Mulheres Poderosas Têm Ambição

Heather McGregor · Capítulo 3 de 13

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Mulheres Poderosas Têm Ambição

Capítulo 1

 

 

O que você sabe

 

A o começar a ler este livro, sua primeira pergunta provavelmente deve ser: “O que posso fazer para me dar as melhores chances de sucesso em minha carreira?”

Se essa não for a sua pergunta, sugiro que deveria ser.

Vamos começar com algo que parece óbvio e que ainda assim não costuma ser o primeiro pensamento das pessoas: você precisa ter certeza de que possui a experiência e a qualificação certas. A isso se resume o conceito de “o que você sabe”, que certamente não foi substituído por “quem você conhece”.

“O que você sabe” – isto é, os elementos passíveis de serem demonstrados no currículo – é a pedra fundamental de toda e qualquer carreira. Entenda isso antes de dar o próximo passo.

Às vezes sou acusada de ser obcecada por qualificações, e é verdade que tenho três diplomas superiores. Nenhum deles, porém, me equipou com alguma capacidade particularmente relevante. A única coisa da qual me lembro, por conta do diploma universitário, é de um diagrama mostrando como o Japão apoia sua rizicultura. Do MBA recordo-me de como demitir pessoas, e do doutorado, de como usar várias bibliotecas acadêmicas on-line. Mas não uso nada disso no meu dia a dia.

Então, por que me dei ao trabalho?

Em contrapartida, o sr. Moneypenny, meu resignado marido, não se incomodou em dedicar tanto tempo ao ensino superior. Ele passou um ano na Universidade de Sydney – onde cursava educação física e pensava em se especilizar em críquete, com rúgbi como segunda opção. Quando percebeu que as provas não eram sobre essas disciplinas, desistiu e foi trabalhar em uma emissora de TV (sua única experiência era ter assistido à televisão excessivamente). Muitos anos depois, mudou de carreira e foi trabalhar com vinicultura, e sua única experiência era ter bebido muito vinho; embora, nesse caso, tenha feito as provas do setor, o que atualmente o ajuda na hora de comprar uma garrafa da bebida. Mais tarde, em 2010, qualificou-se como treinador de críquete, projeto ao qual dedicou 12 semanas. Depois, foi trabalhar como professor de críquete em uma escola, onde usa todos os dias o que aprendeu.

Aqui cabe a pergunta: para que se preocupar com diplomas?

Qualificações são mais do que apenas uma forma de adquirir capacidades. Elas também são uma maneira de criar confiança e de se posicionar no mundo externo, além de poderem ajudar a criar uma rede de contatos – três itens que são indispensáveis na carreira.

Julia Bowden conhece o valor de uma qualificação, pois possui diploma universitário, obtido com notas excelentes. Em 2008, ela tomou uma decisão importante, embora arriscada: largou o emprego, refinanciou sua casa para pegar emprestado milhares de libras e voltou a estudar em tempo integral. Tudo isso aos 30 anos e com um emprego que pagava bem, no qual poderia ter progredido sem a necessidade de se empenhar em adquirir mais educação formal.

Por que ela sentiu necessidade de voltar a estudar? Quais foram suas principais escolhas e o que foi possível aprender com elas?

Ao retornar à universidade, Julia queria investir na sua provisão de capital humano. Acumular capital humano é a primeira e mais importante parte de qualquer carreira bem-sucedida. O capital humano, assim como qualquer outra fonte de capital, é um recurso disponibilizado ao empregador (ou a si mesmo, no caso de tocar um negócio próprio). Habilidades, experiência e, de forma crucial, qualificações fazem parte desse capital.

As qualificações são, de fato, fundamentais. Todas nós podemos citar uma mulher bem-sucedida com pouco mais do que um diploma de secretária – e, às vezes, nem isso –, mas garanto que se trata da exceção à regra. Se você for ambiciosa, se quiser buscar uma carreira em constante crescimento e de enorme êxito, antes de tudo é preciso garantir a exigência mais básica de todas: qualificações apropriadas.

O mundo no qual as mulheres competem por cargos elevados é brutal. Os homens, é claro, sempre souberam disso. O diploma universitário deixou de ser o passaporte para o sucesso. Quando me formei em uma universidade do Reino Unido, em 1980, 18% das pessoas da minha faixa etária faziam faculdade. Agora, graças aos incentivos do governo e à reclassificação de muitos estabelecimentos de ensino como universidades, essa parcela chega a 45%.

O diploma universitário é, atualmente, uma qualificação quase sem importância. O mais importante é onde estudamos e as notas tiradas.

A boa notícia é que se você for uma garota de 14 anos e estiver lendo este livro, ou se conhecer garotas dessa idade, saberá desde agora que é possível chegar longe tirando notas boas. No Reino Unido, fazemos exames públicos aos 16 anos para os quais começamos a estudar aos 14. Os resultados são citados em nosso formulário de candidatura universitária e influenciam, da mesma forma que o resultado dos exames feitos aos 18 anos, nossa aprovação à vaga que desejamos. A qualidade da universidade onde estudamos – algo propenso a impactar totalmente nossa carreira – é, dessa forma, influenciada por decisões tomadas dos 14 aos 16 anos.

E essa não é a situação apenas no Reino Unido. O ingresso à faculdade nos Estados Unidos é fortemente influenciado por testes de avaliação e pelo histórico escolar completo do candidato. No mundo inteiro, a entrada nos centros de educação superior mais desejados é determinada pelas notas obtidas e pelas escolhas tomadas antes mesmo de a pessoa ter idade para pensar em cursar uma faculdade.

Então, se você não tirou notas boas aos 16 anos, é melhor deixar este livro de lado e rebaixar suas pretensões?

De jeito nenhum!

Continue seu caminho e tire notas boas no futuro. Pode-se (praticamente) apagar o passado investindo no futuro. Como disse Elizabeth Taylor, que era uma mulher muito ambiciosa: “O sucesso é um desodorante excelente. Extingue todo mau cheiro do passado.”

Você pode estar pensando que estou me referindo apenas a programas de MBA ou a outros títulos chiques de pós-graduação. Não mesmo! Julia, por exemplo, não largou o emprego dela em tempo integral para fazer MBA. Ela estudou para ser maquiadora profissional.

Ficou surpresa? Por que Julia precisava obter uma qualificação profissional somente para aplicar maquiagem, já que ela se interessava por maquiagem desde garotinha, era boa nisso, e as amigas viviam lhe pedindo ajuda em ocasiões especiais? No mundo dos maquiadores, como em muitos outros, a principal razão da contratação é ser bom no que se faz. E você anuncia seu valor mostrando seu trabalho – o portfólio – geralmente por meio de um site.

