Mulheres Poderosas Têm Ambição
Capítulo 5
Você não pode ter tudo...
S e você for ler apenas um capítulo deste livro, que seja este. Eu não acredito na teoria do teto de vidro. Ela foi deixada de lado há muito tempo. O mito, no entanto, persiste, mas não devemos levá-lo tão a sério.
Para tanto, você precisa saber que as mulheres não podem ter tudo. Realmente não podem.
As mulheres jovens de hoje são criadas para acreditar que o céu é o limite. Eu admiro a ambição e acredito que as mulheres devem ser incentivadas a ter ambição desde cedo. Porém, crescer pensando (e ser encorajada a pensar) que é perfeitamente possível ser diretora executiva de uma grande empresa privada, uma brilhante neurocirurgiã, uma violinista em uma orquestra sinfônica e, ao mesmo tempo, conquistar tudo isso garantindo e mantendo um marido maravilhoso, tendo uma vida sexual incrível, concebendo e criando filhos perfeitamente equilibrados, jogar hóquei nos finais de semana, além de ter tempo para ver as amigas e os pais, ir ao cabeleireiro, fazer as unhas e, por fim, comparecer à aula de pilates é estar severamente iludida.
O tempo é um recurso escasso. A forma como o utilizamos é fundamental para determinar quanto êxito terá sua carreira. Levando-se em conta tudo o mais que é necessário para ter uma carreira bem-sucedida – incluindo a experiência e as qualificações certas, a compreensão financeira que advogo no capítulo 7 e a “terceira dimensão” discutida no capítulo 8 –, é muito improvável ter tempo para muito mais.
Vivem me perguntando se sou feliz. Considero esta uma pergunta estranha.
Feliz em que preciso momento?
Feliz em geral?
Pessoalmente, acredito que a felicidade é a medida errada do sucesso, pois se a felicidade for apenas um objetivo, sempre seremos infelizes. Pela minha experiência, é simplesmente impossível ser feliz o tempo todo.
Se você está esperando a felicidade contínua, algo inalcançável, então, por definição, sempre será infeliz, pois, se buscar o impossível, sempre ficará decepcionada. Ao tentar ter tudo, o fracasso é praticamente certo.
A realidade de tentar ser uma “supermulher” Em 2007, Carol Bartz, ex-diretora executiva da Yahoo! Inc., ocupou o mesmo cargo na Autodesk Inc. Ela falou o seguinte sobre tentar ter tudo ou tentar conquistar o tipo de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal:
Discordo do conceito de equilíbrio, pois o equilíbrio em si conota perfeição, ou seja, todo dia tenho de ser uma diretora
executiva excelente, uma ótima mãe, uma ótima cidadã e figura pública. Eu deveria fazer algum trabalho voluntário e ligar
para todas as minhas amigas. E deveria ligar para minha avó. Talvez devesse preparar uns biscoitos. Assim, todo santo dia,
eu devo ser perfeita em todas essas coisas. Isso não funciona. E só serve para pressionar todas nós.55
Seria uma boa ideia se todas nós parássemos de pensar em tentar conquistar o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Essa estabilidade implica que o trabalho não é vida, apesar de fazer parte da vida da maioria das pessoas. Prefiro ver as pessoas pensando em equilíbrio de vida. Para mim, se as mulheres conhecerem suas prioridades e empregarem seu tempo tendo em mente tais prioridades, elas conquistarão suas metas – inclusive as profissionais – muito mais facilmente.
Claire Vorster é jornalista e blogueira nos Estados Unidos e publicou a seguinte postagem em 2011:
Tudo se transformou naquela velha ladainha das pessoas com quem cresci. Nós deveríamos ser ambiciosas, viajar,
comprar pelo menos uma casa, ter um filho ou dois, saber escolher uma roupa e quando vesti-la, dirigir o carro certo,
manter a forma, não parecer ter mais de 29 anos, cozinhar feito um gourmet e ter uma vida amorosa excelente.
Ao ver como “ter tudo” funcionou conosco, percebi o seguinte: ninguém que eu conheça “tem tudo”, nem de longe.
Todas as mulheres que conheço têm partes das suas vidas que talvez sejam invejadas pelas outras – uma carreira de
sucesso, uma ótima casa, filhos, um bom relacionamento, apoio dos amigos, saúde ou riqueza, estilo ou charme. E todas
têm também pedaços das suas vidas que vão do complicado ao impossível – algum tipo de perda, algum tipo de fracasso,
um relacionamento arruinado ou uma montanha gigantesca para escalar.56
Claire dá prosseguimento à argumentação discutindo sobre Nicola Horlick, gerente de fundos do Reino Unido que, nos anos 1990, vivia sendo apontada pela imprensa como a mulher de carreira perfeita, sendo até chamada de “supermulher”. Isso porque ela ocupava um papel elevado na empresa onde trabalhava, tinha cinco filhos, uma casa linda em Londres e outra no interior. Até ser dispensada um dia e fazer um grande escarcéu a respeito, chegando a viajar à Alemanha (ela era funcionária do Deutsche Bank por meio da subsidiária Morgan Grenfell) com um grupo de jornalistas pedindo para ser recontratada.
Nicola não foi reintegrada à organização. Ao contrário, enquanto procurava outro trabalho, escreveu o livro Can You Have It All, publicado em 1998, detalhando a perda do emprego e a doença da primogênita, que havia desenvolvido leucemia. Ela falou o seguinte à época:
Perder o emprego não foi a pior coisa a me acontecer. Ficar sabendo que Georgie tinha leucemia foi pior. Descobrir que a
doença voltara foi pior. Ter um filho doente pôs minha vida em perspectiva. Antes de ela adoecer, eu pensava ser possível
ter tudo. Depois do que passamos, vi que ninguém pode. 57
Nicola teve o sexto filho, a primogênita morreu, o casamento terminou e ela voltou a se casar. Ela nunca conseguiu se livrar do título de “supermulher”, embora não pense ser descrita com exatidão por ele.
