O Círculo

Dave Eggers · Apêndice

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O Círculo

O Círculo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

Obrigada, de novo!, respondeu ela.

Na hora do almoço, Mae tinha respondido trinta e seis perguntas e sua nota

média era 97.

Chegou uma mensagem de Jared. Bom trabalho! Vamos fazer a verificação

com os clientes restantes que deram nota abaixo de 100.

Vou fazer, respondeu Mae, e enviou as mensagens para aqueles com quem ela

ainda não tinha feito contato. Obteve algumas notas entre 98 e 100 e depois viu

uma mensagem de Dan: Excelente trabalho, Mae!

Segundos depois, apareceu uma mensagem na segunda tela, esta agora de

Annie, logo abaixo da de Dan: Dan disse que você está mandando ver. Grande

garota!

E então uma mensagem informou a Mae que ela havia sido mencionada na

rede social Zing. Mae clicou ali para ler do que se tratava. Tinha sido escrita por

Annie. A novata Mae está mandando ver! Ela havia enviado aquilo para o resto

do campus do Círculo — 10 041 pessoas.

O zing foi reenviado 322 vezes e teve 187 comentários. Eles apareceram na

segunda tela numa fileira que não parava de crescer. Mae não tinha tempo para

ler todos, mas deu uma olhada rápida e a aprovação deu uma sensação boa. No

final do dia, a nota média de Mae era 98. Chegaram mensagens de

congratulações de Jared, de Dan e de Annie. Seguiu-se uma série de zings

anunciando e comemorando o que Annie denominou a média mais alta de todos

os novatos do setor de EC em todos os tempos.

 

Em sua primeira sexta-feira, Mae havia atendido 436 clientes e havia

memorizado as respostas-padrão. Nada mais a surpreendia, embora a diversidade

de clientes e assuntos fosse atordoante. O Círculo estava em toda parte e, apesar

de Mae já saber daquilo havia anos, de forma intuitiva, de tanto ouvir falar das

empresas que contavam com o Círculo para a divulgação de seus produtos, para

verificar seu impacto digital, para saber quem estava comprando suas

mercadorias e quando — aquilo se tornou real num nível muito diferente. Agora

Mae tinha contato com clientes em Clinton, na Louisiana, e em Putney, em

Vermont; em Marmaris, na Turquia, em Melbourne, Glasgow e Kioto. Eles se

mostravam invariavelmente educados em suas perguntas — a herança do

TruYou — e generosos em suas notas.

No meio da manhã daquela sexta-feira, sua média da semana estava em 97 e as manifestações de apoio vinham de toda parte do Círculo. O trabalho exigia

muito e o fluxo nunca parava, mas era tão variado e o apoio, tão frequente, que

ela acabou se adaptando a um ritmo confortável.

Na hora em que ia atender mais um cliente, chegou uma mensagem no celular.

Era de Annie: Venha comer comigo, sua tonta.

Sentaram-se num morrinho, duas saladas entre elas, o sol aparecendo de

forma intermitente atrás de nuvens que passavam devagar. Mae e Annie

observavam um trio de rapazes, pálidos e vestidos como engenheiros, tentando

arremessar uma bola de futebol americano.

“Quer dizer que você já é uma estrela. Eu me sinto como uma mãe

orgulhosa.”

Mae balançou a cabeça. “Não sou nada disso. Tenho muito a aprender.”

“Claro que tem. Mas chegar a 97 tão depressa? Isso é uma loucura. Eu não

passei de 95 na primeira semana. Você é um prodígio.”

Um par de sombras escureceu seu almoço.

“A gente pode conhecer a novata?”

Mae ergueu os olhos, fazendo sombra com a mão.

“Claro”, respondeu Annie.

As sombras sentaram-se. Annie acenou para eles com o garfo. “Estes são

Sabine e Josef.”

Mae apertou a mão deles. Sabine era loura, corpulenta, vesga. Josef era

magro, pálido, com dentes comicamente maltratados.

“Pronto, ela já está olhando para os meus dentes!”, lamentou-se Josef,

apontando para Mae. “Vocês, americanos, são obcecados! Eu me sinto como um

cavalo numa exposição.”

“Mas seus dentes são ruins”, disse Annie. “E nós temos um plano

odontológico excelente.”

Josef desembrulhou um burrito. “Acho que meus dentes proporcionam uma

folga necessária para a apavorante perfeição dos dentes de todo mundo.”

Annie inclinou a cabeça, examinando o rapaz. “Tenho certeza de que você

devia ajeitar seus dentes, se não por você mesmo, então pela moral da empresa.

Você faz a gente ter pesadelos.”

Josef fez um beicinho cômico, a boca cheia de carne assada. Annie deu uma

palmadinha de consolo em seu braço.

Sabine virou-se para Mae. “Então você está em Experiência do Cliente?” Mae

percebeu a tatuagem no braço de Sabine, o símbolo do infinito.

“Estou. Primeira semana.”

“Vi que você se saiu muito bem até agora. Também comecei lá. Assim como

todo mundo.”

“E a Sabine é bioquímica”, acrescentou Annie.

Mae ficou surpresa. “Você é bioquímica?”

“Sou.”

Mae não sabia que bioquímicos trabalhavam no Círculo. “Posso perguntar em

que você está trabalhando?”

“Se pode perguntar?”, sorriu Sabine. “Claro que pode perguntar. Mas eu não

tenho de contar nada para você.”

Todos suspiraram por um momento, então Sabine parou.

“Falando sério, não posso contar. Não agora, pelo menos. Em termos gerais,

trabalho em assuntos relacionados à biometria. Você sabe, reconhecimento de

íris, reconhecimento facial. Mas neste momento ando mexendo com uma coisa

nova. Eu bem que gostaria de...”

Annie dirigiu um olhar suplicante para ela se calar. Sabine encheu a boca de

alface.

“De todo modo”, disse Annie, “o Josef está no setor de Acesso Educacional.

Está tentando levar os tablets para escolas que neste momento não têm condições

de comprá-los. É um benfeitor. Também é amigo daquele seu novo amigo. O

Gargalo.”

“Garaventa”, corrigiu Mae.

“Ah. Então você se lembra. Esteve com ele de novo?”

“Não esta semana. Estava muito ocupada.”

Agora a boca de Josef ficou aberta. Alguma coisa tinha acabado de fazer

sentido para ele. “Você é a Mae?”

Annie teve um sobressalto. “Já dissemos isso. Claro que ela é a Mae.”

“Desculpe, não ouvi muito bem. Agora sei quem você é.”

Annie bufou. “O que vocês duas menininhas andaram falando sobre a grande

noite do Francis? Por acaso ele anda escrevendo o nome de Mae em seu

caderninho, cheio de corações em volta?”