Então por que não investir simplesmente em montar um portfólio com um fotógrafo profissional e desenvolver um site?

Independentemente de quanto isso custaria, seria bem menos do que as 18 mil libras cobradas para completar o curso frequentado por Julia.

Embora não seja necessário ter formação para ser maquiador profissional, também não é preciso MBA para ser um gerente de sucesso. Talvez você fique espantada ao saber que não é necessário ter brevê para fazer voo solo em um avião. É claro que em algumas profissões – medicina e direito, por exemplo – é fundamental ter habilitação profissional para trabalhar, mas a grande maioria das pessoas que comanda empresas pelo mundo inteiro (contando comigo) não precisa, necessariamente, de qualificações para executar essa função.

Contudo – e esta é a parte importante –, as pessoas precisaram delas para chegar lá.

A qualificação é importante. E aqui estão os motivos:

• dão confiança;

• funcionam como um testemunho da capacidade da pessoa; aaaaaaaaaaaaaaaaaa

• fornecem contatos importantes.

 

USANDO AS QUALIFICAÇÕES PARA AUMENTAR A CONFIANÇA

Para começar, as qualificações dão confiança. Julia – a essa altura você já deve estar cansada dela, e a coitada nem sabia que iria aparecer neste livro; ela pensava estar apenas colocando cílios postiços em mim para meu programa de TV – estudou na Greasepaint, possivelmente uma das mais famosas escolas de maquiagem do Reino Unido; e essa escolha foi criteriosa. Vários professores da Greasepaint trabalharam na BBC de Londres na época em que a empresa tinha departamento interno de maquiagem e ganhou diversos prêmios no setor. Estudar sob a supervisão desse pessoal, aprendendo com profissionais bem preparados, bastaria para Julia ganhar confiança quando se formasse, e se estabelecer como maquiadora autônoma.

Como gerente, talvez você nunca venha a usar nem metade do conhecimento adquirido na escola de negócios. Eu saí da minha há vinte anos e o único conhecimento técnico que continuo usando até hoje é o de como demitir funcionários. Porém, a familiaridade com toda a terminologia do setor, além das ideias adquiridas das diversas disciplinas ensinadas em um mestrado – contabilidade, finanças, troca de gestão e processos operacionais –, deixaram-me muito mais confiante conforme me deparei com esses tópicos no trabalho e ao conversar com gerentes mais graduados.

A confiança é um atributo crucial para uma carreira de sucesso. Se você estudou com afinco, aprendeu o que lhe ensinaram e tem qualificação para mostrar isso por meio de trabalho duro, irá se sentir muito mais confiante.

Do ponto de vista técnico, Julia passou a aplicar maquiagem muito melhor do que antes do curso?

Sim, embora possamos afirmar que não tenha se tornado mais criativa.

Quanto melhor? Cem por cento?

Provavelmente – em especial porque o curso ensinou-a a usar efeitos especiais e outros recursos altamente técnicos.

Contudo, quão mais confiante ela ficou para aplicar maquiagem no rosto de alguém?

Possivelmente uns 500%. Essa confiança vem de aprender com gente muito experiente e, sob a supervisão dessas pessoas, aplicar maquiagem inúmeras vezes e depois tirar notas excelentes nas provas.

Confiança é um atributo a ser desenvolvido por toda mulher ambiciosa. O Institute of Leadership & Management (ILM) entrevistou 3 mil gerentes graduados, homens e mulheres, e publicou suas conclusões em um artigo de fevereiro de 2011: “Ambição e gênero no

trabalho.”4 Segundo o ILM, o abismo de confiança era total; somente metade das gestoras se descreveu como tendo níveis “altos” ou “bem altos” de confiança, em comparação a 70% dos homens. Metade das administradoras admitiu possuir sentimentos de insegurança, comparado a 31% dos homens. E 20% dos homens afirmaram que se candidatariam a um cargo mesmo atendendo apenas parcialmente aos requisitos, contrariamente a 14% das mulheres.

Não fico surpresa com esses resultados. Não é segredo que os homens sabem se divulgar muito melhor, ainda que nem sempre com justificativas.

Essa diferença de gênero na abordagem de uma oferta de emprego conta com a concordância de Rosaleen Blair, uma profissional focada, ousada e muito amável que fundou e administra a Alexander Mann Solutions, prestadora de serviços na área de recrutamento.

As mulheres têm muito menos confiança e são muito mais autocríticas do que os homens. Por exemplo, quando se

candidatam a um emprego, os homens costumam olhar a descrição do cargo e dizer para si: “Possuo três dos itens

procurados, então tudo bem.” Já as mulheres podem ter seis ou sete, mas, por um item estar faltando, ficam com medo de

se candidatar. 5

Rosaleen não é a única a pensar dessa maneira. Liz Field, diretora executiva da Financial Skills Partnership, afirma:

Quando se trata de procurar cargos elevados, as mulheres têm uma probabilidade muito maior de abrir mão de opções,

mesmo tendo pouca ou nenhuma experiência em somente alguns aspectos, o que poderia configurar falta de segurança ou

realismo, mas, em geral, os homens vão atrás dos postos superiores independentemente de terem experiência relevante.6

Qualificação é uma grande fonte de confiança.

Pense nisto: você gosta de vinho? Virou uma especialista amadora com o passar dos anos? Julga entender as cartas de vinho dos restaurantes muito melhor do que seus colegas?

Agora imagine ter estudado e conseguido o título de mestre em vinhos, certificação profissional internacional obtida por menos de trezentas pessoas no mundo inteiro, ou um diploma em vinho, qualificação internacional conferida pelo Wine & Spirit Education Trust.

Tecnicamente, você estaria mais apta a provar e apreciar vinho?

Quase certamente.

Você ficaria mais confiante?

Sem sombra de dúvida.

Usando as qualificações como prova de capacidade Em segundo lugar e mais importante: as qualificações (e/ou o lugar onde as obteve) funcionam como um testemunho de sua habilidade. Tenho a sorte de possuir várias amigas, que os leitores da minha coluna passaram a conhecer ao longo dos anos por seus apelidos, como a Amiga Mais Glamorosa, a Mais Bem-sucedida, a Mais Tenaz, a Amiga Banqueira de Investimentos, a Amiga que Adora Pilates, etc. Entre elas, tenho a Amiga Medicinal, Amanda Northridge, médica de sucesso com uma clínica próspera na cidade universitária de Oxford.

