Místico
Onze
Daire
O velho jipe branco de Paloma dá saltos e mais saltos pelas estradas mal iluminadas e esburacadas, enquanto ela atravessa a reserva e se dirige até o bosque de juníperos retorcidos que sinaliza o vórtice.
– Não é tarde demais para desistir. – Viro para trás, na direção das minhas amigas amontoadas no pequeno espaço do banco traseiro do carro, decidida a dar a elas uma última chance de sair dessa. – E confiem em mim: se são espertas, farão isso.
– Não sou esperta. – Xotichl se vira para Lita.
– É, nem eu – Lita responde, ocupada em inspecionar as pontas de seus cabelos. – Sou burra como uma porta, na verdade.
Olho para Paloma e, ao vê-la assentir em aprovação, digo:
– Ok, mas, só para deixar claro, a viagem é extremamente desagradável. E, Xotichl, você terá que deixar sua bengala, já que teremos de descer através de um túnel por profundas camadas de terra. E, embora não dure tanto tempo, a primeira vez parece uma eternidade. Não dá para respirar, não dá para ver... ah, e eu mencionei os vermes?
Xotichl dá de ombros, joga a ponta do rabo de cavalo para trás e diz:
– Vamos lá.
Já Lita mantém meu olhar no seu e responde:
– Não sou exatamente a princesa que você presume. Não me importo em ficar um pouco suja de vez em quando.
Paloma para bem ao lado das árvores, vira-se para mim e diz:
– Vou esperar aqui até que retornem.
Tento protestar, dizendo a ela que não tenho ideia de quanto tempo vamos demorar e demonstrando como estou preocupada com sua aparência enfraquecida, mas ela é irredutível.
– Não se preocupe comigo, nieta. Mantenha seu foco na tarefa que tem em mãos. O Mundo Inferior não está como você o deixou. Assim como Xotichl, você não precisa confiar em sua visão para ver. – Ela me abraça com força de encontro ao peito e, apesar de seu estado frágil, seu toque me enche com energia suficiente para levar minhas amigas até as árvores com mais confiança do que sinto.
– Me sigam e façam o que eu fizer – digo para elas. – E, não importa o quão tentadas fiquem, não tentem impedir a queda ou, pior, segurar as paredes do túnel. Nunca funciona e só faz a viagem ficar muito mais longa. Deixem que a queda aconteça naturalmente, sem resistência. E, no instante em que sentirem o primeiro sinal de luz no fim do túnel, tentem enrolar o corpo o mais que puderem. Isso ajuda a amortecer a aterrissagem, que costuma ser um pouco bruta.
Olho para trás e, vendo que elas não parecem nem um pouco intimidadas pelos meus avisos, eu me lanço adiante. Sinto que elas estão caindo atrás de mim, uma a uma, enquanto somos engolidas pelas profundezas da terra, antes de pousar em um monte duro de neve com Lita batendo ao meu lado em um emaranhado louco de braços e pernas, e Xotichl saindo por último, rolando até parar, exatamente como eu ensinei.
– Você não estava brincando sobre a terra – Lita esfrega as mãos nos joelhos e começa a tirar do cabelo pedregulhos, galhos e os mais variados resíduos.
– Nem sobre os vermes. – Xotichl endireita o casaco enquanto eu a ajudo a ficar em pé. – Senti um deles roçar minha bochecha. Felizmente sumiu antes que eu tivesse a chance de ter um ataque de histeria.
Aperto os olhos contra a luminosidade e dou uma boa olhada ao redor, incapaz de determinar onde aterrissamos, já que toda a paisagem habitual está coberta com uma camada grossa de neve, com mais se acumulando a cada minuto. Paloma estava certa sobre não se parecer nem um pouco com o que deixei. Espero que o ritual que fiz antes de sair de casa para a neve parar não demore a funcionar.
– Então, este é o Mundo Inferior. – Olho para minhas amigas. – O que acham?
Lita coloca as mãos no quadril e dá uma boa olhada ao redor.
– Bem, tenho certeza de que é realmente bonito. Mas, neste momento, há neve demais, parece muito com Encantamento.
