O Círculo
O Círculo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
“Muito bem. Agora, olhe só para isso”, disse Annie. “Espere. Antes de eu lhe
mostrar, você tem de me dar um sinal verbal de que aceita o compromisso de
não revelar nada que viu aqui, certo?”
“Está bem.”
“Sério.”
“Estou falando sério. Levo isso a sério.”
“Ótimo. Agora, quando eu abrir este livro…”, disse Annie, retirando um
grande volume intitulado Os melhores anos de nossas vidas. “Olhe só isto”,
disse ela, e recuou. Lentamente, a parede começou a mover-se para dentro,
levando consigo uns cem livros e revelando uma câmara secreta no interior.
“Isso é supernerd, né?”, disse Annie, e elas atravessaram a entrada. Lá dentro, a
sala era redonda e revestida de livros, mas o que chamava mais atenção era um
buraco no meio do chão, rodeado por um guarda-corpo de cobre; um poste que descia através do chão, rumo a regiões desconhecidas, lá embaixo.
“Ele combate incêndios?”, perguntou Mae.
“Eu sei lá”, respondeu Annie.
“Aonde vai dar?”
“Até onde sei, vai dar no lugar onde o Bailey estaciona seu carro.”
Mae não reuniu adjetivos. “Você já desceu alguma vez?”
“Não, veja, mostrar isso tudo para mim já foi um risco. Bailey não devia ter
feito isso. Ele mesmo me falou. E agora estou mostrando para você, o que é uma
bobagem. Mas assim você pode entender o tipo de mente que esse cara tem. Ele
pode ter tudo, e o que quer é um poste de bombeiro que desce sete andares até a
garagem.”
O som de uma gota vibrou no fone de Annie e ela disse: “Está bem”, para
quem quer que estivesse do outro lado. Estava na hora de ir.
“Portanto”, disse Annie no elevador — elas estavam descendo de volta aos
andares da equipe principal —, “tenho de ir resolver um assunto. Está na hora da
inspeção do plâncton.”
“Hora de quê?”, perguntou Mae.
“Você sabe como é, pequenas start-ups cheias de esperança de que a grande
baleia — ou seja, nós — ache-os apetitosos o bastante para serem devorados.
Uma vez por semana, promovemos uma série de reuniões com esses caras.
Imitações do Ty, eles tentam nos convencer de que precisamos comprar o que
eles têm para vender. É um pouquinho triste, pois nem mesmo fingem gerar
alguma receita, ou mesmo ter algum potencial para isso. Mas escute só, vou
deixar você nas mãos de dois embaixadores da empresa. Os dois são muito
sérios em relação a seus empregos. Na verdade, tome cuidado apenas com o fato
de eles estarem absorvidos demais nos seus empregos. Vão oferecer a você um
tour pelo resto do campus e eu te pego depois para irmos à festa do solstício, tá
legal? Começa às sete.”
As portas abriram no segundo andar, perto da Lanchonete de Vidro, e Annie
apresentou Mae para Denise e Josiah, ambos perto dos trinta anos, ambos com a
mesma sinceridade do tipo “olhos nos olhos”, ambos com camisas comuns, com
botões até o colarinho, em cores de bom gosto. Ambos apertaram a mão de Mae
usando as duas mãos e pareceram quase se curvar numa reverência.
“Cuidem para que ela não trabalhe hoje”, foram as últimas palavras de Annie,
antes de desaparecer de volta ao elevador.
Josiah, um homem magro e cerradamente sardento, voltou seus olhos azuis
para Mae, sem piscar. “Estamos tão contentes de conhecer você.”
Denise, alta, esguia, asiática-americana, sorriu para Mae e fechou os olhos, como se estivesse saboreando o momento. “Annie nos contou sobre vocês duas,
há quanto tempo se conhecem. Annie é o coração e a alma deste lugar, portanto
temos muita sorte de ter você aqui.”
“Todo mundo ama a Annie”, acrescentou Josiah.
Sua deferência com Mae dava a sensação de algo deslocado. Seguramente,
eram ambos mais velhos do que ela, porém se comportavam como se Mae fosse
uma visita eminente.
“Portanto, eu sei que uma parte disso pode ser redundante”, disse Josiah,
“mas, se você concordar, gostaríamos de lhe proporcionar o tour completo
oferecido para os novatos. Está bem assim? Prometemos que não vamos
transformar isso numa chatice.”
Mae riu, insistiu para que prosseguissem e os acompanhou.
O resto do dia foi uma barafunda de salas de vidro e de apresentações pessoais
breves e incrivelmente calorosas. Todo mundo que Mae encontrava estava
ocupado, afogado em trabalho, mas mesmo assim todos se mostravam
entusiasmados por conhecê-la, muito felizes por ela estar ali, “se é amiga de
Annie, é minha amiga”... Houve uma visita ao centro de saúde e uma
apresentação ao dr. Hampton, que era o diretor e usava dreadlocks. Houve uma
visita à clínica de emergência e uma apresentação à enfermeira escocesa que
fazia a triagem. Uma visita à horta orgânica, de oitenta metros quadrados, onde
havia dois agricultores, contratados em horário integral, dando explicações para
um grande grupo de membros do Círculo, enquanto tiravam amostras da última
colheita de cenoura, tomate e repolho. Houve uma visita ao minicampo de golfe,
ao cinema, ao boliche, à mercearia. Por fim, lá no fundo, naquilo que Mae supôs
que fosse a extremidade da área do campus — ela podia ver a cerca mais
adiante, os telhados dos hotéis de San Vincenzo, onde os visitantes do Círculo se
hospedavam —, foram conhecer os dormitórios da empresa. Mae tinha ouvido
falar deles, Annie mencionara que às vezes passava a noite lá e chegava a
preferir aqueles quartos à sua própria casa. Caminhando pelos corredores, vendo
os quartos muito arrumados, cada um com uma pequena cozinha reluzente, uma
escrivaninha, um sofá superestofado e uma cama, Mae teve de concordar que o
apelo era mesmo visceral.
“Agora há cento e oitenta quartos, mas estamos crescendo depressa”, explicou
Josiah. “Com mais ou menos dez mil pessoas no campus, sempre existe um
percentual de gente que fica trabalhando até mais tarde, ou que apenas precisa
tirar uma soneca durante o dia. Esses quartos são gratuitos e estão sempre limpos
— é só verificar pela internet quais estão disponíveis. Agora, eles ficam lotados
rapidamente, mas o projeto é ter pelo menos alguns milhares deles nos próximos
anos.”
“E depois de uma festa, como vai haver esta noite, eles sempre ficam cheios”,
disse Denise, com o que ela pretendia que fosse uma piscadela cúmplice.
