Louca para Casar
Capítulo Cinco
Quando Milly chegou no escritório em que Simon trabalhava, houve um pequeno alvoroço na recepção.
― Ela está aqui! ― gritou Pearl, uma das recepcionistas de meia-idade. ― Milly está aqui! ― Ela sorriu exultante quando Milly se aproximou da mesa. ― Como vai, querida? Nervosa por causa de sábado?
― Não há motivo para ficar nervosa! ― exclamou outra recepcionista, uma moça que usava um casaco de lã azul-claro e sombra da mesma cor. ― Apenas se certifique de aproveitar e curtir o dia, querida. Passa muito rápido!
― É muita correria ― disse Pearl, com uma expressão séria. ― O que você tem que fazer e dar uma parada de vez em quando, olhar em volta e dizer a si mesma: este é o dia do meu casamento. Diga somente isto: este é o dia do meu casamento. E você vai aproveitar melhor! ― Ela sorriu para Milly. ― Vou pedir que avisem ao Simon que você chegou, depois a acompanharei até a sala dele.
― Não precisa ― disse Milly. ― Eu sei onde é.
― Não é trabalho nenhum! ― exclamou Pearl. Ela digitou algo no teclado. ― Margaret, continue tentando avisar ao Simon, está bem? E diga que estou subindo com a Milly.
Em meio a um coro de desejos de boa sorte, Milly e Pearl atravessaram a área da recepção em direção aos elevadores.
― Nós iremos vê-la no sábado ― disse Pearl quando a porta do elevador se fechou. ― Do lado de fora da igreja. Você Não se importa, Não é querida?
― Claro que Não ― respondeu Milly meio confusa. ―Quer dizer, você vai ficar lá olhando?
― A Beryl vai levar cadeiras de armar! ― explicou Pearl, triunfante. ― E teremos uma garrafa térmica com café. Queremos ver todo mundo chegar. Todas as pessoas importantes. Será como um casamento da realeza!
― Bem ― disse Milly constrangida. ― Não sei...
― Ou como aquele casamento maravilhoso que apareceu outro dia na televisão. Naquela novela, EastEnders. Você viu?
― Ah, sim! ― respondeu Milly entusiasticamente. ― Foi muito romântico.
― E aquelas duas pequenas damas de honra ― Pearl deu um suspiro afetuoso. ― Eram umas gracinhas.
― Lindas. Mas ― acrescentou Milly enquanto o elevador se aproximava do andar do escritório de Simon ― Não sei quem são os personagens. Não costumo assistir a novelas. Prefiro ... documentários.
― É mesmo? Eu Não consigo viver sem minhas novelas ― confessou Pearl. ― Seu noivo vive implicando comigo par causa disso. Está sempre zombando dos enredos. ― Ela sorriu para Milly. ― Ele é realmente um rapaz encantador. Tão pé no chão! Ninguém imagina que ele seja quem é. Você entende o que eu quero dizer. ― O elevador emitiu um sinal ― Chegamos. ― Ela olhou o corredor atapetado. ― Ué, onde ele se meteu?
― Estou aqui ― disse Simon, surgindo de repente. Ele entregou uma garrafa de vinho e alguns copos plásticos à Pearl. ― Leve para o pessoal da recepção.
― Quanta gentileza! ― disse Pearl. ― E Não se esqueça de nos mostrar seu presente quando descer. ― Ela apertou mão de Milly. ― Boa sorte, querida. Você merece toda a felicidade do mundo.
― Obrigada ― disse Milly, sentindo lágrimas brotarem nos olhos. ― Você é muito gentil.
As portas do elevador se fecharam e Simon sorriu para Milly.
― Vamos. Estão todos esperando por você.
― Pare com isso! Você está me deixando nervosa.
― Nervosa? ― Simon riu. ― Não ha motivo para ficar nervosa!
― Eu sei. É que ... eu ando meio tensa ultimamente.
― É por causa do casamento.
― É ― assentiu Milly com um sorriso. ― Deve ser.
O DEPARTAMENTO DE SIMON encontrava-se todo reunido na sala que ele compartilhava com outros quatro colegas. Quando o casal chegou, eles estavam se servindo de espumante em copos plásticos, e uma mulher vestida com uma jaqueta vermelha colhia apressadamente algumas assinaturas de ultima hora em um enorme cartão.
― O que eu devo escrever?― perguntava uma moça quando Milly passou. ― Todos os outros escreveram algo legal.
