Não tão branca

Jessie Fauset · Capítulo 17 de 25 · parte 2/3

Páginas do PDF

Não tão branca

Parte 4 : De volta ao lar

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

Agora, de fato, Angela estava muito distante da atmosfera que conhecera em Greenwich Village; a leve boemia que ela havia encontrado foi aqui substituída por uma sofisticação um tanto burguesa, mas satisfatória. Essas pessoas viam o Village pelo que realmente era, uma rede de ruas mal delimitadas com, em sua maioria, moradias incômodas, para não dizer inconvenientes, habitadas por um punhado de artistas em meio a mil poseurs. Seus novos amigos estavam interessados nos bens deste mundo. Eles achavam o dinheiro um imperativo, o preeminente, concomitante da vida; uma vez obtido, gastavam-no em apartamentos finos, belas vestes, comidas delicadas e viagens a Paris e Viena. A conversa com eles era algo mais do que uma troca de palavras; gracejos e elogios eram comuns e, embora temperados com alusões a peças e livros, de forma que para Angela às vezes era difícil seguir a tendência da conversa, ela suspeitou que estava quase ajudando na restauração de uma arte perdida ali do que em quaisquer outros círculos do mundo, exceto na correspondente sociedade de Londres.

Mais uma vez, suas horas livres podiam transbordar de atenção, alegria, excitação e intelectualidade; um dia, ocorreu-lhe que aquela era a atmosfera com a qual um dia havia sonhado. Mas Angela não estava muito feliz, sua condição econômica interferia bastante seu modo de vida. Constantemente, recebia todas as manifestações concebíveis de uma generosidade incalculável das mãos não apenas da Sra. Denver, mas de seus novos conhecidos. Entretanto não podia retornar essa generosidade; seu pequeno apartamento tinha ficado muito pobre para que recebesse convidados desse calibre, mesmo para o chá. Sua amiga rica, esquecendo rapidamente os móveis que Rachel Salting abandonara, transformara sua casa em um espaço de luxo e elegância; minúsculo, mas bonito. A Sra. Denver era a manifestação da bondade real e sensível, mas Angela não podia aceitar favores por tempo indefinido; além disso, estava com medo de se acostumar a essa maré constante de abundância sobre a qual não tinha absolutamente nenhum direito. Se houve alguma coisa que as duras experiências dos últimos três anos lhe ensinaram, foi a impermanência dos relacionamentos; ela deveria, Angela sentiu, estabelecer e seguir um método de viver de maneira independente que nunca poderia traí-la quando a atenção dos ricos e grandes acabasse. Gradualmente, parou de aceitar os convites da Sra. Denver; defendeu a necessidade de fazer trabalhos fora de seu emprego; também estava ocupada com o retrato de sua mãe, estimulando sua memória vívida com uma velha fotografia desbotada. A intenção era fazer com que fosse uma surpresa para Virgínia quando esta voltasse.

Mas antes de se retirar completamente, Angela conheceu uma jovem mulher e seu marido, um casal tão talentoso, tão genuíno e sincero que ela foi incapaz de manter ao pé da letra sua promessa espartana de se afastar totalmente deste fascinante corte transversal da Sociedade de Nova York. O marido, Walter Sandburg, era um dramaturgo; seu nome era familiar; o título de um ou outro de seus dramas brilhava na Broadway todas as noites. Sua esposa, Elizabeth, revisava livros para um dos grandes semanários de Nova York. Seu charmoso apartamento na 55th Street era o ponto de encontro de muitas pessoas inteligentes e cativantes. Entre os dois e Angela surgiu uma espécie de amizade real; ela não tinha vergonha de que vissem como seu apartamento estava miserável. Os almoços em que ia com Elizabeth nas casas de chá do Village e nas lojas de apartamentos traziam tanta satisfação quanto as refeições mais elaboradas no Algonquin, o ponto de encontro favorito de muitos desses trabalhadores ocupados, felizes e satisfeitos.

Ralph também havia retornado a uma cidade ainda desprovida de Carlotta e, em sua solidão, estava constantemente procurando Angela. A atitude dele era perfeita; nunca reviveu, por palavra ou olhar, a impressão desagradável que outrora causara; na verdade, de uma forma sóbria e desiludida, ela estava começando a gostar muito dele. Ele era tímido, sensível, simpático e miseravelmente solitário. Não era provável que seus bens fossem tão fabulosamente grandes quanto os de Roger, mas era certo que ele pertencia ao grupo social de Roger com tudo o que essa classificação implicava. Mas, apesar disso, ele era curiosamente acanhado; sem energia, como as garotas de seu grupo o classificaram friamente, deixando-o em sozinho, sem pretendentes. Fora de seu grupo, amazonas ambiciosas o pintaram de fácil e fizeram uma corrida louca por ele e seus improváveis milhões. Os dois vereditos o deixaram envergonhado e amedrontado; anualmente, ele se retirava cada vez mais para dentro de sua concha, emergindo apenas em resposta ao aceno descuidado e ocasional de Carlotta ou à indiferença genuína e preocupada de Angela.