O tour prosseguiu ao longo da tarde, com paradas para provar comida na aula
de culinária, naquele dia ministrada por uma jovem e famosa chefe de cozinha,
conhecida por sempre aproveitar todas as partes de um animal. Ela presenteou
Mae com um prato chamado cara de porco assada, que Mae comeu e descobriu
ter o gosto de um bacon mais gorduroso; gostou muito. Passaram por outros
visitantes enquanto faziam o tour pelo campus, grupos de alunos do ensino
médio, bandos de vendedores, e o que parecia ser um senador e seus assessores.
Passaram por um fliperama abarrotado de máquinas de pinball retrô e por uma
quadra coberta de badminton, onde, segundo Annie, um antigo campeão do
mundo trabalhava cuidando do local. Na hora em que Josiah e Denise a levaram
de volta para o centro do campus, a luz da tarde já estava diminuindo.
Funcionários estavam instalando tochas indígenas no gramado e acendendo o
fogo. Alguns milhares de membros do Círculo começaram a se reunir sob a luz
do crepúsculo e, de pé no meio deles, Mae se deu conta de que nunca quis
trabalhar — nunca quis estar — em nenhum outro lugar que não ali. Sua cidade
natal, o resto da Califórnia, o resto dos Estados Unidos, pareciam uma espécie de
baderna caótica em um país em desenvolvimento. Fora dos muros do Círculo,
tudo era barulho e luta, fracasso e sordidez. Mas ali tudo tinha sido aperfeiçoado.
As melhores pessoas tinham feito os melhores sistemas e os melhores sistemas
tinham arrecadado fundos, fundos ilimitados, que tornavam possível aquilo, o
melhor lugar para trabalhar. E era natural que fosse assim, pensou Mae. Quem
senão utopistas eram capazes de criar a utopia?
“Essa festa? Isso não é nada”, garantiu Annie para Mae, enquanto as duas
percorriam o bufê de doze metros. Agora já estava escuro, o ar da noite esfriava,
mas o campus estava inexplicavelmente aquecido e iluminado por centenas de
tochas que emitiam uma luz cor de âmbar. “A festa é ideia de Bailey. Não que
ele seja uma espécie de Mãe Terra, mas é ligado nas estrelas, nas estações,
portanto esse papo de solstício é coisa dele. Em algum momento ele vai aparecer
e cumprimentar todo mundo — pelo menos, em geral ele faz isso. Ano passado,
ele apareceu de camiseta regata. Tem muito orgulho de seus braços.”
Mae e Annie estavam no gramado viçoso, fazendo seus pratos e depois
procurando um lugar para sentar no anfiteatro de pedra construído sobre um
aterro elevado e coberto de grama. Annie encheu de novo a taça de Mae com
uma garrafa de Riesling que, de acordo com ela, era feito ali mesmo no campus,
um novo tipo de mistura que tinha menos calorias e mais álcool. Mae olhou para
o outro lado do gramado, para as tochas sibilantes dispostas em fileiras, cada fileira conduzindo os participantes da festa para atividades diversas — a
brincadeira de passar dançando por baixo de uma corda, kickball, uma
coreografia em grupo chamada Electric Slide —, nenhuma delas com qualquer
relação com o solstício. A aparente aleatoriedade e a falta de programação
imposta levaram a festa, que tinha baixas expectativas, a superá-las com folga.
Todo mundo ficou repentinamente chapado. Logo depois Mae perdeu-se de
Annie e então acabou se perdendo por completo, indo parar nas quadras de
bocha, que estavam sendo usadas por um pequeno grupo de membros mais
velhos do Círculo, todos com pelo menos trinta anos, que rolavam melões na
direção de pinos de boliche. Mae voltou para o gramado, onde se juntou a uma
brincadeira que os membros do Círculo chamavam de “Rá”, que parecia não
envolver nada além de ficar deitado, com as pernas e os braços um em cima do
outro. Toda vez que a pessoa a seu lado dizia “Rá”, você tinha de dizer também.
Era um jogo horrível, mas por ora Mae precisava daquilo, porque sua cabeça
estava rodando e ela se sentia melhor na horizontal.
“Olhe só para ela. Parece tão serena.” Havia sido uma voz bem próxima. Mae
se deu conta de que a voz, de um homem, estava se referindo a ela mesma, e
abriu os olhos. Não viu ninguém acima. Só o céu, que na maior parte estava
limpo, com traços de nuvens cinzentas se movendo depressa sobre o campus
rumo ao mar. Mae sentia os olhos pesados e sabia que não era tarde, pelo menos
não passava de dez horas da noite, e ela não queria fazer o que em geral fazia, ou
seja, cair no sono, depois de tomar dois ou três drinques, portanto ficou de pé e
foi procurar a Annie ou mais Riesling ou as duas coisas. Encontrou o bufê e viu
que estava arrasado, um festim de animais ou de vikings, e tratou de seguir para
o bar mais próximo, onde o Riesling tinha acabado e onde agora serviam apenas
uma espécie de mistura de vodca e bebida energética. Mae foi em frente,
perguntando a qualquer um que passava onde podia achar vinho Riesling, até
que sentiu uma sombra passar diante dela.
“Tem mais lá na frente”, disse a sombra.
Mae virou-se e deparou com um par de óculos, que refletia a luz azul,
pousados no alto de uma vaga silhueta de homem. Ele deu meia-volta para ir
embora.
“Estou seguindo você?”, perguntou Mae.
“Ainda não. Você está parada. Mas é bom me seguir, se quiser mais desse
vinho.”
Mae seguiu a sombra pelo gramado e, por baixo de um dossel formado por
árvores altas, o luar disparava raios entre as folhas, uma centena de lanças de
prata. Então Mae pôde ver melhor a sombra — ele vestia uma camiseta cor de
areia e, por cima, uma espécie de colete de couro ou camurça —, uma combinação que Mae não via já fazia algum tempo. Então ele parou e se
agachou perto do fundo de uma cascata, uma cascata artificial que descia das
bandas da Revolução Industrial.
“Escondi algumas garrafas aqui”, disse ele, com as mãos no tanque que
recebia a água da cascata. Como não achou nada, se ajoelhou, afundou os braços
até os ombros, até resgatar duas garrafas verdes e reluzentes, se pôs de pé e
virou-se para ela. Por fim Mae teve uma boa visão do homem. O rosto era um
triângulo suave, terminando num queixo sutilmente marcado por uma covinha
que havia passado despercebida por ela até aquele momento. Tinha a pele de
uma criança, os olhos de um homem muito mais velho e o nariz proeminente,
arqueado e torto, mas que de certa forma dava estabilidade ao resto do rosto,
como a quilha de um iate. As sobrancelhas eram traços pesados correndo para
fora, rumo às orelhas, que eram arredondadas, grandes, muito rosadas. “Você
quer voltar para a brincadeira ou...?” Ele parecia estar sugerindo que o “ou”
podia ser algo muito melhor.