― Escreva seu nome! ― sugeriu a mulher de jaqueta vermelha. ― Rápido.
Milly segurou seu copo com força e fixou um sorriso no rosto. Sentia-se vulnerável diante do olhar de tantas pessoas, tantos estranhos. Ela bebeu o espumante e serviu-se de um salgadinho, oferecido por um dos animados colegas de Simon.
― Aha! ― Uma voz grave interrompeu o falatório. Um homem calvo, de bigode, e usando um terno marrom se aproximou. ― Você deve ser a noiva de Simon. ― Ele agarrou mão dela. ― Prazer, Mark Taylor. Chefe do setor de publicações. E um prazer conhecê-la.
― Oi ― disse Milly educadamente.
― Onde e que ele se meteu? Temos que começar a homenagem. Simon! Venha até aqui!
― Vocês já foram apresentados? ― perguntou Simon. ― Desculpe, eu devia ter feito isso.
Mark Taylor começou a bater palmas.
― Atenção, todo mundo. Silêncio. Em nome de todos aqui da Pendulum, eu gostaria de desejar a Simon e Mandy muitas felicidades na vida a dois. ― Ele ergueu o copo.
― Milly! ― gritou alguém.
― O quê? ― perguntou Mark Taylor com uma expressão confusa.
― É Milly, Não Mandy!
― Tudo bem ... ― disse Milly, ruborizada.
― O que eles estão dizendo? ― perguntou Mark Taylor.
― Nada ― respondeu Milly. ― Continue.
― À Mandy e Simon! Que tenham uma vida longa, próspera e feliz juntos. ― Um telefone começou a tocar no canto da sala.― Alguém pode atender, por favor.
― Onde está o presente?― gritou outra pessoa.
― Isso ― disse Mark Taylor. ― Onde está o presente?
― Vai ser entregue na casa da noiva ― respondeu uma mulher a esquerda de Milly. ― Não está na lista. E uma sopeira. Tem uma foto aqui.
― É muito bonita ― disse Mark Taylor. Ele aumentou o tom de voz. ― O presente é uma sopeira que Não estava lista! Sally tem uma foto, se alguém quiser dar uma olhada.
― Mas há um cartão ― disse Sally. ― Onde está o cartão?
― Aqui! ― respondeu a mulher de jaqueta vermelha.
Houve um breve momento de silêncio, enquanto Simon rasgava o enorme envelope e abria um cartão com o desenho de dois ursos de pelúcia. Ele deu uma olhada nas assinaturas rindo de vez em quando, e, a medida que lia as mensagens levantava os olhos e acenava com a cabeça. Milly deu olhada por cima do ombro do noivo. A maioria dos dizeres fazia referencias, em tom de brincadeira, a metas e anúncios de um quarto de página, além da alusão confusa a algo chamado Powerlink.
― Obrigado ― disse Simon após um momento. ― Estou emocionado.
― Discurso! ― gritou alguém.
― Não, nada de discurso― retrucou Simon.
― Faça um agradecimento a Deus!― sugeriu um dos presentes.
Simon bebeu um gole do espumante.
― Eu só gostaria de dizer para os que acham que a coisa mais importante da minha vida e bater as insanas metas mensais do Eric ... ― Houve um a risada geral ― ... Ou acabar com o Andy nos dardos ... ― Outra onda de risada, e Simon sorriu. ― Para todos vocês, tenho que esclarecer uma coisa.Vocês estão enganados.― Ele fez uma pausa. ― A coisa mais importante da minha vida está ao meu lado. ― Ele tomou a mão de Milly e ouviu-se o suspiro de algumas moças. ― Esta mulher, para quem não a conhece, e a pessoa mais bela, dócil, sincera e generosa do mundo. E eu me sinto honrado pelo fato de que, no próximo sábado, ela se tornara minha mulher. Estou muito feliz.
Após um rápido silêncio, alguém disse em tom abafado:
― À Milly e Simon.
― À Milly e Simon ― repetiram os outros em uníssono.
Milly olhou para o rosto feliz e despreocupado de Simon e sentiu uma súbita tristeza.
― Vejo vocês no bar! ― acrescentou Simon. O grupo começou a se dispersar, e ele sorriu para Milly.
― Eu deixei você envergonhada?
― Só um pouquinho ― respondeu ela, tentando retribuir o sorriso. Sentia a pele arder de culpa e o estomago se contrair.
