Místico

Alyson Noël · Capítulo 42 de 47

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Místico

Quarenta e um

 

Daire

Quando Jacy e Crickett caminham diante de mim e entram no banheiro, digo a Dace que voltarei logo e disparo atrás delas. Imagino que, como novas melhores amigas de Phyre, há uma chance muito boa de que possam me dizer onde encontrá-la.

Elas se arrumam diante do espelho. Tiram as máscaras, colocam-nas sobre a prateleira comprida de metal e ajeitam os cabelos. Jacy acerta a franja de lado, enquanto Crickett afofa as pontas dos cabelos, e eu paro bem atrás delas, tentando não engasgar com as baforadas perfumadas de álcool que emanam delas.

– Onde está Phyre? – pergunto, sem tempo a perder com conversa fiada.

Elas continuam a se embelezar, permitindo que alguns segundos se passem antes que eu realmente confirme que estão me ignorando.

– Só me digam onde posso encontrá-la e não incomodarei vocês novamente – proponho, mas elas fingem não ouvir.

Se eu não estivesse tão pressionada pelo tempo, provavelmente ficaria assustada com o nível de profunda concentração e comprometimento delas. Mas acontece que estou com um pouco de pressa. E, embora eu saiba que não deva fazer isso, uma vez que Paloma me avisou desde cedo sobre os perigos de usar minha mágica de maneira imatura, não consigo pensar em outra maneira de chegar até elas.

Então, no segundo em que o gloss labial sai das respectivas bolsas – exatamente ao mesmo tempo, como se tivessem ensaiado (o que é incrível, considerando-se o estado atual de embriaguez delas) –, eu me concentro, levanto a mão e arrasto os dois aplicadores pelas laterais de suas bochechas. Pinto compridas faixas lilases e rosadas que seguem dos lábios até a orelha, antes de arremessar os aplicadores no outro lado do banheiro, onde eles se chocam contra a parede e aterrissam no chão de ladrilho imundo.

– Estão prontas para prestar atenção em mim e me dizer onde Phyre foi com Cade? – Dou dois segundos para que possam refletir. – Porque, caso contrário, as bolsas serão as próximas. E vocês virão logo em seguida.

Elas olham uma para a outra em comunhão silenciosa, e Jacy é a primeira a ceder.

– Ela tomou o seu lugar – diz, fazendo uma careta quando destaca a terceira palavra.

Meu lugar?

Olho para o espelho, surpresa com o que vejo. Tinha quase me esquecido. Estou usando a máscara de Marilyn da Lita. E elas estão tão fora de si que me confundiram com ela.

– Ela saiu com Cade... não que seja da sua conta. Quero dizer, me desculpe, mas não foi você quem terminou com ele? – Jacy coloca a mão no quadril, oscila sobre os calcanhares e usa a mesma mão para se equilibrar de novo.

– Exatamente onde ela foi se encontrar com ele? – Mudo meu foco entre elas, falando mais como uma exigência do que como uma pergunta.

Elas se entreolham, pesando silenciosamente se devem ou não me contar. Então dou um pequeno incentivo: levanto a bolsa de Crickett que está na pia e a trago até minha mão. Planejo ficar com ela como refém até que alguém responda.

– Lá fora – ela diz, olhando cautelosamente para sua bolsa de marca falsificada, agora sob minha posse.

– Lá fora onde? – Balanço a bolsa diante dela.

– Lá fora, perto do alambrado. Supostamente era para ser um tipo de espaço sagrado, romântico ou algo assim. Olhe... seja como for. Eu só... posso pegar minha bolsa de volta?

Estou prestes a entregá-la, quando noto o pingente brilhante de turmalina azul que ela usa no pescoço.

– Onde conseguiu isso? – pergunto, tendo de obrigar meu olhar a desviar da pedra para voltar meu foco para elas.

Crickett balança a cabeça e revira os olhos.

– Credo, você sempre foi irritante assim? – Ela olha para Jacy em busca de resposta.

– Onde conseguiu isso? – Levanto a bolsa mais alto, pendurada pela alça curta de vinil.

