Louca para Casar

Sophie Kinsella · Capítulo 19 de 19

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Louca para Casar

Capítulo Dezoito

 

Às nove horas da manhã do dia seguinte, o ar estava fresco e claro. Quando o pequeno carro de Milly parou em frente ao numero 1 da Bertram Street, o carteiro estava prestes a enfiar um maço de cartas na caixa de correio.

— Bom dia! — cumprimentou ele. — Como está a noiva?

— Bem — respondeu Milly, esboçando um sorriso tenso.

Ele entregou-lhe as cartas, e ela procurou a chave no bolso. Seu coração batia rápido de ansiedade e medo e mil frases giravam em sua mente. Por alguns segundos ela fitou a porta brilhante; então enfiou a chave na fechadura.

— Mãe? — chamou ao entrar, a voz mais alta que o normal por causa do nervosismo. — Mãe? — Ela pôs as cartas na estante e tirou o casaco, tentando se acalmar. De repente, sentiu-se tomada por um imenso entusiasmo e abriu um largo sorriso. Estava com vontade de rir, cantar e pular como uma garotinha. — Mãe, adivinha!

Ela abriu a porta da cozinha, sorridente, e levou um susto. Seus pais estavam sentados à mesa, um diante do outro, ambos ainda de roupão, como se estivessem de férias.

— Ah — disse Milly, sem saber ao certo porque estava tão surpresa.

— Milly! — Olivia pousou o jornal na mesa. — Tudo bem?

— Imaginamos que você iria querer passar a noite na casa de Harry — disse James.

— Já tomou café? — perguntou a mãe. — Vou pegar uma xícara. Quer uma torrada?

— Quero. Quer dizer, não. Escutem! — Ela passou a mão pelos cabelos e sorriu. — Tenho boas notícias. Eu e Simon vamos nos casar!

— Ah, querida! — exclamou Olivia. — Isso é maravilhoso!

— Quer dizer que fizeram as pazes? — indagou James. — Fico muito contente em ouvir isso. Ele é um bom sujeito.

— Eu sei. — Um sorriso se estendeu no rosto de Milly. Eu amo Simon. E ele me ama. Tudo voltou ao normal.

— Isso é simplesmente maravilhoso! — Olivia pegou a caneca de café. — Quando estão pensando em realizar o casamento?

— Daqui a duas horas — respondeu Milly, radiante.

— O quê? — gritou Olivia, derrubando a caneca na mesa.

— Milly, você esta falando sério? — perguntou James. — Esta manhã?

— Sim! Esta manhã! Por que não?

— Por que não? — repetiu Olivia, estupefata, aumentando o tom de voz. — Porque não há nada preparado! Porque cancelamos tudo! Sinto muito, querida, mas não há mais festa de casamento!

— Mãe, temos tudo o que é preciso para um casamento: uma noiva e um noivo; uma pessoa para me levar ao altar... — Ela olhou para James. — E outra para usar um chapéu enorme e chorar bastante. Temos até o bolo. Não precisamos de mais nada.

— Mas o cônego Lytton...

— Nós falamos com ele ontem à noite — anunciou Milly.

— Aliás, está tudo arranjado. Portanto, vamos! Vistam-se! Preparem-se!

— Espere! — gritou Olivia assim que Milly saiu pela porta da cozinha. — E quanto ao Simon? Ele não tem padrinho!

— A porta se abriu e Milly apareceu novamente.

— Tem, sim — disse ela. — Ele tem o padrinho mais perfeito.

— É TUDO MUITO fácil — disse Simon, bebendo um gole de café. — Aqui estão as alianças. Quando o vigário pedir, você as entrega. E é isso!

— Certo. — Harry tinha uma expressão séria. Então, pegou as alianças douradas das mãos de Simon e as fitou por um momento, como se tentasse memorizar o formato delas.

— Bem, o vigário pede as alianças e eu as entrego a ele. Eu devo colocálas bem no meio da palma da mão, sobre os dedos, ou o quê?

