Místico
Trinta e dois
Dace
O corpo de Daire respirando serenamente está deitado ao meu lado. A cabeça no meu colo, as longas pernas esticadas diante de mim. Passo a mão sobre seu rosto, sussurro palavras suaves que ela não pode ouvir. Neste momento, ela é como eu. Viva, respirando, mas sem alma. A força verdadeira de sua energia está fazendo uma jornada, e cabe a mim cuidar dela.
Fico em meu lugar no extremo oposto da cabana. Observo enquanto Suriel entra e sai do trailer. Suas ações são deliberadas, intencionais. Seu corpo treme, como se tivesse tomado café demais.
Só que Suriel não toma café.
Ele evita todas as formas de estimulantes.
Evita tudo que crie uma falsa sensação de euforia.
Só há um caminho para o céu, ele afirma. E é claro que a agitação de suas mãos, o tremor de seus joelhos, é resultado direto de suas crenças delirantes de grandeza. Sua certeza absoluta de seu lugar exaltado no mundo.
Ele é um psicopata, pura e simplesmente.
Ele é a própria coisa contra a qual prega.
Observo enquanto ele sai do trailer, desta vez carregando uma bolsa que reconheço do nosso encontro no Mundo Mediano. Ele a deixa cair no último degrau, antes de se sentar sobre ele. Então enfia uma mão lá dentro e retira a estaca incrustada de sangue, segurando-a diante de si. Olha para ela com o tipo de admiração desequilibrada, enlouquecida, que é fácil ver daqui.
Guardando a estaca de volta na bolsa, ele pega uma garrafa cheia de algum tipo de líquido claro com o qual se unge – derramando-o em sua testa, no queixo.
Água-benta.
Fico surpreso que ele não arda em chamas.
Quando termina o ritual, ele fecha a bolsa, deixa-a no degrau e vai para a cabana, onde começa a fazer uma quantidade tão grande de barulhos de dobradiças rangendo, sons abafados de coisas sendo arrastadas, e gritos estranhos e sobrenaturais, que minha curiosidade leva a melhor e me arrasto até uma janela quadrada e imunda na parte de trás, limpo um espaço com os dedos e olho lá dentro.
No início, é difícil entender o que ele está fazendo. Auxiliado apenas pela única lâmpada que pende sobre a cabeça dele, preciso de um tempo para que minha visão se ajuste. Mas não demora muito até que eu consiga discernir a silhueta de Suriel, ocupado em montar uma pilha de bastões vermelhos com marcadores digitais bem presos ao redor deles, que, apesar da iluminação falha, não podem ser confundidos com outra coisa além dos explosivos que são.
Que diabos ele está aprontando?
Chego mais perto da janela. Limpo um espaço maior, para ver melhor.
O barulho dos meus dedos se movendo pelo vidro alerta Suriel da minha presença.
Ele ergue a cabeça. Centraliza o olhar bem em mim.
E, embora eu saiba que preciso dar meia-volta, por alguns segundos aterrorizantes fico paralisado no lugar, com as pernas prontas para fugir.
Ele repuxa os lábios, sorrindo como se minha presença do outro lado da janela lhe trouxesse uma alegria indescritível. Então derruba o maço de explosivos na pilha, seca a palma das mãos na lateral do terno e pega um pé de cabra velho e enferrujado que usa para erguer a tampa de uma caixa bem grande. Solta uma besta de olhos arregalados que mantém presa por alguma razão insondável.
A visão de seu focinho arrebitado, da fileira de dentes afiados como os de um tubarão gotejando com sede de sangue quando volta sua atenção para mim, me faz lembrar dos avisos de Axel:
– Você tem que ser vigilante com seus pensamentos, suas ações, consigo mesmo.
Eu me voltei para ele com um olhar de interrogação.
– Sem a alma, você é como um recipiente vazio. O que o deixa vulnerável à possessão de demônios.
Lancei um olhar incrédulo para ele. Certo de que estava exagerando.
– Os demônios estão por toda parte. Vêm em diferentes formas. São capazes de aparecer na forma de espíritos, assim como em suas formas medonhas de demônios... dependendo de qual dimensão estão. Mas uma coisa que todos têm em comum é o desejo de se materializar e viver sob a aparência de um humano. Mas, a fim de fazer isso, eles precisam ou de um corpo disposto, ou de um corpo vazio, sem alma. Corpos sem almas são sempre preferidos, embora obviamente mais difíceis de aparecer. Eles irão atrás de você, Dace. Vão farejá-lo a quilômetros e não pararão até alcançar você.
– Está dizendo que sou uma isca ambulante e falante de demônios?
Os olhos cor de lavanda de Axel ficaram sombrios.
– Se isso é verdade, por que não me quiseram antes? Quando eu estava no covil deles?
– Você estava fraco e ferido. Ironicamente, foi a única coisa que o salvou. Mas agora que está curado... – Ele soltou um profundo suspiro enquanto seus olhos encontravam os meus. – Vigilância, Dace. Até conseguir sua alma de volta, não pode se dar ao luxo de relaxar. – Ele estava desaparecendo diante de mim quando disse isso, sua forma começando a ficar pouco perceptível.
– Aonde está indo? – perguntei, sem ter certeza do que fazer com aquilo.
– Tenho que encontrar meu caminho de volta. Já interferi em sua vida mais do que devia.
– Mas e se eu precisar de outra infusão de energia? – perguntei, observando os olhos dele se estreitarem de arrependimento.
– Assegure-se de localizar sua alma antes disso.
Embora o aviso fosse para mim, não sou o único corpo sem alma em perigo.
A besta se atira contra a parede dos fundos, fazendo a madeira se partir e rachar, até que começa a ceder. Isso me deixa apenas com alguns segundos para decidir o que fazer a seguir.
Devo lutar contra ele?
Matá-lo?
Espancá-lo até transformá-lo em um amontoado de carne e vê-lo sangrar no chão?
Ou devo tentar pegar Daire e sair dali?
Com o corpo inerte espalhado na terra, ela parece tão indefesa, tão vulnerável, que não há dúvidas de que tenho de fazer o que for preciso para deixá-la em segurança.
Lutarei com o demônio se chegar a esse ponto.
Mas só se chegar a esse ponto.
O demônio continua a derrubar a parede. Suas garras rompem em primeiro lugar, seguidas por um pé, enquanto Suriel grita e berra lá de dentro, incitando-o.
Eu me precipito até o corpo de Daire, pego-a em meus braços e corro até Kachina. Lembro tarde demais que Kachina tem medo de mim. Não há garantia de que ela me ajudará.
Embora esteja inclinada a ajudar Daire.
Ela corre ao meu lado e abaixa o pescoço, permitindo que eu coloque Daire em suas costas, bem quando alguma coisa se quebra atrás de mim, e o demônio se arrasta em nossa direção.