O Círculo

Dave Eggers · Apêndice

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O Círculo

O Círculo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

trabalho havia rendido? De noite, lição de moral de um gordo e, de dia, enxotada

de casa pelos próprios pais.

Quando chegou ao litoral, eram 4h14. Ainda tinha tempo, pensou. Será que o

lugar fechava às seis horas? Não lembrava. Saiu da rodovia principal e tomou a

direção da marina. Quando chegou à praia, o portão da área de aluguel de

caiaques estava aberto, mas não havia ninguém à vista. Mae olhou em redor,

entre as fileiras de caiaques, remos e boias salva-vidas. “Alô!”, disse ela.

“Oi!”, respondeu uma voz. “Estou aqui. No trailer.”

Por trás das fileiras de equipamentos havia um trailer, apoiado sobre blocos de

cimento. Através da porta aberta, Mae pôde ver os pés de um homem erguidos e

apoiados numa escrivaninha, um fio de telefone esticado da escrivaninha para

um rosto que estava invisível. Mae subiu a escadinha e, dentro do trailer

escurecido, viu um homem de uns trinta anos mais ou menos, começando a ficar

careca, erguendo o dedo indicador para ela. Mae olhava no celular para ver a

hora a todo instante e via os minutos passarem: 4h20, 4h21, 4h23. Quando

terminou de falar no telefone, o homem sorriu.

“Obrigado pela paciência. Em que posso ajudar?”

“Marion está?”

“Não. Sou o filho dela. Walt.” Levantou-se e apertou a mão de Mae. Era alto,

magro, queimado de sol.

“Prazer. Cheguei muito tarde?”

“Muito tarde para quê? Jantar?”, perguntou ele, achando que tinha feito uma

piada.

“Para alugar um caiaque.”

“Ah. Bem, que horas são? Faz tempo que não vejo as horas.”

Ela nem precisou olhar. “4h26”, respondeu.

Ele pigarreou e sorriu. “4h26, hein? Bom, em geral fechamos às cinco, mas

vendo que você está bem afiada com as horas, acho que posso confiar em que

você vai trazer o caiaque de volta às 5h22. Acha que está bem assim? É nesse

horário que tenho de ir pegar minha filha.”

“Obrigada”, respondeu Mae.

“Deixe-me fazer seu registro”, explicou ele. “A gente acabou de digitalizar

nosso sistema. Você já tem conta aqui?”

Mae lhe deu seu nome e ele digitou num tablet novo, mas não havia nada

registrado. Depois de três tentativas, ele se deu conta de que seu wi-fi não estava

funcionando. “Talvez eu possa ver no meu celular”, disse ele, e pegou o telefone

no bolso.

“Não podemos fazer isso quando eu voltar?”, perguntou Mae e ele concordou,

pensando que aquilo lhe daria o tempo necessário para reativar a rede sem fio.

Deu para Mae um caiaque e um colete salva-vidas e, quando ela já estava na

água, Mae viu que horas eram. 4h32. Tinha quase uma hora. Na baía, uma hora era sempre bastante coisa. Uma hora era um dia.

Mae remou para longe e dessa vez não viu nenhuma foca na marina, embora

se deixasse ficar à deriva de propósito para tentar atraí-las. Seguiu rumo ao

antigo quebra-mar meio afundado onde às vezes as focas pegavam sol, mas não

achou nenhuma. Não havia focas, nenhum leão-marinho, o quebra-mar estava

deserto, apenas um pelicano imundo estava pousado na ponta de uma estaca.

Ela remou para além dos iates arrumados, para além dos barcos misteriosos e

entrou na baía aberta. Lá, descansou, sentindo a água embaixo de si, lisa e

ondulante como uma gelatina muito profunda. Quando estava sentada e imóvel,

surgiu um par de cabeças uns vinte metros à sua frente. Eram focas e olhavam

uma para a outra, como se estivessem resolvendo se deviam olhar para Mae

juntas. O que de fato fizeram em seguida.

Olharam-se umas para as outras, as duas focas e Mae, ninguém piscava, até

que, como se tivessem percebido que Mae era muito desinteressante, apenas uma

figura imóvel, uma foca afundou numa onda e sumiu, e a segunda rapidamente

foi atrás.

À frente, à meia distância mais para dentro da baía, Mae viu uma coisa nova,

uma forma fabricada que ela não havia percebido antes, e decidiu que sua tarefa

naquele dia seria ir até aquela forma e investigar. Remou para mais perto e viu

que a forma era, na verdade, duas embarcações, um velho barco de pesca

amarrado a uma balsa pequena. Na balsa havia uma espécie de abrigo complexo,

mas tosco. Se aquilo estivesse em qualquer lugar em terra, sobretudo naquela

região, seria desmontado imediatamente. Parecia com fotos que Mae tinha visto

de abrigos de desabrigados no tempo da Grande Depressão ou de algum

acampamento de refugiados.

Mae estava sentada, espiando aquela bagunça com as pálpebras entrecerradas,

quando apareceu uma mulher, vindo de debaixo do encerado.

“Ah, ei”, exclamou a mulher. “Você apareceu do nada.” A mulher tinha uns

sessenta anos, cabelos brancos compridos, cheios e fracos, presos num rabo de

cavalo. Deu alguns passos para a frente e Mae viu que era mais jovem do que ela

havia imaginado, talvez uns cinquenta e poucos anos, o cabelo com riscas de

louro.

“Oi”, disse Mae. “Desculpe por ter chegado tão perto. O pessoal aqui da

marina sempre faz questão de nos dizer para não incomodar o pessoal dos

barcos.”

“Em geral é o que acontece”, respondeu a mulher. “Mas como estamos saindo

para tomar nosso drinque do fim de tarde”, explicou a mulher, enquanto se

acomodava numa cadeira branca de plástico, “você chegou numa ótima hora.”

Inclinou a cabeça para trás, falando na direção do encerado azul. “Vai ficar escondido aí dentro?”

“Estou preparando os drinques, doçura”, respondeu uma voz masculina, seu

vulto ainda invisível, a voz fazendo força para ser educada.

A mulher virou-se para Mae. Na luz fraca, os olhos dela cintilavam um pouco

malévolos. “Você parece inofensiva. Quer vir a bordo?” Moveu a cabeça,

chamando Mae.

Mae remou mais para perto e, quando se aproximou de fato, a voz masculina

surgiu de debaixo do encerado e ganhou forma humana. Ele tinha a pele curtida,

um pouco mais velho do que sua companheira, e se movia lentamente enquanto

saía do barco e ia para a balsa. Levava o que pareciam ser duas garrafas

térmicas.

“Ela vai beber com a gente?”, perguntou o homem para a mulher, deixando

seu corpo cair numa cadeira de plástico ao lado da mulher.