Não acredito no termo “supermulher”. Supermulher é aquela com cinco filhos, sozinha e sem dinheiro. Eu sou capaz,
organizada, e muito severa em relação a limites. Volto para casa todos os dias às 18 horas e, sendo uma gestora de fundos
no Reino Unido, posso ser assim. 58
Decida o que é mais importante para você
Lá no capítulo 1, mencionei minha amiga Helen Weir, ex-participante do programa de treinamento de estagiários da Unilever. Se você não soubesse que ela tem um diploma de primeira classe (a mais alta nota possível) da Universidade de Oxford em matemática, além de ter feito MBA em Stanford, provavelmente teria sacado isso após cinco minutos de conversa. Também seria possível chutar, corretamente, que ela nunca volta para casa às 18 horas todos os dias. Nas palavras de Helen:
Quando dou palestras em organizações femininas, digo às mulheres presentes ser necessário aceitar o fato de que é
preciso fazer concessões. Trabalho muitas horas por dia, mas não aos finais de semana, e não abro mão disso. Algumas
pessoas talvez não desejem fazer algo do gênero, e não tenho nada contra se preferem agir assim. Fazer concessões é
algo que também os homens têm de aceitar e enfrentar cada vez mais.59
Ter amigas como Helen pode ser meio intimidador (é como conhecer Elle Macpherson: tão linda que qualquer mulher normal sente vontade de entregar os pontos e sair para se esconder atrás de uma pedra).
Como eu poderia imitar o sucesso de Helen?
O encorajador e até inspirador em Helen não se resume às suas conquistas – nunca serei capaz de reproduzi-las –, mas em como ela chegou lá. Certa vez, demos uma conferência juntas para alunas entre 16 e 18 anos. Helen falou primeiro, e as estudantes ficaram encantadas com sua apresentação, até fizeram um monte de perguntas no final.
Eu era a próxima a falar e me perguntei como prender a atenção daquelas meninas com tanto sucesso quanto Helen. Porém, eu tinha uma carta na manga. Questionei por que elas não haviam feito a Helen a única pergunta a qual eu tinha certeza de que gostariam de fazer.
Quanto ela ganha?
Na época, Helen era diretora financeira de uma das empresas que compõem o índice FTSE
10060 e seu salário era uma informação pública, então expliquei não ser preciso perguntar – eu lhes diria, afinal. Eu havia imprimido um trecho do balanço anual da companhia e o levara comigo.
No ano anterior àquele encontro com as estudantes, a remuneração anual de Helen foi declarada em 1,3 milhão de libras.
Como a idade média da plateia era de 17 anos, minha revelação funcionou às mil maravilhas.
Contudo, o que prendeu minha atenção naquele dia foi a clara declaração de Helen sobre suas prioridades. Percebi serem iguais às minhas, mas eu nunca as havia expressado, nem para mim mesma, tão bem como ela durante a palestra. Helen reconhecera perfeitamente não ser capaz de ter tudo e, assim, decidiu conquistar o que era mais importante.
A carreira e a família eram o foco da vida de Helen, e você não a verá investindo muito tempo em outras coisas. Ela tem outras atividades – de caridade, para começar, e gosta de assistir a esportes, principalmente rúgbi e futebol, e, de alguma forma, conseguiu ter os filhos com intervalos de quatro anos, programados para coincidir com três Copas do Mundo de futebol seguidas, propiciando-lhe estar em casa para assistir a todas as partidas decisivas –, mas se concentrou principalmente na carreira e na vida doméstica.
Nem todas nós seremos tão inteligentes e tão disciplinadas assim. Eu não sou. Entretanto, compreendo a importância de estabelecer prioridades e de não se envergonhar de possuí-las. Após ouvir Helen expressar as prioridades dela, fui para casa e escrevi as minhas, e, a partir de então, examinei todos os pedidos por meu tempo ou recursos por meio desse prisma.
O aspecto negativo de tentar ter tudo
Para mim, existem três motivos pelos quais ter tudo pode frear sua carreira.
• O primeiro é que para fazer qualquer coisa bem é preciso ter foco. Quando se tenta
construir uma carreira de sucesso, o foco é muito importante;
• O segundo é a mera exaustão e decepção nascidas ao tentar alcançar o impossível;
• O terceiro motivo – talvez específico para as mulheres – é que se tentarmos equilibrar as
várias demandas conflitantes por nosso tempo, podemos dar a impressão (tendo consciência disso ou não) de não estarmos comprometidas com nenhuma delas.
Participar de uma teleconferência em dia de jogo na escola, e, por conta disso, ficar dando voltas ao redor do campo, pode sinalizar aos outros pais (e aos seus filhos) que você está mais comprometida com o trabalho do que em ser mãe. Contudo, passei a vergonha de me comportar assim com um celular no qual não sabia como acionar o botão de emudecer e,
quando menos esperava, durante uma partida de críquete, um wicket61 caiu e o público explodiu em aplausos.
Nessa hora, o cliente não a considera dedicada aos interesses dele.
Fiquei conhecida por marcar uma série de aulas de ginástica somente para cancelá-las e ir a jogos dos filhos ou a reuniões com clientes. Assim, o instrutor não me considerava comprometida com minha forma física.
Ano passado, filmar minha série de TV não ajudou: não apenas o raro cliente vendo televisão às 20h30 em uma noite de quarta-feira se pergunta o que estou fazendo em Manchester, Blackpool ou Bognor Regis em vez de estar cuidando do caso dele, como também perdi várias reuniões do comitê de uma causa meritória. Na verdade, gravei quase tudo à noite e nos finais de semana, mas não é a realidade da situação que importa, e sim a impressão passada.
Depois de tudo isso, qualquer um dos meus clientes, colegas e familiares tem o direito de pensar que eu realmente não estava concentrada em nada.
Com frequência, surge um momento na carreira de uma mulher em que ela sente não ter tempo suficiente para cumprir seus compromissos não profissionais. O instante costuma acontecer quando ela tem um filho, mas também pode ser dar com um dos pais ou o marido doente. Ela também pode ter outra empresa para tocar ou se envolver em atividades filantrópicas em demasia.