“Claro”, disse ela, se dando conta de que não conhecia aquele homem, nada
sabia sobre ele. Mas como ele havia arranjado aquelas garrafas, como Mae tinha
se perdido de Annie e como confiava em todo mundo dentro dos muros daquele
Círculo — naquele momento, Mae sentia um enorme amor por todo mundo do
lado de dentro daqueles muros, onde tudo era novo e tudo era permitido —, ela o
acompanhou de volta para a festa, pelo menos para os limites da festa, onde
sentaram no alto de um anel de degraus, voltados para o gramado, e observaram
as silhuetas que corriam, gritavam e tombavam lá embaixo.
Ele abriu as duas garrafas, deu uma para Mae, tomou um gole da sua e disse
que seu nome era Francis.
“Não é Frank?”, perguntou Mae. Pegou a garrafa e encheu a boca com a
doçura do vinho.
“As pessoas tentam me chamar assim e eu… peço que não façam isso.”
Ela riu e ele riu.
Ele era um desenvolvedor, explicou, e estava na empresa já fazia quase dois
anos. Antes, tinha sido uma espécie de anarquista, um provocador. Tinha
arranjado o emprego ali hackeando o sistema do Círculo mais fundo do que
qualquer outra pessoa. Agora fazia parte da equipe de segurança.
“Hoje é meu primeiro dia aqui”, comentou Mae.
“Não pode ser.”
E então Mae, que tinha a intenção de dizer “não quero tapear você”, em vez
disso resolveu inovar, mas alguma coisa se enrolou no meio de sua inovação
verbal e ela acabou resmungando as palavras “não quero trepar com você”, e
quase instantaneamente se deu conta de que ia lembrar aquelas palavras e se odiar por décadas por tê-las dito.
“Você não quer trepar comigo?”, perguntou ele, impassível. “Isso parece
muito definitivo. Você tomou uma decisão com base em muito poucas
informações. Não quer trepar comigo. Puxa.”
Mae tentou explicar o que tinha intenção de dizer, como ela havia pensado, ou
como algum setor de seu cérebro havia pensado, e que ela queria enfeitar um
pouco a frase... Mas não tinha importância. Agora ele estava rindo e sabia que
Mae tinha senso de humor, e ela sabia que ele também tinha, e, de algum modo,
Francis fez Mae sentir-se segura, fez Mae confiar que ele nunca mais voltaria
àquele assunto, que a coisa terrível que ela havia falado permaneceria só entre
eles, que ambos entendiam que todo mundo comete enganos e que, uma vez que
todos admitimos nossa humanidade em comum, nossa fraqueza em comum e
nossa propensão para soarmos e parecermos ridículos mil vezes por dia, eles
deviam deixar que aqueles erros fossem esquecidos.
“Primeiro dia”, disse ele. “Puxa, meus parabéns. Um brinde.”
Bateram de leve uma garrafa contra a outra e tomaram um gole. Mae ergueu
sua garrafa para a lua para ver quanto havia sobrado; o líquido ganhou uma cor
azul sobrenatural e ela percebeu que já havia bebido metade. Baixou a garrafa.
“Gosto da sua voz”, disse ele. “Foi sempre assim?”
“Grave e rouca?”
“Eu chamaria de madura. Eu chamaria de expressiva. Conhece Tatum
O’Neal?”
“Meus pais me obrigaram a ver Lua de papel cem vezes. Eles queriam que eu
me sentisse melhor.”
“Adoro esse filme”, disse ele.
“Achavam que eu ia ser como Addie Pray, crescida nas ruas, mas adorável.
Eles queriam uma moleca. Cortavam meu cabelo como o dela.”
“Eu gosto.”
“Você gosta de cabelo tigelinha.”
“Não. Da sua voz. Até agora é a melhor coisa em você.”
Mae não disse nada. Teve a sensação de que havia levado um tapa na cara.
“Merda”, disse ele. “Isso soou esquisito? Eu estava tentando fazer um elogio.”
Houve uma pausa constrangedora. Mae havia tido algumas experiências
horríveis com homens que falavam muito bem, que haviam pulado vários
degraus, para acabarem fazendo elogios inconvenientes. Virou-se para Francis
para confirmar que ele não era o que ela achava que era — generoso, inofensivo
—, mas sim estranho, perturbado, assimétrico. Porém, quando olhou para ele,
Mae viu o mesmo rosto sereno, óculos azuis, olhos antigos. A expressão dele era
dolorida.
Francis olhou para sua garrafa como se quisesse pôr a culpa naquilo. “Eu só
queria fazer você se sentir melhor sobre sua voz. Mas acho que acabei
ofendendo o resto.”
Mae pensou naquelas palavras por um segundo, mas seu cérebro, atordoado
pelo Riesling, estava se movendo devagar, pegajoso. Ela desistiu de tentar
analisar as afirmações e intenções dele. “Acho que você é estranho”, disse ela.
“Não tenho pai nem mãe”, disse ele. “Será que isso me dá crédito para
comprar algum perdão?” Então, se dando conta de que estava revelando coisas
demais e de forma desesperada demais, ele disse: “Você não está mais bebendo”.
Mae resolveu deixá-lo pôr a história de sua infância de lado. “Para mim,
chega”, disse ela. “Já estou completamente bêbada.”
“Desculpe, de verdade. Às vezes minhas palavras saem fora da ordem. Fico
mais contente quando não falo de coisas assim.”
“Você é mesmo estranho”, disse Mae outra vez, e falou sério. Mae tinha vinte
e quatro anos e nunca havia conhecido ninguém como Francis. Aquilo, pensou
ela embriagada, era um sinal divino, não era? O fato de que pudera encontrar
milhares de pessoas durante sua vida até então, tantas tão parecidas, tantas tão
esquecíveis, mas aí aparece aquele sujeito, novo e bizarro, falando bizarramente.
Todo dia, algum cientista descobria alguma espécie nova de sapo ou de ninfeia,
e aquilo também parecia confirmar a existência de um showman divino, um
inventor celestial que colocava brinquedos novos à nossa frente, escondidos, mas
muito mal escondidos, bem no lugar onde poderíamos dar de cara com eles. E
aquele tal de Francis, ele era uma coisa totalmente diferente, uma espécie nova
de sapo. Mae se virou para olhar melhor para ele, pensando talvez em lhe dar um
beijo.
Mas ele estava ocupado. Com uma mão, esvaziava o sapato, a areia escorria
para fora. Com os dentes, parecia estar cortando um grande pedaço de uma unha
da outra mão.