“Eu já convidei”, respondeu a mulher.

Quando Mae estava perto o suficiente para distinguir o rosto dos dois, viu que

eram limpos, arrumados — Mae temia que suas roupas confirmassem aquilo que

sua embarcação sugeria: que não eram apenas vagabundos do mar, mas também

pessoas perigosas.

Por um momento, o casal ficou observando, enquanto Mae manobrava o

caiaque em sua aproximação da balsa, ambos curiosos com ela, mas passivos,

como se aquilo fosse sua sala de estar e Mae fosse sua convidada naquela noite.

“Vá, ajude a moça”, disse a mulher com impaciência e o homem levantou-se.

A proa do caiaque de Mae bateu na quina de aço da balsa. O homem

rapidamente amarrou uma corda na ponta do caiaque e puxou-o para que ficasse

alinhado. Ajudou Mae a subir na balsa, uma colcha de retalhos feita de tábuas.

“Sente aqui, meu bem”, disse a mulher, apontando para a cadeira que o

homem tinha deixado vaga para ajudá-la.

Mae sentou-se e percebeu que o homem disparava um olhar furioso para a

mulher.

“Ora, pegue outra”, disse a mulher para ele. E o homem sumiu de novo

embaixo da lona azul impermeável.

“Em geral eu não o mando fazer tanta coisa”, disse ela para Mae e estendeu a

mão para pegar uma das garrafas térmicas que o homem tinha trazido. “Mas ele

não sabe como receber uma pessoa. Quer tinto ou branco?”

Mae não tinha nenhum motivo para aceitar nem um nem outro no meio da

tarde, quando ainda tinha de devolver o caiaque e depois ir de carro para casa,

mas estava com sede e, se o vinho era branco, seria gostoso beber debaixo

daquele sol da tarde, e resolveu rapidamente que queria tomar vinho. “Branco,

por favor”, respondeu.

Apareceu um banquinho vermelho por baixo das dobras do encerado, logo

seguido pelo homem, que fazia questão de mostrar que estava incomodado.

“Sente e tome um copinho”, disse a mulher para ele e serviu, em copos de

papel, o vinho branco para Mae e o tinto para si e para seu companheiro. O

homem sentou-se, todos ergueram os copos, e o vinho, que Mae sabia não ser

bom, tinha um sabor extraordinário.

O homem se dirigiu a Mae. “Então você é uma espécie de aventureira, pelo

que vejo. Esportes radicais e tudo isso.” Esvaziou seu copo e estendeu a mão na

direção das garrafas térmicas. Mae estava esperando que sua companheira

olhasse para ele com ar desaprovador, como sua mãe teria feito, mas os olhos da

mulher estavam fechados, voltados para o sol que se punha.

Mae balançou a cabeça. “Não. Nem de longe, na verdade.”

“A gente não vê muita gente remando por aqui”, disse ele, e encheu de novo

seu copo. “Eles costumam ficar mais perto da costa.”

“Acho que ela é uma boa moça”, disse a mulher, os olhos ainda fechados.

“Olhe as roupas dela. É quase uma patricinha. Mas não é preguiçosa. É uma boa

moça com eventuais acessos de curiosidade.”

Agora o homem assumiu o papel de quem pede desculpas. “Dois goles de

vinho e ela acha que é uma espécie de cigana que vê o futuro.”

“Está tudo bem”, disse Mae, embora não soubesse o que sentira a respeito do

diagnóstico da mulher. Enquanto Mae olhava para ele e depois para ela, os olhos

da mulher se abriram.

“Há um bando de baleias cinzentas que vai chegar aqui amanhã”, disse a

mulher, e voltou os olhos para a Golden Gate. Estreitou as pálpebras, como se

confirmasse a promessa mental feita ao oceano de que, quando as baleias

chegassem, seriam bem tratadas. Então fechou os olhos de novo. Por ora, a

tarefa de entreter Mae parecia ter ficado por conta do homem.

“E que tal está a baía hoje?”, perguntou o homem.

“Boa”, respondeu Mae. “Muito calma.”

“Esta semana ela andou calmíssima”, concordou ele e, por um tempo,

ninguém falou, como se os três estivessem rendendo homenagem à tranquilidade

da água, com um momento de silêncio. E no silêncio, Mae pensou em como

Annie ou seus pais reagiriam se a vissem ali, bebendo vinho à tarde numa balsa.

Com desconhecidos que moravam numa balsa. Mercer, Mae sabia, iria aprovar.

“Viu alguma foca?”, perguntou o homem, afinal.

Mae não sabia nada sobre aquelas pessoas. Não tinham lhe dito seus nomes

nem perguntado o dela.

Ao longe, soou uma buzina de nevoeiro.

“Hoje só umas poucas, mais perto da costa”, disse Mae.

“Como eram elas?”, perguntou o homem e, quando Mae descreveu suas

cabeças cinzentas e lustrosas, o homem lançou um olhar para a mulher.

“Stevie e Kevin.”

A mulher fez que sim com a cabeça.

“Acho que hoje as outras estão fora, caçando. Stevie e Kevin raramente se

afastam dessa parte da baía. Toda hora eles vêm aqui nos dar um alô.”

Mae queria perguntar para eles se moravam ali ou, se não, o que exatamente

estavam fazendo ali na balsa, presa àquele barco de pesca, se nem a balsa nem o

barco pareciam funcionais. Será que estavam ali para sempre? E como tinham

parado ali? Mas parecia impossível fazer qualquer dessas perguntas, quando eles

nem mesmo haviam perguntado seu nome.

“Você estava aqui quando ela pegou fogo?”, perguntou o homem, apontando

para uma grande ilha desabitada no meio da baía. A ilha se erguia muda e negra

por trás deles. Mae balançou a cabeça negativamente.

“Ficou dois dias pegando fogo. Nós tínhamos acabado de chegar aqui. De

noite, o calor... dava para sentir daqui. Toda noite a gente nadava nessa água

esquecida por Deus, só para se refrescar. A gente pensou que o mundo ia

acabar.”

Então os olhos da mulher se abriram e ela se concentrou em Mae. “Você já

nadou nesta baía?”

“Algumas vezes”, respondeu Mae. “É brutal. Mas antigamente, quando estava

crescendo, eu nadava no lago Tahoe. É no mínimo tão frio quanto aqui.”

Mae terminou de beber o vinho e sentiu-se ligeiramente animada. Virou os

olhos para o sol, com as pálpebras entrecerradas, voltou-se para o outro lado e

viu um homem ao longe, num bote a vela prateado, erguendo uma bandeira

tricolor.

“Quantos anos você tem?”, perguntou a mulher. “Parece que tem uns onze

anos.”

“Vinte e quatro”, respondeu Mae.

