Místico
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Nove
Xotichl
Depois de bater várias vezes na porta da casa de Paloma, sem resposta, Lita e eu damos a volta até a parte de trás, onde a encontramos cuidando de um canteiro de estranhas plantas híbridas que continuam viçosas, não importa a estação.
Levanto o queixo e inspiro profundamente. Encho os pulmões com o exuberante aroma perfumado antes de dizer:
– Estou um dia adiantada e trouxe companhia. – Aceno com a cabeça na direção de Lita. – Espero que não haja problema. – Minha colocação é feita mais por educação do que por uma preocupação real de que Paloma nos mande embora. Ela gosta de nos ter por perto. Nos vê como um elo com Daire, do mesmo modo que a vemos.
Ela pega a cesta de flores noturnas medicinais e se levanta com dificuldade. A cena se desdobra diante de mim em um fluxo de energia sombrio e lamacento, com um brilho luminoso na ponta dos seus dedos.
– Aqui, deixe que eu carrego. – Lita corre para o lado dela em um raio laranja vibrante na direção do cinza apático de Paloma. O contraste é um lembrete amargo do quão frágil Paloma se tornou nesses poucos dias.
Ainda que ela nunca tenha se recuperado totalmente depois que sua alma voltou, e ainda que não haja dúvida de que o desaparecimento de Daire cobrou um preço de cada um de nós, claramente Paloma é a mais afetada de todos.
Apesar de ter o conhecimento em primeira mão dos perigos de ser um Buscador, ela se considera responsável pela perda da neta. E não importa quantas vezes eu a lembre de que a profecia estava em movimento, que não podia ser detida, isso não adianta muito para aliviar sua culpa.
Lita pega a cesta e ajuda Paloma a ir até a porta dos fundos, enquanto eu as sigo para dentro da casa. Passamos pela cozinha, que tem o cheiro de algo saudável e delicioso esquentando no forno em razão do crepitar contínuo e o estouro da madeira que queima na lareira, e pela rampa que leva ao escritório dela, onde Paloma nos acomoda na antiga mesa de madeira, antes de voltar até a cozinha para pegar um lanche.
– Eu podia me acostumar fácil a isso – Lita diz, quando Paloma coloca uma xícara de chá de gengibre fumegante e um bolo vegano de cardamomo diante de nós. – O que me diz amanhã, mesmo horário, mesmo lugar, mesmo cardápio?
Todas rimos um pouco mais do que a piada realmente merece. Famintas por uma desculpa para aliviar nossa carga emocional.
– Você não vai comer? – Lita pergunta quando Paloma se junta a nós na mesa.
– Estou de jejum até que ela volte – Paloma responde. – Este é o favorito de Daire. Faço uma fornada nova todo dia, para ter bolo fresco quando ela voltar.
Lita fica em silêncio, ocupando-se com o bolo e o chá, enquanto me inclino na direção de Paloma e digo:
– Trouxe Lita porque acho que é hora de ela saber a verdade sobre esta cidade, e imaginei que você fosse a melhor pessoa para explicar a ela.
O som abafado do dedo de Paloma fazendo círculos ao redor da borda da caneca me diz que preciso de algo melhor para convencê-la.
– Com Daire desaparecida... – Faço uma pausa, precisando de um momento para me recompor antes de prosseguir. Não importa quantas vezes eu diga isso, não fica nem um pouco mais fácil. – Não há outro Buscador para substituí-la. O que quer dizer que todos teremos de nos levantar e fazer a nossa parte. Mas não podemos proteger uns aos outros se alguns de nós nem mesmo sabem do que precisam ser protegidos.
Paloma fica em silêncio por tanto tempo que estou prestes a implorar, quando ela diz:
– Suponho que esteja certa. – Sua voz, assim como sua energia, é cansada mas resignada. – Então, por onde sugere que eu comece?