O devaneio de Mae terminou. Ela pensou em sua casa e em sua cama.
“Como é que todo mundo vai voltar?”, perguntou.
Francis olhou para um grupo de pessoas que parecia estar tentando formar
uma pirâmide humana. “Tem os dormitórios, é claro. Mas aposto que já estão
lotados. Também tem um serviço de transporte para levar a gente. Com certeza
já explicaram isso para você.” Ele abanou a garrafa na direção da entrada
principal, onde Mae pôde distinguir os tetos dos micro-ônibus que tinha visto
naquela manhã, quando havia entrado. “A empresa faz análise de custo de tudo.
E um funcionário dirigindo seu carro de volta para casa cansado demais ou,
neste caso, embriagado demais... Bem, o custo do serviço de transporte é muito
menor, a longo prazo. Não me diga que não pensou em pegar os ônibus da empresa. Os ônibus são incríveis. E os assentos são ótimos. Você pode descer
todo o banco para se deitar ou, se preferir, ficar em posição ereta.”
“Posição ereta? Posição ereta?” Mae deu um soco no braço de Francis,
sabendo que ela estava paquerando, sabendo que era idiotice paquerar um colega
de trabalho logo na primeira noite, que era idiotice beber tanto assim logo na
primeira noite. Mas Mae estava fazendo tudo aquilo e estava feliz.
Um vulto veio deslizando na direção deles. Mae observou com uma
curiosidade entorpecida, percebendo, de início, que a figura era feminina. E,
depois, que a figura era Annie.
“Esse homem está assediando você?”, perguntou ela.
Francis se afastou depressa de Mae e depois escondeu sua garrafa atrás das
costas. Annie riu.
“Francis, por que você está tão nervoso?”
“Desculpe. Achei que você tinha falado outra coisa.”
“Uau. Consciência pesada! Vi a Mae dar um soco no seu braço e fiz uma
piada. Mas você está querendo confessar alguma coisa? O que está planejando,
Francis Gargalo?”
“Garaventa.”
“Sim. Eu sei seu nome.”
“Francis”, disse Annie, deixando-se cair sentada desajeitadamente no meio
dos dois. “Preciso lhe pedir uma coisa, como sua querida colega, mas também
como sua amiga. Posso?”
“Claro.”
“Ótimo. Posso ficar sozinha com a Mae por um tempinho? Preciso beijá-la na
boca.”
Francis riu, depois parou, ao notar que nem Mae nem Annie estavam rindo.
Assustado e confuso, e visivelmente intimidado por Annie, logo ele desceu a
escada, atravessou o gramado, abrindo caminho no meio das pessoas. No centro
do gramado, parou, virou-se e ergueu os olhos, como se quisesse verificar se de
fato Annie queria substituí-lo como companhia de Mae naquela noite. Seus
temores se confirmaram e ele seguiu caminhando sob o toldo da Idade das
Trevas. Tentou abrir a porta, mas não conseguiu. Puxou e empurrou, porém ela
não se mexia. Ciente de que elas estavam olhando, ele deu a volta pelo canto,
saindo do raio de visão delas.
“Ele disse que trabalha no setor de segurança”, disse Mae.
“Foi o que ele disse? Francis Garaventa?”
“Imagino que ele não deveria ter me contado.”
“Bem, ele não trabalha assim na segurança, segurança. Ele não é da Mossad.
Mas será que interrompi alguma coisa que você não devia de jeito nenhum estar fazendo logo na primeira noite aqui, sua idiota?”
“Não interrompeu nada.”
“Pois acho que interrompi, sim.”
“Não. Na verdade, não.”
“Interrompi. Eu sei.”
Annie localizou a garrafa junto aos pés de Mae. “Achei que o vinho tinha
acabado horas atrás.”
“Tinha algumas garrafas na cascata... perto da Revolução Industrial.”
“Ah, sim. O pessoal esconde coisas por lá.”
“Eu acabei de me ouvir dizendo: ‘Tinha algumas garrafas na cascata perto da
Revolução Industrial’.”
Annie olhou para o outro lado do campus. “Eu sei. Uma merda. Eu sei.”
Em casa, depois do ônibus, depois de um drinque feito com gelatina que
alguém lhe deu a bordo do ônibus, depois de ouvir o motorista falar com
saudade de sua família, de seus filhos gêmeos, de sua esposa, que tinha gota,
Mae não conseguiu dormir. Ficou deitada em seu futon barato, em seu quarto
minúsculo, no apartamento à beira da estrada de ferro que ela dividia com duas
quase estranhas, ambas comissárias de bordo e vistas raramente. Seu
apartamento ficava no segundo andar de um ex-motel e era modesto, impossível
de limpar, cheirava a desespero e a comida ruim feita por seus antigos
moradores. Era um lugar triste, sobretudo depois de um dia no Círculo, onde
tudo era feito com cuidado e amor e com o talento de um olhar especialista. Em
sua cama baixa e fajuta, Mae dormiu algumas horas, acordou, recapitulou o dia e
a noite, pensou em Annie e em Francis, e em Denise e Josiah, e no poste de
bombeiro, e no Enola Gay, e na cascata, e nas tochas indígenas, tudo eram coisas
de férias e de sonhos e impossíveis de conservar, mas então ela se deu conta de
que ia voltar para aquele lugar — e era isso que a mantinha acordada, a cabeça
tombando para o lado, como uma criancinha que se diverte aprendendo a andar
—, o lugar onde todas aquelas coisas aconteciam. Ela era bem-vinda lá, estava
empregada lá.
Mae foi cedo para o trabalho. No entanto, quando chegou, às oito horas,
percebeu que não tinham lhe oferecido uma mesa de trabalho, pelo menos não
uma mesa de trabalho de verdade, portanto ela não tinha para onde ir. Ficou
esperando uma hora, debaixo de uma placa que dizia VAMOS LÁ, MOÇADA.
NÃO DEIXEM A PETECA CAIR. Até que Renata chegou e levou-a para o
segundo andar do Renascimento, dentro de um salão do tamanho de uma quadra
de basquete, onde havia mais ou menos vinte mesas, todas diferentes, todas
feitas de madeira clara, em formatos orgânicos. Eram separadas por divisórias de vidro e dispostas em grupos de cinco, como as pétalas de uma flor. Nenhuma
estava ocupada.
“Você é a primeira aqui”, disse Renata. “Mas não vai ficar sozinha por muito
tempo. Cada área de Experiência do Cliente tende a ficar cheia bem depressa. E
você não está longe de todo o pessoal mais experiente.” E então ela fez um gesto
com o braço apontando à sua volta, indicando mais ou menos uma dúzia de
escritórios que rodeavam o espaço aberto. Os ocupantes de cada um deles
podiam ser vistos através das paredes de vidro, todos os supervisores numa faixa
entre vinte e seis e trinta e dois anos, que começavam o dia de trabalho dando a
impressão de estarem relaxados, de serem competentes e inteligentes.
