Louca para Casar

Sophie Kinsella · Capítulo 15 de 19

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Louca para Casar

Capítulo Quatorze

 

 

Harry estava encostado no balcão com um copo de cerveja na mão quando James chegou ao Pear and Goose, um pequeno bar no centro de Bath, repleto de turistas alegres e anônimos.

― É um prazer vê-lo, James ― disse ele, levantando-se para cumprimentá-lo. ― Vou pedir uma cerveja para você.

― Obrigado ― respondeu o recém-chegado. Em silêncio, ambos observaram o garçom encher o copo, e James se deu conta de que aquela era a primeira vez que os dois se encontravam sozinhos.

― Saúde ― disse Harry, erguendo o copo.

― Saúde.

― Vamos nos sentar ― sugeriu. Harry, apontando para uma mesa no canto. ― Ali é mais reservado.

― Certo. ― James pigarreou. ― Suponho que você queira discutir os aspectos práticos do casamento.

— Por quê? — perguntou Harry, surpreso. — Há algum problema? Pensei que meus funcionários estivessem resolvendo tudo com Olivia.

— Eu me refiro ao aspecto financeiro — explicou James em tom formal. — A revelação de Milly custou uma pequena fortuna.

Harry fez um movimento com a mão.

— Isso não é importante.

— É importante — insistiu James. — Acho que não tem meios de ressarci-lo totalmente. Mas se pudermos chegar a um acordo...

— James — interrompeu Harry. — Não pedi que você viesse aqui para falar de dinheiro. Achei que você gostaria de tomar uma bebida. Certo?

— Ah, claro — assentiu James, espantado.

— Então, vamos nos sentar e tomar uma bebida.

Eles se dirigiram para uma mesa no canto do bar. Harry abriu um pacote de salgadinhos e ofereceu a James.

— Como está Milly? — perguntou. — Ela está bem?

— Honestamente, não sei. Ela está na casa da madrinha. E Simon?

— Garoto idiota — disse Harry, mastigando o salgadinho. — Hoje cedo eu disse a ele que era uma criança chata e mimada. — James não soube o que dizer. — No primeiro sinal de problema, ele foge. Na primeira dificuldade, desiste. Não é de admirar que tenha fracassado nos negócios.

— Você não está sendo um pouco severo? — questionou James. — Ele sofreu um enorme choque. Todos nós. Se está sendo difícil para nós, imagine o que ele deve estar sentindo.

— Então vocês realmente não sabiam que ela era casada — perguntou Harry.

— De jeito nenhum.

— Ela mentiu para todos vocês.

— Para todos nós — disse James em tom sóbrio. Quando ergueu os olhos, percebeu que Harry estava rindo. — Você acha engraçado?

— Ah, vamos lá, você tem que admirar a ousadia dessa garota! É preciso muita coragem para decidir se casar, sabendo que tem um marido por aí prestes a estragar tudo.

— Essa é uma forma de ver as coisas.

— Mas não a sua.

— Não. Acho que a negligência de Milly causou muitos problemas e sofrimento a muita gente. Francamente, me envergonho de pensar que ela é minha filha.

— Não seja tão severo!

— Então não seja tão severo com Simon! Não se esqueça de que ele é inocente nessa história. Ele é que foi prejudicado.

— Simon é um ditador arbitrário e moralista. Para ele, a vida tem que seguir um determinado rumo, sem desvios. — Harry tomou um gole de cerveja. — As coisas sempre foram muito fáceis para ele, esse é o problema.

— Sabe de uma coisa, eu diria exatamente o contrário. Não deve ser nada fácil viver à sua sombra. Não sei se eu seria capaz.

Harry deu de ombros. Durante um momento, os dois ficaram calados. Harry tomou um grande gole de cerveja e, em seguida, olhou para James.

— E Isobel? — perguntou, casualmente. — Como ela reagiu a tudo isso?

— Como sempre. Praticamente não emitiu opinião. — James esvaziou o copo. — A pobrezinha já tem os próprios problemas.

— Problemas no trabalho? — Harry inclinou-se para a frente, curioso.