Nessa hora, é necessário tomar uma decisão, pois é impossível ter tudo.
Quem aprendeu isso recentemente foi Britt Lintner, mulher linda e cordial capaz de elevar nosso pique com um mero sorriso. De origem escandinava, Britt foi criada nos Estados Unidos e trabalhou com finanças durante muitos anos, principalmente no Lehman Brothers em Nova York, Hong Kong e Londres. Ao sair do Lehman bem antes da falência da empresa, fez uma pausa para estudar moda no Instituto Marangoni e lançou uma linha de roupas. Ao perceber quanto investimento seria necessário fazer nessa área, Britt decidiu voltar a trabalhar no segmento de fundos de cobertura e investir a remuneração do emprego fixo na sua confecção.
Como Helen, Britt cativava qualquer público com sua atitude confiante. Ela é o tipo de pessoa que também consegue prender a atenção de todos.
A marca de Britt nasceu da descoberta, no comecinho da carreira, de não possuir um guarda-roupa funcional, elegante e profissional para usar durante e após o expediente. Ela desenhou roupas para mulheres que trabalham, tendo em mente que é importante passar sem problemas do dia para a noite, com tecidos luxuosos, resistentes e com um corte requintado. Seus vestidos foram usados por mulheres com muitas conquistas importantes e de todas as áreas de atuação. Após a eleição de Obama como presidente dos Estados Unidos, Sarah Brown, esposa do então primeiro-ministro inglês, usou um vestido de Britt Lintner durante a primeira visita oficial à família Obama na Casa Branca. Três modelos de Britt são usados por Christine Baranski no papel de sócia sênior em uma banca de advogados de Chicago em três temporadas do seriado norte-americano The Good Wife.
Britt foi elogiada na mídia por mesclar a carreira em finanças, uma empresa de alta-costura e a maternidade. Ela foi descrita como modelo a ser seguido pela clientela e
primeira cliente da própria marca. 62 Tenho vários dos seus vestidos, as roupas mais bacanas que possuo. (Confesso não serem prêt-à-porter – a equipe de Britt passou no meu escritório com uma trena larga e especial antes de me atender.)
Tentar fazer bem mais de uma atividade profissional, principalmente quando há aumento da pressão em uma dessas atividades, nunca é fácil. Britt e o marido, após o lançamento da marca, tiveram dois filhos. Logo após essa grande modificação em sua vida, a empresa de investimentos em que Britt trabalhava foi comprada por uma organização muito maior, ampliando, assim, as demandas no seu emprego fixo.
No final de abril de 2011, Britt escreveu no seu blog:
Não sei vocês, mas ultimamente me sinto puxada em todas as direções, menos na que desejo seguir, e a única forma de eu
descobrir qual rota tomar é arranjando tempo livre para pensar e me escrever uma carta contando como eu adoraria ver
meus próximos vinte anos se desdobrarem, uma espécie de plano empresarial pessoal, se preferirem. Não faço uma
análise para valer há anos, então está na hora.63
No final, Britt teve de escolher entre o emprego fixo (no qual ela era muito boa e bem paga) e sua marca de roupas (que amava como a um primogênito). Mãe de dois filhos, o marido também abrira o próprio negócio e ela era incapaz de dedicar tempo suficiente ao empreendimento na área de vestuário. Percebendo ser necessário fazer uma coisa ou outra, e que, até segunda ordem, a família era sua maior prioridade, Britt decidiu fechar a confecção e se concentrar na sua principal atividade profissional, no marido e nos filhos.
Chegar a essa decisão foi muito complicado para Britt. Dizer “não”, como aprendemos no capítulo 4, nunca provoca uma sensação boa, e recusar dar continuação a uma empresa batizada com nosso nome deve ser horrível. Anos da vida de Britt, seu trabalho criativo e muito dinheiro foram investidos na marca de roupas. Mas admiro a coragem dela de estabelecer prioridades e não recuar.
Admiro essa atitude muito mais do que seguir adiante sem ter nenhuma parte da sua vida sendo realmente maximizada.
Ela escreveu o seguinte no seu blog em maio de 2011:
Oi, pessoal.
Estou aqui sentada vacilante, sem saber como dar início a esta mensagem, e já que não sei como fazer, vou direto ao
ponto.
Há pouco tempo tomei a difícil decisão de dar uma pausa na minha confecção. O saldo líquido? Como minha amiga Sofia me disse um dia: “Nós podemos ter tudo, mas não tudo ao mesmo tempo”, e
esta não é minha hora. A inevitável encruzilhada surgiu no final do ano passado, e minhas circunstâncias pessoais ainda
não me permitem entrar no meu sonho com tudo, em tempo integral.
A empresa se tornou maior do que a paixão, o passatempo e, por fim, eu simplesmente não conseguia mais cuidar das
três coisas ao mesmo tempo (família, finanças e moda). Que ótimo problema para ter! Alguma dessas coisas precisa ceder
e, no presente momento, é a moda.
Mais tarde, ela escreveu:
Aprendi que dizer “não” ao ego de uma pessoa e às opiniões de todos é um desafio extremo quando só pensamos em falar
“sim”. 64
Britt está certíssima.
Dizer “não” é muito difícil.
Tenho certeza de que a marca de roupas Britt Lintner voltará a produzir um dia. É bom mesmo – meus vestidos não vão durar para sempre!
Porém, Britt sempre terá os modelos. Vejam o caso de Diane von Furstenberg, que descontinuou sua linha de roupas por muitos anos e foi morar na França antes de relançá-la em 1997, em outro momento da vida. Sua marca não parou de ganhar força desde então.
A decisão de se concentrar em poucas coisas e, especialmente, na carreira, não tornará possível ter tudo. Contudo, o foco é uma parte muito importante do sucesso. As pessoas costumam dizer que pareço ter tudo e respondo ser óbvio que não é nada disso, argumentando que estou muito maior e em pior forma do que deveria – uma prova da falta de tempo para me dedicar a mim. Se eu empregasse mais tempo para planejar minha rotina de exercícios, dormisse conforme o programado e cuidasse da alimentação em vez de simplesmente agarrar o que está por perto nos cinco minutos durante os quais posso parar para almoçar ou jantar, minha aparência seria totalmente diferente.