Josef inspirou fundo com indulgência. “Não, ele só disse que tinha conhecido

uma garota muito bacana e que o nome dela era Mae.”

“Isso foi tão meigo”, disse Sabine.

“Pois ele contou para Mae que trabalhava na segurança”, disse Annie. “Por

que razão ele fez isso, Josef?”

“Não foi o que ele disse”, insistiu Mae. “Eu já falei para você.”

Annie pareceu não se importar. “Bem, acho que a gente pode chamar aquilo

de segurança. Cuida da segurança de crianças. Ele é basicamente o núcleo do

programa todo de prevenção de sequestros. Na verdade, ele podia fazer isso.”

Sabine, de boca cheia outra vez, fez que sim com a cabeça, energicamente. “É

claro vai”, disse ela, espirrando fragmentos de salada e vinagrete. “Está combinado.”

“Como assim?”, perguntou Mae. “Ele vai evitar todos os sequestros?”

“Ele poderia”, respondeu Josef. “Está motivado.”

Os olhos de Annie se arregalaram. “Ele contou para você a respeito das irmãs

dele?”

Mae balançou a cabeça. “Não, ele não me contou que tinha irmãos. O que é

que houve com as irmãs dele?”

Os três membros do Círculo se entreolharam, como que para avaliar se a

história tinha de ser contada ali e naquele momento.

“É a pior história que se pode imaginar”, disse Annie. “Os pais dele eram uns

fodidos na vida. Acho que a família tinha umas quatro ou cinco crianças, Francis

era o caçula ou o segundo mais novo. Seja como for, o pai estava na prisão e a

mãe vivia usando drogas, portanto os filhos foram mandados para vários lugares

diferentes. Acho que um foi para a casa dos tios e as duas irmãs dele foram para

um lar adotivo e depois foram sequestradas de lá. Acho que existe alguma

suspeita de que foram, você sabe, dadas ou vendidas para os assassinos.”

“Para o quê?” Mae ficou perplexa.

“Ah, meu Deus, elas foram estupradas e trancadas em armários e seus corpos

foram jogados em algum depósito de mísseis abandonado. Sabe, é a história

mais horrível que já ouvi. Ele contou essa história para muitos de nós quando

estava montando o tal programa de segurança infantil. Merda, olhe só para a sua

cara. Eu não devia ter contado tudo isso.”

Mae não conseguia falar.

“É importante que você saiba”, disse Josef. “É por isso que ele é tão

empenhado. Quero dizer, seu plano teria grande chance de eliminar a

possibilidade de uma coisa dessas voltar a acontecer. Espere. Que horas são?”

Annie conferiu no telefone. “Tem razão. Temos de correr. O Bailey vai fazer

um lançamento. Precisamos ir para o Salão Principal.”

 

O Salão Principal ficava no Iluminismo e, quando eles entraram no local —

uma câmara decorada em madeira de tonalidade forte e aço escovado com três

mil e quinhentos lugares —, havia no ar um rebuliço de expectativa. Mae e

Annie encontraram um dos últimos pares de assentos vagos no segundo balcão e

sentaram-se.

“Faz só dois meses que terminaram de construir isto aqui”, explicou Annie.

“Quarenta e cinco milhões de dólares. Bailey projetou o traçado com base na

Duomo de Siena. Bonito, não é?”

A atenção de Mae foi atraída para o palco, onde um homem caminhava para

uma tribuna de acrílico, em meio a um estrondo de aplausos. Era um homem alto de uns quarenta e cinco anos, barrigudo mas de aparência saudável, de jeans e

suéter azul com gola em V. Não havia nenhum microfone visível, porém,

quando começou a falar, sua voz soou amplificada e clara.

“Oi, pessoal. Meu nome é Eamon Bailey”, disse, para mais uma salva de

palmas, que ele rapidamente fez cessar. “Obrigado. Estou muito feliz de ver

vocês aqui. Muitos de vocês são novos na empresa, entraram depois da última

vez que falei aqui, mês passado. Os novatos podem ficar de pé?” Annie cutucou

Mae. Ela se levantou, olhou para a plateia em redor e viu mais ou menos

sessenta pessoas de pé, a maioria da sua idade, todos com ar tímido, todos

discretamente bem vestidos, representando em conjunto todas as raças e etnias e,

graças aos esforços do Círculo para liberar autorizações de trabalho para

funcionários estrangeiros, de uma estonteante variedade de nacionalidades. Os

aplausos do resto dos membros do Círculo foram fortes, misturados com alguns

gritos aqui e ali. Mae sentou-se.

“Você fica tão bonitinha quando fica vermelha”, disse Annie.

Mae afundou na poltrona.

“Novatos”, disse Bailey, “vocês estão aqui para uma coisa especial. Esta é a

chamada Sexta dos Sonhos, na qual apresentamos um projeto em que estamos

trabalhando. Muitas vezes é com algum de nossos engenheiros, projetistas ou

visionários, e às vezes sou só eu mesmo. E hoje, para o bem ou para o mal, sou

só eu. Por isso peço desculpas antecipadas.”

“A gente te ama, Eamon!”, soou uma voz na plateia. Seguiram-se risos.

“Bem, muito obrigado”, disse ele. “Eu amo vocês também. Amo vocês assim

como a grama ama o orvalho, como as aves amam o galho de uma árvore.” Fez

uma breve pausa, o que permitiu a Mae recuperar o fôlego. Ela já vira aquelas

palestras pela internet, mas estar presente ali, em pessoa, vendo a mente de

Bailey em ação, ouvindo sua eloquência espontânea — era melhor do que ela

imaginava ser possível. Como seria, pensou Mae, ser alguém assim, eloquente e

inspirador, tão à vontade na frente de milhares de pessoas?

“Sim”, prosseguiu Bailey, “já passou um mês desde a última vez que subi

neste palco e sei que meus substitutos foram insatisfatórios.” A brincadeira

despertou risadas em toda a plateia. “E sei que muitos de vocês ficaram se

perguntando onde foi que eu me meti.”

Uma voz na frente do salão gritou: “Estava surfando!”. E o auditório riu.

“Bem, é verdade. Andei surfando um pouco e isso faz parte do assunto de que

vim tratar aqui. Adoro surfar e, quando quero surfar, preciso saber como estão as

ondas. Pois bem, o costume antigamente era a gente acordar, telefonar para a

loja de surfe do bairro e perguntar como as ondas estavam. Mas em pouco tempo

eles paravam de atender o telefone.”

Risadas ressoaram do contingente de mais idade da plateia.

“Quando os telefones celulares proliferaram, a gente podia ligar para os

amigos que talvez tivessem chegado à praia antes de nós. Mas eles também

paravam de atender o celular.”