― Eu tinha que contar a todo mundo como me sinto ― disse ele, acariciando os cabelos dela com ternura.― As vezes, Não consigo acreditar no quanto te amo.
Os olhos de Milly encheram-se de lágrimas.
― Por favor ― pediu ela. ― Pare.
― O que é isso! ― disse Simon, secando as lágrimas da noiva. ― Ah, amor. Quer um lenço?
― Obrigada ― respondeu Milly. Ela enxugou os olhos e suspirou profundamente.
― Simon! ― interrompeu uma voz alegre. ― É a sua vez de pagar a bebida!
― Tudo bem! ― concordou o jovem noivo, sorrindo. ― Eu já vou.
― Simon ― disse Milly rapidamente. ― Você ficaria chateado se eu não fosse com vocês?
― Ah ― reagiu Simon, desapontado.
― Estou um pouco cansada ― completou Milly. ― Realmente não estou muito disposta.
― Simon! ― gritou alguém. ― Você vem ou não?
― Estou indo! ― respondeu ele e tocou o rosto de Milly suavemente. ― Você prefere ir a outro lugar, só nós dois?
Milly olhou para ele e teve uma súbita visão dos dois em um restaurante isolado. Eles se sentariam escondidos em uma mesa de canto, comeriam risoto e beberiam vinho tinto suave. E, com muito tato, ela lhe contaria a verdade.
― Não. Vá e divirta-se. Vou dormir cedo.
― Tem certeza?
― Tenho. ― Ela o beijou. ― Vá. A gente conversa amanhã.
ELA CHEGOU EM CASA querendo ir direto para a cama.
Quando estava tirando o casaco, ouviu vozes na cozinha e estremeceu ao imaginar que a tia Jean poderia ter chegado mais cedo. Porém, quando abriu a porta, foi Isobel que viu, sentada, usando um vestido cor-de-rosa de dama honra e uma grinalda no cabelo.
― Isobel! ― exclamou Milly quase as lágrimas, sentindo um súbito alivio. ― Quando você chegou?
Isobel sorriu.
― Esta tarde. Eu chego em casa e o que eu descubro? Meu cano alto sumiu.
― Cano alto?
― É, minhas botas de cano alto ― explicou Isobel. ― O que você pensou que fosse?
― Isobel vai ficar aqui até o casamento ― disse Olivia com a mão cheia de grampos de cabelo. ― Acho que vamos ficar um pouco espremidos quando a tia Jean e os primos chegarem ...
― Livre-se de Alexander― sugeriu Milly. Ela sentou-se a mesa e começou a mexer em uma flor solta da grinalda. ― Assim teremos espaço.
― Não seja boba ― retrucou Olivia. ― Ele precisa ficar aqui. ― Ela empurrou outro grampo no cabelo de Isobel, prendendo a grinalda. ― Agora sim. Está bem melhor.
― Você é quem sabe ― disse Isobel. Ela sorriu para a irmã e perguntou: ― O que você acha?
Milly olhou para ela e, só então, percebeu o que Isobel estava usando.
―O que aconteceu com seu vestido? ― perguntou, tentando não parecer assustada.
― Acrescentei umas rosas de seda ― disse Olivia. ― Ficou bom?
As irmãs se entreolharam.
― Ficou ótimo ― respondeu Milly.
Isobel sorriu.
― Fale a verdade. Estou parecendo uma idiota?
― Não ― Milly franziu a testa. ― Você parece... cansada.
― Foi isso que eu disse! ― exclamou Olivia com ar triunfante. ― Ela parece exausta e doente.
― Não pareço exausta e doente ― retrucou Isobel com impaciência. Milly fitou a irmã. A pele de Isobel estava sem cor, o cabelo, liso e claro, estava sem vida. As flores no cabelo só acentuavam a palidez do rosto.
―Você vai estar ótima no sábado ― disse Milly, hesitante. ― É só usar um pouco de maquiagem.
― Ela perdeu peso também ― completou Olivia em tom de reprovação. ― Acho que vamos ter que apertar o vestido.
― Não perdi tanto peso assim ― retrucou Isobel. ― Enfim, não importa a minha aparência. É o dia da Milly, não meu. ― Ela olhou para a irmã. ― Como vão as coisas?
― Eu estou bem. Sabe como é...
― Eu sei ― disse Isobel antes de tirar o vestido cor-de-rosa. ― Bem, acho que vou subir e desfazer as malas.
― Vou ajudar você ― disse Milly imediatamente.
― Ótimo ― concordou Olivia. ― Boa ideia, filha.
