O Círculo

Dave Eggers · Apêndice

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O Círculo

O Círculo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

cuidadosamente planejados, entre pessoas que trabalhavam ali, que davam mostras de regularidade, tentavam se manter pelo menos razoavelmente na moda

e que lavavam suas roupas.

Mae, abrindo caminho no meio da multidão, descobriu Josiah e Denise, que

ficaram encantados de vê-la, mas ambos pareciam escandalizados com o circo,

com seu tom e seu teor que, pensavam eles, tinham ido longe demais; Josiah já

havia até feito uma crítica desfavorável na internet. Mae se afastou, satisfeita por

ter sido vista por eles, por terem registrado sua presença, e saiu em busca de algo

para beber. Viu ao longe uma sala com mesas em compartimentos separados e

seguia para lá quando um dos artistas, um homem sem camisa e de bigode em

forma de guidão de bicicleta, correu atrás dela com três espadas. Parecia

oscilante e, momentos antes de alcançá-la, Mae se deu conta de que, embora o

homem quisesse demonstrar que estava sob controle, que aquilo fazia parte de

seu número, ele ia de fato trombar de cara com ela, cheio de espadas nos braços.

Mae congelou, e o homem estava a centímetros dela, quando sentiu seus ombros

serem agarrados e puxados. Ela caiu de joelhos, de costas para o homem com as

espadas.

“Você está bem?”, perguntou outro homem. Ela ergueu os olhos e viu que ele

estava parado, de pé, no lugar onde ela havia estado um segundo antes.

“Acho que sim”, respondeu.

E então ele se virou de novo para o musculoso homem das espadas. “Que

porra é essa, seu palhaço?”

Era o Kalden?

O malabarista de espadas estava olhando para Mae para se certificar de que

ela estava bem e, quando viu que estava, voltou a atenção para o homem à sua

frente.

Era Kalden. Agora Mae tinha certeza. Tinha a forma caligráfica de Kalden.

Vestia uma camiseta branca simples com gola em V e calça cinza, tão apertada

quanto os jeans que usara na primeira vez que Mae o tinha visto. Não dera a Mae

a impressão de ser um homem disposto a encarar uma briga e, no entanto, ali

estava ele de pé, de peito aberto e as mãos em guarda, enquanto o artista do circo

o encarava, de olhos fixos, como se estivesse optando entre continuar a

representar seu papel no circo, dando seguimento ao espetáculo para depois

receber o cachê, e um cachê bem gordo, pago por aquela empresa próspera,

gigantesca e poderosa, ou se atracar com aquele cara na frente de duzentas

pessoas.

Por fim, optou por sorrir, torcer as duas pontas de seu bigode de forma teatral

e dar meia-volta.

“Desculpe pelo que aconteceu”, disse Kalden, ajudando Mae a levantar. “Tem

certeza de que está bem?”

Mae respondeu que estava. O bigodudo não tinha tocado nela, só a havia

assustado, e ainda assim só por um instante.

Mae observou o rosto de Kalden, que sob a repentina luz azulada parecia uma

escultura de Brancusi — liso, perfeitamente oval. As sobrancelhas eram arcadas

romanas, o nariz, a tromba sutil de alguma minúscula criatura marinha.

“Esses babacas nem deveriam estar aqui, na verdade”, disse ele. “Um bando

de bobos da corte para entreter a realeza. Não vejo nenhum sentido nisso”, disse

ele, agora olhando em redor, na ponta dos pés. “Podemos ir embora?”

No caminho, acharam um lugar que vendia comida e bebida, levaram tapas,

salsichas e taças de vinho tinto para uma fileira de limoeiros atrás da Era dos

Vikings.

“Você não se lembra do meu nome”, disse Mae.

“Não. Mas conheço você e queria falar com você. Por isso eu estava perto

quando o bigodudo correu na sua direção.”

“Mae.”

“Certo. Sou o Kalden.”

“Eu sei. Lembro bem os nomes.”

“E eu tento lembrar. Vivo tentando. Quer dizer que Josiah e Denise são seus

amigos?”, perguntou Kalden.

“Não sei. Bem. Quero dizer, eles cuidaram do meu treinamento e, você

entende, falei com eles algumas vezes de lá para cá. Por quê?”

“Por nada.”

“Mas o que é que você faz aqui?”

“E o Dan? Você anda sempre com ele?”

“Dan é o meu chefe. Afinal, não vai me dizer o que você faz aqui?”

“Quer um limão?”, Kalden perguntou e ficou de pé. Manteve os olhos em

Mae enquanto estendia a mão para dentro das folhagens da árvore e pegava um

limão grande. Havia no gesto uma graça masculina, a maneira como ele se

esticava elasticamente para cima, mais vagaroso do que era de esperar, algo que

fez Mae pensar num mergulhador. Sem olhar para o limão, entregou-o para ela.

“Está verde”, disse Mae.

Kalden olhou para a fruta com as pálpebras entrecerradas. “Ah. Achei que ia

dar certo. Quis pegar o maior que consegui encontrar. Devia estar amarelo.

Segure aqui, levante.”

Estendeu a mão para ela, ajudou-a a se levantar e posicionou Mae um pouco

afastada dos ramos da árvore. Em seguida abraçou o tronco e sacudiu até que

chovessem limões. Cinco ou seis acertaram Mae.

“Nossa. Desculpe”, disse ele. “Sou uma besta.”

“Não. Está bem”, disse ela. “Eram pesados e dois me acertaram na cabeça.

Adorei.”

Kalden tocou nela, apalpou a cabeça com a mão espalmada. “Machucou

muito?”

Mae disse que estava tudo bem.

“A gente sempre machuca as pessoas que ama”, disse ele, seu rosto era um

vulto escuro acima de Mae. Como se percebesse o que tinha acabado de falar,

Kalden pigarreou. “Bobagem. É o que meus pais diziam. E eles me amavam

muito.”

 

De manhã, Mae telefonou para Annie, que estava a caminho do aeroporto, de

partida para o México para desenrolar alguma encrenca regulatória.

“Conheci uma pessoa intrigante”, disse Mae.

“Que bom. Eu não morria de amores por aquele outro. Gallipoli.”

“Garaventa.”

“Francis. É um camundongo nervosinho. E esse novo? O que sabemos sobre

ele?” Mae podia sentir que Annie estava querendo acelerar a conversa.

Mae tentou descrever Kalden, mas se deu conta de que não sabia quase nada

sobre ele. “É magro. Olhos castanhos, alto.”

“Só isso? Olhos castanhos e alto?”

“Ah, espere”, disse Mae, rindo de si mesma. “Tinha cabelo grisalho. Ele tem

cabelo grisalho.”

“Espere aí. Como é?”

“Ele é jovem, mas tem cabelo grisalho.”