Mais uma grande gargalhada na plateia.

“Mas, falando sério. Não é nada prático dar doze telefonemas todo dia de

manhã, e como é que se vai confiar na avaliação que os outros fazem das

condições das ondas? Os surfistas não querem saber de mais ninguém nas ondas

limitadas que a gente tem por aqui. Então apareceu a internet e aqui e ali alguns

gênios instalaram câmeras nas praias. A gente entrava na internet e obtinha

algumas imagens bem toscas das ondas em Stinson Beach. Era quase pior do que

telefonar para a loja de surfe! A tecnologia era muito primitiva. A tecnologia de

transmissão de vídeos ainda é. Ou era. Até agora.”

Uma tela desceu atrás dele.

“Muito bem. Aqui está como era antes.”

A tela mostrava a imagem de um navegador de internet padrão e uma mão

invisível digitou na linha de URL a busca de um site chamado SurfSight.

Apareceu um site pobremente projetado, com uma imagem minúscula de uma

praia no meio. Era ridículo e de uma lentidão cômica. A plateia soltou umas

risadinhas.

“Quase inútil, não é? Pois bem, como sabemos, a transmissão de vídeo ficou

muito melhor nos últimos anos. Mas continua mais lenta do que a vida real e a

qualidade da tela é bem decepcionante. Então resolvemos, creio, as questões da

qualidade no ano passado. Agora vamos atualizar essa página para mostrar o site

com nossa nova técnica de transmissão de vídeo.”

Então a página foi atualizada e a praia era uma imagem de tela inteira, com

resolução perfeita. Ouviram-se exclamações de pasmo em todo o salão.

“Sim, este é o vídeo ao vivo de Stinson Beach. Isso é Stinson neste exato

momento. Parece muito bom, não é? Talvez eu devesse estar lá, em vez de ficar

aqui parado na frente de vocês!”

Annie inclinou-se para Mae. “A próxima parte é incrível. Espere só.”

“Agora, muitos de vocês não ficaram tão impressionados assim. Como todos

sabemos, várias máquinas podem transmitir vídeos com alta resolução e muitos

de nossos tablets e telefones celulares já podem suportá-los. Mas existem em

tudo isso alguns aspectos novos. A primeira parte é como estamos obtendo essa

imagem. Vocês ficariam surpresos se soubessem que não está vindo de uma

câmera grande, mas sim de uma destas aqui?”

Estava segurando na mão um pequeno aparelho, da forma e do tamanho de um

pirulito.

“Isto é uma câmera de vídeo e este é exatamente o modelo que está captando

essa imagem de qualidade incrível. Uma qualidade de imagem que suporta esse

tipo de ampliação. Portanto isso é a primeira coisa importante. Agora podemos

obter uma qualidade de resolução de alta definição com uma câmera do tamanho

de um dedo polegar. Bem, de um polegar bastante grande. A segunda coisa

importante é que, como podem ver, esta câmera não precisa de fio nenhum.

Transmite essa imagem via satélite.”

Uma salva de palmas sacudiu o salão.

“Espere. Eu já disse que ela funciona com uma bateria de lítio que dura dois

anos? Não? Pois é isso mesmo. E também estamos a um ano de conseguir um

modelo totalmente movido a energia solar. À prova d’água, à prova de areia, à

prova de vento, à prova de animais, à prova de insetos, à prova de tudo.”

Mais aplausos tomaram o salão.

“Muito bem, então instalei a câmera hoje de manhã. Colei na ponta de uma

estaca, cravei a estaca na areia, nas dunas, sem pedir permissão a ninguém, nada.

Na verdade, ninguém sabe que ela está lá. Assim, hoje de manhã, liguei a

câmera, depois voltei de carro para o trabalho, acessei a Câmera 1, Stinson

Beach, e obtive essa imagem. Nada mau. Mas isso não é nem a metade. Na

verdade, hoje de manhã, eu estive muito ocupado. Peguei o carro e instalei outra

câmera também na Rodeo Beach.”

E então a imagem original, de Stinson Beach, se encolheu e se deslocou para

um canto da tela. Outra caixa surgiu, mostrando as ondas em Rodeo Beach,

alguns quilômetros ao sul na costa do Pacífico. “E depois Montara. E Ocean

Beach. Fort Point.” A cada praia que Bailey mencionava, aparecia outra imagem

ao vivo. Agora havia seis praias numa grade, todas ao vivo, visíveis com nitidez

perfeita e em cores brilhantes.

“Agora, lembrem-se: ninguém vê essas câmeras. Eu as escondi muito bem.

Para uma pessoa comum, parecem mato, algum tipo de galho. Qualquer coisa.

Elas passam despercebidas. Portanto, em poucas horas, nessa manhã, instalei

acessos de vídeo de nitidez perfeita em seis lugares diferentes que me ajudam a

saber como devo planejar meu dia. E tudo que fazemos aqui tem a ver com

conhecer o que antes não se conhecia, certo?”

Cabeças fizeram que sim. Um leve aplauso.

“Muito bem, portanto, muitos de vocês estão pensando: bem, isso é só uma

espécie de tevê em circuito fechado misturado com tecnologia de transmissão

pela internet, por satélite e tudo isso. Beleza. Mas, como vocês sabem, fazer isso

com a tecnologia existente seria proibitivamente dispendioso para uma pessoa

comum. Mas e se tudo isso tiver um preço acessível para qualquer pessoa? Meus

amigos, estamos tratando de baratear essas coisinhas para vender — daqui a poucos meses, vejam bem — por cinquenta e nove dólares cada uma.”

Bailey ergueu a câmera-pirulito para a frente e jogou-a em cima de alguém

que estava na primeira fila. A mulher que a segurou levantou-a bem alto, virando

para a plateia e sorrindo de alegria.

“Vocês podem comprar dez delas para o Natal e, de uma hora para outra, ter

acesso a todo e qualquer lugar que quiserem: casa, trabalho, trânsito. E qualquer

pessoa pode instalar as câmeras. Leva cinco minutos, no máximo. Imaginem o

impacto!”

A tela por trás dele ficou limpa, as praias sumiram e surgiu uma nova grade.

“Aqui está a imagem do meu quintal”, disse ele, revelando uma imagem ao

vivo de um quintal arrumado e modesto. “Aqui está meu jardim. Minha

garagem. Aqui está uma câmera num morro que dá para a rodovia 101, no ponto

onde engarrafa na hora do rush. Aqui está uma câmera perto da minha vaga no

estacionamento, para ver se ninguém estacionou no meu lugar.”

E logo a tela continha dezesseis imagens definidas, todas transmitidas ao vivo.