— Não faço a menor ideia. Faz alguma diferença?

— Não sei! — confessou Harry. — Você é quem tem que saber! Meu

Deus!

— Pai, você não está nervoso, está?

— É claro que não estou nervoso! Agora, ande. Vá engraxar seus sapatos.

— Até logo — disse Simon, sorrindo da porta da cozinha.

— Você está nervoso? — perguntou Isobel, sentada próxima à janela, quando Simon saiu.

— Não — disse Harry. — Talvez um pouquinho. — Ele empurrou a cadeira para trás e foi até a janela. — Isso é ridículo. Eu não deveria ser o padrinho do Simon!

— É claro que deveria. É o desejo dele.

— Ele não tem outra pessoa, é o que você quer dizer. Aí, recorre ao velho

pai.

— Não é isso que estou dizendo — justificou-se Isobel, paciente. — Ele poderia facilmente telefonar para um amigo do trabalho, você sabe disso. Mas ele quer você. Você é a pessoa perfeita para ele. E para mim. — Ela pegou a mão de Harry e, após um momento, ele retribuiu o gesto afagando-a. Ela olhou o relógio e fez uma careta. — Agora eu realmente preciso ir. Mamãe vai ter um troço.

— Nós nos vemos lá, então.

— Tchau — disse Isobel. Ao chegar na porta, ela se virou. — Você deve saber que o padrinho tem um bônus.

— Qual?

— Tem direito a dormir com a dama de honra.

— É mesmo? — indagou Harry, radiante.

— É, consta nos regulamentos. Pergunte ao vigário. Ele lhe dirá.

QUANDO ENTROU NO HALL, Isobel viu Rupert descendo as escadas. Sem perceber que estava sendo observado, ele expressava uma tristeza amorfa, uma angústia dilacerante. Por alguns segundos, ela permaneceu em silêncio. Então, sentindo-se uma voyeur, forçou-se a fazer barulho com os pés e aguardou um momento antes de continuar andando, dando a ele a chance de se recompor antes de vê-la.

— Oi — disse ela. — Estávamos preocupados com você. Dormiu bem?

— Sim, obrigado — respondeu ele, acenando com a cabeça. — Harry foi muito gentil em me acomodar.

— Ah, não foi nada! Foi muita bondade sua vir até aqui contar a Milly sobre... — Seu tom de voz foi se tornando mais baixo até ela finalmente se calar. — Sabia que eles resolveram se casar novamente?

— Não — disse Rupert com um largo sorriso. — Que bom.

Isobel o fitou com compaixão, tentando, de alguma maneira, diminuir sua angústia.

— Sabe, tenho certeza de que Milly ficaria feliz se você fosse à cerimônia. Não vai mais ser um casamento grandioso e elegante. Na verdade, seremos apenas seis pessoas. Mas se você quiser ir, ficaríamos todos muito contentes.

— É muita gentileza. Muita gentileza mesmo. Mas... Acho melhor ir para casa. Se você não se importa.

— Tudo bem. Faça como achar melhor. — Isobel olhou ao redor do hall vazio. — Vou arranjar alguém para levá-lo a estação. Há um expresso para Londres que sai de hora em hora.

— Não vou para Londres. — Uma expressão distante, quase pacífica, iluminou o rosto de Rupert. — Vou para Cornwall.

AS DEZ E MEIA, Olivia estava pronta. Examinou sua imagem no espelho e deu um sorriso satisfeito. Seu tailleur cor-de-rosa vestira perfeitamente, e o chapéu de abas largas, que combinava com a roupa, dava um brilho rosado à sua face. Seu cabelo louro brilhava sob o sol de inverno na medida que ela virava o rosto de um lado para outro para conferir a maquiagem e verificar a presença de algum pelo no colarinho preto aveludado do casaco. Finalmente, apanhou a bolsa, notando, satisfeita, os laços de seda cor-de-rosa feitos a mão, que agora enfeitavam seus sapatos de verniz.

