Mulheres Poderosas Têm Ambição

Heather McGregor · Capítulo 6 de 13

Páginas do PDF

Mulheres Poderosas Têm Ambição

Capítulo 4

 

Basta dizer “não”

 

“N ão!” Diga.

Repita!

Novamente!

Em voz alta!

Pronto! Não é tão difícil, concorda?

Mas é, sim. As mulheres têm dificuldade em dizer “não”, e ser capaz de dizê-lo pode ajudar na ascensão profissional. Por que é tão difícil para as mulheres falarem “não”?

Porque, como gênero feminino, estamos condicionadas a agradar. Parece até que os homens nasceram para realizar, e as mulheres, para agradar.

Kevin Leman, autor de Smart Women Know When to Say No, tem muito a contar sobre os motivos de tantas mulheres serem, nas suas palavras, “agradadoras radicais”. Para ele, as mulheres:

• aprenderam a agradar quando meninas;

• têm autoestima baixa;

• gostam de manter todos felizes;

• costumam se sentir inferiores aos homens, ou

• têm a necessidade de serem boas meninas para ganhar a aprovação dos outros. 49

Não parece nada bom, não é?

Aparentemente, nosso problema, como gênero, é sermos comunais. Segundo outro livro sobre o assunto, Women Don’t Ask, estamos menos preocupadas com nossas necessidades e

mais com o bem-estar dos outros. 50 As autoras mencionam a síndrome da “boa menina” ou da “garota legal”, sugerindo que as mulheres foram educadas para serem “orientadas aos outros”, ou seja, para se preocuparem com a maneira com que suas ações afetam outras pessoas.

Os psicólogos discutem “esquemas do ego” (como você se vê). Segundo as psicólogas sociais Susan Cross e Laura Madson, os homens tendem a se ver como independentes; já as mulheres, como interdependentes.

Os homens com esquemas independentes se concentram em promover suas preferências e metas pessoais, buscando relacionamentos mais instrumentais do que íntimos, em maior

número e com menos vínculo pessoal.51

As mulheres com esquemas interdependentes têm como uma de suas metas primárias a busca por relacionamentos fortes e proteção. (Aliás, as mulheres são boas para formar redes de contatos.)

Por isso, achamos difícil falar “não”.

Neste capítulo, explicarei por que dizer “não” é importante se você deseja chegar ao topo e como se aperfeiçoar na arte da negativa.

Faça as escolhas certas

A construção de uma carreira bem-sucedida se resume a fazer as escolhas certas. Nunca é tarde demais para escolher, embora os elementos escolhidos possam mudar à medida que envelhecemos. Não importa a idade, a duração do dia sempre será a mesma: 24 horas. E essas horas devem ser usadas com sensatez.

A gestão do tempo é um assunto importante que será abordado no capítulo 6. Porém, antes de chegarmos lá, necessitamos aprender a dizer “não”.

Quando afirmo às pessoas que dizer “não” é uma das principais competências adquiridas ao longo da vida, para a maioria dos jovens estou falando de sexo e drogas – e que falar “não” se aplica igualmente a ambos os sexos. A vida pode ser bastante tentadora quando existe muita coisa sendo ofertada, de uma rosquinha doce a um cigarrinho esperto. Certamente ambos os sexos se sentem tentados.

Afinal, desde quando Eva matava o tempo com a maçã, todas nós temos problemas em dizer “não”.

Logicamente, ambos os sexos precisam aprender que cair na balada na véspera de uma prova importante provavelmente não é uma boa ideia. Dizer “não” a algo mais tentador do que estudar é um desafio. Sem dúvida, todos precisam aprender o conceito da gratificação adiada, outra boa habilidade na vida. Porém, garotas adolescentes querem ser amadas, enquanto os meninos só desejam ser admirados. Por isso as meninas terminam sendo boas jogadoras de equipe, e os meninos, líderes.

Parecem generalizações radicais, eu sei, mas sabe de uma coisa? Dê uma olhada ao redor e diga se estou errada. Odeio dizer que não.

