Louca para Casar

Sophie Kinsella · Capítulo 14 de 19

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Louca para Casar

Capítulo Treze

 

Por um momento, houve silêncio. Um garçom se aproximou e Martin fez seu pedido, com toda discrição, enquanto Rupert fitava o vazio diante de si, com olhar inexpressivo, tentando conter sua dor. Era como se algo dentro dele se despedaçasse, como se seu corpo inteiro fosse tomado de sofrimento e culpa. Allan estava morto. Allan havia partido. Era tarde demais.

― Você está bem? ― perguntou Martin em voz baixa.

Rupert acenou com a cabeça afirmativamente, incapaz de falar.

― Não sei muitos detalhes sobre o falecimento. Foi nos Estados Unidos. Os pais dele vieram e o levaram para casa. Acho que o fim foi tranquilo.

― Os pais dele ― disse Rupert com a voz débil. ― Ele odiava os pais.

― Eles acabaram se entendendo. Naturalmente as coisas mudaram quando Allan ficou doente. Eu os conheci quando vieram. Eram pessoas educadas, compreensivas. ― olhou para Rupert. ― Você chegou a conhecê-los?

― Não. Nunca os vi.

Ele fechou os olhos e imaginou o casal idoso que Allan havia descrito; imaginou Allan retornando a uma cidade que sempre odiara para morrer. Uma imensa angústia o dominou e ele sentiu-se prestes a sucumbir.

― Não pense nisso ― sugeriu Martin.

― O quê? ― Rupert abriu os olhos.

― Nisso que está pensando, no que todo mundo pensa quando algo assim acontece: se ao menos eu soubesse que ele iria morrer... Naturalmente você teria feito tudo diferente. É claro. Mas você não sabia. Não tinha como saber.

― O que... ― Rupert passou a língua pelos lábios. ― O que ele falou de mim?

― Ele disse que amava você. Disse que achava que você o amava. Não estava mais zangado. ― Martin inclinou-se para frente e pegou a mão de Rupert. ― É importante que você entenda isso, Rupert ― disse ele em tom sério. – Ele não guardava rancor de você.

Um garçom surgiu repentinamente ao lado da mesa, trazendo duas xícaras de café.

― Obrigado ― disse Martin com a mão sobre a de Rupert, que, diante do olhar fixo do garçom, estremeceu ligeiramente.

― Vocês querem mais alguma coisa?

― Não, obrigado ― respondeu Rupert. Ao perceber o olhar amistoso do garçom, sentiu um constrangimento doloroso cair sobre ele como água fervente. Teve vontade de correr para se esconder, de negar tudo. Mas, em vez disso, forçou-se a manter sua mão tranquilamente sob a de Martin. Como se fosse algo normal.

― Sei que isso é difícil para você ― prosseguiu Martin quando o garçom se afastou. ― Em todos os níveis.

― Eu sou casado ― disse Rupert bruscamente. ― É difícil a esse ponto.

Martin aquiesceu com um gesto de cabeça.

― Allan suspeitava que você havia se casado.

― Suponho que ele me desprezava. ― Rupert fitava a xícara. ― Suponho que você também me despreza.

― Não. Você não entende. Allan torcia para que você tivesse casado. Ele torcia para que você estivesse com uma mulher, em vez de...

Rupert levantou os olhos.

― Em vez de estar com um homem?

Martin assentiu.

― Ele se perguntava, angustiado, se deveria entrar em contato. Ele não queria complicar as coisas, caso você estivesse feliz com uma mulher. Mas, ao mesmo tempo, ele não conseguia suportar a ideia de você estar com outro homem. Queria acreditar que, se você tivesse mudado de opinião, sua primeira reação seria voltar para ele.

― Com certeza eu teria feito isso ― disse Rupert com a voz trêmula. ― Ele sabia disso. Ele me compreendia como nenhum outro ser humano jamais me compreendeu.

Martin deu de ombros, diplomático.

― Sua esposa...

― Minha esposa! ― exclamou Rupert. Ele lançou um olhar aflito para Martin. ― Minha esposa não me compreende! Nós nos conhecemos, saímos para jantar algumas vezes, passamos as férias juntos e nos casamos. Eu a vejo uma hora por dia, quando muito. Com Allan tudo era...