— Você está maravilhosa! — disse James ao entrar.

— E você está muito bonito — elogiou Olivia, observando o fraque do marido. — Muito distinto. O pai da noiva.

— A mãe da noiva. — James sorriu. — E por falar em noiva, onde ela está?

— Ainda se arrumando. Com a ajuda de Isobel.

— Bem, acho melhor descermos e tomarmos uma taça de champanhe antes da cerimônia. Vamos? — Ele estendeu o braço e, após um momento de hesitação, Olivia o aceitou. Quando desciam as escadas, uma voz os fez parar.

— Fiquem assim. Só um segundo. Não olhem para mim.

Eles obedeceram, sorrindo um para o outro, enquanto Alexander registrava o momento com a câmera fotográfica.

— Ótimo — disse ele. — Podem continuar agora. — Quando Olivia passou, ele deu uma piscadela. — Belo chapéu, Olivia. Muito sexy.

— Obrigada, Alexander — agradeceu ela, levemente ruborizada. James apertou seu braço, e o rubor tornou-se ainda mais forte. — Vamos — sugeriu. — Vamos tomar aquele champanhe.

Eles seguiram para a sala de estar. O fogo da lareira crepitava, e havia uma garrafa de champanhe ao lado de algumas taças, que James deixara ali anteriormente. Ele serviu Olivia e ergueu a taça.

— Ao casamento — propôs.

— Ao casamento. — Olivia bebeu um gole e sentou na beirada de uma cadeira, com cuidado para não amassar a saia. — Alguém vai fazer um discurso na recepção?

— Não sei — respondeu James bem — humorado. — E vai haver recepção?

Olivia deu de ombros, como se não soubesse a resposta, e tomou mais um gole do champanhe.

— Quem sabe? Depende de Milly. É o dia dela. — Um lampejo de emoção iluminou seu rosto. — Sou apenas convidada.

James lançou-lhe um olhar cheio de compaixão.

— Isso a incomoda? O fato de não haver o casamento extravagante que você tinha planejado? Os cisnes de gelo, o organista vindo de Genebra e os cinco mil convidados VIPS?

— Não. Não me incomodo. — Ela sorriu. — Eles estão se casando. Isso é o que importa, não é? Eles estão se casando.

— Sim. Isso é o que importa.

Houve uma pausa. Olivia fitou o fogo, enquanto balançava levemente a taça.

— E sabe de uma coisa? — disse ela de repente — Pensando bem, uma cerimônia discreta e íntima é mais original. Casamentos grandiosos podem ser vulgares se o anfitrião não ficar atento. Você não acha?

— Com certeza — respondeu James, sorrindo.

— Alguém poderia ter pensado nisso desde o início! — Um tom de felicidade começou a modular a voz de Olivia. — Afinal de contas, nos não queremos o mundo e toda sua escória no casamento de nossa filha, não é? Queremos uma recepção discreta, exclusiva.

— Bem, será discreta, com certeza. — James esvaziou o conteúdo de sua taça. — Só não posso garantir que será exclusiva.

Ouviu-se um barulho, e ele ergueu os olhos. Isobel estava no batente da porta, usando um vestido longo e esvoaçante de seda rosa-claro. Seu cabelo estava preso em uma trança enfeitada com flores, e seu rosto, ruborizado pela timidez.

— Vim para anunciar a noiva. Ela está pronta.

— Você está linda, querida! — exclamou James.

— Maravilhosa! — confirmou Olivia.

Isobel demonstrou indiferença.

— Estou razoável. Vocês precisam ver a Milly. Ela está descendo as escadas. Alexander está fotografando.

— Querida — disse Olivia bruscamente quando Isobel se virou. — E as flores?

— Que flores?

— As flores de seda que estavam no seu vestido!

— Ah, aquelas — disse Isabel após uma pausa. — Elas... caíram.

— Caíram?

— Sim. Provavelmente você não as prendeu muito bem. — Ela olhou para o rosto perplexo de Olivia e sorriu. — Ah, mãe. As rosas não importam. Venha ver a Milly. Ela é a atração principal.