“Os arquitetos gostam mesmo de vidro, hein?”, disse Mae, sorrindo.
Renata parou, franziu a sobrancelha e refletiu a respeito daquela ideia. Ajeitou
uma mecha de cabelo atrás da orelha e disse: “Acho que sim. Posso verificar.
Mas primeiro temos de explicar as instalações e o que esperar em seu primeiro
dia de trabalho de verdade”.
Renata explicou os vários aspectos da mesa de trabalho, da cadeira e do
monitor; tudo tinha sido ergonomicamente aperfeiçoado e podia ser ajustado
para aqueles que quisessem trabalhar de pé.
“Você pode arrumar suas coisas e ajustar a cadeira e... Ah, parece que há um
comitê de boas-vindas para você. Não levante”, disse ela, e abriu caminho.
Mae voltou-se na direção do olhar de Renata e viu um trio de rostos jovens
vindo em sua direção. Um homem que começava a ficar calvo, à beira de
completar trinta anos, estendeu a mão. Mae apertou-a e ele colocou sobre a
mesa, na frente dela, um tablet de tamanho exagerado.
“Oi, Mae, sou Rob, cuido da folha de pagamentos. Aposto que você está
contente de me ver.” Sorriu e depois deu uma risada sonora, como se tivesse
acabado de se dar conta de uma graça nova em sua tirada. “Muito bem”, disse
ele, “já preenchemos tudo aqui. Tem só estes três lugares em que você precisa
assinar.” Apontou para a tela, onde retângulos amarelos reluziam, pedindo sua
assinatura.
Quando Mae terminou, Rob pegou o tablet e sorriu com grande afeição.
“Muito obrigado e bem-vinda a bordo.”
Deu meia-volta e foi embora, sendo substituído por uma mulher corpulenta,
de pele imaculada e cor de cobre.
“Oi, Mae, sou Tasha, a tabeliã.” Estendeu um livro largo. “Você está com sua
carteira de motorista?” Mae entregou para ela. “Ótimo. Preciso de três
assinaturas suas. Não me pergunte por quê. E não me pergunte por que isto está
em papel. Regras do governo.” Tasha apontou para três caixas consecutivas e
Mae assinou seu nome em cada uma delas.
“Obrigado”, disse Tasha e então estendeu para ela uma almofada de tinta azul.
“Agora sua impressão digital ao lado de cada assinatura. Não se preocupe, a tinta
não mancha. Você vai ver.”
Mae apertou o polegar na almofada e depois nas caixas ao lado de cada
assinatura. A tinta ficou visível no papel, mas quando Mae olhou para o polegar,
estava absolutamente limpo.
As sobrancelhas de Tasha se arquearam ao notar o encanto de Mae. “Está
vendo? É invisível. O único lugar onde a tinta aparece é neste livro.”
Era o tipo de coisa que Mae esperava encontrar ali. Tudo era mais bem-feito.
Até a tinta para impressão digital era avançada, invisível.
Quando Tasha se retirou, foi substituída por um homem magro, de camisa
vermelha fechada com zíper. Ele apertou a mão de Mae.
“Oi, sou Jon. Mandei um e-mail ontem pedindo para você trazer sua certidão
de nascimento, lembra?” Ele trazia as mãos juntas, como se fosse rezar.
Mae pegou a certidão em sua bolsa e os olhos de Jon reluziram. “Você
trouxe!” Bateu palmas rapidamente, sem fazer barulho, e revelou uma boca de
dentes miúdos. “Ninguém lembra no primeiro dia. Você é minha nova favorita.”
Pegou a certidão de nascimento e prometeu devolver depois que tivesse tirado
uma cópia.
Atrás dele estava um quarto membro da equipe, esse era um homem de
aspecto celestial, de uns trinta e cinco anos, de longe a pessoa mais velha que
Mae tinha visto naquele dia.
“Oi, Mae. Sou Brandon e tenho a honra de lhe dar seu novo tablet.” Segurava
um objeto reluzente, translúcido, as bordas pretas e lisas como obsidiana.
Mae ficou perplexa. “Esses ainda nem foram lançados.”
Brandon deu um largo sorriso. “É quatro vezes mais rápido que o modelo
anterior. Fiquei brincando com o meu a semana inteira. É muito legal.”
“E vou ganhar um?”
“Já ganhou”, respondeu. “Já vem com seu nome.”
Ele virou o tablet de lado para mostrar que haviam gravado o nome completo
dela: MAEBELLINE RENNER HOLLAND.
Ele entregou o tablet para Mae. Tinha o peso de um prato de papel.
“Bem, suponho que você tenha seu próprio tablet, certo?”
“Tenho sim. Bem, um laptop, na verdade.”
“Laptop. Puxa. Posso ver?”
Mae apontou para ele. “Agora tenho a sensação de que devia jogá-lo no lixo.”
Brandon ficou pálido. “Não, não faça isso! Pelo menos recicle-o.”
“Ah, não. Eu estava só brincando”, disse Mae. “Na certa vou ficar com ele.
Minhas coisas estão todas aí dentro.”
“Bem lembrado, Mae! É também para isso que estou aqui. Temos de transferir
todas as suas coisas para o novo tablet.”
“Ah. Eu faço isso.”
“Poderia me dar essa honra? Eu me preparei a vida toda para este exato
momento.”
Mae riu e empurrou sua cadeira para abrir caminho. Brandon se ajoelhou
junto à sua mesa e colocou o novo tablet ao lado do laptop. Em minutos, havia
transferido todas as informações e os dados de Mae.
“Muito bem. Agora vamos fazer a mesma coisa com seu celular. Tcharam!”
Ele enfiou a mão na bolsa e puxou um telefone novo, consideravelmente mais
avançado que o de Mae. A exemplo do tablet, tinha seu nome já gravado no
verso. Pôs ambos os telefones, o novo e o velho, sobre a mesa de trabalho, lado a
lado e, rapidamente, via wireless, transferiu tudo de um para outro.
“Muito bem. Agora tudo o que você tinha em seu telefone e em seu disco
rígido está acessível aqui no tablet e em seu telefone novo, mas também tem um
backup na nuvem e em nossos servidores. Suas músicas, suas fotografias, seus
dados. Isso nunca vai se perder. Se você perder esse tablet ou esse celular, vai
levar exatamente seis minutos para recuperar todas as suas coisas e passá-las
para outro aparelho. Elas vão continuar existindo no ano que vem e no próximo
século.”
Os dois olharam para os novos dispositivos.
“Eu bem que gostaria que nosso sistema já existisse dez anos atrás”, disse ele.