― Mais intenso.

― Ficávamos juntos o dia todo, a noite toda. ― Ele fechou os olhos. ― Compartilhávamos cada hora, cada minuto e cada pensamento, medo e esperança.

Houve silêncio. Quando Rupert abriu os olhos novamente, Martin estava tirando uma carta de sua pasta.

― Allan deixou isto para você, caso aparecesse algum dia.

― Obrigado. ― Rupert pegou o envelope, no qual seu nome estava escrito com a bonita caligrafia de Allan. Ele fitou o papel em silêncio. Quase conseguia ouvir a voz de Allan. Pestanejou algumas vezes e guardou a carta no bolso da jaqueta. ― Você tem celular? ― perguntou.

― Claro ― respondeu Martin, tateando o bolso.

― Há outra pessoa que precisa saber disso― justificou-se Rupert. Ele discou um número, aguardou um momento e, em seguida, desligou. ― Ocupado ― disse.

― Com quem você está tentando falar?

― Milly. A moça com quem ele se casou para poder ficar na Grã Bretanha.

Martin franziu o cenho.

― Allan me falou. Mas ela já deve saber, porque ele escreveu para ela.

― Bem, se ele realmente fez isso, ela nunca recebeu a carta, porque ela não sabe de nada. ― Ele discou o número novamente. ― E precisa saber.

ISOBEL DESLIGOU O TELEFONE e passou a mãos nos cabelos.

― Era a tia Jean ― disse. ― Queria saber o que vamos fazer com o presente que ela enviou.

Ela se reclinou na cadeira e inspecionou a mesa apinhada de papéis. Listas de nomes e agendas com endereços e números de telefone estavam espalhadas por toda a superfície, tudo coberto por marcas de círculos marrons das xícaras de café e migalhas de sanduíche. Caixas de sapato com documentos, folhetos e catálogos formavam uma pilha em uma das cadeiras da cozinha. Em uma delas via-se um impresso em preto e branco e papel brilhante; de outra, pendia um pedaço de renda. Diante de Isobel, havia uma sacola aberta contendo uma amostra de amêndoas confeitadas, coloridas em tom pastel.

― Dá tanto trabalho organizar uma festa de casamento! ― disse ela, estendendo a mão para pegar algumas amêndoas. ― Meses e meses de trabalho e esforço. E, em cinco segundos, tudo se acaba. E como pular sobre um castelo de areia. ― Ela mastigou as amêndoas e fez uma careta. ― Cruzes, isso é horrível. Vai quebrar meus dentes.

― Sinto muito, Andrea ― dizia Olivia ao celular. ― Sim, eu compreendo que Derek tenha comprado um fraque especialmente para a ocasião. Por favor, peça desculpas a ele por mim... Sim, talvez você tenha razão. Talvez um terno tivesse sido suficiente. ― Houve uma pausa, e as mãos dela seguraram o telefone com mais força. ― Não, eles ainda não definiram uma nova data. Sim, eu avisarei... Bem, se ele quiser devolvê-lo à loja, não tem problema. Sim, querida, até logo.

Ela desligou o telefone, riscou um nome da lista e pegou o livro vermelho.

― Certo ― disse. ― Quem é o próximo?

― Por que você não descansa um pouco? ― sugeriu Isobel. ― Você parece cansada.

― Não, querida. É melhor acabar logo com isso. Afinal precisa ser feito, não é? ― Ela sorriu para a filha. ― Não podemos ficar sentadas nos lamentando.

― Tem razão. Acho que não. ― Isobel ergueu os braços alongando-os. ― Estou com o pescoço dolorido de tanto tocar no telefone.

Assim que terminou a frase, o aparelho tocou novamente. Ela fez uma careta e atendeu.

― Alô? Ah, sim, é verdade. Pode deixar, vou avisá-la que você mandou lembranças. Tudo bem. Até logo. ― Isobel bateu o telefone e retirou-o do gancho novamente. ― Todo mundo tem que ligar e tripudiar ― resmungou, irritada. ― Eles sabem muito bem que ela não está doente coisa nenhuma.

