Louca para Casar
Capítulo Nove
Rupert e Francesca sentaram-se na sala, em silêncio, olhando um para o outro. Seguindo o conselho de Tom, ambos haviam telefonado para seus respectivos trabalhos, informando que tirariam o resto do dia de folga. No caminho de volta a Fulham, os dois permaneceram calados no táxi. De vez em quando, Francesca lançava um olhar confuso e magoado a Rupert; ele permanecera o tempo todo de cabeça baixa, perguntando-se o que iria dizer, se deveria inventar uma história qualquer ou contar-lhe a verdade.
Como ela reagiria se ele contasse? Ficaria zangada? Enlouquecida? Revoltada? Talvez dissesse que sempre soube que havia algo estranho com ele. Talvez tentasse entender. Mas como ela poderia entender algo que ele próprio não entendia?
— Bem — disse Francesca — , aqui estamos. — Ela olhou para ele com expectativa, e Rupert desviou o olhar. Ele podia ouvir os sons vindos da rua, o canto dos pássaros, o ruído dos carros, o choramingo de uma criança pequena ao ser colocada no carrinho pela baba. Os sons diurnos que ele não estava acostumado a ouvir. Sentiu-se desconfortável por estar em casa em plena luz do dia e diante do olhar fixo e tenso da esposa.
― Eu acho ― disse Francesca repentinamente ― que devíamos rezar.
― O quê? ― perguntou Rupert, perplexo.
― Antes de conversarmos. ― Francesca o fitou séria ― Uma oração poderá nos ajudar.
― Não acho que me ajudaria ― retrucou Rupert. Em seguida, olhou para o bar, mas logo desistiu da ideia de pegar uma bebida.
― Rupert, o que esta havendo? Por que você está tão estranho? Você esta apaixonado pela Milly?
―Não!
― Mas esteve envolvido com ela quando estava em Oxford.
― Não.
― Como não? ― Francesca o encarou. ― Você nunca saiu com ela?
― Nunca. ― Ele teria rido se não estivesse tão nervoso. ― Nunca sai com Milly. Não da forma como você esta pensando.
― Não da forma como eu estou pensando ― repetiu ela ― O que isso significa?
― Francesca, você esta enganada. ― Ele tentou dar um sorriso. ― Olha, não podemos apenas esquecer tudo isso a Milly e uma velha amiga. Ponto final.
― Eu gostaria de acreditar em você. Mas e óbvio que alguma coisa está acontecendo.
― Não está acontecendo nada.
― Então sobre o que ela estava falando? ― 0 tom de voz de Francesca aumentou com a raiva. ― Rupert, eu sou sua esposa! Você me deve lealdade. Se tiver um segredo, eu merco saber.
Rupert fitou a esposa e viu que seus olhos claros brilhavam ligeiramente, as mãos estavam pousadas firmemente sobre o colo. No pulso, ela usava o relógio caro que ele lhe dera de presente de aniversário e que haviam comprado juntos, na Selfridges, antes de assistirem a peça An Inspector Calls. Fora um dia feliz, de prazeres despretensiosos e inofensivos.
― Não quero perder você. Eu te amo. Amo nosso casamento. Amarei nossos filhos, quando os tivermos.
Francesca fitou-o preocupada.
― Porém... ― disse ela. ― Qual é o porém?
Rupert a fitou em silêncio. Não sabia o que responder, como começar.
―Você está metido em alguma encrenca? ― perguntou Francesca. ― Está escondendo alguma coisa de mim? – Ela parecia cada vez mais alarmada. ― Rupert!
― Não! Não estou metido em nenhuma encrenca. E que eu sou...
― O quê? ― perguntou Francesca, impaciente. ― Você é o quê?
― Boa pergunta ― disse Rupert, sentindo o rosto se retesar à medida que ficava mais nervoso.
― Como assim?
Rupert fechou os punhos e respirou fundo. Agora não havia como voltar atrás.
― Quando eu estava em Oxford. ― ele fez uma pausa. ― Eu conheci um homem.
― Um homem?
