O Círculo

Dave Eggers · Apêndice

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O Círculo

O Círculo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

Kalden ergueu as sobrancelhas, dizendo para ela esperar.

Uma agitação ruidosa veio de cima, o inconfundível movimento da água. Mae

olhou para cima, por um momento achou que os dois iam ficar encharcados, mas

se deu conta de que era só a água descendo pelos canos, na direção de Stewart,

refrigerando tudo o que ele tinha feito e visto.

“É um som muito bonito, não acha?”, perguntou Kalden, olhando para ela;

seus olhos davam a impressão de que queriam voltar para o lugar onde Mae era

algo mais do que efêmera.

“Lindo”, respondeu ela. E então, porque o vinho tinha deixado Mae tonta e

porque ele tinha acabado de segurar a mão dela, e porque alguma coisa naquele

barulho de água havia deixado Mae mais solta, ela segurou o rosto de Kalden

nas mãos e beijou seus lábios.

As mãos dele se ergueram e seguraram Mae, tateantes, em torno da cintura, só

com a ponta dos dedos, como se ela fosse um balão que ele não quisesse

estourar. Porém, por um momento terrível, a boca de Kalden ficou inanimada,

atordoada. Mae achou que tinha cometido um erro. Então, como se um feixe de

sinais e comandos tivesse finalmente alcançado seu córtex cerebral, os lábios de

Kalden despertaram e retribuíram a força do beijo de Mae.

“Espere”, disse ele depois de um momento, e se afastou. Acenou com a

cabeça para a caixa vermelha que continha Stewart e levou-a pela mão para fora

da sala, para um corredor estreito que Mae não tinha visto. Era escuro, sem luz e,

à medida que avançavam, a luz da sala de Stewart ia deixando de penetrar ali.

“Agora estou assustada”, disse Mae.

“Estamos quase chegando”, disse ele.

E então se ouviu o rangido de uma porta de aço. Ao se abrir, revelou uma

câmara enorme, iluminada por uma fraca luz azul. Kalden levou Mae através da

porta para dentro do que parecia ser uma grande caverna, com nove metros de

altura e um teto em abóbada de berço.

“O que é isto?”, perguntou Mae.

“Era para ser parte do metrô”, respondeu Kalden. “Mas abandonaram a obra.

Agora fica assim, vazia, uma estranha combinação de um túnel construído por

homens e uma caverna de verdade. Está vendo as estalactites?”

Apontou para o grande vão, onde as estalactites e as estalagmites davam ao

túnel o aspecto de uma boca cheia de dentes desiguais.

“E aonde vai dar?”, perguntou ela.

“Tem ligação com o túnel que passa por baixo da baía”, disse ele. “Já avancei

quase um quilômetro por ele, mas dali para a frente tem muita água.”

De onde os dois estavam, podiam ver a água negra, um lago raso no chão do

túnel.

“Meu palpite é que os Stewarts do futuro virão para cá”, disse ele. “Milhares

deles, provavelmente menores. Tenho certeza de que muito em breve eles vão

reduzir os contentores ao tamanho de uma pessoa.”

Olharam juntos para o túnel e Mae imaginou a cena, uma rede interminável de

caixas vermelhas de aço se estendendo na escuridão.

Kalden olhou de novo para ela. “Não pode contar para ninguém que eu trouxe

você para cá.”

“Não vou contar”, disse Mae, e então se deu conta de que, para manter essa

promessa, teria de mentir para Annie. No momento, parecia um preço pequeno a

pagar. Queria beijar Kalden de novo e segurou de novo seu rosto entre as mãos,

baixou-o para o seu rosto e abriu a boca para a dele. Fechou os olhos e imaginou

a caverna comprida, a luz azul no alto, a água escura embaixo.

E então, nas sombras, longe de Stewart, algo em Kalden se modificou e suas

mãos se tornaram mais resolutas. Ele a segurou e puxou-a mais para junto de si,

as mãos ganharam força. A boca separou-se da de Mae, correu pela bochecha e

pousou no pescoço, se deteve ali e subiu até a orelha; o hálito de Kalden estava

quente. Mae tentou retribuir, segurando a cabeça dele entre as mãos, explorando

seu pescoço, suas costas, mas ele estava no comando, ele tinha planos. Sua mão

direita estava na região lombar de Mae, a puxava para junto de si, onde ela

sentiu a rigidez dele pressionando sua barriga.

E então ela foi erguida. Ela estava no ar, e ele a carregava, enquanto ela cingia

suas pernas em torno de Kalden e ele andava decidido rumo a algum ponto atrás

dela. Mae abriu os olhos por um instante, depois fechou, não queria saber aonde

ele a levava, confiava nele, embora soubesse que aquilo era errado, confiar nele

num subterrâneo tão profundo, um homem que ela nem conseguia saber onde

encontrar, cujo nome completo ela não fazia ideia.

Então ele a baixou e Mae moveu os braços achando que ia sentir a pedra do

chão da caverna embaixo de si, mas em vez disso sentiu a superfície macia de

uma espécie de colchão. Agora ela abriu os olhos. Estavam numa alcova, uma

caverna dentro da caverna, a um ou dois metros acima do chão, entalhada na

parede da caverna. Estava cheia de lençóis e travesseiros, e Kalden acomodou

Mae sobre eles.

“É aqui que você dorme?”, perguntou ela, achando aquilo quase lógico, em

seu estado febril.

“Às vezes”, disse ele, respirando fogo na orelha de Mae.

Ela se lembrou dos preservativos que ganhara da dra. Villalobos em seu

consultório. “Eu tenho uma coisa”, disse ela.

“Bom”, disse ele, e pegou um deles, abriu a embalagem enquanto Mae puxava

a calça de Kalden para baixo.

Com dois movimentos rápidos, ele tirou a calça e a calcinha de Mae e jogou-

as para o lado. Enfiou a cara na barriga de Mae, suas mãos seguravam a parte de

trás das coxas dela, os dedos de Kalden rastejaram para cima, para dentro.

“Volte aqui para cima”, disse ela.

Kalden fez isso e sibilou em seu ouvido: “Mae”.

Ela não conseguia formar palavras.

“Mae”, disse ele outra vez, ao mesmo tempo que ela perdia a noção de si

mesma com ele.

 

Ela acordou no dormitório e primeiro imaginou que havia sonhado tudo

aquilo, todos os momentos: as câmaras subterrâneas, a água, as caixas

vermelhas, a mão na sua lombar e depois a cama, os travesseiros na caverna —

nada daquilo parecia plausível. Era o tipo de combinação de detalhes aleatórios

que os sonhos costumavam experimentar, nenhum deles possível no mundo real.

