chaves?
Em silêncio, Simon subiu os degraus e colocou a chave na fechadura. Depois, entrou em um espaçoso hall e abriu outra porta, à esquerda.
— Entre — disse Harry.
Ao entrar no cômodo, Simon lembrou-se imediatamente do motivo pelo qual ele e Milly tinham adorado aquele apartamento. Era espaçoso, com paredes brancas, pé-direito alto e assoalho de madeira. Nada do que tinham visto se comparava a ele; e nada mais era tão proibitivamente caro.
— Então, gostou? — perguntou Harry.
— É maravilhoso — respondeu Simon, aproximando-se da lareira e passando a mão na superfície do console. — É maravilhoso. — Não conseguia dizer mais nada. O apartamento era mais do que maravilhoso; era lindo, perfeito. Milly iria adorar. Mas, ao olhar ao redor, tudo que sentiu foi uma tristeza ressentida.
— Pé-direito alto — observou Harry. Ele abriu um armário de lambril vazio, olhou o interior, e o fechou novamente. Ao se aproximar de uma janela, seus passos ecoaram no soalho. — Belas venezianas de madeira — acrescentou, apreciando-as com a mão.
— As venezianas são lindas — disse Simon. Tudo era lindo. Ele não conseguia encontrar uma falha.
— Requer uma mobília a altura. — Harry voltou-se para o filho. — Precisa de ajuda?
— Não, obrigado.
— Enfim, espero que tenha gostado. — Harry deu de ombros.
— É um belo apartamento. — Simon tinha um ar sério. Milly vai adorar.
— Ótimo. Onde ela está?
— Em Londres. Em uma missão misteriosa. Acho que foi comprar um presente para mim.
— Todos esses presentes — disse Harry em tom descontraído. — Você vai acabar ficando mal-acostumado.
— Vou trazê-la aqui está noite para dar uma olhada. Posso?
— O apartamento é seu. Faça o que quiser.
Eles saíram da sala principal e entraram em um corredor claro e amplo. O quarto maior, cujas portas imensas abriam-se para uma pequena sacada de ferro forjado, tinha vista para o jardim.
— Dois quartos parecem ser suficientes. — Harry tinha um leve tom de interrogação na voz. — Vocês não pensam em ter filhos imediatamente.
— Não. Há muito tempo para isso. Milly só tem 28 anos.
— Mesmo assim... — Harry acionou o interruptor ao lado da porta e a lâmpada, pendurada no teto, acendeu. — Vai ser preciso colocar um lustre aqui. Ou qualquer outra coisa.
— É — concordou Simon. Ele olhou para o pai. — Por quê? Você acha que deveríamos ter filhos logo?
— Não — respondeu Harry em tom enfático. — De jeito nenhum.
— É mesmo? Mas você teve logo que se casou com mamãe.
— Pois é. Esse foi o nosso erro.
Simon estremeceu.
— Eu fui um erro, então? Fruto de um erro de vocês?
— Você sabe que não foi isso o que eu quis dizer — retrucou Harry, irritado. — Pare de ser tão sensível.
— O que você esperava? Você está afirmando que eu não fui desejado.
— Claro que foi desejado! — Harry fez uma pausa. — Só que não naquele momento.
— Bem, desculpe ter estragado as coisas — disse Simon, furioso. — Mas eu não tive escolha quando nasci, não é? Não dependia de mim.
Harry recuou.
— Escute, Simon. O que eu quis dizer é que...
— Eu sei muito bem o que você quis dizer! — vociferou o filho, dirigindo-se a janela. Ele olhou para o jardim coberto de neve, tentando se manter sob controle. — Eu fui um estorvo, não é? Ainda sou.
— Simon...
— Muito bem. Ouça, pai. Não vou mais ser um estorvo para você, está bem? — Ele se virou com o rosto tenso. — Agradeço muito, mas pode ficar com seu apartamento. Milly e eu daremos o nosso jeito. — Ele jogou as chaves no chão brilhante e seguiu rapidamente em direção à porta.
— Simon! — gritou Harry exasperado. — Não seja idiota.