“Meu Deus. Você não tem nenhuma ruga. Será que a gente já teve vinte e

quatro anos algum dia, meu amor?” Virou-se para o homem, que estava usando

uma caneta esferográfica para coçar a sola do pé. Ele deu de ombros e a mulher

deixou para lá.

“Aqui é lindo”, disse Mae.

“Também achamos”, disse a mulher. “A beleza é gritante e constante. O

nascer do sol hoje foi muito bonito. E esta noite vai ter lua cheia. Está subindo

toda alaranjada e vai ficando cor de prata à medida que vai se erguendo. A água

fica coberta de dourado, depois de uma cor de platina. Você devia ficar para

ver.”

“Tenho de devolver isso”, disse Mae, e apontou para o caiaque. Olhou para

seu celular. “Daqui a oito minutos.”

Levantou-se, o homem também ficou de pé, pegou o copo de Mae e colocou

seu próprio copo dentro do dela. “Você acha que vai conseguir atravessar a baía

em oito minutos?”

“Vou tentar”, respondeu Mae, e ficou parada.

A mulher estalou alto a língua. “Nem consigo acreditar que ela já vai embora.

Gostei dela.”

“Ela não está morta, querida. Continua entre nós”, disse o homem. Ele ajudou

Mae a entrar no caiaque e soltou a corda. “Seja educada.”

Mae mergulhou a mão na água da baía e molhou a nuca.

“Vá embora, traidora”, disse a mulher.

O homem revirou os olhos. “Desculpe.”

“Tudo bem. Obrigada pelo vinho”, disse Mae. “Vou voltar outro dia.”

“Vai ser ótimo”, disse a mulher, embora ela parecesse aborrecida com Mae.

Era como se, por um momento, ela tivesse pensado que Mae era um tipo de

pessoa, mas agora, sabendo que era de outro tipo, pudesse abrir mão dela,

pudesse devolvê-la ao mundo.

Mae remou para a costa, sentia a cabeça muito leve, o vinho pôs um sorriso

torto em seu rosto. E só então se deu conta de quanto tempo seus pensamentos

tinham ficado afastados dos pais, de Mercer, das pressões do trabalho. O vento

bateu mais forte, agora virado para o oeste, e ela remou contra ele com ímpeto,

espirrava água para todo lado, ensopou as pernas, o rosto, os ombros. Sentia-se

tão forte, os músculos cada vez mais arrojados a cada espirro da água fria. Ela

estava adorando aquilo tudo, ver os barcos livres chegando mais perto, os iates

ancorados surgindo e revelando seus nomes e, por fim, a praia tomando forma,

com Walt à espera na beira da água.

 

* * *

 

Na segunda-feira, quando foi trabalhar e ligou o computador, havia mais ou

menos uma centena de mensagens na segunda tela.

De Annie: Sentimos sua falta na noite de sexta!

Jared: Você perdeu a maior festa.

Dan: Que pena que você não foi à festa de domingo!

Mae procurou seu calendário e se deu conta de que tinha havido uma festa na

sexta-feira aberta a todos do Renascimento. Domingo tinha havido um churrasco

para os novatos — os novatos que tinham chegado naquelas duas semanas em

que Mae estava no Círculo.

Dia puxado, escreveu Dan. Fale comigo assim que puder.

Ele estava parado num canto de seu escritório, de cara para a parede. Ela bateu

na porta de leve e ele, sem se virar, ergueu o dedo indicador, pedindo que

esperasse um momento. Mae ficou observando, supondo que estivesse num

telefonema, e aguardou com paciência, em silêncio, até perceber que Dan estava

usando seu dispositivo de retina e queria um fundo vazio. Mae tinha visto

membros do Círculo fazendo aquilo de vez em quando — de cara voltada para a

parede, para que as imagens em seus dispositivos de retina pudessem ser vistas

com mais nitidez. Quando terminou, ele se virou para Mae, disparando um

sorriso amistoso que rapidamente se dissolveu.

“Você não pôde vir ontem?”

“Desculpe. Fui visitar minha família. Meu pai…”

“Foi um evento incrível. Acho que você foi a única novata ausente. Mas

podemos falar sobre isso mais tarde. Por enquanto preciso lhe pedir um favor.

Tivemos de contratar novos empregados, devido à velocidade com que as coisas

estão se expandindo, por isso pensei que talvez você pudesse me ajudar com

alguns dos recém-chegados.”

“Claro.”

“Acho que vai ser moleza para você. Vou lhe mostrar. Vamos voltar para sua

mesa. Renata!”

Renata foi atrás deles levando um pequeno monitor, mais ou menos do

tamanho de um notebook. Instalou-o na mesa de Mae e foi embora.

“Muito bem. Então, em teoria, você vai fazer aquilo que Jared fazia com você,

lembra? Toda vez que pintar uma pergunta difícil que precisa ser transferida para

uma pessoa mais experiente, você estará ali, a postos. Agora você é uma

veterana. Deu para entender?”

“Deu.”

“Pois bem, a outra coisa é que eu quero que os novatos possam lhe fazer

perguntas enquanto trabalham. A maneira mais fácil vai ser usar essa tela aqui.”

Apontou para o pequeno monitor que tinha sido instalado embaixo de seu

monitor principal. “Se você vir uma coisa aparecer aqui, já sabe que é de alguém

da sua galera, tá legal?” Ligou o monitor e digitou no seu tablet uma pergunta:

“Mae, me ajude!”, e as palavras apareceram naquela tela nova, a quarta. “Parece

fácil?”

“Parece.”

“Ótimo. Portanto os novatos vão estar aqui depois que o Jared terminar o

treinamento com eles. Ele está dando um treinamento em grupo agora, enquanto

conversamos. Por volta das onze horas, vamos ter aqui umas doze pessoas

novas, tá legal?”

Dan agradeceu a Mae e foi embora.

O trabalho foi duro até as onze horas, mas Mae conseguiu nota média 98.

Houve várias notas abaixo de 100 e duas abaixo de 90, para as quais enviou um

questionário de verificação e, na maioria dos casos, os clientes corrigiram a nota

para 100.

Às onze horas, Mae ergueu os olhos e viu Jared conduzindo um grupo para

dentro da sala, todos de aspecto muito jovem, todos pisando com cuidado, como

se tivessem medo de acordar algum bebê escondido. Jared instalou cada um

deles numa mesa e a sala, que tinha permanecido absolutamente vazia por

semanas, ficou quase cheia em poucos minutos.

Jared ficou de pé em cima de uma cadeira. “Muito bem, pessoal!”, disse ele.