Mas quando levantou, tomou uma ducha e trocou de roupa, se deu conta de

que tudo havia acontecido da maneira como se lembrava. Tinha beijado aquela

pessoa, Kalden, de quem ela sabia muito pouco, e ele a havia conduzido não só

por uma série de câmeras de alta segurança, mas para uma sala escura, onde os

dois se perderam um no outro durante horas e adormeceram.

Ligou para Annie. “Aconteceu.”

“Quem? Você e o velho?”

“Ele não é velho.”

“Não tinha cheiro de mofo? Ele não falou do seu marca-passo ou das suas

fraldas? Não vá me dizer que ele morreu em cima de você.”

“Não tem nem trinta anos.”

“E dessa vez conseguiu saber o sobrenome dele?”

“Não, mas ele me deu o número de um telefone para eu ligar.”

“Puxa, isso é fino. E você já tentou?”

“Ainda não.”

“Ainda não?”

Mae sentiu um frio na barriga. Annie bufou com força.

“Você sabe que estou preocupada com a possibilidade de ele ser uma espécie

de espião ou olheiro. Você confirmou se ele é legítimo?”

“Confirmei. Trabalha no Círculo. Disse que conhecia você e tem acesso a uma

porção de lugares. Ele é normal. Talvez um pouco excêntrico.”

“Acesso a lugares? O que você quer dizer?” O tom de voz de Annie ganhou

uma rispidez nova.

Naquele momento, Mae entendeu que teria de começar a mentir para Annie.

Mae queria estar com Kalden outra vez, queria se jogar sobre ele naquele mesmo instante e não queria que Annie fizesse nada que pusesse em risco seu acesso a

Kalden, seus ombros largos, sua silhueta elegante.

“Só quis dizer que ele sabia como se deslocar, conhecia os lugares”, disse

Mae. Havia uma parte dela que achava que Kalden podia de fato estar ali de

forma ilegal, que ele era uma espécie de intruso e, numa súbita revelação, se deu

conta de que ele podia mesmo estar morando naquela estranha toca subterrânea.

Podia representar algum tipo de poder contrário ao Círculo. Talvez trabalhasse

para a senadora Williamson em algum cargo, ou para algum possível

concorrente do Círculo. Talvez fosse um mero blogueiro xereta zé-ninguém que

queria ficar mais perto da máquina no centro do mundo.

“E aconteceu onde? No dormitório?”

“É”, disse Mae. Não era tão difícil mentir desse modo.

“E ele passou a noite toda com você?”

“Não, teve de ir embora.” E, percebendo que quanto mais tempo ficasse

falando com Annie, mais mentiras teria de contar, Mae inventou um motivo para

desligar. “Hoje eu tenho de me encarregar da Pesquisa do Círculo”, disse ela. O

que era mais ou menos verdade.

“Me ligue depois. E você precisa conseguir o nome dele.”

“Tá legal.”

“Mae, não sou sua chefe. Não quero ser sua supervisora nem nada. Mas a

empresa precisa saber quem é esse cara. A segurança da empresa é uma coisa

que temos de levar a sério. Vamos descobrir quem é ele hoje, está bem?” A voz

de Annie tinha mudado; soava como a de um superior descontente. Mae conteve

sua raiva e desligou.

Mae ligou para o telefone que Kalden lhe dera. Mas quando ligou, o telefone

tocou sem parar. Não havia correio de voz. E mais uma vez Mae se deu conta de

que não tinha nenhum meio de entrar em contato com ele. De modo intermitente,

durante a noite, ela pensou em perguntar seu sobrenome, pedir qualquer outro

tipo de informação, mas o momento nunca parecia conveniente e ele também

não perguntou o sobrenome dela, e Mae supôs que, na hora em que fossem se

despedir, iriam trocar essas informações. Mas depois acabou esquecendo. Pelo

menos ela esqueceu. Afinal, como foi que os dois se separaram? Kalden levou-a

aos dormitórios, beijou-a de novo ali, na porta. Ou talvez não. Mae pensou de

novo e recordou que ele tinha feito a mesma coisa que fizera antes: puxou-a para

o canto, fora do alcance da luz da porta, e beijou-a quatro vezes, na testa, no

queixo, nas bochechas, o sinal da cruz. Em seguida desvencilhou-se dela e sumiu

nas sombras perto da cascata, a mesma onde Francis tinha encontrado o vinho.

 

Durante o almoço, Mae foi à Revolução Cultural, onde, por ordem de Jared, Josiah e Denise, ela seria preparada para responder as Pesquisas do Círculo.

Garantiram a ela que aquilo era uma recompensa, uma honra, e algo bastante

agradável — ser um dos membros do Círculo a quem se indagava quais eram

seus gostos, suas preferências, seus hábitos de consumo e seus planos, para que

as informações fossem usadas em benefício dos clientes do Círculo.

“Esse é de fato o passo correto em sua carreira”, dissera Josiah.

Denise havia confirmado com um movimento de cabeça. “Acho que você vai

adorar.”

Pete Ramirez era um homem discretamente bonito, uns poucos anos mais

velho do que Mae, cuja sala parecia não ter mesa nenhuma, nenhuma cadeira

nem ângulos retos. Era redonda e, quando Mae entrou, ele estava de pé, falando

em um headset, brandindo no ar um bastão de beisebol e olhando pela janela.

Acenou para Mae entrar e terminou seu telefonema. Continuava com o bastão na

mão esquerda quando apertou a mão dela com a direita.

“Mae Holland. Que bom receber você. Sei que está em horário de almoço,

portanto vamos ser rápidos. Você será liberada em sete minutos, se perdoar meu

jeito brusco, está bem?”

“Está bem.”

“Ótimo. Você sabe por que está aqui?”

“Acho que sim.”

“Está aqui porque suas opiniões são valorizadas. São tão valorizadas que o

mundo precisa conhecê-las — suas opiniões sobre quase tudo. Isso não é

lisonjeador?”

Mae sorriu. “É sim.”

“Muito bem, está vendo este headset que estou usando?”

Apontou para o equipamento em sua cabeça. Uma haste da finura de um

cabelo, com um microfone na ponta, seguia a linha de seu zigoma.

“Vou pôr em você esse mesmo aparelhinho simpático. Que tal, não é legal?”

Mae sorriu, mas Pete não estava esperando respostas. Instalou um headset

idêntico ao seu por cima do cabelo de Mae e ajustou o microfone.

“Pode falar alguma coisa para eu regular o volume?”

Ele não tinha nenhum tablet ou monitor visível, portanto Mae supôs que

estivesse todo concentrado no dispositivo retinal — o primeiro que ela via.