Odeio ainda mais quando sei que falar “não” afetará as pessoas que amo. Ano passado, o sr. M. e eu recebemos uma carta da escola frequentada pelo Centro de Custo 3 dizendo que a reunião de pais e mestres seria em uma segunda-feira à noite, dali a quatro semanas. Tanto eu quanto meu marido tínhamos outros compromissos nesse mesmo dia. O Centro de Custo 3 estava cursando o primeiro ano do ensino médio e considerava a escola puxada. Então ficou evidente a importância de nos envolvermos com os professores dele para, juntos, encontrarmos uma maneira de ajudá-lo. Contudo, falei de imediato ao sr. M. que eu não iria.

Por quê?

Porque meu compromisso na noite da reunião também era uma reunião importante da comissão.

É claro que nenhuma reunião da comissão poderia ser mais importante do que a chance de apoiar o progresso do meu filho na escola, certo?

Mas do meu ponto de vista, essa reunião era mais importante.

Eis os fatos processados antes de me decidir:

• A comissão da qual faço parte organiza um evento anual de caridade muito famoso;

• Só acontecem três reuniões por ano;

• Seus integrantes são alguns dos homens mais influentes do centro financeiro de Londres.

Todos eles poderiam (e podem) agir como defensores da minha empresa;

• Era apenas meu segundo ano como integrante do comitê e ainda precisava mostrar meu

valor no evento daquele ano, pois eu havia perdido a primeira reunião;

• Eu não podia enviar ninguém no meu lugar.

Portanto, tomei a difícil decisão e falei “não” à noite da reunião de pais e mestres.

O outro compromisso do sr. M. naquela noite era treinar o time feminino local de críquete, algo que poderia delegar (como o fez) ao Centro de Custo 1. Então fui à reunião do meu comitê e o sr. M. foi à reunião de pais e mestres. O Centro de Custo 1 conseguiu lidar com as 21 senhoras de diversas idades, tamanhos e formatos durante uma noite de treino.

É verdade que não sou muito chegada a reuniões de pais e mestres. Em termos de eventos, eles me parecem encontros relâmpagos. Você tem cinco minutos com cada professor antes de ser despachada para o próximo. Não creio ser possível avaliar adequadamente o progresso de um filho em cinco minutos (nem avaliar um possível parceiro para a vida inteira nesse tempo, no caso dos speed-dates). Contudo, eu teria ido se não tivesse determinado que minha carreira lucraria mais se eu participasse da reunião da comissão. E – crucialmente – reduzi o risco do meu não comparecimento ao compromisso escolar:

• enviando o sr. M;

• explicando ao Centro de Custo 3 por que eu não iria;

• explicando aos professores dele por que eu não compareceria, e

• encontrando-os antes do início das aulas em outro dia.

Claro que me senti incomodada em ter de falar “não”, mas aprendi que a negativa é importante, mesmo que a gente nem sempre se sinta bem com isso.

É um caso de dor a curto prazo visando um ganho a longo prazo.

O Centro de Custo 3 poderia ter gostado de eu ir à reunião de pais e mestres, mas certamente não me agradecerá se eu não puder ajudá-lo durante a faculdade porque meus negócios perderam o fôlego.

Conheça suas prioridades

Eu tenho prioridades. Meço meu tempo em relação a elas, e, se a solicitação não atender às exigências, digo “não”, por mais incomodada que me sinta a curto prazo em função da decisão tomada.

Minhas prioridades são estas:

• meu trabalho;

• meus filhos;

• meu marido;

• meus amigos, e, depois,

• eu.

Quais são as suas?

Identifique-as e anote-as em um papel.

Lembre-se: prioridades são diferentes de metas.

Se conhecer suas prioridades, saberá se deve dizer “não” a convites.

Por exemplo, imagine ter aceitado, no final de semana anterior, comparecer ao casamento de uma amiga íntima ou, quem sabe, da sua irmã. Mais tarde você é convidada para ser palestrante, no mesmo final de semana, em uma conferência interessante, mas com pouca relevância para seu trabalho. Sua resposta, espero eu, será negativa. A conferência servirá para lhe promover em alguma medida, mas se a convidaram desta vez, voltarão a chamá-la de novo. Você a compara com suas prioridades (no meu caso, família e amigos vêm antes de mim) e o casamento ganha.