– Acredite, por baixo da neve é muito mais bonito do que Encantamento. – Enfio as mãos sob as axilas, em uma tentativa de aquecê-las, e continuo a supervisionar a área. Fico consternada ao descobrir a ausência dos espíritos animais, incluindo o Corvo, que, em geral, está esperando para saudar minha chegada.
Será que os animais foram obrigados a hibernar por causa da neve?
– É sempre assim? – Xotichl pergunta.
– Não. – Franzo as sobrancelhas, sem gostar do que vejo. – Embora eu nunca tenha vindo aqui no auge do inverno, tenho certeza de que este lugar não alterna as estações. Antes de Cade corrompê-lo, era como se estivesse em eterna primavera. As plantas estavam sempre floridas, a relva era viçosa e verde. Como grama de campo de golfe, só que melhor. – Suspiro com a lembrança. – Mas, depois que Cade transformou isto em um terreno estéril, a última coisa que vi, antes de partir, era que estava definitivamente retornando ao estado primaveril mais uma vez.
– Já que este é o lugar em que nossos espíritos animais vivem, acha que podemos encontrá-los? – O rosto de Xotichl se ilumina com a possibilidade de encontrar Morcego, que tem sido seu guia desde o dia em que nasceu, e odeio desapontá-la.
– Eu esperava que estivessem esperando por nós. Normalmente estão – digo para ela. – Mas com todo esse frio e neve, só posso presumir que estejam hibernando.
E como não podem nos guiar, já que estão dormindo, isso provavelmente não é uma coisa boa.
Mas tenho o cuidado de manter minhas preocupações comigo. Não adianta preocupar minhas amigas quando estou apenas especulando, sem prova alguma.
– Então, normalmente eu veria o Gambá aqui embaixo? – Lita enrola uma mecha comprida de cabelo em um dedo enluvado.
Assinto, mas a verdade é que estou tão distraída tentando determinar para que lado vamos, que mal registro a pergunta.
– Então, se o Gambá estivesse aqui, eu podia realmente encontrá-lo e ele não tentaria me morder? – ela pergunta, como se mal pudesse imaginar uma coisa dessas.
– Sim, Lita. Você e seu Gambá de olhos vermelhos poderiam se divertir na floresta, assim como fazem nos filmes da Disney. – Xotichl dá uma gargalhada.
– Isso não é nada encantador. – Lita franze as sobrancelhas. – Quero dizer, por que não posso ter um espírito animal mais bonitinho? Algo adorável e fofinho como um coelho? Ou mesmo algo legal, como uma raposa? – Então, percebendo o que acaba de dizer, ela olha ao redor e, erguendo a voz, diz: – Brincadeirinha! Sem ofensa! Amo você, Gambá!
Eu me afasto um pouco das minhas amigas. Espero esconder minha confusão sobre qual direção tomar quando nada parece estar como deixei. Cubro os olhos com a mão, para protegê-los da claridade, e observo ao redor, enquanto Xotichl e Lita tagarelam atrás de mim de um jeito tão disperso que estou prestes a dizer algo do qual, sem dúvida, vou me arrepender – quando me obrigo a engolir as palavras e ver a situação do ponto de vista delas.
Todo mundo tem seu jeito de lidar com o estresse. Alguns ficam introvertidos, como eu. Outros ficam extrovertidos, como elas. E, apesar das terríveis circunstâncias que encaramos, elas devem estar bem animadas em transcender o mundo conhecido até um do qual a maioria das pessoas sequer sabe que existe. É a monstruosidade da tarefa que está me deixando mal-humorada, não elas. Sem mencionar como a abundância de neve e frio está começando a me irritar.
Eu realmente causei tudo isso? Meu último desejo foi cumprido em grau tão ridículo?
– Ainda que essa nevasca ininterrupta seja meio irritante, ela tem um tipo de beleza tranquila, resoluta, não tem? – A voz de Xotichl vem até mim, e é o bastante para me arrancar dos meus pensamentos.
Lita e eu viramos na direção dela, nossas vozes se sobrepõem enquanto exclamamos:
– Xotichl... você está vendo isso?
Seu belo rosto em formato de coração se ilumina com um sorriso.
– De verdade? – Lita fica parada diante dela, com os olhos arregalados.