— Não é só trabalho.

— Algo mais, então? Ela está envolvida em alguma encrenca?

James deu um sorriso tremulo.

— Você acertou em cheio.

— Como assim?

James fitou seu copo vazio. — Não acho que seja um grande segredo — disse, depois de pensar por um momento. Olhou para Harry, que estava com a testa franzida, e declarou: — Ela está grávida.

— Grávida? — Uma expressão de choque tomou conta do rosto de Harry. — Isobel está grávida?

— Pois é. Nem eu consigo acreditar.

— Você tem certeza? — perguntou Harry, segurando o copo com força. — Não pode ser um engano?

James sorriu, comovido com o interesse de Harry.

— Não se preocupe. Ela vai ficar bem.

— Ela conversou com você sobre isso?

— Ela está sendo bem discreta. Nós nem sabemos que é o pai.

— Ah. — Harry bebeu toda a cerveja do copo.

— Tudo o que podemos fazer é apoiá-la, seja qual for a decisão que ela venha a tomar.

— Decisão? — Harry ergueu os olhos.

— Se vai ter o bebê ou... não. — James desviou o olhar. Harry assumiu uma expressão estranha.

— Entendi. Naturalmente seria uma opção. — Ele fechou os olhos. — Como sou estúpido.

— Como assim?

— Nada — respondeu Harry, abrindo os olhos novamente. — Nada.

— Enfim, você não tem que se preocupar com isso. — Ele olhou para o copo vazio de Harry. — Vou pagar uma cerveja para você.

— Não — disse Harry — , é por minha conta.

— Mas você já.

— Por favor, James — insistiu Harry. James percebeu que ele parecia repentinamente abatido, quase triste. — Por favor, James. Deixe-me fazer isso.

ISOBEL CAMINHARA ATÉ UM jardim sensorial. Estava sentada em um banco de ferro, observando a fonte no pequeno lago, tentando pensar com clareza. Como em um filme que se repete continuamente, ela via a expressão de Harry quando se encontraram na igreja e ouvia a voz dele várias vezes.

Acreditava que isso atenuaria sua dor, a deixaria anestesiada e livre para analisar a situação de maneira lógica. Mas a dor não seria atenuada; sua mente não iria se acalmar. Sentia-se fisicamente arrasada.

Eles haviam se conhecido há apenas alguns meses, na festa de noivado de Milly e Simon. Ao se cumprimentarem com um aperto de mãos, perceberam, surpresos, uma identificação instantânea; suas vozes vacilaram e, como se fossem imagens refletidas em um espelho, viraram-se rapidamente para falar com outras pessoas. Mas o olhar de Harry, a seguiu durante todo o tempo, e todo seu corpo correspondia aquela atenção. Na semana seguinte, saíram para jantar. Depois, foram secretamente para a casa dele. Pela manhã, da janela do quarto, ela viu Milly se despedindo de Simon na entrada da casa. Um mês depois, foram a Paris em voos diferentes. Cada encontro tinha sido especial; uma experiência única, fugaz e secreta. Decidiram que não contariam nada a ninguém; manteriam um relacionamento casual e superficial. Apenas dois adultos se divertindo, nada mais.

Mas agora nada poderia ser superficial, nada poderia ser casual. Não havia mais falta de comprometimento. Qualquer que fosse sua decisão, estaria empreendendo uma ação com enormes consequências. Um minúsculo e despercebido evento bio1ógico determinou que, qualquer que fosse a opção, suas vidas jamais voltariam a ser as mesmas.

Harry não queria filhos. Ele deixara isso perfeitamente claro. Se ela fosse em frente e tivesse o bebê, faria isso por conta própria. E perderia Harry. Perderia sua liberdade. Seria forçada a contar com a ajuda da mãe. A vida se resumiria a um ciclo insuportável de trabalho extenuante, lanches para arrecadar dinheiro para caridade e choro irritante de bebê.

Se, por outro lado, ela não tivesse o bebê...