— Peço desculpas por ter importunado você todos esses anos — disse Simon ao chegar à porta. — Mas sábado estou indo embora. Você nunca mais terá que me ver novamente. Talvez isso seja um alívio para nós dois.
E saiu batendo a porta, deixando Harry sozinho, fitando as chaves que brilhavam sob o sol de inverno.
O CARTÓRIO ERA GRANDE, claro e com carpete verde. Vários catálogos estavam enfileirados sobre modernas prateleiras de madeira de faia, divididas por nascimentos, casamentos e óbitos. A parte destinada a registros de casamentos era, de longe, a maior. Enquanto Milly, um tanto constrangida, andava lentamente em direção as prateleiras, algumas pessoas ao seu redor iam de um lado para outro, retirando e recolocando catálogos nas prateleiras, fazendo anotações em pedaços de papel e falando em voz baixa. Na parede, havia um aviso em que se lia: NÓS PODEMOS AJUDÁ-LO A RASTREAR SUA ÁRVORE GENEALÓGICA. Duas senhoras de meia-idade olhavam atentamente um catálogo dos anos 18OO. "Charles Forsyth!", exclamou uma delas. "Mas será que é o nosso Charles Forsyth?" Ninguém parecia se sentir culpado ou preocupado. Para todos os outros, pensou Milly esta devia ser uma prazerosa ocupação matinal.
Sem se atrever a encarar ninguém, ela se dirigiu a prateleira onde estavam os catálogos mais recentes e puxou um deles, tomando coragem para abri-lo. Por um momento, conseguiu encontrar o que procurava e sentiu-se tomada de uma esperança ridícula. Porém, de repente, as letras saltaram aos seus olhos: HAVILL, MELISSA G.-KEPINSKI. OXFORD.
Milly ficou com o coração apertado. Alimentara, involuntariamente, uma pequena esperança de que seu casamento com Allan não tivesse efeito legal. Porém, lá estava seu nome, datilografado para quem quisesse ver. Alguns minutos irrefletidos em um cartório em Oxford resultaram nesta duradoura evidência: um registro indelével que jamais desapareceria. Ela fitou a página por um longo tempo, até as palavras começarem a dançar diante de seus olhos.
— Você pode pedir uma certidão — informou uma voz alegre. Milly levou um susto e cobriu seu nome com a mão. Um jovem simpático, usando um crachá no peito, estava diante dela. — Nós fornecemos cópias de certidões de casamento. Você também pode mandar emoldurar. Fica um presente muito bonito.
— Não, obrigada — disse Milly. A ideia do presente quase a fez rir de maneira histérica. — Não, obrigada. — Ela olhou seu nome uma última vez e fechou o livro, como se tentasse esmagar o registro e destruí-lo. — Na realidade, eu estava procurando a lista de divórcios.
— Então você veio ao lugar errado — explicou o jovem, com um sorriso de desdém diante da ignorância dela. — Você tem que ir a Somerset House.
ERA A MAIOR TENDA que Isobel já tinha visto: um enorme cogumelo branco elevava-se magnificamente ao vento, tornando pequenos os carros e as peruas estacionados ao lado.
— Caramba! — exclamou. — Qual é o preço dessa coisa? Olivia estremeceu.
— Fale baixo, querida! Alguém pode ouvir.
— Eu tenho certeza de que todos sabem quanto custa — disse Isobel, olhando a pequena multidão de homens e mulheres que entravam e saiam da tenda. Todos pareciam apressados e com um único objetivo; muitos transportavam engradados, cabos ou pranchas de madeira.
— Lá adiante haverá uma passagem coberta que ligará a tenda aos fundos de Pinnacle Hall — disse Olivia, gesticulando. — E à chapeleira.
— Caramba. Parece um circo.
— Bem, nós chegamos a pensar em incluir um elefante — informou Olivia. Isobel arregalou os olhos.
— Um elefante?
— Para transportar o casal, no final da cerimônia.
— Eles não iriam muito longe em um elefante — observou Isobel, começando a rir.
— Mas, em vez disso, vai haver um helicóptero. Mas não diga nada a Milly. É surpresa.