Porém, e se a festa da sua irmã estiver marcada para a última semana de janeiro e você for indicada a Jovem Líder Global do Fórum Econômico Mundial e convidada para a reunião anual na Suíça? Neste caso, existem pouquíssimas mulheres a quem eu aconselharia comparecer ao evento da irmã. Talvez fosse melhor tentar adiantar um final de semana ou explicar à noiva que sua ausência só acontecerá para beneficiar seu progresso profissional.

Não será agradável, mas é a atitude certa a ser tomada se quiser chegar ao topo.

Seja sensata ao empregar energia

Priorizar é o segredo porque, obviamente, não dá para estar em dois lugares ao mesmo tempo. Contudo, mesmo sem um evento conflitante, é necessário lembrar-se de ter como prioridade a necessidade de conservar energia.

Energia é característica do sucesso, e ela só vem de uma fonte: você.

Todas nós precisamos dizer “não” de vez em quando para conservar energia e concentrá-la na nossa caminhada rumo ao sucesso.

Sei por experiência própria, e por meio das muitas mães que trabalham e que encontro todos os dias, que a falta de sono pode destruir a energia e a capacidade de uma pessoa de, em primeiro lugar, se concentrar de maneira eficaz. Recentemente, aconselhei uma integrante da minha equipe que realizava um trabalho brilhante, mas não conseguia nem perceber nem se orgulhar disso por estar muito cansada. A filha caçula começara a entrar no quarto dos pais várias vezes durante a noite e tinha de ser recolocada para dormir. Tentei fazer minha colega entender que uma boa noite de sono era o melhor para todos – uma semana bem-sucedida e produtiva no trabalho lhe garantiria uma sólida base financeira para o futuro da filha, algo mais importante do que a caçula preferir ser colocada para dormir pela mamãe e não pelo pai.

Sugeri, então, que ela tentasse ter pelo menos uma boa noite de sono por semana, no meio da semana. Pedi para considerar a ideia de dormir em outro quarto, levar protetores de ouvido e deixar o marido lidar com o despertar da filha às 3 da manhã. Outra opção seria dormir na casa de uma amiga uma vez por semana ou levar a própria mãe para dormir na casa dela uma noite por semana.

Um conselho simples, porém, quando se está com muito sono, pode não ser possível pensar sozinha nessas soluções. É muito fácil ter visão estratégica quando se dormiu direito!

Recentemente fui convidada para dar uma palestra após o jantar de confraternização de uma obra de caridade. Era uma causa meritória, o convite estava bem escrito e o conselho diretor da instituição é presidido por um comandante da indústria dono de uma reputação impressionante. Contudo, neguei – o evento não ajudaria meu negócio. Tirando o presidente (próximo da aposentadoria), ninguém ligado à instituição ou na plateia tendia a ser um bom patrono. A instituição beneficente em si não era de nenhuma área alinhada à minha empresa nem aos meus interesses pessoais ou da minha família. Os únicos beneficiários da minha participação no evento seriam os (confessadamente merecedores) favorecidos pela instituição. Não me senti à vontade de cobrar pela palestra e, mesmo me sentindo, não poderia cobrar o valor integral em função da natureza do evento.

Avaliando tudo isso, percebi que iria falar “não”. Liguei para meu empresário e pedi-lhe uma análise da minha decisão (caso eu não tivesse notado algum risco potencial à minha reputação) e ele concordou comigo. Ele representa várias (e muito mais famosas) pessoas e revelou também ter rejeitado diversos pedidos similares.

Assim, eu disse “não”.

Senti-me péssima por cerca de meia hora – afinal, era uma causa meritória –, mas ganhei uma noite extra com a família e mantive o foco nas minhas prioridades. Esse foi o melhor resultado para minha carreira.

Você deve me julgar insensível.

Pelo contrário. Tenho uma probabilidade muito maior de fazer um trabalho assistencial mais eficiente se tiver uma carreira bem-sucedida. A melhor maneira de ajudar os pobres, como costumo dizer às pessoas, é não se tornar um deles.

Liz Rosenberg tem uma personalidade muito forte – algo igualmente bom, pois sua vida profissional exige que ela diga vários nãos. Liz entende um pouco de mulheres ambiciosas – e trabalha para uma das, comercialmente, mais bem-sucedidas mulheres do mundo: Madonna Louise Ciccone.