“Agora, essas são apenas as minhas câmeras. Tenho acesso a todas elas

simplesmente digitando Câmera 1, 2, 3, 12, o que for. Muito fácil. Mas e quanto

a compartilhar? Ou seja, e se meu amigo tiver algumas câmeras ligadas e quiser

me dar acesso a elas?”

Então a grade da tela se multiplicou, de dezesseis caixas para trinta e duas.

“Aqui estão as telas de Lionel Fitzpatrick. Ele está a fim de esquiar, portanto

posicionou suas câmeras de modo que possa saber as condições em vinte locais

em Tahoe.”

Então apareceram doze imagens ao vivo de montanhas cobertas de branco,

vales azuis gelados, cumes de montanhas recobertos por coníferas muito verdes.

“Lionel pode me dar acesso a qualquer câmera que ele quiser. É como

adicionar alguém à lista de amigos, só que com acesso a todas as suas imagens

ao vivo. Esqueçam a tevê a cabo. Esqueçam os quinhentos canais. Se você tiver

mil amigos e cada um deles tiver dez câmeras, você tem então dez mil opções de

transmissão ao vivo. Se você tiver cinco mil amigos, terá cinquenta mil opções.

E em pouco tempo terá condições de conectar-se a milhões de câmeras pelo

mundo inteiro. Mais uma vez, imaginem o impacto!”

A tela se atomizou em mil minitelas. Praias, montanhas, lagos, cidades,

escritórios, salas de estar. A multidão aplaudiu loucamente. Em seguida, a tela

ficou vazia e do escuro surgiu um sinal de paz, em branco.

“Agora imaginem o impacto nos direitos humanos. Os manifestantes nas ruas

do Egito não terão mais de segurar uma câmera na esperança de filmar alguma

violação dos direitos humanos ou um assassinato e de alguma forma conseguir

transportar a cena das ruas para a internet. Agora isso é tão fácil quanto colar uma câmera numa parede. Na verdade, foi exatamente o que fizemos.”

Um suspiro de espanto percorreu a plateia.

“Vamos ver a Câmera 8, no Cairo.”

Surgiu uma cena de rua ao vivo. Havia cartazes caídos na rua, dois policiais

de choque parados, ao longe.

“Eles não sabem que estamos vendo, mas estamos. O mundo está vendo. E

ouvindo. Liguem o áudio.”

De repente, eles podiam ouvir nitidamente uma conversa em árabe entre os

pedestres que passavam perto da câmera, sem saber que eram ouvidos.

“E é claro que a maioria das câmeras pode ser manipulada manualmente ou

por meio de reconhecimento de voz. Vejam isso. Câmera 8, vire à esquerda.” Na

tela, a câmera que captava a imagem da rua do Cairo se moveu para a esquerda.

“Agora para a direita.” Ela se moveu para a direita. Bailey demonstrou como ela

se movia para cima, para baixo, na diagonal, tudo com uma fluidez

extraordinária.

A plateia aplaudiu de novo.

“Agora lembrem que essas câmeras são baratas, fáceis de esconder e que não

precisam de fios. Então não foi tão difícil assim, para nós, colocá-las por todo

lado. Vamos mostrar Tahrir.”

Pequenas exclamações ressoaram na plateia. Agora na tela havia uma cena ao

vivo da praça Tahrir, o berço da Revolução Egípcia.

“Mandamos nosso pessoal no Cairo instalar as câmeras na semana passada.

São tão pequenas que o exército não consegue encontrar. Eles nem sabem onde

procurar! Vamos mostrar o resto das imagens. Câmera 2. Câmera 3. Quatro.

Cinco. Seis.”

Havia imagens de cinco ângulos da praça, todas tão nítidas que se podia ver o

suor no rosto dos soldados e se podia ler facilmente seus nomes na etiqueta de

identificação do uniforme.

“Agora de 7 até 50.”

Surgiu uma grade de cinquenta imagens que pareciam cobrir todo o espaço

público. A plateia rugiu outra vez. Bailey ergueu as mãos como se quisesse

dizer: “Ainda não. Tem muito mais”.

“Agora a praça está tranquila, mas podem imaginar se alguma coisa

acontecesse? Haveria uma responsabilidade imediata. Qualquer soldado que

cometesse um ato de violência ficaria instantaneamente gravado para a

posteridade. Poderia ser processado por crimes de guerra ou o que quiserem. E

mesmo que ponham para fora da praça todos os jornalistas, as câmeras vão

continuar lá. E não importa quantas vezes eles tentem eliminar as câmeras,

porque são tão pequenas que eles nunca vão ter certeza de onde elas estão, nem de quem as colocou, nem onde e nem quando. E o fato de não saberem vai evitar

abusos de poder. Pensem num soldado comum que agora vai ficar preocupado

com o fato de haver uma dúzia de câmeras filmando e gravando para toda a

eternidade que ele arrastou uma mulher pela rua. Pois é, é bom mesmo que fique

preocupado. É bom que fique preocupado com essas câmeras. É bom que ele

fique preocupado com a SeeChange.* É assim que estamos chamando isso.”

Houve uma rápida salva de palmas, que aumentou à medida que a plateia

começou a entender o duplo sentido da expressão.

“Gostaram?”, perguntou Bailey. “Muito bem, agora, isso não se aplica apenas

a áreas em conflito. Imaginem qualquer cidade com esse tipo de cobertura.

Quem vai cometer um crime sabendo que pode ser visto a qualquer momento,

em qualquer lugar? Meus amigos no FBI acham que isso pode baixar os índices

de criminalidade em setenta, oitenta por cento, em qualquer cidade onde

tivermos uma saturação real e significativa.”

Os aplausos foram maiores.

“Mas por enquanto vamos voltar aos lugares do mundo onde mais precisamos

de transparência e onde é tão raro obtê-la. Aqui está um apanhado de locais do

mundo onde instalamos câmeras. Agora imaginem o impacto que essas câmeras

teriam no passado, e que terão no futuro, se eventos semelhantes ocorressem.

Aqui estão cinquenta câmeras na praça Tiananmen.”

Imagens ao vivo de toda a praça encheram a tela e a plateia retumbou

novamente. Bailey prosseguiu, revelando a cobertura visual de uma dúzia de

regimes autoritários, de Cartum até Pyongyang, onde as autoridades não tinham

a menor ideia de que estavam sendo observadas por três mil membros do Círculo

na Califórnia — não tinham a menor ideia de que podiam ser observados, de que

essa tecnologia era ou seria algum dia possível.

Então Bailey limpou a tela outra vez e avançou um passo para a plateia.