– Na sacola de brindes. Todo mundo ganhou um na porta. Ok? Feliz agora? – Crickett dá um suspiro dramático e leva a mão para a frente, arrancando a bolsa de mim.

– Não – digo. Isso não me deixa nem um pouco feliz. – Mas ajuda. – Corro até a porta, ansiosa em contar a Dace o que descobri, até ver que Dace não está ali.

Passo pela multidão de foliões de Ano-Novo embriagados, buscando Dace entre eles, mas ele não está à vista. E, agora que sei o que sei, não há tempo para procurá-lo. Tudo o que posso fazer é desejar que ele esteja bem, enquanto vou atrás de Phyre e Cade.

Disparo pela saída, correndo até o alambrado com o pequeno cadeado dourado pendurado nele. Phyre deve ter nos visto na noite em que eu o coloquei lá. Não há outra maneira de ela saber que o lugar tinha algum significado especial.

E, no momento em que o alambrado surge no meu campo de visão, eu a encontro bem onde esperava.

As costas pressionadas contra a cerca, a máscara de gato jogada aos pés, enquanto Cade aparece diante dela.

Ela passa um braço ao redor do pescoço dele e o puxa para perto, inclinando o rosto dele na direção do dela, prestes a fazer contato, quando corro por trás deles, puxo o casaco de Cade com força e o afasto dela.

– Você está... louca? – ela grita, a expressão indo do espanto à fúria no momento em que vê que sou eu. Apela para Cade quando diz: – Faça alguma coisa! Detenha-a... faça ela ir embora!

Mas Cade só fica parado ali e sorri.

– Nunca imaginei que fosse do tipo ciumenta, Santos. – Ele abaixa a cabeça, passa a mão nos cabelos. – Mas imagino que as notícias não são boas. O problema é que não estou a fim de você. – Ele levanta o rosto e para tempo suficiente para que as palavras aterrissem... ou melhor, me devastem. – Sim, eu sei que é você, Buscadora. Bela tentativa com a troca das máscaras. Embora tenha sido capaz de enganar Debi e Lóide lá dentro. – Ele faz sinal com o polegar na direção do clube: uma pequena referência velada a Jacy e Crickett que não faz sentido.

Como ele poderia saber que elas me mandaram para cá?

Mas eu mal tenho tempo de pensar antes que ele prossiga:

– Seu pequeno ardil é muito imaturo para enganar alguém como eu. Veja, posso sentir seu cheiro de Corvo a um quilômetro de distância. E tenho que dizer, Buscadora, que esse jogo que você insiste em fazer está ficando mais do que um pouco cansativo. É a segunda vez que você interrompe Phyre e eu, e isso está realmente começando a me irritar. Se quiser sentar e assistir, não tenho problema com isso. Que saco, você até podia aprender algumas coisas. Mas, se interferir mais uma vez, você morre. E desta vez de verdade. Entendido?

Com um balanço irritado de cabeça, ele se volta para Phyre, que estava esperando por ele com olhos vidrados e lábios brilhantes.

Ele se posiciona diante dela, e ela enrosca uma perna ao redor dele, puxando-o, enquanto ele se prepara para beijá-la. E, apesar do aviso, eu puxo o casaco dele mais uma vez, exclamando:

– Se beijá-la, você morre!

Phyre segura o colarinho dele com força, os dedos afundados no tecido, incentivando-o a chegar mais perto. Mas Cade coloca uma mão no peito dela, mantendo-a distante enquanto ele olha por cima do ombro.

– O beijo dela é letal. Ela é uma mulher-veneno. Acredite em mim, você não quer fazer isso. E tenho certeza de que há várias outras garotas com quem você pode ficar – as palavras saem apressadas.

– Centenas – ele diz, os olhos brilhando, a língua se mexendo embaixo da bochecha. – Milhares.

Reviro os olhos.

– Seja como for. Só saiba que, se insistir em beijar essa aí, provavelmente será a última.