– Que tal pelo começo? – Lita diz. – Tenho a sensação de que a história desta cidade não tinha nada a ver com o que nos ensinam na escola.
Paloma assente e se ajeita na cadeira, contando uma história tão estranha que fico atenta na energia de Lita para ver como ela está lidando com isso. E, para minha surpresa, ela não fica nem de perto tão chocada quanto eu supunha que ficaria.
– Eu sabia! – Lita grita, no segundo em que a história de Paloma acaba. Golpeia a mesa para ser enfática, o que, do meu ponto de vista, parece uma faixa afiada de laranja se mesclando em um fluxo estagnado de marrom. – Eu sabia o tempo todo – ela destaca cada palavra. – Quero dizer, talvez não soubesse isso tudo sobre os Richter, também conhecidos como El Coyote, que são muito mais malignos na essência. E talvez não soubesse que Cade pode se transformar em um demônio de verdade porque ele é basicamente a cria de um demônio, concebido por magia negra. E talvez não soubesse que esta cidade está cheia de portais secretos, ou vórtices, ou como quer que vocês chamem...
– Então exatamente o que você sabia? – pergunto, incapaz de esconder o sorriso.
– Eu sabia que Cade era do mal. Eu sabia que havia algo muito sombrio nele. E eu me sentia enjoada cada vez que pensava em todas as coisas que eu... que nós... – Ela controla a respiração, esfrega a palma das mãos contra a mesa e recomeça. – Seja como for... E quanto àquele coiote assustador, eu já o vi. Mais do que uma vez. E na primeira vez em que vi seus olhos vermelhos brilhantes, gritei como louca e saí correndo. Mas então Cade me contou uma história inventada sobre como o havia encontrado abandonado, ainda filhote, e decidido resgatá-lo, treiná-lo e mantê-lo como animal de estimação, e... argh. Não consigo nem dizer o quanto estou desapontada comigo mesma por ter ficado tão encantada com tudo aquilo. Não posso crer que realmente acreditei nele!
– Não seja tão dura com você mesma. – Paloma se afasta da mesa, as pernas das cadeiras arrastando com força contra o chão de ladrilhos. – Os Richter sabem como alterar a percepção dos outros. Eles alteraram a sua, assim como da maior parte das pessoas desta cidade.
– Todo mundo, exceto Xotichl – Lita se vira na minha direção. – Como você nunca caiu na farsa dele?
– Cade não pode chegar até mim. – Inclino a cabeça, tomo um gole de chá. – Nenhum dos Richter pode. É o lado bom de ser cega.
– Está dizendo que ele me encantou? – A voz de Lita fica tão aguda que ela praticamente grita. – Que ele olhou nos meus olhos e me hipnotizou como os vampiros da TV? – Ela está dividida entre o fascínio e a indignação, como demonstrado pelo modo como sua energia faísca e explode.
– Não exatamente – Paloma diz. – Eles precisam do benefício da visão para alterar o jeito como você percebe as coisas. É uma prática esotérica que poucos conseguem dominar. Como conta a história, antes que se deparassem com os segredos dessa habilidade em particular, eram cidadãos medianos, senão honrados. Ou pelo menos até serem corrompidos pelo poder. Ficaram cada vez mais gananciosos, ávidos, bêbados com a própria autoridade. Não importa o dano que causem, as pessoas continuam a percebê-los como uma família digna de admiração e respeito. Todos muito felizes em trabalhar em benefício dos vários interesses dos Richter, enquanto gastam tudo o que têm comendo e bebendo no bar e nos outros estabelecimentos deles. É um ciclo terrível que garante que permaneçam para sempre em dívida. Conhece o ditado: Poder total corrompe totalmente? Os Richter são o exemplo perfeito disso.
– E Cade é o pior de todos eles, depois de passar o último ano roubando fragmentos da alma das pessoas, com os quais alimentava seus ancestrais mortos a fim de ressuscitá-los para cumprir suas ordens – digo, querendo que Lita saiba que, embora se apaixonar por Cade não tenha sido exatamente culpa dela, a verdade é muito pior do que ela pensa.