O QUARTO DE ISOBEL ficava ao lado do de Milly, no andar de cima. Depois que ela saiu de casa, o cômodo passou a ser usado ocasionalmente pelos hóspedes. Mas, na maior parte do tempo, permanecia vazio, limpo e arrumado, esperando pelo regresso dela.
― Nossa! ― exclamou Isobel ao abrir a porta. ― O que é tudo isso?
― Presentes de Casamento. E isso é só uma parte.
Em silêncio, ambas observaram o quarto. Cada pedacinho do chão estava repleto de caixas empilhadas. Algumas tinham sido abertas e estavam rodeadas de papel rasgado e plástico bolha, expondo peças de porcelana.
― O que é isso? ― Isobel cutucou uma das caixas.
― Não sei. Acho que é uma terrina.
― Uma terrina! ― repetiu Isobel, incrédula. ― Você está planejando fazer sopa quando se casar?
― Talvez.
― Você vai ter que fazer, porque agora tem uma terrina especial. ― Milly começou a rir involuntariamente com a afirmação da irmã. ― Vai ter que servir sopa na sua terrina todo dia.
― Ah, pare com isso!
― E beber xerez nos seus oito copos para xerez ― prosseguiu Isobel, lendo a etiqueta em outro pacote. ― A vida de casada vai ser bem agitada.
― Pare com isso ― pediu Milly, as gargalhadas.
― Uma máquina de fazer pão. Eu até gostaria de ter uma dessas. ― Isobel levantou a cabeça. ― Milly, está tudo bem?
― Está sim. Está tudo bem. ― Mas a risada se transformou em soluços e duas lágrimas escorreram pelo rosto de Milly.
― Eu sabia que havia algo errado! ― Isobel se aproximou e pôs as mãos nos ombros da irmã. ― O que aconteceu? O que você queria falar comigo quando eu estava em Paris?
― Ah, Isobel! ― disse Milly, chorando mais ainda. ― Está tudo errado!
― Como assim?
― Estou numa enrascada!
― O quê? ― A voz de Isobel soou alarmada. ― Por favor, fale! O que aconteceu?
Milly a fitou por algum tempo.
― Venha aqui ― disse, finalmente. Foram para o quarto dela; Milly esperou ate que Isobel entrasse e fechou a porta. Então, enquanto a irmã a observava em silêncio, ela foi até a chaminé e puxou um velho saco de guardar sapatos, fechado com um nó.
― O que...
― Espere ― pediu Milly, tateando o interior do saco, de onde tirou uma sacola menor. De dentro dela, retirou uma caixa, amarrada com um barbante. Ela o puxou e abriu a tampa. Durante alguns segundos, fitou a caixa aberta e então a entregou a Isobel.
― Veja. Foi isso que aconteceu.
― Caramba! ― disse Isobel, perplexa ao ver uma fotografia de Milly vestida de noiva, sorrindo, atrás de uma nuvem de confetes. Retirou a foto da caixa e a examinou. Em seguida, pegou a segunda, em que se via dois homens lado a lado um de cabelos escuros; o outro, louro. Uma terceira mostrava o homem de cabelos escuros beijando a mão de Milly, sorria de modo afetado para a câmera. Seu véu estava por cima dos ombros e ela parecia muito feliz.
Em silêncio, Isobel olhou rapidamente toda a pilha fotos. No fundo da caixa, havia um velho confete e um pequeno cartão florido.
― Posso? ― perguntou ela, pegando o cartão.
― Claro.
Isobel abriu o cartão e leu a inscrição: “A melhor do mundo. Sempre seu, Allan.” Ela olhou para a irmã.
― Quem é esse Allan?
― Quem você acha que é, Isobel? ― perguntou Milly a voz áspera. ― É meu marido.
QUANDO MILLY ACABOU DE contar sua história incoerente, Isobel suspirou. Logo depois, levantou-se e foi até a lareira, sem dizer nada. Milly, que estava apreensiva, sentada em uma poltrona e apertando uma almofada contra o peito, limitava-se a observar a irmã.
― Não consigo entender ― disse lsobel após uma pausa.
― Pois é ― ponderou Milly.
― Você se casou com um cara só para que ele pudesse permanecer no país?
― Sim ― respondeu Milly, olhando para as fotos espalhadas pelo chão, vendo-se jovem, vibrante e feliz. Enquanto contava a história, sentira aflorar todo romantismo e aventura da época e, pela primeira vez em muitos anos, sentiu saudades daqueles dias mágicos e impetuosos em Oxford.