“Queimei dois discos rígidos naquela ocasião, e é como se a casa da gente
tivesse pegado fogo com tudo nosso lá dentro.”
Brandon levantou-se.
“Obrigado”, disse Mae.
“Não tem de quê”, respondeu. “E assim podemos mandar atualizações para
seus programas, aplicativos, tudo, e saber que tudo seu está atualizado. Tudo em
EC tem de estar na mesma versão do mesmo programa, como você pode
imaginar. Acho que isso é tudo...”, disse ele, recuando. Então parou. “Ah, é
importantíssimo que todos os dispositivos da empresa tenham senha de proteção,
portanto providenciei uma senha para você. Está escrita aqui.” Entregou para
Mae um pedacinho de papel com uma série de dígitos, numerais e obscuros
símbolos tipográficos. “Espero que consiga memorizar isso hoje e depois jogue
fora o papel. Combinado?”
“Certo. Combinado.”
“Podemos mudar a senha depois, se quiser. É só me avisar que eu lhe mando
uma nova. São todas geradas por computador.”
Mae pegou seu velho laptop e colocou dentro da bolsa.
Brandon olhou para ele como se fosse uma espécie invasora. “Quer que eu me
livre dele? Cuidamos disso de um jeito bastante sustentável.”
“Talvez amanhã”, respondeu Mae. “Quero me despedir antes.”
Brandon sorriu com indulgência. “Ah. Entendi. Então está certo.” Curvou-se
de leve e foi embora, e por trás dele Mae viu Annie. Estava de cabeça inclinada e
com o queixo apoiado no punho fechado.
“Aí está minha menina, crescida, afinal!”
Mae se levantou e envolveu Annie em seus braços.
“Obrigada”, falou no pescoço de Annie.
“Ahhh!” Annie tentou se desvencilhar.
Mae agarrou-a com mais força ainda. “De verdade.”
“Tudo bem.” Annie, por fim, se livrou do abraço. “Calma. Ou então continue.
Estava começando a ficar sensual.”
“Sério. Obrigada mesmo”, disse Mae, a voz entrecortada.
“Não, não, não”, disse Annie. “Nada de chorar em seu segundo dia de
trabalho.”
“Desculpe. É que estou muito agradecida.”
“Pare.” Annie avançou e segurou Mae outra vez. “Pare. Pare. Meu Deus.
Você é tão doida.”
Mae respirou fundo até se acalmar outra vez. “Acho que agora está tudo sob
controle. Ah. Meu pai mandou dizer que ama você também. Todo mundo está
muito contente.”
“Certo. Isso é um pouco estranho, já que eu nunca vi seu pai. Mas diga a ele
que eu também o adoro. Ele é gato? Grisalho bonitão? Curte um swing? Quem
sabe a gente possa planejar alguma coisa? E agora, será que a gente pode
trabalhar um pouco por aqui?”
“Claro, claro”, disse Mae, e sentou-se de novo. “Desculpe.”
Annie arqueou as sobrancelhas com ar malicioso. “Tenho a sensação de que
as aulas estão prestes a começar no colégio e a gente acabou de descobrir que
caiu na mesma classe. Já deram o tablet novo para você?”
“Acabei de ganhar.”
“Deixe-me ver.” Annie examinou-o. “Aaah, o nome gravado é um belo toque.
Nós vamos nos meter em muitas encrencas juntas, né?”
“Espero que sim.”
“Muito bem. Aí vem o seu chefe de equipe. Oi, Dan.”
Mae se apressou em enxugar qualquer vestígio de umidade em seu rosto.
Olhou para trás de Annie e viu um homem bonito, firme e elegante se
aproximando. Vestia um moletom marrom com capuz e tinha no rosto um
sorriso de contentamento.
“Oi, Annie, como vai?”, perguntou, apertando sua mão.
“Tudo bem, Dan.”
“Estou muito contente, Annie.”
“Você ganhou uma ótima colaboradora, espero que já saiba”, disse Annie,
segurando o pulso de Mae e apertando-o com força.
“Ah, eu sei sim”, respondeu Dan.
“Trate de ficar de olho nela.”
“Vou ficar”, respondeu, e virou-se de Annie para Mae. Seu sorriso de
contentamento aumentou e virou algo como uma certeza absoluta.
“Pois eu vou ficar de olho em você enquanto você fica de olho nela”, disse
Annie.
“Fico feliz em saber disso”, respondeu Dan.
“A gente se vê no almoço”, disse Annie para Mae, e foi embora.
Todos foram embora, menos Mae e Dan, mas o sorriso dele não mudou — era
o sorriso de um homem que não sorria da boca para fora. Era o sorriso de um
homem que estava exatamente onde queria estar. Ele puxou uma cadeira para
perto dela.
“Que bom que você está aqui”, disse ele. “Estou muito contente por ter
aceitado nossa proposta.”
Mae olhou dentro dos olhos de Dan e procurou sinais de insinceridade, já que
não existia nenhuma pessoa racional capaz de negar um convite para trabalhar
ali. Mas não havia nada disso. Dan havia entrevistado Mae três vezes para o
emprego, e sempre havia parecido de uma sinceridade inabalável.
“Portanto suponho que toda a papelada esteja terminada e as impressões
digitais tenham sido tiradas, certo?”
“Creio que sim.”
“Quer dar uma volta?”
Deixaram a mesa de trabalho dela para trás e, depois de quase cem metros de
um corredor de vidro, atravessaram portas duplas e altas e foram para o ar livre.
Subiram uma escada larga.
“Acabamos de terminar o terraço”, disse ele. “Acho que você vai gostar.”
Quando chegaram ao topo da escada, a vista era espetacular. Do telhado se
avistava o campus quase inteiro, a periferia da cidade de San Vincenzo e a baía
mais além. Mae e Dan absorveram tudo e depois ele se virou para ela.
“Mae, agora que você está a bordo, eu queria deixar bem claro para você
algumas das crenças principais aqui da empresa. E a principal, entre elas, tão
importante quanto o trabalho que fazemos aqui — e é um trabalho muito
importante —, é que queremos garantir que você seja um ser humano aqui
também. Queremos que este seja um local de trabalho, é claro, mas também deve ser um local humano. E isso significa o fomento da comunidade. Na verdade,
isto tem de ser uma comunidade. Esse é um de nossos lemas, como você
provavelmente já sabe: A comunidade em primeiro lugar. E você já viu as placas
que dizem Aqui trabalham seres humanos — e eu enfatizo essas placas. São
minhas prediletas. Não somos autômatos. Isto não é uma fábrica que suga o
sangue dos operários. Somos um grupo formado pelas melhores mentes de nossa
geração. Gerações. E garantir que este seja um lugar onde nossa humanidade
seja respeitada, onde nossas opiniões sejam valorizadas, onde nossas vozes
sejam ouvidas — isso é tão importante quanto qualquer receita que possa ser
gerada, qualquer cotação das ações na Bolsa, qualquer empreendimento
promovido aqui. Isso parece cafona?”