Mas este não era o mundo de Angela. Por anos ela ansiou por esse meio, apenas para se encontrar, uma vez lançada nele, externamente à vontade, internamente perturbada e consternada. Embora em raras vezes pensasse na raça, ainda tinha consciência de viver em uma atmosfera de falsidade, de implicações emaranhadas. Ela falava muito de Marta Burden e seu marido; Walter Sandburg, o dramaturgo, conhecia Ladislas Starr; Elizabeth conheceu Paulette Lister em algum ramo da atividade jornalística e Ralph, claro, viu Roger na companhia de Angela. Por trás desses três ou quatro nomes e do pano de fundo que a familiaridade com eles implicava, Angela não ousava aventurar-se e nos momentos mais alegres percebia a constante agitação interior de um anseio por alguém real e permanente com quem pudesse compartilhar sua vida. Ela ia, é claro, fazer as pazes com Gínia, mas Gínia ia morar na Filadélfia, onde ela mesma nunca mais moraria.

Seus pensamentos estavam em Anthony com constância; sua determinação fixou-se nele. Exceto pela mistura invisível de sangue negro em suas veias, eles poderiam estar no mesmo nível. Ambos eram jovens, talentosos, ambiciosos e abençoadamente pobres. Juntos, eles subiriam a alturas mais felizes e ensolaradas. Ser pobre com Anthony, lutar com ele, ajudá-lo a manter seu voto secreto, ganhar sua aprovação surpresa e generosa para enfim chegar ao ponto em que ela também pudesse abrir sua casa para gênios pobres, desconhecidos e lutadores. A vida não poderia conter nada mais agradável do que essas possibilidades. E como Angela seria gentil com esses estranhos! Quanto ela esperava que entre eles houvesse alguma garota lutando contra as limitações de sua herança, assim como ela mesma havia feito. Por meio de algum vínculo secreto e sutil de simpatia, Angela tinha certeza, seria capaz de reconhecer uma garota assim; e como iria ajudá-la e estimulá-la! Em seus devaneios, ela dizia humildemente: Tenho certeza de que este caminho funcionará bem para mim, estou planejando principalmente para Anthony e para pessoas indefesas e atormentadas; quero quase nada para mim, exceto proteção e amor. Estou disposta a trabalhar para o sucesso e a felicidade. E, mesmo enquanto falava, sabia que o ápice de sua felicidade seria alcançado nos dias em que ela e Anthony ainda estivessem pobres e lutando e quando ela desse o melhor de si para fazer as coisas darem certo.

Elizabeth Sandburg, relembrando seus primeiros dias de casada com Walter, deu um impulso ao pensamento de Angela.

― Walt e eu éramos tão pobres quanto podíamos ser, ganhávamos apenas 20 dólares por semana, e metade disso ia para um quarto em um hotel barato. As refeições, mesmo nos lugares mais horríveis, eram terrivelmente caras e, metade das vezes, eu cozinhava num fogão improvisado. Não sabia muito sobre culinária e imagino que as coisas fossem horríveis, mas não nos importávamos. Tínhamos um ao outro e não nos importávamos.

Sorrindo, radiante, ela deu à Angela a missão de pintar os retratos dela e de Walter.

― Vamos deixar você definir o preço, e se você realmente se esforçar, vou te arranjar um monte de outros clientes. Não, não me agradeça. Para que servem os amigos? É o que eu sempre digo.

Capítulo 4

Às vezes, este pensamento a confrontava: Talvez Anthony não precise mais de mim; ele se esqueceu de mim. E com a simples ideia seu coração se contraía com um movimento real e palpável. Pois agora Anthony representava não apenas o fim da solidão, mas também paz e segurança; um lugar não apenas na sociedade, mas no mundo em geral. O casamento também apareceu sob uma luz diferente. Até conhecer Roger, Angela não pensara muito nisso, exceto como uma aventura romântica ou como um meio para um fim; no caso dela, o meio de alcançar o tipo de existência que outrora fora seu ideal. Mas agora ela via isso como um fim em si mesmo; para mulheres, certamente; o único, o fim mais desejável e natural. A partir disso, uma mulher talentosa e ambiciosa poderia estender a mão e se sair bem em qualquer atividade. Mas o casamento deveria estar lá primeiro, a base, o substrato.

Claro que havia, sem dúvida, mulheres que, como os homens, tomavam o amor e o casamento como o complemento da existência e seus interesses intelectuais como o prato principal, como Paulette. Agora que pensava nisso, percebeu que Paulette podia mudar de amantes, mas nunca mudou na manifestação de sua energia mental inquieta e inteligente. Em nenhum momento ela permitiu que sua “vida amorosa”, como chamara a psicanalista, interferisse em seus interesses mentais. Na verdade, ela não teve nenhum escrúpulo em promover esses mesmos interesses por seu encanto sexual incomum e difundido. Mas aquela era Paulette, uma personalidade notável, uma mulher à parte. No entanto, para a maioria das mulheres deve haver a segurança, a garantia de relacionamento que o casamento proporciona. Na verdade, a maioria das mulheres deve ser capaz de dizer como os homens: “Você é meu”, não apenas “Eu sou sua”.

Uma certa humildade abrasadora se impôs sobre Angela. Quão egoísta ela tinha sido em todas os seus relacionamentos. Havia deixado Virgínia e se juntado a Roger para promover seus próprios interesses. Por um breve momento, talvez tenha amado Roger com a paixão tumultuada e inebriante de uma juventude ardente e inexperiente. Mas, novamente, quando isso foi diminuindo, ela tentou introduzir uma nota de idealismo, foi com o pensamento de salvar sua própria alma. Angela pensou em seu dia no parque com Anthony, a aceitação dele, sem reclamar, do veredito dela; seu grato e melancólico: “Eu quase toquei a felicidade”. Com que facilidade ela o teria deixado feliz se tivesse voltado seus pensamentos para as necessidades dele. Mas Angela nunca tinha pensado nisso; ela sempre se preocupou demais com a própria felicidade. Seu pai, sua mãe e Gínia sempre deram e ela sempre tomou. Por que isso? Gínia suspirara: “Talvez você tenha mais sangue branco do que negro nas veias”. Talvez esse egoísmo significasse a posse de sangue branco; a definição final da supremacia nórdica.