“Tá legal, Mae. Tudo bem se você quer ser uma caçadora de vovôs…”

“Não, não. Tenho certeza de que ele é jovem.”

“Quer dizer que tem menos de trinta anos e tem cabelo grisalho?”

“Juro.”

“Não conheço ninguém aqui que seja assim.”

“Você conhece todas essas dez mil pessoas?”

“Talvez ele esteja num regime de contrato temporário. Não descobriu o

sobrenome dele?”

“Tentei, mas ele é muito reservado.”

“Hmm. Isso não é coisa muito própria do Círculo, né? E tinha cabelo

grisalho?”

“Quase branco.”

“Como um nadador? Quando usam aquele xampu?”

“Não. Não era prateado. Era só cinzento mesmo. Como o cabelo de um

velho.”

“E você tem certeza de que não era velho? Como um velho que a gente encontra na rua?”

“Não.”

“Você andou batendo perna por aí, Mae? Está numa de sentir aquele cheirinho

típico de velho? De um homem muito mais velho? É aquele cheiro de mofo.

Como uma caixa de papelão molhada. Você gosta disso?”

“Por favor.”

Annie estava se divertindo e por isso continuou: “Acho que existe certo

consolo nessa história, saber que ele pode a qualquer momento sacar uma grana

de seu fundo de aposentadoria complementar. E afinal de contas ele vai se sentir

muito agradecido por qualquer sinal de afeição… Ah, cacete. Cheguei ao

aeroporto. Ligo depois para você.”

Annie não ligou de novo, mas enviou uma mensagem pelo celular, do avião,

já na Cidade do México, mandando para Mae fotos de vários velhos que via na

rua. É ele? E esse? Ou esse? Ése viejo?

Mae se viu às voltas com dúvidas sobre tudo aquilo. Como é que ela não sabia

o sobrenome de Kalden? Fez uma busca preliminar no diretório da empresa e

não encontrou nenhum Kalden. Tentou Kaldan, Kaldin, Khalden. Nada. Talvez

ela tivesse escrito errado ou ouvido mal, quem sabe? Poderia fazer uma busca

mais minuciosa se soubesse em que departamento ele trabalhava, que setor do

campus ele podia operar, mas não sabia nada.

Fora isso, podia pensar em pouca coisa. A gola em V da camiseta, os olhos

tristes que tentavam não aparentar tristeza, a calça cinza e apertada que podia ser

estilosa ou horrorosa, Mae não conseguia decidir no escuro, a maneira como ele

a segurou no final da noite, quando caminharam para o lugar onde os

helicópteros pousavam, na esperança de ver algum, e depois, como não apareceu

nenhum helicóptero, eles andaram de volta para os limoeiros e ali ele disse que

tinha de ir embora e perguntou se ela podia ir a pé até o lugar de onde os micro-

ônibus para funcionários saíam. Apontou para a fila de veículos a menos de

duzentos metros, e Mae sorriu e disse que podia ir sozinha. Em seguida, ele a

apertou junto a si, tão bruscamente, tão inesperadamente, que Mae nem entendeu

se ele tinha intenção de lhe dar um beijo, de apalpar seu corpo ou o quê. O que

ele fez foi apertar seu corpo contra o dele, com o braço direito atravessado por

trás das costas de Mae, a mão sobre o ombro dela e a mão esquerda bem mais

embaixo, mais atrevida, pousada sobre seu cóccix, os dedos se abrindo mais para

baixo.

Em seguida ele se afastou e sorriu.

“Tem certeza de que está bem?”

“Tenho.”

“Não está assustada?”

Ela riu. “Não. Não estou assustada.”

“Muito bem. Boa noite.”

Kalden virou-se e caminhou em outra direção, não rumo aos micro-ônibus

nem aos helicópteros nem ao circo, mas seguiu por uma trilha sombreada,

estreita, sozinho.

A semana inteira Mae pensou naquele vulto que se afastava, em suas mãos

fortes que a seguravam, e olhava para o limão grande que ele havia colhido, que

ela havia trazido pensando, erradamente, que ia amadurecer em sua mesa de

trabalho com o tempo. O limão continuou verde.

Mas Mae não conseguia localizar Kalden. Enviou alguns zings para toda a

empresa em busca de alguém chamado Kalden, tomando cuidado para não

parecer muito ansiosa. Porém não obteve nenhuma resposta.

Mae sabia que Annie podia resolver o mistério, só que Annie estava agora no

Peru. A empresa estava enfrentando um problema moderadamente grave em

seus planos na Amazônia — algo que envolvia drones que serviam para contar e

fotografar todas as árvores remanescentes. No meio das reuniões com

funcionários de vários departamentos ambientais e regulatórios, Annie por fim

achou um tempo para ligar para Mae. “Deixe-me fazer um reconhecimento facial

dele. Mande uma foto.”

Mas Mae não tinha nenhuma foto dele.

“Está brincando. Nada?”

“Estava escuro. Era a apresentação de um circo.”

“Você já contou isso. Quer dizer que ele lhe deu um limão e nenhuma

fotografia. Tem certeza de que não era só um visitante?”

“Mas eu já o havia encontrado antes, lembra? Perto do banheiro. E depois ele

voltou comigo para minha mesa e ficou olhando como era meu trabalho.”

“Puxa, Mae. Parece que esse cara veio de outro mundo. Limões verdes e

respiração ofegante por cima do seu ombro, enquanto você responde as dúvidas

dos clientes. Se a gente fosse só um pouquinho paranoica, eu diria que ele é um

agente infiltrado ou um molestador sexual de baixo escalão.” Annie teve de

desligar, mas uma hora depois mandou uma mensagem pelo celular. Você tem de

me manter informada sobre aquele cara. Estou ficando cada vez mais

preocupada. Ao longo dos anos já tivemos alguns stalkers bizarros. Ano passado

apareceu um cara, uma espécie de blogueiro, que foi a uma festa e ficou no

campus durante duas semanas, andando escondido e dormindo em depósitos.

Acabou que era um sujeito relativamente inofensivo, mas dá para imaginar que

um Estranho Não Identificado pode se tornar uma fonte de problemas.