“Não, não”, apressou-se a responder Mae. “De jeito nenhum. É por isso
mesmo que estou aqui. Adoro a ideia de ‘comunidade em primeiro lugar’. Annie
me fala sobre isso desde quando ela começou. No meu último emprego, ninguém
se comunicava muito bem, na verdade. Era em essência o contrário do que existe
aqui, em todos os aspectos.”
Dan virou-se para olhar os morros a leste, cobertos de pelo de cabra angorá,
com alguns trechos verdes. “Detesto ouvir esse tipo de coisa. Com a tecnologia
disponível, a comunicação jamais deveria ser objeto de dúvida. A compreensão
nunca deveria estar fora de alcance ou mesmo ser outra coisa que não muito
clara. É o que fazemos aqui. Pode-se dizer que essa é a missão da empresa... É
uma obsessão minha, pelo menos. Comunicação. Compreensão. Clareza.”
Dan balançou a cabeça de maneira enfática, como se sua boca tivesse acabado
de pronunciar, por vontade própria, algo que seus ouvidos acharam muito
profundo.
“No Renascimento, como você sabe, temos de cuidar da experiência do
cliente, EC, e algumas pessoas podem achar que essa é a parte menos atraente de
todo esse empreendimento. Mas, da maneira como eu encaro, e como os Sábios
encaram, é o fundamento de tudo que acontece aqui. Se não fornecermos aos
clientes uma experiência satisfatória e humana, então não temos clientes. É
muito elementar. Somos a prova de que esta empresa é humana.”
Mae não sabia o que dizer. Estava inteiramente de acordo. Seu último chefe,
Kevin, não era capaz de falar daquele jeito. Kevin não tinha filosofia nenhuma.
Kevin não tinha ideias. Kevin só tinha seus cheiros e seu bigode. Mae estava
sorrindo feito uma idiota.
“Sei que você vai se dar muito bem aqui”, disse Dan e estendeu o braço para
ela, como se quisesse pôr a palma da mão em seu ombro, mas mudou de ideia.
Sua mão tombou ao lado do corpo. “Vamos descer e então você vai poder
começar.”
Saíram do terraço e desceram a larga escada. Voltaram à mesa de trabalho de
Mae, onde encontraram um homem de cabelo bagunçado.
“Olha quem está aqui”, disse Dan. “Cedo, como sempre. Oi, Jared.”
O rosto de Jared era sereno, sem rugas, as mãos repousavam pacientes e
imóveis no colo amplo. Usava calça cáqui e camisa de botões muito apertada.
“Jared vai cuidar do seu treinamento e será seu principal contato aqui em EC.
Eu supervisiono a equipe e Jared supervisiona a unidade. Portanto somos os dois
nomes principais que você precisa conhecer. Jared, está pronto para começar
com a Mae?”
“Estou”, respondeu. “Oi, Mae.” Levantou-se, estendeu a mão e Mae apertou-
a. Era redonda e mole, como a de um querubim.
Dan se despediu dos dois e foi embora.
Jared sorriu e passou a mão pelo cabelo bagunçado. “Portanto, hora de
treinamento. Está pronta?”
“Completamente.”
“Precisa de café, chá ou alguma outra coisa?”
Mae balançou a cabeça. “Estou pronta.”
“Ótimo. Vamos sentar.”
Mae sentou-se e Jared puxou sua cadeira para perto dela.
“Muito bem. Como sabe, por ora você vai apenas fazer a manutenção básica
do cliente para os pequenos anunciantes. Eles mandam uma mensagem para o
setor de Experiência do Cliente e ela é encaminhada para um de nós. No início,
de forma aleatória, mas depois que você começa a trabalhar com um cliente, esse
cliente continuará a ser encaminhado para você, em benefício da continuidade.
Quando você entende qual é a dúvida, elabora a resposta, redige e manda para
ele. Essa é a essência do trabalho. Muito simples, em teoria. Até aqui tudo
bem?”
Mae fez que sim com a cabeça e Jared enumerou as vinte queixas e perguntas
mais frequentes e mostrou para Mae um menu de respostas-padrão.
“Agora, isso não significa que você apenas vai copiar e colar a resposta e
mandar para o cliente. Tem de tornar cada resposta uma coisa pessoal,
específica. Você é uma pessoa e eles são pessoas, portanto você não deve imitar
um robô e nem deve tratá-los como se fossem robôs. Entende o que quero dizer?
Aqui não tem nenhum robô trabalhando. Não queremos que os clientes jamais
pensem que estão lidando com uma entidade sem rosto. Portanto você deve
sempre ter certeza de que está acrescentando humanidade ao processo. Tudo
bem até aqui?”
Mae fez que sim com a cabeça. Ela gostou daquilo: Aqui não tem nenhum
robô trabalhando.
Examinaram mais ou menos uma dúzia de situações práticas. Mae aprimorava
suas respostas cada vez mais. Jared era um instrutor paciente e treinava Mae para
enfrentar todas as circunstâncias que um cliente podia criar. Numa situação em
que ela ficasse constrangida, podia encaminhar a pergunta para a fila de Jared e
ele cuidaria do assunto. É o que fazia na maior parte do dia, disse Jared —
receber e responder as mensagens que deixavam embaraçados os novatos do
setor de Experiência do Cliente.
“Mas vai ser muito raro. Você vai até ficar surpresa com o número de
perguntas que você vai ser capaz de resolver logo de saída. Agora vamos dizer
que você respondeu a pergunta de um cliente e que ele parece ter ficado
satisfeito. É aí que você o encaminha para a pesquisa, e eles vão responder um
questionário. É uma série de perguntas rápidas sobre o seu serviço, a experiência
geral deles, e no fim pedimos que façam uma avaliação. Eles encaminham as
respostas de volta para nós e aí você fica sabendo imediatamente como se saiu.
As notas da avaliação aparecem aqui.”
Apontou para o canto da tela de Mae, onde havia um número grande, 99, e
abaixo, uma grade de outros números.
“O 99 grande é a nota do último cliente. O cliente vai avaliar você numa
escala de, adivinhe só, 1 a 100. A nota mais recente vai aparecer aqui e depois
vai ser tirada uma média de todas as notas do dia nesta outra caixinha aqui.