– Não fique tão empolgada. – Xotichl ri, empurrando Lita de leve no braço, até que ela se mexe de novo. – Não posso ver do mesmo jeito que vocês. Mas posso distinguir todas as linhas, curvas, formas e sombras de um jeito que nunca fui capaz antes. Em geral, tudo o que consigo ver são os padrões de energia coloridos que as pessoas e objetos emitem. Mas isso... bem, isso é algo totalmente diferente.
– Bom saber que este lugar ainda consegue fazer sua mágica – digo, trocando um olhar de espanto com Lita, enquanto dou alguns passos adiante, e Lita começa a atormentar Xotichl. Insiste que ela descreva tudo o que vê nos mínimos detalhes.
Quando paro para me orientar, Lita aparece ao meu lado e diz:
– Espero que não esteja chateada porque estamos tagarelando enquanto deveríamos estar procurando Dace. – Seus grandes olhos castanhos pendem para os lados. – É só que... é tão empolgante, com Xotichl sendo capaz de ver, e tudo o mais...
Balanço a cabeça e olho ao redor.
– Então, o que é isso? – ela pergunta. – Onde estamos?
Aperto os lábios e engulo um suspiro. Não quero que minhas amigas saibam o quão perdidas nós realmente estamos.
– Pelo menos sabemos onde estamos? – Ela me dá um olhar esperançoso.
– Vamos para o último lugar em que eu o vi... a Fonte Encantada.
– E o que faremos quando chegarmos lá? – Xotichl pergunta.
Tentando demonstrar mais confiança do que sinto, eu me volto para elas e digo:
– Espero que uma de nós seja capaz de intuir alguma coisa da energia deixada pelo acontecimento.
– Não tenho certeza se entendi. – Lita lança um olhar cético.
– Tudo é energia – Xotichl diz. – Paloma me ensinou isso, mas você também aprende na aula de ciências. E a energia é eterna. Não pode ser destruída.
– Mas pode ser transformada. – Olho para elas. – Foi como fiz nevar. Alquimia simples... transferência de energia. – Começo a andar novamente, virando levemente para a esquerda e esperando que funcione.
– Simples, hein? – Lita caminha penosamente atrás de mim. – Talvez para vocês, mas não para alguém como eu.
– Não tenha tanta certeza – Xotichl comenta. – Não é tão difícil quanto parece, você só tem que captar o conceito. De qualquer modo, já que a energia nunca morre, teoricamente falando, o mesmo é verdade para a energia dos acontecimentos.
– E Paloma ensinou isso para você?
– Ela me ensinou todo tipo de coisa. Mas o mais importante foi ela ter me ensinado como ler as vibrações energéticas tanto de objetos inanimados quanto de coisas vivas.
– Então, por todo esse tempo, você podia ler minha energia? – Lita pergunta, e é claro pelo seu tom de voz que ela não tem certeza sobre como se sente em relação a isso.
– Sim. E, caso esteja se perguntando, é uma visão inesquecível. – Xotichl dá uma gargalhada.
– Seja como for – digo, ansiosa para voltar ao caminho. – A ideia é que cada ato deixa uma marca permanente no espaço em que ocorreu. Embora atos que foram cometidos com muitas emoções (cheios de raiva, medo, tristeza ou mesmo amor) deixem as impressões mais fortes para trás. Então, certamente um ato como Cade me matar, e o que quer que tenha acontecido depois disso, deve ter deixado uma marca forte também.
– Mas como exatamente vamos ver isso? – Lita pergunta, correndo ao meu lado. – Vamos ver diante de nós como um holograma gigante ou algo assim?
– Talvez. – Dou de ombros. – Não posso dizer com certeza, já que nunca fiz isso antes. Tudo o que sei é que, se os antigos Místicos e os cientistas modernos estão certos, o acontecimento ainda está aqui, se repetindo.
– Pessoas diferentes veem de modos diferentes – Xotichl diz. – E algumas nunca verão nada.
– Mas o que são exatamente formas diferentes de ver? – Lita pergunta.
– Pode aparecer como uma imagem real ou como cores representando essas imagens. – Xotichl dá de ombros. – Podem ser vozes e sons. O importante é deixar de lado ideias preconcebidas e inseguranças e simplesmente deixar acontecer.