Se um dia desejar ver o poder de dizer “não” em ação, dê um jeito de participar de uma entrevista coletiva de Madonna, como quando ela lançou sua nova linha de roupas adolescentes para a Macy’s. A imprensa foi cuidadosamente administrada por Rosenberg, que lhes negou a oportunidade de perguntar sobre assuntos não ligados a vestuário. Qualquer tentativa de driblar a regra – e alguns, embora poucos, tivessem tentado – levava à expulsão

imediata.52 Rosenberg aperfeiçoara a arte de falar “não” em prol da sua cliente mais famosa, e essa atitude mantinha a cliente concentrada, preservava o valor da raridade das entrevistas dela e protegiam sua marca.

É um exemplo válido a ser seguido.

Às vezes vale a pena dizer “não”

Uma área crucial do dizer “não” está ligada ao pagamento. Está bem documentada a existência de uma diferença de gênero no pagamento. Só para constar, não acredito ter uma conspiração masculina para manter as mulheres em posições mal remuneradas. Para mim, isso acontece simplesmente porque as mulheres não pedem para receber mais.

De novo, essa inclinação para agradar, com uma ajudinha da insegurança, tem muito a ver com tal realidade. Nós nos sentimos pateticamente gratas por receber o que desejarem nos pagar e avaliamos os outros benefícios do trabalho (horário flexível, ocupação interessante, noção de conquista) como um motivo para não pedir um salário maior.

Contudo, se você atuar em um mundo masculino, deve pedir o salário de um homem.

Se oferecem algo a menos, simplesmente recuse.

Os homens não pensam duas vezes sobre esse tema.

Eu estava discutindo salários com um homem dono de uma carreira bem-sucedida em uma grande multinacional. Ele trabalha nessa empresa há bastante tempo e se esforçara muito no ano anterior, dedicando várias horas a relacionamento com clientes importantes, gestão de pessoal e desenvolvimento de talentos para o empregador. Ele tinha confiança nos resultados produzidos e documentara tudo. Na hora do bônus, disseram-lhe o valor pretendido, até haviam preparado uma carta para entregar a ele. Com muita calma, meu conhecido mandou guardarem a carta. E educadamente sugeriu ser melhor se todos se esquecessem daquela reunião. Ele afirmou aos chefes que pediria para a secretária marcar um novo encontro na agenda da semana seguinte, quando poderiam se reencontrar como se a primeira reunião nunca tivesse acontecido. E, então, poderiam sugerir outro valor de bônus para ele.

Ao agir assim, meu conhecido sinalizou um “não” bastante forte à primeira oferta de bônus. Na reunião da semana seguinte, havia uma nova carta à sua espera – com um valor mais elevado.

Quantas mulheres teriam agido dessa forma?

Segundo minha experiência, a maioria teria aceitado a primeira oferta de bônus e depois ido reclamar para todo mundo.

Em um livro sobre negociação feminina, a psicóloga Patricia Farrell atribui a relutância

das mulheres em dizer “não” à importância dada por elas aos relacionamentos.53 Segundo Farrell, caso o resultado não seja satisfatório, é difícil para as mulheres acreditar que dizer “não” não afetará negativamente o relacionamento. Uma mulher está preparada para fugir de um confronto salarial com o chefe, pois acha que isso pode prejudicar sua relação com ele para sempre.

Também existe o problema dos estereótipos de gênero, como o descritivo “as mulheres são gentis” e o prescritivo “as mulheres devem ser gentis”. No mundo dos negócios, a mulher deve equilibrar o comportamento que ressalta o status de um homem (mas torna uma mulher menos popular – por exemplo, ter confiança no próprio taco e ficar à vontade com o poder)

com o fato de atender às expectativas (ser legal).54

Essa é outra forma de afirmar que as pessoas não gostam de mulheres que se comportam feito homens. Estamos de volta ao julgamento assimétrico: “Ela mostra liderança; ela é agressiva.” Para receber o aumento merecido, é necessário ser tão forte quanto um homem, mas do jeito feminino.

Estabeleça uma meta para sua próxima avaliação salarial.

Quanto recebe agora e quanto julga que deve receber? Por quê?

Faça comparações, reúna evidências e avalie se o valor em mente é viável. Caso trabalhe em uma pequena empresa, com margens estreitas, pode não ser possível à organização pagar o salário que você merece.

Nesse caso, existem outros benefícios (flexibilidade, etc.) para justificar o desconto?

