Louca para Casar
Capítulo um
Dez anos depois
O quarto era grande e arejado, com vista para as ruas descoradas de Bath, cobertas por uma camada da neve de janeiro. Fora redecorado há alguns anos de forma tradicional, com papel de parede listrado e algumas peças georgianas, que, no momento, estavam completamente perdidas sob a confusão de roupas brilhantes, CDs, revistas e maquiagem empilhados em cada superfície disponível. Num canto, um belo guarda-roupa de mogno estava quase inteiramente encoberto por uma enorme capa para vestidos feita de algodão branco; sobre a escrivaninha, uma caixa para chapéus e, no chão ao lado da cama, uma mala pela metade, com roupas de verão para uma viagem de lua de mel.
Milly, que subira um pouco mais cedo para terminar de fazer as malas, reclinou-se confortavelmente na cadeira, deu uma olhada no relógio e mordeu um pedaço da maçã do amor. Em seu colo, uma revista de papel brilhante estava aberta na pagina que trazia perguntas das leitoras sobre questões sentimentais. "Cara Anne", começava a primeira carta. "Tenho um segredo que nunca revelei ao meu marido." Milly revirou os olhos. Nem precisava ler o conselho. Era sempre o mesmo: "Fale a verdade. Seja franca." Uma espécie de catecismo secular, a ser decorado e repetido sem reflexão.
Ela passou os olhos pelo segundo problema: "Cara Anne. Ganho muito mais do que meu namorado." Milly mordeu a maçã do amor com desdém. Grande problema! Virou a página, para a seção de decoração e se concentrou em uma variedade de cestos caros para papéis. Ela não havia incluído esse item na lista de presentes de casamento. Talvez ainda houvesse tempo de fazê-lo.
No andar de baixo, alguém tocou a campainha, mas ela não se moveu. Não poderia ser Simon, pelo menos não ainda; devia ser um dos hóspedes. Milly tirou os olhos da revista preguiçosamente e observou ao redor. Aquele quarto era seu há 22 anos, desde que a família Havill se mudara para o número 1 da Bertram Street, e ela implorara, sem êxito, com o desespero de uma menina de 6 anos, para que ele fosse pintado de rosa, estilo Barbie. Desde então, ela estudou fora, foi para a universidade, chegou até a morar um tempo em Londres — e todas às vezes ela retornou; voltou para este quarto. Mas, no sábado, iria partir para nunca mais voltar. Moraria em sua própria casa. Um novo começo. Como uma adulta, legitimamente casada.
— Milly? — A voz de sua mãe interrompeu seus pensamentos, e Milly levou um susto. — Simon chegou!
— O quê? — Milly deu uma olhadela no espelho e estremeceu diante de sua aparência desgrenhada. — Ele não devia chegar agora.
— Posso mandá-lo subir? — A mãe colocou a cabeça na porta e inspecionou o quarto. — Milly! Você devia ter arrumado essa bagunça!
— Não o deixe subir — pediu, olhando para a maçã do amor em sua mão. — Diga a ele que estou provando meu vestido. Diga que eu vou descer num minuto.
Assim que sua mãe desapareceu, Milly rapidamente jogou a maçã do amor na lata de lixo. Fechou a revista, colocou-a no chão, mas achou melhor chutá-la para debaixo da cama. Apressadamente, tirou a legging azul que estava usando e abriu o guarda-roupa. Em um dos lados, uma calça preta bem-cortada estava pendurada junto com uma saia grafite feita sob medida, um terninho cor de chocolate e uma variedade de camisas brancas impecáveis. Do outro lado, encontravam-se todas as roupas que ela usava quando não estava com Simon: jeans rasgados, camisetas velhas, minissaias justas e chamativas. Todas as roupas das quais teria que se desfazer até sábado.
Decidiu vestir a calça preta e uma das camisas brancas, e pegou o suéter de caxemira que Simon lhe dera no Natal. Inspecionou rigorosamente a imagem no espelho, escovou o cabelo — agora louro pálido e na altura dos ombros — até ele brilhar e calçou um caro mocassim preto. Ela e Simon concordavam que comprar sapatos baratos era uma falsa economia; até onde Simon sabia, a coleção inteira de sapatos de Milly compunha-se dos mocassins pretos, um par de botas marrom e o scarpin azul-marinho com fivelas, da Gucci, que ele mesmo comprara.