Está bem, eu não pareceria uma modelo de passarela, mas seria mais bonita do que agora.
Também teria uma casa (e escrivaninha) mais limpa e ajeitada, além de um jardim aparado.
E poderia preparar um faisão assado.
E estaria habilitada a pilotar avião.
E teria pagado minha hipoteca.
Na verdade, existem muitas coisas que eu gostaria de poder fazer, mas a vida é um consenso e não se pode ter tudo. Então escolhi me concentrar na minha empresa e na minha família à custa de um monte de outras coisas.
Cuidado para não dar a impressão errada
Eu incentivo as mulheres a desistirem de ter tudo porque, agindo assim, elas podem inadvertidamente emitir os sinais errados para os empregadores atuais e futuros.
Lembre-se: inevitavelmente haverá interpretação assimétrica do comportamento.
Segundo um estudo de 2011 com mais cem mulheres graduadas do segmento de serviços financeiros, as mães costumavam ser julgadas de forma diferente dos pais.
Sair do trabalho meia hora mais cedo pode render comentários negativos, enquanto os colegas homens – sempre tirando
um tempinho para ver um jogo ou comparecer à noite da reunião de pais e mestres – eram vistos como “campeões da
paternidade”.65
Pense em como você será encarada caso peça um horário flexível ou um trabalho de meio expediente após ter um bebê. Para mim, se uma mulher pedir uma carga horária de meio período, isso pode ser interpretado como falta de compromisso com o trabalho. Em nenhum momento estou sugerindo ser esse o caso, porém acredito que a maioria dos chefes homens (e, na verdade, muitas mulheres) considera uma solicitação dessas como um indicativo de que a autora do pedido também reduzirá pela metade sua dedicação à empresa.
Não costumo incentivar mulheres a trabalhar meio período. Se possível, sugiro período integral, pensar grande e chegar à posição mais sênior possível – e, então, ter a possibilidade de gerenciar a própria agenda. Quando desejar assistir à peça de teatro das crianças ou ao jogo de hóquei, basta marcar na agenda.
Nicola Horlick age exatamente dessa forma – mas mesmo assim, ela não tem tudo.
Faço de tudo para não perder atividades como peças escolares, mesmo meus filhos estudando em cinco escolas diferentes,
e programo minha agenda em torno desses eventos. Não tenho tempo para mim, mas você define suas prioridades. 66
Carol Bartz dá um jeito dividindo o tempo entre a vida doméstica e a profissional.
Existem dias nos quais preciso estar plenamente concentrada na empresa [...] e minha família fica com uns 20% de mim;
se estou viajando, ela nada recebe de mim. E existem outros instantes nos quais tudo gira em torno da família. Assim, o
conceito de equilíbrio é, como digo, pegar as coisas antes de elas caírem no chão. Se estou envolvida em um grande
projeto no trabalho, chega o momento de ir para casa e não pensar no trabalho por uns tempos. 67
Caso você precise realmente trabalhar meio expediente, talvez seja necessário pensar de forma criativa. Como detalhei no capítulo 1, aconselhei uma mulher (que precisou se afastar de uma carreira em tempo integral após produzir três Centros de Custo em quatro anos) a lecionar finanças em meio período para se manter atualizada. E funcionou direitinho: agora ela é gestora financeira sênior (em tempo integral) em uma empresa de telecomunicação.
Entretanto, se for necessário reduzir o expediente por conta de uma mudança nas prioridades, lembre-se: é muito mais fácil trabalhar meio período em uma organização na qual você é tida e vista como confiável. Os gerentes estão mais propensos a concordar com o horário reduzido quando já conhecem e têm experiência com o autor do pedido. Mesmo pretendendo retomar o tempo integral, será muito mais fácil trabalhar em um lugar onde você já conhece o caminho das pedras.
Caso mantenha uma jornada parcial, uma estratégia que pode ajudá-la a bloquear percepções negativas é a de somente mencionar o fato se for necessário. Diane Benussi, fundadora e sócia majoritária de um escritório de advocacia de Birmingham, explicou-me o pulo do gato:
Não fique lembrando aos colegas que você trabalha meio período, pois eles podem ver nisso falta de comprometimento. Se
tentarem marcar uma reunião em um dia ou horário em que você não estará no escritório, simplesmente diga: “Desculpe,
não vai dar para mim.” Não explique. Se explicar e contar que trabalha somente meio expediente, irão dispensá-la. Você
não será mais levada em conta. É impossível dizer “trabalho meio período” sem falar “somente”. É quase uma desculpa.
Seja assertiva – seu horário é flexível.
Voltamos ao tema interpretação assimétrica. “Ela trabalha meio período; ele trabalha por conta própria.”
Após ter sugerido que permanecer com o mesmo empregador pode aumentar sua flexibilidade, não se esqueça: ficar no mesmo emprego tempo demais pode reduzir seus ganhos, um dos verdadeiros motivos para as mulheres terminarem recebendo menos do que os homens é elas não se mexerem muito. Mulheres prezam o equilíbrio na vida – a tentativa de ter tudo – e sabem ser mais fácil conquistar o meio-termo em uma empresa em que já se habituaram, atuando ao lado de colegas que conhecem, confiam e com os quais trabalham bem. Na verdade, elas estão trocando as recompensas extrínsecas – dinheiro e, às vezes, cargo – pelas recompensas intrínsecas (flexibilidade e familiaridade).
Conheço mulheres que adotaram uma semana de quatro dias e terminaram sendo pagas pelos quatro dias, embora, no fim das contas, trabalhassem cinco. Na verdade, conheço gerentes que vibravam quando uma mãe, voltando ao trabalho depois do nascimento do filho, pedia que trabalhasse quatro dias na semana, pois sabiam que uma funcionária escrupulosa lhes daria, no fim das contas, cinco dias de trabalho, e eles só teriam de pagar por quatro.
Não faça isso!
