Místico
Doze
Daire
Xotichl está parada diante de mim, segurando com as duas mãos o cabo de uma faca ensanguentada.
Meu sangue.
Minha faca.
Aquela que Cade usou contra mim.
As mãos dela começam a tremer e, logo depois, o resto do seu corpo também. A visão de sua cabeça pendendo de um lado para o outro faz Lita gritar:
– Ela está bem? Devemos fazer algo para ajudá-la? – Seus olhos buscam os meus, desesperada por orientação.
– Não toque nela – aviso, me aproximando lentamente de Xotichl enquanto Lita sai do caminho. – Ela vai ficar bem. Está só vendo, é isso. – Aperto os lábios e espero que seja verdade.
A respiração de Xotichl fica cada vez mais agitada. Seu corpo estremece violentamente. E estou prestes a intervir quando a faca escorrega de seus dedos e cai com um baque aos nossos pés.
Lita grita.
Xotichl levanta o rosto para mim e, com voz firme, diz:
– Está tudo ali. Posso contar se quiser, mas acho que deve ver por você mesma.
Mantenho a palma aberta sobre o athame e me concentro no cabo, mas a faca permanece teimosamente no lugar. Acho que os dias que passei de cama deixaram minha telecinesia meio enferrujada. Sem outra opção, pego a faca do jeito antigo, me ajoelhando e fechando os dedos ao redor dela. O contato da minha pele na madeira é o bastante para disparar instantaneamente uma provisão de imagens armazenadas que invadem minha cabeça.
Minha batalha com Cade desaparecendo no momento em que Dace apareceu. Só que ele não era o mesmo. Seus olhos já não brilhavam, já não refletiam, pareciam exatamente com os de Cade – um abismo opaco e insondável, absorvendo a luz em vez de refletir.
É temporário, Dace havia afirmado. Não se preocupe.
Ele fez isso por nós – fez isso para me salvar.
Para me salvar.
Quando todo esse tempo era eu quem devia salvá-lo.
Como a maior parte das almas, a minha é composta tanto de luz quanto de escuridão, enquanto a de Dace é extraordinariamente pura.
Era a luz dele que estava destinada a morrer.
Esfrego os lábios, seguro com mais força e me preparo para o que vem a seguir. O momento em que tudo desmorona. Com Cade na forma de demônio e o Coiote com o dobro do tamanho, Dace e eu estávamos em desvantagem.
Só que, dessa vez, quando Axel me leva para o céu, sou capaz de ver o que não pude ver antes.
O Corvo voando atrás de nós, nos seguindo por uma longa distância, até que chega a algum tipo de barreira e é obrigado a voltar.
Dace acertando o athame em si mesmo, sem hesitação. Disposto a pagar o preço final, a fim de evitar que seu irmão gêmeo destrua o mundo.
Só percebo que gritei quando a mão de Lita segura a minha com firmeza e Xotichl exclama:
– Não a deixe soltar! Ainda há mais para ver!
E, agora, com Lita e eu segurando a faca, ela é capaz de ver o que vejo.
Dace e Cade sucumbindo um sobre o outro, suas almas recém-libertadas.
Só para que o Coiote pegue a alma de Cade no focinho e a obrigue a voltar para dentro dele, enquanto permite que a de Dace vague livremente.
Cade desperta com um balbucio e imediatamente se volta para seu irmão.
– Tire-o daqui – ordena ao Coiote. – Leve-o até o recanto mais sombrio do Mundo Inferior, onde ninguém poderá encontrá-lo. Ele não serve para mim agora.
Lita xinga baixinho à medida que observamos Coiote agarrar Dace pelo colarinho e arrastá-lo, enquanto Cade, ainda gravemente ferido, mas respirando, move o corpo devagar até a Fonte Encantada, entra na água e emerge renovado.
Lita abaixa as mãos, deixando que eu segure a faca por conta própria. Sua voz é baixa, oprimida, quando diz:
– E agora? Para onde vamos?
Abro os olhos e abaixo o athame.
– Primeiro vamos encontrar Dace. Depois restaurar a alma dele. E, assim que estiver terminado, vou achar um jeito de lidar com Cade de uma vez por todas.