Com um profundo suspiro, Milly fechou a porta do guarda-roupa, passou por cima de uma pilha de roupas íntimas espalhadas pelo chão e apanhou a bolsa. Em seguida, borrifou perfume, fechou a porta do quarto atrás de si e começou a descer as escadas.
— Milly! — Quando passou pelo quarto de sua mãe, uma voz sibilante chamou sua atenção. — Venha aqui!
Obediente, Milly entrou. Olivia Havill estava ao lado da cômoda, com a caixa de joias aberta.
— Querida — continuou ela alegremente. — Por que você não usa minhas pérolas esta tarde? — sugeriu, erguendo uma gargantilha de pérolas de duas voltas com fecho de diamantes.
— Ficaria linda com aquele suéter!
— Mãe, nós só vamos falar com o vigário — disse Milly. — Não é nada importante. Não preciso usar pérolas.
— É claro que é importante! — retrucou Olivia. — Você devia levar isso a sério, Milly. Só se faz os votos do matrimônio uma vez! — Ela fez uma pausa.
— Além disso, toda noiva da elite usa pérolas. — Ela ergueu o colar até o pescoço da filha. — Pérolas verdadeiras. Não aquelas coisas baratas.
— Eu gosto das minhas pérolas de água doce — disse Milly em tom defensivo. — E não sou da elite.
— Querida, você está a ponto de se tornar a Sra. Simon Pinnacle.
— Simon não é da elite!
— Não seja boba — retrucou Olivia com firmeza. — Claro que é. O pai dele é multimilionário.
Milly revirou os olhos.
— Tenho que ir, mãe.
— Tudo bem. — Com tristeza, Olivia pôs as pérolas de volta na caixa de joias. — Faça como quiser. E, querida, não se esqueça de perguntar ao cônego Lytton sobre as pétalas de rosa.
— Pode deixar — concordou Milly. — Até logo.
Ela desceu as escadas correndo, entrou no hall e pegou seu casaco, que estava pendurado ao lado da porta.
— Oi! — cumprimentou Simon, que se encontrava na sala de estar. Enquanto ele se dirigia até o hall, ela passou os olhos rapidamente na primeira página do Daily Telegraph daquele dia, tentando decorar o máximo de manchetes. — Milly, você está maravilhosa. — Simon sorriu. Milly ergueu os olhos e retribuiu o sorriso.
— Você também. — Simon estava usando roupas de escritório: um terno escuro que assentava impecavelmente em seu corpo firme e musculoso, uma camisa azul e uma gravata de seda roxa. O cabelo escuro caia por sua testa ampla, e ele exalava um discreto perfume de loção pós-barba.
— Então — disse ele, abrindo a porta e conduzindo-a para fora, no ar fresco da tarde. — Vamos aprender como ser casados.
— É — disse Milly. — Não é esquisito?
— Perda de tempo — completou Simon. — O que um vigário velho e decrépito pode nos ensinar a respeito de casamento? Ele nem e casado.
— Bem, suponho que essas sejam as regras.
— Só espero que ele não venha nos dar lição de moral. Isso sim vai me irritar.
Milly observou Simon. Seu pescoço estava retesado e ele olhava fixamente para a frente, com ar de determinação. Parecia um buldogue pronto para a briga.
— Eu sei o que eu quero do casamento — prosseguiu ele, com o semblante fechado. — Nós dois sabemos. Não precisamos da interferência de um estranho qualquer.
— Vamos apenas escutar e concordar em silêncio — propôs Milly. — E depois vamos embora. — Ela tateou o bolso a procura das luvas. — De qualquer maneira, eu já sei o que ele irá dizer.
— O quê?
— "Sejam amáveis um com o outro e não saiam por aí dormindo com outras pessoas."
Simon pensou por um momento.
— Espero que eu consiga seguir esse primeiro conselho.
Milly deu-lhe um tapinha e ele riu, puxando-a para perto de si e beijando seu cabelo brilhante. Quando se aproximaram da esquina, ele enfiou a mão no bolso e acionou o controle do carro.
— Foi dificílimo encontrar uma vaga — disse Simon ao ligar o motor. — As ruas estão tão cheias. — Ele fez uma careta. — Se esse novo projeto de lei realmente for adiante...
— O projeto de lei ambiental — interrompeu Milly de imediato.
— Exatamente. Você leu sobre isso hoje?