Pense nos motivos para querer quatro dias.
Mais tempo com os filhos?
Tempo para cuidar do cabelo?
Tente encaixar tais demandas na sua jornada semanal.
Trabalhar em período integral irá sinalizar o quanto está comprometida com sua vida profissional.
Cuidado com o impacto da maternidade
Você pode tentar jogar a culpa nos empregadores preconceituosos, mas a maternidade pode sinalizar com grande força prioridades profissionais reduzidas.
Segundo Cordelia Fine, no livro dela sobre diferenças de gênero, pode haver uma penalidade à maternidade, mesmo para quem estiver comprometida com a carreira. Ela cita um estudo realizado nos Estados Unidos em 2007, no qual se pediu a universitários a escolha de candidatos a um determinado emprego.
Comparadas com quem não era mãe, candidatas que já eram mães, com qualidades idênticas, foram classificadas como
cerca de 10% menos competentes, 15% menos dedicadas ao trabalho, e recebendo 11 mil dólares a menos de salário [...]
somente 47% das mães, em comparação com 84% das não mães, foram recomendadas para contratação.68
Caso o chefe não a considere comprometida, essa avaliação pode ter um efeito muito pior, reduzindo sua confiança e suas aspirações. O que, por sua vez, pode levar a um círculo vicioso. Segundo um livro sobre pausas na carreira, existe um risco em particular para as mulheres que voltam ao trabalho:
Empregadores e chefes costumam ser céticos quanto ao valor de uma mulher. Surge um ciclo de redução: a confiança e a
ambição de uma mulher empacam; ela é vista como menos comprometida; ela deixa de ganhar os serviços bons ou as
tarefas desejadas; e isso diminui ainda mais suas ambições. 69
Quando tais atitudes irão mudar em relação ao trabalho de meio expediente ou a mulheres trabalhando em horário flexível – ou homens, por falar nisso?
Não sei.
Contudo, este livro é sobre lidar com o aqui e agora e dedicado a mulheres interessadas em progredir na carreira – assim que chegarem lá, elas talvez mudem o cenário para as colegas no escritório. Enquanto isso, a modificação só virá quando os homens desejarem se envolver mais com a criação dos filhos. No Reino Unido, apenas 20% dos pais usam a
licença-paternidade. 70 Em comparação, 42% das mulheres usufruem da licença-
maternidade.71
Laura Tenison, fundadora da confecção JoJo Maman Bébé para recém-nascidos, bebês e crianças, não acredita que ficar esperando por um milagre seja a solução.
Caso as grandes instituições do centro financeiro de Londres atuem no sentido de criar um melhor equilíbrio entre a vida
profissional e pessoal dos funcionários, elas devem proceder da mesma maneira tanto com homens quanto com mulheres.
Não se pode ser sexista de forma alguma. Porém, acredito que, talvez, no futuro, os homens começarão a assumir um
papel com participação ativa na criação dos filhos, e é nessa hora que as coisas poderiam mudar. [Contudo, por] ora, a
atitude é de a melhor pessoa ser escolhida para o trabalho se estiver preparada para trabalhar sem descanso – e se calhar
de serem homens, assim será.72
A interpretação assimétrica de sinais é uma ameaça muito real. Enquanto um homem pode ser visto como estável e com bons valores familiares se colocar fotos da esposa e dos filhos no escritório (“um homem de família”), se você for mulher, as pessoas podem vir a pensar que você não consegue se concentrar no trabalho (“uma mamãe”).
É importante, quando se inicia uma família, sinalizar o compromisso com a carreira. Quando sair de licença-maternidade, tenha certeza do que deseja ao voltar. Muitos empregadores presumem erroneamente que, ao voltar da licença-maternidade, as mulheres querem assumir um ritmo profissional mais leve e acabam lhes dando um serviço que não
exige muito.73
Para Sheryl Sandberg, diretora de operações do Facebook, o melhor que as mulheres podem fazer até darem uma pausa na carreira é trabalhar com o mesmo afinco de sempre. Durante discurso em uma conferência da Technology Entertainment and Design (TED), Sheryl expressou a preocupação de que, muitas vezes, a partir do momento no qual passa a pensar em ter um filho, a mulher começa a se acomodar, não recebe promoções nem se põe em evidência.
Pise fundo no acelerador até o dia da sua saída, caso opte por ela. Não é fácil se afastar de criancinhas em casa para
voltar ao trabalho. Se você não achar o trabalho recompensador e desafiante, se estiver chateada, parecerá não valer a
pena.74
É impossível ser sempre a melhor mãe, a melhor esposa, a melhor executiva, a melhor cozinheira ao mesmo tempo, o tempo todo. É necessário decidir qual caminho seguir e não abandoná-lo. Você ficará muito mais feliz se não tentar ter êxito em tudo.
Talvez sua decisão seja parar de trabalhar. Ou parar por algum tempo.
Será muito mais fácil se decidir abordando tal disposição positivamente, como uma atitude em prol de algo, em vez de encarar como um caminho que se viu forçada a tomar.
Cuidado para não nutrir expectativas irreais
Tento falar com mulheres jovens, no começo da carreira, até mesmo antes de começarem suas vidas profissionais, pois desejo que saibam que é necessário fazer escolhas, e que tentar ter tudo é, no mínimo, contraproducente, e, no máximo, o caminho para a infelicidade.
Adoro a ambição – e a confiança, bem sabemos, é fundamental para o sucesso de uma mulher –, mas costumo vê-la presente em meninas jovens, assim como a confiança, sem o efeito moderador do realismo. Ambição e confiança sem realismo podem levar a grandes decepções.
É importante perceber como é a vida real.
Lembro-me de uma conhecida, ainda jovem, que planejava continuar estudando e fazer doutorado. Após conversar com uma professora, esta a aconselhou a trabalhar com muito afinco para garantir um emprego permanente, pois estes estavam se tornando escassos. Diante desse compromisso, a professora sugeriu à minha amiga decidir se teria filhos bem cedo ou bem mais tarde, para conseguir se dedicar à carreira. Se fosse mais tarde, a professora a aconselhou a congelar alguns óvulos.