Caso contrário, saia da empresa e arrume uma colocação em um lugar maior.

Se for uma cifra viável, mas mesmo assim lhe oferecerem menos, simplesmente recuse.

Não é necessário berrar nem chorar. Treine de antemão com amigas ou o namorado/marido o que pretende falar. Quando líderes empresariais ou políticos sabem que irão se envolver em interações desafiadoras com outros indivíduos – por exemplo, ser entrevistado ao vivo na TV –, eles quase sempre ensaiam antes para transparecer confiança, não arrogância. Esse é o caminho a ser seguido antes de conversar sobre remuneração.

Vamos examinar outro cenário: você foi procurada por um caçador de talentos ou se candidatou por meio de um anúncio a um novo desafio. É uma posição de destaque, representa um belo progresso na sua carreira e seria um trabalho interessante e gratificante. Você recebe uma oferta para o cargo, mas a remuneração não é suficiente ou o valor não é justo.

Como se diz “não”?

A resposta é objetiva.

Responda à oferta e explique, educadamente, o quanto gostaria de aceitar o cargo, citando todos os aspectos animadores, ressaltando, porém, não considerar adequado o nível da remuneração e, o mais importante, que a remuneração oferecida não atinge um nível passível de aceitação. Você também deve deixar claro qual é o nível salarial considerado apropriado e por quê.

Não estou afirmando que sempre se deve responder “não” a uma primeira oferta. Empresas de recrutamento de executivos passam muito tempo negociando acordos entre o empregador e o funcionário potencial. E sei que elas costumam ficar muito irritadas quando um candidato rejeita a primeira oferta só porque presume ser o “lance inicial”. Grandes empregadores avaliam com cuidado as ofertas feitas. Eles começam a pensar no tema antes de a oferta ser feita e a discutem com a empresa recrutadora que os representa, levando em conta, para tanto, a cotação atual de determinado cargo no mercado (sobre o qual a empresa recrutadora os orientará), o salário recebido pelo candidato e a estrutura de remuneração dentro da própria companhia.

Raramente os grandes empregadores pensam: “Qual o mínimo a ser pago?”

Porém, alguns – felizmente poucos – candidatos parecem avaliar ser assim o comportamento dos empregadores.

Pode muito bem ser que a primeira oferta seja a correta – e você deveria ter uma meta em mente ao longo do processo de entrevistas para ser discutido com o caçador de talentos. Então, quando a oferta chegar, se corresponder ou ficar muito perto do seu objetivo, você deve aceitar.

Dizendo “não” a propostas sexuais

Embora seja importante ser capaz de recusar, não se trata de algo que toda mulher goste.

Em relação ao sexo, por exemplo.

Quantas de vocês transaram sem estar com vontade?

Não estou falando de estupro. Falo de sexo em uma relação estável, quando você não estava com vontade, mas julgou a recusa complicada demais. Para mim, a maioria das leitoras deste livro terá de admitir entender muito bem do que estou falando.

Por que você acha que algumas mulheres às vezes simulam orgasmos?

Como já afirmei antes, somos condicionadas a agradar.

Falando em sexo, existe uma hora importante para dizer “não” – ou, no mínimo, para considerar seriamente o “não” a resposta padrão.

É quase inevitável, em algum momento da carreira, você terminar sendo convidada a manter uma relação mais íntima com alguém com quem trabalha, um colega ou cliente, por exemplo. Eles podem ser mais velhos do que você ou estar em posição de ajudá-la na carreira. Com frequência estarão envolvidos em uma relação com outras pessoas, muitas vezes podem ser casados.

Não é pretensão deste livro fazer pronunciamentos morais; seu propósito é ajudá-la a construir uma carreira bem-sucedida. Então, encaremos os fatos: chegar ao topo fazendo escalas na cama é uma opção muito mais vezes aberta às mulheres do que aos homens.

Todavia, os riscos de fazer sexo com alguém em um ambiente de trabalho, principalmente enquanto se avança na carreira e torna-se mais conhecida e respeitada, são muito mais altos para as mulheres do que para os homens. Esse risco é bastante agudo e caso se torne público, o homem é visto como um conquistador, e você é tida como alguém cujo julgamento pode ser posto em dúvida.