Eles saíram da sala de estar e olharam para a escada. Usando um vestido de noiva de seda marfim com corte reto e simples, sorrindo timidamente por trás do véu, Milly descia as escadas. O corpete rijo, bordado, delineava seu corpo, as mangas longas eram adornadas com pele na altura dos pulsos. Em seu cabelo brilhava uma tiara de diamantes.

— Milly! — disse Olivia com a voz trêmula. — Você está linda. Uma noiva perfeita. — As lágrimas brotaram de seus olhos e ela tentou disfarçar.

— O que vocês acham? — perguntou Milly, nervosa, olhando para todos. — Está razoável?

— Querida, você está incrível — elogiou James. — Simon Pinnacle pode se considerar um homem de sorte.

— Mal posso acreditar que isso realmente esta acontecendo — confessou Olivia, levando um pequeno lenço aos olhos. — A pequena Milly se casando.

— Como iremos? — perguntou Alexander, tirando uma última foto. — Quero levar o tripé.

— Milly? — James ergueu os olhos. — Você dá as ordens.

— Não sei — disse Milly, um tanto confusa, descendo alguns degraus, a cauda do vestido deslizando atrás dela. — Eu não tinha pensado nisso.

— Vamos andando! — sugeriu Isobel, sorrindo.

— Que é isso, Isobel! — repreendeu Milly. — Ah, meu Deus. O que vamos fazer?

— Se formos em dois carros — disse James para Olivia — , você pode levar Alexander e Isabel, e eu posso ir com Milly...

Ele foi interrompido por um toque da campainha na porta da frente, e todos ergueram os olhos.

— Quem será? — perguntou James. Ele olhou ao redor e resolveu atender. Um homem estava parado nos degraus, com um quepe debaixo do braço. Ele se curvou com uma expressão séria.

— Carros para os Havill — anunciou.

— O quê? — James observou a rua por trás do motorista. — Mas o serviço foi cancelado!

— Não — retrucou o homem.

James se virou para os outros na sala.

— Olivia, você não cancelou os carros?

— Claro que cancelei.

— Não de acordo com as informações que recebi — alegou o homem.

— Não de acordo com as informações que você recebeu — repetiu Olivia, balançando a cabeça, exasperada. — Será que você não se dá conta de que sua informação pode estar errada? Eu falei com uma jovem da sua empresa ainda ontem, e ela me assegurou que tudo seria cancelado. Portanto, sugiro que você volte para o carro e fale com a pessoa que atende o telefone. Com certeza, você vai descobrir...

— Mãe! — interrompeu Milly, aflita. — Mãe! — Ela fez uma careta significativa para Olivia, que imediatamente percebeu o que ela queria dizer.

— Porém — observou ela, empertigada — , por sorte, a situação se modificou mais uma vez.

— Então, vocês vão querer os carros? — indagou o homem.

— Sim — respondeu Olivia, de modo altivo.

— Muito bem, senhora — disse o homem antes de descer os degraus. Quando o motorista alcançou a rua, todos puderam ouvir as palavras "cambada de malucos" que ele pronunciou em tom audível.

— Certo — disse James. — Bem, vocês vão primeiro... e Milly e eu iremos em seguida. Não é esse o protocolo?

— Nos vemos lá. — Isobel sorriu para Milly. — Boa sorte!

Quando desciam os degraus em direção aos carros, Alexander reteve Isobel.

— Sabe, eu gostaria muito de tirar umas fotos suas qualquer dia desses — disse ele. — Você tem uma expressão fantástica.

— Jura? — Isabel arqueou as sobrancelhas. — Ou você diz isso a todas as moças?

— Não — respondeu Alexander. — Só para as deslumbrantes. — Ele olhou para ela. — Estou falando sério.

Isobel o encarou.

— Alexander...

— Não sei se é inoportuno — começou ele, colocando o tripé no ombro — , mas talvez, quando todo este negócio de casamento acabar, nós... pudéssemos sair juntos.