— Claro — respondeu ela, lembrando-se rapidamente do Daily Telegraph.
— Você acha que eles estão se concentrando na questão principal?
Quando Simon começou a falar, ela olhou para fora da janela, acenando distraidamente com a cabeça de tempos em tempos enquanto imaginava se deveria comprar um terceiro biquíni para a lua de mel.
A SACRISTIA ERA GRANDE, arejada e cheia de livros, que revestiam as paredes e se equilibravam em pilhas empoeiradas no chão. Além disso, quase tudo que não era livro se parecia com um: o bule de chá tinha motivos literários; o para-fogo era decorado com desenhos de livros; até as fatias do bolo de gengibre na bandeja lembravam os volumes de uma enciclopédia.
O próprio cônego Lytton se assemelhava a uma folha de papel velho; sua pele fina e ressequida parecia prestes a se rasgar a qualquer momento. Sempre que ria ou se tornava mal-humorado, seu rosto se enrugava completamente. No momento, como, alias, fizera durante a maior parte da reunião, ele exibia uma carranca. Suas espessas sobrancelhas brancas estavam juntas, seus olhos mantinham-se semicerrados em sinal de concentração e a mão ossuda, que segurava uma xícara de chá intacta, tremulava perigosamente no ar.
— O segredo de um matrimônio bem-sucedido e a confiança — pregou. Confiança é a palavra-chave. Confiança é a base de tudo.
— Com certeza — assentiu Milly, como tinha feito a cada três minutos na última hora. Ao olhar para Simon, viu que ele se inclinava para a frente, como se pronto para interrompê-lo. Mas o cônego Lytton não era o tipo de interlocutor que tolera interrupções. Todas as vezes que Simon tomava fôlego para dizer algo, o clérigo aumentava o tom de voz e olhava em outra direção, deixando o noivo preso em um silêncio frustrado, porem respeitoso. Ela sabia que Simon gostaria de discordar da maior parte das coisas que o padre dissera. Ela, por sua vez, não tinha escutado uma palavra sequer.
Seu olhar percorria distraidamente as estantes envidraçadas a sua esquerda. Lá estava ela refletida no vidro. Elegante e chique, adulta e bem-arrumada. Sentiu-se satisfeita com sua aparência. Não que o cônego Lytton levasse isso em conta. Ele provavelmente considerava pecado gastar dinheiro com roupas. Diria que o mais certo era doá-lo aos pobres.
Milly mudou ligeiramente de posição, sufocou um bocejo e ergueu os olhos. Para seu espanto, viu que o cônego Lytton a observava. Ele estreitou os olhos ainda mais e interrompeu a frase.
— Desculpe deixá-la entediada, querida — disse ele de forma sarcástica. — Você já deve estar acostumada com esse discurso.
Milly ruborizou.
— Não — retrucou ela. — Eu só estava... — Ela voltou os olhos rapidamente para Simon, que sorriu e deu uma piscadela. — Só estou um pouco cansada — concluiu sem muita convicção.
— A pobrezinha tem andado muito ocupada com os preparativos do casamento — intercedeu Simon. — Há muito que organizar: o champanhe, o bolo...
— De fato — disse o cônego Lytton com uma expressão inflexível. — Mas devo lembrar-lhes de que o ponto crucial de um casamento não é o champanhe, nem o bolo, nem os presentes que vocês certamente receberão. — Os olhos do religioso moveram-se rapidamente em torno da sala, como se ele comparasse seus objetos sombrios com os presentes caros e suntuosos destinados a Milly e Simon, e seu semblante tornou-se mais fechado. — Fico apreensivo — prosseguiu, andando até a janela — com a importância meramente casual que muitos casais jovens dão a celebração do casamento. O sacramento do matrimônio não deve ser visto apenas como uma formalidade a ser cumprida.
— Naturalmente não — assentiu Milly.
— Não é simplesmente o prelúdio de uma grande festa.
— De jeito nenhum — anuiu ela.
— Como as próprias palavras ditas na cerimônia sugerem, o casamento não deve ser assumido de forma superficial, irrefletida ou egoísta, mas...
— E não será! — A voz de Simon se impôs em um tom impaciente; ele se inclinou para a frente. — Eu sei que provavelmente o senhor se depara todos os dias com pessoas que se casam pelos motivos errados. Mas esse não é o caso, nós nos amamos e queremos passar o resto da vida juntos. E para nós, isso é um assunto sério. O bolo e o champanhe não têm nada a ver com isso.