Porém Mae não estava preocupada. Confiava em Kalden e não conseguia

acreditar que ele tinha intenções nefastas. Seu rosto tinha franqueza, uma inequívoca falta de dissimulação — Mae não conseguia explicar aquilo para

Annie, mas não tinha dúvidas a respeito dele. No entanto, sabia que Kalden não

era confiável como um comunicador, mas sabia também, e tinha certeza disso,

que ele voltaria a entrar em contato com ela. E embora não poder fazer contato

com outra pessoa em sua vida fosse algo irritante, exasperante, ter Kalden por lá,

pelo menos por alguns dias, inacessível, mas supostamente em algum local do

campus, proporcionava um agradável choque de frisson às horas de seus dias. A

carga de trabalho da semana foi pesada, mas, pensando em Kalden, cada

pesquisa que respondia era uma espécie de ária gloriosa. Os clientes cantavam

para ela e ela respondia cantando. Mae amava todos eles. Amava Risa Thomason

em Twin Falls, Idaho. Amava Mack Moore em Gary, Indiana. Amava os novatos

à sua volta. Amava a fisionomia de Jared que surgia preocupado na porta de vez

em quando, pedindo a ela que descobrisse um jeito de manter a nota média deles

acima de 98. E Mae amava ser capaz de ignorar Francis e suas constantes

tentativas de entrar em contato com ela. Seus minivídeos. Seus cartões com

mensagem de voz. Suas playlists, todas formadas por canções que pediam

desculpas e falavam de tristeza. Francis agora era só uma lembrança, ofuscada

por Kalden e sua silhueta elegante, suas mãos fortes e tateantes. Mae adorava

poder simular sozinha, no banheiro, o efeito daquelas mãos, imitar com a própria

mão a pressão que ele faria sobre ela. Mas onde ele estava? O que era intrigante

na segunda e na terça começou a se aproximar de um incômodo na quarta e de

uma irritação na quinta. A invisibilidade de Kalden começou a parecer algo

intencional e agressivo. Ele havia prometido continuar em contato, não foi?

Talvez não tivesse prometido, pensou Mae. O que foi que ele disse? Mae

vasculhou a memória e se deu conta, com uma espécie de pânico, de que tudo

que ele tinha dito no fim da noite foi “boa noite”. Mas Annie ia voltar na sexta-

feira e, juntas, em apenas uma hora, elas conseguiriam descobrir o nome dele,

saber onde estava, prendê-lo numa jaula.

 

E por fim, na sexta-feira de manhã, Annie voltou e as duas fizeram planos de

se encontrar pouco antes da Sexta dos Sonhos. Estava prevista uma apresentação

sobre o futuro Dinheiro do Círculo — uma forma de enviar todas as compras na

internet usando o Círculo e, mais cedo ou mais tarde, abolir a necessidade de

qualquer tipo de papel-moeda —, mas a apresentação acabou sendo cancelada.

Todos os funcionários foram orientados a assistir a uma entrevista coletiva que

ocorreria em Washington.

Mae foi correndo ao salão do Renascimento, onde algumas centenas de

funcionários estavam vendo uma projeção na parede. Uma mulher de terninho

cor de mirtilo estava de pé atrás de um palanque engrinaldado por microfones, cercada por assistentes e por um par de bandeiras dos Estados Unidos. Abaixo

dela, uma chamada: SENADORA WILLIAMSON TENTA DESMEMBRAR O

CÍRCULO. No início, havia barulho demais para ouvir qualquer coisa, mas uma

série de pedidos de silêncio e o aumento do volume tornaram a voz audível. A

senadora estava no meio da leitura de uma declaração escrita.

“Estamos aqui hoje para exigir que o Grupo de Trabalho Antitruste do Senado

abra uma investigação para determinar se o Círculo age como um monopólio.

Acreditamos que o Departamento de Justiça irá tratar o Círculo como aquilo que

ele é, um monopólio em seu sentido mais puro, e tomar as providências para

desmembrá-lo, assim como fizeram com a Standard Oil, AT&T e todos os outros

monopólios comprovados em nossa história. O domínio do Círculo sufoca a

concorrência e é perigoso para nosso modelo de capitalismo de livre mercado.”

Depois que ela terminou, a tela voltou ao seu propósito usual: celebrar os

pensamentos da equipe do Círculo. Naquele dia havia muitos pensamentos na

multidão. O consenso era que aquela senadora era conhecida por suas posições

ocasionalmente fora das correntes majoritárias — tinha sido contra as guerras no

Iraque e no Afeganistão — e portanto não ia conseguir muito apoio à sua

cruzada antitruste. O Círculo era uma empresa popular entre republicanos e

democratas, conhecida por suas posições pragmáticas em quase todas as

questões políticas, por suas doações generosas, e assim aquela senadora da

esquerda não receberia muito apoio de seus colegas liberais — muito menos

entre as fileiras republicanas.

Mae não conhecia o suficiente sobre as leis antitruste para ter uma opinião

formada. Será que existia mesmo alguma concorrência? O Círculo tinha noventa

por cento do mercado de busca. Oitenta por cento do mercado de e-mail grátis,

noventa e dois por cento do serviço de mensagens de texto. Na perspectiva de

Mae, aquilo era uma mera evidência de que eles produziam e entregavam o

melhor produto. Parecia insano punir a empresa por sua eficiência, por sua

atenção aos detalhes. Por alcançar o sucesso.

“Aí está você”, disse Mae, ao ver Annie andando em sua direção. “Que tal o

México? E o Peru?”

“Essa idiota”, escarneceu Annie, estreitando as pálpebras para a tela onde a

senadora tinha acabado de aparecer.

“Então você não está preocupada com isso?”

“Você quer dizer, se ela vai mesmo chegar a algum lugar com essa história?

Não. Mas, pessoalmente, ela está bem na merda.”

“O que quer dizer? Como é que você sabe?”

Annie olhou para Mae, depois se voltou para os fundos da sala. Tom Stenton

estava de pé, batendo papo com alguns membros do Círculo, de braços cruzados, uma postura que em outra pessoa podia transmitir preocupação ou até raiva.

Porém, mais do que qualquer outra coisa, ele parecia achar graça.

“Vamos”, disse Annie, e saíram andando pelo campus, na intenção de almoçar

num furgão de tacos contratado naquele dia para os membros do Círculo. “Como

vai seu amante? Não me diga que ele morreu enquanto fazia sexo.”

“Eu ainda não o vi desde a semana passada.”

“Nenhum contato?”, perguntou Annie. “Que merda.”

“Acho que ele é de uma outra era.”

“Outra era? E de cabelo grisalho? Mae, sabe aquela cena do filme O

iluminado em que Nicholson tem uma espécie de encontro sexual com uma

mulher num banheiro? E aí a mulher se vira e ele vê que ela é uma espécie de

cadáver vivo de uma velha?”

Mae não tinha a menor ideia do que Annie estava falando.

“De fato…”, disse Annie, e seus olhos saíram de foco.

“O que foi?”

“Sabe, no meio dessa história da investigação da senadora Williamson, me

preocupa o fato de haver um desconhecido rondando por aí pelo campus. Pode

me avisar na próxima vez que vir o cara?”

Mae olhou para Annie e viu, pela primeira vez, até onde se lembrava, algo

parecido com uma preocupação verdadeira.

 

Às quatro e meia, Dan mandou uma mensagem: Dia excelente, até agora! Me

encontra às cinco?