― Talvez tivesse sido melhor ter dado outra desculpa. ― disse Olivia, esfregando a testa.

― Não faria diferença. Eles iriam perceber de qualquer jeito. Gente horrível. ― Isobel fez outra careta. ― A tia Jean quer o presente dela de volta imediatamente. Ela vai a outro casamento daqui a duas semanas e quer dá-lo a outra noiva. Vou falar para ela que nós o achamos tão horroroso que resolvemos jogá-lo no lixo.

― Não faça isso ― ordenou Olivia. Em seguida, fechou os olhos. ― Devemos tentar agir com dignidade e equilíbrio.

― Devemos? ― Isobel examinou o rosto de Olivia. ― Mãe você está bem? Está muito esquisita.

― Estou bem, sim ― sussurrou Olivia.

― Ok, então. ― Isobel não demonstrou muita convicção. Voltou a analisar a lista de nomes. ― Ligaram da floricultura para informar que, como o buquê já está pronto, eles podem desidratá-lo. Para ser guardado de lembrança.

― Lembrança?

― É ― disse Isobel, rindo involuntariamente. ― Que tipo de gente é essa?

― Lembrança! Como se algum dia fôssemos esquecer o dia de hoje!

Isobel olhou para Olivia e viu que ela estava com os olhos cheios de lágrimas.

―Mãe!

― Desculpe, filha. ― Uma lágrima escorreu até o nariz de Olivia, e ela abriu um largo sorriso. ― Não queria parecer uma boba.

― Eu sei o quanto você desejava esse casamento – disse Isobel, segurando a mão da mãe. ― Mas vai haver outro, você vai ver.

― Não é o casamento ― sussurrou Olivia. ― Se fosse...

A campainha tocou e ambas ergueram os olhos.

― Quem deve ser? ― indagou Isobel, impaciente. ― Será que as pessoas não percebem que não estamos a fim de receber visitas? ― Ela pousou a lista na mesa. ― Não se preocupe, eu vou...

― Não. Vamos nós duas.

Ao abrirem a porta, avistaram um casal desconhecido. Os dois usavam casacos verdes brilhantes, da Barbours, e portavam mochilas idênticas, da Mulberry.

― Oi ― disse a mulher em tom descontraído. ― Nós gostaríamos de um quarto, por favor.

―Um o quê?― perguntou Olivia, com ar de espanto.

―Um quarto ― repetiu a mulher. ― Com café da manhã. ― Ela acenou com um exemplar do guia de viagem Heritage City.

― Infelizmente estamos lotados no momento ― desculpou-se Isobel. ― Vocês poderiam tentar em um centro de turismo...

― Disseram que conseguiríamos um quarto aqui – insistiu a mulher.

― Não pode ser ― disse Isobel, pacientemente ―, porque não há quartos disponíveis.

― Eu falei com alguém por telefone! ― anunciou a mulher, aumentando o tom. ― E confirmei que poderíamos ficar aqui! Devo acrescentar que esta pensão nos foi recomendada pelos nossos amigos, os Rendles. ― Ela olhou emocionada para Isobel.

― Quanta honra ― zombou ela.

― Não se dirija a mim neste tom, jovem! ― reagiu a mulher. ― É assim que costuma administrar seu negócio? Lembre-se de que o cliente sempre tem razão! Disseram-nos que conseguiríamos um quarto. Você não pode simplesmente recusar hóspedes na porta sem uma explicação.

― Ah, pelo amor de Deus ― retrucou Isobel.

― Você quer uma explicação? ― perguntou Olivia com a voz trêmula.

― Mãe, deixa para lá.

― Você quer uma explicação? ― Olivia respirou fundo. ― Bem, por onde eu começo? Será que devo começar pelo casamento de minha filha? O casamento que deveria acontecer amanhã?

― Ah, um casamento na família! ― disse a mulher desconcertada. ― Bem, isso é diferente.