Nessa hora, ao encarar a realidade, minha amiga – ambiciosa e confiante, e que teria dado uma excelente professora universitária – decidiu que isso não era para ela.
Essa é uma ótima lição. Se estiver cogitando pisar fundo no acelerador, pergunte a alguém com muita experiência profissional qual cenário pode ser esperado.
Você está disposta a lidar com o mundo relatado?
Caso contrário, é necessário mudar a direção ou a velocidade.
O Museu Victoria e Albert, em Londres, é um local perfeito para oferecer um coquetel, ainda que acima do meu orçamento. No verão de 2005, eu estava lá, no evento de outra pessoa, em meio a um mar de gente, a maioria das quais não conhecia. Por fim, vi um conhecido em um grupo que incluía uma jovem impressionantemente bela. Conversando com ela, fiquei cativada por sua conversa articulada, maturidade e perspectiva de vida. Formada em Cambridge (duas vezes: a primeira em estudos clássicos; a segunda, na Judge Business School), Jennifer Harris mudou-se para Londres, entrou em uma consultoria de gestão, percebeu não gostar de ser funcionária, se demitiu, passou a pedalar um riquixá por Londres para pagar o aluguel enquanto avaliava as opções e pensava a longo prazo. Foi quando, então, abriu uma empresa.
Tudo antes de completar 24 anos.
Logo a seguir, Jennifer ganhou um prêmio de Jovem Empresária do Ano e continua prosperando. Então, mesmo com pouca idade, para o padrão da maioria das pessoas, ela percebeu que a vida envolvia escolhas – e que nem toda mulher escolheria uma carreira óbvia trabalhando como empregada em uma consultoria.
Mais recentemente, ela disse:
Outra questão que prevejo para mim e para as mulheres em geral é, um dia, conseguir dar conta da vida profissional e de
uma família. Observei amigas ambiciosas desistirem de empregos dinâmicos porque seus papéis simplesmente não eram
compatíveis com uma família. Por natureza, sou uma grande defensora de as mulheres ultrapassarem o telhado de vidro,
mas algumas das carreiras que as mulheres são incentivadas a seguir, como eu, apresentarão grandes desafios no futuro. 75
Quanto antes definir suas prioridades, mais fácil será traçar um plano.
Na verdade, é simples.
Cuidado com o impacto na carreira do marido Os filhos podem não ser o único tipo de interrupção na carreira para alertá-la de que é impossível ter tudo ao mesmo tempo.
E se o seu companheiro for igualmente ambicioso e receber uma oportunidade de trabalho no exterior?
Atualmente, Debra Lam é consultora sênior de políticas e sustentabilidade da consultoria Arup, com escritórios no mundo inteiro. Ela é da Pensilvânia, Estados Unidos, e agora mora em Londres. Debra foi uma das “35 mulheres com menos de 35” da revista Management Today de 2011 – ainda que, nos últimos dois anos e meio, ela tenha se mudado duas vezes em função da carreira do marido. Após ter entrado na Arup de Londres, ela recentemente passou dois anos na filial de Hong Kong. Debra contou-me:
Fui para Hong Kong apoiar a carreira do meu marido. Por sorte, a Arup conseguiu me acomodar, embora, à época, eu
julgasse ser um momento de a minha carreira estacionar ou até mesmo retroceder um pouco. Naquele momento, estavam
em pauta excelentes projetos em Londres, e foi um grande desafio começar da estaca zero no Extremo Oriente.
Felizmente, conheci gente genial, expandi minhas redes de contatos e trabalhei em projetos fantásticos. Depois chegou a
hora de mudar de novo, de voltar para Londres, pois meu marido precisou regressar. E poderia ter muito em breve outra
mudança para mim, para ele ou para nós dois. É uma questão de compromisso. Todavia, fui muito sincera com a Arup
desde o começo. No mínimo, a carreira acadêmica do meu marido me ajuda, pois tenho muita experiência conhecendo
acadêmicos: eu conheço um grande número de professores e estou por dentro das pesquisas acadêmicas mais recentes.
Tudo isso é útil para a pesquisa da Arup. Meu conselho para quem tem um relacionamento no qual os dois se dedicam à
carreira é conversar. Às vezes não dá certo, mas esse aspecto não pode ser um empecilho.
Essa é uma boa lição de vida. Mudar com o marido pode não ter sido uma atitude óbvia para a carreira à época, mas Debra deu um jeito de incrementar o currículo.
Quando acompanhei meu marido em sua ida a Hong Kong em 1994, depois a Cingapura, e, finalmente, ao Japão, também me preocupei em ficar andando de um lado para outro. Contudo, não parei de trabalhar, mesmo desempenhando um papel que eu não desejaria ocupar no Reino Unido, e toda a experiência acumulada naquele período se mostrou incrivelmente útil mais tarde.
Cuidado para não se sentir culpada ao colocar o trabalho à frente da família Digamos que você tenha decidido não tentar abraçar o mundo e, ao contrário, se concentrou em ser bem-sucedida na área onde estão suas prioridades. Você negociou com êxito com o namorado ou marido para as ambições de ambos não entrarem em conflito.
Porém, ainda pode ter um desafio.
Se você for mãe, como lidará com a culpa ao colocar o trabalho à frente da família para conquistar seus objetivos?
Eu tenho três filhos. Cada um estuda em uma escola diferente, todos têm atividades diferentes fora da escola, e todos estão em momentos diferentes da vida. Simplesmente não consigo estar em três lugares ao mesmo tempo e explico isso a eles.
Anos atrás, quando comecei a escrever a coluna da sra. M., recebi a carta de uma leitora expressando seu horror por eu não passar tempo suficiente com meus filhos. Ela também havia trabalhado enquanto o filho estava na escola e este agora se saía bem, cursando uma universidade de ponta. Contudo, ele sofreu um colapso nervoso antes da formatura na escola e, na terapia, o incidente fora atribuído ao fato de a mãe ter trabalhado.
Cuidado, ela me alertou. Vai acontecer com você.