Assim você vai poder saber sempre como está se saindo, recentemente e em
geral. Agora, já sei o que você está pensando: ‘Tá legal, Jared, que tipo de média
é aceitável?’. E a resposta é, se for abaixo de 95, você pode dar uma parada e
verificar o que pode fazer para melhorar. Talvez você levante a média no cliente
seguinte, talvez descubra um jeito de melhorar. Agora, se a avaliação média cai
de forma constante, então você deve fazer uma reunião com o Dan ou com outro
chefe de equipe para elaborar estratégias melhores. Parece bom?”
“Parece”, respondeu Mae. “Eu gosto disso, Jared. No meu emprego anterior,
eu ficava sempre sem saber onde estava pisando, até sair a avaliação média
trimestral. Era de arrebentar com os nervos da gente.”
“Bem, então você vai adorar isto aqui. Se os clientes preencheram o
questionário da pesquisa e fizeram a avaliação, e quase todo mundo faz isso,
então você manda para eles a mensagem seguinte. Essa mensagem é um
agradecimento por terem preenchido a pesquisa e os incentiva a contar para um
amigo sobre a experiência que acabaram de ter com você, empregando as
ferramentas da mídia social do Círculo. Idealmente, eles dão, no mínimo, um
recadinho ligeiro ou lhe mandam um sorriso ou um franzir de sobrancelhas. No
cenário mais otimista possível, você pode levá-los a dar recados animados ou
escrever sobre o caso em outro site de atendimento ao consumidor. Se a gente levar as pessoas a comentar com entusiasmo na internet sobre a excelente
experiência com você no serviço de atendimento ao cliente, aí todo mundo sai
ganhando. Sacou?”
“Saquei.”
“Muito bem, vamos fazer um teste ao vivo. Está pronta?”
Mae não estava, mas não podia dizer isso. “Pronta.”
Jared puxou a pergunta de um cliente e, depois de ler, soltou um leve ronco
para indicar que era de natureza elementar. Escolheu uma resposta-padrão,
adaptou um pouco, desejou ao cliente que tivesse um dia excelente. A
comunicação durou cerca de noventa segundos e, dois minutos mais tarde, a tela
confirmou que o cliente tinha respondido o questionário, seguido de uma
avaliação: 99. Jared relaxou na cadeira e virou-se para Mae.
“Aí está, é bom, né? Noventa e nove é bom. Mas não posso deixar de me
perguntar por que não foi 100. Vamos dar uma olhada.” Abriu as respostas da
pesquisa dadas pelo cliente e examinou. “Bem, não há nenhum sinal claro de que
algum ponto da experiência dele tenha sido insatisfatória. Agora a maior parte
das empresas diriam: Puxa, 99 em 100 pontos, isso é quase perfeito. E eu digo,
exatamente: é quase perfeito, claro. Mas no Círculo esse ponto que falta nos
atormenta. Portanto vamos ver se a gente consegue chegar ao fundo da questão.
Aqui está o que nós mandamos na sequência.”
Mostrou para Mae outra pesquisa, essa agora mais curta, perguntando ao
cliente o que poderia ser aprimorado, e como, em seu contato com a empresa.
Mandou a mensagem para o cliente.
Segundos depois, veio a resposta. “Tudo foi bom. Desculpe. Eu devia ter dado
nota 100. Obrigado.”
Jared deu um tapinha na tela e fez para Mae um sinal com o polegar para
cima.
“Muito bem. Às vezes a gente pode topar com alguém que não tem boa
sensibilidade para as medidas. Portanto é bom perguntar, ter certeza de que você
esclareceu a questão. Agora vamos voltar à pontuação perfeita. Você está pronta
para receber a sua própria nota?”
“Estou.”
Baixaram outra mensagem de um cliente e Mae percorreu a lista das
respostas-padrão, encontrou a mais adequada, personalizou-a e enviou-a.
Quando a pesquisa chegou, sua nota foi 100.
Jared pareceu por um instante surpreso. “Logo na primeira você tira 100,
uau”, disse ele. “Eu sabia que você ia ser boa.” Ele havia perdido o rumo, mas
logo se recompôs. “Muito bem, acho que você está pronta para responder outras.
Agora, tem mais algumas coisinhas. Vamos passar para sua segunda tela.” Ele virou para uma página menor à direita de Mae. “Esta aqui é para mensagens
internas. Todos os membros do Círculo mandam mensagens pelo sistema
principal, mas elas aparecem na segunda tela. Isso é para deixar clara a
importância das mensagens e para ajudar você a distinguir qual é qual. De vez
em quando, você vai ver mensagens minhas, só para conferir se está tudo certo,
fazer algum ajuste ou comunicar uma novidade. Tudo bem?”
“Saquei.”
“Agora, lembre-se de mandar qualquer dúvida para mim, e se você precisar
parar e conversar, pode me mandar uma mensagem, ou dar um pulo lá. Eu fico
logo no final do corredor. Espero que você entre em contato comigo com
bastante frequência, pelo menos nas primeiras semanas. É assim que vou saber
que você está aprendendo. Portanto não hesite.”
“Não vou hesitar.”
“Ótimo. Agora, está pronta para começar de verdade?”
“Estou.”
“Muito bem. Isso significa que vou abrir as comportas da represa. E quando
eu soltar esse dilúvio, você vai ter sua própria fila de perguntas e vai ficar
inundada durante as próximas duas horas, até o almoço. Está pronta?”
Mae sentia que estava. “Estou.”
“Tem certeza? Então lá vai.”
Ele ativou a conta de Mae, bateu continência brincando e foi embora. A
represa se abriu e nos primeiros doze minutos ela respondeu quatro perguntas e
obteve uma nota média 96. Estava suando muito, mas o ritmo era frenético.
Apareceu uma mensagem de Jared na sua segunda tela. Ótimo, até agora!
Vamos ver se conseguimos em breve alcançar 97.
Vou conseguir!, respondeu Mae.
E mande a mensagem de verificação para quem der nota abaixo de 100.
Tudo bem, respondeu ela.
Mae mandou sete mensagens de verificação e três clientes reformularam suas
notas para 100. Ela respondeu mais dez perguntas até as 11h45. Agora sua nota
média era 98.
Outra mensagem apareceu na sua segunda tela, agora de Dan. Resultado
fantástico, Mae! Como está se sentindo?
Mae estava espantada. Um chefe que perguntava como você estava, e com
tanta gentileza, logo no primeiro dia?
Estou ótima. Obrigada!, respondeu, e passou para a pergunta do cliente
seguinte.
Outra mensagem de Jared surgiu embaixo da primeira.
Alguma coisa que eu possa fazer? Alguma pergunta que eu possa responder?
Não, obrigada!, respondeu Mae. Por enquanto está tudo certo. Obrigada,
Jared! Mae voltou para a primeira tela. Apareceu outra mensagem de Jared na
segunda tela.
Não esqueça que eu só posso ajudar se você me disser como.