― Ou devo começar pelo primeiro casamento, que aconteceu há dez anos?― prosseguiu Olivia, ignorando a mulher. ― O casamento de que não tínhamos conhecimento? – Sua voz começou a aumentar de forma ameaçadora. – Ou será que eu deveria começar pelo fato de termos que cancelar tudo e de que nossa família e todos os nossos amigos estão rindo nas nossas costas?

― Ouça, eu não queria... ― A mulher tentou se justificar.

― Mas pode entrar! ― gritou Olivia, escancarando a porta. ― Nós vamos arrumar um quarto! Em algum lugar no meio de todos os presentes que temos que devolver, dos bolos que teremos que comer, da roupa que nunca será usada e do belo vestido de noiva...

― Vamos, Rosemary ― disse o homem, constrangido, puxando o braço da esposa. ― Desculpe ter incomodado. Eu insisti para que fossemos a Cheltenham.

Quando o casal se afastou, Isobel olhou para Olivia. Ela ainda agarrava a porta, o rosto cheio de lágrimas.

― Você precisa mesmo descansar, mãe ― aconselhou. Tire o telefone do gancho. Vá ver televisão. Ou vá dormir um pouco.

― Não posso. Precisamos continuar telefonando.

― Que nada! Todo mundo com quem eu falei já estava sabendo. Fofoca viaja rápido, você sabe. Já telefonamos para as pessoas mais importantes. As outras vão esperar mais um pouco.

― É ― disse Olivia após uma pausa. ― Para falar a verdade, estou mesmo me sentindo um pouco cansada. Acho que vou me deitar. ― Ela fechou a porta e olhou para Isobel. ― Você vai descansar também?

― Não ― respondeu ela, pegando o casaco. ― Eu vou sair. Vou ver Milly.

― Boa ideia. Ela vai gostar de vê-la. ― E Olivia acrescentou, após um momento: ― Não esqueça...

― Sim?

― Não se esqueça de dizer que eu mandei um beijo ― completou ela, cabisbaixa. ― Só isso. Diga a ela que eu mandei um beijo.

NA CASA DE ESME, a sala estava aconchegante e silenciosa, um mar de tranquilidade. Ao se sentar em um elegante sofá de cores claras, Isobel olhou ao redor com prazer, admirando a coleção de caixas de prata casualmente dispostas em uma mesa lateral e uma bandeja de madeira contendo pedras cinzentas, lisas e arredondadas.

― Então ― disse Milly, sentando-se diante dela. ― Mamãe ainda está furiosa?

― Não muito. ― Isobel franziu o cenho. ― Ela está esquisita.

― Provavelmente isso significa que ela está furiosa.

― Não está não. Ela mandou um beijo para você.

― É mesmo? ― Milly dobrou as pernas sob o corpo e bebeu um gole de café. Seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo desgrenhado e, sob o jeans, ela usava meias de esqui velhas.

Esme serviu uma caneca de café a Isobel.

― Infelizmente terei que roubar Milly daqui a pouco. Vamos sair para almoçar.

― Boa ideia ― disse Isobel. ― Aonde vocês vão?

― A um pequeno restaurante que eu conheço ― respondeu Esme, sorrindo. ― Dez minutos são suficientes, Milly?

― Sim, está ótimo.

Assim que Esme fechou a porta atrás de si, Isobel perguntou:

― E então, como está se sentindo?

― Não sei. Em alguns momentos, me sinto bem; em outros, tudo o que quero é chorar sem parar. ― Ela suspirou com um leve tremor. ― Fico todo o tempo me perguntando o que eu estaria fazendo agora... o que eu estaria fazendo agora? ― Ela fechou os olhos. ― Não sei como vou conseguir passar o dia amanhã.

― Tome um porre.

― Vou fazer isto esta noite. ― Milly esboçou um sorriso. ― Quer se juntar a mim?

― Talvez ― retrucou Isobel. Em seguida, tomou o café. ― E Simon, telefonou?

― Não ― respondeu Milly com tristeza.

― Está realmente tudo acabado entre vocês?

― Sim.

― Não posso acreditar. ― Isobel balançou a cabeça. ― Só porque...