— Uau! Um helicóptero!
— Já andou de helicóptero?
— Já. Algumas vezes. Para falar a verdade, achei meio irritante.
— Eu nunca andei. Nem uma vez. — Olivia deu um pequeno suspiro, e Isobel riu.
— Por que você não vai no lugar da Milly? Tenho certeza de que Simon não se incomodaria.
— Não seja boba — retrucou Olivia. — Venha, vamos olhar o interior.
Pisando cautelosamente no chão coberto de neve, elas foram em direção à tenda e levantaram uma aba do tecido.
— Caraca, parece ainda maior por dentro — observou Isobel. — As duas olharam em volta. Havia pessoas por todo o lugar, carregando cadeiras, instalando o sistema de calefação, a iluminação.
— Não é tão grande assim — disse Olivia em tom de incerteza. — Depois que as cadeiras e as mesas estiverem aqui dentro, ficará bastante aconchegante. — Ela fez uma pausa. — Talvez não exatamente aconchegante...
— Bem, eu tiro o chapéu para o Harry! — disse Isobel. — Isso é o máximo!
— Nós contribuímos também! — exclamou Olivia, indignada. — Mais do que você imagina. E de qualquer maneira, Harry pode se dar a esse luxo.
— Não duvido.
— Ele gosta muito da Milly, sabia?
— Eu sei. Nossa... — Ela olhou em volta da tenda e mordeu o lábio.
— O que foi? — perguntou Olivia, desconfiada.
— Ah, não sei. Toda essa preparação, todo esse gasto de dinheiro. Tudo para um dia apenas.
— O que há de errado nisso?
— Nada. Tenho certeza de que a festa será um sucesso.
Olivia fitou-a.
— Isobel, o que há com você? Você não está com inveja, não é?
— Talvez — admitiu Isobel.
— Você também poderia se casar, mas prefere ficar solteira.
— Nunca me pediram em casamento.
— Não tem nada haver!
— Acho que tem tudo haver. — E para seu espanto, Isobel sentiu lágrimas brotarem dos olhos. Por que diabos estava chorando? Ela virou-se antes que sua mãe pudesse dizer mais alguma coisa e se afastou, em silêncio, para a outra extremidade da tenda. Distraída, Olivia apressou-se atrás dela.
— Aqui é onde vai ficar a comida — anunciou ela, empolgada. — E aqui ficarão os cisnes.
— Cisnes? — repetiu Isobel, virando-se.
— Cisnes feitos de gelo — explicou Olivia. — recheados de ostras.
— Não! — A risada de Isobel ressoou em toda a tenda. Quem teve essa ideia?
— Foi o Harry — respondeu Olivia, em tom defensivo. — Qual é o problema?
— Nada. É apenas a coisa mais brega que eu já vi.
— Foi o que eu disse — concordou Olivia, ansiosa. — Mas ele falou que achava casamento uma coisa tão brega que não adiantava tentar fazer algo de bom gosto. Então, a gente fez por menos!
— Ele vai estar falido assim que os convidados acabarem de se servir das ostras.
— Não, não vai! Pare de falar assim, Isobel.
— Tudo bem - assentiu Isobel, em tom apaziguador. — Sério, acho que vai ser um casamento maravilhoso. — Ela olhou em torno da enorme tenda e, pela centésima vez naquele dia, perguntou-se o que a irmã teria descoberto em Londres. — Será o momento mais feliz da vida de Milly.
— Ela não merece ter o momento mais feliz de sua vida, fugindo para Londres dessa maneira — resmungou Olivia. — Só faltam dois dias! Dois dias!
— Eu sei — disse Isobel, mordendo o lábio. — Eu sei. E acredite, Milly também sabe.
ASSIM QUE CHEGOU A Strand, o sol de inverno começou a brilhar e Milly sentiu-se otimista. Em alguns minutos, teria uma resposta; para o bem ou para o mal. De repente ela teve·certeza de que sabia qual seria a resposta. A carga que a afligira nos últimos dez anos seria eliminada. Finalmente estaria livre.