“Diga-me o que comeu no café da manhã.”

“Uma banana, granola”, respondeu.

“Ótimo. Primeiro vamos decidir o som de aviso. Você tem um som preferido

para seus alertas? Como um trinado, um trítono ou algo assim?”

“Talvez um trinado padrão?”

“O trinado é este aqui”, disse ele, e Mae ouviu o som em seus fones.

“Serve.”

“Devia ser melhor do que servir. Você vai ouvir isso muitas vezes. Você quer

ter certeza. Experimente mais alguns.”

Ouviram mais uma porção de opções, por fim ficaram com o som de um

minúsculo sino, longínquo e com uma reverberação intrigante, como se tivesse

sido tocado numa igrejinha remota.

“Ótimo”, disse Pete. “Agora permita que eu explique como funciona. A ideia

é sentir o pulso de uma amostra seleta de membros do Círculo. Esse trabalho é

importante. Você foi escolhida porque suas opiniões são cruciais para nós e para

nossos clientes. As respostas que você fornecer vão nos ajudar a moldar nossos

serviços às necessidades deles. Está bem?”

Mae começou a responder, mas ele já estava começando a falar outra vez.

“Portanto toda vez que ouvir o sino, fará que sim com a cabeça e o fone vai

registrar seu movimento e você ouvirá a pergunta pelo fone. Você vai responder

a pergunta em inglês-padrão. Em muitos casos você ouvirá uma pergunta

estruturada para receber uma das duas respostas-padrão, sorriso e cara feia. O

receptor de voz é minuciosamente ajustado para essas duas respostas, portanto

não precisa se preocupar se murmurar. E é claro que você não vai ter problema

com nenhuma resposta, se pronunciar com clareza. Quer experimentar?”

Mae fez que sim com a cabeça. Ao ouvir o sino, assentiu de novo, e uma

pergunta chegou pelos fones. “O que acha de sapatos?”

Mae sorriu e depois falou: “Sorriso”.

Pete piscou para ela. “Essa foi fácil.”

A voz perguntou: “O que acha de sapatos sociais?”.

Mae disse: “Sorriso”.

Pete levantou a mão em sinal de pausa. “É claro que a maioria das perguntas

não estará sujeitas a uma das três respostas-padrão: sorriso, cara feia ou tanto

faz. Você pode responder qualquer pergunta com mais detalhes. A pergunta

seguinte vai exigir mais de você. Lá vai.”

“Quantas vezes você compra sapatos novos?”

Mae respondeu: “Uma vez a cada dois meses”, e veio o som de um sininho.

“Ouvi um sino. Isso é bom?”

“Sim, desculpe”, disse ele. “Eu acabei de ativar o sino, o que significa que sua

resposta foi ouvida e gravada e que a pergunta seguinte está pronta. Então você

pode fazer que sim outra vez, o que vai levá-la à pergunta seguinte, ou então

pode esperar o chamado.”

“Qual é a diferença?”

“Bem, você tem uma certa, bem, não quero dizer cota, mas há um número de

perguntas respondidas que seria o ideal e o esperado de você num dia de trabalho normal. Digamos que sejam quinhentas, mas podem ser mais, podem ser menos.

Você também pode responder no seu próprio ritmo, concentrando tudo em

determinando momento ou espalhando as perguntas pelo tempo do dia de

trabalho. A maioria das pessoas consegue responder quinhentas em uma hora,

portanto não é nada tão estressante. Ou então pode esperar os alertas, que vão vir

caso o programa ache que você deva acelerar o ritmo. Alguma vez você já

respondeu um daqueles questionários on-line do departamento de trânsito?”

Mae já tinha respondido. Haviam sido duzentas perguntas e estava previsto

um tempo de duas horas para responder tudo. Ela terminou o questionário em

vinte e cinco minutos. “Sim”, respondeu.

“Pois isso é a mesma coisa. Tenho certeza de que você vai conseguir dar conta

das perguntas do dia com toda facilidade. É claro, podemos aumentar o ritmo se

você pegar bastante embalo. Certo?”

“Certo”, disse ela.

“Então, se por acaso você estiver ocupada, depois de um tempo, vai soar um

segundo aviso, que relembra que você deve voltar às perguntas. Esse sinal tem

de ser diferente. Quer escolher o segundo som?”

E assim ouviram os sons outra vez e ela escolheu uma distante buzina de

nevoeiro.

“Ou então”, disse ele, “tem um outro som aqui que algumas pessoas

escolhem. Veja só isso. Na verdade, espere um segundo.” Ele desviou os olhos

de Mae e falou em seu microfone. “Demonstração de voz M-A-E.” Então virou

de novo para Mae. “Muito bem, lá vai.”

Mae ouviu a própria voz falar seu nome, num tom um pouco acima de um

sussurro. Era muito íntimo e fez um arrepio estranho correr por seu corpo.

“É sua própria voz não é?”

Mae ficou ruborizada, perplexa — não soava como ela nem de longe —, mas

conseguiu assentir.

“O programa faz uma captura de voz do seu microfone e depois podemos

formar qualquer palavra. Até seu próprio nome! Então esse vai ser seu segundo

som de alerta?”

“Sim”, disse Mae. Ela não tinha certeza de querer ouvir a própria voz dizendo

o próprio nome repetidamente, mas também sabia que queria ouvir aquilo de

novo o quanto antes. Era tão estranho, apenas alguns centímetros distante do

normal.

“Muito bem”, disse Pete. “Portanto, encerramos. Pode voltar para sua mesa e

logo o primeiro sino vai tocar. E você vai responder o maior número de

perguntas que puder esta tarde, sem dúvida as primeiras quinhentas. Está certo?”

“Certo.”

“Ah, e quando você voltar à sua mesa, verá uma tela nova. De vez em quando,

se necessário, uma ou outra pergunta será acompanhada por uma imagem. Mas

restringimos isso ao máximo, porque sabemos que você precisa se concentrar.”

Quando Mae voltou à sua mesa de trabalho, uma tela nova, sua quinta, tinha

sido instalada à direita da tela com as perguntas de seus novatos aprendizes. Mae

tinha alguns minutos antes de dar uma da tarde, por isso resolveu testar o

sistema. O primeiro sino tocou e ela assentiu. Uma voz de mulher, que soava

como uma locutora de rádio de notícias, perguntou: “Nas férias, você tende a

relaxar em uma praia ou em um hotel de luxo, ou prefere aventura, como um

rafting em um rio de corredeira?”.

Mae respondeu: “Aventura”.

Um sininho tocou, suave e agradável.

