Místico

Alyson Noël · Capítulo 29 de 47

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Místico

Vinte e oito

 

 

Dace

Uma acolhedora onda de calor ondula do alto do meu crânio até a sola dos meus pés. Me envolve por fora tão completamente que é como se consumisse meu interior.

Luto para levantar a cabeça, precisando ver a fonte de calor. Conto dois pares de mãos pairando sobre minha pele. O par maior tem as palmas iluminadas.

– Quase lá... aguentem firme... – Uma voz familiar diz, enquanto um choque elétrico passa por mim. A corrente é tão forte, tão intensa, que minha cabeça se debate de um lado para o outro, minhas mãos se fecham em punho e meu corpo fica rígido com um calor tão intenso que não sei se posso suportar.

Embora mal pense nisso, meu corpo cai, frio e flácido, as mãos se afastam e uma voz hesitante diz:

– Dace? Está bem?

Um dedo delicado percorre minha bochecha, e abro os olhos para ver uma linda garota com brilhantes olhos verdes mordendo o lábio com força.

A visão por si só é o bastante para me fazer pular da maca e agarrá-la em meus braços. Eu a abraço forte. Preciso ativar meus sentidos com a presença dela. Preciso da garantia de que ela está realmente aqui. Que não estou apenas sonhando com ela.

Coloco a mão atrás de sua cabeça, enchendo os dedos com seus suaves fios sedosos. Eu ansiava por ela havia tanto tempo. Temia que nosso encontro nunca acontecesse. Mas, agora, com o rosto dela aninhado em meu pescoço, inalando seu cheiro suave, doce, não há dúvidas de que ela realmente está aqui. Agarrando-se a mim tão desesperadamente quanto eu me agarro a ela.

Nosso amor é igualmente sincero – igualmente profundo.

Ou é apenas uma lembrança impregnada em mim?

Ao sentir a mudança, Daire é a primeira a se afastar. E, no momento em que ela olha em meus olhos, a verdade não pode mais ser negada.

Ainda estou sem alma.

E, sem a alma, não posso compreender a experiência totalmente.

Posso vê-la. Senti-la. Mas é como se acontecesse com outra pessoa.

Como se eu observasse à distância.

Como se houvesse uma barreira invisível oscilando entre nós.

Como se eu passasse por um checklist de emoções que devia sentir, em vez de realmente vivenciá-las.

O olhar dela é de tristeza e indagação. Procurando por uma substância que não está mais ali.

O lugar ocupado pela minha alma é agora um espaço vasto, vazio.

Mesmo assim, meu coração continua a bater. E, assim como antes, bate apenas por ela.

Por enquanto, é tudo o que tenho.

Terá de ser o suficiente.

– Como se sente? – Ela deixa a tristeza para trás e leva uma mão hesitante ao meu rosto.

– Curado. – Forço um sorriso em uma tentativa de provar o que digo.

Ela o recebe com um olhar encorajador. Seus lábios se entreabrem, prestes a dizer mais alguma coisa, quando há uma agitação na porta da frente e Chepi irrompe pela rampa, para dentro do aposento, seguida pelo restante dos anciãos.

Minha mãe vem até mim em um turbilhão de gritos e lágrimas. Me enterra profundamente nas dobras de seus braços enquanto murmura uma série de palavras suaves, ditas na nossa língua nativa.

Passo as mãos pelas costas dela, surpreso pelo jeito como suas omoplatas se sobressaem sob sua pele. Asas de anjo, ela costumava chamá-las. Cada vez que eu ficava doente quando era criança, ela jejuava, orava e definhava lentamente até eu me recuperar.

– Mama, por favor. Não há motivo para chorar – sussurro. – Estou de volta. Estou a salvo. Estou curado. E é só uma questão de tempo até que minha alma seja recuperada.

À menção da minha alma perdida, ela é rápida em se afastar e encarar o fundo dos meus olhos. Ao confirmar o que acabo de dizer, ela se volta para Daire e diz:

– Você prometeu trazer a alma dele de volta!

Começo a intervir, mas, dando crédito a Daire, ela recebe o golpe com graciosidade, sem recuar muito.

– Prometi encontrá-lo, foi o que fiz. Recuperar a alma dele é o próximo item da lista.

Chepi está confusa e zangada, murmurando palavras que não fazem sentido.

– Vou levar você para casa. – Ela me puxa pela cintura. – Percorreu uma longa jornada, precisa descansar.

Solto seus dedos e coloco minhas mãos sobre as dela. Seguro-as diante de mim e absorvo sua raiva, até que a expressão em seu rosto se suaviza, seus ombros caem e ela está calma o bastante para me ouvir quando digo:

– Mama, por favor. Não preciso descansar. Meu corpo está curado, forte. Posso cuidar de mim mesmo. Já definhei por muito tempo. Primeiro, preciso pegar minha alma de volta. E então preciso lidar com Cade. Só então serei capaz de descansar de verdade novamente.

– Você diz que está forte agora, mas quanto tempo isso vai durar? – Chepi se volta para Paloma, parecendo incapaz de ver Axel parado ao lado dela.

