Místico
Trinta e um
Daire
Até agora, o corvo está se mostrando um anfitrião muito hospitaleiro. Permite que eu o guie como quero, enquanto seguimos o caminho feito pelo carro de Phyre.
Ela dirige rápido e focada. Ultrapassa o limite de velocidade até que as rodas traseiras começam a derrapar – deixando grandes nuvens de poeira rodopiarem em seu rastro. Mesmo assim, ela conduz bem, como se já tivesse feito isso antes. Se recusa a diminuir a velocidade até que entra na estrada privativa pavimentada que leva ao imenso complexo em estilo adobe dos Richter, estaciona bem do lado de fora do portão e se acomoda para esperar.
Ela vai matá-lo? Agora? Antes que a maioria das pessoas tome o café da manhã?
Conduzo o corvo até uma árvore próxima. Escolho um galho que me permite uma visão desobstruída e observo através dos olhinhos redondos do pássaro enquanto Phyre abaixa o quebra-sol e inspeciona o cabelo e a maquiagem no espelho retangular empoeirado. Satisfeita com o que vê, fecha o quebra-sol, abre a mão diante de si, enruga os lábios e cospe. Encara a pequena poça de saliva com um olhar tão paralisado que não consigo nem começar a imaginar o que está fazendo.
Está entediada? Perdeu o juízo completamente? É outro método de vidência, no qual ela tenta ler um significado mais profundo em formação nas bolhas, como algumas pessoas fazem com folhas de chá?
O devaneio dela é interrompido pelo zumbido eletrônico dos pesados portões de ferro se abrindo, enquanto a brilhante caminhonete preta quatro por quatro de Cade sai. Observo quando ela seca a mão na perna, salta do carro e, com os braços abertos, para bem diante dele.
Cade freia com força. Os pneus gritam em protesto, o que é surpreendente por si só. Eu teria imaginado que ele passaria sobre ela sem olhar para trás.
A caminhonete dele balança para a frente, ele abaixa o vidro da janela e coloca o pescoço para fora.
– Que diabos é isso? – ele grita. – Você ficou... louca?
– Talvez. – Ela pisca. Sorrindo sedutoramente, aproxima-se da janela aberta no lado do motorista. – Só tem um jeito de descobrir. – Ela se inclina na direção da porta e inclina a cabeça de lado, fazendo com que uma mecha de cachos caia em seus olhos.
– Não tenho tempo para loucas – Cade diz, nem um pouco intrigado. – Como pode ver, estou com um pouco de pressa.
– Que pena – diz ela fazendo beicinho. – Eu esperava que tivesse tempo para mim.
– E por que eu teria? – Suas feições demonstram irritação, embora, se eu não estiver enganada, sua voz o traia com uma pitada de interesse crescente.
– Porque me sinto sozinha. Apesar de todos os meus amigos, sinto como se ninguém me entendesse de verdade.
– E eu entendo? – Ele passa a mão pelos cabelos curtos e bufa em tom de diversão, mas Phyre permanece irredutível.
– Temos uma conexão, Cade. Não tente negar isso. Sabe que há algo entre nós. E então eu pensei que talvez pudéssemos sair. Ficar um na companhia do outro, ou alguma coisa...
O rosto dele permanece plácido, difícil de ler. Mas noto que ele não a afasta.
– Eu estava a caminho da cidade. Mas então pensei que podia dar uma passada aqui e ver o que você estava fazendo. – Ela passa lentamente o dedo pela borda da porta, mas, apesar da atração, Cade não está entrando no jogo dela.
– Sei que vive em um trailer acabado, Phyre. Este dificilmente é seu caminho para a cidade. Sem mencionar que são seis da manhã. Você costuma visitar as pessoas tão cedo?
– As pessoas, não. Só você. – Ela ergue o queixo e sorri através de uma mecha de cachos. – Sei que gosta de sair para uma corrida matinal. Pensei que talvez pudesse ir com você.
Cade olha para ela, os olhos brilhando quando diz:
– Você não está exatamente vestida para correr.
Ela ergue um ombro. Puxa a minissaia. Continua sorrindo diante dele.
– Está me perseguindo, Phyre? – A voz dele é baixa, quase rouca. Mas não consigo ler seu tom. É desejo? Nojo? Será que vai fazê-la implorar? Porque ela está bem perto disso.
– Perseguindo, não. É mais como... admirando – ela diz. – Há uma diferença, você sabe.
Ele a encara, balançando a cabeça para a frente e para trás, como se pesasse os prós e os contras de uma corrida matinal versus um rolo rápido com uma garota bonita.
– Eu podia lhe mostrar a diferença. Se estiver disposto... – Ela morde o lábio, se afasta um passo do carro. Mostra-se como uma oferenda, deixando a decisão para ele.
– Você está atrás do quê? – Ele mexe a mandíbula, analisando-a com um olhar profundo e penetrante.
Ela se aproxima dele, se inclina na janela aberta e diz:
– Escute, não vejo por que ficar com joguinhos, então é o seguinte: eu gosto de você.
Ele assente como uma pessoa que está acostumada a ser admirada, nunca lhe ocorreria questionar a palavra dela.
– E agora que você e Lita se separaram, eu pensei que talvez...
– Você tem um fetiche por gêmeos? É isso? – Ele é rápido em interrompê-la.
Ela fica paralisada.
– Você não costumava sair com meu irmão?
Ela morde o lábio e desvia o olhar.
– Esse é seu jeito de manter a memória dele viva?
– Não. – Ela se volta para ele com um rosto franco, ansioso. – Sei que você não é como ele. Posso ver a diferença. Você é mais sombrio. Mais perigoso. E é exatamente essa escuridão que me atrai em você.
Cade estreita os olhos. Seus dedos tamborilam no volante.
– Cuidado com o que deseja – ele diz. – Está se aventurando em um território que não entende.
– Não esteja tão seguro disso. – Ela coloca a mão no braço dele. As pontas de seus dedos acariciam a pele dele, sua língua molha a ponta dos lábios.
E, por mais tolo que pareça daqui, do lugar em que Cade está, a cena contém um certo encanto.
As feições dele se atenuam. Seu olhar turva. E, quando o vejo entreabrir os lábios, é claro que está fisgado.
Phyre se aproxima. Molha os lábios novamente. Deixa-os brilhantes. Úmidos. Molhados. Prontos para ele.
E, sem saber por que, tenho essa vontade incrível de detê-los. Convencida no fundo da minha alma que esse não é um beijo comum.
É o primeiro passo para matá-lo. Ela vai seduzi-lo, deixá-lo vulnerável, e então acabar com ele de um jeito que ele não poderia prever, para que possa apresentar o relatório ao pai de que sua missão está cumprida.
Se ela matar Cade, ela mata Dace. E não vou deixar isso acontecer.
Eles inclinam as cabeças para lados opostos. Cada vez mais perto, os lábios a milímetros de distância, quando o corvo abre as asas e desce até eles.
Phyre grita, bate as mãos freneticamente na cabeça, então grita ainda mais alto quando um monte de penas negras brilhantes caem sobre seus pés.
Cade se ajeita em seu assento e volta sua atenção para mim.
– Parece que o Corvo é contra esse encontro amoroso em particular – diz, me dando um aceno com a mão, antes de pisar fundo no acelerador e deixando Phyre parada sozinha na rua.