“Obrigada. Que tipo de aventura?”, perguntou a voz.

“Rafting”, respondeu Mae.

Mais um sininho. Mae fez que sim com a cabeça.

“Obrigada. Para fazer rafting, você prefere um passeio de vários dias,

dormindo num acampamento, ou um passeio de um só dia?”

Mae ergueu os olhos e viu que a sala estava se enchendo com o resto de sua

equipe, que voltava do almoço. Eram 12h58.

“Vários dias”, respondeu.

Outro sino. Mae fez que sim com a cabeça.

“Obrigada. O que acha de uma viagem pelo Grand Canyon?”

“Sorriso.”

O sino tocou de leve. Mae fez que sim.

“Obrigada. Você estaria disposta a pagar mil e duzentos dólares por uma

viagem de uma semana pelo Grand Canyon?”, perguntou a voz.

“Tanto faz”, disse Mae, e ergueu os olhos para ver Jared, de pé em cima de

sua cadeira.

“Abrir as comportas!”, gritou ele.

Quase imediatamente, surgiram doze perguntas dos clientes. Mae respondeu a

primeira, ganhou nota 92, enviou um questionário de confirmação e sua nota

subiu para 97. Respondeu às duas perguntas seguintes e obteve nota 96.

“Mae.”

Era uma voz de mulher. Ela olhou em volta, achando que podia ser Renata.

Mas não havia ninguém a seu lado.

“Mae.”

Então se deu conta de que era sua própria voz, o sinal de alerta que ela mesma

havia combinado usar. Soou mais alto do que esperava, mais alto do que as

perguntas ou o sino, no entanto era sedutor, atraente. Mae baixou o volume do fone e a voz soou de novo: “Mae”.

Agora, com o volume mais baixo, não soava nem de longe tão fascinante, por

isso ela aumentou o volume ao nível de antes.

“Mae.”

Era sua voz, ela sabia, mas por algum motivo estava menos parecida com a

voz dela e mais parecida com a de uma versão mais velha dela mesma. Mae teve

a ideia de que, se tivesse uma irmã mais velha, uma irmã que tivesse visto mais

coisas na vida do que ela, sua voz seria assim.

“Mae”, disse a voz outra vez.

A voz parecia erguer Mae da cadeira e fazê-la rodopiar. Toda vez que ouvia a

voz, seu coração acelerava.

“Mae.”

“Sim”, respondeu ela afinal.

Mas nada aconteceu. Não estava programada para responder perguntas. Não

tinham dito a Mae como devia reagir. Experimentou fazer que sim com a cabeça.

“Obrigada, Mae”, disse sua própria voz, e o sino tocou.

“Você estaria disposta a pagar mil e duzentos dólares por uma viagem de uma

semana pelo Grand Canyon?”, perguntou de novo a primeira voz.

“Sim.”

O sino tocou.

 

Foi tudo muito fácil de assimilar. No primeiro dia, ela deu conta de 652

perguntas da pesquisa, recebendo mensagens de parabéns de Pete Ramirez, Dan

e Jared. Sentindo-se forte e querendo impressioná-los mais ainda, Mae

respondeu 820 perguntas no dia seguinte e 991 no terceiro dia. Não foi difícil e o

reconhecimento dava uma sensação boa. Pete lhe disse quanto os clientes

estavam apreciando suas informações, seu entusiasmo e sua lucidez. A aptidão

de Mae para o programa estava tornando mais fácil expandir a pesquisa para os

outros membros da sua equipe e, no fim da segunda semana, uma dúzia de

pessoas na sala também estava respondendo as perguntas da pesquisa. Levou

mais ou menos um dia para ela se acostumar a ver tanta gente fazendo que sim

com a cabeça com tanta frequência — e com estilos variados, alguns com

meneios bruscos semelhantes a passarinhos, outros de maneira mais suave —,

mas logo se tornou algo normal, como o resto da rotina deles, que envolvia

digitar, ficar sentado e ver seu trabalho aparecer numa porção de telas diferentes.

Em certos momentos, havia a imagem feliz de um bando de cabeças fazendo que

sim, no que parecia ser um uníssono, como se uma música comum estivesse

tocando na cabeça de todos.

A camada extra de trabalho das Pesquisas do Círculo ajudou a distrair Mae

dos pensamentos sobre Kalden, que ainda não havia entrado em contato com ela

nem tinha atendido seus telefonemas. Mae parou de ligar depois de dois dias e

resolveu que não ia falar do assunto com Annie nem com ninguém. Seus

pensamentos sobre Kalden seguiram um caminho semelhante ao que haviam

tomado após seu primeiro encontro, na apresentação do circo. Primeiro, ela

achou intrigante, até original, o fato de Kalden ser uma pessoa inacessível. Mas,

depois de três dias, aquilo lhe pareceu voluntarioso e adolescente. No quarto dia,

Mae se cansou da brincadeira. Qualquer um que sumisse daquele jeito não podia

ser uma pessoa séria. Ele não levava Mae a sério, nem o que ela sentia. Kalden

tinha parecido extremamente sensível todas as vezes que os dois se encontraram,

mas depois, quando estavam distantes, sua ausência, por ser total — e porque a

ausência total de comunicação num lugar como o Círculo era algo muito difícil

— dava a sensação de uma violência. Muito embora Kalden fosse o único

homem pelo qual ela sentia de fato tesão, mesmo assim Mae estava cheia

daquela história. Preferia alguém mais sem graça, contanto que fosse alguém

acessível, familiar, localizável.

Enquanto isso, Mae aprimorava seu desempenho na Pesquisa do Círculo.

Como os números da pesquisa de seus pares ficavam acessíveis, a competição

era saudável e mantinha todos eles afiados. A média de Mae era de 1345

perguntas por dia, a segunda maior média, só perdia para um novato chamado

Sebastian, que ficava sentado no canto e nunca saía da mesa nem para almoçar.

Como Mae continuava a atender o enxame de dúvidas dos novatos na sua quarta

tela, sentia-se bem com o segundo lugar naquela categoria. Sobretudo por seu

ranking de participação ter se mantido em 1900 durante o mês inteiro e

Sebastian ainda ter de romper a barreira dos 4000.

Mae estava tentando abrir caminho para a faixa dos 1800 numa tarde de terça-

feira, comentando centenas de fotos e posts do Círculo Interno, quando viu uma

figura ao longe, encostada na maçaneta da porta, no fundo da sala. Era um

homem que usava a mesma camisa listrada que Kalden tinha vestido na última

vez que o tinha visto. Estava de braços cruzados, a cabeça inclinada, como se

estivesse vendo uma coisa que não conseguia entender de jeito nenhum ou em

que não conseguia acreditar. Mae tinha certeza de que era Kalden e se esqueceu

de respirar. Antes que fosse capaz de imaginar uma reação menos ansiosa,

acenou com a mão e ele acenou em resposta, erguendo a mão só um pouco

acima da cintura.