Ele parou de falar e, por um instante, todos ficaram em silêncio. Milly tomou a mão de Simon e apertou-a.
— Entendo — disse o cônego Lytton após um momento. — Bem, fico contente de ouvir isso. — Ele se sentou, tomou um gole do chá frio e estremeceu. — Não é minha intenção fazer um sermão desnecessariamente — disse, pousando a xícara. — Mas vocês não imaginam quantos casais despreparados me procuram querendo se casar. Jovens imprudentes, sem juízo, que mal se conhecem; moças fúteis que querem uma desculpa para comprar um vestido bonito...
— Eu sei disso — concordou Simon. — Mas nosso relacionamento é para valer. Estamos levando isso a sério, fazendo a coisa certa. Nos conhecemos profundamente, nos amamos e vamos ser muito felizes. — Ele se debruçou, beijou Milly com suavidade e olhou para o cônego, como se o desafiasse a questionar.
— Ótimo — disse o religioso. — Bem. Acho que já falei o bastante. Vocês realmente parecem estar no caminho certo. — Ele apanhou sua pasta e começou a vasculhar dentro dela. — Há somente alguns assuntos...
— Isso foi lindo — sussurrou Milly a Simon.
— É verdade — sussurrou ele em resposta, tocando delicadamente o canto da boca da noiva.
— Ah, sim — recomeçou o cônego Lytton. — Eu já devia ter mencionado isso. Como vocês devem estar sabendo, o reverendo Harries não leu os proclamas do casamento domingo passado.
— É mesmo? — indagou Simon.
— Você deve ter notado — disse o cônego, olhando de forma maliciosa para Simon. — Imagino que esteve presente na missa matinal?
— Ah, sim — respondeu Simon após uma pausa. — Claro. Agora que o senhor mencionou, eu realmente percebi que havia alguma coisa errada.
— Ele lamentou muito; os reverendos sempre fazem isso. — O cônego Lytton deu um suspiro de desagrado. — Mas o dano já foi feito. Portanto, vocês terão que se casar com uma licença especial.
— Oh — disse Milly. — O que isso significa?
— Significa, entre outras coisas, que eu devo pedir que vocês façam um juramento.
— Cacete — praguejou Milly.
— Algum problema? — Ele a olhou perplexo.
— Não, nada — corrigiu-se Milly. — Prossiga, por favor.
— Vocês devem jurar solenemente que toda a informação que me deram é verdadeira — disse o cônego. Ele entregou a Bíblia a Milly e, em seguida, um pedaço de papel. — Basta dar uma olhada. Verifique se está tudo correto e leia o juramento em voz alta.
Milly fitou o papel por alguns segundos, depois ergueu os olhos com um sorriso radiante.
— Tudo certo — confirmou ela.
— Melissa Grace Havill — disse Simon, lendo por cima do ombro da noiva. — Solteira. — Ele fez uma careta. — Solteira!
— Ok — disse Milly bruscamente — , deixe-me ler o juramento.
— Está certo — concordou o padre, sorrindo. — Assim, como dizem, tudo fica nos conformes.
QUANDO SAIRAM DA SACRISTIA, o dia estava frio e escuro. Flocos de neve caíam novamente; as luzes da rua já estavam acesas; uma fileira de delicadas luzes de Natal piscava numa janela logo em frente. Milly respirou fundo, mexeu as pernas rijas por terem permanecido imóveis por muito tempo, e olhou para Simon. Mas, antes que pudesse falar, uma voz triunfante veio do outro lado da rua.
— Ah-ah Peguei vocês!
— Mãe! — exclamou Milly.
— Olivia — disse Simon. — Que surpresa encantadora!
Olivia atravessou a rua sorrindo. Os flocos de neve pousavam no cabelo louro bem-cortado e nos ombros do casaco de caxemira verde. A maior parte de suas roupas tinha cores com nomes de joias — azul-safira, vermelho-rubi, roxa-ametista — e era adornada com fivelas douradas brilhantes e botões reluzentes, além dos sapatos com enfeites dourados. Uma vez, chegara a cogitar a ideia de usar lentes de contato com matizes turquesa, mas acabou desistindo por achar que poderia se tornar alvo de risinhos sarcásticos. Então, em vez disso, resolveu tirar proveito do tom natural de seus olhos azuis, usando sombra dourada e tingindo os cílios de preto no salão uma vez por mês.