É muito útil ter Amigas Medicinais, e recomendo a quem não tiver uma que arrume logo. Elas são uma mão na roda quando seu filho do meio (no meu caso, o Centro de Custo 2; eles são tão caros que desisti de chamá-los pelos nomes reais) volta do acampamento com impetigo no dia do casamento do príncipe William com Kate Middleton e a clínica local está fechada.

Amanda passou a integrar o quadro do Colégio Real de Clínicos Gerais (qualificação conhecida pela sigla MRCGP em inglês) depois de concluir o treinamento de três anos e de passar no importante exame de pós-graduação (após se diplomar médica). Contudo, ela só atende pacientes particulares, e no Reino Unido não é necessário ter essa qualificação para ser clínico geral e atender somente particulares.

Então por que ela se deu ao trabalho?

Para começar, suas opções aumentaram, ela poderia trabalhar no Serviço Nacional de Saúde, caso desejasse. O aspecto mais importante, no entanto, é contar com um parecer a seu respeito com as letras MRCGP. E essas cinco letras alardeiam que a dra. Northridge é tão qualificada como clínico geral quanto qualquer outro generalista trabalhando atualmente no Reino Unido.

Talvez você conheça um argumento que é mais ou menos assim: “Sou boa em [inserir habilidade/área de especialização] e não preciso de um pedaço de papel para provar.” Eu diria que precisa, sim. Se você for ambiciosa e quiser progredir, necessita se destacar da multidão. Letras adequadas depois do nome, um diploma impressionante no currículo ou uma qualificação profissional obtida em uma instituição famosa são itens que ajudam um profissional a se diferenciar.

Ser boa no que faz, neste mundo de competição tão feroz, simplesmente não basta.

O currículo é seu balanço patrimonial. Se você analisar a contabilidade de uma empresa e notar um balancete sólido, a probabilidade de investir nela será maior do que se você deparasse com um balancete fraco, porque, dessa forma, é mais provável que a empresa suporte desafios imprevistos e saiba tirar proveito de qualquer vantagem. O balanço patrimonial foi se acumulando por conta da escolha dos donos de investir na própria empresa em vez de pagar dinheiro como dividendos ou salários.

O mesmo raciocínio vale para capacitações e experiência profissional. Se você for ambiciosa, investir em si nunca será um desperdício.

Como na analogia da empresa, o investimento é uma escolha. Como qualquer estudante de economia sabe, capital é um recurso escasso. Se estiver estudando para as provas, aprendendo uma nova habilidade, fará isso no seu tempo em vez de gastá-lo em outro lugar.

Está preparada para assumir esse compromisso e fazer essa escolha?

Se você for ambiciosa de verdade, a resposta será sim.

Vamos voltar à adorável Julia Bowden. (Sim! Ainda não terminei de falar dela; a coitada vai pedir para ganhar hora extra.) Ela investiu os escassos recursos que possuía – tempo e dinheiro – para se capacitar como maquiadora profissional. A escolha da escola foi tão importante quanto a decisão de obter uma qualificação formal. Ela decidiu estudar em um local amplamente reconhecido como um dos melhores do setor. Basta Julia mencionar a um produtor, a um maquiador que está avaliando a possibilidade de terceirizá-la ou mesmo a um potencial cliente particular que ela se formou na Greasepaint e imediatamente saberão que seu trabalho deve ter qualidade.

Da mesma forma, pense no que um diploma universitário de Oxford ou Cambridge, um

MBA de Harvard ou as letras QC7 depois de um nome dizem sobre a pessoa. Os títulos afirmam de imediato que se trata de alguém diferente, um nível acima do restante, e que faz parte do escalão superior do mundo do trabalho. E isso antes de o candidato abrir a boca em uma entrevista.

As qualificações – e os locais onde as obtemos – funcionam como uma prova fundamental, invisível e altamente influente para as pessoas ambiciosas.

Então que capacitações você deveria obter?

Pessoalmente, eu recomendaria uma qualificação compreendida e reconhecida de imediato pelas pessoas do mundo no qual almeja ter sucesso. Se for a vida corporativa, eu pensaria em contabilidade ou direito. (No capítulo 7 explico por que a educação financeira é um pré-requisito tão importante para carreiras de sucesso.)

Uma qualificação que gosto muito de ver em currículos é a de Analista Financeiro Certificado (CFA, na sigla em inglês). É possível se preparar para ela a qualquer momento da carreira, e não é necessário frequentar aulas, pois dá para encomendar os livros e estudar em casa.

Você está fazendo faculdade? Quer entrar em um banco de investimentos ou fundos de cobertura algum dia?

Pense em como esse certificado ficaria bem no currículo. Abra mão das baladas e estude!

Os exames para o CFA cobrem o mesmo programa de estudos e são administrados pelo CFA Institute, uma organização sem fins lucrativos formada pela maior associação mundial de profissionais da área de investimentos. O instituto possui mais de 100 mil membros em todo o mundo, e muitos outros que só fizeram a primeira ou a segunda parte dessa prova em três etapas.

Sei que o instituto não vai me agradecer por isto, mas costumo compará-lo ao McDonald’s. Se você entrar em um McDonald’s em qualquer parte do mundo e pedir um Big Mac, o sanduíche será praticamente idêntico, quer esteja em Xangai, Seattle, Sydney ou Singapura. O risco associado à decisão de comprar um Big Mac, ou, na verdade, qualquer outra marca global, como fraldas Pampers ou serviços de auditoria da PricewaterhouseCoopers, é irrisório. Você sabe que não importa onde o produto é cosumido: a experiência será sempre igual.

E o mesmo se dá com o CFA.

Existem muitas outras qualificações de nível internacional, como estudar para obter o já mencionado título de mestre em vinho. Atualmente existem 289 mestres em vinho, dos quais 79 são mulheres, no mundo inteiro, espalhados por 23 países. O exame sempre esteve aberto para homens e mulheres; dos novos mestres em vinho da década passada, 33 são mulheres.

Outra qualificação internacional é a de ensino de inglês como língua estrangeira (TEFL, na sigla em inglês).

Embora não sejam plenamente transferíveis a todos os países, certificações em áreas como medicina, direito, ensino e outras disciplinas profissionais são sempre úteis. Porém, mesmo que não concedam letras para serem colocadas ao lado do seu nome, existem habilidades que valem a pena serem estudadas porque a tornarão mais empregável – por exemplo, idiomas ou programação de computador.