Ela andou de modo descontraído, sentindo o cabelo esvoaçar com a brisa e o sol bater em seu rosto.
— Com licença — disse uma garota, tocando seu ombro. Milly se virou.
— Estamos procurando modelos de cabelo. Eu trabalho em um salão em Covent Garden. — Ela sorriu. — Você estaria interessada?
Milly ficou envaidecida.
— Ah, desculpe — disse, com pesar — , mas vou estar muito ocupada nos próximos dias. — Ela fez uma pausa e sorriu. — Vou me casar no sábado.
— É mesmo? Jura? Parabéns! Você será uma noiva linda.
— Obrigada. — Milly ficou ruborizada. — Desculpe, mas tenho que resolver umas coisas.
— Claro — disse a moça em tom compreensivo. — Eu sei como é! Aquelas coisinhas que a gente sempre deixa para a última hora!
— Exatamente — assentiu Milly, sem parar de andar. — Há sempre uns detalhes de última hora.
Quando entrou na Somerset House e encontrou o departamento que procurava, sentiu-se otimista. O homem responsável pelos decretos de divórcio era rechonchudo, alegre e tinha olhos brilhantes e um computador rápido.
— Você está com sorte — disse ele quando digitou os dados de Milly. — Todos os registros feitos a partir de 1981 estão no computador. Qualquer informação anterior a essa data esta em papel. — Ele deu uma piscadela. — Mas você devia ser um bebê nesse tempo! Agora, só precisa ter um pouco de paciência...
Milly retribuiu o sorriso. Já estava planejando o que faria quando recebesse a confirmação de seu divórcio: pegaria taxi até a loja da Harvey Nichols, iria direto para o quinto andar e tomaria uma enorme taça de champanhe. Depois telefonaria para Isobel. Em seguida...
Seus pensamentos foram interrompidos quando o computador emitiu um curto sinal sonoro. O homem perscrutou a tela e olhou para Milly.
— Nada — disse ele, surpreso. — Não há nada. Milly sentiu o estômago revirar.
— O quê? — perguntou incrédula. — Como assim?
— Não há registro de divórcio — disse o homem, digitando novamente. O computador emitiu o mesmo som, e ele fez uma careta. — Pelo menos nesse período e com esses nomes.
— Mas tem que haver — insistiu Milly. — Tem que haver...
— Tentei duas vezes — explicou o homem. Ele olhou para ela. — Tem certeza de que a grafia está correta?
Milly engoliu em seco.
— Acho que sim.
— E você tem certeza de que o peticionário solicitou decreto definitivo de divórcio?
Milly olhou para o homem, confusa. Não fazia ideia do que significava aquilo.
— Não. Não tenho certeza.
O homem fez um movimento com a cabeça, como um boneco de marionete.
— Seis semanas depois de a ordem provisória ser emitida, o peticionário tem que solicitar o decreto definitivo.
— Ah, entendi.
— Você recebeu a ordem provisória do divórcio, não recebeu?
Milly olhou para o homem com ar inexpressivo e viu que ele a observava com curiosidade. Sentiu-se apavorada.
— Sim — respondeu rapidamente, antes que ele pudesse perguntar algo mais. — Claro que sim. Foi tudo certinho. Eu vou... Eu vou verificar o que aconteceu.
— Se precisar de assistência jurídica...
— Não, obrigada — disse Milly, recuando. — Você foi muito gentil. Muito obrigada.
Ao se voltar para abrir a porta, ouviu uma voz atrás dela.
— Sra. Kepinski?
Ela se virou, totalmente pálida.
— Ou é Sra. Havill agora? — perguntou o homem, sorrindo. Ele saiu de trás do balcão. — Este folheto explica todo o procedimento.
— Obrigada — disse Milly, desesperada. — Vai ajudar bastante.
Ela lhe deu um sorriso enorme ao guardar o folheto e saiu da sala, assustada. Isobel estivera certa desde o início. Allan era um safado egoísta e inescrupuloso. E deixara Milly completamente em apuros.