Sério?
Acho que não.
Se alguém tem direito a um colapso nervoso na minha casa, esse alguém sou eu!
Estávamos em meio a um recesso escolar e o Centro de Custo 1, então com 11 anos, havia combinado de ir ao cinema com minha irmã. Liguei para ele e perguntei onde estava. O garoto contou estar em um shopping center, a caminho do cinema. Na hora, ofereci-me para tirar a tarde de folga e ver o filme com eles. Ele quis saber por quê. Expliquei que, em função da carta da leitora cujo filho sofrera um colapso nervoso por ela não ficar tempo suficiente com ele, eu me sentia culpada por estar trabalhando.
“Mãe”, respondeu o CC 1, “se você vier ao cinema comigo agora, eu terei um colapso nervoso”.
A culpa, a exemplo do remorso, é um desperdício de energia emocional.
A primeira coisa a ser feita é treinar para se livrar dela.
Você pode ficar acordada até uma hora da manhã preocupada com o fato de o filho sentir sua falta em um dia de distribuição de prêmios (com discursos) ou de jogo – ou seja, você estará exausta no dia seguinte ao levantar e ir trabalhar. É melhor ter uma boa noite de sono, estar com boa disposição ao sair para o trabalho e trabalhar bem.
A família inteira sairá lucrando com uma mãe contente e bem-sucedida, reconhecida pelas conquistas na vida profissional – mas não com uma mãe que vai trabalhar cansada, está sempre falando ao telefone com os filhos ou interferindo na rotina da babá e, como resultado, sob a pressão de um chefe insatisfeito.
Rejeitar a culpa se enquadra na categoria das coisas mais fáceis de falar do que de fazer – é preciso convencer a si e à família. Como no caso de aprender a falar “não”: se você se habituar ao fato de algumas atitudes serem desconfortáveis, será mais fácil lidar com elas.
Por exemplo, seu filho odeia injeções, mas você foi trabalhar em vez de levá-lo ao médico para tomar uma vacina de rotina, tarefa assumida pela babá ou pelo pai da criança. Você está sentada no trem a caminho do trabalho sentindo-se péssima com aquilo. Em vez de ficar angustiada durante a viagem e depois ficar ligando de meia em meia hora para descobrir como o filho está se sentindo, tente ler ou trabalhar. Assim, ao voltar à noite para casa, terá tempo livre para ficar com seu filho.
Reconheça o sentimento de desconforto pelo que ele é – culpa – e, após ter feito isso, lembre-se de não ceder a ela. Peça ao acompanhante do filho que mande um e-mail resumindo o que aconteceu, para depois poder entrar em uma reunião sentindo-se tranquilizada por tudo estar dentro da normalidade.
Cuidado para não se desculpar pelas escolhas que faz Por fim, a melhor maneira de sentir-se bem com as demandas conflitantes pelo seu tempo é tomar decisões e não voltar atrás.
Conheci mulheres demais que se desculpam for ficarem em casa cuidando dos filhos dizendo: “Sou apenas dona de casa.”
Não existe “apenas” nessa atividade!
Ser dona de casa em tempo integral é exigente e cansativo – e também pode ser muito gratificante, como acontece com qualquer carreira. Mesmo assim, mulheres instruídas podem sentir culpa por escolherem ficar em casa.
Em contraste, conheci uma senhora maravilhosa e cheia de energia um dia desses, a esposa de um cliente, formada em contabilidade, que tivera uma carreira de bastante sucesso até se afastar para ter três filhos.
Ela adorava ficar em casa, reconhecia ter tido a grande sorte de poder escolher e falava cheia de entusiasmo sobre sua vida. Ao contrário de muitas outras conhecidas que são mães e ficam em casa, ela refletira bem acerca disso e quando a questionei se ela não se culpava por ter deixado a carreira de lado, ela respondeu que não.
Ela continua lendo jornais e tinha assunto para conversar além do mundo das escolhas escolares, doenças infantis, etc. É uma companhia deliciosa, mas de imediato adotou sua opção de vida e estava determinada a não deixar o pique cair.
Igualmente, minhas conhecidas mais felizes com a contemporização entre carreira e casa são as que reconheciam se tratar de uma concessão deliberada. Elas estão contentes em deixar parada a vida profissional enquanto se concentram na vida doméstica ou em outra atividade que exija seu tempo e concentração. Elas escolheram deliberadamente esse caminho e têm uma visão sobre quando voltarão a colocar a carreira em primeiro lugar.
Neste capítulo, determinei-me a explicar por que ter tudo é impossível e qual é a melhor forma de atingir um equilíbrio que funcione para você.
Caso deseje alcançar metas profissionais (ou, na verdade, qualquer meta), geralmente algum elemento precisará ficar de lado. Toda mulher necessita ser capaz de definir suas prioridades e deve julgar de que forma distribuir o tempo entre elas.
O mais importante é saber o que se deseja e por que, e só então tomar decisões a respeito.
Infelizmente não é possível ter tudo.
LIÇÃO DE CASA PARA MULHERES AMBICIOSAS
Em qualquer estágio da carreira
Como definir as prioridades
Coloque todas em um papel.
Agora, escreva a lista novamente, desta vez por ordem de importância. Caso existam mais de cinco itens, reduza-os. E não se esqueça: os dois primeiros tomarão a maior parte do tempo. Anote uma data na agenda para revisá-las – que tal em dois anos?
As prioridades mudam o tempo todo.
A exemplo de escrever um testamento (algo a ser feito e revisto a cada mudança na vida), é necessário manter atualizada a lista de prioridades.
Como definir se as prioridades e seu tempo estão em sincronia Analise um mês típico.
Quanto tempo do mês é gasto em cada área da sua vida? (Só para ajudar, eu gasto um terço de cada mês dormindo e 5% deslocando-me para o trabalho.)
Agora, compare com a lista de prioridades. Se existirem incompatibilidades, pense em uma maneira de reequilibrar tudo.
Se perceber nunca conseguir alcançar uma das metas, talvez seja porque elas não contam com o suporte das prioridades.