Não creio ter qualquer chance de essa situação se alterar enquanto eu estiver viva; nem, provavelmente, durante a sua vida.

O risco não está apenas limitado à sua reputação; ele pode atingir seu emprego também. Existem muitos casos bem documentados de altas executivas tendo casos com diretores executivos.

Vamos dedicar algum tempo à análise desses riscos.

Quantas vezes é o homem quem se demite? (Casualmente, muitas dessas altas executivas que mencionei trabalham no setor de recursos humanos. Que lição devemos tirar disso? Se sua vida profissional se desenrola no RH, você possui uma chance maior de ter uma vida sexual interessante?)

Dizer “não” ao sexo é uma boa decisão quando se trata da carreira, mas não quer dizer que você deva esconder suas ações. (O capítulo 9 trata da importância de fazer o próprio trabalho de divulgação, de relações públicas, inclusive mantendo boa aparência no escritório.) Ser mulher pode ser uma grande vantagem. Os homens – e encaremos os fatos, a maioria das pessoas que encontrará na carreira são homens – gostam da companhia de uma mulher, principalmente de uma mulher encantadora e atraente.

O flerte inocente pode ajudá-la na conquista dos seus objetivos profissionais. Não tenho tempo para quem diz se tratar de uma abertura, que as paqueradoras merecem o que vier pela frente quando a coisa descambar para uma proposta sexual indesejada mais adiante. Nós somos inteligentes e sabemos quando estabelecer um limite.

Além disso, qual a vantagem de ser mulher sem utilizar todo o arsenal?

Lembro-me do meu primeiro ano em um banco de investimentos. Meu trabalho envolvia telefonar e me encontrar com um monte de gestores de fundos. Isso feito, eu tinha de transmitir-lhes os pensamentos e opiniões do meu chefe, analista de investimentos que publicava recomendações de ações.

O propósito era levar o trabalho dele a um público mais amplo do que meu superior poderia contatar pessoalmente, angariando votos em uma eleição anual com analistas de investimentos. Ocupar uma posição alta no ranking era um distintivo de honra para ele e para nosso banco. Caso o ajudasse a conquistar uma posição elevada nesse ranking, eu receberia um bônus muito maior.

Consultei uma colega mais jovem, inteligente e experiente, encarregada de prestar o mesmo serviço para outro analista de investimentos, só que cobrindo um setor diferente.

Perguntei a ela: “Qual é o segredo para esses gerentes de fundos votarem em nossos chefes?”

Ela respondeu: “É muito fácil. Basta recorrer ao tratamento da ‘cueca de chocolate’.”

“Que diabos é isso?”, eu quis saber.

Toda séria, a colega me explicou: “Olhe os gestores de fundos e imagine-os usando cuecas de chocolate que você gostaria de lamber.”

Eu tinha de fingir estar fisicamente atraída por meus clientes homens para conquistar meu objetivo profissional de curto prazo?

“Sim”, foi a resposta.

Muito bem.

Não estou aqui para fazer julgamentos moralistas; eu só desejava saber como progredir. Desde que não fosse ilegal – nem terminasse meu casamento –, estava disposta a tentar.

Comecei a levar regularmente meus clientes gestores de fundos para almoçar, olhando-os com uma cara adorável do outro lado da mesa do restaurante. A iniciativa funcionou às mil maravilhas, e meu chefe recebeu um monte de votos na pesquisa.

É claro que isso não apenas me fez engordar quase dez quilos por almoçar com tanta frequência, como também levou a convites inoportunos para ir além da comida. (Isso foi há muito tempo. Eu era muito mais bonita.)

Em suma, não recomendo a ninguém essa estratégia para melhorar a vida profissional.

Como falar “não”

É essencial compreender o momento de dizer “não” e ser capaz de manter a sua posição, tudo em prol de uma carreira bem-sucedida.

Então como se diz “não”?

Para começar, lembre-se de que se faz necessário usar alguma expressão que amenize o seu desejo de dizer “não”, mas ao mesmo tempo o deixe claro, como “Infelizmente não será possível” ou “Eu adoraria, mas preciso ver minhas prioridades”. Dessa forma, a negação fica um pouco mais delicada e você não passa a ser malvista.