– Com a ajudinha de uma fonte divina, os ferimentos de Dace estão curados. – Paloma se permite um pequeno sorriso enquanto se dirige para mim. – Fechei seus ferimentos e lhe dei uma infusão muito intensa de cura. Tenho certeza de que sente o calor rodopiando dentro de você, não sente?

Concordo com a cabeça. É intenso, mas nada com o que eu não possa lidar.

Ela assente, aprovando.

– Deixe sua temperatura ser seu indicador – ela diz. – Saberá que é hora de outra infusão quando começar a se sentir frio. Se esperar muito tempo e ficar frio demais... bem, temo que voltará ao ponto de onde partiu.

Ela se fixa em mim com um olhar firme, ansiosa em transmitir a seriedade de suas palavras.

– Então é isso? – Dou um meio sorriso. – Quando o motor ficar frio é hora de esquentá-lo? – Traduzo o aviso dela no tipo de linguagem de mecânico que entendo melhor.

– Quanto tempo vai durar? – Daire pergunta. Seu lábio inferior recua para dentro de sua boca, arrastado pelos dentes.

– Foi uma dose bem forte – Axel olha para Daire e para mim. – Mas não há como saber com certeza.

– Seja como for, terá que ser suficiente – digo, ansioso para ir. Para usar a força enquanto a tenho. Mas Axel permanece cético, olhando para mim com um rosto contraído e perturbado.

– Com quem estão falando? – Chepi lança um olhar confuso pelo aposento.

– Axel. O guia espiritual de Dace está aqui – Daire diz, mas as palavras falham em confortá-la.

– Mas eles só aparecem quando alguém está prestes a morrer! – ela grita, me agarrando mais uma vez.

– Sim. Eu estava prestes a morrer – digo para ela, me arrependendo imediatamente do tom brusco de minhas palavras quando vejo a dor que percorre seu rosto. Mesmo assim, não faz sentido mentir. Ela merece ouvir a verdade. – Só que não morri. Por qualquer que seja o motivo, consegui viver. Então, agora, vou me assegurar de usar minha vida de um modo que importe. – Olho para Daire enquanto acrescento: – Começando agora.

– Entendo sua paciência em começar logo – Pé Esquerdo diz, os olhos me mandando uma mensagem silenciosa que demoro a entender. – Mas estamos no meio da noite, e você já sofreu uma bela provação. Por que não aceita o conselho de Chepi? Algumas horas de descanso não farão muita diferença.

Estreito meu olhar na direção do velho curandeiro. É uma ocasião rara quando não sigo os conselhos dele.

Esta é uma dessas ocasiões.

– Não há tempo... tenho que usar a energia enquanto a tenho! – digo, já me afastando.

– Pelo menos sabe onde procurar? – ele pergunta, a voz nem provocadora nem superior, apenas constatando os fatos.

O silêncio da minha resposta é a prova de que não sei.

– Melhor não desperdiçar sua energia vagando por aí. Deixe-me fazer um pouco de trabalho de campo primeiro, para que você possa ir quando for preciso. Vamos, Dace. – Ele passa um braço ao redor de mim e me dá um tapinha nas costas. – Volte para a reserva conosco. Você e Daire podem sair ao amanhecer.

Típico de Pé Esquerdo. Sempre tentando me separar de Daire. Isso faz com que eu me pergunte se ele suspeitava o tempo todo que o amor que Daire e eu partilhamos serve para fortalecer meu irmão monstruoso. Mesmo assim, olho para ele com um carinho profundo. Ele me ensinou tudo o que sei – sempre foi como um pai para mim.

– Vocês todos vão na frente – Chay diz, concordando com Pé Esquerdo. – Ficarei aqui. Paloma e eu podemos trabalhar um pouco durante a noite, enquanto Daire dorme um pouco também. – Ele sorri para mim com um rosto tão benevolente, tão sincero, que não há nada que eu possa dizer para refutar aquilo. – Daqui a algumas horas, vocês estarão descansados, renovados e seguindo na direção certa. O que diz?

Volto meu olhar para Daire, enquanto Chepi e Paloma murmuram sua aprovação.

– Tudo bem – digo, sabendo que não adianta prolongar a luta quando é muito mais fácil aparentar que desisti. Os anciãos são uma força formidável, especialmente quando estão juntos. Mesmo assim, algumas vezes preciso fazer as coisas no meu próprio tempo, do meu jeito.

Antes que alguém possa me deter, vou até Daire e a seguro entre meus braços. E, no segundo em que os lábios dela encontram os meus, tudo desaparece, até que só o que resta é aquele beijo.

O toque dela é suave e prolongado, e ambos sabemos que, no momento em que nos afastarmos, a gravidade da situação cairá sobre nós mais uma vez.

Um segundo – os lábios dela se movem gentilmente com os meus.

Dois – a respiração dela se mistura com a minha.

Três – não há nada que eu não faça por essa garota.

É o juramento que levo comigo, enquanto sou levado relutantemente pela porta.