Qual tal um MBA? Seria melhor obter um?

Eu tenho um, como já mencionei. E me lembro do meu primeiro dia de trabalho no Japão quando meu chefe informou também ser MBA – só que nesse caso a sigla queria dizer “Married but available” (Casado, mas disponível).

Falando sério, não existe resposta a ser aplicada universalmente a essa questão – vai depender de você. Muitas mulheres ambiciosas (como eu) descobriram ser muito úteis. Só que não para todo mundo. Espero que este livro a ajude a decidir se gostaria de obter um MBA ou não; e, caso queira, do que lembrar na hora de decidir onde estudar.

Em 1986, Gail Kelly morava na África do Sul, trabalhava em um banco e estava grávida do primeiro filho. Ela lecionava latim no ensino médio quando terminou a faculdade e, na década de 1980, virou caixa do banco sul-africano Nedcor, pois achava que teria mais oportunidades no setor financeiro do que no educacional. Selecionada pelos supervisores como tendo muito potencial, Gail entrou no programa de desenvolvimento acelerado da instituição e, em 1986, atingiu uma posição de nível médio no departamento de recursos humanos.

Entrevistada para o site da Melbourne Business School, a própria Gail conta a história. Segundo ela:

Se eu pretendesse levar a sério uma carreira no comércio e ganhar uma posição mais elevada no setor de serviços

financeiros, precisaria de qualificações formais em negócios. Pensei em cursar contabilidade, mas preferi obter um MBA

por causa das amplas habilidades de liderança e gestão que se ganha.

A combinação emprego e gravidez não a fez desistir da ideia – nem a mim, nem a tantas outras mulheres. Todavia, Gail se saiu melhor do que eu, formando-se com distinção. (Ela também se saiu melhor ao dar à luz uma filha – por que só tenho filhos? E, por falar nisso, por que não sou diretora executiva de um dos maiores bancos do mundo? Para mim, tudo se deve ao fato de não ter concluído meu MBA com distinção.)

O que a Gail conseguiu com o MBA?

Ela obteve capacitações e conhecimentos que antes sequer faziam parte do vocabulário dela. Além disso, ganhou confiança e estabeleceu conexões.

O MBA abriu minha cabeça para áreas cruciais da contabilidade, finanças, marketing e gestão de operações, áreas do

saber que anteriormente eu não conhecia em profundidade, tirando alguma exposição prática no trabalho diário. Sem

sombra de dúvida, o MBA também me deu confiança e coragem para agarrar oportunidades. Os contatos e as amizades

criados permanecem válidos até hoje. 8

É tentador pensar no MBA como um passaporte para melhores salários. A GMAC, associação internacional sem fins lucrativos de escolas de negócios, informou que, segundo pesquisa de 2010 conduzida nos Estados Unidos, 93% dos entrevistados estavam empregados e tinham salário anual acima de 94 mil dólares, com bônus de mais de 17 mil

dólares.9

Outro motivo para algumas pessoas cursarem um MBA é se tornarem mais empregáveis. Segundo a London Business School, 91% dos alunos de 2010 encontraram emprego até três meses após a conclusão do curso (10% a mais do que em 2009), e o salário médio inicial era um pouco superior a 65 mil libras anuais. Os números da Manchester Business School

são 90% e 55 mil libras. 10

Eu diria que, se você se matricular em um MBA simplesmente para aumentar as chances de arrumar emprego e salário melhores, o enorme investimento de tempo e dinheiro não se justificará. Como diz Tonya Olpin, diretora executiva da Associação Nacional de Mulheres com MBA, esse título “não garante emprego, mas dá uma caixa de ferramentas. Ele abre

várias portas”.11

Ela tem toda razão.

O MBA não é um passaporte instantâneo para um bom emprego ou mais dinheiro. Mesmo organizações que admiro, como a Forté Foundation (consórcio de grandes corporações e uma das principais escolas de negócios, que busca “elevar o número de mulheres líderes de empresas aumentando o fluxo feminino nas principais vias de acesso educacionais e redes empresariais”), não estão incentivando as possíveis alunas a ver o valor de um MBA; em

vez disso, parecem não ter entendido seu sentido exato.12

Elas estabelecem os seguintes motivos para cursar um MBA:

• aumentar o salário potencial;

• progredir no setor em que atua;

• mudar de carreira;

• formar uma rede de colegas, professores e ex-alunos;

• exercer impacto na comunidade.

Para mim, somente a “rede de contatos” é realmente importante. Todo o resto pode ser conquistado sem MBA.

A exemplo de qualquer qualificação, obter um MBA lhe dará confiança, conexões e uma afirmação no currículo. Pode muito bem ser que esses itens, por sua vez, lhe ajudem a arranjar um emprego e salário melhores, mas esses são mais difíceis de conseguir sem capitalizar os reais benefícios do MBA. Na verdade, o MBA é uma qualificação em administração geral. Se você quiser gerenciar uma empresa ou integrar uma, é bastante útil. Ponto final. Se sua ambição for ser a melhor bióloga molecular do mundo, a maior atuária do mundo, ou se você tiver qualquer outra ambição técnica, ele é totalmente desnecessário.

Assim, defina sua ambição e veja se o MBA realmente a ajudará nesse sentido.

Se você tiver a ambição de tocar uma empresa, grande ou pequena, ter um MBA provavelmente é uma boa ideia. Todo o resto – empregabilidade, salário maior – pode ser um benefício adicional. Entretanto, se esses forem os principais motivos para fazer o curso, não perca tempo.

Segundo evidências, as mulheres são melhores em encontrar motivos para não cursar um MBA do que para cursá-lo. De acordo com a Associação de MBAs, os estudantes homens superaram as mulheres em 70% em 2010. No Reino Unido, 53% dos universitários são mulheres, mas essa porcentagem cai para cerca de 30% quando falamos em MBA. Isso não é surpresa, visto que as melhores escolas de negócios exigem vários anos de experiência

profissional antes de aceitar alunos.13

Ou seja, a hora ideal de obter um MBA é justamente quando muitas mulheres estão pensando em ter filhos. Mori Taheripour, coordenadora de extensão da Wharton School, da Universidade da Pensilvânia, explica a questão muito bem:

[Precisamos] ser capazes de mostrar mulheres que, mesmo tendo todos esses compromissos na vida, cursaram ou estão

cursando um MBA. Nós pedimos cerca de dez anos de experiência de trabalho, assim, a idade média dos estudantes é 35

anos, ponto no qual a maioria delas tem família, posições elevadas ou são empreendedoras. Dessa forma, é um desafio

levá-las a falar: “Posso dar conta de mais uma atividade.” 14

É possível cursar um MBA e ter família ao mesmo tempo. Comigo foi assim. Com Gail Kelly também. Assim como com muitas outras mulheres (que já possuem um MBA ou estão terminando o curso).