Então Angela se lembrou de que Anthony era branco e, perplexa, ela deixou de tentar cogitar, desvendar, decifrar, avaliar. Ela estava solitária, ela amava. Pretendia encontrar um companheiro; queria ser amada.

Ela precisava agir.

Nenhum de seus novos amigos conhecia Anthony. Ralph Ashley, em resposta à pergunta, não lembrava de um dia tê-lo visto. Era agosto, consequentemente Anthony não poderia estar na escola. As listas telefônicas não revelaram nada. Perdido em uma grande cidade!, Angela pensou e sorriu com o novo sabor da frase. Pensou na última vez que realmente tinha visto Anthony, em sua última conversa íntima. Eles se encontraram no dia em que Angela cortou Gínia; ela se lembrou, agora sorrindo, com seu conhecimento superior, do leve pânico que sentira quando ele a encontrou em um ônibus no Harlem. Depois de algumas conversas sobre o chá, Anthony lhe dera seu endereço e ela o colocara, onde? Não estava em sua agenda. Uma busca febril em sua pequena escrivaninha revelou-o nas páginas de seu livro de orações, aquele que ela usava quando criança. Angela considerou isso um bom presságio. O pedaço de papel estava amassado e borrado, mas ela conseguiu identificar um endereço na 114th Street. Supusera que o papel não estivesse mais lá! Angela não podia tolerar a ideia de outra noite de incertezas; eram dez horas, mas ela subiu em um ônibus, alcançou a 114th Street com a 7th Avenue. Seu coração batia forte quando dobrou a esquina, parecia que os habitantes pobres do bloco podiam ouvir o dínamo humano que tremia em suas janelas. A rua, como muitas outras em Nova York, possuía a pseudoelegância e a imponência das casas de pedra marrom com suas fachadas maciças, sua ostensiva regularidade e simplicidade, mas um segundo olhar revelava o péssimo estado; as janelas escancaradas revelavam a lamentável pequenez dos quartos que se escondiam atrás dos pretensiosos exteriores. Havia algo ligeiramente engraçado, irônico, em ser confinado nesses palácios enganosos; de acordo com o temperamento de alguém, pode-se rir ou chorar ao pensar em como essas estruturas, o produto da energia humana, ainda podem restringir, aprisionar e até mesmo arruinar a própria atividade que as criou.

Angela encontrou o número, subiu os degraus, procurou no corredor escuro entre os nomes nas campainhas. Sullivan, Brown, Hendrickson, Sanchez e, abaixo do nome de Sanchez no mesmo cartão, cinco caracteres pequenos e elegantes na letra de Anthony ― Cross. Ela quase desmaiou de alívio. Os dedos agarraram a campainha, talvez ele estivesse no quarto agora ― como era estranho que esse aparelho e seus fios fizessem uma ponte sobre toda a extensão de tempo e espaço que havia ficado entre eles. Mas Angela não conseguia apertá-la; Anthony, ela tinha certeza, de fato, se recusaria a ficar chocado por qualquer mera violação dos convencionalismos. Mesmo assim, porém, buscar sua admissão às onze horas da noite e sem aviso prévio no quarto de um homem que não via há um ano, era, como ele próprio diria, “um pouco estúpido”.

*

A pequena nota que ela enviou foi um modelo de recato e sutileza:

Caro Anthony,

Você se lembra da minha promessa de convidá-lo para tomar chá na próxima vez que fizesse uma fornada de biscoitos? Bem, amanhã às 17h30 será a próxima vez. Venha!

Anthony havia mudado; os olhos interessados e perscrutadores dela logo perceberam. Sempre sério, austero, responsável, havia agora em seus modos um incremento imponderável, porém perceptível de cada qualidade. Mas isso não era tudo; seu velho e familiar olhar torturado o havia abandonado; uma paz, uma qualidade de equilíbrio pairava sobre ele, a compostura que é alcançada tanto pela conquista quanto pela renúncia ao desejo do coração. Na verdade, há pouca diferença, já que implicam o fim do esforço.

Tudo isso passou rapidamente pela mente de Angela.

Em voz alta, ela disse:

― Como vai, Anthony? Você está realmente muito bem. É bom ver você de novo.

― É bom ver você ― respondeu ele. Certamente não havia nada de notável na conversa deles. Depois das brincadeiras, as piadas e alusões que ela estava acostumada a ouvir nos Sandburgs, em comparação com o jargão áspero do grupo da Sra. Denver, isso era trivial, para não dizer banal. Ela começou a rir. Anthony ergueu as sobrancelhas.

― O que há de engraçado? Isso é algum tipo de piada?

― Não, é só que… faz tempo que estive pensando em você. ― Angela fez uma jogada arriscada. ― Presumo que vez ou outra você pensou em mim. No entanto, agora que nos encontramos, nos sentamos como um dândi e uma viúva com luvas de pelica branca e trocamos comentários sobre nossas aparências. Suponho que o próximo passo seja falar sobre o tempo. Choveu muito na 114th Street, Sr. Cross?