Uma dor prolongada atingiu o peito de Isobel. A quem ela tentava enganar? Quais eram as opções? Havia apenas uma. Toda mulher moderna possui uma. Mas a verdade é que ela não tinha escolha. Fora dominada por si mesma, pelas emoções maternas que nunca soube que possuía, pelo pequeno ser crescendo dentro dela, pelo desejo primordial e dominante de vida.

RUPERT SE SENTOU EM um banco na National Portrait Gallery, fitando um quadro de Filipe II da Espanha. Martin se despedira há cerca de duas horas, apertando sua mão e encorajando-o a telefonar sempre que quisesse. Desde então, Rupert tinha vagado sem direção, sem se dar conta quantidade de turistas e transeuntes que esbarravam nele. Estava alheio a tudo, exceto aos próprios pensamentos. De vez em quando, parava em um telefone público e tentava ligar para Milly. Mas a linha estava sempre ocupada, o que, no fundo, o deixava aliviado. Não queria compartilhar a morte de Allan com ninguém. Pelo menos por enquanto.

A carta permanecia fechada em sua pasta. Não se atrevera a lê-la. Temia que ela não correspondesse as suas expectativas ou que, ao contrário, correspondesse. Mas agora, sob o olhar sério e inflexível de Filipe, ele tateou o fecho da pasta e tirou o envelope de dentro dela. Ao ver novamente seu nome escrito na caligrafia de Allan, sentiu uma pontada de tristeza. Essa seria a última comunicação que existiria entre eles. Uma parte dele quis enterrar a carta sem abri-la, guardar as últimas palavras de Allan intactas e imaculadas. Porém, mesmo com essa ideia em mente, suas mãos trêmulas rasgaram o papel, e ele arrancou do envelope as grossas folhas cor de creme preenchidas com letras pretas.

Querido Rupert,

“Não tema. Não tema”: disse o anjo. Não estou escrevendo para que se sinta mal. Pelo menos não conscientemente. Não muito.

Na realidade, não sei por que estou escrevendo. Será que algum dia você vai ler esta carta? Provavelmente não. Provavelmente se esqueceu de mim; está casado, feliz e é pai de trigêmeos. De vez em quando fantasio que a qualquer momento você surgirá na porta e me arrebatará em seus braços, enquanto os outros pacientes terminais irão comemorar e bater suas bengalas no chão. Na verdade, esta carta provavelmente terminará como tantas outras que já fizeram parte significativa da estrutura do mundo: em um caminhão de lixo, para ser transformada em alguma outra coisa. Eu gosto dessa ideia. Allan se desfazendo. Com mais otimismo e uma dose de amargura.

Contudo, continuo escrevendo, como se eu tivesse certeza de que um dia você voltaria novamente para mim e leria estas palavras. Talvez você venha a fazer isso, talvez não. Será que minha mente confusa entendeu tudo errado? Será que eu elevei o que tínhamos a um nível que não era o real? As proporções de minha vida foram reduzidas tão drasticamente que reconheço que minha visão dos acontecimentos ficou um tanto distorcida. E ainda assim — apesar de tudo continuo escrevendo. A verdade, Rupert, e que eu não consigo deixar este país, que dirá este mundo, sem deixar registrado um adeus a você em algum lugar.

Quando fecho os olhos e penso em você, eu o vejo como era em Oxford, embora você deva ter mudado desde então. Cinco anos depois, quem é Rupert? Tenho as minhas próprias ideias mas não estou disposto a revelá-las. Não quero ser o babaca que achava que o conhecia melhor do que você mesmo. Esse foi o meu erro em Oxford. Confundi raiva com discernimento. Acreditei que meus próprios desejos fossem os seus. Que direito eu tinha de ficar zangado com você? A vida é muito mais complicada do que nos percebíamos naquela época.

O que espero é que você esteja feliz. O que temo é que, se estiver lendo esta carta, talvez não esteja. As pessoas felizes não buscam o passado a procura de respostas. Qual é a resposta? Não sei. Possivelmente teríamos sido felizes se tivéssemos ficado juntos. Possivelmente nossa vida teria sido agradável. Mas não se pode estar certo disso.