Minha amiga Henrietta Royle, defensora de mulheres nas salas da diretoria e dona de uma energia infindável, foi diretora de operações da CASS Business School, de Londres. Ela já viu dezenas de mulheres com famílias completarem não apenas o MBA, mas também mestrados. Entrevistada pelo jornal britânico The Independent em abril de 2011, Henrietta expressou algo que muitas de nós já sabem (de acordo com a reportagem, trata-se de uma visão “pragmática”): “Se você quiser fazer, vai se organizar. Não existem motivos para não conseguir estudar por causa de filhos, principalmente quando as alternativas podem ser

excelentes mais tarde.”15

As escolas de negócios são solidárias com mães cursando MBA. Por experiência própria, quando ficou pesado demais após o nascimento do meu primeiro filho, eles permitiram que eu me ausentasse durante um ano para terminar o curso mais tarde. Tive de recomeçar com um novo grupo, mas foi muito melhor do que desistir de vez ou sequer ter começado.

Mais de duas décadas depois, as coisas mudaram para valer. A Universidade de Indianápolis, por exemplo, oferece aulas somente aos sábados, e concede às grávidas a possibilidade de se ausentarem por um semestre durante a licença-maternidade.

Rachel Killian, mãe de dois filhos, que recentemente cursou MBA executivo na Warwick Business School (dois anos em meio período) enquanto continuava trabalhando no departamento de marketing da escola, explica como conseguiu:

Tudo se resume a equilíbrio. As pessoas precisam escolher um programa e uma escola que tenham a ver com sua vida.

Volto para casa, passo algumas horas com meus filhos e, depois, quando eles se deitam, pego os livros para estudar em vez

de ficar vendo televisão. Nenhuma pessoa é igual a outra. Entretanto, as recompensas serão muito maiores do que as

concessões.16

A questão tem mais a ver com prioridade do que com equilíbrio. Se você é ambiciosa e acha que deve cursar um MBA, irá arrumar tempo, mesmo grávida. Alguma atividade irá sair da agenda – ver TV, no caso de Rachel – e abrir espaço para o curso. Será realmente preciso assistir a Footballers’ Wives ou a outro episódio de Keeping Up with the Kardashians? Você não pode gravá-los? Pó na estante não vai matá-la; não é necessário passar tudo a ferro; não é preciso comprar e ler a revista Hello!; e aquele romance interessante terá de esperar mais alguns meses.

Na verdade, é difícil pensar em algum motivo que a impeça de achar tempo para o MBA se você realmente deseja obtê-lo.

Usando as qualificações para criar vínculos importantes Se você decidiu obter um MBA – e deixou de lado as desculpas de estar muito ocupada porque tem ou está esperando filhos –, onde deveria estudar?

Escolha uma escola credenciada. Eleja uma que esteja no topo da lista – ou subindo rapidamente. Lembre-se de por que vai estudar nela; o ensino é somente parte do todo. Os benefícios à sua reputação e as oportunidades de estabelecer contatos que o MBA (ou, na verdade, qualquer qualificação) de uma boa escola oferece significam que você deveria frequentar a mais prestigiosa escola em que puder entrar. Para mim, é melhor não ter MBA a obtê-lo em uma escola abaixo do padrão – principalmente levando em conta o tempo e o dinheiro a ser investidos.

Quanto melhor a escola, melhores as conexões estabelecidas.

Tire proveito do desequilíbrio de gênero – existem bolsas de estudos disponíveis para as mulheres cursarem MBA na Europa e nos Estados Unidos. London Business School, Leeds University Business School (ambas inglesas), European School of Management and Technology (Berlim), IMD Business School (Suíça) e Wharton School, da Universidade da Pensilvânia (Estados Unidos) são algumas que oferecem bolsas de estudo para mulheres. Também é possível se candidatar a bolsas por meio de fundações, como a Forté Foundation. A Forté oferece bolsas de estudos em qualquer uma das 39 faculdades participantes da Europa, Estados Unidos, Ásia e Austrália, independentemente da nacionalidade da candidata. Ainda existe o McCallum Leadership Scholar Program, da Universidade Bentley (Boston), para candidatas provenientes de minorias.

Não importa qual qualificação você busca, o modo como ela é vista por empregadores presentes e futuros dependerá, em grande medida, da reputação e do histórico da instituição de ensino onde foi obtida. A CFA é organizada em escala global e conta com o apoio de um orçamento enorme de marketing, mas para qualificações menos específicas, como o MBA (ou mesmo um diploma universitário), o lugar onde se estudou e as notas obtidas são mais importantes do que a qualificação em si.

Sim, é injusto, eu sei, mas todas nós sabemos que o mundo é assim. Toda pessoa com mais de 7 anos que use a palavra “injusto” tem pouca noção da realidade.

Um MBA de Harvard é mais prestigioso do que o da Universidade de Stirling, na Escócia, embora ambas instituições tenham professores bem-conceituados.

Então por que o currículo de Harvard se difere do de Stirling?

Simples. Porque a marca Harvard tem mais prestígio.

Como isso aconteceu? Harvard contratou melhores profissionais de marketing?

Talvez sim, mas, se contrataram, é porque podem pagar uma equipe de marketing melhor do que a universidade escocesa. Na verdade, eles podem ter tudo em um nível acima da Universidade de Stirling – melhor corpo docente, melhores prédios, melhor marketing e melhor assistência financeira aos alunos, isto é, eles podem atrair alguns dos melhores e mais brilhantes candidatos do mundo.

E por quê?

Para achar a resposta, precisamos olhar em direção ao sudoeste da ponte de Londres. Entre uma grande travessia rodoviária do Tâmisa e um dos terminais ferroviários mais movimentados da cidade, bem ao lado de um conhecido mercado, ali fica, sem qualquer congruência, a catedral da diocese de Southwark. Nela, John Harvard, nascido em 1607, filho de um açougueiro, foi batizado antes de emigrar para os Estados Unidos. A anotação relevante, com a assinatura do pai, está no registro da catedral. Todos podem visitar gratuitamente a catedral, onde existe uma capela dedicada a John, cuja restauração foi paga por ex-alunos de Harvard.

