Místico

Alyson Noël · Capítulo 36 de 47

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Místico

Trinta e cinco

 

 

Daire

Dace despenca.

O punhal cai.

Salto por cima do corpo dele e corro na direção do fogo, com a intenção de atravessá-lo como fiz na caverna.

Mas quando a ponta da minha bota arde e queima, quando a barra do meu jeans chamusca e se incendeia, percebo que este fogo em particular não é meu para que eu possa controlá-lo. Vai me queimar. Possivelmente acabar comigo. E não posso correr o risco.

Eu me viro na direção do punhal, aliviada quando vejo que a parte superior da corda ainda está congelada, ainda está presa a um galho estéril, ainda está pendurada, mesmo que precariamente.

E, é claro, ainda tem a Phyre. A louca da Phyre. Parecendo não notar ou se importar que o então chamado “amor de sua vida” tenha caído, inconsciente, ela se volta para mim, sem querer perder um só segundo em suas tentativas contínuas de me machucar.

– Não posso deixar de ter ciúmes de você. – O olhar dela é franco, direto. Posso sentir o peso dele em meu rosto. – Mas não se engane, não é o motivo pelo qual estou fazendo isso. Não é o tipo de momento patético se eu não posso tê-lo, então ninguém pode. Há coisas muito maiores acontecendo aqui. Sabe sobre as coisas maiores? – Ela faz uma pausa, espera que eu responda e, quando isso não acontece, ela prossegue: – Provavelmente acha que sabe, por ser uma Buscadora e tudo o mais. Mas o mundo é muito maior do que você e eu. Assim que o punhal cair, os gêmeos terão ido embora, e não muito depois eu terei ido também. Eu costumava me ressentir disso. Costumava lutar contra isso. Mas, agora, aprendi a aceitar.

Ela se inclina para a frente e força um sorriso. E sei que é o fim. Mais um sopro e aquela corda vai se partir, e Dace e Cade serão história.

Embora eu esteja quase pronta para ela, quase pronta para pôr em prática o plano no qual estive trabalhando todo esse tempo, preciso de mais alguns momentos. Então, o que posso fazer é distraí-la.

– Já estive em situação similar – digo, arriscando só um olhar de relance na direção dela, o suficiente para me assegurar de que consegui detê-la mesmo que temporariamente. – Eu fiquei furiosa quando soube que era uma Buscadora. Tentei fugir. Mas é claro que não cheguei muito longe.

– Não é a mesma coisa. – Ela faz cara feia, revira os olhos e se restabelece.

– Não é a mesma coisa, mas é parecido. Você tem que admitir que é parecido. – Minha voz soa tão agitada, tão desesperada, que preciso seriamente abaixar o tom. Mesmo assim, parece causar algum efeito. É possível notar pelo jeito com que Phyre se endireita de leve, fecha os lábios, retorce a boca para o lado. – Como você, eu também tenho um destino. – Engulo em seco. Lembro a mim mesma que posso fazer isso. Tento não pensar nas várias vezes que isso não deu certo recentemente. – Mas, ao contrário de você, meu destino é para o bem maior... – Esfrego os lábios. Começo a contar na minha cabeça.

Um... Levanto lentamente a mão.

Dois... Abro a mão, virando a palma na direção do punhal.

Três... Imploro em silêncio para o universo: Por favor, não me deixe falhar!

– E o meu? – A voz dela é mal-humorada, impaciente.

– E o seu... – Aperto os dentes, abro os dedos e me preparo para o próximo passo.

– Fale, Buscadora! – ela grita. Sua voz reverbera tão alto que faz as chamas se erguerem, os galhos da árvore balançarem e o punhal cair ainda mais, pendendo precariamente.

– E o seu é só um monte de besteiras inventadas, criadas pelo seu pai psicótico.

Meus olhos encontram os dela, confirmando a indignação que eu intencionalmente coloquei ali. Só espero que o momento esteja certo.

Ela se inclina na direção da escultura e sopra com tanta força que o calor das chamas faz a corda que segura o punhal romper instantaneamente, permitindo que o punhal despenque direto na alma de Dace.

Observo a sucessão de eventos.

Não ouso piscar.

Com a mão aberta diante de mim, faço outro pedido silencioso.

Convoco meus poderes de telecinesia, que, ultimamente, na melhor das hipóteses, andam tênues. Mas, neste momento, é o que tenho.

Bem, isso e minha intenção. O que, segundo Paloma, é o ingrediente mais importante da mágica.

Mesmo assim, apesar das minhas melhores intenções, apesar das minhas orações fervorosas, o punhal, a milímetros de distância da alma de Dace, se recusa a alterar seu caminho.

Despenca direto para baixo.

Direto no espaço onde a alma de Dace estava.

Dou um grito, um som sobrenatural e involuntário. Fico embasbacada de descrença e indignação.

Silencio quando vejo o jeito que Phyre me encara e sigo o olhar dela até minha mão.

Minha intenção era salvar a alma de Dace, e parece que fiz exatamente isso.

Minha telecinesia não falhou.

Ela simplesmente substituiu o punhal pelo que realmente importava.

Enquanto o punhal caía, a alma seguiu até minha mão.

Com os olhos brilhando tão ardentemente quanto as chamas que acendeu, Phyre dá um uivo horrível e me ataca. A força de seu corpo se chocando contra o meu faz com que eu perca o ar, enquanto a alma se solta da minha mão.

Ela paira sobre nós, enquanto nós duas tentamos desesperadamente agarrá-la. Mas não demora muito até que comece a vagar na direção do céu.