“Esse foi de longe o processo de integração mais rápido que já fizemos. E

também nossa sessão de treinamento mais rápida. E nosso primeiro dia de

trabalho mais freneticamente acelerado. Mas sei que todos vocês podem dar

conta do recado. E sei que podem dar conta do recado especialmente porque vou

estar aqui o dia todo para ajudar, e a Mae também vai estar aqui com a gente.

Mae, pode se levantar?”

Mae se levantou. Mas era óbvio que poucos dos novatos na sala podiam vê-la.

“Que tal ficar de pé em cima da cadeira?”, pediu Jared, e Mae fez isso, ajeitou

sua saia, sentindo-se muito boba, exposta, e torcendo para não cair.

“Nós dois vamos ficar aqui o dia inteiro para responder perguntas e receber os

casos mais difíceis. Se pintar alguma pergunta mais difícil, é só reenviar que ela

será encaminhada para um de nós, aquele que estiver menos ocupado. Se tiveram

uma pergunta, é a mesma coisa. Enviem pelo canal que lhes mostrei no

treinamento e a mensagem vai chegar a um de nós dois. Ou por mim ou por

Mae, vocês estarão sempre cobertos. Todo mundo está se sentindo bem?”

Ninguém se mexeu nem falou nada. “Ótimo. Vou abrir as comportas outra vez e

hoje vamos prosseguir até meio-dia e meia. O almoço vai ser mais curto hoje por

causa do treinamento e tudo, mas vamos pôr tudo em dia até a sexta-feira. Todos

estão prontos?” Ninguém parecia pronto. “Vamos lá!”

E Jared pulou para o chão, Mae desceu da cadeira, arrumou-se de novo e

imediatamente se viu diante de trinta pesquisas para responder. Começou pela

primeira e, num minuto, já tinha uma pergunta na quarta tela, enviada pelos

novatos.

Cliente quer o registro completo de seus pagamentos no ano passado. É

possível? Onde está?

Mae direcionou o novato para a pasta correta, depois voltou à pesquisa que

tinha na sua frente. Continuou assim, sendo arrancada de seu trabalho a todo

minuto por alguma pergunta de um novato, até meio-dia e meia, quando viu

Jared de novo, de pé em cima de uma cadeira outra vez.

“Opa! Opa”, disse ele. “Hora do almoço. Que pauleira. Que pauleira. Não é

mesmo? Mas a gente conseguiu. Nossa nota média está em 93, o que

normalmente não é lá muito bom, mas está razoável, considerando os sistemas

novos e o fluxo mais intenso. Parabéns. Vamos comer um pouco, pôr um pouco

de combustível, e a gente se vê à uma hora. Mae, venha falar comigo quando

puder.”

Ele pulou para o chão outra vez e estava junto à mesa de Mae antes que ela

tivesse tempo de chegar à mesa dele. A expressão de Jared era de preocupação

amistosa.

“Você não foi à clínica.”

“Eu?”

“É verdade?”

“Acho que sim.”

“Devia ter ido na primeira semana.”

“Ah.”

“Estão esperando você. Pode ir hoje?”

“Claro. Agora?”

“Não, não. Agora a gente está muito atolado, como pode ver. Que tal às quatro

horas? Posso me virar sozinho na última rodada do dia. E à tarde todos esses

novatos já vão estar mais afiados. E hoje, até agora, você se divertiu?”

“Claro.”

“Estressada?”

“Bem, é uma camada nova de trabalho.”

“É mesmo. E vai haver mais camadas depois, posso garantir a você. Sei que

uma pessoa como você fica entediada apenas com o trabalho normal na

Experiência do Cliente, portanto na semana que vem vou colocá-la em contato

com um aspecto diferente do serviço. Acho que você vai adorar.” Lançou um

olhar para seu bracelete e viu as horas. “Ah, droga. Você tem de ir comer. Estou

literalmente tirando a comida de sua boca. Vá. Você ainda tem vinte e dois

minutos.”

Mae encontrou um sanduíche pronto na cozinha mais próxima e comeu em

sua mesa de trabalho. Percorreu a lista de seus feeds sociais na terceira tela, em

busca de algo urgente ou que fosse muito necessário responder. Encontrou e

respondeu trinta e uma mensagens, sentindo-se satisfeita por ter dado cuidadosa

atenção a todos que demandavam.

A tarde foi um trem desgovernado, com as constantes perguntas dos novatos,

enquanto Jared, ao contrário do que dissera, ficava entrando e saindo a tarde

toda, falando no telefone com muita frequência e chegando mesmo a deixar a

sala uma porção de vezes. Mae teve de encarar o fluxo dobrado e por volta das 3h48 estava com uma nota média pessoal de 96; a média do conjunto da equipe

era 94. Nada mau, pensou Mae, levando em conta o ingresso de doze pessoas

novas e o fato de Mae ter de ajudar todas elas sozinha durante mais de três horas.

Quando deram quatro horas, ela lembrou que era aguardada na clínica e torceu

para que Jared também lembrasse. Mae levantou-se, viu que Jared estava

olhando para ela e fez um sinal positivo com o polegar erguido. Mae saiu.

 

A sala de espera da clínica na verdade não tinha nada de sala de espera.

Parecia mais um café, onde os membros do Círculo conversavam em pares,

diante de uma parede de alimentos saudáveis lindamente arrumados, além de

bebidas saudáveis, e com um balcão de saladas que oferecia legumes plantados

no campus e um pergaminho fixado na parede com uma receita de sopa segundo

a dieta paleolítica.

Mae não sabia com quem devia falar. Havia cinco pessoas na sala, quatro

trabalhavam em tablets, um estava absorto em seu dispositivo de retina, de pé no

canto. Não havia nada semelhante às janelinhas dos guichês tradicionais, por

onde o rosto de um auxiliar administrativo iria se dirigir a ela.

“Mae?”

Ela se voltou na direção da voz para topar com o rosto de uma mulher de

cabelo preto e curto, covinhas nas bochechas, sorrindo para ela.

“Está pronta agora?”

Mae foi conduzida por um corredor azul para dentro de uma sala que mais

parecia uma cozinha planejada do que um consultório médico. A mulher de

covinhas deixou-a ali, indicando uma cadeira muito estofada para ela sentar.

Mae sentou-se, depois se levantou, atraída pelos armários enfileirados nas

paredes. Podia ver linhas horizontais, finas como fios, que delineavam o ponto

onde terminava uma gaveta e começava a próxima, mas não havia puxadores ou

alças. Correu a mão pela superfície e mal dava para sentir os intervalos, finos

como fios de cabelo. Acima dos armários havia uma tira de aço com as palavras

gravadas: PARA CURAR TEMOS DE SABER. PARA SABER TEMOS DE

COMPARTILHAR. A porta se abriu e Mae levou um susto.

“Oi, Mae”, disse um rosto, enquanto flutuava, deslumbrante e sorridente, em

sua direção. “Sou a dra. Villalobos.”