Nosso relacionamento deve ter chegado ao seu melhor momento. E aí terminamos. Mas pelo menos um de nós teve escolha, embora não tenha sido eu. Se tivéssemos continuado juntos, nenhum de nós teria tido escolha. Terminar e uma coisa; morrer e algo bem diferente. Francamente, não sei se conseguiria enfrentar as duas coisas ao mesmo tempo. De qualquer forma, vou levar bastante tempo para lidar com a minha morte.

Mas prometi a mim mesmo que não falaria sobre isso. Esta carta não trata disso. Não é uma carta de culpa. É uma carta de amor, apenas isso. Ainda amo você, Rupert. Ainda sinto sua falta. Isso é tudo que eu realmente queria dizer. Ainda amo você. Ainda sinto sua falta. Se não o vir novamente, então... Acho que a vida é assim mesmo. Mas de qualquer maneira espero vê-lo um dia.

Sempre seu,

Allan.

Algum tempo depois, uma jovem professora rodeada de crianças animadas chegou à porta da galeria. Haviam planejado passar a tarde fazendo o esboço do retrato de Elizabeth I, mas ao ver o homem sentado, ela prontamente afastou as crianças e as guiou em direção a outro quadro.

Rupert, perdido em lágrimas silenciosas, nem se deu conta do que havia acontecido.

HARRY VOLTOU PARA CASA naquela tarde e viu o carro de Simon estacionado em seu lugar habitual, do lado de fora da propriedade. Ele foi direto para o quarto do filho e bateu na porta. Como não houve resposta, ele a abriu ligeiramente. A primeira coisa que viu foi o fraque ainda pendurado na porta do armário; no cesto de papéis, um convite do casamento. Harry estremeceu e fechou a porta. Então, parou por um momento. Em seguida, desceu as escadas e atravessou o corredor até a área de lazer.

A piscina brilhava com a iluminação subaquática, a música tocava baixinho, mas ninguém estava nadando. Na outra extremidade, a porta da sauna estava embaçada. Imediatamente, Harry se aproximou e a abriu. Simon ergueu o rosto vermelho e surpreso.

— Pai? — disse ele, semicerrando os olhos em meio ao vapor denso. — O

que...

— Preciso falar com você — disse Harry, sentando-se no banco de plástico diante de Simon. — Preciso pedir desculpas.

— Pedir desculpas? — repetiu o filho, incrédulo.

— Não devia ter gritado com você esta manhã. Desculpe.

— Ah — disse Simon, desviando o olhar. — Bem. Não tem problema.

— Tem, sim. Você sofreu um terrível choque. Eu deveria ter entendido. Afinal, sou seu pai.

— Eu sei — disse Simon, imóvel. Harry o fitou por um momento.

— Você gostaria que eu não fosse?

Simon não respondeu.

— Eu não o culparia — continuou Harry. — Fui uma porcaria de pai.

Simon mudou de posição, constrangido.

— Você...

— Não precisa ser gentil — interrompeu Harry. — Sei que falhei. Durante 16 anos, você não teve notícias minhas. Aí, de repente, bum! Estou todo o tempo incomodando você. Não é de admirar que as coisas tenham sido um tanto complicadas. Se fossemos um casal, a esta altura estaríamos divorciados. Desculpe — acrescentou, após uma pausa. — Toquei em um assunto delicado.

— Tudo bem. — Simon se virou e esboçou um sorriso. Então, pela primeira vez, observou a aparência do pai. — Pai, você sabe que deveria ter tirado a roupa?

— Se eu fosse fazer sauna. Mas entrei aqui para conversar. — Ele franziu o cenho. — Tudo bem, eu fiz a minha parte. Agora você deve me dizer que fui um pai maravilhoso e que posso ficar tranquilo.

Houve um longo silencio.

— Eu só queria... — começou Simon, mas logo parou de falar.

— O quê?

— Eu só queria não me sentir sempre um fracassado — continuou ele em um ímpeto. — Tudo que faço dá errado. E você... Quando tinha a minha idade, já era milionário!

— Não, de jeito nenhum.