“Mae”, disse a voz no headset.

E naquele momento a figura na porta girou e se foi.

“Mae”, disse a voz outra vez.

Ela tirou o headset e correu até a porta onde tinha visto Kalden, mas ele tinha

ido embora. Instintivamente, Mae foi ao banheiro onde o havia encontrado pela

primeira vez, porém Kalden também não estava lá.

Quando voltou à sua mesa de trabalho, havia uma pessoa em sua cadeira. Era

Francis.

“Ainda sinto muito”, disse ele.

Mae olhou para ele. As sobrancelhas grossas, o nariz de quilha de barco, o

sorriso hesitante. Mae suspirou e observou-o. Aquele sorriso, ela se deu conta,

era o sorriso de alguém que nunca tinha certeza de ter entendido bem a piada. No

entanto, nos últimos dias, Mae tinha pensado em Francis, no contraste profundo

que havia entre ele e Kalden. Kalden era um fantasma que queria que Mae o

perseguisse, ao passo que Francis estava muito disponível, totalmente isento de

mistério. Em um ou dois momentos de fraqueza, Mae tinha se perguntado o que

faria na próxima vez que o visse. Sucumbiria à presença fácil de Francis, ao

simples fato de que ele desejava estar perto dela? A pergunta andara na cabeça

de Mae durante dias, mas só agora ela sabia a resposta. Não. Ele continuava a

lhe causar repulsa. Sua docilidade. Sua voz de súplica. Seu impulso de roubar.

“Deletou o vídeo?”, perguntou Mae.

“Não”, respondeu. “Você sabe que não posso.” Então ele sorriu, girando em

sua cadeira. Ele achava que os dois iam se tratar amigavelmente. “Você recebeu

uma pergunta do Círculo Interno e eu respondi. Eu acho que você aprova que o

Círculo envie ajuda para o Iêmen, né?”

Por um instante, pensou em enfiar um murro na cara dele.

“Por favor, vá embora”, disse ela.

“Mae. Ninguém viu o vídeo. É só uma parte do arquivo. É um entre dez mil

clips que as pessoas sobem todos os dias só aqui no Círculo. Um de um bilhão

no mundo inteiro, todos os dias.”

“Sei, mas eu não quero ser um desse bilhão.”

“Mae, você sabe que tecnicamente nenhum de nós detém mais a posse desse

vídeo. Eu não conseguiria deletar se tentasse. É como uma notícia. Uma pessoa

não é dona da notícia, mesmo quando é algo que acontece com ela. Nós não

somos donos de nossa história. Faz parte do registro coletivo agora.”

A cabeça de Mae estava à beira de explodir. “Preciso trabalhar”, disse ela, se

controlando para não lhe dar um tapa. “Você pode ir embora?”

Agora pela primeira vez ele pareceu se dar conta de que Mae realmente o

detestava e não o queria perto de si. O rosto de Francis se contraiu numa espécie

de beicinho de criança. Ele olhou para baixo. “Você soube que aprovaram o

ChildTrack em Las Vegas?”

E Mae teve pena dele, ainda que só por um rápido momento. Francis era um homem desesperado, que nunca tivera infância, que sem dúvida havia tentado a

vida inteira agradar todos à sua volta, a sucessão de pais e mães adotivos que não

tinham nenhuma intenção de ficar com ele.

“Que ótimo, Francis”, disse ela.

O início de um sorriso ergueu o rosto de Francis. Na esperança de que aquilo

o apaziguasse e permitisse que ela voltasse ao trabalho, Mae foi além. “Você

está salvando muitas vidas.”

Dessa vez ele abriu um sorriso largo. “Sabe, daqui a seis meses, tudo poderá

estar resolvido. Poderá estar terminado em toda parte. Saturação total. Todas as

crianças rastreáveis, todas as crianças em segurança para sempre. Stenton em

pessoa me disse isso. Sabe que ele visitou meu laboratório? Está pessoalmente

interessado no assunto. E parece que podem mudar o nome do programa para

TruYouth. Entendeu o jogo de palavras? TruYou, TruYouth, ‘juventude’ em vez

de ‘você’.”

“Que bom, Francis”, disse Mae, seu corpo dominado por uma onda de afeição

por ele, uma mistura de empatia, pena e admiração. “A gente se fala depois.”

 

Avanços como aquele do projeto de Francis estavam acontecendo com

incrível frequência no decorrer daquelas semanas. Corriam rumores na empresa

de que o Círculo, em particular Stenton, iria assumir a administração de San

Vincenzo. Fazia sentido, pois a maior parte dos serviços públicos da cidade era

financiada pela empresa ou tinha sido aprimorada por ela. Diziam que os

engenheiros do Projeto 9 tinham imaginado um modo de substituir a barafunda

aleatória de nossos sonhos noturnos por pensamentos organizados e pela solução

de problemas da vida real. Outra equipe do Círculo estava perto de descobrir

como desmantelar os tornados na hora em que se formavam. E havia também o

projeto favorito de todo mundo, já em andamento fazia meses: a contagem dos

grãos de areia do Saara. O mundo precisava mesmo daquilo? A utilidade do

projeto não era algo imediatamente claro, mas os Sábios tinham certo senso de

humor a respeito do assunto. Stenton, que dera início à empreitada, chamava o

projeto de travessura, algo que estavam fazendo, acima de tudo, para ver se

podia ser feito — embora não parecesse haver nenhuma dúvida que podia, em

vista dos algoritmos fáceis envolvidos — e apenas secundariamente para obter

algum proveito científico. Mae compreendia aquilo da mesma forma que a

maioria dos membros do Círculo: como uma demonstração de força e de que,

com a vontade, a inventividade e os recursos econômicos do Círculo, nenhuma

pergunta do mundo ficaria sem resposta. E assim, durante o outono, com um

toque de teatralidade — deixaram o processo se arrastar por mais tempo do que

o necessário, pois levaram só três semanas para contar —, por fim revelaram o número de grãos de areia do Saara, um número comicamente grande e que, em

termos imediatos, não significava grande coisa para ninguém, senão a

confirmação de que o Círculo fazia aquilo que dizia que ia fazer. Cumpriam o

que diziam e com uma rapidez e uma eficiência espetaculares.