Mae, boquiaberta, apertou a mão da médica. A mulher era glamorosa demais

para aquilo, para aquela sala, para Mae. Não tinha mais de quarenta anos, rabo

de cavalo preto e pele luminosa. Óculos de leitura muito elegantes pendiam de

seu pescoço, seguindo por um breve percurso as linhas de seu jaleco creme e

repousando sobre o peito largo. Calçava saltos altos de cinco centímetros.

“Estou muito contente de ver você hoje aqui, Mae.”

Mae não sabia o que dizer. O máximo que conseguiu foi: “Obrigada por me

atender”, e imediatamente sentiu-se uma idiota.

“Não, obrigada você por ter vindo”, respondeu a médica. “Nós atendemos

todo mundo em geral na primeira semana de trabalho, portanto ficamos

preocupados com você. Existe algum motivo para ter adiado a consulta por tanto

tempo?”

“Não. Só que andei muito ocupada.”

Mae observou a médica em busca de alguma falha física, por fim descobriu

uma verruga no pescoço e um único pelo, bem fino, que se projetava dali.

“Ocupada demais para cuidar da saúde! Não diga isso.” A médica estava de

costas para Mae, preparando uma espécie de bebida. Virou-se e sorriu. “Bem,

isto na verdade é só um exame introdutório, um check-up básico que fazemos

em todos os novos funcionários aqui do Círculo, está bem? Antes de tudo, somos

uma clínica com ênfase preventiva. No intuito de manter nossos funcionários

saudáveis, na mente e no corpo, oferecemos um serviço de bem-estar global.

Isso está de acordo com o que já disseram a você?”

“Sim. Tenho uma amiga que trabalha aqui há alguns anos. Ela disse que o

atendimento médico é fantástico.”

“É ótimo saber disso. Quem é a sua amiga?”

“Annie Allerton.”

“Ah, isso mesmo. Estava na sua ficha. E quem é que não gosta da Annie?

Mande um abraço para ela. Mas acho que eu mesma posso fazer isso. Ela está no

meu roteiro, portanto eu a vejo a cada duas semanas. Annie contou para você

que os check-ups são quinzenais?”

“Então é...”

A médica sorriu. “De duas em duas semanas. Esse é o componente de bem-

estar. Se você vier aqui só quando tiver um problema, nunca vai conseguir se

antecipar às coisas. Os check-ups quinzenais envolvem consultas com um

nutricionista e também monitoramos toda e qualquer variação em seu estado

geral de saúde. Essa é a chave para qualquer detecção precoce. Para calibrar

quaisquer medicamentos que você possa ter de tomar e para perceber algum

problema a quilômetros de distância, em vez de esperá-lo atropelar você. Não é

uma boa ideia?”

Mae pensou em seu pai, em como demoraram a identificar os sintomas da

esclerose múltipla. “Muito boa”, respondeu.

“E todos os dados que geramos aqui ficam acessíveis para você na internet.

Tudo o que fazemos e falamos e, é claro, seus registros passados. Quando

ingressou na empresa, você assinou um formulário que nos autoriza a incorporar

todas suas informações médicas anteriores, portanto você finalmente tem agora tudo reunido num só lugar, acessível a você, a nós, e podemos tomar decisões,

perceber padrões, questões potenciais, em razão de nosso acesso ao quadro

completo. Quer ver?”, a médica perguntou e ativou uma tela na parede. O

histórico médico completo de Mae surgiu diante dela em listas, imagens e

ícones. A dra. Villalobos tocou na tela de parede, abrindo pastas e movendo

imagens, revelando os resultados de todas as consultas médicas que Mae tinha

feito — até seu primeiro check-up, feito antes de começar o jardim de infância.

“Como vai esse joelho?”, perguntou a médica. Ela havia descoberto a

ressonância magnética que Mae tinha feito alguns anos antes. Mae optara por

não fazer a cirurgia no ligamento anterior cruzado; seu seguro médico anterior

não cobria a operação.

“Está funcionando”, respondeu Mae.

“Bem, se quiser cuidar disso, me avise. Cuidamos disso aqui mesmo, na

clínica. Levaria uma tarde e, claro, seria de graça. O Círculo gosta que seus

empregados estejam com seus joelhos em ordem.” A médica deu as costas para a

tela e sorriu para Mae, madura e convincente.

“Reunir algumas informações do tempo em que você era muito pequena foi

um desafio, mas daqui para a frente teremos informações quase completas. De

duas em duas semanas, faremos exame de sangue, testes cognitivos, de reflexos,

um rápido exame de vista e um rodízio de exames mais raros, como ressonâncias

magnéticas e coisas assim.”

Mae não conseguia entender. “Mas como é que conseguem financiar tudo

isso? Quer dizer, o custo de só um exame de ressonância magnética...”

“Bem, a prevenção é barata. Sobretudo comparada com a descoberta de um

tumor no estágio 4, quando poderia ter sido descoberto no estágio 1. E o custo

diferencial é enorme. Como os membros do Círculo em geral são jovens e

saudáveis, nossos custos com saúde são uma fração do que se verifica em

empresas de tamanho similar, empresas sem o mesmo tipo de precaução.”

Mae teve a sensação, que agora já estava se acostumando a experimentar no

Círculo, de que só eles eram capazes de imaginar — ou eram simplesmente os

únicos capazes de executar — reformas que pareciam incontestáveis, por sua

necessidade e urgência.

“Então quando foi seu último check-up?”

“Talvez na faculdade.”

“Certo, puxa. Vamos começar pelos sinais vitais, os elementares. Você já viu

isto antes?” A médica mostrou para ela um bracelete prateado, de uns sete

centímetros de largura. Mae tinha visto monitores de saúde em Jared e em Dan,

mas os deles eram feitos de borracha e ficavam frouxos. Aquele era mais fino e

mais leve.

“Acho que sim. Mede os batimentos cardíacos?”

“Correto. A maioria dos membros antigos do Círculo usam alguma versão

desse aparelho, mas andam se queixando de ser frouxo demais, como uma

espécie de pulseira. Portanto modificamos o dispositivo para que fique firme.

Quer experimentar?”

Mae queria. A médica colocou-o em seu pulso esquerdo e fechou-o com um

estalo. Ficou confortável. “É quente”, disse Mae.

“Vai dar a sensação de ser quente durante alguns dias, depois você e o

bracelete vão se habituar um ao outro. Mas ele precisa encostar na pele, é claro,

para medir o que queremos medir, ou seja, tudo. Você quer o programa

completo, não é?”

“Acho que sim.”

“Em sua ficha de ingresso, você disse que queria o pacote completo de

avaliações recomendadas. Isso ainda é verdade?”

“É.”