Mae chegou à porta do gabinete de Dan. Ele ficou de pé, levou-a até uma

cadeira e fechou a porta. Sentou-se atrás de sua mesa e digitou na tela de seu

tablete.

“97. 98. 98. 98. Médias excelentes esta semana.”

“Obrigada”, disse Mae.

“Realmente, espetacular. Ainda mais levando em conta a carga de trabalho

excepcional com os novatos. Foi difícil?”

“Talvez nos primeiros dias, mas agora estão todos treinados e não precisam de

muita ajuda. São todos excelentes e assim, no fundo, fica até mais fácil, tendo

mais gente para trabalhar.”

“Ótimo. É ótimo ouvir isso.” Então Dan ergueu os olhos e sondou os de Mae.

“Você tem tido uma experiência boa até agora aqui no Círculo?”

“Totalmente”, disse ela.

O rosto de Dan se iluminou. “Ótimo. Ótimo. É muito bom saber disso. Pedi a

você que viesse para, bem, para equacionar isso com seu comportamento social

aqui e entender a mensagem que ele está enviando. Acho que talvez eu não tenha conseguido comunicar da forma devida tudo o que diz respeito a esse trabalho.

Portanto a culpa é minha se não fiz isso tão bem quanto devia.”

“Não. Não. Você fez um ótimo trabalho. Tenho certeza.”

“Bem, obrigado, Mae. Fico muito agradecido. Mas precisamos conversar

sobre, bem… Vamos tratar a questão por outro ângulo. Você sabe que esta não é

uma empresa do tipo em que a gente bate o cartão ao entrar e ao sair e acabou.

Faz sentido?”

“Ah, eu sei. Eu não… Será que fiz alguma coisa que deu a entender que eu

achava…”

“Não, não. Você não fez nada disso. Só que a gente não tem visto você muitas

vezes por aqui depois das cinco horas, portanto ficamos imaginando se você não

estaria, bem, entende, muito ansiosa para ir embora.”

“Não, não. Você precisa que eu fique aqui até mais tarde?”

Dan teve um pequeno sobressalto. “Não, não é isso. Você dá conta de sua

carga de trabalho perfeitamente. Mas sentimos sua falta na festa do Velho Oeste

na noite de quinta-feira, que foi um evento importantíssimo para a formação da

equipe, centrada num produto do qual estamos todos muito orgulhosos. Você

perdeu pelo menos dois eventos com os novatos e no circo você deu a impressão

de que não via a hora de ir embora. Acho que você saiu de lá em apenas vinte

minutos. E essas coisas seriam compreensíveis se sua posição no ranking de

participação não fosse tão baixa. Sabe qual é?”

Mae achava que estava na casa dos oito mil. “Acho que sim.”

“Você acha que sim”, disse Dan, e conferiu na sua tela. “É 9101. Você acha

isso bom?” Ela havia caído na última hora, desde o momento em que Mae tinha

verificado pela última vez.

Dan estalou a língua e fez que sim com a cabeça, como se tentasse imaginar

como certa manchinha tinha aparecido em sua camisa. “Portanto as coisas estão

como que se somando e, bem, começamos a ficar preocupados, achando que de

algum jeito a gente estava afastando você.”

“Não, não! Não é nada disso.”

“Muito bem, vamos nos concentrar na quinta-feira às cinco e quinze.

Tínhamos um encontro no Velho Oeste, onde trabalha sua amiga Annie. Era uma

festa de boas-vindas semiobrigatória para um grupo de potenciais parceiros.

Você estava fora do campus, o que de fato me deixou confuso. Foi como se você

estivesse fugindo.”

A mente de Mae disparou. Por que não tinha ido? Onde ela estava? Mae nem

sabia daquele evento. Foi do outro lado do campus, no Velho Oeste — como

tinha deixado passar em branco aquele evento semiobrigatório? A informação

devia estar enterrada no fundo de sua terceira tela.

“Meu Deus, desculpe”, disse ela, lembrando agora. “Às cinco saí do campus

para comprar um creme de babosa naquela drogaria em San Vicenzo. Meu pai

pediu aquele tipo especial de…”

“Mae”, interrompeu Dan, em tom condescendente. “A loja da empresa tem

creme de babosa. Nossa loja tem um estoque mais completo do que qualquer

drogaria de esquina e com produtos de qualidade muito superior. Nossos

produtos são rigorosamente controlados.”

“Desculpe. Eu não sabia que a loja da empresa tinha algo como creme de

babosa.”

“Você foi à nossa loja e não encontrou o produto?”

“Não, não. Eu não fui à loja. Fui direto a outra. Mas estou muito contente em

saber que…”

“Permita que eu interrompa, porque você falou algo interessante. Disse que

não foi primeiro à nossa loja?”

“Não. Desculpe. Eu só imaginei que algo como isso não teria para vender aqui

e então…”

“Agora, escute, Mae. Tenho de admitir que sei que você não foi à loja. Isso é

uma das coisas que eu gostaria de conversar com você. Você não foi à loja uma

única vez. Você, que já foi atleta no tempo da faculdade, não foi à academia e

quase não explorou o campus. Acho que utilizou apenas um por cento de nossas

instalações.”

“Desculpe. Acho que tem sido tudo muito corrido para mim, por enquanto.”

“E na sexta-feira à noite? Também houve um evento muito importante.”

“Desculpe. Eu queria ir à festa, mas tive de ir correndo para casa. Meu pai

teve um ataque e acabou que não foi muito grave, mas eu não sabia disso até

chegar lá.”

Dan olhou para sua mesa de vidro e, com um paninho, tentou remover uma

mancha. Satisfeito, ergueu os olhos.

“Isso é muito compreensível. Passar um tempo com os pais, acredite, acho

isso muito, muito legal. Só quero enfatizar o aspecto comunidade deste emprego.

Encaramos este local de trabalho como uma comunidade, e toda pessoa que

trabalha aqui é parte dessa comunidade. E fazer que tudo funcione direito exige

certo nível de participação. É como, por exemplo, se fôssemos uma turma de

jardim de infância e uma garota tem uma festa e só metade da turma comparece.

Como é que vai se sentir essa garota que faz aniversário?”

“Não vai se sentir nada bem. Sei disso. Mas fui ao evento do circo e foi legal.

Tão legal.”

“Foi legal, não foi? E foi ótimo ver que você estava lá. Mas não temos

nenhum registro de que você foi. Nenhuma foto, nenhum zing, nenhum comentário, notícia, dica. Por que não?”

“Não sei. Acho que fiquei envolvida no meio do…”

Dan deu um suspiro bem alto. “Você sabe muito bem que gostamos de saber o

que as pessoas acham, não é? Sabe que as opiniões dos funcionários são

apreciadas aqui, não sabe?”

“Claro.”

