Místico
Vinte e sete
Daire
Depois de ligar para Paloma para resumir o que aconteceu e dizer que estamos a caminho, eu me viro para meus amigos e digo:
– Então, alguma novidade? Algum sinal de Cade? – Fico de olho em Dace, apavorada por sua respiração irregular, o modo como sua pele permanece úmida e fria, apesar das minhas tentativas de aquecê-lo.
– Ah, nós o vimos. Falamos com ele também. – Lita me olha de relance. – Ele estava todo sedutor. Tentando me convencer a voltar com ele. Como se fosse possível. – Ela espia Axel sentado ao seu lado, seus lábios se esgueirando em um sorriso. E não sei o que me incomoda mais: a tentativa de Cade de voltar com ela ou o modo como Lita aproveita para chamar a atenção de Axel.
– Ele deu em cima de você no meio do seu encontro? – pergunto de forma incontestavelmente direta. – Isso é bem indelicado, até para Cade.
– Greyson chegou mais tarde. – Lita alterna sua atenção entre Axel e mim. – Além disso, não era um encontro. Ou pelo menos não da minha parte...
Antes que ela possa ir mais longe, Xotichl a interrompe.
– Nada disso importa – diz. – Mas pode ser que isto sim. – Ela joga algo na mão de Lita e pede que ela passe para mim. – É uma turmalina – ela explica enquanto encaro a pedra azul brilhante na minha mão. – O que acha? Percebe alguma coisa?
Eu me concentro na pedra, tentando apreender o que consigo. Noto como parece perturbadoramente quente. Mas pode ser porque estava na bolsa dela, ou porque estou acostumada ao toque gelado de Dace. A única coisa que sei com certeza é que veio da malfadada mina de Cade.
– Não tenho certeza do que pensar. – Esfrego os lábios e continuo a examiná-la. Sou incapaz de detectar qualquer coisa fora do comum. Ou, pelo menos, na superfície. Não tenho dúvida de que há mais nisso do que o olho pode notar. Cade não é conhecido por ser altruísta. Um presente do Coiote sempre tem um preço. – Ele disse por que deu isso para você? – Envolvo a pedra com os meus dedos, fecho os olhos e busco arduamente por uma impressão mais profunda, mas continuo sem nada.
– Acho que ele sente minha falta. Não consegue vislumbrar um futuro sem mim. Lita dá outro olhar de relance para Axel. – Então está determinado a me ter de volta e pensou que uma pedra de valor incalculável pudesse ajudar. Como se fosse capaz de me comprar com tanta facilidade. Por favor!
Deu certo com Marliz. A imagem de Marliz olhando para o novo anel de noivado de turmalina que Gabe lhe deu vem à minha mente.
– A pedra tem uma energia estranha e perturbadora – Xotichl diz, interrompendo meus pensamentos. – E ainda que eu não consiga lê-la claramente, imaginei que pudéssemos dá-la para Paloma e ver o que ela diz.
Continuo a girar a pedra na mão.
– Parece quente – digo. – É tudo o que consigo notar. Mas não sou tão boa em leitura de energia quanto você.
– Posso vê-la? – Axel estende a mão. Com os lábios apertados e uma aparência sombria, ele assume uma expressão pensativa enquanto a examina com cuidado. – Você diz que parece quente, mas, para mim, é o oposto. Quase como se estivesse refrigerada ou algo assim.
– É como parece para mim também. – Lita sorri, os olhos brilhando sedutoramente. – Parece tão fria quanto o coração de Cade Richter. Outra razão pela qual eu estava ansiosa para jogar isso fora.
Tiro a pedra de Axel e a jogo na minha bolsa.
– Mostrarei para Paloma e verei o que ela acha – digo, abrindo a porta do carro no segundo em que vejo o portão azul da casa de Paloma, bem antes de Auden ter uma chance de parar propriamente.
Paloma nos encontra na porta com um ar sombrio e um rosto sério. Lança um olhar preocupado para o estado ferido e inconsciente de Dace e corre conosco até seu escritório, onde o colocamos na maca acolchoada que ela reserva para os casos mais graves. Então rapidamente saímos do caminho e damos espaço para que ela possa trabalhar.
