Místico

Alyson Noël · Capítulo 6 de 47

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Místico

Cinco

 

Xotichl

– Não parece certo.

– O quê? – Auden coloca a mão em meu ombro e dá um apertão. Abandona temporariamente a busca pela vaga de estacionamento perfeita para me confortar.

– Isso. – Aceno com a mão na direção do para-brisa. – Vir à Toca do Coelho. Depois de tudo o que aconteceu, parece errado passar o tempo aqui.

– Podemos ir embora, se você quiser. – O toque de Auden é gentil, embora o tom de sua voz traia sua preocupação. – Mas achei que tinha dito que queria vir para que pudéssemos ficar de olho nas coisas.

– Eu disse. – Dou um suspiro profundo. – E, embora ainda ache importante manter uma presença, sem Daire e Dace não é a mesma coisa – minha voz falha. Minha garganta se fecha com um soluço. Isso vem acontecendo muito ultimamente. Toda vez que penso em meus amigos perdidos há tanto tempo. O que é praticamente a cada segundo de cada dia.

Perdidos.

É a única palavra que posso usar.

Perdido é ruim, não há como fugir disso, mas morto é muito pior. Na noite em que Daire fez nevar, na véspera de Natal, eu tinha certeza de que ela tinha ido embora para sempre. A neve era tão vibrante, caindo em um arco-íris de cores, que presumi ser o adeus final e confundi com seu lamento.

Mas agora não tenho mais tanta certeza. Sou guiada por algo que é mais do que um sentimento, mais forte do que um palpite – um tipo de conhecimento interior de que Daire e Dace ainda estão lá fora. Em algum lugar. É o tipo de instinto que aprendi a aprimorar e no qual aprendi a confiar. Embora, sem uma prova física, eu fique relutante em expressar isso em voz alta. As poucas vezes que tentei resultaram em tapinhas desajeitados no braço, seguidos por palavras vazias de encorajamento. Todos rápidos em tranquilizar a pobre garotinha cega que não consegue ver o que para todo mundo é tão claro.

Eles presumem que vivo em um mundo solitário de escuridão, mas não podem estar mais errados. Ainda que eu não veja as coisas da mesma maneira que aqueles com visão, sou capaz de compreender o tipo de coisa que fica oculto para a maioria. O mundo é muito mais rico e muito mais vibrante do que as pessoas percebem – uma esfera vibrante de fluxos exuberantes de cor e redemoinhos pulsantes de energia.

Pensamentos, sentimentos, músicas, pessoas, animais, natureza, objetos inanimados – é tudo feito de energia. A física moderna tem provado o que os antigos místicos conheciam desde sempre. E, graças às minhas sessões regulares com Paloma, venho testemunhando isso em primeira mão.

Foi ideia da minha mãe buscar ajuda com a abuela de Daire. Impressionada com a reputação dela como curandeira, ela imaginou que valia a pena tentar ver se Paloma podia reverter a cegueira que me assolou quando eu era criança. Mas, embora Paloma tenha sido incapaz de restaurar minha visão, ela me ensinou a ter acesso à minha visão interior, também conhecida como sexto sentido. Depois de meses trabalhando juntas, com apenas sinais minúsculos de progresso, tudo veio à tona no dia em que ela pediu para Auden se juntar a nós.

Nunca me esquecerei do jeito como colocou a palma da minha mão contra a caixa de som conectada à guitarra de Auden. Como, depois que ele dedilhou alguns acordes, a explosão mais gloriosa de cores brilhou no espaço bem diante de mim.

Auden sempre brinca dizendo como me amou primeiro. Que se apaixonou por mim no instante em que entrou pela porta e me viu esperando por ele no escritório de Paloma. Naquele mesmo momento ele soube que tinha de fazer algo grande para me impressionar, então flertou comigo através da música. Despejou todas as emoções nas cordas da guitarra, esperando que eu fosse capaz de perceber como ele se sentia.

Tudo que sei é que funcionou. Estamos juntos desde esse momento.

É engraçado como as pessoas sempre fazem questão de me assegurar que ele é muito, muito bonito. Como se eu não pudesse ver por conta própria.

Como se eu não tivesse ideia de que o amor dele por mim brilha no tom mais sincero de violeta.

Que suas palavras são ditas em um laranja profundo e verdadeiro.

Que, quando ele me beija, o ar se enche de bolhas cintilantes rosadas, prateadas e vermelhas que rodopiam sobre nossas cabeças.

Não foi muito depois disso que comecei a ver outras coisas também. E, embora tenha sido confuso no início, não demorei para determinar que mentiras são sempre ditas em um tom amarelo-escuro e gorduroso que se agarra ao lábio da pessoa até muito tempo depois que ela silenciou. Já o elogio, quando sincero, brilha em um tom reluzente prateado que banha tanto aquele que elogiou quanto o elogiado. E, nos últimos dias, tenho observado com preocupação que a tristeza de Paloma com a ausência de Daire e Dace tem transformado sua habitual energia azul-cintilante benevolente em um cinza-escuro, lamacento.

– Temo que nunca mais será igual, flor. – Auden manobra em uma vaga, desliga o motor e me puxa até ele com tanta força que a trama canelada do seu pesado suéter de lã fica marcada em minha bochecha. A voz dele se reduz a um sussurro, seus lábios fazem cócegas no lóbulo da minha orelha, e ele diz: – Mas temos que seguir em frente. Gostando ou não, temos que nos ajustar. – Ele beija minha têmpora, minha bochecha, meus lábios.