– Está me dizendo de verdade que ele usou minha alma para alimentar algum zumbi Richter esquecido por Deus?
Se eu achei que ela tinha berrado antes, não era nada comparado a como aquilo soou.
– Não ela toda. Só uma parte – digo, lamentando de imediato ter sido tão brusca. É muita coisa para engolir de uma só vez. Preciso ir devagar com ela.
– Ela voltou para você no Dia dos Mortos, quando Daire convenceu a Guardiã de Ossos a libertá-la – Paloma explicou. – Você provavelmente notou algumas mudanças desde esse dia.
– O mesmo dia em que terminei com Cade! – Lita engasga e, então, como se tivesse acabado de perceber, diz: – Espere... você disse Guardiã de Ossos? – O grito atinge notas ainda mais altas. – Agora está me dizendo que existe essa coisa de Guardiã de Ossos também?
– Ela tem um rosto de caveira, se alimenta de estrelas e usa espartilho de couro negro, botas de salto agulha e uma saia de serpentes – digo para ela. – Bem, de qualquer modo, é o que diz a lenda. Apesar de Daire ter confirmado.
– Então... ela é gótica?
– Provavelmente é a gótica original – brinco. – Ah, e a saia de serpentes é feita de serpentes de verdade que se arrastam ao redor de sua cintura e pernas. E essas mesmas serpentes fizeram o resgate das almas, ao escorregar pelas gargantas dos Richter e... – Faço uma pausa, observando a energia de Lita se desvanecer em algo horrível e desolador. É demais para minha tentativa de controlar a situação.
– Ok. Então, em resumo, os Richter são maus, Dace e Daire são bons, espíritos animais não são superstição, são de verdade, e há três mundos, o Mundo Inferior, o Mundo Superior, e este mundo, o Mundo Mediano, e... – Lita faz uma pausa, hesitante em continuar. – E uma parte da minha alma foi roubada por meu ex-namorado, que a usou para reanimar um ancestral morto, até que ela foi resgatada por uma serpente e encontrou seu caminho até mim outra vez?
– Em resumo – concordo, com a voz baixa e arrependida.
– Nossa. E pensar que vivi a vida toda aqui e, durante todo esse tempo, não tinha a mínima ideia do que estava realmente acontecendo.
– A maior parte das pessoas só vê o que quer ver – Paloma diz. – É só quando não pode mais se dar a esse luxo que vê o que precisa ver.
– Mais alguma coisa de que eu precise saber? – Lita pergunta. – E quanto a vampiros e lobisomens? Ah, e fadas? Onde eles entram na história? São de verdade também?
– Embora eu não possa falar por eles, posso dizer que foi Daire quem fez nevar. – Sorrio com a lembrança, imaginando o triunfo que ela deve ter sentido quando os flocos começaram a cair depois de tantas tentativas fracassadas.
– E Cade é responsável por fazer o céu sangrar fogo – Paloma acrescenta.
As palavras são tão inesperadas que me inclino na direção dela, enquanto Lita resmunga:
– Faz sentido.
– Como assim? – pergunto, ouvindo intensamente enquanto Paloma se levanta da mesa, vai até o velho armário fechado, pega um livro pesado e o coloca no centro da mesa.
– O Códice – sussurro, a voz cheia de admiração, enquanto as cores vívidas da energia do livro florescem no espaço diante de mim.
– Códice? O que é um Códice? – Lita alterna seu foco entre mim e Paloma.
– Um Códice é um texto antigo. Este Códice em particular foi criado por Valentina...
– Uma das primeiras Buscadoras da família Santos – Paloma explica. – Ela sofreu muitas provações para acumular o conhecimento contido neste livro, de modo que todos os Buscadores futuros pudessem se beneficiar de algum jeito.