Essa catedral deveria ser ponto de peregrinação de toda mulher ambiciosa – não apenas em função da paz e tranquilidade oferecidas, permitindo contemplar a batalha à frente, mas também pelo que nos conta sobre Harvard como instituição e empreendimento bem-sucedidos.

O que impressiona qualquer visitante conhecedor de programas de aperfeiçoamento universitário é há quanto tempo a capela foi restaurada. O vitral esplêndido foi doado por Joseph Hodges Choate, formado em Harvard e que atuou como embaixador norte-americano em Londres. Ele esteve presente na inauguração da capela, em 22 de maio de 1905. O vitral retrata o batismo de Cristo e os brasões do Emmanuel College, em Cambridge, frequentado por John Harvard (também muito bom para qualquer currículo), e da Universidade Harvard.

Eu me sentei na capela um dia – não para me preocupar com a batalha à frente, mas porque estava adiantada para uma reunião no Financial Times – e pensei no que poderia aprender ali. Para mim, a grande lição era o fato de a Harvard Business School ser uma marca poderosa e influente no currículo porque seus ex-alunos a mantiveram assim, da mesma forma que conservaram a boa aparência da capela.

Escolas de negócios, universidades e até colégios de ensino médio tentam incentivar ex-alunos a manter contato e apoiar o estabelecimento onde estudaram. Até onde sei, tais instituições o fazem apelando, em grande parte, ao altruísmo dos antigos estudantes – nós lhes demos boa educação, agora é sua vez de retribuir. Contudo, para mim, trata-se de um argumento errado por dois motivos.

Em primeiro lugar, um diploma – principalmente de pós-graduação, se você o bancou sozinha (como a maioria das pessoas) – é uma transação comercial. Eu pago a você e você me instrui. Ambos cumprimos os dois lados da negociação e depois seguimos caminhos separados. Qualquer tentativa de apelar para a afeição que se possa ter pelo lugar (o que funciona bem, principalmente quando uma instituição apela ao ego e ao orgulho das pessoas) é uma espécie de chantagem emocional; não existe obrigação contratual – por escrito ou não – de ajudar o lugar onde estudei após minha saída.

O segundo motivo, e de longe o mais importante, é este: a qualificação estará no seu currículo – seu balanço patrimonial pessoal – pelo resto da sua vida. A instituição que a premiar com essa qualificação será uma marca associada a você para sempre. Enquanto a escola for um dos principais estabelecimentos de ensino do mundo, sem problemas; mas o que acontece se ela entrar em declínio? Seu currículo será afetado.

Você pode se dar ao luxo, pelo seu bem e pelo bem da sua carreira, de não ajudá-la?

Quer o percebam quer não, os ex-alunos de Harvard têm obrigação contratual com eles mesmos de ajudar a universidade. Se o fizerem, a Harvard Business School, e a Harvard em si, continuarão sendo capazes de bancar instalações excelentes, os melhores professores, e de ajudar financeiramente os melhores alunos do mundo, bem como contratar as melhores equipes de marketing e desenvolvimento. O que, por sua vez, conservará a reputação mundial da instituição, sustentando a força da marca no currículo de quem lá se formou.

O sr. Choate sabia disso em 1905.

E tal fato continua sendo verdadeiro para toda universidade, escola de negócios e mesmo instituições de ensino médio. Quanto maiores forem as conquistas, maior influência ela terá sobre as ambições dos seus ex-alunos.

Nem todas nós poderemos doar grandes quantias. E se você for recém-formada e não tiver dinheiro? Certamente não estará em posição de desfrutar de um prédio batizado com seu nome após passar um cheque com sete ou oito dígitos. Você estará muito ocupada pagando o banco que lhe emprestou dinheiro para bancar seus estudos. Todavia, 10 dólares anuais são valiosos; lembre-se de quantos alunos uma universidade tem.

É necessário investir na faculdade porque é importante para o currículo, além de servir para coisas secundárias, como a rede de contatos. Assim, mesmo que esteja bem no comecinho da carreira, lembre-se de dispor de outras coisas além de dinheiro. Você tem tempo. E essa disponibilidade poderia ser empregada entrevistando candidatos a alunos da universidade, falando em dias de visitação pública à instituição, escrevendo para sites sobre sua experiência como estudante e explicando por que recomenda o curso. Todas essas atividades são tão valiosas quanto dinheiro, embora as instituições necessitem de ambos. Na verdade, nos Estados Unidos, fazer uma contribuição financeira, não importa de que quantia, ajuda a aumentar a pontuação da universidade na classificação geral, pois a porcentagem de ex-alunos que contribui é mensurada, e a universidade é ranqueada de acordo com esse critério.

Quando me formei na London Business School, vinte anos atrás, ela não era tão bem vista no resto do mundo. Meus ganhos eram negativos porque tinha um filho pequeno e os gastos para criá-lo eram elevados. Contudo, dei meu tempo entrevistando futuros canditados para a instituição, falei em dias de visitação pública e em todos os lugares do mundo onde trabalhei e, quando me tornei capaz, passei a apoiá-la financeiramente de forma modesta, mas constante. Durante esse meio tempo, a instituição passou de escola de negócios proeminente, segundo alguns indicadores, para o patamar de melhor escola de negócios em nível internacional. Não fico me gabando de ser a responsável por isso; minha iniciativa foi igual à de milhares de outras pessoas. Todavia, se todos os antigos estudantes da London Business School contribuírem, ainda que com uma quantia modesta e com tempo, como eu, ela permanecerá na primeira divisão durante a vida profissional de muitas pessoas.

E isso conservará o valor de ter estudado nela.

Como meu MBA foi bastante caro – tive de pegar dinheiro emprestado para cursá-lo –, faz muito sentido manter tal valor atualizado.

Se hoje sua escola for de segundo escalão, pense no que pode ser conquistado por meio da ação coletiva.

Acrescentando a experiência certa às qualificações Depois de ressaltar a importância das capacitações, completo dizendo que elas são praticamente inúteis sem experiência relevante.

Acumular experiência considerável no segmento no qual se pretende trabalhar pode ser complicado; às vezes é preciso começar de baixo. Gail Kelly era uma experiente professora do ensino médio, porém, abriu mão de tudo isso para trabalhar atrás do balcão de um banco. Hoje ela está ranqueada como a oitava mulher mais poderosa do mundo dos negócios.