Parte da pose o abandonou. A paz penetrante que pairava tão palpavelmente sobre ele o abandonou como um véu despedaçado.

― Você tem pensado em mim há muito tempo? Quanto tempo?

― Não sei dizer quando começou. ― Angela foi ousada novamente. ― Mas você esteve na minha mente por muito tempo.

A postura, a compostura e a paz haviam desaparecido agora. Apressado, imprudentemente, ele largou seu copo de chá, aproximou-se e inclinou-se sobre Angela. Ela mordeu os lábios para esconder o tremor. Ele era querido, mais querido do que ela jamais havia imaginado, tão transparente, tão honesto. Quem era ela para merecê-lo?

O rosto dele estremeceu. Ele nunca deveria ter se aproximado dessa garota! Tão repentinamente quanto havia deixado sua cadeira, ele voltou a ela, acomodou-se com conforto e pegou o copo.

― Eu estive longe de você por tanto tempo que tinha esquecido.

― Esquecido o quê?

― Esquecido o quão perigosa você é. Esquecido como uma mulher como você brinca com pobres tolos como eu. Por que você me chamou? Para me manipular outra vez?

A amargura a surpreendeu e assustou.

― Anthony, Anthony não fale assim! Mandei chamá-lo porque queria vê-lo, queria falar com meu velho amigo.

Satisfeito, ele recostou-se na famosa e única poltrona e acendeu um cigarro. Angela trouxe alguns de seus esboços, exibiu seu caderno. Ele estava especialmente interessado nos “Tipos da 14th Street”, ficou satisfeito com o retrato da mãe dela.

― Ela não se parece com você, embora eu possa ver que você provavelmente tem o cabelo dela e aquele tom perolado de sua pele. Mas você deve ter herdado o nariz do seu pai. Você sabe, todo o resto do seu rosto ― Anthony continuou, suas feições sonhadoras ―, seus lábios, seus olhos, seus cílios curvados são tão deliciosamente femininos. Mas esse seu nariz reto indica força.

O desbotado, mas impressionante retrato, estava ao seu alcance. Ele o pegou, estudando-o pensativo.

― Que mulher bonita; toda mulher, devo dizer. Ela teve muita influência em sua vida?

― Na... na... não, não posso dizer que ela teve. ― Angela se lembrou daquelas excursões de sábado e as aventuras garantidas pela sua passabilidade, tão inofensivas, mas de grandes proporções. ― Oh, sim, em um aspecto ela me influenciou muito, mudou toda a minha vida.

Anthony balançou a cabeça, olhando para a foto afundado em melancolia.

― Minha mãe certamente me influenciou.

Angela começou a falar sem parar:

― Ela fez de você o que você é hoje. ― Mas um olhar para seu semblante taciturno a fez pensar melhor.

― O que é isso? ― Ele virou-se novamente para o caderno de desenho e estava debruçado sobre várias silhuetas passando diante da forma alta e encapuzada de uma mulher, magra e emaciada, com as mãos nos quadris ossudos, ligeiramente curvada para a frente, rindo aos ruídos, mas com uma certa malevolência arrepiante. ― Eu não consigo entender.

Com vergonha, Angela pegou o caderno.

― Ainda não tenho certeza se vou terminá-lo. Eu… é uma ideia que aos poucos se apoderou de mim desde que estou em Nova York. A mulher alta é a Vida e a ideia é que ela ri de nós; ri dos pobres que caem nas armadilhas que ela nos lança.

A tristeza colocou um selo tão perceptível em seu rosto que parecia ter sido carimbado ali. Anthony se aproximou.

― Você a descobriu também? Se eu pudesse ter acabado com ela, você nunca a conheceria. Eu queria tanto escondê-la de você. ― A postura dele mudou de repente. ― Tenho de ir. Esta tarde foi perfeita; não posso agradecer o suficiente, mas não voltarei.

― Não vai voltar? Que absurdo! Por que não? Anthony, não comece esse negócio de votos. Hoje foi perfeito, maravilhoso! Você não acha que vou deixar meu amigo ir quando estou realmente descobrindo ele, não é?!

Fracamente ele murmurou que era tolice eles tomarem o tempo um do outro; Anthony estava indo embora.

― Mais uma razão, então, para que continuemos a nos ver.

O olhar dele caiu sobre o esboço sem forma.

― Se ao menos eu pudesse rir da vida… Quando você vai me deixar vê-la de novo? Eu sou dono do meu nariz agora; meu tempo está à sua disposição.

Na tarde seguinte, eles se encontraram fora do trabalho dela e jantaram juntos. Na sexta-feira, eles navegaram para o Atlantic Highlands. Sábado, domingo, segunda e terça passaram depressa, sem significar nada para nenhum dos dois, exceto pelas poucas horas que passaram na companhia um do outro. Quinta-feira foi um dia tranquilo; Angela organizou seu trabalho de forma a ficar livre durante a tarde, e eles passaram as horas apressadas e glamorosas no parque Van Cortlandt, rindo, brincando, relatando velhos sonhos, recaindo em silêncios mais íntimos do que conversas, cientes da presença um do outro, ainda mais cientes de uma conversa realizada neste mesmo parque anos atrás. De volta ao pequeno corredor da Jayne Street, ele a tomou nos braços e a beijou lentamente, com êxtase, com adoração, e ela retribuiu seus beijos. Por um longo tempo, Anthony a segurou contra seu coração palpitante; Angela abriu seus olhos lânguidos para encontrar seu olhar ardente, que podia sentir ao invés de ver. Lentamente, ele tirou os braços do redor do pescoço dela e os deixou cair.