“Muito bem. Pode beber isto aqui?” A médica lhe deu um líquido verde e

grosso que estava preparando. “É um smoothie.”

Mae bebeu. Era viscoso e frio.

“Muito bem, você acabou de ingerir o sensor que vai se conectar com seu

monitor de pulso. Estava dentro do copo.” A médica deu um soquinho de

brincadeira no ombro de Mae. “Adoro fazer isso.”

“Já engoli?”, perguntou Mae.

“É a melhor maneira. Se eu pusesse na sua mão, você ia ficar cheia de dedos.

Mas o sensor é tão pequeno, e é orgânico, é claro, portanto a gente bebe sem

notar, e pronto, acabou-se.”

“Quer dizer que o sensor já está dentro de mim?”

“Está. E agora”, disse a médica, dando uma palmadinha no monitor de pulso

de Mae, “agora ele está ativo. Vai recolher dados sobre seus batimentos

cardíacos, sua pressão sanguínea, seu colesterol, fluxo térmico, ingestão de

calorias, duração do sono, qualidade do sono, eficiência digestiva etc. etc. Uma

coisa boa para os membros do Círculo, sobretudo aqueles como você, que

podem às vezes enfrentar trabalhos estressantes, é o fato de que o aparelho mede

a reação galvânica da pele, o que permite que você saiba quando está nervosa ou

aflita. Quando identificamos índices de estresse fora do padrão num dos

membros do Círculo ou num departamento inteiro, podemos fazer ajustes na

carga de trabalho, por exemplo. Ele mede o nível do PH de seu suor, assim você

pode saber quando precisa se hidratar com água alcalina. Detecta sua postura,

assim você sabe quando precisa se reposicionar. O oxigênio do sangue e dos

tecidos, a contagem de glóbulos vermelhos no sangue e outras coisas, como a contagem de passos. Como você sabe, os médicos recomendam cerca de dez mil

passos por dia e isso vai mostrar se você está próxima do índice desejado. A

propósito, vamos andar um pouco aqui na sala.”

Mae viu o número 10 000 em seu pulso e, a cada passo que dava, o número

baixava: 9999, 9998, 9997.

“Estamos pedindo a todos os novatos que usem esses modelos de segunda

geração e, em pouco tempo, teremos todos os membros do Círculo coordenados.

A ideia é que, de posse de informações completas, poderemos oferecer cuidados

médicos melhores. Informação incompleta cria lacunas em nosso conhecimento

e, para falar em termos médicos, lacunas em nosso conhecimento criam erros e

omissões.”

“Eu sei”, disse Mae. “Foi esse o problema comigo na faculdade. A gente

relatava nossos dados médicos por nossa conta e isso criava a maior confusão.

Três alunos morreram de meningite antes que os responsáveis percebessem que

a doença estava se espalhando.”

A fisionomia da dra. Villalobos ficou sombria. “Sabe, esse tipo de coisa agora

é simplesmente desnecessária. Antes de tudo, não se pode querer que jovens

estudantes relatem voluntariamente seus problemas de saúde. Tudo devia ser

feito por eles, assim eles poderiam se concentrar só em seus estudos. Doenças

sexualmente transmissíveis, hepatite C... Imagine se as informações estivessem

acessíveis. Então seria possível tomar as providências adequadas. Nada de

conjecturas. Você ouviu falar da experiência que fizeram na Islândia?”

“Acho que sim”, disse Mae, mas não tinha certeza.

“Bem, como a Islândia tem uma população incrivelmente homogênea, a

maioria dos residentes tem raízes na ilha que remontam a muitos séculos. Todo

mundo pode rastrear seus ancestrais com muita facilidade até mil anos antes.

Então começaram a mapear os genomas dos islandeses, de todo mundo, um por

um, e conseguiram traçar o caminho de todas as doenças até suas origens.

Obtiveram dados muito valiosos nessa pesquisa coletiva. Nada no mundo se

compara a um grupo fixo e relativamente homogêneo, exposto aos mesmos

fatores, e que possa ser estudado ao longo do tempo. O grupo fixo e a

informação completa foram a chave para maximizar o resultado. Então a

esperança é fazer aqui algo semelhante. Se conseguirmos rastrear todos nossos

novatos e, algum dia, os mais de dez mil membros do Círculo, poderemos

perceber os problemas muito antes que se tornem graves e poderemos também

reunir dados sobre a população em seu todo. A maioria dos novatos tem mais ou

menos a mesma idade e, no geral, tem boa saúde, mesmo entre os engenheiros”,

disse, sorrindo do que obviamente era uma piada que ela fazia com frequência.

“Portanto, quando houver desvios, queremos saber e também ver se existem tendências com as quais podemos aprender. Isso faz sentido?”

Mae estava distraída com seu bracelete.

“Mae?”

“Sim. Parece ótimo.”

O bracelete era lindo, um letreiro pulsante de luzes, gráficos e números. A

pulsação de Mae era representada por uma rosa delicadamente desenhada, que

abria e fechava. Havia um eletrocardiograma que disparava como um relâmpago

azul e depois recomeçava. Sua temperatura era mostrada em números grandes,

verdes, 36,5 graus. A marcação lhe fez lembrar outro número: sua média daquele

dia, 97, que ela precisava melhorar. “E para que servem estes aqui?”, perguntou.

Havia uma série de botões e mostradores, dispostos numa fila embaixo dos

dados.

“Bem, você pode fazer o bracelete ler outras centenas de coisas. Se você

correr, ele vai medir a distância. Compara o estado de seu coração em repouso

com o estado de atividade intensa. Vai medir o índice de massa corporal, a

ingestão de caloria… Viu? Você já está pegando.”

Mae estava ocupada, fazendo experimentos com o bracelete. Era um dos

objetos mais elegantes que tinha visto. Havia uma porção de camadas de

informação, cada linha de dados permitia que ela pedisse mais, fosse mais fundo.

Quando trazia os números de sua temperatura atual, o aparelho podia mostrar a

temperatura média nas vinte e quatro horas precedentes, a mais alta e a mais

baixa, e a média.

“E, é claro”, disse a dra. Villalobos, “todos esses dados ficam armazenados na

nuvem, no seu tablet e em qualquer lugar que você desejar. Estão sempre

acessíveis e são constantemente atualizados. Portanto se você cair, bater com a

cabeça e estiver numa ambulância, os socorristas podem acessar todo seu

histórico em questão de segundos.”

“E isso é grátis?”

“Claro que é grátis. Faz parte do seu plano de saúde.”

“É tão bonito”, disse Mae.

“Pois é, todo mundo adora. Agora tenho de fazer o restante das perguntas

normais. Quando foi sua última menstruação?”

Mae tentou lembrar. “Uns dez dias atrás.”

“Você é sexualmente ativa?”