Phyre me empurra e salta. Mas eu consigo segurá-la, impedindo-a de pegar a esfera.

Por causa do fogo que ela acendeu, o que era uma pesada cobertura de neve agora se derrete ao nosso redor. Vira uma lama espessa, viscosa que atrapalha a perseguição, nos fazendo escorregar, deslizar, perder o equilíbrio, mas nunca a vontade de ir atrás da alma de Dace.

– Você não pode salvá-lo – ela grita, correndo na minha frente. – É a Palavra. Está escrito. Já está acontecendo. Não há nada que possa fazer para mudar isso.

Eu estico meus passos, lutando como o diabo para alcançá-la. E quando meus pés finalmente chegam a um pedaço de terra seca, me proporcionando a tração necessária, salto na direção do céu, salto na direção da alma de Dace – só para ver Phyre chegar primeiro.

Ela captura a esfera nas mãos estendidas. Puxa-a para perto do peito. A visão dessa garota louca, desequilibrada, manuseando algo tão frágil, tão delicado, tão precioso, tão facilmente destruível me deixa sem fôlego e horrorizada.

Ela encara a alma de Dace com olhos arregalados, sonhadores, paralisados ao vê-la. Mas, quando nota minha aproximação, a puxa ainda mais para perto. Enrola um braço protetor ao redor da esfera, estala a língua e diz:

– Eu não faria isso se fosse você.

Levanto as mãos em rendição, parada em silêncio diante dela. Observo enquanto ela coloca a mão no bolso e pega o isqueiro turquesa e prata de Cade.

– Sabia que meu nome do meio é Oleandro? – Os olhos dela se encontram brevemente com os meus. – Phyre Oleandro Sanguejovem. Que tal essa agora? – Ela reflete, girando a roda do isqueiro ao esmo com o polegar. – Embora eu não tenha recebido esse nome até ter dezesseis anos. Foi quando meu destino foi selado. Ainda que tenha começado bem antes, quando eu tinha oito. Meu pai me disse que era uma grande honra. Uma que eu devia ostentar com orgulho. Não importa que isso quase tenha me matado em mais de uma ocasião. Mas acontece que, no final das contas, meu pai estava certo. Ele geralmente está. – Ela coloca a mão no bolso novamente. Desta vez pega uma flor cor-de-rosa perfeita com um caule pequeno e fino e a segura entre os dentes da frente.

Primeiro imagino que ela vá engolir aquilo tudo, mas no momento seguinte eu a vejo puxar o caule sem flor dos lábios e usar o isqueiro para colocar fogo nele. O simples ato da chama encontrar o caule é o bastante para dar origem a uma grossa nuvem de fumaça acre que me cerca, me deixando engasgada, sufocada, borrando minha visão até que tudo ao meu redor começa a brilhar e a formar uma auréola. Fica quase impossível ficar de olho na alma de Dace quando tudo está resplandecendo, cintilando com um fulgor de luz.

– É realmente muito ruim que tenha de acabar assim. – Phyre assume uma expressão pensativa, enquanto centenas de esferas brilhantes dançam entre nós. – Em outras circunstâncias, tenho certeza de que podíamos ter sido amigas. – Ela sorri brevemente, enruga os lábios e assopra bem na minha direção. Me envolve em uma nuvem tão tóxica que não posso fazer mais nada além de cair de joelhos.

Meu corpo é tomado por convulsões, minha visão vagueia com a ilusão das esferas brilhantes e eu agarro o chão com força e me arrasto na direção dela. Paro um momento para puxar a gola do meu suéter por cima do queixo, até cobrir minha boca e nariz, esperando que isso filtre a fumaça o suficiente para que eu possa derrotá-la.

Quando a encaro novamente, fico surpresa em ver que um grupo de espíritos animais começa a sair da toca.

A neve está derretendo.

A terra está esquentando.

A hibernação forçada deles chegou ao fim.

Vejo coelhos, gambás, esquilos e pardais entre eles. Mesmo assim, nenhum que eu reconheça. Nenhum com qualquer obrigação de me ajudar.

Continuo a olhar através da fumaça e da neblina, enquanto Phyre se move tentadoramente perto, a alma de Dace equilibrada de modo precário em sua mão.

– Lindo, não é? – Os dedos dela fecham, abrem e fecham novamente. Não deixa dúvida de que um único apertão e tudo estará acabado. – É tão frágil. Tão delicado. Tão fácil de... esmagar. – Ela dobra os dedos. Olha para mim. – É tão estranho segurar a alma do garoto que você ama na palma da sua mão. Temo que seja isso, Daire. Ele não pertence a nenhuma de nós.

Seus dedos se fecham.

Seus olhos se enchem de lágrimas.

Aproveito o momento para abaixar a cabeça e avançar direto nela. Acerto-a com tudo, mandando-a para o céu, os braços sacudindo descontroladamente. Até que ela atinge o chão com força, comigo em cima, e o golpe faz com que a alma fique livre, bem como eu esperava.

Eu a seguro no chão e observo a esfera subir. Desejo, com tudo que há em mim, que a presença familiar que localizei ao longe ainda esteja ao meu lado.

Pegue! Ah, por favor, pegue!

Phyre fica em pé, tenta passar por mim, mas é tarde demais.

O Corvo já desceu.

Já pegou a esfera no bico aberto.

E, no momento em que ele a entrega para o Cavalo, eu me viro e descubro que Phyre fugiu.