― Anjo, sempre vou te amar. A vida não pode me roubar isso. Adeus, minha querida.

Ele se perdeu na noite sombria. O dia seguinte passou, e o próximo também. Uma semana se passou. Silêncio absoluto. Nenhum sinal dele.

*

Ao cabo de dez dias, em uma tarde inesquecível de domingo, Angela foi vê-lo. Sem vontade consciente, ficou um momento em seu apartamento na Jayne Street; e no final de uma hora estava apertando um botão acima do nome Cross em um corredor da 114th Street, ouvindo o clique da porta, subindo no poço preto de uma escada, batendo em uma porta com a legenda Estúdio.

Uma voz apática disse:

― Entre.

Em seguida, o jovem bastante alto e esguio sentado de camisa, de costas para ela, olhando com desânimo, mas seriamente para uma foto na mesa à sua frente perguntou: ― O que posso fazer por você?

A sala longa e estreita ostentava um piso de parquete bastante bom e um papel de parede liso e limpo coberto com fotos e esboços sem moldura. Em um canto estava um cavalete; a maior parte da mobília era simples, mas útil e confortável, com exceção de um sofá antiquado de crina de cavalo que Angela pensava nunca ter visto igual ― seu brilho negro e sua promessa de total desconforto.

Ao entrar no apartamento, ela se sentiu perturbada, mas assim que viu Anthony e percebeu que a foto que ele estava olhando era um esboço inacabado de si mesma, sua preocupação desapareceu. Ele fez sua pergunta sem se virar, então ela se dirigiu a ele: ― Você pode me dizer onde encontrou aquele sofá terrível; eu não fazia ideia que existisse um assim. Pensei que eles tinham morrido com o Dodo.

Anthony se aproximou dela.

― Angèle, me diga o que você está fazendo aqui.

Ela tentou manter o tom leve:

― Não até que você me fale sobre o sofá. ― Mas o rosto atormentado dele e a tensão sob a qual ela vinha sofrendo na semana anterior quebraram sua defesa. Cambaleando, Angela segurou a mão dele. ― Anthony, Anthony, como você pôde?

Ele a envolveu com o braço e a conduziu ao desprezível sofá. Fitou a moça com marasmo no olhar.

― Por que você veio me ver, Angèle?

Normalmente ela teria erguido muros, se permitido alguma carapaça extravagante; mas esta não era uma ocasião comum; na verdade, em circunstâncias normais, ela não estaria ali. Falou gravemente e com orgulho: ― Porque eu te amo. Porque eu acho que você me ama. ― Um medo terrível e repentino tomou conta dela. ― Oh, Anthony, não me diga que você estava só brincando!

― Com você? Tão pouco eu estava brincando que quando comecei a suspeitar que você se importava, e nunca sonhei com isso até aquele último dia no parque, fugi de você. Eu sabia que você tinha recursos; os homens sempre vão adorar você, querer você, e pensei que você logo esqueceria; volte-se para outra pessoa assim como você se voltou para mim por um capricho repentino.

Angela balançou a cabeça, mas estava assustada; algum medo sem nome batendo em seu coração.

― Você não é minha segunda opção, Anthony. Tive apenas um admirador em Nova York e há muito, muito tempo parei de pensar nele. Não, Anthony, vim até você porque precisava de você; você mais do que todos os homens em Nova York. Eu acho que no mundo. E pensei que você precisava de mim.

Eles ficaram sentados em silêncio no terrível sofá. Anthony agarrou a mão dela e a cobriu de beijos; ele começou a tomá-la nos braços, então os deixou cair em um gesto sem esperança.

― Não adianta, Anjo; não adianta tentar resistir ao destino. A vida nos pegou de novo. O que você está falando é absolutamente impossível.

― O que você quer dizer com impossível? ― O pequeno medo mudo que havia permanecido dentro dela por muito tempo como resultado de uma confiança anterior falou. ― Anthony, aqueles homens, aqueles inimigos que mataram seu pai, você matou um deles? ― Ela o abraçava. ― Você sabe que não significa nada para mim. Nem me fale sobre isso. Seu passado pertence a você; é em seu futuro que estou interessada, que eu quero.

Anthony a empurrou por fim, até mesmo duramente.

― Não, eu nunca matei um homem. Embora tenha desejado matar. Mas eu era um garotinho quando tudo aconteceu, e depois não voltei por causa de minha mãe. ― Ele foi até uma gaveta e pegou um revólver: ― Estou quase decidido a me matar agora, antes que enlouqueça pensando em como quebrei minha promessa, quebrei depois de todos esses anos. ― Ele olhou para Angela melancolicamente, mas implacável. ― Eu gostaria de morrer muito antes de ver esse olhar lindo e amoroso em seu rosto se transformar em um de ódio, medo e raiva.

Angela pensou que ele devia estar delirando; tentou acalmá-lo.

― Não se preocupe, Anthony; eu não me importo com o que você fez. Apenas me diga por que você diz que tudo é impossível para nós? Por que não podemos significar tudo um para o outro, ser casados…

― Porque sou negro.

Em seu alívio confuso, Angela se afastou dele.

― Sim, é isso mesmo, sua americana perversa! Não sou apto para você agora, sou? Estava tudo bem, desde que você pensasse que eu era um assassino, um criminoso, mas o sangue negro em mim é um pouco demais, não é?