ELA ATRAVESSOU A RUA e começou a andar as cegas, sem se dar conta de nada além das sementes de pânico que brotavam com voracidade em sua mente. Estava de volta ao ponto de partida, mas de alguma maneira sua posição parecia infinitamente pior agora; infinitamente mais precária. Lembrou-se do sorriso brilhante e malicioso de Alexander, como o de um abutre. E de Simon, que esperava por ela em Bath, completamente inocente. A simples ideia de que os dois estavam na mesma cidade a deixava em pânico. O que ela deveria fazer? O que poderia fazer?
O letreiro de um bar chamou sua atenção e, sem pensar ela entrou no estabelecimento. Foi direto para o balcão e pediu um gim-tônica. Quando acabou de beber, pediu outro e, em seguida, um terceiro. Pouco a pouco, à medida que o álcool entorpecia seus sentidos, a adrenalina que esmagava seu corpo começou a ceder, e suas pernas pararam de tremer. Nesse ambiente propício e inebriante ela era anônima; o mundo real estava distante. Conseguiu alienar-se de tudo exceto do sabor forte do gim, da sensação do álcool do seu estômago e do sal dos amendoins, dispostos em pequenos recipientes de metal.
Durante meia hora ela permaneceu absorta, sem prestar atenção no fluxo de pessoas que se aproximavam e se afastavam dela rapidamente. Mulheres lançavam-lhe olhares curiosos; homens tentavam chamar sua atenção Ela ignorou todos. Algum tempo depois, quando começou a se sentir faminta e um pouco enjoada, pousou o copo na mesa, pegou sua bolsa e saiu do bar. Ao chegar à rua, parou cambaleante sem saber para onde ir. Era hora do almoço, e as ruas estavam repletas de pessoas que passavam apressadas, acenando para taxis, entrando em lojas, bares e lanchonetes. Ouviu o sino de uma igreja tocar a distância e sentiu lágrimas brotarem nos olhos. O que iria fazer? Não conseguia decidir.
Ela observou a multidão difusa e desejou de todo coração ser outra pessoa. Gostaria de ser aquela garota de aparência alegre, comendo um croissant; ou a senhora tranquila que entrava no ônibus; ou...
De repente, Milly estremeceu. Ela pestanejou algumas vezes, limpou as lágrimas e olhou novamente. Mas o rosto já havia desaparecido, engolido pela multidão em movimento. Apavorada, andou apressadamente, prestando atenção em todos a sua volta. Por um momento, só viu desconhecidos: moças usando casacos brilhantes e coloridos; homens de terno escuro; advogados ainda com as perucas usadas no tribunal. Era difícil passar por tantas pessoas, e ela abria caminho com impaciência, dizendo a si mesma de forma quase frenética que devia estar enganada, que devia ter visto outra pessoa. Então, seu coração disparou. Lá estava ele novamente, do outro lado da rua, falando com outro homem. Parecia mais velho do que a imagem que guardara na memória, e mais gordo. Mas definitivamente era ele. Era Rupert.
Uma onda de ódio invadiu Milly quando ela o fitou. Quanta audácia passear tranquilamente pelas ruas de Londres, tão feliz e a vontade consigo mesmo! Quanta audácia ficar alheio a tudo o que ela estava passando! Sua vida era um caos por causa dele. Por causa dele e de Allan. E ele nem tinha consciência disso.
Com o coração saindo pela boca, ela começou a correr em direção ao homem, ignorando as buzinadas furiosas dos táxis ao atravessar a rua e os olhares curiosos dos transeuntes. Em alguns minutos, o alcançaria. Andando com passos largos e a poucos metros de Rupert, ela fitou com ódio o cabelo louro dele e deu-lhe um forte cutucão nas costas.
— Rupert! Rupert! — chamou. Ele se virou e lançou-lhe um olhar amistoso, demonstrando não reconhecê-la.
— Desculpe. Por acaso...
— Sou eu — cortou Milly, concentrando-se em usar seu tom de voz mais frio e amargo. — Milly. De Oxford.
— O quê? — Rupert empalideceu e deu alguns passos para trás.
— Isso mesmo — insistiu Milly. — Sou eu. Acho que nunca imaginou que me veria novamente, não é, Rupert. Você pensou que eu tinha desaparecido da sua vida para sempre.