O principal avanço, algo que o próprio Bailey divulgava em zings em

intervalos de poucas horas, era a rápida proliferação de outros líderes eleitos, nos

Estados Unidos e no mundo todo, que tinham optado por viver às claras. Para a

maioria das pessoas, se tratava de uma progressão inexorável. Quando Santos

anunciou sua nova transparência, houve cobertura da mídia, mas não o tipo de

explosão que todos no Círculo esperavam. Porém depois, à medida que as

pessoas se registravam no site e passavam a assistir, e começaram a se dar conta

de que ela estava levando aquilo rigorosamente a sério — que ela estava

deixando que o público visse e ouvisse exatamente o que se passava durante seu

dia, sem filtros e sem censura —, o índice de audiência aumentou de modo

exponencial. Santos postava sua programação todos os dias, e na segunda

semana, quando se encontrou com um grupo de lobistas que queria fazer

perfurações de poços na tundra do Alasca, havia milhões de pessoas assistindo.

Ela foi franca com os lobistas, evitou tudo que parecesse pregação ou

concessões. Foi muito franca, fez as perguntas que teria feito a portas fechadas, a

tal ponto que causou sensação e animou mais ainda os índices de audiência.

No terceira semana, vinte e um líderes eleitos nos Estados Unidos pediram ao

Círculo que os ajudasse a se tornar transparentes. Havia um prefeito em

Saratosa. Um senador do Havaí e, o que não foi surpresa, os dois senadores da

Califórnia. Toda a câmara municipal de San Jose. O administrador municipal de

Independence, no Kansas. E toda vez que um deles selava seu compromisso, os

Sábios zingavam a respeito e ocorria uma entrevista coletiva organizada às

pressas, para mostrar o momento exato em que eles passavam a ser

transparentes. No fim do primeiro mês, havia milhares de pedidos do mundo

inteiro. Stenton e Bailey disseram ter ficado espantados, lisonjeados,

desconcertados, mas que haviam sido apanhados desprevenidos. O Círculo não

era capaz de atender aquela demanda toda. Mas se esforçavam para isso.

A produção das câmeras, ainda inacessíveis para os consumidores comuns,

passou a ser feita num ritmo acelerado. A fábrica, na província de Guangdong,

na China, aumentou os turnos de trabalho e deu início à construção de uma

segunda unidade a fim de quadriplicar sua capacidade de produção. Toda vez

que uma câmera era instalada e um novo líder se tornava transparente, havia

mais uma declaração de Stenton, mais uma comemoração, e o índice de

audiência aumentava. No fim da quinta semana, havia 16 188 políticos eleitos,

de Lincoln até Lahore, que haviam se tornado completamente transparentes, e a lista de espera crescia.

A pressão sobre os que não se tornaram transparentes variava de educada a

opressiva. A pergunta, feita por especialistas e eleitores, era óbvia e clamorosa:

Se você não é transparente, o que está escondendo? Embora alguns cidadãos e

comentaristas fizessem objeções com base na privacidade, afirmando que o

governo, em quase todos os níveis, sempre havia precisado fazer coisas de modo

privado em nome da segurança e da eficiência, o ímpeto geral esmagou todos

argumentos desse tipo e a progressão continuou. Se eles não estavam

trabalhando às claras, o que estavam fazendo nas sombras?

E havia uma coisa maravilhosa que tendia a acontecer, algo que dava a

impressão de ser uma justiça poética: toda vez que alguém começava a gritar

contra o suposto monopólio do Círculo ou contra a indevida monetização dos

dados pessoais de seus usuários, ou alguma outra acusação paranoica e

comprovadamente falsa, em pouco tempo se revelava que essa pessoa era um

criminoso ou um depravado do nível mais grave. Um estava ligado a uma rede

de terrorismo no Irã. Outro era comprador de pornografia infantil. Pelo visto,

aquelas pessoas sempre acabavam virando notícia, imagens no noticiário da tevê,

em que investigadores saíam de suas casas carregando computadores, nos quais

inúmeras buscas indescritíveis tinham sido executadas e onde estavam

armazenadas toneladas de material ilegal ou inadequado. E aquilo fazia sentido.

Quem mais senão alguém de personalidade marginal tentaria impedir o

inexorável aprimoramento do mundo?

Em poucas semanas, os detentores de cargos públicos não transparentes eram

tratados como párias. Os transparentes não se encontravam com eles, se não

aceitassem ficar sob o foco das câmeras, e assim aqueles líderes acabaram sendo

excluídos. Os eleitores se perguntavam o que eles estavam escondendo e sua

condenação eleitoral estava praticamente garantida. Em qualquer ciclo eleitoral

vindouro, poucos se atreveriam a concorrer sem declarar sua transparência — e,

era o que se supunha —, aquilo iria aprimorar de forma permanente e imediata a

qualidade dos candidatos. Nunca mais existiriam políticos sem responsabilização

instantânea e completa, porque suas palavras e ações seriam conhecidas,

registradas e estariam fora de discussão. Não haveria mais porta dos fundos nem

negociatas obscuras. Só haveria clareza, só luz.

Era inevitável que a transparência também chegasse ao Círculo. À medida que

a transparência entre ocupantes de cargos eletivos proliferava, surgiram rumores

dentro e fora da empresa: E quanto ao próprio Círculo? Sim, dizia Bailey, em

público e para os membros do Círculo, também temos de ser transparentes.

Também temos de ser abertos. E assim teve início o próprio plano de

transparência do Círculo, que começou com a instalação de mil câmeras SeeChange no campus. Foram instaladas primeiro em salas comuns, cafeterias e

espaços ao ar livre. Depois, quando os Sábios já haviam avaliado quaisquer

problemas que aquilo pudesse acarretar para a proteção da propriedade

intelectual, as câmeras foram instaladas em corredores, áreas de serviço e até em

laboratórios. A saturação não foi completa — ainda havia centenas de espaços

mais sensíveis sem acesso, e as câmeras estavam proibidas em banheiros e

outros ambientes privados, mas afora isso o campus, aos olhos de mais ou menos

um bilhão de usuários do Círculo, tornou-se de repente claro e aberto, e os

devotos do Círculo, que já se sentiam leais à empresa e subjugados por sua

mística, agora se sentiram mais próximos, participantes de um mundo aberto e

receptivo.

Havia oito câmeras na sala da equipe de Mae e, horas depois de começarem a

transmitir as imagens ao vivo, ela e todos na sala ganharam mais uma tela, na

qual podiam ver uma grade com as imagens deles mesmos e podiam abrir

qualquer imagem do campus. Podiam ver se sua mesa predileta na Lanchonete

de Vidro estava vaga. Podiam ver se a academia de ginástica estava lotada.