— É o que diz sua biografia...

— Aquela merda. Simon, quando eu tinha a sua idade eu devia um milhão. Por sorte, encontrei um modo de pagar.

— E eu nem isso — disse Simon com amargura. — Pedi falência.

— Qual é o problema? — perguntou Harry. — E daí que pediu falência? Pelo menos nunca se vendeu. Nunca veio chorando me pedir ajuda. Em vez disso, continuou independente. Ferozmente independente. Tenho orgulho de você por isso. — Ele fez uma pausa. — Estou orgulhoso de você até por ter devolvido as chaves daquele apartamento. Enfurecido, mas orgulhoso.

Houve uma longa pausa, acentuada apenas pela respiração dos dois em meio ao vapor da sauna e ao borrifo irregular de gotas quentes caindo no chão.

— Se, em vez de terminar o noivado, você tentasse se acertar com a Milly — prosseguiu Harry — , eu ficaria mais orgulhoso ainda. Porque isso é algo que eu nunca fiz. E devia ter feito.

O silêncio era palpável. Harry reclinou-se, esticou as pernas e estremeceu.

— Tenho que admitir — disse ele — que essa experiência não é nada agradável. Minha cueca esta grudando na pele.

— Eu avisei.

— Eu sei. — Harry olhou para o filho através da nuvem de vapor. — Então, vai dar uma chance a Milly?

Simon expirou profundamente.

— Claro. Se ela me der uma chance. Não sei o que passou pela minha cabeça na noite passada. Fui estúpido. Fui injusto... — Ele não terminou a frase. — Tentei telefonar para ela esta tarde.

— E?

— Ela deve ter saído com Esme.

— Esme? — disse Harry.

— A madrinha dela, Esme Ormerod.

Harry arqueou as sobrancelhas.

— Ela é madrinha de Milly? Esme Ormerod?

— Sim — respondeu Simon. — Por quê?

Harry fez uma careta.

— Ela é uma mulher esquisita.

— Eu não sabia que você a conhecia.

— Levei-a para jantar algumas vezes. Grande erro.

— Por quê?

— Não importa. Foi há muito tempo. — Ele se reclinou e fechou os olhos. — Então, ela é madrinha de Milly. Isso me surpreende.

— Ela é prima em algum grau ou algo assim.

— E parecia uma família tão bacana... — observou Harry em tom de gracejo. Em seguida, sua expressão se fechou. — Estou falando sério. Eles formam uma família bacana. Milly é uma moça encantadora. James parece ser um cara honesto. Eu gostaria de me tornar mais próximo dele. E Olivia... — Ele abriu os olhos. — Bem, o que posso dizer? Ela é uma mulher simpática.

— Concordo. — Simon sorriu.

— Eu só não gostaria de encontrá-la sozinho em uma noite escura.

— Ou em qualquer noite.

Uma gota d'água caiu na cabeça de Harry e ele estremeceu.

— O único membro da família que eu não conheço muito bem — comentou Simon, pensativo — é Isobel. Ela é um enigma. Nunca sei o que está pensando.

— Tem razão. Nem eu.

— Ela é totalmente diferente da Milly. Mas mesmo assim eu gosto dela. — Eu também — murmurou Harry. — Eu gosto muito dela. — Ele fitou o chão em silêncio durante um momento e então se levantou abruptamente. — Chega deste inferno. Vou tomar uma chuveirada.

— Dessa vez experimente tirar a roupa.

— Ah, pode deixar. Bem lembrado. — E fez um gesto de cabeça amistoso antes de fechar a porta.

JÁ ESTAVA ANOITECENDO QUANDO Rupert se levantou, endireitou o corpo, guardou a carta de Allan e saiu da galeria. Ele parou na Trafalgar Square por um momento e observou alguns turistas, táxis e pombos. Logo depois, começou a andar vagarosamente em direção ao metrô. Cada passo era inseguro e trêmulo, como se ele tivesse perdido uma parte vital do próprio corpo cuja função era mantê-lo equilibrado.