“Vocês entendem o que estou dizendo, não é? Em situações assim, concordo

com Haia, com os ativistas dos direitos humanos de todo o mundo. É preciso que

haja a responsabilização. Os tiranos não podem mais ficar escondidos. É preciso

que haja, e haverá, documentação e responsabilização, e precisamos dar

testemunho. E para que isso se realize, insisto que tudo que acontece deve ser

conhecido.”

Na tela apareceram as palavras:

TUDO QUE ACONTECE DEVE SER CONHECIDO.

“Pessoal, estamos na aurora de um Segundo Iluminismo. E não estou falando

de um novo prédio no campus. Estou falando de uma nova era em que não

vamos permitir que a maior parte do pensamento, da ação, das conquistas, do

conhecimento humano se perca como se vazasse de um balde rachado. Fizemos isso antes. Chamou-se Idade Média, ou Idade das Trevas. Se não fossem os

monges, tudo o que mundo havia aprendido estaria perdido. Pois bem, vivemos

uma época semelhante, em que estamos perdendo a maior parte do que fazemos,

vemos e aprendemos. Mas não é preciso que seja assim. Não com essas câmeras

e não com a missão do Círculo.”

Virou-se de novo para a tela e a tela escreveu, convocando a plateia a guardar

na memória:

TUDO QUE ACONTECE DEVE SER CONHECIDO.

Bailey virou-se para a plateia e sorriu.

“Muito bem, agora vamos voltar para casa. Minha mãe tem oitenta e um anos

de idade. Não caminha mais com a mesma facilidade de antes. Um ano atrás ela

caiu e fraturou o quadril e, de lá para cá, ando preocupado com ela. Pedi que ela

me deixasse instalar algumas câmeras para que eu pudesse ter acesso às imagens

por meio de um circuito fechado, mas ela recusou. Porém agora estou tranquilo.

No final de semana passada, enquanto ela tirava um cochilo…”

Uma onda de risos irrompeu na plateia.

“Desculpe! Desculpe!”, disse ele. “Eu não tive escolha. De outra maneira, ela

não ia deixar que eu fizesse isso. Portanto instalei as câmeras às escondidas em

todos os cômodos. São tão pequenas que ela nunca vai notar. Vou mostrar para

vocês muito rapidamente. Podemos mostrar as câmeras de 1 a 5 na casa de

minha mãe?”

Uma grade de imagens surgiu, inclusive de sua mãe, caminhando devagar por

um corredor iluminado, enrolada numa toalha. Irrompeu uma risada estrondosa.

“Opa. Vamos pular essa.” A imagem desapareceu. “De todo modo, a questão

é que eu sei que ela está bem e isso me dá uma sensação de paz. Como todos

aqui no Círculo sabemos, a transparência leva à paz de espírito. Eu não preciso

mais ficar preocupado e me perguntando ‘Como está minha mãe?’. Não preciso

mais ficar angustiado e me perguntando: ‘O que está acontecendo em

Myanmar?’.

“Estamos fabricando um milhão de câmeras deste modelo e minha previsão é

de que em um ano teremos um milhão de transmissões ao vivo acessíveis. Em

cinco anos, cinco milhões. Em dez, dois bilhões de câmeras. Haverá poucas

áreas povoadas fora do acesso das telas que temos em nossas mãos.”

A plateia aplaudiu com estrondo outra vez. Alguém gritou: “Queremos isso

agora!”.

Bailey prosseguiu: “Em vez de fazer uma busca na internet, só para encontrar

um vídeo editado e de qualidade horrorosa, agora vamos para SeeChange,

digitamos Myanmar. Ou você digita o nome de seu namorado no colégio. É bem

provável que alguém tenha instalado uma câmera perto dele, não é? Por que nossa curiosidade sobre o mundo não haveria de ser recompensada? Você quer

ver Fiji, mas não pode ir lá? SeeChange. Quer ver como anda seu filho na

escolar? SeeChange. Essa é a última palavra em transparência. Nenhum filtro.

Ver tudo. Sempre”.

Mae inclinou-se para Annie. “Isso é incrível.”

“Eu sei, não é?”, respondeu Annie.

“Agora, será que essas câmeras precisam ser estáticas?”, perguntou Bailey,

erguendo um dedo com ar de repreensão. “Claro que não. Por acaso, tenho uma

dúzia de ajudantes em todo o mundo neste exato momento, com câmeras presas

ao pescoço. Vamos visitá-los, que tal? Posso ver a imagem da câmera do

Danny?”

Uma imagem de Machu Picchu surgiu na tela. Parecia um cartão-postal, uma

tomada de cima, bem do alto, das ruínas antigas. E depois começou a mover-se

para baixo, na direção do monumento. A multidão da plateia suspirou e depois

aplaudiu.

“Essa é uma imagem ao vivo, embora eu creia que isso seja óbvio. Oi, Danny.

Agora vamos ver Sarah no Monte Quênia.” Surgiu outra imagem na grande tela,

agora dos campos de xisto no alto da montanha. “Pode apontar para o pico, para

nós, Sarah?” A câmera deslizou numa panorâmica para o alto, revelando o pico

da montanha, envolto em neblina. “Vejam, isso abre a possibilidade de

suplências visuais. Imaginem que estou de cama, ou debilitado demais para

explorar eu mesmo as montanhas. Então mando alguém para lá com uma câmera

presa ao pescoço e posso vivenciar tudo em tempo real. Vamos dar uma olhada

em mais alguns lugares.” Apresentou imagens ao vivo de Paris, Kuala Lumpur e

de um pub em Londres.

“Agora vamos experimentar um pouco, usando tudo isso junto. Estou sentado

em minha casa. Entro no site e quero ter uma noção do mundo. Mostre-me o

trânsito na 101. Ruas de Jacarta. Surfe em Bolinas. A casa de minha mãe.

Mostre-me as webcams de todo mundo que estudou comigo no ensino médio.”

A cada comando apareciam imagens novas, até haver pelo menos cem

imagens ao vivo na tela ao mesmo tempo.

“Vamos nos tornar onividentes, oniscientes.”

A plateia agora estava de pé. O aplauso retumbou pelo salão. Mae repousou a

cabeça no ombro de Annie.

“Tudo que acontece será conhecido”, sussurrou Annie.

 

“Você está com um brilho diferente.”

“Está sim.”

“Não estou com brilho nenhum.”

“Como se estivesse grávida.”

“Sei o que você quis dizer. Pare.”