― Que miseráveis! ― resmungou Isobel.― Eles devem ter visto você chegar a cidade!
Milly fitou a irmã.
― Não foi assim ― retrucou.
― É claro que foi! Milly, eles usaram você!
― Não usaram! ― disse Milly, na defensiva.― Eu os ajudei porque quis. Eram meus amigos.
― Amigos ― repetiu Isobel, sarcástica. ― É isso o que você pensa? Bem, se eles eram tão amigos, por que eu não os conheci? Nem ouvi falar deles?
― É que nos perdemos o contato.
― Quando? Logo depois que vocês assinaram o documento? ― Milly ficou em silêncio ― Ah, Milly ― Isobel suspirou.
― Eles te pagaram?
― Não. Eles me deram um colar ― disse ela, tocando as pequenas pérolas.
― Bem, isso é uma baita compensação, considerando-se que você violou a lei para ajudá-los ― retrucou Isobel, mais uma vez irônica. ― Considerando-se que você poderia ter sido processada. O Ministério do Interior investiga casamentos falsos, sabia? Ou será que você não sabia?
― Não insista nisso, Isobel ― pediu Milly, com a voz tremula. ― Está feito, entendeu? E não há nada que eu possa fazer.
― Tudo bem. Desculpe. Isso deve estar sendo horrível. Ela apanhou uma das fotos e olhou-a por um instante. ― Tenho que admitir que estou surpresa por você ter corrido o risco de guardar isto.
― Eu sei. Foi burrice. Mas Não consegui jogar as fotos fora. Elas são tudo que eu tenho do que aconteceu.
― E você nunca disse nada ao Simon. ― Isobel suspirou e colocou a fotografia na caixa. Milly balançou a cabeça negativamente, comprimindo os lábios. ― Bem, agora vai ter que contar ― prosseguiu ela.
― Não posso ― disse Milly, fechando os olhos. ― Não posso contar. Simplesmente Não posso.
― Mas vai ter que fazer isso! ― advertiu Isobel. ― Antes que esse tal Alexander o faça.
― Talvez ele não diga nada.
― Mas talvez diga! E não vale a pena correr o risco. ― Isobel suspirou. ― Olha, conte tudo a ele. Ele não vai se importar! Divórcio é algo comum hoje em dia.
― Eu sei.
― Não há motivo para se envergonhar! Você é divorciada e pronto. ― Ela
deu de ombros. ― Poderia ser pior.
― Acontece que eu não sou ― disse Milly, tensa.
― O quê? ― Isobel parecia atônita.
― Eu não sou divorciada. Ainda estou casada. Houve um momento de silêncio.
― Você ainda está casada? ― perguntou Isobel em um sussurro. ― Você ainda está casada? Mas Milly, o seu casamento é no sábado!
― Eu sei! ― gritou Milly. ― Você acha que eu não sei? ― E enquanto Isobel a olhava estupefata, ela enfiou a cabeça na almofada e caiu no choro.
O CONHAQUE ESTAVA NA cozinha. Quando lsobel abriu a porta, torcendo para que não houvesse ninguém por perto, Olivia, que estava ao telefone, ergueu a cabeça.
― Isobel! ― disse a mãe em um sussurro. ― Aconteceu uma desgraça!
― O que foi? ― perguntou Isobel, assustada.
― Não ha folhetos suficientes para todos os convidados. As pessoas terão que compartilhar!
― Ah, é isso? ― disse Isobel com uma imensa vontade de dar uma gargalhada. ― Bem, isso não é importante.
― Não é importante? ― sibilou Olivia. ― Vai dar a impressão de que estamos economizando! ― Ela estreitou os olhos ao ver a filha encher um copo de conhaque. ― Por que você vai beber?
― É para Milly. Ela está um pouco tensa.
― Algum problema?
― Não ― respondeu Isobel, afastando-se.― Não há problema nenhum.
Ela voltou para o quarto e fechou a porta.
― Vamos, beba isso ― ordenou. ― E tente se acalmar. Tudo vai ficar bem.
― Como? ― soluçou Milly. ― Tudo vira a tona e será o fim!
― Pare com isso ― disse Isobel, abraçando a irmã. ― Nós vamos dar um jeito. Não se preocupe.
― Não vejo como. ― O rosto de Milly estava banhado em lágrimas. Ela bebeu um gole do conhaque. ― Eu fiz uma tremenda besteira, Não é?