“E que o Círculo está fundamentado, em larga medida, na participação e nas

informações de pessoas como você, não sabe?”

“Sei.”

“Escute. Faz todo sentido do mundo que você queira passar um tempo com

seus pais. São seus pais! É um gesto muito bonito de sua parte. Como eu já

disse: muito, muito legal mesmo. Só estou dizendo que nós também gostamos

muito de você e queremos conhecer você melhor. Com tal finalidade, eu queria

saber se está disposta a ficar alguns minutos a mais para conversar com Josiah e

Denise. Acho que se lembra deles, de seu período de treinamento, não é? Eles

adorariam estender a conversa que estamos tendo agora e ir um pouco mais

fundo na questão. Não acha bom?”

“Claro.”

“Não precisa ir correndo para casa ou…?”

“Não. Estou à disposição de vocês.”

“Ótimo. Ótimo. Gosto de ouvir isso. Aqui estão eles.”

Mae virou-se e viu Denise e Josiah, os dois acenaram para ela, atrás da porta

de vidro do gabinete de Dan.

“Mae, como vai?”, perguntou Denise, enquanto caminhavam para a sala de

reuniões. “Nem acredito que já faz três semanas desde que fizemos nosso

primeiro tour pelo campus! Vamos conversar aqui.”

Josiah abriu a porta de uma sala de reuniões pela qual Mae havia passado

muitas vezes. A sala era oval, as paredes eram de vidro.

“Sente aqui”, disse Denise, indicando uma cadeira de couro e de espaldar alto.

Ela e Josiah sentaram de frente para Mae, arrumaram seus tablets e ajeitaram

suas cadeiras, como se estivessem se preparando para uma tarefa que poderia

levar horas e que, quase com toda certeza, seria desagradável. Mae tentou sorrir.

“Como sabe”, disse Denise, ajeitando alguns fios de seu cabelo escuro atrás da

orelha, “somos de recursos humanos e isto é um procedimento regular que

fazemos com novos membros da comunidade. Todo dia fazemos isso em algum

ponto da empresa e estamos particularmente felizes de encontrar você de novo.

Você é um verdadeiro enigma.”

“Eu?”

“É sim. Faz anos desde a última vez que vi alguém aqui tão, assim, entende, envolto em mistério.”

Mae não sabia como devia responder àquilo. Não se sentia envolta em

mistério.

“Portanto achei que a gente devia começar, talvez, conversando um pouco

sobre você e, depois que a conhecermos melhor, podemos conversar sobre

maneiras de fazer você se sentir mais confortável e se integrar mais nos termos

da comunidade. Não parece bom?”

Mae fez que sim com a cabeça. “Claro.” Olhou para Josiah, que não tinha

falado nada até então, mas trabalhava freneticamente em seu tablet, digitando e

deslizando os dedos.

“Ótimo. Achei que podíamos começar dizendo que gostamos realmente de

você”, disse Denise.

Josiah falou, afinal, os olhos azuis radiantes. “Gostamos sim”, disse ele.

“Gostamos mesmo. Você é um membro superbacana de nossa equipe. Todo

mundo acha isso.”

“Obrigada”, respondeu Mae, já com a certeza de que ia ser demitida. Tinha

ido longe demais ao pedir para incluir seus pais no plano de saúde. Como tivera

a coragem de fazer aquilo logo depois de ser contratada?

“E que seu trabalho aqui é exemplar”, prosseguiu Denise. “Seus índices têm

ficado na média de 97 e isso é um resultado excelente, sobretudo em seu

primeiro mês. Está satisfeita com seu desempenho?”

Mae procurou a resposta correta. “Sim.”

Denise fez que sim com a cabeça. “Ótimo. Mas como você sabe, não é só o

trabalho que importa aqui. Ou melhor, a questão não são só notas, índices de

aprovação e coisas do tipo. Você não é uma engrenagem numa máquina.”

Josiah balançou vigorosamente a cabeça, dizendo não. “Consideramos você

um ser humano completo, único, de potencial ilimitado. E um membro crucial da

comunidade.”

“Obrigada”, disse Mae, agora menos certa de que ia ser mandada embora.

O sorriso de Denise foi sofrido. “Mas, como você sabe, tivemos uma ou duas

falhas no tocante à integração com a comunidade daqui. É claro que lemos o

relatório do incidente com Alistair e seu brunch de Portugal. Achamos sua

explicação totalmente compreensível e ficamos animados ao ver que você

parecia compreender as questões em jogo. Mas depois veio sua ausência na

maioria dos eventos do fim de semana e da noite, todos eles, é claro,

completamente facultativos. Há mais alguma coisa que você queira acrescentar

para nosso melhor entendimento de tudo isso? Talvez quanto à questão com

Alistair?”

“Só que eu lamento muito mesmo ter causado inadvertidamente algum sofrimento para o Alistair.”

Denise e Josiah sorriram.

“Ótimo, ótimo”, disse Denise. “Portanto, o fato de que você compreende isso

me deixa confusa, quando se trata de equacionar esse fato com as suas poucas

ações desde aquela discussão. Vamos começar pelo último fim de semana.

Sabemos que você saiu do campus às 17h42 na sexta e que voltou às 8h46 na

segunda.”

“Houve algum trabalho no fim de semana?” Mae procurou em sua memória.

“Faltei a alguma coisa?”

“Não, não, não. Não havia, entende, nenhum trabalho obrigatório aqui no fim

de semana. Mas isso não significa que não houvesse milhares de pessoas aqui no

sábado e no domingo, desfrutando o campus, participando de centenas de

atividades variadas.”

“Eu sei, eu sei. Mas eu estava em casa. Meu pai estava doente e voltei para

ajudar.”

“Lamento saber disso”, disse Josiah. “Teve relação com a esclerose múltipla?”

“Teve.”

Josiah fez uma cara de compreensão e Denise inclinou-se para a frente. “Mas,

veja, nesse ponto é que a questão se torna especialmente confusa. Não sabemos

absolutamente nada sobre esse episódio. Você procurou alguém do Círculo

durante essa crise? Você sabe que existem no campus quatro grupos de ajuda

para funcionários que precisam lidar com esclerose múltipla? Dois deles são

para filhos de vítimas da esclerose múltipla. Você procurou algum desses

grupos?”

“Não, ainda não. Eu tinha mesmo essa intenção.”

“Muito bem”, disse Denise. “Vamos deixar isso de lado por um momento,

porque isso é instrutivo, o fato de você estar ciente da existência dos grupos, mas

não procurá-los. Claro que você reconhece o benefício de compartilhar

informações sobre essa doença, não é?”

“Sim.”

“E compartilhar com outros jovens cujos pais padecem da doença… você

entende o benefício que há nisso?”

“Sem dúvida.”