“Não no momento.”

“Mas em geral?”

“Em geral sim, claro.”

“Está tomando pílula anticoncepcional?”

“Sim.”

“Muito bem. Pode levar esta receita ali. Fale com Tanya na saída e ela vai lhe

dar preservativos para as coisas que a pílula não pode prevenir. Algum outro

medicamento?”

“Nenhum.”

“Antidepressivos?”

“Nenhum.”

“No geral, você diria que é uma pessoa feliz?”

“Sou.”

“Alguma alergia?”

“Sim.”

“Ah, sim. Tenho a informação aqui. Cavalos, que pena. Alguma história

familiar de doença?”

“Na minha faixa de idade?”

“Em qualquer idade. Seus pais? A saúde deles é boa?”

Alguma coisa na maneira como a médica fez a pergunta, algo que indicava

claramente que ela esperava que a resposta fosse sim, o modo como sua Stylus

pairou suspensa acima da tela do tablet, aquilo tirou o fôlego de Mae e ela não

conseguiu falar.

“Ah, meu anjo”, disse a médica, passou o braço por trás dos ombros de Mae a

apertou-a contra si. A médica tinha um cheiro ligeiramente floral. “Pronto,

pronto”, disse ela, e Mae começou a chorar, os ombros sacudiram, o nariz e os

olhos se inundaram. Sabia que estava molhando o jaleco de algodão da doutora,

mas aquilo trouxe uma espécie de alívio, de consolo, e Mae se apanhou contando

para a dra. Villalobos como eram os sintomas do pai, sua fadiga, como tinha sido

seu acidente durante o fim de semana.

“Ah, Mae”, disse a médica, afagando seu cabelo. “Mae. Mae.”

Mae não conseguia parar. Contou para a dra. Villalobos a situação torturante

do pai nas negociações com o seguro-saúde, como sua mãe esperava passar o

resto da vida cuidando dele, tendo de lutar para obter qualquer tratamento, as

horas consumidas no telefone todos os dias com aquela gente…

“Mae”, disse a médica afinal, “você já perguntou no RH se pode incluir seus

pais no plano de saúde da empresa?”

Mae ergueu os olhos para ela. “O quê?”

“Existem vários membros do Círculo cujos familiares têm problemas

semelhantes e puderam ser incluídos no plano de saúde. Imagino que seja algo

possível no seu caso.”

Mae nunca tinha ouvido falar daquilo.

“Você deve perguntar no RH”, disse a médica. “Ou talvez possa até perguntar

à própria Annie.”

“Por que não me falou antes?”, perguntou Annie naquela noite. Estavam no

escritório de Annie, uma sala ampla e branca com janelões que iam do chão ao

teto e um par de sofás estofados. “Eu não sabia que seus pais viviam esse

pesadelo com o plano de saúde.”

Mae estava olhando para fotografias emolduradas numa parede, todas

mostravam uma árvore ou um arbusto podado em formato pornográfico. “Na

última vez que estive aqui você tinha só seis ou sete, não é?”

“Eu sei. Espalharam a história de que eu era uma espécie de colecionadora

fanática e agora todo dia alguém me dá uma fotografia nova. E estão ficando

cada vez mais sórdidas. Está vendo aquela lá em cima?” Annie apontou para

uma fotografia de um enorme cacto em formato fálico.

Um rosto acobreado apareceu na porta, o corpo da mulher oculto por trás da

quina da parede. “Precisa de mim?”

“Claro que preciso de você, Vickie”, disse Annie. “Não vá embora.”

“Eu estava pensando em dar um pulo no lançamento do plano do Saara.”

“Vickie, não me deixe”, disse Annie, impassível. “Adoro você e não quero

que nos separemos.” Vickie sorriu, mas pareceu ficar imaginando quando é que

Annie ia parar com aquela cena e deixar que ela fosse embora.

“Está bem”, disse Annie. “Eu também devia ir. Mas não posso. Então vá.”

O rosto de Vickie sumiu.

“Eu a conheço?”, perguntou Mae.

“Ela faz parte da minha equipe”, respondeu Annie. “Agora somos dez, mas

Vickie é meu braço direito. Ouviu falar do lançamento do plano do Saara?”

“Acho que sim.” Mae tinha lido uma notícia a respeito no Círculo Interno, um

plano para contar os grãos de areia do Saara.

“Desculpe, estávamos falando de seu pai”, disse Annie. “Não consigo

entender por que você não me contou antes.”

Mae lhe disse a verdade, ou seja, que ela não via nenhum cenário em que a

saúde do pai pudesse se sobrepor ao Círculo. Não existia no país nenhuma

empresa que oferecesse plano de saúde para os pais ou irmãos dos funcionários.

“Claro, mas você sabe o que dizemos aqui”, respondeu Annie. “Tudo o que

fizer os membros do Círculo viverem melhor...” Ela pareceu ficar esperando que

Mae completasse a frase. Mae não tinha a menor ideia. “…instantaneamente se

torna possível. Você devia saber disso!”

“Desculpe.”

“Isso estava nas orientações que recebeu em seu ingresso na empresa. Mae!

Está bem, vou cuidar disso.” Annie digitou alguma coisa no celular.

“Provavelmente mais tarde, esta noite. Mas agora tenho de correr para uma

reunião.”

“Agora são seis horas.” Ela conferiu em seu relógio de pulso. “Não, seis e

meia.”

“Está cedo! Vou ficar aqui até meia-noite. Ou talvez fique a noite inteira.

Temos um troço divertido rolando.” Seu rosto ficou aceso, animado com a

expectativa. “Estou mexendo num negócio apetitoso que envolve impostos

russos. Aqueles caras não ficam de bobeira.”

“Vai passar a noite nos dormitórios?”

“Que nada. Na certa vou juntar esses dois sofás. Ah, caralho. É melhor eu ir.

Adoro você.”

Annie deu um abraço em Mae e saiu da sala.

Mae ficou no escritório de Annie, sozinha, perplexa. Seria possível que seu

pai fosse ter em breve uma verdadeira cobertura de saúde? Seria possível que o

paradoxo cruel da vida dos pais — o de que suas constantes batalhas com as

empresas de seguro-saúde na verdade pioravam ainda mais a saúde do pai e

impediam a mãe de trabalhar, suprimindo sua capacidade de ganhar dinheiro

para pagar pelos cuidados médicos dele — iria terminar?

O telefone de Mae tocou. Era Annie.

“E não se preocupe. Você sabe que sou uma ninja em questões desse tipo.

Tudo vai ser resolvido.” E desligou.