Quais são suas metas e objetivos profissionais?
Liste-os do lado esquerdo de uma folha de papel, depois coloque as prioridades (ver Como definir as prioridades) ao lado.
Será que uma conta com o apoio da outra?
Não adianta nada ter a carreira como meta principal se a família estiver no topo da lista de prioridades.
Volte a pensar nas listas até estarem mais niveladas. (Também saliento que uma carreira bem-sucedida costuma beneficiar sua família, assim elas talvez não sejam incompatíveis a longo prazo. Contudo, para este exercício, pense a curto prazo.)
Em começo de carreira
Confira se está disposta a fazer os sacrifícios necessários para chegar aonde planeja.
Qual é seu plano para daqui a cinco anos?
Qual é seu plano para daqui a dez anos?
Converse com profissionais de sucesso.
O que precisaram fazer para alcançar o objetivo?
Está preparada para fazer o mesmo?
Caso contrário, adapte as metas.
Se você for uma mãe que trabalha
Está sofrendo a culpa da mãe que trabalha?
Tente lidar com ela da seguinte forma:
Para começar, saiba que a culpa da mãe que trabalha costuma ser inapropriada, pois não deveria existir.
Então, quando estiver se sentindo mal com algo, pare e avalie os seguintes itens:
• Sua culpa é racional? Talvez para você, as mães que não leem histórias de ninar para os
filhos todas as noites impedirão o desenvolvimento normal das crianças. Não existe nenhuma evidência científica concreta sobre isso. Independentemente do que suspeitar estar fazendo de errado, avalie as provas – se não apontarem para você, pare de se sentir culpada;
• A culpa tem um propósito revigorante? Vai mudar seu comportamento? Se seu filho é
malcriado e foi repreendido (mentiu, atravessou sozinho a rua, é rude com outra criança ou demonstra alguma outra conduta a ser modificada), você se sentirá satisfeita por ele se
sentir culpado, porque isso reforçará um comportamento melhor. A culpa terá sido revigorante. Contudo, se você não puder levar seu filho à escola em função do horário de trabalho e desejar permanecer no papel atual, não adianta se sentir culpada por isso. O remorso não mudará seu comportamento, pois você ainda terá de sair para trabalhar antes de a escola abrir;
• A culpa tem a ver com você ou com seus filhos? Eles se importam se o bolo de
aniversário é comprado ou caseiro? Ou você apenas deseja contar aos outros pais ter sido a boleira ou está orgulhosa da própria conquista? Se não tiver a ver com você, então não vale a pena sentir culpa;
• É uma culpa a curto prazo? Pense a longo prazo. Seus filhos sairão lucrando caso sua
carreira progrida a longo prazo? Se sim, vale a pena sentir um pouquinho de incômodo durante a jornada. Pense no treino físico necessário para a conquista de um objetivo esportivo, tal como correr uma maratona – você está ciente de que haverá sofrimento ao longo do caminho. Com a vida profissional também é assim.
Caso tenha examinado todos esses itens e ainda se sinta apavorada, está na hora de compartilhar as preocupações com outra pessoa.
Pergunte se é assim mesmo que você deveria estar se sentindo.
Há uma boa chance de a resposta ser negativa.
55 TALITENU, Monique e WOLFSON, Jill. “An interview with Carol Bartz”. Site da The Tech Museum.
<http://www.thetech.org >. Visitado em 9 de agosto de 2011.
56 VORSTER, Claire. “The real secret to having it all”. 14 de fevereiro de 2011. Site de Claire Vorster.
<http://clairevorster.com >.
57 HORLICK, Nicola. 1998. Can You Have it All? Londres: Pan Books. Citação da autora na capa do livro.
58 GARNETT, Daisy. “The truth about female stereotypes”. 14 de janeiro de 2007. Guardian.
59 MOORE, James. “Helen Weir: From Marmite on toast to a budget hotel, it’s back to basics in high finance”. 12 de janeiro de 2008. Independent.
60 Composto por ações de cem das mais representativas empresas da Bolsa de Valores de Londres. (N. do T.)
61 Conjunto de três bastões fincados no solo em cada lado do “pitch” (faixa no centro do campo de críquete). (N. do T.)
62 LINTNER, Britt. “About”. Site de Britt Lintner. <http://brittlintner.com>. Visitado em abril de 2011.
63 LINTNER, Britt. “Britt’s tip – a letter to my 18-year-old self”. 23 de abril de 2011. Site de Britt Lintner.
<http://brittlintner.com>.
64 LINTNER, Britt. “I’m hitting the pause button”. 30 de maio de 2011. Site de Britt Lintner. <http://brittlintner.com>.
65 Past Perspectives; Future change. A Study into the Experiences of Senior Women in Financial Services. 2011. Londres: Muika Leadership and Odgers Berndtson, p. 11.
66 GARNETT, Daisy, “The truth about female stereotypes”.
67 TALITENU, Monique e WOLFSON, Jill. “An interview with Carol Bartz”.
68 FINE, Cordelia. 2010. Delusions of Gender: The Real Science Behind Sex Differences. Londres: Icon Books Ltd, p. 57.
69 HEWLETT, Sylvia Ann. 2007. Off-Ramps and On-Ramps. Keeping Talented Women on the Road to Success. Boston, MA: Harvard Business School Press, pp. 48–9.
70 HAKIM, Catherine. 2011. Feminist Myths and Magic Medicine. Londres: Centre for Policy Studies, p. 9.
71 Ambition and Gender at Work. 2010. Londres: Institute of Leadership and Management, p. 2.
72 “TENISON, Laura: For the glass ceiling to be shattered, there needs to be a revolution at home”. 14 de agosto de 2010. Independent.
73 Past Perspectives; Future Change, p. 12.
74 “Sheryl Sandberg: Why we have too few women leaders”. Dezembro de 2010. Site do TED. <http://www.ted.com>.
75 ASIVA-KUMAR, Sangeet. “Insight into an entrepreneur”. 13 de maio de 2010. site da Nottingham Economic Review.
<http://neronline.co.uk>.