Rupert encarou Francesca, que retribuía seu olhar com uma expressão confusa e ingênua, esperando que ele continuasse a falar. Ela não fazia ideia de que ele estava preparando o terreno para o que diria em seguida.
― Eu tive um relacionamento com ele. Um relacionamento íntimo.
Ele fez uma pausa, esperando que Francesca processasse o que ouvira e tirasse suas próprias conclusões. Pelo que pareceram horas, o olhar dela permaneceu vazio.
Até que, finalmente, aconteceu. Seus olhos piscaram rapidamente: ela havia entendido. Rupert olhou temeroso para a esposa, tentando prever sua reação.
― Eu não estou entendendo ― disse ela, aumentando o tom de voz. ― Rupert, você não está dizendo coisa com coisa! Isso e perda de tempo!
Ela se levantou do sofá e começou a remover migalhas imaginárias da saia, evitando o olhar do marido.
― Querido, eu não devia ter desconfiado ou duvidado de você ― disse Francesca. ― Desculpe. Naturalmente você tem o direito de ver quem quiser. Vamos esquecer que isso aconteceu?
Rupert a fitou perplexo. Será que ela estava falando serio? Será que realmente queria seguir em frente, como se nada tivesse acontecido? Fingir que ele não tinha dito nada, ignorar as perguntas que provavelmente ruminavam em sua mente? Será que ela estava com tanto medo assim das respostas que poderia ouvir?
― Quer um chá? ― continuou Francesca, disfarçando a tensão. ― Vou tirar uns bolinhos do freezer e preparar um lanche bem gostoso!
― Francesca, pare. Você ouviu bem o que eu disse. Não quer saber detalhes? ― Ele se levantou e agarrou o braço dela. ― Você ouviu o que eu disse.
― Rupert! ― Francesca deu um sorriso breve. ― Largue meu braço! Eu não sei do que você está falando. Já pedi desculpas por ter desconfiado de você. O que mais você quer?
― Eu quero... ― começou Rupert, apertando o pulso da mulher com mais força, sentindo-se encorajado a prosseguir. ― Quero contar tudo.
―Você já contou tudo― retrucou Francesca rapidamente. ― E eu entendi. Tudo não passou de uma confusão boba.
― Eu não contei nada. ― Ele a fitou, louco para desabafar, louco por alívio. ― Francesca...
― Por que não podemos esquecer tudo isso? – pediu Francesca, a voz à beira do pânico.
― Porque seria omitir a verdade!
― Bem, talvez eu não queira a verdade! ― disse ela, enrubescida, com um movimento rápido dos olhos. Parecia um coelho preso numa armadilha.
"Deixe-a em paz", Rupert disse a si mesmo. "Não diga mais nada, apenas deixe-a em paz." Mas o impulso de falar era insuportável, agora que já havia começado, não podia mais se conter.
― Você não quer a verdade? ― Rupert se odiava por insistir. ― Quer que eu levante falso testemunho? E isso o que você quer?
Ele percebeu a expressão de Francesca mudar enquanto ela tentava lidar como conflito entre seus temores internos e as leis de Deus.
― Tem razão ― assentiu ela, finalmente. ― Desculpe. ― Em seguida, olhou para ele com ar apreensivo e baixou a cabeça em sinal de submissão. ― 0 que você quer me contar?
"Pare agora", disse Rupert a si mesmo. "Pare agora, antes de deixá-la totalmente arrasada."
― Eu tive um caso com um homem. ― Ele fez uma pausa e esperou por uma reação: um grito, um suspiro. Mas Francesca permaneceu de cabeça baixa, imóvel. ― O nome era Allan ― murmurou, engolindo em seco. ― Eu o amava.
Quase sem ousar respirar, Rupert fitou Francesca. De repente, ela ergueu os olhos.
―Você esta inventando tudo isso ― disse ela.
― O quê?
― Eu sei ― acrescentou Francesca rapidamente. ― Você esta se sentindo culpado por causa dessa tal de Milly, inventou essa história boba para me confundir.
― Não estou inventando. Não é uma história. É a verdade.