– Onde o encontrou? – ela pergunta. Depois de avaliar a energia dele, Paloma limpa as mãos nas laterais do vestido e se ocupa com os numerosos frascos de poções e ervas.
A expressão sombria dela faz minha voz tremer quando digo:
– Eu o encontrei bem onde esperava... no canto mais profundo e sombrio do Mundo Mediano. Já esteve lá?
Com um breve aceno de cabeça, em concordância, ela começa a encher uma tigela com água purificada, enquanto me instrui a pegar um pano limpo na gaveta de cima, perto da pia, para que eu possa usá-lo para limpar a pele de Dace.
É um trabalho mecânico. Ótimo para ajudar a acalmar meus nervos, me distrair da lista crescente de preocupações. Mesmo assim, estou grata por fazer alguma coisa, então sou rápida em obedecer.
– Ele permaneceu inconsciente a viagem toda – digo para ela, passando suavemente o pano úmido sobre a testa de Dace e descendo até sua bochecha, removendo uma crosta grossa e persistente de sangue e resíduos. – O que foi melhor, pode acreditar em mim. No entanto, se ele despertar e começar a agir de modo estranho, não fique assustada. Ele está profundamente traumatizado. Convencido de que está sonhando. – Minha voz falha, ao me lembrar do olhar assombrado em seu rosto quando o encontrei, incapaz de imaginar o tipo de horror que ele viu.
– Mesmo assim foi capaz de carregá-lo todo o caminho de volta por conta própria? – Paloma ergue uma sobrancelha, lançando um olhar de interrogação para mim.
Nego com a cabeça. Mergulho o pano na tigela. Observo como a água imediatamente escurece até um tom marrom-avermelhado escuro.
– Axel estava lá. Eu não poderia ter feito isso sem ele. – As palavras deixam um gosto amargo em minha língua, enquanto aponto com o polegar na direção de Axel, mostrando seu lugar na parede. Observo perplexa quando Paloma olha por cima do ombro e aperta os olhos para tentar ver. – Você não consegue vê-lo, consegue? – digo, atordoada e em silêncio quando ela balança a cabeça para confirmar.
Paloma não consegue vê-lo, mas Lita consegue?
– Não importa – ela diz. – Não preciso vê-lo para utilizar suas habilidades curativas.
Dou uma espreitadela em Axel e franzo as sobrancelhas.
– A mágica dele não está funcionando – digo. – No máximo está tendo o efeito contrário.
Sem chance de ele colocar as mãos em Dace. Não depois do que fez com a árvore!
Mas Paloma me ignora, chamando Axel ao seu lado enquanto cobre os ferimentos de Dace com um unguento grosso de ervas.
– Ele está aqui? – Ela faz um gesto para a sua direita, sentindo o momento em que Axel assume o lugar bem ao lado dela.
– Sim, mas, abuela, você tem que saber, a mágica dele...
– Não preciso da mágica dele – ela é rápida em pôr um fim ao meu argumento. – Preciso da intenção dele. São nossos guias espirituais que nos permitem realizar curas. Eu não faço a mágica, nieta. Eu simplesmente sirvo como um canal para a energia benevolente deles. Tanto você quanto Axel amam Dace. Isso é bem claro. E já que o Amor é a maior força do universo, preciso que vocês dois se concentrem nesse Amor, enquanto tento transferir essa energia de cura para os ferimentos de Dace. – Então, olhando para mim, ela acrescenta: – Uma Buscadora sempre tem algo com o que trabalhar, nieta. Mesmo nas épocas mais sombrias. Algumas vezes, intenção é tudo do que precisamos.
– Algumas vezes? Você quer dizer como desta vez, certo?
Minha voz é estridente, muito ansiosa, implorando pelo tipo de garantia que ela não pode me dar. Em vez disso, ela faz sinal para que eu pegue a mão de Axel e, no início, não posso deixar de hesitar. Os gêmeos estão conectados de maneira mística, o que quer dizer que o ato de energizar Dace também vai beneficiar Cade. Mas, com um aceno de cabeça severo de Paloma, não demora muito até que os dedos de Axel segurem os meus, eu feche os olhos e projete todo o Amor que tenho no coração ao corpo inerte de Dace.