O pai de Mae esticou o braço sobre a mesa e segurou a mão dela. Era sábado e

seus pais estavam lhe oferecendo um jantar comemorativo pela sua primeira

semana de trabalho no Círculo. Era o tipo de bobeira sentimental que eles viviam

fazendo, pelo menos recentemente. Quando Mae era menor, filha única de um

casal que por muito tempo pensou em não ter filhos, a vida doméstica deles era

mais complicada. Durante a semana, o pai era raro. Trabalhava como gerente de

obras num complexo comercial em Fresno, catorze horas por dia, deixando todos

os assuntos de casa por conta da mãe, que trabalhava três turnos por semana no

restaurante de um hotel e que reagia a toda aquela pressão com um

temperamento explosivo, primordialmente dirigido a Mae. Mas quando Mae

tinha dez anos, seus pais anunciaram que tinham comprado um estacionamento

de dois andares perto do centro de Fresno e, durante alguns anos, os dois se

revezaram na gerência do negócio. Era humilhante para Mae ouvir os pais de

suas amigas dizerem: “Ei, vi sua mãe no estacionamento”, ou “Agradeça a seu

pai mais uma vez por me deixar estacionar de graça”, mas pouco depois as

finanças deles se estabilizaram e eles puderam contratar alguns empregados para

se revezarem. E quando os pais puderam começar a tirar um dia de folga e fazer

planos para mais do que alguns meses, eles se abrandaram, tornaram-se um casal

velho muito calmo, irritantemente afetuoso. Era como se, no curso de um ano,

eles se transformassem de pais jovens e complicados em avós vagarosos e

amáveis, sem a menor ideia do que sua filha desejava exatamente. Quando ela

terminou o ensino fundamental, levaram-na à Disneylândia sem se dar conta de

que ela já era grande demais para isso e que o fato de ir para lá sozinha — com

dois adultos, o que na prática significava que ia sozinha — estava em

contradição com qualquer ideia de diversão. Mas eles eram tão bem-

intencionados que ela não podia recusar, e no final tiveram uma espécie de

diversão despreocupada que Mae nem sabia que era possível na companhia dos

pais. Qualquer ressentimento remanescente que ela pudesse dirigir a eles por

conta das incertezas emocionais de quando era mais nova era apagado pela

constante água fria da meia-idade tardia dos pais.

E agora eles foram de carro até a baía para passar o fim de semana na pensão

mais barata que conseguiram encontrar — que ficava a vinte e quatro

quilômetros do Círculo e parecia um hotel fantasma. Agora tinham ido para um

restaurante pseudochique de que os dois tinham ouvido falar e, se alguém estava

com um brilho diferente, eram os dois. Eles estavam radiantes.

“E aí? É muito bom mesmo?”, perguntou a mãe.

“É sim.”

“Eu já sabia.” Sua mãe relaxou e cruzou os braços.

“Não quero nunca mais trabalhar em outro lugar”, disse Mae.

“Que alívio”, disse o pai. “Nós também não queremos que você trabalhe em

nenhum outro lugar.”

A mãe deu um bote e agarrou o braço de Mae. “Contei para a mãe da

Karolina. Você conhece.” Torceu o nariz — o mais perto de um insulto que ela

podia chegar. “Ela reagiu como se alguém tivesse cravado uma faca afiada em

suas costas. Ficou fervendo de inveja.”

“Mãe.”

“Deixei escapar qual era seu salário.”

“Mãe.”

“Eu só falei assim: ‘Espero que ela consiga se virar com um salário de

sessenta mil dólares’.”

“Não acredito que você disse isso para ela.”

“É verdade, não é?”

“Na verdade são sessenta e dois.”

“Ah, meu Deus. Agora vou ter que falar para ela.”

“Não, não vai não.”

“Está certo, não vou. Mas foi muito divertido”, disse a mãe. “Eu simplesmente

deixei escapar no meio da conversa, assim de passagem, como quem não quer

nada. Minha filha está trabalhando na empresa mais chique do planeta e tem um

plano odontológico completo.”

“Por favor, não faça isso. Eu tive sorte, mais nada. E a Annie…”

O pai inclinou-se para a frente. “Como vai a Annie?”

“Vai bem.”

“Diga a ela que nós a adoramos.”

“Pode deixar.”

“Ela não pôde vir hoje aqui?”

“Não. Está ocupada.”

“Mas você convidou?”

“Convidei. Ela mandou um abraço. Mas trabalha muito.”

“O que ela faz, exatamente?”, perguntou a mãe.

“Na verdade, tudo”, respondeu Mae. “Faz parte da Gangue dos 40. Participa

de todas as decisões importantes. Acho que ela é especializada em lidar com

questões regulatórias em outros países.”

“Tenho certeza de que ela tem muita responsabilidade.”

“E opção de compra de ações!”, disse o pai. “Não consigo imaginar quanto ela

ganha.”

“Pai. Não fique pensando nisso.”

“Para que ela fica trabalhando se tem todas aquelas opções de compra? No

lugar dela, eu estaria numa praia. Eu teria um harém.”

A mãe de Mae colocou sua mão sobre a dele. “Vinnie, pare.” Então voltou-se

para Mae e disse: “Espero que ela tenha tempo livre para aproveitar tudo isso”.

“Ela tem”, respondeu Mae. “Na certa ela está numa festa lá no campus,

enquanto estamos aqui conversando.”

O pai sorriu. “Adoro que vocês chamem o lugar de campus. É muito legal.

Antigamente chamávamos esses lugares de escritórios.”

A mãe de Mae pareceu ficar embaraçada. “Uma festa, Mae? E você não quis

ir?”

“Eu queria, mas queria ver vocês. E lá tem muitas festas.”

“Mas logo na sua primeira semana?”, a mãe se mostrou aflita. “Talvez você

devesse ter ido. Agora fiquei mal. Nós tiramos você da festa.”

“Acredite em mim. Lá tem festa dia sim, dia não. São muito sociáveis. Não

tem nenhum problema para mim.”

“Você não está levando seu almoço ainda, não é?”, perguntou a mãe. Ela fez a

mesma recomendação quando Mae começou a trabalhar na empresa de serviço

público: Não leve almoço de casa na primeira semana. Isso não é bem-visto.

“Não se preocupe”, respondeu Mae. “Eu nem usei o banheiro de lá.”

A mãe fez uma careta. “De todo modo, deixe-me dizer que estamos muito

orgulhosos de você. Amamos você.”

“E a Annie também”, disse o pai.

“Certo. Amamos você e a Annie.”

Comeram rapidamente, sabendo que o pai de Mae logo ficaria cansado. Ele

tinha feito questão de sair para jantar, embora raramente fizesse isso em sua

cidade. Seu cansaço era constante e podia vir de repente e com muita força,

deixando-o à beira da prostração. Quando estavam fora de casa, como agora, era

importante que estivessem prontos para sair rapidamente. Assim, antes da

sobremesa, eles saíram. Mae acompanhou os pais até seu quarto e lá, entre as

dúzias de bonecas dos donos da pensão, espalhadas pelo quarto e olhando para eles, Mae e os pais puderam relaxar, sem temor de incidentes. Mae não tinha se

acostumado ao fato do pai ter esclerose múltipla. O diagnóstico tinha sido feito

havia apenas dois anos, embora os sintomas já fossem visíveis muito antes disso.