Ela lançou um olhar afetuoso para a filha.
— Acho que você não falou com o cônego Lytton sobre as pétalas de rosa, não é? — indagou.
— Ah, não! — disse Milly. — Esqueci.
— Eu sabia! — exclamou Olivia. — Por isso achei melhor vir até aqui. — Ela sorriu para Simon. — Como é distraída a minha menina, não é?
— Eu não diria isso — retrucou Simon em tom firme.
— Claro que não! Você esta apaixonado por ela! — justificou Olivia, sorrindo e afagando os cabelos dele. De salto alto, ela ficava ligeiramente mais alta do que Simon e, apesar de ninguém mais ter se dado conta disso, ele percebera, que desde o noivado, Olivia vinha usando saltos altos com mais frequência.
— Eu tenho que ir disse Simon. — Preciso voltar para o escritório. Estamos com muito trabalho no momento.
— Nós todos! — exclamou Olivia. — Faltam só quatro dias, você sabe! Quatro dias para o casamento! E eu tenho mil coisas a fazer! — Ela olhou para Milly. — E você, querida? Esta com pressa também?
— Não — respondeu Milly. — Tirei à tarde de folga.
— Então, que tal voltar para a cidade a pé comigo? Poderíamos tomar...
— Um chocolate quente no Mario's — completou Milly.
— Exatamente. — Olivia sorriu novamente. — Sou capaz de ler os pensamentos de Milly como se fossem um livro aberto!
— Ou uma carta aberta — disse Simon. Houve um breve e tenso momento de silencio.
— Bem — disse Olivia com a voz entrecortada. — Eu tenho que ir. Vejo você à noite, Simon. — Ela abriu o portão e se afastou rapidamente, pisando em falso na neve escorregadia.
— Você não devia ter dito aquilo — advertiu Milly assim que ela se afastou. — Sobre a carta. Ela me fez prometer que eu não contaria a você.
— Desculpe, mas sua mãe mereceu. Por que ela acha que tem o direito de ler uma carta que eu escrevi para você?
Milly deu de ombros.
— Ela disse que foi sem querer.
— Sem querer! — Simon parecia indignado. — Você deve estar brincando. A carta foi endereçada a você e estava no seu quarto!
— Bem — começou Milly, tentando justificar o deslize cometido pela mãe. — Realmente não importa. — Ela deu uma risadinha. — Ainda bem que você não escreveu nada grosseiro sobre ela.
— Da próxima vez vou fazer isso. — Simon checou o relógio. — Desculpe, eu realmente preciso ir.
Ele pegou a mão fria da noiva, beijou seus dedos suavemente e puxou-a para junto de si. Milly fechou os olhos ao sentir os lábios quentes e macios tocarem os seus. Então, repentinamente ele se afastou, e uma rajada de ar frio bateu no rosto dela.
— Eu tenho que ir. Até logo.
— Tudo bem — assentiu Milly. — Nos vemos mais tarde.
Sorrindo consigo mesma, ela observou o noivo acionar o controle do carro, entrar no veículo e subir rapidamente a rua. Simon estava sempre com pressa. Sempre correndo para fazer algo, para concretizar alguma coisa. Ele precisava sair todo dia, como um cãozinho, fosse para fazer algo construtivo ou para se divertir. Não admitia perder tempo, não entendia como Milly era capaz de passar um dia inteiro sem fazer nada, ou não ter planos para o fim de semana. Às vezes, juntava-se a ela em um dia de ócio, repetindo varias vezes que era bom ter a oportunidade de relaxar. Porém, após algumas horas, levantava-se num ímpeto, dizendo que iria dar uma corrida.
Na primeira vez que o vira, na cozinha da casa de um conhecido, ele estava falando ao celular, comendo batata frita e lendo as manchetes no jornal, tudo ao mesmo tempo. Quando Milly se serviu de uma taça de vinho, ele ergueu sua própria taça e, em uma pausa na conversa ao telefone, sorriu para ela.
— Obrigado — disse ele.
— A festa é na sala — observou Milly.
— Eu sei — concordou Simon, voltando os olhos ao jornal. — Estarei lá em um minuto. — Milly revirou os olhos e o deixou sozinho, sem nem mesmo se dar ao trabalho de perguntar o nome dele. No entanto, mais tarde, quando se juntou aos outros convidados, ele se aproximou e se apresentou de forma encantadora, desculpando-se poder sido tão indelicado.