Podiam ver se a partida de kickball, que estava em andamento, era um jogo sério

ou só para pernas de pau. E Mae ficou surpresa de ver como a vida no campus

era interessante para as pessoas de fora. Em poucas horas, ela recebia mensagens

de amigas do colégio e da faculdade que a haviam localizado, que agora podiam

ver o trabalho de Mae. Sua professora de educação física no ensino médio, que

certa vez tinha achado que Mae não levava a sério os testes de condicionamento

físico do programa nacional de incentivo ao esporte, agora parecia

impressionada. Que bom ver você trabalhando tão a sério, Mae! Um cara que

Mae tinha namorado brevemente na faculdade escreveu: Você nunca sai dessa

mesa?

Mae começou a pensar mais a sério a respeito das roupas que vestia no

trabalho. Pensava melhor onde se coçava e quando e como assoava o nariz. Mas

era um tipo bom de pensamento, um tipo bom de ajuste. E saber que era

observada, que os membros do Círculo eram vistos dia e noite, o local de

trabalho mais visualizado no mundo inteiro, fazia Mae lembrar, com mais

profundidade do que nunca, como sua vida tinha mudado de forma radical em

tão poucos meses. Doze semanas antes, Mae estava trabalhando numa empresa

prestadora de serviços públicos em sua cidade natal, uma cidadezinha da qual

ninguém ouvira falar. Agora estava se comunicando com clientes de todo o

planeta, no comando de seis telas, treinando um novo grupo de novatos, e como

um todo sentia-se mais necessária, mais valorizada e mais estimulada

intelectualmente do que jamais pensara ser possível.

E com as ferramentas que o Círculo punha à sua disposição, Mae sentia-se capaz de influenciar os eventos globais, até salvar vidas, em quase todo o

mundo. Naquela mesma manhã, havia chegado uma mensagem de uma amiga da

faculdade, Tania Schwartz, pedindo ajuda para uma iniciativa que sua irmã

estava liderando. Havia um grupo paramilitar na Guatemala, alguma ressurreição

das forças terroristas dos anos 80, e eles andavam atacando aldeias e capturando

mulheres. Uma mulher, Ana María Herrera, tinha fugido e falado dos rituais de

estupro, das adolescentes que eram transformadas em concubinas e dos

assassinatos daquelas que não aceitavam cooperar. Tania, a amiga de Mae,

nunca tinha sido uma ativista no tempo da faculdade, mas disse que tinha sido

compelida a agir por causa daquelas atrocidades e estava pedindo a todo mundo

que conhecia para se integrar a uma iniciativa chamada Nós Ouvimos Você, Ana

María. Ela precisa saber que tem amigos no mundo inteiro que não vão aceitar

isso, dizia a mensagem de Tania.

Mae viu uma foto de Ana María, sentada num quarto branco, numa cadeira

dobrável, olhando para cima, inexpressiva, uma criança anônima no colo. Ao

lado da foto havia um botão com um sorriso que dizia: “Ouvi você, Ana María”,

o qual, quando clicado, acrescentaria o nome de Mae a uma lista das pessoas que

davam apoio a Ana María. Mae clicou no botão. Também é importante, escreveu

Tania, enviar uma mensagem aos paramilitares dizendo que denunciamos suas

ações. Embaixo da foto de Ana María havia uma imagem borrada de um grupo

de homens em uniformes militares camuflados, andando no meio da floresta

fechada. Junto à foto havia um botão de cara feia que dizia: “Nós denunciamos

as Forças Centrais de Segurança da Guatemala”. Mae hesitou por um instante,

ciente da gravidade do que estava prestes a fazer — manifestar-se publicamente

contra aqueles estupradores e assassinos —, mas ela precisava tomar uma

posição. Apertou o botão. Uma resposta automática agradeceu, avisando que ela

era a 24 726a a pessoa a mandar um sorriso para Ana María e a 19 282 pessoa a

mandar uma cara feia para os paramilitares. Tania registrava que enquanto os

sorrisos eram enviados diretamente para o celular de Ana María, o irmão dela

continuava trabalhando em busca de um meio de enviar as caras feias para as

Forças Centrais de Segurança da Guatemala.

Depois da petição de Tania, Mae ficou parada um instante, sentindo-se muito

alerta, muito consciente de si mesma, sabendo que não só talvez tivesse ganhado

um grupo de inimigos poderosos na Guatemala, como também que incontáveis

milhares de observadores de câmeras SeeChange a viram fazer aquilo. O fato lhe

dava camadas de autoconsciência e uma nítida sensação do poder que ela podia

exercer na posição que ocupava. Mae resolveu usar o banheiro, jogar água fria

no rosto e mexer as pernas um pouco, e foi no banheiro que seu telefone tocou.

A chamada era não identificada.

“Alô?”

“Sou eu. Kalden.”

“Por onde você andou?”

“Agora está complicado. Todas essas câmeras.”

“Você não é espião, é?”

“Você sabe que não sou espião.”

“Annie acha que é.”

“Quero ver você.”

“Estou no banheiro.”

“Eu sei.”

“Sabe?”

“Busca do Círculo, SeeChange... Não é difícil achar você.”

“E onde você está?”

“Estou chegando. Fique aí.”

“Não. Não.”

“Preciso ver você. Fique aí.”

“Não. Posso ver você mais tarde. Tem uma festa lá no Reino Novo. Noite de

caraoquê folk. Um lugar público, seguro.”

“Não, não. Eu não posso fazer isso.”

“Você não pode vir aqui.”

“Posso e vou.”

E desligou.

Mae olhou dentro de sua bolsa. Tinha um preservativo. E ficou ali. Escolheu a

última cabine do banheiro e esperou. Sabia que esperar por ele não era sensato.

Era errado em muitos aspectos. Não poderia contar a Annie a respeito. Annie

aprovaria quase qualquer atividade carnal, mas não ali, no trabalho, num

banheiro. Era algo que demonstrava pouco juízo e teria um reflexo ruim sobre

Annie. Mae olhou para o relógio. Tinham se passado dois minutos e ela estava

dentro de uma cabine do banheiro, à espera de um homem que conhecia apenas

vagamente e que, ela achava, só queria violentá-la, de forma repetida, em lugares

cada vez mais estranhos. Então por que ela estava ali? Porque ela queria que

aquilo acontecesse. Queria que ele transasse com ela na cabine do banheiro, e

queria saber que tinha sido comida na cabine do banheiro, no horário de

trabalho, e que só os dois saberiam daquilo. Por que aquilo era algo

deslumbrante de que ela precisava? Ouviu o barulho da porta abrindo e depois o

estalido da fechadura. Uma fechadura que ela nem sabia existir. Então ouviu o

som dos passos largos de Kalden. Os passos pararam perto das cabines, dando

lugar a um guincho escuro, a tensão de aço e parafusos. Mae sentiu uma sombra

em cima de si e levantou o pescoço para ver um vulto descendo. Kalden tinha subido na parede da cabine e tinha avançado engatinhando pela beirada até a

cabine dela. Mae sentiu que ele descia por trás dela. O calor do seu corpo

esquentou suas costas, a respiração de Kalden em sua nuca.