― Não. Claro que não.
Milly deu um sorriso trêmulo.
― Boa tentativa, Isobel. ― Bebeu outro gole do conhaque. ― Eu preciso de um cigarro. Você quer também?
― Não.
― Pegue um ― insistiu Milly, abrindo a janela de guilhotina com as mãos trêmulas. ― Um cigarrinho só não vai dar câncer no pulmão.
― Tem razão ― concordou Isabel após um momento. Acho que um só não vai fazer mal. ― Ela se sentou no peitoral da janela. Milly lhe deu um cigarro e ambas tragaram profundamente. Assim que inalou a fumaça, Milly sentiu-se relaxar.
― Eu estava precisando disso. ― Em seguida, deu outra tragada e abanou a nuvem de fumaça, afastando-a na direção da janela. ― Meu Deus, que fumaceira.
― O que eu não entendo ― disse Isobel lentamente ― é por que você não se divorciou.
― Nós estávamos sempre para fazer isso ― explicou mordendo o lábio. ― Allan ia resolver tudo. Eu cheguei até pegar uns papeis com o advogado dele, mas tudo acabou caindo no esquecimento e não se falou mais a respeito. Nem fui à justiça, nada.
― E você nunca procurou se informar a respeito?
Milly ficou em silêncio.
― Nem mesmo quando Simon pediu que se casasse com ele? ― Isobel elevou o tom de voz. ― Nem quando começou a planejar o casamento?
― Eu não fazia ideia de como agir! Allan saiu de Oxford, eu não sabia para onde ele tinha ido, perdi todos os documentos...
― Você poderia ter contratado um advogado, não é? Ou procurado uma orientação legal.
― Eu sei.
― Então, por que...
― Porque não tive coragem, está bem? Não tive coragem de complicar a situação ― respondeu Milly, dando uma rápida baforada. ― Eu sabia que havia feito algo arriscado. As pessoas poderiam começar a bisbilhotar; fazer perguntas. Eu Não podia correr esse risco!
― Mas Milly...
― Eu só não queria que ninguém soubesse. Nem uma pessoa sequer.
Enquanto ninguém sabia, eu me sentia... segura.
― Segura!
― É, segura! ― repetiu Milly, defensivamente. ― Ninguém no mundo sabia. Ninguém fazia perguntas, ninguém suspeitava de nada! ― Ela olhou para a irmã. ― Quer dizer, você suspeitava de alguma coisa?
― Acho que não ― respondeu Isobel, com relutância.
― Claro que não. Ninguém jamais suspeitou. ― Milly deu outra tragada com a mão trêmula. ― E quanto mais o tempo passava, mais parecia que isso nunca tinha acontecido. Alguns anos se passaram, tudo permaneceu em segredo e, aos poucos, isso simplesmente... deixou de existir.
― Como "deixou de existir"? ― repetiu Isabel, impaciente. ― Milly, você se casou! E não pode fingir que isso não aconteceu.
― Tudo se resumiu a três minutos em um cartório. Uma simples assinatura, há dez anos, perdida em algum documento que ninguém nunca mais vera. Isso não é casamento, lsobel. É pó. É nada!
― E quando Simon a pediu em casamento?
Milly ficou em silêncio por um momento.
― Pensei em contar a ele ― respondeu, finalmente. ― Eu juro. Mas acabei chegando à conclusão de que não valia à pena. É algo que não tem nada a ver conosco. Só iria complicar tudo. Ele não precisava saber.
― E o que você pretende fazer? ― perguntou Isabel, incrédula. ― Cometer bigamia?
― Não foi um casamento propriamente dito. ― Milly desviou o olhar. ― Então não conta.
― Como assim? É claro que conta! Meu Deus, como você pode ser tão idiota? Às vezes não dá nem para acreditar!
― Ah, cala a boca, Isobel! ― gritou Milly, furiosa.
― Tudo bem. Vou calar a boca.
― Isso mesmo.
Houve um momento de silêncio. O cigarro de Milly chegou ao fim e ela o apagou no peitoril da janela.
― Não vai fumar o seu? ― perguntou ela, sem olhar Isobel.
― Não quero mais. Pode ficar.
― Está bem. ― Milly pegou o cigarro e voltou os olhos para a irmã, que parecia distraída. ― Está tudo bem com você? Mamãe tem razão, não parece nada bem.
― Eu estou ótima ― retrucou Isabel imediatamente.
― Você não está com problemas de anorexia, está?