– E quanto a Cade? – As palavras são abafadas contra o seu corpo, mas sei que ele ouviu. – E se ele aparecer? E aí? – Enrolo os dedos na bainha de seu suéter e encosto a palma da minha mão na sua pele quente.

– Eu não me preocuparia com isso. – Auden se inclina na minha direção, os lábios provocando os meus. – Ninguém o viu desde aquela noite. Mas, se ele aparecer, estaremos prontos para ele, certo?

Eu me afasto um pouco e levanto a cabeça na direção de Auden, aliviada em ver um tom laranja fluir de sua boca. Ele acredita no que diz. Não está tentando me animar.

– Só porque nós não o vimos, não quer dizer que ninguém o viu. – A certeza soa na minha voz, apesar de não ter nenhuma evidência tangível que comprove aquilo. – No mínimo, aposto que aquele Coiote assustador o viu. E já que seu pai, Leandro, não parece nem um pouco preocupado, só posso presumir que ele o viu também. Além disso, não vamos nos esquecer de que Cade não é apenas um psicopata demoníaco, mas também um completo e total egocêntrico, que nunca se negaria uma oportunidade de se gabar. É um dos maiores prazeres dele. Ele praticamente vive para isso.

Auden começa a falar, mas é interrompido por uma batida na janela do lado do motorista, acompanhada por uma voz feminina chamando:

– Ei! Tem espaço para mais uma? – No instante seguinte, a porta se abre e a energia de Lita enche o banco de trás do carro. – Nossa, está totalmente congelante lá fora. – Ela bate as mãos enluvadas, numa tentativa de se aquecer. – Eu me pergunto se essa neve algum dia vai parar.

Suspiro. Auden murmura concordando. E todos ficamos em silêncio novamente.

Está nevando desde a véspera de Natal, e, mesmo que gostemos de reclamar disso e de todos os inconvenientes que vieram junto, no fundo tememos o dia em que a neve parar. Enquanto os flocos continuam a cair, temos uma conexão com Daire. Mas, se ela não voltar quando a terra esquentar, a neve derreter e a primavera brotar, bem, como vai ser?

– Então, alguma notícia? Alguma notícia sobre, você sabe, qualquer coisa? – Lita pergunta, relutante em expressar realmente o que todos pensávamos: O que aconteceu? Onde eles estão? Nós os veremos novamente?

Passamos horas incontáveis debruçados sobre os detalhes mais minuciosos daquela noite. Tentando juntar as peças e descobrir alguma pista oculta que tivéssemos perdido ao primeiro olhar. Mas o fato é que todos nós vimos a mesma coisa: Daire correndo no clube, avisando todos nós para fugirmos, para irmos o mais longe possível da Toca do Coelho. O céu estava sangrando fogo, ela disse. A profecia havia começado. Suas últimas palavras para mim foram: “Vou deter isso. Dar um jeito nisso. Nem que seja a última coisa que eu faça”. Então se livrou da minha mão que a segurava, correu até o vórtice e ninguém a viu novamente.

Balanço a cabeça, deixando a lembrança de lado enquanto me viro na direção de Lita e digo:

– Nenhuma notícia nas duas horas que se passaram desde que nos falamos. – Faço o melhor possível para terminar com um sorriso, embora este não saia com tanta facilidade quanto deveria.

Ela solta um suspiro profundo e imediatamente me lembro do quanto e do quão rápido ela mudou. Não faz muito tempo que ela era, indiscutivelmente, a rainha do Colégio Milagro. A garota megapopular e arrogante que todos admiravam e temiam abertamente. O tipo de garota que jamais consideraria falar com alguém como eu. Mas então Daire chegou e uniu todas nós. A chegada dela a Encantamento pode ter incitado as ações de Cade, mas também mudou nossas vidas de uma maneira realmente positiva.

– Então, o que faremos? Como vamos lidar com isso? – Lita indaga. A pergunta foi seguida pelo clique do pó compacto se abrindo e pelo sibilar pegajoso do aplicador do gloss se movendo sobre seus lábios.

– Você é a realeza de Milagro, o que sugere? – Auden entrelaça os dedos nos meus.

– Ex-realeza. Desisti da coroa, lembra? – Lita fecha o pó compacto e o joga junto ao gloss no abismo de sua bolsa.

– E olhe quem está usando a coroa agora – Auden diz, e sei pelo seu tom de voz e pela mudança no ar que Phyre está por perto.

Lita funga, pega suas coisas e abre a porta.

– Bom – diz –, que fique com a coroa. – Ela desce do carro. – Se Phyre quer que todo mundo repare nela, serei a primeira da fila. Não confio naquela garota nem por um segundo e planejo observar cada movimento que faça a partir de agora. E, só para lembrar, Daire também não confiava nela nem um pouquinho. O que significa que farei o que for preciso para descobrir o que ela está tramando... por que voltou para Encantamento. Nem que seja só para honrar a memória de Daire.

– Não faça nada imprudente – Auden adverte.

– Quem? Eu? Imprudente? – Lita dá uma gargalhada. Dá a volta até minha porta e diz: – Você vem, flor? Temos reconhecimento a fazer.

– Ei, eu sou o único que pode chamar minha flor de flor! – Auden me puxa para perto dele e dá um beijo de leve no alto da minha cabeça.

– Provavelmente é melhor assim – Lita comenta. – Parece meio estranho. De qualquer modo, é melhor irmos. Não podemos perder o espetáculo agora que o ato principal está aqui.

– Estamos bem atrás de você – digo, enquanto Auden e eu descemos do carro. Seguimos Lita para dentro do redemoinho surreal de energia da Toca do Coelho.