— Você é atrevido! — exclamou Isobel.

— Eu sei. Você aceita?

Isabel começou a rir.

— Estou lisonjeada. E grávida também.

Ele deu de ombros.

— Isso não é problema.

— E... — acrescentou ela, começando a ruborizar — ...Eu vou me casar em breve.

— O quê? — Dez metros a frente deles, Olivia se virou com os olhos brilhantes. — Isobel! É verdade?

Isobel revirou os olhos para Alexander.

— É apenas uma possibilidade, mãe — respondeu ela, aumentando o tom de voz. — Não está nada definido.

— Mas quem é o noivo, querida? Eu o conheço? Sei o nome dele?

Isobel fitou Olivia. Chegou a abrir a boca para falar, mas desistiu e desviou o olhar.

— Ele é... Apresentarei ele depois. Depois do casamento. Vamos esperar. Está bem?

— Como quiser, querida — concordou Olivia. — Ah, estou tão emocionada!

— Que bom! — disse Isabel, esboçando um sorriso.

HARRY E SIMON CHEGARAM à igreja as dez e cinquenta. Eles abriram a porta e observaram, em silêncio, o enorme e vazio espaço decorado. Simon lançou um olhar para o pai e seguiu pelo corredor largo. Seus passos ecoaram no piso.

— Aha! — disse o cônego Lytton, surgindo de uma porta lateral. — O noivo e seu padrinho! Sejam bem-vindos! — Ele se apressou na direção deles, passando pelas fileiras de bancos de mogno vazios, adornados com flores.

— Onde devemos nos sentar? — perguntou Harry, olhando ao redor. — Os melhores lugares estão ocupados.

— Essa é boa — disse o cônego, abrindo um amplo sorriso.

— Os lugares do noivo e do padrinho são os da frente, do lado direito.

— Foi muita gentileza sua concordar em realizar a cerimônia em cima da hora — disse Simon, seguindo-o em direção ao altar da igreja. — E com tão pouca gente. Estamos muito agradecidos.

— A quantidade de pessoas é algo secundário — disse o cônego. — Como diz a Palavra do Senhor: "Quando dois ou três estão reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles." — Ele fez uma pausa. — Com certeza as coletas podem sofrer um pouco com isso... — Ele parou de falar, e Harry pigarreou.

— Eu me encarregarei do complemento — disse ele. — Se o senhor me der um valor estimado.

— É muita gentileza sua — murmurou o cônego Lytton.

— Ah, aí vem a Sra. Blenkins, a organista. Foi muita sorte ela estar livre esta manhã!

Uma senhora usando um casaco marrom se aproximava.

— Não ensaiei nada — declarou ela assim que os alcançou. — Não houve tempo, entende?

— Claro — assentiu Simon. — Nós...

— Pode ser a "Marcha Nupcial"?

— Claro — concordou Simon, olhando para Harry. — Qualquer coisa. Ficamos muito agradecidos.

A mulher se afastou. Em seguida, o cônego Lytton desapareceu, fazendo ruídos com o movimento de seu traje.

Simon se sentou no banco da frente e esticou as pernas.

— Estou apavorado.

— Eu também. — Harry estremeceu. — Esse sacerdote me dá arrepios.

— Será que vou ser um bom marido? — indagou Simon, jogando a cabeça para trás e olhando para o imenso espaço da igreja. — Será que farei Milly feliz?

— Você já a faz feliz — disse Harry. — Apenas não mude nada. Não pense que tem que agir de modo diferente só porque está casado. — Ele encarou o filho. — Você a ama. Isso é o bastante.

Ouviu-se um som no fundo da igreja e Olivia surgiu: uma miragem em rosa reluzente. Ela caminhou em direção ao altar, o salto do sapato martelando o chão.

— Eles chegarão em um minuto — sussurrou.

— Sente-se perto de mim — sugeriu Harry, apontando para o banco. Por um instante, Olivia hesitou, pesarosa.