Sabia que havia perdido a única certeza que tivera na vida. Ficou sem chão. Sentia que tudo o que fizera nos últimos dez anos tinha sido parte de uma batalha interna contra Allan. Agora a batalha estava encerrada, e não havia vencedor.

Durante a viagem de trem de volta a Fulham, Rupert permaneceu com olhar vazio, fitando seu reflexo no vidro escuro e perguntando-se, com uma curiosidade quase especulativa, o que deveria fazer. Sentia-se cansado, abatido, desolado, como se uma tempestade o houvesse lançado em uma praia desconhecida, sem um caminho seguro de volta. De um lado, havia sua esposa, sua casa e sua antiga vida, além dos compromissos que ele passara a encarar como rotineiros. Não era exatamente felicidade, mas também não chegava a ser sofrimento. Do outro lado, havia a verdade, nua, crua e dolorosa. E todas as suas consequências.

Rupert passou a mão no rosto cansado e voltou a olhar o próprio reflexo embaçado e desfocado na janela do trem. Ele não queria a verdade, também não queria a mentira. Queria não ser nada, apenas uma pessoa em um trem, sem precisar tomar decisões, sem nada para fazer a não ser escutar o barulho das rodas sobre os trilhos e observar os rostos despreocupados de outros passageiros lendo livros e revistas. Queria adiar a vida o máximo possível.

Finalmente, o trem chegou à estação. Como um robô, ele pegou sua pasta, levantou-se e se dirigiu para a plataforma. Seguiu os outros passageiros pelos degraus, na noite escura de inverno. Um enorme grupo de pedestres desceu a rua principal, diminuindo gradativamente à medida que as pessoas entravam em ruas secundarias. Rupert as acompanhou, reduzindo a velocidade quando se aproximou da rua em que morava. Ao chegar à esquina, ele parou e, por um momento, pensou em dar meia-volta. Mas para onde iria? Não havia outro lugar para ir.

As luzes de casa estavam apagadas, e ele se sentiu aliviado ao abrir o portão. Tomaria um banho e beberia alguma coisa. Quando Francesca chegasse, sua mente estaria mais clara. Talvez mostrasse a carta de Allan. Ou talvez não. Ele pegou a chave no bolso e tentou enfiá-la na fechadura, parando logo em seguida. A chave não serviu. Ele a retirou, inspecionou e tentou novamente. Havia algum tipo de obstrução. Ao olhar mais de perto, pode ver os sinais do trabalho feito no orifício. Francesca havia trocado a fechadura. Deixara-o do lado de fora.

Por alguns segundos não conseguiu se mover. Permaneceu fitando a porta, tremendo de raiva e humilhação. Filha da puta, disse com a voz sufocada. Filha da puta. Uma súbita saudade de Allan bateu em seu peito, e ele começou a se afastar da porta com os olhos marejados de lágrimas.

— Você está bem? — A voz alegre de uma moça veio do outro lado da rua. — Ficou trancado do lado de fora? Se quiser, pode telefonar daqui!

— Obrigado — murmurou Rupert, olhando para a moça.

Ela era jovem e atraente, e parecia disposta a ajudar. Por um momento, teve vontade de apoiar a cabeça no ombro dela e lhe contar tudo. Então, imaginou que Francesca poderia estar observando-o de dentro da casa, e ficou apavorado. Confuso, começou a se afastar rapidamente. Chegou até a esquina e fez sinal para um táxi, sem saber para onde ia.

— Boa noite — disse o motorista quando ele entrou no carro. — Para onde o senhor vai?

— Para... para... — Rupert fechou os olhos, voltou a abri-los e olhou o relógio. — Para a estação de Paddington.

ÀS SEIS HORAS, ALGUÉM tocou a campainha. Isobel abriu a porta e deu de cara com Simon, carregando um enorme buquê.

— Ah, é você — disse ela em tom hostil. — O que você quer?

— Quero falar com a Milly.

— Ela não está.

— Eu sei — retrucou Simon. Isobel percebeu que ele estava ansioso e estranhamente bem-arrumado, como um pretendente dos velhos tempos. A visão quase a fez rir. — Eu queria confirmar o endereço da madrinha dela.