― Não é ― disse Francesca, balançando a cabeça. ― Não é.
― É sim.
― Não é!
― É, Francesca! ― gritou Rupert. ― É! É a pura verdade! Eu tive um caso com um homem. O nome dele era Allan Kepinski.
Houve um longo silencio, e então Francesca o encarou. Ela parecia estar passando mal.
―Você está querendo dizer que...
― Sim.
― Chegou a...
― Sim― completou Rupert. ― Sim. ― À medida que falava, sentia um misto de dor e alívio, como se pedras tivessem sido tiradas de suas costas, aliviando a carga, mas deixando sua pele sangrando e em carne viva. ― Eu tive relações sexuais com ele. ― Ele fechou os olhos. ― Nós transamos. ― De repente, as lembranças invadiram sua mente: estava com Allan, no escuro, sentindo sua pele, o cabelo, a língua. Tremendo de prazer.
― Não quero ouvir mais nada ― sussurrou Francesca. ― Não estou me sentindo bem. ― Rupert abriu os olhos e a viu se levantar e caminhar, hesitante, até a porta. Ela estava pálida e as mãos tremiam ao girar a maçaneta. O sentimento de culpa tomou conta dele com uma intensidade insuportável.
― Perdoe-me ― disse. ― Perdoe-me, Francesca.
― Não peça perdão a mim― retrucou ela com a voz alterada. ― Não peça perdão a mim. Peça ao Senhor.
― Francesca...
― Você deve rezar por perdão. Eu vou... ― Ela parou e respirou profundamente. ― Eu também vou rezar.
― Não podemos conversar? ― propôs Rupert desesperadamente. ― Não podemos, pelo menos, conversar a respeito disso? ― Ele se levantou e foi ate onde ela estava. ― Francesca?
― Não! ― gritou ela quando o marido tentou segurá-la. ― Não me toque! ― Encarou-o com os olhos brilhantes e o rosto pálido como uma folha de papel.
― Eu não...
― Não chegue perto de mim!
― Mas...
― Você fez amor comigo! Você me tocou! Você... ― A voz dela falhou, interrompida pela ânsia de vômito.
― Francesca...
― Estou passando mal ― disse ela, trêmula, e saiu às pressas.
Rupert permaneceu ao lado da porta enquanto ela corria pelas escadas e trancava a porta do banheiro. Sentia todo o corpo tremer, as pernas cambalearem. A repugnância na expressão de Francesca o fez querer rastejar para bem longe e se esconder. Ela se afastara como se ele estivesse contaminado, como se a maldade dele pudesse sair pelos poros e infectá-la, como se ele fosse algo asqueroso.
Rupert sentiu que estava a ponto de sucumbir e chorar. Mas, em vez disso, caminhou vacilante ate o bar e pegou uma garrafa de uísque. Enquanto retirava a tampa, viu sua imagem refletida no espelho. Seus olhos estavam injetados, seu rosto, vermelho, sua expressão denotava pavor e tristeza. Parecia doente, por dentro e por fora.
"Reze", dissera Francesca. "Reze por perdão." Rupert segurou a garrafa com força. "Senhor,” tentou murmurar. "Senhor Deus, perdão.” Mas as palavras não fluíam; à vontade não existia. Não estava disposto a se arrepender. Não queria ser perdoado. Era um pobre pecador e não se importava com isso.
"Deus me odeia", pensou Rupert, fitando o próprio reflexo. "Deus não existe." As duas afirmações pareciam igualmente prováveis.
UM POUCO MAIS TARDE, Francesca desceu novamente. Ela havia penteado o cabelo, lavado o rosto e trocado de roupa. Agora, estava usando uma calça jeans e uma camiseta. Rupert ergueu os olhos, segurando a garrafa de uísque pela metade. Sua cabeça girava, mas ele não se sentia nem um pouco aliviado.
― Falei com Tom ― anunciou Francesca. ― Ele vira aqui mais tarde.
Rupert teve um sobressalto.
―Tom?