— Eram apenas algumas notícias sobre negócios em que eu estava particularmente interessado — justificou.
— Boas ou más notícias? — Milly bebeu um gole de vinho e percebeu que estava bêbada.
— Depende de que lado se está.
— É sempre assim, não é? Notícias boas para uns são ruins para outros. Até... — Ela fez um movimento com a taça no ar. — Até a paz mundial. Má notícia para os fabricantes de armamentos.
— É verdade. Suponho que sim. Nunca pensei nisso por esse ângulo.
— Bem, nem todos são grandes pensadores. — Milly suprimiu o ímpeto de dar uma risada.
— Quer uma bebida?
— Não. Mas você pode me acender um cigarro.
Quando ele se inclinou em sua direção, segurando cuidadosamente o isqueiro aceso, ela notou a pele lisa e bronzeada, a mão firme e o agradável perfume da loção pós-barba. Então, ao dar uma tragada, os olhos castanho-escuros dele pousaram nos seus e, para sua surpresa, ela sentiu um frio na espinha. Abriu um sorriso lentamente.
Mais tarde, quando o bate-papo animado deu lugar a grupos de pessoas sentadas no chão fumando um baseado, o tema da conversa passou a ser vivisseção. Milly, que por acaso tinha visto um especial do programa infantil Blue Peter sobre o assunto na semana anterior, enquanto se recuperava de um resfriado, fez comentários mais concretos e bem-informados do que qualquer outra pessoa, deixando Simon admirado.
Alguns dias depois, ele a convidou para jantar e falou muito sobre negócios e política. Milly, que não sabia nada sobre nenhum dos dois assuntos, limitou-se a sorrir e concordar. No fim da noite, pouco antes de beijá-la pela primeira vez, Simon disse que ela era extremamente perceptiva e compreensiva. Um pouco mais tarde, quando ela tentou confessar que era totalmente ignorante em assuntos de política — na verdade, em quase tudo — , ele a repreendeu por ser modesta.
— Eu observei na festa como você conseguiu destruir os argumentos inconsistentes daquele cara. Você sabia exatamente sobre o que estava falando. Aliás — acrescentou de com olhar profundo — , você estava muito sexy. — E Milly, que estava prestes a confessar sua fonte de informação, em vez disso, aproximou-se para que ele a beijasse novamente.
A impressão inicial de Simon a respeito dela nunca se modificou. Ele ainda afirmava que ela era muito modesta, ainda acreditava que ela gostava das mesmas exposições sofisticadas que ele, ainda perguntava a opinião dela sobre assuntos como a campanha eleitoral para a presidência e ouvia suas respostas com atenção. Ele achava que ela gostava de sushi e que havia lido Sartre. Sem a intenção de enganá-lo, mas também sem querer desapontá-lo, ela lhe permitiu formar uma imagem que, sinceramente, não era de todo verdadeira.
Ela não sabia o que iria acontecer quando começassem a viver juntos. Às vezes, ficava alarmada diante da proporção com que sua personalidade fora distorcida; tinha certeza de que se sentiria exposta, uma fraude, na primeira vez que ele a flagrasse chorando após ter lido um romance barato. De vez em quando, dizia a si mesma que a imagem que ele fazia dela não era de todo inexata. Talvez ela não fosse à mulher sofisticada que ele pensava, mas poderia vir a ser. E seria. Tudo o que precisava era mudar o modo de se vestir; fazer alguns comentários inteligentes ocasionais e permanecer discretamente calada o restante do tempo.
Uma vez, no início do relacionamento, quando estavam deitados na enorme cama de casal na casa dele em Pinnacle Hall, Simon confessou que a achara especial por ela não lhe fazer perguntas sobre seu pai. "A maioria das garotas", disse ele em tom amargo, "só quer saber como é ser o filho de Harry Pinnacle, conseguir uma entrevista de emprego ou algo assim. Mas você... você nunca sequer mencionou o nome dele."
Ele a fitara admirado, e Milly dera-lhe um sorriso meigo, murmurando algo sem sentido. Ela não podia confessar, por nada neste mundo, que nunca mencionara o nome de Harry Pinnacle porque nunca tinha ouvido falar dele.
