Místico

Alyson Noël · Capítulo 13 de 47

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Místico

Doze

 

 

Daire

Xotichl está parada diante de mim, segurando com as duas mãos o cabo de uma faca ensanguentada.

Meu sangue.

Minha faca.

Aquela que Cade usou contra mim.

As mãos dela começam a tremer e, logo depois, o resto do seu corpo também. A visão de sua cabeça pendendo de um lado para o outro faz Lita gritar:

– Ela está bem? Devemos fazer algo para ajudá-la? – Seus olhos buscam os meus, desesperada por orientação.

– Não toque nela – aviso, me aproximando lentamente de Xotichl enquanto Lita sai do caminho. – Ela vai ficar bem. Está só vendo, é isso. – Aperto os lábios e espero que seja verdade.

A respiração de Xotichl fica cada vez mais agitada. Seu corpo estremece violentamente. E estou prestes a intervir quando a faca escorrega de seus dedos e cai com um baque aos nossos pés.

Lita grita.

Xotichl levanta o rosto para mim e, com voz firme, diz:

– Está tudo ali. Posso contar se quiser, mas acho que deve ver por você mesma.

Mantenho a palma aberta sobre o athame e me concentro no cabo, mas a faca permanece teimosamente no lugar. Acho que os dias que passei de cama deixaram minha telecinesia meio enferrujada. Sem outra opção, pego a faca do jeito antigo, me ajoelhando e fechando os dedos ao redor dela. O contato da minha pele na madeira é o bastante para disparar instantaneamente uma provisão de imagens armazenadas que invadem minha cabeça.

Minha batalha com Cade desaparecendo no momento em que Dace apareceu. Só que ele não era o mesmo. Seus olhos já não brilhavam, já não refletiam, pareciam exatamente com os de Cade – um abismo opaco e insondável, absorvendo a luz em vez de refletir.

É temporário, Dace havia afirmado. Não se preocupe.

Ele fez isso por nós – fez isso para me salvar.

Para me salvar.

Quando todo esse tempo era eu quem devia salvá-lo.

Como a maior parte das almas, a minha é composta tanto de luz quanto de escuridão, enquanto a de Dace é extraordinariamente pura.

Era a luz dele que estava destinada a morrer.

Esfrego os lábios, seguro com mais força e me preparo para o que vem a seguir. O momento em que tudo desmorona. Com Cade na forma de demônio e o Coiote com o dobro do tamanho, Dace e eu estávamos em desvantagem.

Só que, dessa vez, quando Axel me leva para o céu, sou capaz de ver o que não pude ver antes.

O Corvo voando atrás de nós, nos seguindo por uma longa distância, até que chega a algum tipo de barreira e é obrigado a voltar.

Dace acertando o athame em si mesmo, sem hesitação. Disposto a pagar o preço final, a fim de evitar que seu irmão gêmeo destrua o mundo.

Só percebo que gritei quando a mão de Lita segura a minha com firmeza e Xotichl exclama:

– Não a deixe soltar! Ainda há mais para ver!

E, agora, com Lita e eu segurando a faca, ela é capaz de ver o que vejo.

Dace e Cade sucumbindo um sobre o outro, suas almas recém-libertadas.

Só para que o Coiote pegue a alma de Cade no focinho e a obrigue a voltar para dentro dele, enquanto permite que a de Dace vague livremente.

Cade desperta com um balbucio e imediatamente se volta para seu irmão.

– Tire-o daqui – ordena ao Coiote. – Leve-o até o recanto mais sombrio do Mundo Inferior, onde ninguém poderá encontrá-lo. Ele não serve para mim agora.

Lita xinga baixinho à medida que observamos Coiote agarrar Dace pelo colarinho e arrastá-lo, enquanto Cade, ainda gravemente ferido, mas respirando, move o corpo devagar até a Fonte Encantada, entra na água e emerge renovado.

Lita abaixa as mãos, deixando que eu segure a faca por conta própria. Sua voz é baixa, oprimida, quando diz:

– E agora? Para onde vamos?

Abro os olhos e abaixo o athame.

– Primeiro vamos encontrar Dace. Depois restaurar a alma dele. E, assim que estiver terminado, vou achar um jeito de lidar com Cade de uma vez por todas.