― Eu contei tudo a ele ― disse ela com a voz trêmula. ― Ele falou que não havia motivo para preocupação, que conhece outros casos como o seu.
A cabeça de Rupert começou a latejar.
― Não quero ver o Tom ― vociferou.
― Ele só quer ajudar!
― Não quero que ele saiba! Isso e entre nos dois! ― Rupert sentiu o pânico dominar sua voz. Podia imaginar a expressão de Tom, olhando-o com um misto de compaixão e repugnância. Tom sentiria nojo dele. Todos sentiriam nojo dele.
― Ele só esta querendo ajudar. E querido... ― O tom de voz de Francesca se modificou e Rupert a olhou, surpreso.
― Quero pedir desculpas. Eu não devia ter reagido tão mal. E que eu fiquei apavorada. Tom disse que isso e perfeitamente normal. Ele disse... ― Francesca se deteve e mordeu o lábio. ― Enfim. Podemos superar isso. Com muito apoio e oração...
― Francesca... ― começou Rupert. Ela ergueu a Mao, impedindo-o de falar.
― Não, espere. ― Então, andou lentamente na direção dele. ― Tom disse que eu não posso permitir que minhas emoções interfiram no nosso... ― Ela fez uma pausa. ― Nosso contato físico. Eu não deveria ter rejeitado você. Eu coloquei as minhas emoções egoístas em primeiro plano, e isso foi um erro. ― Ela engoliu em seco. ― Me desculpe. Por favor, me desculpe.
Ela se aproximou até que a distância entre eles se resumisse a poucos centímetros.
― Não cabe a mim evitá-lo ― sussurrou. ― Você tem todo o direito de me tocar. Afinal, é meu marido. Prometi perante Deus que o amaria, que o obedeceria e me dedicaria a você.
Rupert não tirava os olhos dela. Estava surpreso demais para falar alguma coisa. Ele estendeu a mão e tocou suavemente o braço da esposa. Um olhar de repulsa surgiu no semblante de Francesca, mas ela continuou fitando-o firmemente, como se estivesse determinada a encarar a situação, como se não houvesse escolha.
― Não! ― Rupert afastou a mão repentinamente. ― Não vou fazer isso. Está errado! Francesca, você não é um cordeiro a ser sacrificado! É um ser humano!
― Quero curar nosso casamento ― disse Francesca com a voz hesitante. ― Tom disse que...
― Tom disse que, se fossemos para a cama, tudo estaria resolvido, não é? ― A voz de Rupert estava carregada de sarcasmo. ― Tom disse para você se deitar comigo e pensar em Jesus.
―Rupert!
― Não permitirei que você se subjugue assim, Francesca. Eu amo você! Respeito você!
― Bem, se você me ama e me respeita ― vociferou Francesca ―, por que mentiu para mim? ― Sua voz fraquejou. Por que se casou comigo, sabendo que você não era quem demonstrava ser?
― Francesca, ainda sou eu! Ainda sou o Rupert!
― Não é não! Pelo menos para mim! ― Seus olhos se encheram de lágrimas. ― Não consigo mais vê-lo. O que eu vejo quando olho para você é... ― Ela teve um leve tremor de repugnância. ― Sinto náuseas só de pensar.
Rupert se sentiu arrasado.
― Diga o que você quer que eu faça ― pediu ele após um momento de silêncio. ― Quer que eu vá embora?
― Não ― respondeu ela imediatamente. ― Não. ― Em seguida, hesitou. ― Tom sugeriu...
― O quê?
― Ele sugeriu ― repetiu Francesca, engolindo em seco ―uma confissão pública. No culto da tarde. Se você confessar seus pecados à congregação e a Deus, provavelmente será capaz de começar uma nova vida. Sem mentiras. Livre do pecado.
Rupert a olhou, incrédulo. Todo o seu ser rejeitava aquela proposta.
―Tom disse que você ainda não se deu conta do erro que cometeu ― continuou ela. ― Mas quando isso acontecer, quando você realmente se arrepender, então seremos capazes de começar tudo novamente. Será um renascimento. Para nós dois. ― Ela secou as lágrimas. ― O que acha? O que acha Rupert?