— Não. Não seria certo. Tenho que me sentar do outro lado. — Ela ergueu o queixo ligeiramente. — Afinal, sou a mãe da noiva.

Ela se sentou e por alguns minutos, fizeram silêncio. De algum lugar, o órgão começou a tocar suavemente. Simon esticou os dedos e os observou. Harry olhou o relógio. Olivia tirou um espelho da bolsa e conferiu a maquiagem.

De repente, ouviu-se outro som vindo da entrada da igreja e todos pularam.

Simon respirou fundo. Tentava se manter calmo, mas seu coração estava disparado, e suas mãos, úmidas.

— Será que devíamos nos levantar? — sussurrou ele para o pai.

— Não sei! — Harry parecia igualmente agitado. — Como é que eu vou saber?

Olivia se virou para a entrada da igreja.

— Eu consigo vê-la daqui! — sussurrou. — Ela chegou!

A música diminuiu até parar por completo. Entreolhando-se de maneira indecisa, os três se levantaram. Houve um silêncio aflito; ninguém parecia respirar.

Então, os familiares acordes da "Marcha Nupcial" preencheram o ambiente. Simon sentiu um nó na garganta. Sem ousar se virar, ele continuou olhando para a frente até sentir Harry puxando seu braço. Quando se voltou, sentiu o coração disparar ao olhar para o corredor da igreja. Milly caminhava em sua direção, conduzida pelo pai, e estava mais bela do que nunca. Os lábios esboçavam um sorriso tímido, seus olhos brilhavam atrás do véu e a pele resplandecia contra o tom claro do vestido.

Ao se aproximar do noivo, Milly parou e hesitou por um instante. Com as mãos trêmulas, ergueu o véu lentamente. Foi quando seus dedos tocaram o colar de perolas de água doce que ela usava. Fez uma pausa segurando uma das pequenas pérolas e, por um momento, seus olhos se tornaram turvos.

Então, ela a soltou, respirou fundo e ergueu os olhos.

— Pronta? — perguntou Simon.

— Sim — respondeu Milly, sorrindo. — Estou pronta.

ERA QUASE MEIO-DIA QUANDO Rupert chegou ao pequeno chalé no rochedo íngreme. Deu uma olhada no relógio ao se aproximar da entrada e concluiu que, a essa altura, Milly já estaria casada. Ela e Simon estariam bebendo champanhe, felizes como nunca.

A porta se abriu antes que ele a alcançasse, e seu pai olhou para fora.

— Olá, meu rapaz — cumprimentou ele, amável. — Estava esperando por você.

— Oi, pai — disse Rupert, pousando a mala no chão para abraçá-lo. Diante da recepção tão amorosa e incondicional do pai, sentiu suas defesas desmoronarem completamente, como se fosse irromper em lágrimas. Mas suas emoções haviam se esgotado; já não chorava mais.

— Entre e tome uma boa xícara de chá — sugeriu o pai, conduzindo-o a uma pequena sala com vista para o mar. Ele fez uma pausa. — Sua esposa telefonou hoje, queria saber se você estava aqui. Ela mandou dizer que sente muito. E que envia seu amor e suas orações.

Rupert permaneceu em silêncio. Sentou-se perto da janela e olhou para o mar azul, infinito. Ocorreu-lhe que se esquecera quase completamente de Francesca.

— Outra mulher também telefonou há alguns dias — falou o pai, da pequena cozinha. Ouviu-se o ruído da louça de barro. — Acho que o nome dela era Milly. Ela conseguiu entrar em contato com você?

Algo como um sorriso iluminou o rosto de Rupert.

— Sim. — Ela conseguiu falar comigo.

— Eu nunca o ouvi falar dela antes. — O pai entrou na sala com um bule de chá. — É uma amiga sua?

— Não exatamente. Ela é... esposa de um amigo meu.

Rupert se reclinou na cadeira e olhou, pela janela, as ondas quebrarem nas rochas lá embaixo.

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