– Mas, mesmo que você veja alguma coisa, como pode dizer se é real? Quero dizer, como determinar se o que está vendo é um evento real se reencenando e não uma alucinação maluca, miragem ou ilusão? Não seria possível ficar tão preso na lembrança do que passou, que você começa a ver coisas que não estão lá de verdade?
– É uma boa pergunta – Xotichl começa.
– Mas você tem uma resposta para isso também? – Lita ri.
– De fato eu tenho. – Xotichl sorri. – Uma miragem é resultado de luz refratada, ou a curvatura da luz. Uma alucinação é quando você vê coisas que, na verdade, não estão lá. Já uma ilusão é como um truque de mágica, uma aparência enganadora.
– Mas, segundo essa definição, nenhuma dessas coisas está realmente lá.
– A maior parte das pessoas nunca vê o que realmente existe. Elas veem apenas o óbvio; nunca olham atrás do véu. – Xotichl dá de ombros.
– Se você não olha, não pode ver – digo, dando meu pitaco.
– Vocês estão tentando me confundir de propósito?
Xotichl dá uma gargalhada.
– De qualquer modo, se isso não funcionar, Paloma esteve trabalhando psicometria comigo, então posso tentar isso também.
– E o que é isso?
– A habilidade de ler a marca de energia deixada nos objetos. Pode ser muito intenso. Então, não sei, talvez eu possa tocar uma pedra, ou algo assim, e ver o que consigo.
Lita balança a cabeça. Olha para mim quando pergunta:
– Você consegue fazer isso também?
Paro diante de um bosque de árvores com troncos grossos e galhos nus; a formação é a única coisa que me é familiar.
– A coisa mais importante que Paloma já me ensinou é que uma Buscadora deve aprender a ver no escuro, acreditando no que sabe em seu coração.
Lita aperta os olhos e coloca as mãos no quadril.
– Então, basicamente, o que está dizendo é que, embora tenha um arsenal pesado de habilidades mágicas malucas, no fim, você usa seus instintos?
– Nunca falharam comigo. – Levanto os ombros e me ergo na ponta dos pés em um esforço para ver o que está além.
– Se está dizendo isso para fazer com que eu me sinta melhor, deu certo. Vocês duas podem ser um pouco intimidantes com todos esses superdons místicos.
– Todo mundo tem dons místicos – Xotichl diz. – Você só tem que acreditar neles, confiar neles e aprimorá-los.
Lita começa a responder, mas eu a interrompo quando digo:
– Acho que é aqui.
Corro na frente delas. O solado da minha bota deixa rastros profundos na neve enquanto avanço pelas árvores até a clareira, com minhas amigas bem atrás de mim. Xotichl vai direto ao trabalho. Esfrega uma mão na outra e se inclina no chão em busca de pedregulhos, rochas, algo do qual tirar alguma leitura, enquanto Lita fica parada, tremendo, ao meu lado.
– Onde aconteceu exatamente? – Xotichl coloca uma rocha no meio da palma da mão e a rola de um lado para o outro antes de descartá-la por outra.
Vou até o lugar onde Cade enfiou o athame no meu coração e abro os braços.
– Algum lugar por aqui. – Fecho os olhos em uma tentativa de conseguir uma sensação melhor do espaço. E é quando percebo pela primeira vez, desde que cheguei, que não é só o Corvo que está ausente. O ar está tão parado que parece que meu elemento, o Vento, também me abandonou.
Mesmo assim, a Fonte Encantada ainda está aqui. As águas estão geladas pela neve, mas espero que a magia ainda se mantenha. Eu me ajoelho diante da fonte e submerjo ambas as mãos, enchendo as palmas de água, que uso para limpar a ferida em meu peito. As vozes murmurantes das minhas amigas desaparecem ao fundo, enquanto confirmo minhas intenções em silêncio. Lembro-me do que Paloma disse sobre as intenções serem o ingrediente mais importante da mágica.
Pretendo me curar e me fortalecer.
Pretendo descobrir a verdade do que aconteceu aqui depois que parti.
Pretendo que essa verdade me leve a Dace.
E, assim que Dace estiver a salvo, pretendo confrontar Cade – e, dessa vez, pretendo matá-lo.
Meu devaneio é interrompido por Xotichl me chamando:
– Daire... acho melhor você ver isso.