Ele embolava as palavras, errava o alvo quando tentava pegar objetos e, por fim,

tinha caído duas vezes, sempre no saguão da própria casa, ao estender a mão

para abrir a porta da frente. Então eles venderam o estacionamento, obtiveram

um lucro razoável e agora passavam o tempo cuidando da saúde dele, o que

significava conferir as contas dos médicos e brigar com a empresa do plano de

saúde pelo menos algumas horas por dia.

“Ah, nós vimos o Mercer um dia desses”, disse a mãe, e o pai sorriu. Mercer

era um ex-namorado de Mae, um dos quatro namorados mais sérios que ela

tivera no ensino médio e na faculdade. Porém, para seus pais, Mercer era o único

que importava realmente, ou o único que eles reconheciam e lembravam. O fato

de ele continuar morando na cidade ajudava bastante.

“Que bom”, disse Mae, querendo pôr logo fim àquele assunto. “Ele continua

fazendo candelabros com chifres de cervos?”

“Vamos com calma”, disse o pai, percebendo o tom irritado na voz da filha.

“Agora ele tem seu próprio negócio. E não que ele se vanglorie nem nada, mas

parece que está indo de vento em popa.”

Mae precisava mudar de assunto. “Já consegui nota média 97 em minha

avaliação”, disse ela. “Dizem que é o recorde para um novato.”

A expressão no rosto dos pais foi de perplexidade. O pai piscou os olhos

lentamente. Eles não tinham a menor ideia do que ela estava falando. “O que é

isso, meu bem?”, perguntou o pai.

Mae começou a falar. Quando ouviu as palavras saírem da boca, entendeu que

a frase seria comprida demais para explicar. “Como vão as coisas com o plano

de saúde?”, perguntou Mae e na mesma hora se arrependeu. Por que fazia

perguntas como essa? A resposta ia tomar a noite inteira.

“Não vão bem”, respondeu a mãe. “Não sei. Temos um plano ruim. Quer

dizer, eles não querem assegurar seu pai, pura e simplesmente isso, e parece que

fazem tudo que podem para abandonarmos o plano. Mas como vamos fazer isso?

Não teríamos para aonde ir.”

O pai ergueu a cabeça. “Fale para ela sobre a prescrição.”

“Ah, está certo. Seu pai está tomando Copaxone faz dois anos, por causa da

dor. Ele precisa. Sem isso…”

“A dor fica… tremenda”, disse ele.

“Pois o plano de saúde diz que ele não precisa do remédio. Não faz parte da

lista de medicamentos pré-aprovada. Apesar de ele estar usando o remédio há

dois anos!”

“Parece uma crueldade desnecessária”, disse o pai de Mae.

“Eles não ofereceram nenhuma alternativa. Nada para a dor!”

Mae não sabia o que dizer. “Lamento. Posso fazer uma busca na internet para

ver se existem alternativas? Quer dizer, será que vocês verificaram se os

médicos podem indicar outro remédio que o plano de saúde queira pagar? Talvez

um genérico…”

E a conversa se estendeu por uma hora e, no fim, Mae estava arrasada. A

esclerose múltipla, sua impotência para atenuar a doença, sua incapacidade para

recuperar a vida que o pai tinha conhecido — aquilo torturava Mae, mas a

situação do plano de saúde era outra coisa, era um crime desnecessário, um

exagero. Será que essas empresas não se davam conta de que o custo de suas

evasivas e negativas e toda a frustração que causavam só serviam para piorar

mais ainda a saúde do pai e também ameaçava a da mãe? No mínimo, era algo

ineficiente. O tempo gasto para negar a cobertura, discutir, recusar, impedir, sem

dúvida gerava mais problema do que simplesmente assegurar aos pais o acesso

aos cuidados devidos.

“Chega de falar disso”, disse a mãe. “Trouxemos uma surpresa para você.

Onde está? Está com você, Vinnie?”

Juntaram-se na cama coberta por uma colcha de retalhos puída e o pai

entregou para Mae um pequeno embrulho de presente. O tamanho e o formato da

caixa sugeriam uma gravata, mas Mae sabia que não podia ser isso. Quando

desembrulhou o pacote, abriu a caixa de veludo e riu. Era uma caneta, uma

dessas canetas especiais, de prata e estranhamente pesada, que requeria cuidado,

recarga e servia sobretudo para ostentação.

“Não se preocupe, não compramos”, disse o pai de Mae.

“Vinnie!”, gemeu a mãe.

“Sério”, disse ele, “não compramos. Um amigo meu me deu essa caneta ano

passado. Ele ficou com pena por eu não poder mais trabalhar. Não sei que tipo

de utilidade ele achou que a caneta podia ter para mim, quando mal consigo

digitar num teclado. Mas aquele cara nunca foi mesmo muito inteligente.”

“Achamos que ia ficar bonita na sua mesa de trabalho”, acrescentou a mãe.

“Somos ou não somos os melhores?”, disse o pai.

A mãe de Mae riu e, mais importante, o pai de Mae riu. Ele tinha uma dessas

gargalhadas sonoras. Na segunda fase da vida dos pais, a fase mais calma, ele

passou a ser alguém que ria muito, ria toda hora, um homem que ria de tudo. Era

o som primário dos anos de adolescência de Mae. O pai ria de coisas que eram

nitidamente engraçadas e de coisas capazes de provocar no máximo um sorriso

na maioria das pessoas, e ria também nas horas em que devia ficar sério. Quando

Mae era malcomportada, ele achava hilariante. Certa noite, surpreendeu a filha escapulindo pela janela do quarto para se encontrar com Mercer, e ele quase

desmaiou de tanto rir. Tudo era cômico, tudo na adolescência de Mae era motivo

de gargalhada para o pai. “Você devia ter visto a cara que fez quando me viu!

Impagável!”

Mas aí veio o diagnóstico de esclerose múltipla e a maior parte daqueles risos

foi embora. A dor era constante. Os ataques em que ele não conseguia se

levantar, em que não conseguia que suas pernas o suportassem, eram muito

frequentes, muito perigosos. Toda semana ele ia parar no pronto-socorro do

hospital. E por fim, graças aos esforços heroicos da mãe de Mae, ele encontrou

alguns médicos que lhe deram atenção, prescreveram os medicamentos corretos

e estabilizaram a doença, pelo menos por um tempo. E depois vieram os embates

com o plano de saúde, a descida para o purgatório dos serviços de assistência

médica.