Em segundo lugar, não deixe a porta entreaberta de forma alguma. Se rejeitar um evento – ou uma oferta para conhecer um hotel –, mas afirmar “desta vez não vai dar”, você voltará a ser convidada e, novamente, precisará recusar. É melhor explicar por que está rejeitando o convite e afirmar: “Estou muito ocupada no momento com meu trabalho atual, compromissos familiares, e só aceito convites de instituições de caridade às quais sou formalmente ligada”, “Sinto muito, sou casada e não dá para fazer isso” ou algo do gênero.

Dessa forma, terão consciência da sua posição e não voltarão a convidá-la.

Um encontro mais íntimo com um colega, chefe ou cliente terá de ser recusado da forma mais gentil possível e com uma explicação. Caso contrário, haverá uma situação esquisita no próximo encontro. É melhor afirmar que se as circunstâncias fossem diferentes e ele (ou você) não fosse casado (ou trabalhasse na mesma empresa), ele seria o homem dos seus sonhos. Definitivamente, não é uma boa ideia revelar seus reais pensamentos, especialmente se o autor do convite ocupar uma posição elevada em relação à sua ou tiver influência na sua carreira.

A recusa a uma oferta financeira – seja uma revisão salarial, um bônus ou um novo emprego – deve ser dita de modo firme e sem emoções, mas em conjunto com uma explicação detalhada a respeito de como um “sim” seria possível. É bom não reagir de forma agressiva quando receber uma revisão salarial ou um bônus abaixo do padrão, pois isso levará as pessoas a rotulá-la de “mulher típica”. Em vez de anunciar ao interlocutor ter ficado muito ofendida, tente explicar a ele, em uma voz tranquila, por que acredita merecer um bônus melhor, depois devolva a carta e pergunte se é possível marcar outra reunião para tratar do caso.

Caso precise dizer “não” a um evento social ou convite para uma palestra e sinta que apresentar uma negativa de imediato resultaria em uma ofensa desnecessária, sempre é possível ganhar tempo argumentando ser necessário consultar a agenda. Em alguns casos, dizer “não” logo de início pode insultar seu interlocutor, assim, recorra ao “conferir a agenda”, decidindo-se rapidamente, porém, para que a pessoa não se encha de esperança enquanto aguarda além do tempo necessário.

Dizer “não” é uma competência adquirida ao longo da vida e que é muito importante dominar se você pretende ser bem-sucedida. Contudo, não se esqueça: não será uma experiência agradável nem quando você já tiver se tornado mestra no assunto.

Se todas as partes da formação da carreira de um indivíduo fossem fáceis e sem estresse, existiriam mais mulheres no topo das organizações. Não espere se sentir bem tendo de falar “não”. Mesmo se você fosse a mulher mais durona do mundo, se sentiria mal a cada recusa. Afinal, existe uma parte dentro de você geneticamente preparada para agradar. (Acredito piamente que, como os gêneros foram divididos entre agradar e executar por tantas gerações, a genética deve ser lembrada.)

A recusa não fará você se sentir bem; então, lembrando-se disso, será mais fácil dizer “não”. Construir uma vida profissional bem-sucedida (a exemplo de ser um bom pai ou uma boa mãe) não é uma competição por popularidade.

O bom é o sentimento ruim não durar.

Assim, supere e toque o barco.

Lidando com pessoas que aprenderam a dizer “não” Por fim, uma palavrinha sobre como abordar pessoas que aprenderam a recusar e que são ocupadas e bem-sucedidas.

Faça um pedido bastante específico, dificultando ao máximo uma rejeição.

Uma amiga minha, caçadora de talentos – prefiro chamá-la Jane Lloyd –, contou-me sua estratégia. Sendo uma pessoa que lida com muitos cargos disputados e possuindo mais de 11 anos de experiência na função, ela é muito procurada. Ainda assim, recebe e-mails ou telefonemas dizendo pouco mais de:

Cara Jane,

Meu nome é Maria e gostaria de encontrá-la para discutir minha carreira.

Um texto assim dificulta as chances de alguém aceitar seu pedido.

Uma abordagem muito melhor seria:

Prezada sra. Lloyd,

Almocei com a sra. Moneypenny um dia desses no Savoy e ela sugeriu que lhe enviasse meu currículo. Ficaria muito grata se me considerasse para qualquer um dos possíveis futuros postos e, se a senhora, ou algum dos

seus colegas, tiver tempo para me ligar, eu aceitaria de bom grado a oportunidade de explicar mais sobre meu histórico e o

que procuro para meu próximo cargo.