— ENTÃO, VAMOS JANTAR com Harry Pinnacle esta noite! Acho que vai ser maravilhoso. — A voz da mãe de Milly interrompeu seus pensamentos.
— É — respondeu ela. — Acho que sim.
— Aquele cozinheiro austríaco divino ainda trabalha para ele?
— Não sei. — Milly percebeu que passara a imitar o tom desanimador de Simon sempre que falava sobre Harry Pinnacle. Simon nunca prolongava uma conversa sobre o pai; se as pessoas insistiam, ele mudava de assunto bruscamente ou até se afastava. Esquivara-se da futura sogra várias vezes quando ela o pressionara sobre detalhes e histórias a respeito do pai célebre. Mas ela parecia não perceber isso.
— O mais interessante sobre Harry — disse Olivia pensativa — é que ele é simples. — Ela deu o braço a Milly e elas começaram a descer a rua coberta de neve. — Eu digo a todo mundo: se você o conhecesse, não imaginaria estar diante de um magnata, não se sentiria intimidado por estar diante do fundador de uma rede de estabelecimentos de nível nacional, mas pensaria "que homem encantador". E Simon é igualzinho.
— Simon não é um magnata — corrigiu Milly. — Ele é um simples vendedor de anúncios.
— Ele está longe de ser simples, querida!
— Mãe...
— Sei que você não gosta que eu fique falando isso. Mas a verdade é que Simon vai ser muito rico um dia. — Olivia apertou ligeiramente o braço de Milly. — E você também.
— Talvez. — Milly demonstrou indiferença.
— Não há razão para fingir que isso não vai acontecer. E quando acontecer, sua vida vai mudar.
— Não vai não.
— Os ricos vivem de forma diferente, você sabe muito bem.
— Há um minuto — lembrou Milly — , você estava dizendo o quanto Harry é simples. Ele não vive de forma diferente, vive?
— Isso é muito relativo, querida.
Ao se aproximarem de uma fileira de lojas sofisticadas, elas notaram uma vitrine discretamente iluminada e pararam. Nela, havia um único manequim elegante em seu pesado vestido de veludo branco.
— Este é bonito — murmurou Milly.
— Não tão bonito quanto o seu — retrucou Olivia imediatamente. — Ainda não vi um vestido tão bonito quanto o seu.
— Tem razão. Ele é mesmo muito bonito.
— É perfeito, querida.
Elas se demoraram um pouco diante da vitrine, atraídas pelo brilho róseo da loja: nuvens de seda, cetim e voile forrando todas as paredes, buques e sapatinhos de damas de honra bordados. Olivia suspirou.
— Toda essa preparação para o casamento está sendo divertida, não é? Vou sentir falta quando acabar.
— Hummm.
Houve um momento de silêncio. Como se quisesse mudar de assunto, Olivia perguntou:
— A Isobel está namorando?
Milly teve um sobressalto.
— Mãe! Você não está tentando casar Isobel também.
— Claro que não! Só estou curiosa. Ela nunca me conta nada. Eu perguntei se ela pretendia trazer alguém a recepção...
— E o que ela falou?
— Ela não respondeu — admitiu Olivia com ar triste.
— Então...
— Mas isso não significa nada.
— Mãe — disse Milly. — Se você quer saber se Isobel tem um namorado, por que não pergunta a ela?
— Talvez — assentiu Olivia com a voz distante, como se não estivesse mais interessada. — Talvez eu faça isso.
UMA HORA DEPOIS, elas deixaram o Mario's Coffee House e foram para casa. Quando chegassem lá, a cozinha estaria cheia de hóspedes com os pés inchados de tanto passear. A casa dos Havill, na Bertram Street, era uma das pensões mais populares de Bath. Os turistas adoravam a mansão georgiana bem-mobilíada por sua proximidade como centro da cidade, pelos modos encantadores e falantes de Olivia e pela habilidade dela de transformar cada encontro em uma festa.
O chá era sempre a refeição mais animada na casa; Olivia adorava reunir os hóspedes na mesa para que eles degustassem chá Earl Grey com pão doce.