“Por exemplo, quando você teve a notícia de que seu pai havia sofrido um

ataque, você dirigiu seu carro por, digamos, cento e cinquenta quilômetros, mais

ou menos, e em nenhum momento durante a viagem tentou obter informações do

Círculo Interno ou do Círculo Externo, que é mais amplo. Você percebe que isso

foi uma oportunidade perdida?”

“Agora percebo, totalmente. Eu estava abalada e preocupada e dirigia o carro feito uma louca. Eu não estava muito presente.”

Denise ergueu o dedo. “Ah, presente. Essa é uma palavra maravilhosa. Estou

feliz por você ter usado a palavra. Você se considera em geral presente?”

“Tento ser.”

Josiah sorriu e digitou uma rajada em seu tablet.

“Mas o contrário de presente seria o quê?”, perguntou Denise.

“Ausente.”

“Sim. Ausente. Vamos separar essa ideia também para mais tarde. Voltemos

ao seu pai e àquele fim de semana. Ele se recuperou bem?”

“Sim. Foi um alarme falso, na verdade.”

“Muito bem. Fico feliz de saber disso. Mas é curioso que você não tenha

compartilhado isso com ninguém. Você postou alguma coisa sobre esse

episódio? Um zing, um comentário em algum lugar?”

“Não”, respondeu Mae.

“Hm. Muito bem”, disse Denise, respirando fundo. “Você acha que alguém

mais poderia se beneficiar da sua experiência? Quer dizer, talvez a próxima

pessoa que tivesse de viajar de carro por duas ou três horas para ir para casa

pudesse ter algum benefício ao saber aquilo que você aprendeu com o episódio,

que no final foi apenas um alarme falso?”

“Claro que sim. Entendo que isso seria muito útil.”

“Ótimo. Portanto qual você acha que deve ser o plano de ação?”

“Acho que vou me integrar ao grupo de ajuda de esclerose múltipla”, disse

Mae, “e vou postar alguma coisa sobre o que aconteceu. Sei que vai ser útil.”

Denise sorriu. “Fantástico. Agora vamos conversar sobre o resto do fim de

semana. Na sexta-feira você descobriu que seu pai estava bem. Mas o resto do

fim de semana você passou praticamente em branco. É como se tivesse

desaparecido!” Os olhos dela ficaram arregalados. “É nessa hora que alguém

como você, que tem uma posição baixa no ranking de participação, deve

aproveitar para melhorar esse índice, se quiser. Mas na verdade sua posição caiu

ainda mais: duas mil posições. Não vamos ficar muito presos a números, mas

sua classificação estava em 8625 na sexta-feira e no final do domingo foi para

10 288.”

“Eu não sabia que estava tão ruim”, respondeu Mae, com ódio de si mesma,

dessa personalidade que parecia incapaz de sair do próprio caminho. “Acho que

fiquei me recuperando do estresse do episódio de meu pai.”

“Pode contar o que foi que fez no sábado?”

“É constrangedor”, respondeu Mae. “Nada.”

“Nada quer dizer o quê?”

“Bem, passei a maior parte do dia na casa de meus pais, vendo televisão.”

Josiah se animou. “Alguma coisa boa?”

“Só basquete feminino.”

“Mas não há nada de errado com o basquete feminino!”, exclamou Josiah. “Eu

adoro basquete feminino. Você acompanhou meus zings sobre a liga

profissional?”

“Não, você tem um Zing sobre basquete feminino?”

Josiah fez que sim com a cabeça, mostrando-se magoado, até perplexo.

Denise interveio. “Mais uma vez, é mesmo curioso que você não tenha

decidido compartilhar isso com alguém. Você se juntou a algum dos grupos de

discussão sobre esse esporte? Josiah, quantos participantes temos em nosso

grupo de discussão global sobre a liga profissional de basquete feminino?”

Josiah, ainda visivelmente abalado por saber que Mae não lia seus feeds sobre

basquete feminino, conseguiu descobrir o número em seu tablet e murmurou:

“143 891”.

“E agora quantos usuários do Zing se interessam por basquete feminino?”

Josiah rapidamente descobriu o número: “12 992”.

“E você não faz parte de um nem de outro, Mae. Por que você acha que é

assim?”

“Acho que meu interesse pelo basquete feminino não chegou ao ponto em que

eu me sentisse motivada a integrar um grupo de discussão ou, entende,

acompanhar qualquer coisa a respeito. Não sou nenhuma apaixonada pelo

esporte.”

Denise olhou para Mae com as pálpebras entrecerradas. “É uma interessante

escolha de palavras: apaixonada. Já ouviu falar de PPT? Paixão, Participação e

Transparência?”

Mae tinha visto as letras PPT pelo campus e até aquele momento não as havia

relacionado àquelas palavras. Sentiu-se uma idiota.

Denise pôs as mãos espalmadas sobre a mesa, como se fosse levantar. “Mae,

você sabe que esta é uma empresa de tecnologia, certo?”

“Claro.”

“E que nós nos consideramos na linha de frente das mídias sociais.”

“Sim.”

“E você conhece o termo Transparência, correto?”

“Conheço, sem dúvida.”

Josiah ergueu os olhos para Denise, na esperança de acalmá-la. Denise pôs as

mãos no colo. Josiah tomou a frente. Sorriu e correu os dedos na tela do tablet,

virando a página.

“Muito bem, vamos passar para o domingo. Conte como foi o domingo.”

“Voltei para casa.”

“Só isso?”

“Andei de caiaque.”

Josiah e Denise trocaram olhares de surpresa.

“Andou de caiaque?”, perguntou Josiah. “Onde?”

“Na baía.”

“Com quem?”

“Com ninguém. Sozinha.”

Denise e Josiah pareceram ficar sentidos.

“Eu ando de caiaque”, disse Josiah, e depois digitou algo em seu tablet,

batendo com força.

“Com que frequência você anda de caiaque?”, perguntou Denise para Mae.

“Uma vez a cada duas ou três semanas.”

Josiah olhava concentrado para seu tablet. “Mae, estou olhando seu perfil e

não encontro nada sobre caiaques. Nenhum sorriso, nenhum comentário,

nenhum post, nada. E agora você vem me dizer que anda de caiaque em

intervalos de duas ou três semanas?”

“Bem, talvez seja menos que isso.”

Mae riu, mas Josiah e Denise não riram. Josiah continuou olhando sua tela,

enquanto os olhos de Denise investigavam Mae.

“Quando vai andar de caiaque, o que você vê?”

“Não sei. Uma porção de coisas.”

“Focas?”

“Claro.”

“Leões-marinhos?”

“Em geral.”

“Aves marinhas? Pelicanos?”

“Claro.”

Denise digitou em seu tablet. “Muito bem, estou fazendo agora uma busca do

seu nome para obter documentação visual de algumas viagens que você fez. Não

estou encontrando nada.”