― Não vou me arrepender ― Rupert se viu dizendo.
― O quê? ― Francesca ficou boquiaberta.
― Não vou me arrepender ― repetiu ele com a voz trêmula. ― Não vou declarar publicamente que o que fiz foi um ato de depravação.
― Mas...
― Eu amava o Allan. E ele me amava. O que fizemos não foi deplorável ou indigno. Foi... ― Repentinamente, lágrimas brotaram de seus olhos. ― Foi um relacionamento belo, de amor. Como a Bíblia prega.
― Você está falando sério?
― Sim ― respondeu Rupert. Ele suspirou com um leve tremor. ― Eu gostaria, por nós dois, de não estar falando serio. Mas estou. ― Ele a encarou. ― Não lamento o que fiz.
― Bem, então você é doente! ― retrucou Francesca em voz alta, carregada de pavor. ― Você é doente! Você transou com um homem! Como isso pode ser belo? É repugnante!
― Francesca...
― E eu? ― A voz dela subiu mais um tom. ― E quando nós transamos? Todo esse tempo, você desejou estar com ele?
― Não! ― gritou Rupert. ― Claro que não.
― Mas você disse que o amava!
― É verdade. Mas não me dei conta disso na época. ― parou. ― Francesca, me perdoe.
Ela fitou-o por um momento silencioso e dolorido, então deu alguns passos para trás, tentando, cegamente, alcançar uma cadeira.
― Não consigo entender. ― O tom de Francesca era desanimado. ― Você é mesmo homossexual? Tom disse que não. Ele disse que muitos jovens ficam meio confusos.
― O que Tom saberia sobre isso? ― esbravejou Rupert. Ele se sentia preso em uma armadilha, acuado.
― Bem, você é ou não?― insistiu ela. ― Você é homossexual? ― Houve uma longa pausa.
― Não sei ― respondeu Rupert finalmente. Depois, jogou-se pesadamente em um sofá e afundou a cabeça entre as mãos. ― Não sei o que eu sou.
APÓS ALGUNS MINUTOS, QUANDO ele ergueu os olhos novamente, Francesca havia desaparecido. Do lado de fora da janela, os pássaros continuavam a gorjear, e ainda era possível ouvir o barulho dos carros à distância. Tudo permanecia igual. Nada era igual.
Rupert olhou para suas mãos trêmulas, para a aliança que Francesca lhe dera no dia do casamento. Em um súbito flash, lembrou-se da felicidade que sentira naquele dia, do alívio que experimentou ao repetir algumas palavras e se tornar parte do grupo de pessoas legitimamente casadas.
Quando conduziu Francesca ao longo do corredor da igreja, sentiu-se finalmente uma pessoa normal, como sempre quis.
Ele não queria ser gay. Não queria ser minoria. Queria apenas ser como todo mundo.
Tudo havia transcorrido exatamente como Allan previra; ele sempre soube como Rupert se sentia. Nas últimas semanas de verão, ele notara como os sentimentos de Rupert haviam passado gradualmente da paixão ao constrangimento. E fora paciente quando Rupert começara a evitar sua companhia, ignorando-o por vários dias, até finalmente sucumbir com mais paixão do que nunca. Ele tinha sido compreensivo e solidário. Em troca, Rupert o abandonara.
As sementes da sua fuga foram plantadas no início de setembro. Rupert e Allan estavam andando pela Broad Street, não exatamente de mãos dadas, mas com os braços tão próximos que roçavam um no outro, falando pertinho e sorrindo o sorriso dos amantes. Então, alguém chamou.
―Rupert!
Ele levou um susto. Ben Fisher, um antigo colega de escola, estava do outro lado da rua com um enorme sorriso.
De repente, lembrou-se da carta do pai, recebida algumas semanas antes, na qual ele expressava a esperança saudosa de que Rupert pudesse voltar para casa por alguns dias durante as férias e anunciava, com orgulho, que outro garoto da pequena escola de Cornwall também iria estudar em Oxford.