— Não seja boba! — disse Rupert em tom de brincadeira. Ele olhou nervoso para o amigo. — Como vão as coisas, afinal?
— As coisas — repetiu Milly — não poderiam estar piores, obrigada por perguntar. Ah, e obrigada por retornar minha ligação ontem. Estou profundamente agradecida.
— Não tive tempo — desculpou-se Rupert. Uma rápida faísca de ódio se acendeu nos olhos azuis dele, e Milly retribuiu o olhar. — Agora estou ocupado. — Ele olhou para amigo. — Vamos, Tom?
— Não se atreva! — vociferou Milly entre os dentes. Você não vai a lugar nenhum! Você vai me ouvir!
— Não tenho tempo...
— Bem, então arranje tempo! — gritou ela. — Minha vida está um caos, e tudo por sua culpa. Sua e daquele Allan Kepinski. Ah, meu Deus! Você tem noção do que vocês dois fizeram comigo? Tem noção do problema que estou enfrentando por causa de vocês?
— Rupert — disse Tom — , talvez você e Milly devam conversar.
— Não sei do que ela está falando — redarguiu Rupert furioso. — Esta mulher é louca.
— Esse é mais um bom motivo — observou Tom, calmamente. — Você está diante de uma alma realmente aflita. E talvez possa ajudar. — Ele sorriu para Milly. — Você conhece Rupert há muito tempo?
— Sim — respondeu Milly de modo conciso. — Nos conhecemos em Oxford. Não é, Rupert?
— Ouça Rupert — disse Tom. — Eu posso fazer a reflexão bíblica no seu lugar. Assim vocês conversam com calma. — Ele lançou um sorriso a Milly.
— Quem sabe, em uma próxima oportunidade, você possa nos acompanhar?
— Claro — assentiu Milly, sem ter a mínima ideia do que ele falava. — Por que não?
— Prazer em conhecê-la, Milly. — Tom apertou a mão dela. — Espero vê-la na St. Catherine.
— É — disse Milly. — Espero que sim.
— Ótimo! Eu ligo para você mais tarde, Rupert — disse Tom, antes de se afastar e atravessar a rua.
Milly e Rupert se entreolharam.
— Sua vaca — sibilou Rupert. — Está tentando arruinar a minha vida?
— Arruinar a sua vida? — repetiu Milly, incrédula. — Arruinar a sua vida? Você tem noção do que fez comigo? Você me usou!
— Ninguém a forçou — retrucou Rupert bruscamente, começando a se afastar. — Se não concordava, deveria ter dito "não".
— Eu tinha 18 anos! Não sabia nada a respeito da vida! Não sabia que um dia iria querer me casar com outra pessoa, com alguém que eu realmente amasse...
— E daí? — perguntou Rupert, virando-se bruscamente de frente para ela. — Você pediu o divórcio, não foi?
— Não! — Milly soluçou. — Não pedi! Não sei onde Allan está! E meu Casamento é sábado!
— Bem, o que você espera que eu faça a respeito?
— Eu preciso encontrar Allan! Onde ele está?
— Não sei — respondeu Rupert, afastando-se novamente.
— Não posso ajudá-la. Agora me deixe em paz.
Milly o fitou com uma raiva que crescia como uma avalanche.
— Você não pode simplesmente virar as costas e ir embora! — gritou. — Você tem que me ajudar! — Ela começou a persegui-lo e ele apertou o passo. — Você tem que me ajudar Rupert! — Com um enorme esforço, ela agarrou o paletó dele, forçando-o a parar.
— Me solta! — esbravejou Rupert.
— Escute aqui — disse Milly, enfurecida, olhando nos olhos dele. — Eu fiz um favor a vocês, um imenso, enorme favor. E agora e sua vez de retribuir com outro bem mais simples. Você me deve isso.
Ela o fitou de modo inflexível, observando a mente dele trabalhar e sua expressão, aos poucos, se modificar. Por fim, ele suspirou e esfregou a testa.
— Tudo bem. Venha comigo. Vamos conversar.