— Você devia ter telefonado — disse Isobel, inflexível. — Teria me poupado de vir até a porta.

— O telefone daqui estava ocupado.

— É mesmo? — indagou ela de modo sarcástico. Em seguida, cruzou os braços e apoiou-se no portal, pronta para puni-lo. — E aí? Já desceu do pedestal?

— Cale a boca e me dê o endereço — ordenou Simon, irritado.

— Não sei se devo. Por acaso Milly quer falar com você?

— Ah, esqueça — disse ele, dando as costas e descendo os degraus. — Eu mesmo a encontrarei.

Isobel fitou-o por alguns segundos, então gritou:

— Walden Street, número 10.

Simon parou e se virou.

— Obrigado.

Isobel deu de ombros.

— Tudo bem. Espero que... — Ela fez uma pausa. — Você sabe.

— Sim. Eu também.

ESME ATENDEU A PORTA usando um longo roupão branco.

— Desculpe incomodá-la. Eu queria falar com a Milly. — disse Simon, constrangido.

Esme observou o rosto dele.

— Ela está dormindo. Bebeu um pouco no almoço. Acho que não vou conseguir acordá-la.

Simon hesitou.

— Bem... você poderia dizer a ela que eu estive aqui? E se puder lhe dar isso... — Ele entregou o buquê a Esme, que olhou para as flores com desdém.

— Pode deixar. Tchau.

— Talvez ela possa me telefonar quando acordar.

— Talvez. Isso é com ela.

— Claro — assentiu Simon, corando ligeiramente. — Bem, obrigado.

— Tchau — disse Esme, e fechou a porta. Ela olhou as flores por um momento. Então, entrou na cozinha e jogou-as na lata de lixo. Depois, subiu as escadas e bateu na porta do quarto.

— Quem era? — perguntou Milly, erguendo os olhos. Ela estava deitada em uma maca de massagem, enquanto a esteticista de Esme passava um óleo facial em seu rosto.

— Um vendedor — respondeu Esme tranquilamente. — Queria vender espanadores.

— Ah, eles aparecem lá em casa também. Sempre na hora errada.

Esme sorriu.

— Gostou da massagem?

— Amei.

— Que bom. — Esme foi até a janela, pensou por um momento e se voltou para Milly novamente. — Sabe de uma coisa? Acho que devíamos viajar — sugeriu. — Eu devia ter pensado nisso antes. Você não quer estar em Bath amanhã não é?

— Não. Mas... Para falar a verdade, não quero estar em lugar nenhum. — A expressão de Milly se tornou triste, e as lágrimas começaram a rolar em seu rosto. — Desculpe — disse ela a esteticista, com a voz embargada.

— Iremos para Gales — propôs Esme. — Conheço um pequeno hotel nas montanhas. Teremos uma vista fabulosa e cordeiro galês todas as noites. Que tal? Milly ficou em silencio. A esteticista removeu delicadamente as lágrimas de seu rosto usando um líquido amarelo de um frasco dourado, gravado em relevo.

— Amanhã será um dia difícil — continuou Esme com delicadeza. — Mas nós vamos superar. E depois... — Ela se aproximou e segurou a mão da afilhada. — Pense nisso, querida, você foi agraciada com uma oportunidade que poucas mulheres têm. Pode começar tudo de novo. Pode refazer a vida do jeito que bem entender.

— Tem razão — assentiu Milly, olhando para o teto. — Do jeito que eu quiser.

— O mundo é todinho seu! E pensar que você estava a ponto de se limitar a ser apenas a Sra. Pinnacle. — Um sinal de desdém se manifestou na voz de Esme. — Querida, você escapou por pouco. Quando se lembrar de tudo isso, vai me agradecer. Pode ter certeza!

— Já sou agradecida — disse Milly, olhando para a madrinha. — Não sei o que teria feito sem você.

— É assim que se fala! — Esme acariciou a mão de Milly. — Agora deite-se e aproveite a limpeza de pele. Vou colocar umas coisas no carro.