Outra ex-professora que admiro e de quem gosto muito é Janet Robinson, diretora executiva da New York Times Company. Janet lecionava em uma escola em Massachusetts, mas, a exemplo de Gail Kelly, pensava que atuar em educação seria uma carreira limitante. Assim, ela se mudou para a cidade de Nova York atrás de emprego. Como era boa jogadora de tênis, passou a vender espaço publicitário na revista TENNIS. O resto, como dizem, é história. Quando Janet me convidou para almoçar no prédio do New York Times, com vista para o rio Hudson, e me levou para ver a parede com fotos de funcionários vencedores do prêmio Pulitzer, percebi como sua história era inspiradora. Ela era uma professora qualificada com dez anos de experiência e, mesmo assim, para conquistar suas metas, recomeçou do zero vendendo anúncios em uma revista.

Somente para dar o primeiro passo, como Gail e Janet, é preciso lançar mão de pensamento lateral e planejamento cuidadoso. Por exemplo, minha amiga Helen Weir entrou no programa de estágio da Unilever após ter se formado em Oxford. Em seguida, cursou um MBA em Stanford antes de trabalhar na McKinsey. Depois de alguns anos nessa empresa, ela quis se envolver com a vida corporativa e pensou em como deveria proceder. Quando estava na Unilever, Helen (bem como todas as pessoas em treinamento) estudou para as provas de contabilidade gerencial, e, embora não tenha usado a disciplina durante anos, aproveitou ao máximo o fato de ter uma qualificação financeira, conseguindo um emprego como controladora financeira de uma divisão de um grande grupo varejista. Por fim, tornou-se diretora financeira geral e alcançou a notoriedade. Muitos anos e alguns papéis diferentes depois, Helen foi nomeada diretora não executiva da SABMiller, uma das maiores empresas de bebidas do mundo.

A experiência, quando de mãos dadas com as qualificações, é muito poderosa se estivermos concorrendo a cargos elevados. No entanto, obter a experiência certa, por mais qualificada que você seja, pode ser complicado.

Use o pensamento lateral quando tentar entrar em uma área nova. Não importam suas habilidades tenísticas ou aquela certificação em contabilidade gerencial da qual você quase havia se esquecido: as mulheres bem-sucedidas estão definindo quais das suas características as outras pessoas podem querer, mesmo que não seja o item mais óbvio do currículo.

Outra estratégia vencedora para acumular experiência em um novo setor é se candidatar a uma divisão da empresa na qual ninguém sequer pensaria em trabalhar. Passar pela porta da frente é o maior desafio. Se você for boa, conseguirá mudar de setor mais tarde. Às pessoas que querem entrar em um banco de investimentos, aconselho se candidatarem ao setor de auditoria interna, finanças ou até mesmo recursos humanos. Para quem deseja trabalhar na TV, aconselho começar vendendo publicidade ou no departamento jurídico.

Quando concluí meu MBA em 1992, o Reino Unido estava mergulhado na recessão, mas eu queria trabalhar em uma seguradora, vendendo ações britânicas a gerentes de fundos. Planejei meticulosamente minha investida sobre os corretores de valores londrinos. Eu trabalhava em uma empresa na qual parte da minha função era lidar com os acionistas. Então, nosso maior acionista era a divisão de gestão de fundos da seguradora Scottish Widows. Pedi ao gerente do fundo com quem negociávamos os nomes dos corretores a quem ele passava mais pedidos. Ele indicou quatro. Assim, escrevi para os quatro, depois de pesquisar com muito cuidado o nome da pessoa que chefiava naquele momento a venda de ações. Mencionei conhecer um dos clientes dela – todos os quatro eram “um” – e declarei estar disposta a trabalhar com a venda de ações.

Consegui três entrevistas e duas ofertas de emprego.

Experiência relevante é importante, e é melhor obtê-la sem intervalos.

Por quê?

Porque é muito difícil voltar ao trabalho após uma pausa. Livros inteiros foram dedicados a essa questão. Uma interrupção pode abalar sua confiança e tonrar você menos atraente aos empregadores por estar menos atualizada. Assim, se estiver planejando deixar de trabalhar temporariamente – para ter filhos ou porque deseja viajar pelo mundo –, pense nos efeitos disso no seu currículo. Com o planejamento certo, não existe nada de errado em fazer um intervalo, nem para as mulheres mais ambiciosas.

Eu não tirei licença-maternidade. Quando meu primeiro Centro de Custo nasceu, dediquei-me durante duas semanas a essa situação de fraldas e noites sem dormir, mas fugi para o escritório após ter contratado o equivalente a um Rolls-Royce das babás, uma ama seca da

Norland.17

Demorou cinco anos antes que eu pudesse ser persuadida a tentar novamente, e o momento foi errado, pois o Centro de Custo 2 chegou quatro semanas antes do planejado e bem no meio de uma negociação que eu estava conduzindo. No hospital, recebemos um tratamento fabuloso, assim pude trabalhar sem parar. Porém, veio o desastre: meu seguro-saúde só cobria uma semana de internação. Assim, para desespero do meu marido, recusei-me a voltar para casa com o novo bebê e me hospedei no Hotel Berkeley, onde passei mais uma semana escrevendo o prospecto enquanto os funcionários davam conta do recado. (Chegaram a achar sabão em pó não biológico para lavar a roupa do meu filho e uma babá para levá-lo para passear todos os dias no Hyde Park.) Na vez do Centro de Custo 3, quatro anos mais tarde, já existiam e-mail e internet, e trabalhar no leito do hospital foi fácil.

No entanto, não sou um bom exemplo de nada que pareça “normal”. A maioria das mulheres vai querer dar uma pausa na carreira quando tiver filhos, ainda que sejam apenas alguns meses. Se você for uma delas e planeja retomar a carreira (ou tiver essa opção), pense em como manter o currículo atualizado.

Anos atrás, aconselhei uma jovem, que não conseguiria manter o cargo sênior (por conta da chegada do terceiro filho), a como cobrir a lacuna até voltar a trabalhar em tempo integral. Sugeri que trabalhasse durante a licença-maternidade, mas em algo totalmente diferente: ensinando finanças em vez de cuidar delas. O plano deu certo e agora ela é gerente financeira sênior de uma empresa de telecomunicação.