― Porque eu omiti um assunto ― disse Milly subitamente em tom sarcástico. ― Portanto, sou uma mentirosa patológica. Ninguém pode acreditar em nada do que eu disser.

― Cretino. Você está muito melhor sem ele.

― Eu sei. ― Milly levantou os olhos e deu um sorriso tenso, de alguém que luta contra a dor. ― Foi melhor assim.

Isobel olhou para a irmã e teve vontade de chorar.

― Ah, Milly. Que pena.

― Não importa ― disse Milly rapidamente. ― Pior se eu estivesse grávida. Aí sim, seria terrível. ― Ela tomou um gole de café e deu um sorriso forçado.

Isobel esboçou um sorriso.

― Já decidiu o que vai fazer? ― perguntou Milly finalmente.

― Não.

― E o pai?

― Não quer filhos. Ele deixou isso bem claro.

― Você não pode persuadi-lo?

― Não. Nem quero! Não pretendo forçar ninguém a ser pai. Que chance teria um relacionamento como esse?

― Talvez o bebê unisse vocês.

― Filho não é cola ― argumentou Isobel, ajeitando o cabelo. ― Se eu resolvesse ter o bebê, iria criá-lo sozinha.

― Eu ajudaria! E mamãe também.

― Eu sei ― assentiu Isobel, contraindo os ombros. Milly a fitou.

―Você não pensa em interromper a gravidez, pensa?

― Não sei! Eu só tenho 30 anos, Milly! Eu poderia conhecer um cara maravilhoso amanhã. Poderia me apaixonar. Mas, tendo um filho...

― Não faria diferença ― observou Milly com firmeza.

― Faria, sim! E você sabe muito bem que cuidar de um bebê não é nada fácil. Eu vejo minhas amigas. Elas se transformaram em zumbis. E nem são solteiras.

― Bem, não sei ― disse Milly após uma pausa. ― A decisão é sua.

― Pois é. É exatamente esse o problema.

A porta se abriu e elas ergueram os olhos. Esme surgiu sorridente, usando um enorme chapéu de pele.

― Pronta, Milly? Isobel, querida, você quer ir também?

― Não, obrigada. ― Ela se levantou. ― Eu preciso ir para casa.

ISOBEL FICOU OLHANDO MILLY entrar no Daimler vermelho de Esme e desejou que sua madrinha aparecesse de repente e também a levasse para longe. Mas Mavis Hindle era uma mulher chata, que morava no norte da Escócia e ignorava a existência de Isobel desde a véspera de sua crisma. Na ocasião ela lhe enviou um suéter cheio de bolinhas com um caimento horroroso, e um cartão escrito com uma letra ilegível, que Isobel nunca conseguira entender. “Nem toda madrinha é como Esme Ormerod", pensou.

Quando o carro de Esme virou a esquina, ela começou a caminhar, dizendo a si mesma que iria direto para casa. Mas não estava disposta a suportar a atmosfera claustrofóbica e triste da cozinha, não queria mais ter que dar telefonemas constrangedores para estranhos curiosos. Agora que estava fora de casa, queria continuar ao ar livre, esticar as pernas e curtir a sensação de não ter um telefone colado ao ouvido.

Começou andar pela cidade, sentindo-se levemente irresponsável, como se estivesse matando aula. No início, caminhava sem destino, limitando-se a desfrutar da sensação de esticar as pernas a cada passo, de balançar os braços, leves, ao lado do corpo. Então, tomada por um pensamento súbito, parou e, impelida por uma curiosidade que reconhecia como mórbida, pegou a rua principal em direção a Igreja de St. Edward.

Ao chegar no pórtico, quase imaginou que ouviria o órgão tocar a "Marcha Nupcial". A igreja estava repleta de flores, os bancos estavam vazios, o altar brilhava. Ela caminhou lentamente pelo corredor, visualizando a igreja cheia de rostos felizes e ansiosos, imaginando como teria sido entrar logo atrás de Milly, vestida de dama de honra, e observar a irmã fazer os votos tradicionais que todo mundo conhece e adora.