― Ben! ― exclamou Rupert, atravessando a rua apressadamente. ― Bem-vindo a Oxford! Meu pai falou que você viria.
― Espero que você me mostre a faculdade ― disse Bem com seus olhos escuros brilhantes, ― E me apresente umas garotas. Elas devem estar todas atrás de você. Garanhão! ― Após lançar um olhar curioso a Allan, que permanecia do outro lado da rua, ele perguntou: ― Quem é aquele? Um amigo?
O coração de Rupert deu um salto. De repente, com uma onda de pânico, viu-se através dos olhos de seus amigos, dos professores, do pai.
― Ah, ele? ― disse, depois de uma pausa. ― Não é ninguém. Apenas um dos professores.
Na noite seguinte, ele foi a um bar com Ben, bebeu tequila e flertou descaradamente com duas lindas jovens italianas. Quando voltou para casa, Allan estava esperando por ele.
― A noite foi boa? ― perguntou ele em tom descontraído;
― Sim ― respondeu Rupert, incapaz de encará-lo. ― Eu estava com... com uns amigos. ― Em seguida, despiu-se rapidamente, deitou e fechou os olhos quando Allan se aproximou.
No momento em que ambos começaram a sentir o prazer físico, sua mente se esvaziou de qualquer pensamento ou culpa. Mas Rupert saiu novamente com Ben na noite seguinte, e dessa vez forçou-se a beijar uma das belas garotas que o cercaram. Elas eram como crianças ao redor de um balcão de doces. A jovem reagiu ansiosamente, estimulando-o a acariciar seu corpo suave e desconhecido. No final da noite, convidou-o para ir até a casa que dividia com outros alunos, na Cowley Road.
Ele a despiu lenta e desajeitadamente, lembrando-se de cenas de filmes e torcendo para que a visível experiência da garota o guiasse. De alguma forma, conseguiu se sair bem; se os gritos da garota eram verdadeiros ou falsos ele não sabia, e também não se preocupou com isso. Na manhã seguinte, acordou na cama dela, enroscado na pele macia e feminina, inspirando seu perfume suave. Ele beijou o ombro da garota como sempre beijava o ombro de Allan, estendeu a para tocar seu seio e percebeu, com súbita surpresa, que estava excitado. Ele queria acariciar o corpo dela. Queria beijá-la. Era tomado pelo desejo só de pensar em transar com ela novamente. Ele era normal. Podia ser normal.
― Você está fugindo de mim? ― perguntou Allan alguns dias depois, enquanto comiam uma massa. ― Está precisando de espaço?
― Não! ― respondeu Rupert, cordial demais. ― Está tudo bem.
Allan o encarou em silêncio por um momento, depois pousou o garfo sobre o prato.
― Não fique apavorado ― disse ele, pegando a mão de Rupert e estremecendo quando ele a puxou. ― Não desista de algo que pode ser maravilhoso só porque está assustado.
― Não estou assustado!
― É claro que está. Todo mundo fica assustado. Eu estou assustado.
― Você? ― disse Rupert, tentando não parecer cruel. ― Por que você está assustado?
― Simplesmente estou assustado ― respondeu Allan lentamente ―, porque entendo o que está fazendo e sei o que você significa para mim. Está tentando fugir. Está tentando se livrar de mim. Daqui a algumas semanas, vai passar por mim na rua e desviar o olhar. Estou certo?
Ele fitou Rupert com olhar sombrio, clamando por uma réplica. Mas Rupert permaneceu em silêncio. Não havia necessidade de dizer nada.
Depois desse episódio, as coisas se deterioraram rapidamente. Eles tiveram uma última conversa em um bar deserto da Keble College, uma semana antes do início do novo semestre.
― Eu simplesmente não consigo... ― disse Rupert, tenso de constrangimento, preocupado como olhar desinteressado do garçom. ― Eu não sou... ― Ele interrompeu a frase antes de beber um gole de uísque. ― Você entende. ― Em seguida lançou um olhar suplicante para Allan e voltou a olhar outra direção.