Ela apresentava uns aos outros, ouvia atenciosamente quando relatavam o que haviam feito durante o dia, recomendava lugares divertidos para a noite e contava fofocas atualizadas de pessoas que eles não conheciam. Se algum hóspede demonstrava a intenção de ir para o quarto carregando uma chaleira elétrica, recebia um olhar de reprovação e torradas frias no café da manhã. Olivia Havill detestava minichaleiras e aqueles pequenos pratos para saquinhos de chá usados; só os fornecia para ter direito as quatro estrelas no Guia de pensões Heritage. Ela também detestava, embora oferecesse, TV a cabo, linguiças vegetarianas e uma prateleira cheia de folhetos sobre parques temáticos locais e atrações para a família — que, ela sempre constatava com satisfação, raramente precisava ser reabastecida.
— Já ia me esquecendo — observou Olivia ao entrarem na Bertram Street. — O fotógrafo chegou quando você estava fora. Um rapaz bem jovem. — Ela começou a vasculhar a bolsa, procurando a chave.
— Pensei que ele só viria amanhã.
— Eu também! — disse Olivia. — Por sorte, morreu alguém da família daqueles australianos simpáticos, senão estaríamos sem um quarto disponível. E por falar em australianos... dá só uma olhada!
Ela pôs a chave na porta e a abriu.
— Flores! — exclamou Milly. Na sala, havia um enorme buquê de flores brancas, amarradas com uma faixa de seda verde-escura. — Para mim? De quem?
— Leia o cartão — sugeriu Olivia. Milly apanhou o buquê e abriu o plástico da embalagem.
— "PARA A QUERIDA MILLY" — ela leu devagar. — "Estamos muito orgulhosos de você e lamentamos não podermos ir ao seu casamento. PENSAREMOS em você. Com todo o nosso amor. Beth, Scott e Adrian." — Milly olhou espantada para Olivia. — Não é gentil da parte deles mandarem isso de Sidney? As pessoas são tão gentis!
— Estão felizes por você, querida — afirmou Olivia. — Todos estão felizes. Vai ser um casamento tão maravilhoso!
— São mesmo lindas — disse uma voz agradável. Era uma hóspede; uma mulher de meia-idade que descia as escadas usando calça azul e tênis. — Flores para a noiva?
— Isso é só o começo — retrucou Olivia, rindo.
— Você é uma garota de sorte — disse a mulher dirigindo-se à Milly.
— Eu sei — disse ela com um largo sorriso. — Vou colocá-las na água.
Ainda segurando as flores, Milly abriu a porta da cozinha e parou, surpresa. Sentado a mesa, havia um jovem de jaqueta jeans surrada. Ele tinha cabelos castanho-escuros, usava óculos de aro redondo de metal e lia o Guardian.
— Oi — cumprimentou ela. — Você deve ser o fotógrafo.
— Oi — respondeu o jovem, fechando as paginas do noticiário. — Você deve ser a Milly. — Quando ele desviou os olhos do jornal e ela viu seu rosto, reconheceu-o imediatamente.
Com certeza já tinha visto aquele rapaz em algum lugar. — Meu nome é Alexander Gilbert — anunciou em tom desprovido de entusiasmo, estendendo a mão. Milly se aproximou e a apertou educadamente.
— Lindas flores — observou, acenando com a cabeça em direção ao buquê.
— Sim, são lindas — concordou Milly, fitando-o com curiosidade. Onde o vira antes? Por que o rosto daquele rapaz parecia gravado na sua memória?
— Mas não é o seu buquê de noiva.
— Não. — Milly curvou a cabeça ligeiramente e inalou o doce perfume das flores. — Estas foram enviadas por uns amigos da Austrália. Foi muito gentil da parte deles, levando-se em conta...
De repente, ela parou de falar e sentiu o coração disparar.
— Levando-se em conta o quê? — perguntou Alexander.
— Nada — respondeu Milly, afastando-se. — Quer dizer... vou levá-las para a sala.
Ela andou em direção à porta, com as mãos suadas segurando o plástico barulhento que embalava as flores. Ela se lembrou de onde o vira antes. Sabia exatamente onde tinha visto aquele rosto. Só de pensar nisso, seu coração pulou e ela cerrou os dentes, forçando-se a se manter calma. "Está tudo bem", disse a si mesma quando alcançou a maçaneta da porta. "Esta tudo bem. Enquanto ele não me reconhecer..."
— Espere. — A voz do rapaz interrompeu seus pensamentos, como se ele pudesse ler sua mente. Prestes a ter uma vertigem, ela se virou e viu que ele a fitava com o cenho franzido. — Espere um minuto — insistiu ele. — Tenho a impressão de que conheço você de algum lugar.