Recentemente, perguntei como ela se sentiu quando lhe dei tal conselho. Sua resposta foi esclarecedora:

Eu nunca tinha pensado em ser professora. Eu pensei: “De jeito nenhum!” Contudo, lecionar finanças e relações com

investidores se revelou um trabalho fantástico de muitas maneiras. Era meio período, assim se adequava às

responsabilidades de criar um filho, mas não tinha o estigma que empregos de meio expediente podem ter. Tive a

oportunidade de trabalhar em um ambiente empresarial menor, algo visto de forma muito positiva por várias pessoas com

as quais trabalho agora. O aspecto mais importante, do ponto de vista profissional, foi me permitir permanecer atualizada

em relação às regras do mercado financeiro e de um jeito que me mantive mais por dentro do que quando trabalhava no

mercado corporativo. O treinamento também me possibilitou entender outras empresas além daquela na qual passara toda

minha vida profissional, e departamentos diferentes, como comunicação corporativa.

Outra amiga cuja pausa na carreira foi um exemplo excelente de como permanecer atualizada é Anne Spackman, agora editora de comentários do jornal britânico The Times. Ela era uma jovem jornalista bem-sucedida que fazia parte da equipe que fundou o periódico The Independent. Quando teve filhos, decidiu encontrar um outro papel que a mantivesse no jornalismo, mas trabalhando menos horas. Ela se demitiu do cargo de editora de final de semana do The Independent e se ofereceu como correspondente da editoria de imóveis por um salário equivalente ao orçamento da seção. Assim, escreveria duas reportagens por semana (a qualquer hora do dia) em vez de trabalhar determinado número de dias; na verdade, trabalhava em média 27 horas semanais.

Por que Anne escolheu esse caminho?

Nem toda jornalista ambiciosa, principalmente não uma com as conquistas que Anne trazia no currículo, iria querer escrever sobre casas semigeminadas de quatro quartos e taxas de juros de hipotecas. Entretanto, ela percebeu que, ao fazer isso, em vez de parar de vez, se manteria, pelo menos, em contato com o jornal e ganharia algum dinheiro, além de ter tempo para sua jovem família. Durante uma conversa recente, Anne contou ter adotado a nova carreira com entusiasmo:

Eu achava que os jornais não conseguiam refletir como os imóveis eram um assunto importante para os leitores – isso foi

antes de existirem cadernos de imóveis –, o que me deu a chance de escrever sobre tudo: economia, taxas de juros e a

vida dos ricos e famosos em um setor no qual poucos jornalistas competiam. Eu adorava.

Então Anne foi convidada pelo Financial Times para cobrir o setor de imóveis, somando mais pontos ao seu currículo. Quando os filhos ficaram mais velhos, ela voltou a trabalhar em tempo integral, sendo chamada pelo Times para o lançamento do suplemento de imóveis. Foi um grande sucesso comercial. Na sequência, Anne foi indicada para ser coordenadora do projeto que levaria o jornal, então em tamanho standard, para o formato tabloide; depois virou chefe de redação, editora chefe do Times Online e, agora, editora de comentários.

O resultado disso tudo é que seu marido, o principal responsável pelo sustento da casa durante a criação das crianças, agora pode correr atrás da sua bem-sucedida carreira plural.

O que aprendemos neste capítulo?

Que as qualificações são importantes porque aumentam a confiança, agem como testemunhos de capacidade e criam vínculos com outras pessoas.

O lugar onde estudamos é quase tão importante quanto a qualificação em si. Assim, esse é um grande motivo para apoiarmos as instituições de ensino onde estudamos, pois elas sempre farão parte do nosso currículo.

A experiência também é importante, e devemos pensar lateralmente em como obtê-la em lugares relevantes.

Além disso, vimos que Julia Bowden é um exemplo excelente! (E talvez Julia deva aprender a não se abrir tanto enquanto passa delineador em outra pessoa. A cliente talvez esteja escrevendo um livro nas horas vagas.)

Dessa forma, o que você sabe o que é necessário. Contudo, como os estudantes de lógica bem sabem, “necessário” nem sempre quer dizer suficiente. Para ser bem-sucedida de verdade, você deve combinar “o que sabe” com “quem você conhece”, que será o tema do próximo capítulo.

 

LIÇÃO DE CASA PARA MULHERES AMBICIOSAS

Em começo de carreira

1. Como definir se você está estudando as disciplinas certas? Pense no que espera fazer a

seguir, conheça pessoas que trabalhem ou lecionem na instituição onde está estudando e pergunte a elas.

2. De que forma acumular a experiência necessária para o futuro? Escreva o nome das três

empresas nas quais gostaria de estagiar, depois explore outras formas de trabalhar nelas.

3. Existe alguma qualificação profissional que poderia ajudá-la na sua carreira? Pense

nisso quando tiver a possibilidade de estudar para obter essa capacitação.

Em um estágio mais avançado

Se sua carreira não está como você acha que deveria estar, faça a seguinte avaliação:

1. Existe alguma pós-graduação que deveria estar fazendo? Liste os motivos pelos quais

não poderá começar a estudar, visando essa qualificação nos próximos 12 meses. Como conseguirá superá-los?

2. Entre em contato com uma empresa de recrutamento de executivos ou converse com uma

pessoa com mais experiência na sua profissão/empresa e mostre a ela seu currículo. Pergunte quais experiências ou capacitações extras o transformariam. A seguir, defina para si um prazo de 12 meses para, no mínimo, começar a se dedicar àquilo que seu interlocutor identificou.

4 Ambition and Gender at Work. 2011. Londres: Institute of Leadership and Management.

5 “Women in business: The secrets of their success”. 30 de julho de 2011. Telegraph.

6 “Boardroom diversity is a must for firms, executives say”. 24 de fevereiro de 2011. BBC News Online.

<http://www.bbc.co.uk/news/business>.

7 Abreviação de Queen’s Counsel, título conferido a advogados gabaritados. (N. do T.)

8 “Gail Kelly”. Site da Melbourne Business School: http://www.mbs.edu. Visitado em 9 de agosto de 2011.

9 BOURNE, Leah. “Is Business School right for you?” 9 de fevereiro de 2011. Consultado no site Working Mother:

<http://www.workingmother.com>.

10 GRIFFITHS, Sian. “Does an MBA come with such a cachet that it is worth giving up your job to enrol on one?” 13 de março de 2011. Sunday Times.

11 BOURNE, Leah. “Is Business School right for you?”

12 “Getting your MBA: Overview”. Site da Forté Foundation: <http://www.fortefoundation.org>. Visitado em 9 de agosto de 2011.

13 FINN, Widget. “Flexibility key for women”. 20 de julho de 2010. Guardian.

14 BOURNE, Leah. “Is Business School right for you?”

15 “It isn’t just for men in suits in the City”. 7 de abril de 2011. Independent.

16 Ibid.

17 O Norland College forma babás desde 1892. (N. do T.)