Ao chegar perto do altar, ela parou e notou uma pilha de folhetos, agora inúteis, empilhados na extremidade de um dos bancos. Com um sentimento de mágoa, pegou um deles e, ao ler os dois nomes impressos na primeira página, piscou os olhos, surpresa: Eleanor e Giles, impresso com uma horrorosa letra prateada cheia de floreios. Quem eram Eleanor e Giles? Como se atreviam a se apossar da cerimônia?

― Cambada de parasitas! ― disse Isobel em voz alta.

― Como disse? ― perguntou uma voz masculina atrás dela.

Ao se virar, deparou-se com um jovem usando uma batina.

― Você trabalha aqui? ― perguntou ela.

― Sim.

― Bem, oi. Sou a irmã de Milly Havill.

― Ah, sim ― reconheceu o sacerdote, constrangido. Que pena. Ficamos todos muito tristes quando soubemos do cancelamento.

― Ficaram? E o que aconteceu? Acharam que poderiam fazer uso das flores caras da cerimônia de Milly?

― Como assim?

Isobel apontou para os folhetos.

― Quem é essa tal de Eleanor? Por que a cerimônia é no dia do casamento de Milly?

― Não é ― explicou o padre, nervoso. ― O casamento deles é hoje à tarde. Eles marcaram há um ano.

― Ah, bom ― assentiu Isobel. Ela olhou para os folhetos e os colocou de volta no lugar. ― Está certo, então. Espero que eles sejam felizes.

― Sinto muito ― disse o religioso, sem jeito. – Talvez sua irmã possa vir a se casar depois. Quando resolver tudo.

― Seria bom. Mas duvido. ― Os olhos de Isobel percorreram a igreja mais uma vez, e ela se virou para ir embora.

― Para falar a verdade, eu vim fechar a igreja agora. ― anunciou o padre, apressando-se atrás dela. ― É uma precaução que normalmente tomamos quando há arranjos de flores. Você ficaria surpresa com as coisas que as pessoas roubam nos dias de hoje.

― Posso imaginar ― retrucou ela. Em seguida, parou ao lado de uma pilastra, arrancou o lírio branco de um arranjo em formato de caracol e inspirou o perfume suave. – Realmente teria sido um belo casamento ― observou, desapontada. ― E agora está tudo acabado. Vocês não têm ideia do que fizeram.

O jovem esboçou um breve sinal de irritação.

― Até onde eu sei, era um caso de tentativa de bigamia.

― Sim ― disse Isobel. ― Mas ninguém saberia. Se o cônego Lytton tivesse feito vista grossa, se não tivesse dito nada...

― O casal saberia! ― exclamou o padre. ― Deus saberia!

― É ― disse Isobel de forma lacônica. ― Talvez Deus não se incomodasse.

Em seguida, saiu da igreja de cabeça baixa e acabou esbarrando em alguém.

― Desculpe ― disse ela antes de erguer os olhos e parar, atônita. Harry Pinnacle estava diante dela, usando um sobretudo de caxemira azul-marinho e um cachecol vermelho brilhante.

― Olá, Isobel ― cumprimentou. Ele olhou por cima dos ombros dela e deu de cara com o padre. ― Tudo isso é tão terrível.

― É mesmo. Terrível.

― Estou indo encontrar seu pai para almoçarmos.

― Eu sei. Ele me falou.

Ouviu-se um ruído quando o religioso fechou a porta da Igreja. De repente, eles estavam a sós.

― Bem, eu preciso ir ― murmurou ela. ― Prazer em vê-lo.

― Espere.

― Estou com pressa ― justificou-se Isobel, afastando-se.

― Não importa. ― Harry agarrou seu braço, forçando-a a encará-lo. ― Por que tem ignorado minhas mensagens?

― Me deixe em paz ― ordenou ela, virando-se.

― Isobel! Precisamos conversar!

― Não posso ― retrucou, com expressão fechada. ― Harry eu... não posso.

Depois de alguns instantes de silêncio, Harry a soltou.

― Certo. Se é o que você quer.

― Não importa o que eu quero ― disse Isobel, impassível.

Sem olhar para ele, enfiou as mãos nos bolsos e se afastou.