“Ah, nunca levei uma câmera.”

“Mas como você identifica todos aqueles pássaros?”

“Tenho um pequeno manual. É um livro que meu ex-namorado me deu. É um

pequeno guia sanfonado sobre a vida animal da região.”

“Então é só um folheto ou algo assim?”

“Sim, quer dizer, é à prova de água e...”

Josiah bufou alto.

“Desculpe”, disse Mae.

Josiah ergueu os olhos para o teto. “Não, quer dizer, isso é secundário, mas meu problema com o papel é que toda comunicação morre com ele. O papel não

comporta nenhuma possibilidade de continuidade. A gente olha para nosso

folheto de papel e a história termina aí. Termina com você. Como se você fosse a

única pessoa que importa. Mas imagine se você estivesse documentando. Se

você estivesse usando uma ferramenta que ajudasse a confirmar a identificação

de qualquer pássaro que visse, então todo mundo poderia se beneficiar —

naturalistas, estudantes, historiadores, a Guarda Costeira, todo mundo poderia

saber que pássaros estavam na baía naquele dia. É de enlouquecer quando a

gente pensa em quanto conhecimento se perde todo dia por causa desse tipo de

miopia. Não quero chamar isso de egoísmo, mas...”

“Não. Foi sim, eu sei que foi”, disse Mae.

Josiah ficou mais manso. “Mas, deixando de lado a documentação, o que me

fascina é por que você não mencionou nada sobre seus passeios de caiaque nem

uma vez. Quer dizer, afinal é uma parte de você. Uma parte integrante.”

Mae deu um bufo involuntário. “Eu não acho que seja assim tão integrante.

Ou nem mesmo algo tão interessante, na verdade.”

Josiah ergueu os olhos com furor. “Mas é sim!”

“Uma porção de gente anda de caiaque”, disse Mae.

“É exatamente isso!”, exclamou Josiah, logo ficando vermelho. “Você não

gostaria de encontrar outras pessoas que andam de caiaque?” Josiah digitou em

sua tela. “Existem 2331 pessoas perto de você que também gostam de andar de

caiaque. Inclusive eu.”

Mae sorriu. “É muita gente.”

“Mais ou menos do que você esperava?”, perguntou Denise.

“Mais, eu acho”, respondeu Mae.

Josiah e Denise sorriram.

“Portanto devemos registrar você como uma pessoa interessada em saber mais

sobre as pessoas ao seu redor que gostam de andar de caiaque? Há tantas

ferramentas…” Josiah parecia estar abrindo uma página onde podia registrar o

nome de Mae.

“Ah, não sei”, disse Mae.

O rosto dos dois se fechou.

Josiah pareceu ficar zangado outra vez. “Por que não? Você acha que suas

paixões não são importantes?”

“Não é nada disso. É só que eu…”

Josiah inclinou-se para a frente. “Como você acha que os outros membros do

Círculo se sentem, sabendo que você está fisicamente tão perto deles, que você é

ostensivamente parte de uma comunidade aqui, mas que não quer que eles

conheçam seus hobbies e seus interesses? Como acha que eles vão se sentir?”

“Não sei. Não acho que sintam nada.”

“Mas sentem!”, exclamou Josiah. “A questão é que você não está envolvida

com as pessoas à sua volta!”

“Mas é só andar de caiaque!”, disse Mae, rindo de novo, tentando trazer a

conversa de volta ao terreno das amenidades.

Josiah estava trabalhando em seu tablet. “Só andar de caiaque? Você percebe

que o caiaque é uma indústria que envolve três bilhões de dólares? E você vem

me dizer que é só andar de caiaque? Mae, você não percebe que tudo está

interligado? Você cumpre sua parte. Você tem de participar.”

Denise olhava para Mae com atenção. “Mae, tenho de fazer uma pergunta

delicada.”

“Está bem”, disse Mae.

“Você acha… Bem, você acha que isso pode ser uma questão de autoestima?”

“Não entendi.”

“Você está relutante em se exprimir porque tem medo que suas opiniões não

sejam corretas?”

Mae jamais havia pensado naquilo dessa forma, mas fazia certo sentido. Será

que ela era tímida demais para se expressar? “Na verdade, eu não sei”,

respondeu.

Denise estreitou as pálpebras. “Mae, não sou psicóloga, mas se fosse faria

uma pergunta sobre sua consciência de amor-próprio. Estudamos alguns

modelos para esse tipo de comportamento. Não vou dizer que esse tipo de

atitude é antissocial, mas sem dúvida é subsocial e sem dúvida está muito longe

de ser transparente. E vemos que às vezes esse comportamento decorre do

sentimento de que seu amor-próprio é menor. Um ponto de vista que diz: ‘Ah, o

que tenho a dizer não é tão importante assim’. Você acha que isso descreve bem

seu ponto de vista?”

Mae estava muito abalada para ver a si mesma com clareza. “Talvez”,

respondeu para ganhar tempo, ciente de que não devia ser flexível demais. “Mas

às vezes tenho certeza de que o que digo é importante. E quando tenho algo

relevante a acrescentar, eu me sinto totalmente autorizada a fazer isso.”

“Mas observe que você disse ‘às vezes tenho certeza’”, disse Josiah,

brandindo o dedo. “Esse ‘às vezes’ é interessante para mim. Ou preocupante,

melhor dizendo. Porque penso que você não tem encontrado esse ‘às vezes’ com

a frequência suficiente.” Recostou-se no espaldar da cadeira, como se relaxasse

depois de completar o grande esforço de compreender Mae.

“Mae”, disse Denise, “nós adoraríamos se você pudesse participar de um

programa especial. Não lhe parece interessante?”

Mae não sabia nada a respeito daquilo, mas como estava em apuros e já havia consumido tanto tempo deles, sabia que devia dizer que sim, por isso sorriu e

respondeu: “Claro”.

“Ótimo. Assim que pudermos, vamos incluir você. Vai conversar com Pete

Ramirez e ele vai explicar tudo. Acho que isso pode fazer você ter certeza não só

às vezes, mas sempre. Não parece melhor assim?”

 

Depois daquela entrevista, Mae censurou a si mesma. Que tipo de pessoa era

ela? Acima de tudo, sentia-se envergonhada. Estava fazendo o mínimo do

mínimo. Tinha repulsa de si mesma e lamentava por Annie. Sem dúvida Annie

estava informada sobre sua amiga parasita Mae, que aceitou aquele presente, o

cobiçado emprego no Círculo — uma empresa que tinha dado um plano de

saúde para seus pais! Tinha salvado todos eles de uma catástrofe familiar! —, e

depois ficou acomodada. Cacete, Mae, se liga!, pensou. Seja uma pessoa

relevante para o mundo.