– E você já viu isso antes? – Lita dirige a pergunta para mim. Embora seja rápida em se corrigir, quando acrescenta: – O que quero dizer é... você está familiarizada com isso?
– Estou familiarizada com isso e já vi isso. – Sorrio. – Embora eu não seja capaz de ver as páginas reais, posso ler a energia.
– E o que essa energia está dizendo para você agora? – Paloma empurra o antigo livro com capa de couro pela mesa até que ele para diante de mim.
Ergo as palmas das mãos de modo que elas pairem alguns centímetros acima do volume.
Minha atenção é instantaneamente atraída por uma impressão muito forte que reluto em compartilhar.
Não pode ser.
É impossível.
E se eu ousar dizer isso em voz alta e estiver errada?
– O que você vê? – Paloma insiste, seu tom de voz não deixa dúvidas de que ela está comigo, que sabe que não estou sendo inteiramente colaborativa.
– Sim, nos diga o que vê – Lita diz. – Não se contenha por minha causa.
Respiro profundamente, limpo a garganta e digo:
– A profecia mudou.
– Como? – Paloma aproxima sua cadeira da minha.
– Você estava certa sobre Cade. Foi ele quem encheu o céu de fogo. Fez isso para forçar a profecia. Estava impaciente. Convencido de que, se conseguisse iniciá-la, então poderia apressar o dia em que se ergueria e governaria. Mas algumas coisas não podem ser forçadas, e agora a profecia está... dormente... por falta de palavra melhor.
A energia de Paloma desinfla quando ela afunda ainda mais em seu assento.
– Temo que esteja certa – diz. – Na noite em que Daire desapareceu, Chay estava parado bem aqui ao meu lado enquanto víamos as palavras se erguerem da página. Não mencionei até agora porque não sabia o que fazer com isso. Mas tenho certeza de que suas impressões estão corretas. Cade é imaturo, impaciente, então forçou os sinais antes do tempo. E ainda que eu tenha conferido o livro diariamente, o espaço em que a profecia estava permanece insistentemente em branco.
– Você conferiu hoje? – Eu me arrisco, incerta se devo expressar essa sensação incrível que tenho.
– Conferi esta manhã. É a primeira coisa que faço.
– Confira novamente – digo. – Sabe, só por garantia. – Eu me esforço para manter a voz leve, como se estivesse apenas tentando ser bem-humorada. Tenho medo de deixar transparecer demais, de plantar uma semente de esperança, quando há uma chance de que eu esteja totalmente errada.
Seguro a respiração enquanto empurro o livro para ela. Minhas bochechas borbulham com ar enquanto a capa faz um ruído surdo contra o tampo da mesa, e as páginas de pergaminho desgastadas são viradas uma a uma. A mesma rajada de ar sibila por meus lábios quando ela e Lita engasgam, o som só confirmando a mesma coisa que senti. Essas páginas antigas e amareladas agora brilham com a promessa de um novo texto, onde apenas há poucos instantes estava um espaço em branco.
– O que diz? – Lita pergunta.
– Não sei. – A voz de Paloma é incerta, mas mais entusiasmada do que tenho ouvido há dias. – Os símbolos estão nebulosos, fora de foco...
Estou prestes a me inclinar na direção do livro, querendo ver se talvez eu possa intuir alguma coisa, quando sinto uma mudança sutil no vento. A mais leve alteração na atmosfera que passaria completamente despercebida, se não fossem o clarão brilhante de cor, a onda de calor e o coro celestial que a acompanha.
É um coro que já ouvi uma vez.
O ritmo cadenciado vai aumentando, até chegar a um crescendo tão glorioso que não consigo mais me conter. Levanto de um salto da cadeira e exclamo:
– Alguém precisa abrir o portão. – Eu me certifico de ter a atenção total delas antes de acrescentar: – Alguém precisa abrir o portão e deixar Daire entrar... ela está em casa!