― Não! ― Isobel sorriu. ― Claro que não.
― Bem, você perdeu peso...
― Você também.
― É mesmo? ― perguntou Milly, ajeitando a roupa. ― Provavelmente por causa de toda essa tensão.
― Bem, então procure relaxar ― disse Isabel, com firmeza. ― Está bem? É inútil. ― Ela dobrou os joelhos e os abraçou. ― Se nos pudéssemos descobrir ate que ponto o seu divórcio chegou...
― Não chegou a ponto nenhum ― afirmou Milly, desesperada. ― Eu já disse, eu não compareci diante de um juiz.
― E daí? Não é preciso fazer isso para se obter um divórcio.
― É, sim.
― Não é, não.
― É, sim! Eu vi em Kramer versus Kramer.
― Pelo amor de Deus, Milly! Será que você não sabe nada? Aquilo foi uma disputa pela custódia de um filho. ― Milly pareceu refletir por um momento. ― Se for só o divórcio, o advogado vai no lugar do cônjuge.
― Que advogado? Eu não tinha advogado.
Milly deu uma última tragada no cigarro e o apagou. Isobel estava em silêncio, perplexa. De repente, ergueu os olhos.
― Bem, talvez não tenha sido preciso. Allan deve ter realizado todo o processo sozinho.
― Está falando sério?
― Não sei. É possível.
― Então, eu posso estar divorciada?
― Teoricamente, sim.
― Como posso descobrir? ― perguntou Milly, agitada. ― Por que nunca fiquei sabendo? Será que existe algum registro de divórcios em algum lugar? Ah, meu Deus, se eu descobrisse que estou mesmo divorciada...
― Com certeza existe um registro ― disse Isobel. ― Mas há um modo mais rápido de se descobrir.
― Qual?
― Faça o que você deveria ter feito ha muitos anos. Ligue para seu marido.
― Não posso ― retrucou Milly, imediatamente. ― Não sei onde ele está.
― Encontre-o!
― Não posso.
― É claro que pode!
― Nem sei por onde começar! E, além disso... ― Milly parou de falar e desviou o olhar.
― Além disso, o quê? ― Milly acendeu outro cigarro com as mãos trêmulas. ― O quê? ― repetiu Isobel, impaciente.
― Não quero falar com ele, está bem?
― Por que não? ― Isobel fitou o rosto abatido da irmã. ― Por que não, Milly?
― Porque você está certa ― assentiu ela com os olhos cheios de lágrimas. ― Você está certa, Isobel! Aqueles nunca foram meus amigos. Eles só me usaram. Aproveitaram-se de mim para o que precisavam. Todos esses anos acreditei que eles fossem meus amigos. Eles se amavam tanto, e eu quis ajudá-los...
― Milly...
― Eu escrevi para eles quando voltei ― disse Milly, fitando o vazio. ― Allan costumava responder. Sempre planejei voltar um dia e fazer uma surpresa. Até que, aos poucos, perdemos contato. Mas eu ainda os considerava meus amigos. ― Ela olhou para Isobel. ― Você não faz idéia de como as coisas aconteceram em Oxford. Foi como um romance rápido entre nos três. Fazíamos passeios de chalana, piqueniques, conversávamos a noite inteira... ― Ela parou. ― E provavelmente eles riam de mim o tempo todo.
― Não ― disse Isobel. ― Tenho certeza de que não.
― Eles me viram chegar. ― A voz de Milly estava cheia de amargura. ― Uma tola ingênua que faria qualquer coisa que eles pedissem.
― Esqueça isso ― disse Isobel, abraçando Milly. ― Foi há dez anos. Já passou. Ponto final. Você tem que olhar para frente, tem que descobrir se houve o divórcio.
― Não posso. Não posso falar com ele. Ele vai... rir de mim.
― Você vai ter que fazer isso. ― Isobel suspirou.
― Mas eu não sei onde ele está ― retrucou Milly, desesperada. ― Ele simplesmente sumiu!
― Milly, estamos na era da informação. Não há como uma pessoa desaparecer. ― Ela tirou uma caneta do bolso e rasgou um pedaço do papelão de uma das caixas de presente. ― Vamos lá ― disse em tom animado. ― Preciso que me diga onde ele morava, onde os pais dele moravam; Rupert, os pais de Rupert. E qualquer pessoa que eles conheciam.
UMA HORA DEPOIS, MILLY afastou o telefone do ouvido com ar de triunfo.