O rosto dele se enruga de raiva, enquanto ele profere uma corrente de xingamentos em voz baixa. Voltando-se para Phyre, ele força a mão contra o peito dela e a empurra contra o alambrado.

Solto um pequeno suspiro de alívio. Estou pronta para voltar minha atenção para localizar Dace, quando Cade olha por cima do ombro novamente e me dá um grande sorriso feroz.

– Quanto tempo levou para descobrir? – Os dedos dele se enroscam na garganta de Phyre, apertando com tanta força que a maior parte do ar dela é cortada. – Porque eu soube desde o primeiro dia que ela voltou à cidade. Eu podia sentir o hálito de oleandro a quilômetros de distância. – Ele alterna o foco entre nós duas, e luto para conter meu pânico crescente.

Ele sabia o tempo todo!

Isso tudo é uma armação!

Penso no athame em meu bolso, querendo usá-lo – mas que bem isso faria? Machucar Cade significa machucar Dace: essa é uma verdade que eu não posso perder de vista.

– É como eu lhe disse antes, Buscadora... o Coiote tem sentidos formidáveis. Para sua grande desvantagem, você sempre se esquece disso. E, como está prestes a ver, me subestimar se provará mortal. Estive planejando isso desde aquele incidente infeliz quando você colocou fogo em mim. – Ele estala a língua contra o céu da boca, emitindo um som de tique-taque ameaçador. Mas se aquilo é para zombar de mim ou para me assustar, não sei dizer. – Hoje se provará ser uma grande noite para mim, e (alerta de spoiler!) será assim: eu mato você, Suriel mata Dace e ninguém me mata. – Ele destaca as notícias com uma piscadela e um sorriso. – Caso tenha se esquecido, tudo o que tenho a fazer é me transformar para que a morte do meu irmão não me afete.

Apesar de tudo o que ele disse, ainda estou presa na parte sobre Suriel matar Dace.

Olho para trás, olho ao meu redor, mas somos os únicos aqui.

Certamente Dace ficará longe de Suriel, assim como eu o adverti, certo?

O rosto monstruoso, calculista e belo de Cade surge diante de mim – uma réplica exata do de Dace e, mesmo assim, inteiramente diferente.

– Nada acontece em Encantamento sem meu conhecimento. Sempre fico consternado com a aprendiz lenta que você é. Devia saber disso a essa altura. Controlo esta cidade e as pessoas que moram nela. Acontece, Buscadora, que isso inclui você. – Ele aperta e solta o punho, sorrindo com grande satisfação, enquanto Phyre arqueja e tremula a cada respiração curta. Finalmente cansado do jogo, ele abre a mão e, entediado, observa sem interesse enquanto ela afunda no chão em um espasmo de tosse, antes de voltar sua atenção para mim. – Estou cansado de você atrapalhar meus negócios. Cansado de você rondando meu clube e minha cidade. – Ele dá um passo na minha direção, então outro, até que quase nos tocamos. – Estou cansado de você, Buscadora. E sabe o que acontece quando me canso de algo?

– Você doa para a caridade? – brinco, ao vê-lo parado diante de mim com os braços abertos de lado a lado, os olhos vermelhos e ardentes, ciente demais do que acontece na sequência. O crescimento vigoroso, seguido por um pé com garras, a pele escamosa e duas cabeças de serpente saindo do lugar em que sua língua deveria estar.

Entendo isso como minha deixa para dar o fora.

Não tenho interesse em lutar com ele. Embora não duvide nem um segundo da sua intenção de me matar, também sei que ele fará o que for preciso para adiar o momento. Vai manter a luta em pé, arrastá-la muito mais do que o necessário, só para dar a Suriel tempo suficiente para matar Dace sem minha interferência.

Não no meu turno.

Com apenas alguns centímetros entre nós, eu tiro minha máscara e a jogo nele. Um ato que é inegavelmente inútil, mas me proporciona alguns segundos de vantagem que me permitem girar sobre os calcanhares e correr como o vento.

Corro pelo campo coberto de neve, seguindo as pistas frenéticas que Phyre deixou no caminho.