Fora de si, ele correu para as janelas, olhou para os plácidos grupos enfeitando os degraus da frente das casas de pedra marrom.

― O que você vai fazer, alarmar a vizinhança? Bem, deixe-me dizer a você, minha menina, antes que eles possam subir aqui eu estarei morto. ― Seu olhar se desviou para o revólver. ― Eles nunca vão me pegar como fizeram com meu pai.

Estava na ponta da língua contar-lhe seu grande segredo. O coração de Angela borbulhava de tanto rir ao pensar com que rapidez ela poderia pôr fim a essa histeria, como poderia acalmar essa loucura que tanto fervia dentro dele, envenenando o melhor momento de sua vida. Mas suas últimas palavras mudaram seus pensamentos para outra coisa, para outra necessidade. Como ele deve ter sofrido, amando uma garota que ele tinha certeza que o trairia; ainda assim, tendo que manter o personagem.

Angela disse gentilmente:

― Anthony, você pensou que eu faria isso?

A resposta revelou a profundidade indizível da convivência dele com o preconceito; seu cinismo incurável.

― Você é uma mulher branca. Eu sei que não há nada muito covarde para eles fazerem quando se trata de raça.

Uma ideia fantástica se apoderou dela. Claro que diria a ele que era negra, que estava disposta a viver com gente negra. E se ele precisasse da garantia do amor dela, quão mais plenamente acreditaria nela quando percebesse que nem mesmo por uma questão de conveniência ela manteria em segredo sua associação com os brancos. Mas primeiro ela deveria tentar restaurar a fé dele na bondade humana.

― Me fale sobre isso, Anthony.

E sentado ali na sala feia e arrumada no crepúsculo ensolarado do início da noite de verão, os ruídos meio suaves da rua subindo até eles, Anthony contou a Angela sua história. Era uma história velha, mas em seu novo cenário, juntamente com o fato de Angela por anos ter fechado sua mente para o castigo que os homens às vezes pagam por serem estranhos, parecia uma história inacreditável da Inquisição.

O pai dele, John Hall, da Geórgia, havia sido marinheiro e pirata, mas o pai de John era um fazendeiro conhecido e capaz que ficou em sua pequena cidade e lentamente acumulou o que parecia uma fortuna para os brancos pobres e, em sua maioria, ignorantes por quem ele era cercado. Em suas andanças, John desembarcou no Rio de Janeiro e conheceu Maria Cruz, uma brasileira com o sangue de muitas raças nas veias. Ela mesma era aparentemente branca, mas olhava com simpatia para o marinheiro robusto e moreno, sem se importar com sua cor, que era muito parecida com a de seu próprio pai. Os dois se casaram e foram para vários países. Mas, finalmente, John, cansado de sua vida sem objetivo, voltou para seu pai, chegando um mês antes da hora de receber a bênção do velho e sua propriedade. Daí todos os seus problemas. Certos homens brancos no bairro vizinho tinham seus olhos voltados para os pertences do velho Anthony Hall. Seu filho havia sido um andarilho por muitos anos; sem dúvida ele estava morto. Certamente não se esperava que ele voltasse depois de todos esses anos à sua terra natal; já que a maioria dos negros deixaram o Sul e partiram para sempre. Eles sabiam que não deveriam voltar com seus modos arrogantes.

Somada à notável injustiça do retorno de John Hall e à decepção causada por isso, estava a iniquidade de seu casamento com uma esposa bonita e aparentemente branca. O pequeno Anthony lembrava-se da advertência constante de seu pai para que ela nunca saísse de casa; este último, em seu súbito zelo pelo lar, havia esquecido o que poderia significar ficar na Geórgia. Mas sua memória logo foi renovada e ele já estava fazendo todos os esforços para se desfazer de seus novos bens sem perda total. Isso exigia tempo e paciência, mas ele esperava que apenas alguns meses precisassem se passar antes que eles pudessem sacudir a poeira daquele buraco maldito para sempre.

“Só um pouco de paciência, Maria”, disse ele à adorável esposa. Mas ela não conseguia entender. É verdade que ela nunca se aventurava na cidade, mas uma visita esporádica à pequena loja era necessária e ela não se importava com um ocasional olhar de admiração. Na verdade, atribuía as censuras do marido ao ciúme dele. Anthony, sempre uma criança séria, constituiu-se seu guardião constante; seu pai, ele sabia, tinha de estar ausente, em cidades vizinhas, onde estava tentando fechar o negócio, então o menino acompanhava sua mãe tola e confiante por toda parte. Quando passaram por um grupo de homens que olhavam e balbuciavam, ele planejou machucar o dedo ou o dedão do pé para chamar a atenção da mãe. Apesar de seus subterfúgios infantis, na verdade por causa deles, sua mãe atraiu a atenção de Tom Haley, filho do magistrado. Aparentemente, Anthony havia machucado a mão e sua linda mãe, curvando-se sobre ele com grande solicitude, fazia um quadro muito charmoso e desafiador para ser esquecido. Haley deu um passo à frente e tocou seu chapéu.

“Posso fazer algo para ajudá-la, senhora?”

Ela olhou para ele com seus adoráveis olhos derretidos, falou em sua voz estranhamente líquida. Ele tinha certeza de que havia feito uma conquista. Depois, decepcionado com as zombarias dos espectadores que riam dele por sua cortesia para com uma moça negra “porque ela é só isso, esposa de John Hall”, ele pisou com o calcanhar na poeira vermelha; ia mostrar a ela.