― Não. Não entendo. Nós éramos felizes.
― Foi um erro. Eu não sou gay.
― Você não sente atração por mim? ― perguntou Allan olhando fixamente para ele. ― É isso que você está dizendo? Você não sente atração por mim?
Rupert sentiu-se dividido: Ben e algumas garotas esperavam por ele em um bar. Naquela noite ele certamente transaria com uma delas. Mas ele desejava Allan mais do que qualquer garota.
― Não― respondeu. ― Não sinto atração por você.
― Certo ― assentiu Allan com a voz rouca de raiva. ― Minta para mim. Minta para si mesmo. Case-se. Tenha filhos. Finja que é hétero. Mas você vai descobrir que não é, eu vou descobrir que você não é.
― Eu sou ― replicou Rupert de forma hesitante, arrependendo-se logo depois ao ver o olhar de desprezo de Allan.
― Faça como achar melhor. ― Allan esvaziou o copo e ficou de pé.
― Você vai ficar bem? ― perguntou Rupert, olhando para ele.
― Não precisa se preocupar comigo. Não vou ficar bem. Mas vou superar.
― Me perdoe.
Allan não disse mais nada. Rupert o observou em silêncio enquanto ele saía do bar. Durante alguns minutos, experimentou uma imensa dor. Mas sentiu-se melhor depois de dois uísques. Então, conforme havia combinado, foi ao encontro de Bem e bebeu algumas cervejas e ainda mais uísque.
Mais tarde, naquela mesma noite, depois de transar com a mais bonita das duas garotas que Ben levara para o bar, permaneceu acordado, repetindo para si mesmo que era normal, que voltara ao rumo certo e que estava feliz. E, por um momento, quase acreditou naquelas palavras.
― TOM VAI CHEGAR daqui a pouco. ― A voz de Francesca interrompeu seus pensamentos e ele ergueu os olhos. Ela carregava uma bandeja com o bule amarelo de chá que eles tinham colocado na lista de presentes de casamento, algumas xícaras, pires e um prato de biscoitos de chocolate.
― Francesca ― disse Rupert, abatido. ― Isso não e nenhuma festa. ― Uma expressão de desapontamento se manifestou no semblante da esposa. Porém, ela se recompôs e concordou em silêncio.
― Talvez você tenha razão ― disse ela, pousando a bandeja sobre uma cadeira. ― Talvez isso seja um tanto inconveniente.
― A situação é inconveniente. ― Rupert se levantou e caminhou lentamente até a porta. ― Não vou conversar com Tom sobre a minha sexualidade.
― Mas ele quer ajudar!
― Não quer nada. ― Rupert olhou para Francesca. ― O que ele quer é direcionar o problema de acordo com seus interesses, não ajudar.
― Não estou entendendo ― retorquiu Francesca, franzindo a testa.
Rupert deu de ombros. Durante um momento, os dois ficaram em silêncio. Ela mordeu o lábio.
― Eu estava pensando... Talvez você devesse ira um médico. Poderíamos pedir ao Dr. Askew para indicar alguém. O que você acha?
Rupert fitou-a perplexo. Era como se ela tivesse acertado seu rosto com um martelo.
― Um médico? ― repetiu após um momento, tentando parecer calmo. ― Um médico?
― Eu achei...
― Você acha que eu tenho um problema de saúde?
― Não! Eu só quis dizer... ― Francesca corou. ― Talvez haja algo que eles possam dar a você.
― Uma pílula "antigay"? ― Ele não conseguia controlar a própria voz. Quem era essa mulher com quem tinha se casado? Quem era ela? ― Você está falando sério?
― É apenas uma ideia!
Por alguns segundos, Rupert permaneceu em silêncio.
Então, passou por ela, foi em direção ao hall e pegou uma jaqueta.
― Rupert! ― chamou Francesca. ― Aonde você vai?
― Preciso sair daqui.
― Mas vai para onde? ― gritou ela. ― Aonde você vai?
Rupert olhou para o próprio reflexo no espelho do hall.
― Vou procurar Allan.