Místico
Vinte e três
Daire
Eu me deixo cair ao lado do corpo arrasado, meus dedos cavando freneticamente através de camadas de terra. Limpo os resíduos de suas costas, agarro seu ombro e tento virá-lo de lado, até que ele murmura alguma coisa incoerente e me empurra para longe.
– Dace... por favor, sou eu! – grito, tentando fazê-lo me encarar novamente, mas ele é rápido em me recusar.
– Ele está gravemente ferido e severamente traumatizado – a voz de Axel vem de trás. – Ele está aqui embaixo tempo demais para acreditar que é você de verdade. – Seu tom de voz é direto, sem nenhum indício de presunção; mesmo assim, suas palavras não chegam a lugar algum.
Determinada a ignorá-lo, eu me inclino mais perto, pressiono os lábios no ouvido de Dace e o incentivo a abrir os olhos e ver que sou eu. Só para que meu coração mergulhe em desespero quando ele se encolhe sob meu toque e aperta ainda mais os olhos fechados.
– Acabe comigo ou me deixe! – ele resmunga em uma voz tão avariada que mal reconheço como dele.
– Nunca vou acabar com você. E não tenho intenção de sair sem você – digo, tentando forçá-lo a ficar de lado até que seu rosto está a centímetros do meu. – Dace, por favor! – imploro, pegando a chave em meu pescoço e segurando-a diante dele. – Você tem que se lembrar disto, tenho certeza de que se lembra. Uso isto como símbolo do nosso amor e lhe dei uma igual. – Deslizo a mão sob seu suéter manchado de sangue, esperando que a chave dele ainda esteja lá, que ele não a tenha perdido na jornada infernal até aquele lugar. Dou um suspiro de alívio quando a envolvo com os meus dedos e a trago para perto de seu rosto. – Diga que se lembra. Diga que não se esqueceu do tempo que passamos juntos. – Pressiono as duas chaves juntas, para que combinem perfeitamente, então abaixo meus lábios até os dele e o beijo até que ele por fim cede e me beija de volta.
Suas pálpebras se abrem. Seus olhos encontram os meus. E quando vejo o vazio dentro deles, meu coração se desmancha dentro do peito.
Sem alma.
É realmente verdade.
Mas, quando ele leva uma mão até o meu rosto e encosta a palma na minha bochecha, sei que algo de Dace ainda persiste.
– Sonhei com você tantas vezes – ele diz. – Como sei que não estou sonhando agora?
– Porque estou aqui. Isso é real. E teria estado aqui antes, mas...
– Então estou morto. – Seu rosto é invadido por um alívio inexplicável. – Eu finalmente consegui, e agora podemos ficar juntos para sempre.
– Não! – Nego com a cabeça, desesperada em refutar aquilo. – Ninguém está morto. Nós dois estamos vivos. E agora vou tirar você daqui.
Mas, antes que eu possa terminar, ele já se virou. Fecha os olhos em recusa e diz:
– Você morreu. Eu vi você morrer. Eu vi tudo o que aconteceu.
– Não tudo o que aconteceu! – grito, minha garganta seca e apertada, mas obrigo as palavras a saírem. – Muita coisa aconteceu, mas veremos isso mais tarde. Por enquanto, preciso que confie em mim o suficiente para ajudá-lo a sair daqui. Ok? Dace?
Ele se solta do meu abraço. Sua consciência desaparece, sua voz se arrasta e ele diz:
– Estou sem alma... não sirvo para você agora...
Tento erguê-lo, apoiá-lo em meu ombro. Mas, em seu estado inconsciente, é como levantar um peso morto muito grande.
Olho por cima do meu ombro, encarando Axel enquanto luto para tentar levantar Dace.
– O mínimo que você poderia fazer é ajudar – digo até olhar para ele, incrédula, enquanto ele permanece resoluto no lugar. – Se existe um resquício de decência em você, você deveria...
Antes que eu consiga terminar, ele diz:
– Não é minha função ajudá-lo. – Começo a bufar de indignação e estou prestes a comentar sobre o egoísmo inacreditável de Axel, quando ele prossegue: – Eu nem devia estar aqui. É minha função guiá-lo, nada mais do que isso. Mas agora temo que ultrapassei alguns dos meus limites mais sagrados. – Ele me lança um olhar de incerteza e passa a mão pelos cachos platinados; embora eu não tenha ideia do que quer dizer, estou longe de gostar daquilo.
– Ouça, Axel – digo. – O negócio é o seguinte: ou você me ajuda a levantar Dace, ou saia do meu caminho. Não tenho tempo para jogos de palavras, e absolutamente nenhum interesse em seu dilema existencial. Com ou sem você, Dace e eu sairemos daqui.
Puxo a jaqueta de Dace mais uma vez, finalmente conseguindo alguma tração, quando Axel solta um suspiro profundo e dá a volta para ficar do outro lado. Erguendo Dace com facilidade por cima do ombro, ele olha para mim e diz:
– Eu provavelmente deveria dar uma explicação. Sou o guia espiritual de Dace.