Na tarde quente, acordada de seu repouso por uma batida repentina, ela caminhou até a porta e cumprimentou seu admirador da madrugada. Não ficou muito satisfeita com a expressão nos olhos dele, mas não podia suspeitar do mal. Haley, que havia perambulado por conta própria e aprendido algumas palavras em espanhol, deixou escapar uma ou duas frases insultuosas. Espantada e zangada, ela o golpeou no rosto. O menino, Anthony, observando inquieto, gritou; houve um repentino tumulto de vozes e Haley fugiu, esquecendo por um momento que eram vozes de negros e, portanto, não precisavam ser temidas. Um velho negro, resmungando e gemendo “Deus te perdoe, querida”, guiou a criança e a mãe em pânico para o pântano. E ali escondidos à noite eles podiam ver as faíscas e as chamas subindo da casa e das construções que representavam o trabalho dos sessenta anos de Anthony Hall. Em uma calmaria repentina, eles ouviram o som dos tiros de pistola que crivaram o corpo de John Hall.

― Alguém avisou meu pai ― disse Anthony Cross, cansado ―, mas ele foi para casa. Além disso, uma vez de volta à cidade, ele teria sido levado de qualquer maneira, talvez cercado e queimado na praça pública. Eles o deixaram entrar em sua casa; ele lavou-se e vestiu-se para a morte. Antes do anoitecer, a multidão foi ensinar a este homem a sua opinião sobre um negro que não tinha ensinado a sua esposa os seus deveres para com os homens brancos. Primeiro eles colocaram fogo na casa e depois o chamaram à janela. Quando ele saiu na pequena varanda, Haley abriu fogo. O corpo caiu sobre o parapeito, morto antes que pudesse tocar o chão, assassinado pelas balas de vinte pistolas. Caçadores cortaram dedos, dedos dos pés, as orelhas dele ― um amigo do meu avô encontrou o corpo à noite e o enterrou. Disseram que era diferente de tudo que já tinham visto antes, estava totalmente desumanizado. Depois de ouvir essa história, não consegui dormir por noites a fio. Quanto à minha mãe…

Angela pressionou a cabeça dele contra seu ombro. Não havia palavras para uma coisa assim, apenas um caloroso contato humano.

Anthony continuou, abatido.

― Quanto à minha mãe, ela parecia uma louca. Passou o resto da vida assombrada por um medo terrível.

― De pessoas brancas ― Angela complementou com suavidade. ― Sim, posso entendê-la.

Ele olhou para ela sombriamente.

― Não, das pessoas negras. Ela acredita que nós somos amaldiçoados, caso contrário, por que seríamos tão abusados, tão perseguidos? Dois anos após a morte do meu pai ela se casou com um homem branco, não um estadunidense ― disso fui poupado ―, mas um alemão que, creio eu, a trata muito bem. Eu ainda era um menino, mas implorei incansavelmente que ela deixasse aquela raça em paz; disse-lhe que ela devia isso à memória de meu pai. Mas ela só disse que as mulheres são criaturas pobres e fracas; elas devem ter proteção onde puderem.

Horrorizada com a tragédia, Angela só podia olhar para ele, pálida.

― Não me pergunte como eu superei. Angèle, por um tempo eu não fui nada, não valia nada… só que nunca neguei minha cor; sempre me dediquei às causas negras. Quando tenho algo a dizer, permito que o mundo pense em mim como quiser, mas sempre antes de cortar minhas relações, eu contei sobre o sangue negro que estava em minhas veias. E então me ocorreu que, pelo bem do meu pai, eu tentaria fazer algo por mim mesmo. Então me esquivei dos maus caminhos e vim para Nova York onde tenho vivido calmamente, espero que útil, mantendo minha amargura dentro de mim onde não poderia prejudicar ninguém além de mim.

“Eu fiz um voto e o mantive ― nunca me permitir me envolver com pessoas brancas; nunca dar ouvidos a seus comentários brandos; sempre odiá-las com um ódio perfeito. Então te conheci e te amei e de alguma forma a cura começou. Eu pensei: se ela me ama, estará disposta a me ouvir até o fim. E se, depois que me ouvir, ela estiver disposta a ficar comigo, sangue negro e tudo... Mas lembre-se ― ele se interrompeu ferozmente ―, eu não tenho vergonha do meu sangue. Às vezes acho que é o fermento que purificará esse povo nórdico de sua crueldade e selvagem luxúria de poder.

Angela ignorou isso.

― Então, você ia me contar de qualquer jeito.

― Claro que eu teria contado. Eu sou um homem, Anjo. Quando eu era marinheiro, houve algumas páginas na minha vida que não poderia deixar seus dedos tocarem. Mas isso eu teria contado, era muito vital, muito importante. Não que eu ache que realmente signifique alguma coisa, essa mistura de sangue, conforme a vida continua, como Deus queria que o mundo fosse. Mas ela pode gerar ou destruir a vida. É claro que eu teria contado.

Ali estava a honra, ali estava um homem! O pai dela também estaria. Tendo encontrado esta comparação, sua mente não procurou mais. Um profundo silêncio desceu sobre eles; no caso dele, o silêncio de exaustão. Mas Angela estava pensando em sua vida trágica e em como ela poderia mudá-la de forma completa e surpreendente. Sorrindo, ela falou com ele sobre felicidade, sobre o futuro glorioso.