― Acho que consegui! ― exclamou. ― Eles vão me dar um número!
― Aleluia! Vamos torcer para que seja o dele ― disse Isobel, olhando para o índice do mapa rodoviário em seu colo.
Milly levara um tempo para se lembrar de que o pai de Rupert tinha sido diretor de uma escola em Cornwall, e mais alguns minutos para restringir o nome do vilarejo para algo que começasse com a letra T. Só então elas seguiram o índice, fazendo uso do auxilio a lista para encontrar o Dr. Carr.
― Pronto! ― exclamou Milly, pousando o telefone e fitando a fileira de dígitos.
― Ótimo ― disse Isobel. ― Bem, comece a discar!
― Certo. ― Milly respirou profundamente. ― Vamos ver se é o numero certo.
"Eu devia ter feito isso antes", pensou, sentindo-se culpada ao pegar o telefone. "Eu poderia ter feito isso há muito tempo." Mas, mesmo enquanto discava, sentiu um desanimo doloroso. Não queria falar com Rupert. Não queria falar com Allan. Queria esquecer que aqueles safados, em algum momento, fizeram parte de sua vida; queria expulsa-los da memória.
― Alô? ― Uma voz masculina atendeu e Milly teve sobressalto. ― Alô? ― repetiu o homem. Milly fechou o punho, cravando as unhas na palma da mão.
― É Dr. Carr?― perguntou ela, lentamente.
― Sim ― respondeu ele, agradavelmente surpreso por tê-lo reconhecido.
― Ótimo. ― Milly pigarreou e acrescentou: ― Eu... poderia falar com Rupert, por favor?
― Ele não está. Você já tentou ligar para o número em Londres?
― Não ― respondeu ela, espantada por agir de forma natural. Olhou para
Isobel, que fez um gesto com a cabeça estimulando-a a prosseguir. ― Eu sou uma amiga da faculdade. Só queria retomar o contato.
― Ah, sim. Bem, ele está em Londres, em Lincoln's trabalhando como advogado. Mas eu posso dar o telefone da casa dele.
Ao escrever o numero, Milly ficou espantada. Fora tão simples. Durante anos, ela considerara Rupert e Allan pessoas fora de sua vida para sempre, figuras nebulosas que poderiam estar em qualquer parte do mundo e que ela nunca mais veria. No entanto, aqui estava ela, falando como pai de Rupert, a apenas um telefonema do antigo amigo de faculdade.
Em alguns minutos, ela ouviria a voz dele. Ah, meu Deus!
― Nos chegamos a nos conhecer? ― perguntou o pai de Rupert. ― Você estudou na Corpus Christ?
― Não ― respondeu Milly apressadamente. ― Desculpe, preciso desligar. Muito obrigada.
Ela desligou e, por alguns segundos, fitou o aparelho.
Respirou profundamente, tirou o fone do gancho e, antes que pudesse mudar de ideia, discou o numero de Rupert.
― Alô? ― Uma educada voz feminina atendeu.
― Oi ― disse Milly, antes de se render ao impulso de desistir. ― Eu poderia falar com Rupert, por favor? É muito importante.
― Claro. Quem está falando?
― É Milly. Milly, de Oxford.
Enquanto aguardava, Milly torcia o fio, tentando manter a respiração normal. Ela não se atrevia a olhar para Isobel, pois poderia entrar em pânico.
Dez anos era muito tempo.
Como Rupert estaria agora? O que ele diria? Ela podia ouvir uma música ao fundo, e o imaginou deitado no chão, fumando maconha e ouvindo jazz. Ou sentado numa velha cadeira aveludada, jogando cartas e bebendo uísque.
Talvez jogando cartas com Allan. Milly sentiu um súbito terror.
A qualquer momento, Allan poderia estar na linha.
De repente, a garota voltou ao telefone.
― Desculpe, mas Rupert está ocupado no momento. Quer deixar recado?
― Não é necessário ― respondeu Milly. ― Será que ele poderia ligar para mim depois?
― Claro.
― O numero é 89406, em Bath.
― Anotei.
― Ótimo ― disse Milly. Ela olhou para os rabiscos no bloco de anotações com imenso alivio. Deveria ter feito isso há anos; fora bem mais fácil do que pensava.― Você divide o apartamento com Rupert? ― acrescentou, alongando a conversa.― Ou é só uma amiga?
― Nenhum dos dois ― respondeu a garota, surpresa com a pergunta. ― Sou a esposa dele.