Ao deixar o pedido claro (que aceitaria o telefonema de um colega em vez de uma reunião com a própria caça-talentos) e incluir o nome de uma pessoa conhecida e respeitada por ela, você terá uma chance muito melhor de receber uma resposta positiva.

A intenção deste capítulo – e espero ter conseguido – era mostrar que ser capaz de falar “não” é uma competência fundamental adquirida ao longo da vida e que funciona para você ganhar tempo e lutar por suas ambições.

Vimos como conhecer as próprias prioridades é a melhor forma de decidir se deve ou não rejeitar algo. A sensação da recusa nem sempre será boa, mas lembre-se: é uma dor momentânea em prol de uma conquista a longo prazo. Os momentos passageiros de desconforto vividos enquanto se encara outro aumento salarial inadequado, não se aceita participar da barraca de bolo na festa da escola dos filhos ou se perde uma festança por conta de uma prova crucial no dia seguinte se transformarão em um sentimento muito melhor conforme você usar seu tempo com maior sensatez.

E, assim, você terá energia para chegar ao ponto alto da sua carreira, ao qual sempre esteve destinada.

 

LIÇÃO DE CASA PARA MULHERES AMBICIOSAS

Em qualquer estágio da carreira

Você quer aprender a falar “não”?

Experimente não ingerir álcool (ou pão ou chocolate) por uma semana (ou mais) e veja como se sai. Provavelmente será complicado no começo e você viverá momentos em que se verá prestes a entregar os pontos.

O mesmo acontece com a recusa. Pense nela como um “sim rápido” e simplesmente diga “não”. Vá se habituando a dizer “não” a coisas (álcool, por exemplo) em eventos sociais ou quando sai com as amigas. Será uma boa maneira de vivenciar o desconforto de dizer “não”, sempre se lembrando de ser por um bem maior.

Em começo de carreira

Caso deseje identificar os tipos de situações em que precisa dizer “não”, tente o seguinte.

Anote suas metas para o ano. Por exemplo: ter boas notas na faculdade, formar uma rede de contatos mais ampla, etc.

A seguir, liste as ações necessárias para conquistar tais metas.

Depois, enumere de quais atividades abrirá mão para alcançá-las.

Como irá se sentir dizendo ser incapaz de fazer isso?

Pensar direitinho nesses elementos irá ajudá-la a suportar com maior facilidade o fato de que, vez ou outra, você terá de dizer “não”.

Se você for uma mãe que trabalha

Como fazer quando os filhos precisam de muita participação dos pais na escola?

Escreva os dez eventos do ano escolar que demandem maior participação dos pais. Faça isso com cada filho, se tiver mais de um estudando.

Depois defina entre você e seu marido quem comparecerá a cada um deles. Cheguem a um acordo sobre como vão administrar as expectativas dos filhos. Quem mais poderia ser um substituto aceitável? Seus pais? Os padrinhos? A babá? (Eu já recorri aos três.)

Agora, certifique-se de apresentar os substitutos aos filhos como pessoas muito especiais, assim, quando você não puder participar de algo e eles forem no seu lugar, tal fato não será visto como um rebaixamento.

E assim dizer “não” deixará de ser tão apavorante como costumava ser.

49 LEMAN, Kevin. 2010. Smart Women Know When to Say No. Ada, MI: Revell.

50 BABCOCK, Linda e LASCHEVER, Sara. 2003. Women Don’t Ask: Negotiation and the Gender Divide. Englewood Cliffs, NJ: Princeton University Press.

51 CROSS, Susan E. e MADSON, Laura. 1997. “Models of the self: Self-construals and gender”. Psychological Bulletin, 122 (1), 5–37.

52 “Reporter feels the wrath of Madonna’s publicist”. 25 de setembro de 2010. New York Post.

53 FARRELL, Patricia. 2004. How to Be Your Own Therapist: A Step-by-Step Guide to Taking Back Your Life. Hightstown, NJ: McGraw-Hill Contemporary.

54 FINE, Cordelia. 2010. Delusions of Gender: The Real Science Behind Sex Differences. Londres: Icon Books Ltd.