― Tenho algo incrível para lhe contar, mas não vou te contar de uma vez. Não podemos ir ao Parque Van Cortlandt amanhã à noite?

Anthony pegou a mão dela.

― Não importa o que você esteja planejando em seu bondoso coração, não há futuro, nenhum, nenhum, Anjo, para você e para mim. Não se engane, nem a mim. Quando estou com você, às vezes esqueço. Mas esta tarde trouxe tudo de volta para mim. Jamais esquecerei a mim mesmo e meu voto novamente.

Uma campainha tocou três, quatro vezes. Ele olhou em volta, franzindo a testa.

― É o Sanchez, ele esqueceu a chave de novo. Minha querida, meu Anjo, você deve ir, e você não deve, não deve voltar. Rápido, rápido! Não quero que ele a veja aqui.

Anthony a guiou até a porta, reprimindo seus protestos.

― Escreverei imediatamente, mas você deve ir. Deus a abençoe e guarde.

Em seguida, Angela estava no corredor mal iluminado, passando por uma figura escura e apressada na escada. A porta pesada balançou em silêncio atrás dela, empurrando-a para a noite de verão envolvente; a casa pretensiosa e pobre estava novamente entre ela e Anthony com seu passado trágico e abrasador.

Capítulo 5

Durante todo os dias seguintes Angela repensou a história de Anthony; tentara se colocar no lugar dele, forçar-se a uma compreensão obscura da câmara de tortura na qual sua mente e pensamentos haviam vivido por tantos anos. E ela havia acrescentado mais dor, tinha sido tão antipática, tão inflexível; em meio ao sofrimento entediante, ela conseguira injetar uma pontada extra de pungência na vida dele. Mas Angela o recompensaria por isso; ela encheria sua existência sem amor e enganada com alegria e doçura; iria persuadi-lo a esquecer aquele passado terrível. Algum dia, Anthony diria a ela: “Você me trouxe não apenas uma nova vida, mas a própria vida”. Aqueles anos anteriores não deveriam significar mais para ele do que sua existência antes do nascimento significa para um bebê.

A fantasia continuava brincando com todos os doces ofícios do amor; a delicada dependência que poderia unir duas pessoas em absoluta harmonia. Ao custo de cada ambição que já conhecera, ela o faria feliz. Como a maioria dos homens, seu trabalho seria a maior coisa do mundo para Anthony. E ele deveria ser a melhor coisa do mundo para ela. Ele deveria ser sua tarefa, seu trabalho, a realização de sua ambição. Uma frase dos escritos de Anatole France surgiu em sua mente. “Existe uma técnica de amor”. Ela iria descobri-la, empregá-la, não mergulhar descuidadamente nesse relacionamento, ao acaso. E, de repente, Angela viu seu caso com Roger sob uma nova luz; ela poderia perdoá-lo, poderia perdoar a si mesma por aquela união até então imperdoável se por meio dela tivesse chegado um pouco mais perto do entendimento e da necessidade de Anthony.

Seu silêncio ― pois embora o meio da semana tivesse passado, ela não recebera nenhuma carta ― não a preocupava nem um pouco. Com o passar do tempo, ele iria até ela, lembrando-se de sua simpatia perfeita no domingo, e concluindo que aquela mulher era a expiação da raça branca. E então Angela o surpreenderia, lhe diria a verdade. Ela se tornaria indizivelmente mais querida e mais próxima quando Anthony soubesse que sua simpatia e sua ternura eram reais, fixas e duradouras, porque estavam baseadas e enraizadas no mesmo sangue, nas mesmas experiências, na compreensão desse problema racial terrível, estúpido e de longo alcance.

Quão inexprimivelmente feliz, aliviado e chocado ele ficaria! Eles morariam no Harlem, na África, em qualquer lugar, em qualquer lugar. Angela se rotularia, se ele pedisse; ela contaria a todos os membros de seu pequeno círculo de amigos brancos sobre seu sangue mestiço; ela o ajudaria a cumprir seu voto e se glorificaria por isso. Nenhum sacrifício seria grande demais para ela. Nem mesmo abdicar do conforto que alcançou através da sua passabilidade e da certeza e segurança que a mera brancura na América a proporcionou. Ela se retiraria de onde ele se retirou, odiaria onde ele odiava.

*

A carta que chegou na quinta-feira interrompeu seus pensamentos e os belos sonhos de autoimolação que as mulheres tanto adoram. Era breve e severa:

Angèle, não pense por um momento que não te agradeço pelo domingo… Meu coração está a seus pés pelo que você me revelou. Mas você e eu não temos nada em comum, nunca tivemos, e agora nunca poderemos ter. Mais do que a raça nos divide. Acho que irei embora. Enquanto isso, você deve me esquecer; divirta-se, lindo, encantador, anjo magnético com os seus homens, e me deixe sozinho.

Anthony

Era uma carta tão estranha; sua frieza e finalidade a arrepiaram. Angela olhou para a assinatura solitária, “Anthony”, só isso, nenhuma palavra de amor ou afeto. E a frase: “Mais do que a raça nos divide”. Seu significado oculto era uma ameaça. A carta a esperava quando voltasse do trabalho. Ela havia chegado brilhando com a promessa do futuro. E então lá estavam essas palavras frias matando suas grandes esperanças, como uma tempestade de gelo mata as flores tão confiantes do início da primavera…

Continuar: parte 3 de 3