Mae olhou para fora pela janela de Annie, que dava para San Vincenzo: boa

parte do lugar tinha sido construída ou reformada nos últimos anos —

restaurantes para atender os membros do Círculo, hotéis para hospedar os

visitantes do Círculo, lojas que pretendiam atrair os membros do Círculo e seus

visitantes, escolas para receber os filhos dos membros do Círculo. O Círculo

havia ocupado mais de cinquenta prédios da vizinhança, transformando

armazéns degradados em academias de ginástica, escolas, fazendas de

servidores, todos com projetos arrojados, sem precedentes, muito além do design

ambiental tradicional.

O celular de Mae tocou de novo e era Annie outra vez.

“Muito bem, boas-novas mais cedo do que o esperado. Fui conferir e não tem

nenhum problema. Temos aqui um monte de pais de funcionários incluídos no

plano de saúde e até mesmo alguns irmãos. Mexi meus pauzinhos por aí e me

disseram que você pode incluir seu pai.”

Mae olhou para o celular. Tinham passado quatro minutos desde o momento

em que mencionara o assunto para Annie.

“Ah, caramba. Está falando sério?”

“Quer pôr sua mãe no plano também? É claro que quer. Ela é mais saudável,

logo é mais fácil ainda. Vamos incluir os dois, então.”

“Quando?”

“Acho que pode ser imediatamente.”

“Não consigo acreditar.”

“Ora, deixe disso, me dê algum crédito”, disse Annie, sem fôlego. Estava

caminhando bem depressa para algum lugar. “Isso foi fácil.”

“Então devo contar para meus pais?”

“Ora, você não vai querer que eu conte para eles, não é?”

“Não, não. Estou querendo ter certeza de que está mesmo tudo certo.”

“É sim. Na verdade essa questão está longe de ser complicada. Temos onze

mil pessoas no plano de saúde. Precisamos impor nossos termos, não é?”

“Obrigado, Annie.”

“Alguém do RH vai ligar para você amanhã. Vocês vão poder acertar os

detalhes. Preciso desligar de novo. Estou atrasada mesmo.”

E desligou outra vez.

Mae telefonou para os pais, contou primeiro para a mãe, depois para o pai.

Houve certa euforia, lágrimas, mais elogios a Annie, a salvadora da família, e

algumas palavras muito constrangedoras sobre como Mae tinha se tornado adulta

de verdade, como seus pais estavam envergonhados e humilhados por serem

amparados por ela, por serem tão pesadamente amparados pela jovem filha, tudo

por causa desse sistema maluco em que estamos amarrados, disseram eles. Mas

obrigado, disseram, estamos muito orgulhosos de você. E quando ela ficou

sozinha no celular com a mãe, ouviu: “Mae, você salvou não só a vida de seu pai

mas também a minha vida. Juro por Deus, é verdade, minha querida

Maebelline”.

 

Às sete horas, Mae descobriu que não conseguia ficar mais parada. Não podia

mais ficar sentada. Tinha de levantar e comemorar de algum jeito. Deu uma

conferida no que estava rolando no campus naquela noite. Tinha perdido a festa

de lançamento do plano do Saara e já estava arrependida daquilo. Havia uma

competição de poemas, em trajes de fantasia, e elegeu aquela opção em primeiro

lugar e chegou a mandar uma mensagem de RSVP. Mas depois viu a aula de

culinária em que iam assar e depois comer um cabrito inteiro. Elegeu aquela

como sua segunda opção. Às nove horas ia acontecer a palestra de uma ativista

que pedia a ajuda do Círculo em sua campanha contra a mutilação genital

feminina no Malawi. Se Mae tentasse, talvez conseguisse comparecer a alguns

daqueles eventos, mas bem na hora em que estava organizando uma espécie de

itinerário, viu uma coisa que ofuscou tudo o mais: o Grande Circo Funk Bunda

ia se apresentar no campus, no gramado junto à Idade de Ferro, às sete horas.

Tinha ouvido falar deles e as críticas e os comentários eram excelentes, e a ideia

de um Circo naquela noite combinava à perfeição com sua euforia.

Mae tentou falar com Annie, mas ela não podia ir; ia ficar na sua reunião até

as onze horas, pelo menos. Mas a Busca no Círculo indicava que uma porção de

gente que ela conhecia, inclusive Renata, Alistair e Jared, estariam lá também —

os dois últimos já tinham ido —, portanto Mae terminou tudo e se mandou para

o evento.

A luz do dia estava morrendo, tingida de dourado, quando ela dobrou a

esquina de Três Reinos e viu um homem parado, da altura de dois andares,

cuspindo fogo. Atrás dele, uma mulher com um adereço cintilante na cabeça

jogava para o ar um bastão de luz neon e o apanhava em seguida. Mae tinha

encontrado o circo.

Havia umas duzentas pessoas formando uma roda incompleta em torno dos

artistas, que se exibiam ao ar livre com um mínimo de apetrechos, aparentando

ser algo de orçamento positivamente limitado. Os membros do Círculo em torno

dos artistas emitiam um conjunto de luzes, algumas provenientes de seus

monitores de pulso, outras de seus celulares, erguidos e radiantes, para captar os

acontecimentos. Enquanto Mae procurava Jared e Renata e, cuidadosamente,

ficava de olho em Alistair, observava a agitação do circo à sua frente. Parecia

que o espetáculo não tinha nenhum início declarado — já estava em curso

quando ela chegou — e não parecia haver qualquer estrutura discernível. O circo

tinha mais ou menos dez componentes, todos usavam fantasias surradas que

revelavam sua humildade arcaica. Um homem miúdo fazia acrobacias incríveis

usando uma aterradora máscara de elefante. Uma mulher quase nua, o rosto

coberto por uma cabeça de flamingo, dançava em círculos, seus movimentos

alternavam passos de balé e os movimentos trôpegos de uma pessoa embriagada.

Exatamente do outro lado, Mae viu Alistair, que acenou para ela e em seguida

começou a escrever uma mensagem no telefone. Momentos depois ela viu no

celular que Alistair estava organizando mais um evento para os admiradores de

Portugal, dessa vez maior e melhor, na semana seguinte. Vai ser um estouro,

escreveu ele. Filmes, música, poesia, contos e alegria! Mae respondeu que iria lá

e que mal podia esperar. Do outro lado do gramado, depois do flamingo, Mae

viu Alistair lendo a mensagem, observou quando ele ergueu os olhos para ela e

acenou.

Mae voltou a observar o circo. Os artistas pareciam estar não só adotando um

aspecto de pobreza, mas vivendo a sério essa condição — tudo neles parecia

antigo, cheirava a velharia e a decadência. Em volta deles, os membros do

Círculo captavam a performance em suas telas, com o intuito de se lembrar da

estranheza daquele bando de foliões com aspecto de mendigos, documentar a

incongruência daquela presença no Círculo, em meio a trilhas e jardins

Continuar: parte 7 de 11