Naquela noite, porém, ele estava muito animado e a mãe sentia-se bem, pois

tinha encontrado um vinho xerez na minúscula cozinha, que ela dividia com

Mae. O pai dali a pouco estava dormindo com as roupas que vestia, estirado em

cima das cobertas, com todas as luzes acesas, enquanto Mae e a mãe ainda

falavam em alto volume. Quando perceberam que ele havia apagado, Mae

arrumou uma cama para si bem perto da cama deles.

De manhã, dormiram até tarde e foram a um restaurante para almoçar. O pai

comeu bem e Mae observou a mãe fingir indiferença, os dois conversando sobre

o último negócio extravagante de um tio excêntrico, algo que tinha a ver com

criar lagostas em plantações de arroz. Mae sabia que a mãe, a todo momento,

ficava nervosa e preocupada com o pai, por sair duas vezes seguidas com ele

para comer fora, e o observava com toda atenção. O pai parecia alegre, mas suas

energias diminuíram rapidamente.

“Vocês podem ficar conversando”, disse ele. “Vou para o carro me reclinar

um pouco.”

“Podemos ajudar”, disse Mae, porém a mãe fez sinal para ela se calar. O pai já

estava de pé e andava na direção da porta.

“Ele fica cansado. Está tudo bem”, disse a mãe. “É só essa rotina diferente.

Ele descansa. Faz as coisas, anda, come, fica animado por um tempo, depois

descansa. É muito regular e tranquilizador, para dizer a verdade.”

Elas pagaram a conta e saíram para o estacionamento. Através da janela do

carro, Mae viu os tufos brancos do cabelo do pai. A maior parte de sua cabeça

estava abaixo da linha da janela, de tão reclinado que estava o banco. Quando

chegaram ao carro, viram que o pai estava acordado, olhando para os ramos

entrelaçados de uma árvore comum. Ele baixou o vidro da janela.

“Bem, foi maravilhoso”, disse ele.

Mae despediu-se e foi embora, feliz por ter ainda a tarde livre. Ela dirigiu para

oeste. Era um dia calmo e ensolarado, as cores da paisagem que passava eram

claras e simples, azuis, amarelos e verdes. Quando se aproximou da costa, virou

para a baía. Ainda podia andar de caiaque por algumas horas, se fosse depressa.

Mercer havia ensinado Mae a andar de caiaque, uma atividade que até então

ela achava sem graça e desajeitada. Sentar na linha da água e fazer força para

mover aquele remo em forma de pá de sorvete. A constante torção parecia

penosa e o ritmo parecia vagaroso demais. No entanto, ela experimentou depois,

com Mercer, usando não os modelos profissionais, mas algo mais básico, o tipo

em que o condutor senta por cima, com as pernas e os braços para fora. Ficaram

remando pela baía, moviam-se muito mais depressa do que ela esperava, e viram

focas, pelicanos, e Mae acabou convencida de que era um esporte

criminosamente subestimado e que a baía era uma massa de água

tremendamente subutilizada.

Eles iam a uma praiazinha, o aluguel de caiaque não exigia nenhum

treinamento, equipamento nem nada; era só pagar quinze dólares por hora e em

poucos minutos os dois estavam no meio da baía.

Hoje, ela estacionou o carro na beira da rodovia, foi até a praia e lá achou a

água plácida, lisa.

“Ei, você”, disse uma voz.

Mae virou-se e viu uma mulher mais velha, de pernas arqueadas e cabelo

crespo. Era Marion, dona da empresa Viagens de Solteira. Ela era a solteira, e já

era havia quinze anos, desde quando tinha aberto seu negócio, depois de ganhar

muito dinheiro com uma papelaria. Contou isso para Mae na primeira vez em

que lhe alugou um caiaque e contava para todo mundo a mesma história, que

Marion imaginava ser engraçada, de que ela ganhara dinheiro vendendo artigos

de escritório e depois abriu um serviço de aluguel de caiaques e paddle boards.

Mae nunca soube por que razão Marion achava aquilo engraçado. Mas Marion

era simpática e acolhedora, mesmo quando Mae pedia para alugar um caiaque

poucas horas antes de fechar, como era o caso naquele dia.

“Está lindo, o mar”, disse Marion. “Mas não vá muito para longe.”

Marion ajudou Mae a puxar o caiaque sobre a areia e as pedras até as ondas

minúsculas. Puxou o botão do salva-vidas inflável de Mae. “E lembre-se, não

perturbe o pessoal que mora nos barcos. Os quartos deles ficam na altura dos

seus olhos, portanto não fique espiando. Quer um corta-vento ou um traje

protetor?”, perguntou. “O tempo pode virar.”

Mae recusou e entrou no caiaque, descalça, com o suéter e a calça jeans que

usou no almoço. Em segundos remou para além dos barcos de pesca, passou pela

arrebentação e pelos praticantes de paddle board e se encontrou na água desimpedida da baía.

Não viu ninguém. O fato de aquele volume de água ser tão pouco utilizado

deixara Mae perplexa durante meses. Ali não havia jet-skis. Um ou outro

pescador, um ou outro barco a motor, nenhum esquiador. A água gelada era só

uma parte da explicação. Talvez houvesse simplesmente muitas outras coisas

para fazer ao ar livre no norte da Califórnia, quem sabe? Era um mistério, mas

Mae não se queixava. Assim ficava mais água para ela.

Mae enfiava o remo na barriga da baía. A água de fato ficou mais agitada e

borrifos gelados bateram em seus pés. Era uma sensação boa, tão boa que ela

estendeu a mão para baixo, apanhou um punhado de água e encharcou o rosto e a

nuca. Quando abriu os olhos, viu uma foca, a uns seis metros à frente, olhando

para ela como faria um cachorro tranquilo em cujo quintal ela tivesse entrado. A

cabeça da foca era arredondada, cinzenta, com um brilho lustroso de mármore

polido.

Mae manteve o remo sobre as pernas, olhando para a foca, enquanto a foca

olhava para ela. Seus olhos eram botões negros, sem reflexos. Mae não se mexia

e a foca não se mexia. Estavam ambas presas num olhar mútuo e o momento, a

maneira como ele se prolongava e se deliciava nele mesmo, pedia uma

continuação. Para que se mexer?

Uma rajada de vento atingiu Mae e, junto, o cheiro forte da foca. Mae havia

notado aquilo na última vez em que andara de caiaque, o cheiro forte daqueles

bichos, uma mistura de atum e cachorro sujo. Era melhor ficar a favor do vento.

Como se de repente se sentisse constrangida, a foca mergulhou.

Mae continuou longe da praia. Estabeleceu o objetivo de chegar a uma boia

Continuar: parte 4 de 11