“O que está fazendo?”, perguntou ela.

A boca de Kalden se abriu junto à orelha de Mae e a língua mergulhou. Mae

deu um soluço e inclinou-se para ele. As mãos de Kalden envolveram a barriga

de Mae, contornaram sua cintura, avançaram rapidamente para as coxas,

segurando-as com firmeza. Mae empurrou as mãos dele para cima e para dentro,

sua mente em conflito, e por fim garantiu a si mesma que tinha o direito de fazer

aquilo. Tinha vinte e quatro anos e se não fizesse aquelas coisas agora — se não

fizesse exatamente aquilo e exatamente agora — nunca mais faria. Era um

imperativo da juventude.

“Mae”, sussurrou ele, “pare de pensar.”

“Está bem.”

“E feche os olhos. Imagine o que estou fazendo com você.”

A boca dele estava em seu pescoço, beijando, lambendo, enquanto as mãos

estavam ocupadas com a saia e a calcinha. Soltou ambas do quadril de Mae,

baixou-as até o chão e apertou Mae junto a si, enchendo-a em um só golpe.

“Mae”, disse ele, enquanto ela se apertava a ele, as mãos de Kalden seguraram

os quadris dela, levando-o tão fundo que ela podia sentir a cabeça intumescida

do pênis em algum ponto perto de seu coração. “Mae”, disse ele, enquanto ela se

segurava nas paredes laterais, como se assim contivesse a pressão do resto do

mundo.

Ela gozou, gemendo, e ele terminou também, numa convulsão, mas em

silêncio. E imediatamente os dois riram, em silêncio, cientes de que tinham feito

algo imprudente, que ameaçava suas carreiras e que tinham de ir embora dali.

Mae virou-se para ele e beijou sua boca, os olhos de Kalden abertos, com ar

espantado e cheios de malícia. “Tchau”, disse ele, e Mae apenas acenou com a

mão, sentindo o vulto de Kalden se erguer de novo atrás dela, subir as paredes

das cabines e sair do banheiro.

E como ele parou na porta para destrancá-la, e como ela achou que talvez

nunca mais o visse, Mae pegou seu celular, esticou a mão por cima da borda da

parede da cabine e tirou uma foto, sem saber se conseguiria captar algum traço

ou feição de Kalden. Quando olhou para o que tinha fotografado, só havia o

braço direito dele, do cotovelo até a ponta dos dedos. O resto já tinha ido

embora.

 

Por que mentir para Annie? Era o que Mae se perguntava, sem saber o que

responder, mas sabendo que ia mentir de um jeito ou de outro. Depois de se arrumar no banheiro, Mae voltou para a mesa de trabalho e imediatamente,

incapaz de se controlar, mandou uma mensagem de texto para Annie, que estava

voando por alguma parte da Europa: De novo com o grisalho, escreveu. Dizer

qualquer coisa para Annie precipitaria uma série de mentiras, grandes e

pequenas e, nos minutos de intervalo entre o momento em que enviou a

mensagem e a chegada inevitável da resposta de Annie, Mae se viu pensando no

que devia esconder e por quê.

Por fim chegou a mensagem de Annie. Tenho de saber tudo já. Estou em

Londres com uns lacaios do Parlamento. Acho que um deles acabou de pegar

um monóculo. Mande-me algo para me distrair.

Enquanto resolvia até que ponto poderia contar para Annie, Mae deu

pequenos detalhes provocativos. Num banheiro.

Annie respondeu imediatamente.

O velho? Num banheiro? Você usou a bancada para trocar de fralda?

Não. Numa das cabines do banheiro. E ele foi VIGOROSO.

Uma voz atrás de Mae disse seu nome. Mae virou-se e deu de cara com Gina e

seu enorme sorriso nervoso. “Tem um segundo?” Mae tentou desviar a tela do

celular que continha o diálogo com Annie, mas Gina já tinha visto.

“Está falando com Annie?”, disse ela. “Vocês devem ser muito próximas,

hein?”

Mae fez que sim com a cabeça, virou a tela e a luz deixou o rosto de Gina.

“Será que ainda é uma hora boa para explicar o Índice de Conversão e o Varejo

Bruto?”

Mae tinha esquecido inteiramente que Gina viria mostrar uma nova camada de

trabalho.

“Claro”, disse Mae.

“A Annie já lhe falou sobre isso?”, perguntou Gina, o rosto com um aspecto

muito frágil.

“Não”, disse Mae. “Não falou.”

“Não falou com você sobre o Índice de Conversão?”

“Não.”

“Nem do Varejo Bruto?”

“Não.”

O rosto de Gina se iluminou. “Ah. Muito bem. Ótimo. Então vamos tratar

disso agora?” O rosto de Gina sondou o de Mae, como se procurasse o menor

sinal de dúvida, o qual Gina entenderia como um motivo para ruir por inteiro.

“Ótimo”, respondeu Mae, e Gina se animou outra vez.

“Muito bem. Vamos começar com o Índice de Conversão. Afinal, é

perfeitamente óbvio que o Círculo não existiria, não teria crescido e nem teria condições de completar o Círculo, se não houvesse compras reais, um comércio

real incentivado. Estamos aqui para ser uma ponte de ligação para todas as

informações do mundo, mas somos financiados por anunciantes que esperam

chegar aos clientes por nosso intermédio, certo?”

Gina sorriu, os dentes grandes e brancos dominaram seu rosto por um instante.

Mae estava tentando se concentrar, mas estava pensando em Annie, na sua

reunião no Parlamento. Ela, sem dúvida, estava pensando em Mae e em Kalden.

E quando Mae pensou em si e em Kalden, pensou nas mãos dele na sua cintura,

puxando-a gentilmente para si, os olhos dela fechados, sua mente abrangendo

tudo...

Gina ainda estava falando. “Mas como provocar, como estimular as compras?

Isso é o Índice de Conversão. Você pode zingar, pode comentar e avaliar

qualquer produto, mas pode traduzir tudo isso em ação? Alavancar sua

credibilidade para estimular a ação, isso é crucial, certo?”

Continuar: parte 10 de 11