Escreveu para Annie pedindo desculpas, disse que ia melhorar, que estava

muito constrangida, que ela não queria abusar desse privilégio, desse presente, e

disse também que não era preciso responder, que ela simplesmente ia se

comportar melhor, mil vezes melhor, imediatamente e dali em diante. Annie

respondeu dizendo para Mae não ficar preocupada, que aquilo foi só uma

pequena advertência, uma correção, uma coisa corriqueira entre novatos.

Mae viu que horas eram. Seis horas. Tinha muitas horas para melhorar, e

depressa, por isso desencadeou uma rajada de iniciativas. Enviou quatro zings e

32 comentários e 88 sorrisos. Numa hora, sua posição no ranking de participação

subiu para 7288. Romper a barreira dos 7000 foi mais difícil, mas às oito horas,

depois de se inscrever e fazer postagens em onze grupos de discussão, enviar

mais doze zings, um deles foi classificado entre os 5000 preferidos globalmente

naquela hora, e depois de fazer a assinatura de mais sessenta e sete feeds, ela

conseguiu. Estava na posição 6872 e voltou-se para seu feed do Círculo Interno.

Estava com um atraso de algumas centenas de postagens e pôs tudo em dia,

respondeu a mais ou menos setenta mensagens, confirmou presença em onze

eventos no campus, assinou nove petições e ofereceu comentários e críticas

construtivas para quatro produtos em fase experimental. Às 10h16, estava em

5342 e de novo aquele patamar — dessa vez o de 5000 — foi difícil de vencer.

Mae escreveu uma série de zings sobre um novo serviço do Círculo que permitia

a qualquer um que tivesse uma conta saber toda vez que seu nome era

mencionado em qualquer mensagem enviada por qualquer pessoa, e um dos

zings, seu sétimo sobre o tema, bombou e foi rezingado 2904 vezes e isso levou

seu PartiRank a subir para 3887.

Mae experimentou um profundo sentimento de realização e de possibilidade, que foi acompanhado, em rápida sequência, por um sentimento de quase

completa exaustão. Faltava pouco para meia-noite e ela precisava dormir. Era

tarde demais para fazer a viagem até sua casa, portanto verificou se havia

dormitórios disponíveis, reservou um, obteve a senha de acesso e caminhou pelo

campus até HomeTown.

Quando fechou a porta do quarto, sentiu-se uma tola por não ter tirado

proveito dos dormitórios antes. O quarto era perfeito, forrado de acessórios

cromados e de madeira, o piso aquecido por calefação, os lençóis e as fronhas

eram tão brancos e novos que chegavam a estalar quando se tocava neles. O

colchão, como explicava um cartão perto da cama, era orgânico, feito não de

molas ou de espuma, mas sim de uma nova fibra que Mae achou ao mesmo

tempo mais firme e mais maleável — superior a qualquer cama que tinha visto.

Puxou o edredom branco-nuvem e recheado de penas, e enrolou-se.

Porém não conseguia dormir. Agora, pensando em como ela era perfeitamente

capaz de se sair melhor, entrou na internet de novo, dessa vez no seu tablet, e

ficou envolvida no trabalho até as duas horas da madrugada. Estava decidida a

quebrar a barreira dos 3000 pontos. E conseguiu, embora fossem 3h19 quando

aconteceu. Por fim, não totalmente exausta, mas ciente de que precisava

descansar, Mae se enfiou debaixo do edredom e apagou as luzes.

 

De manhã, Mae vasculhou os armários e as gavetas, ciente de que os

dormitórios eram abastecidos com muitas roupas, todas novas, disponíveis para

empréstimo ou posse definitiva. Escolheu uma camiseta de algodão e uma calça

capri, ambas novas em folha. Na pia, havia frascos novos de creme hidrante e de

enxaguante bucal, ambos orgânicos e de produção local, e Mae experimentou os

dois. Tomou uma ducha, vestiu-se e estava de volta à sua mesa às 8h20.

Imediatamente os frutos de seu trabalho se fizeram evidentes. Havia um rio de

mensagens de congratulações na terceira tela, de Dan, de Jared, de Josiah, de

Denise, umas cinco mensagens de cada um, e pelo menos uma dúzia de

mensagens de Annie, que parecia tão orgulhosa e entusiasmada que dava a

impressão de que ia explodir. Espalhou-se no Círculo Interno a notícia de que

Mae tinha recebido 7716 sorrisos ao meio-dia. Todo mundo sabia que ela ia

conseguir. Todo mundo via um grande futuro para ela no Círculo, todo mundo

tinha certeza de que em breve ela ia ser promovida no setor de Experiência do

Cliente, no máximo até setembro, porque raramente alguém subia tão depressa

no PartiRank e com tamanha mira, que parecia a laser.

O novo sentimento de competência e confiança de Mae estimulou-a durante a

semana e, já que ela estava perto dos 2000 mais bem colocados, ficou em sua

mesa de trabalho até tarde ao longo do fim de semana e no início da semana seguinte, determinada a romper aquela barreira, dormindo no mesmo dormitório

todas as noites. Sabia que os 2000 mais bem colocados, apelidados de T2K,

eram um grupo de membros do Círculo quase maníacos em sua atividade social

e representavam a elite para seus seguidores. Os membros do T2K haviam se

mantido mais ou menos como um grupo fechado, com poucos acréscimos ou

movimentos internos em suas fileiras, durante quase dezoito meses.

Mas Mae sabia que precisava tentar. Na noite de quinta-feira, havia alcançado

2219 e sabia que já fazia parte de um grupo de combatentes similares que, como

ela, batalhavam encarniçadamente para subir. Mae trabalhou por mais uma hora

e se viu galgar apenas dois postos, para 2217. Aquilo ia ser difícil, ela sabia, mas

o desafio era delicioso. E toda vez que subira a um novo milhar tinha recebido

tantos aplausos, e havia sentido tão claramente que estava retribuindo Annie em

especial, que aquilo a empurrou para a frente.

Às dez horas, quando estava ficando cansada, e quando já havia alcançado o

índice 2188, Mae teve a revelação de que era jovem, era forte, e que se desse

duro a noite inteira, se ficasse uma noite inteira sem dormir, conseguiria penetrar

no T2K, enquanto todos os outros estavam inconscientes. Fortificou-se com uma

bebida energética e com um saquinho de balas e, quando a cafeína e o açúcar

produziram efeito, Mae sentiu-se invencível. A terceira tela do Círculo Interno

não era o bastante. Voltou-se para seu feed do Círculo Interno e operou aquilo

sem nenhuma dificuldade. Foi adiante com ímpeto, inscreveu-se em mais

algumas centenas de feeds de Zing, começou com um comentário em cada um.

Logo chegou à posição 2012 e agora é que estava encontrando resistência de

Continuar: parte 8 de 11