O Círculo
O Círculo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
Agora Gina estava sentada ao lado de Mae, os dedos sobre seu teclado. Ela
abriu uma planilha complexa. Naquele instante, chegou outra mensagem de
Annie na segunda tela de Mae. Mae virou-se de leve. Agora tenho de ser a chefe.
Dessa vez conseguiu descobrir o sobrenome dele?
Mae viu que Gina também estava lendo a mensagem e não fazia o menor
esforço para fingir que não lia.
“Vá em frente”, disse Gina. “Parece importante.”
Mae estendeu a mão por cima de Gina para alcançar seu teclado e digitou a
mentira que, momentos depois de sair do banheiro, já sabia que ia contar para
Annie. Sim. Sei tudo.
Imediatamente chegou a resposta de Annie: E qual é o nome dele?
Gina olhou aquela mensagem. “Deve ser uma loucura receber mensagens de
texto de Annie Allerton.”
“Acho que sim”, disse Mae, e digitou: Não posso dizer.
Gina leu a mensagem de Mae e pareceu menos interessada no conteúdo do
que no fato de que aquela troca rápida de mensagens estava realmente
acontecendo na sua frente. “Vocês mandam mensagem assim uma para a outra,
como se não fosse nada?”, perguntou.
Mae atenuou o choque. “Não o dia todo.”
“Não o dia todo?” O rosto de Gina se animou com um sorriso hesitante.
Annie retrucou. Não vai mesmo me contar? Conte já.
“Desculpe”, disse Mae. “Vou terminar.” E digitou. Não. Você vai brigar com
ele.
Me mande uma foto, escreveu Annie.
Não. Mas tenho uma foto, digitou Mae, contando a segunda mentira que sabia ser necessária. Tinha de fato uma fotografia dele e, assim que se deu conta de
que tinha a foto e que podia contar aquilo para Annie, e que estaria contando a
verdade, mas não toda a verdade, e que aquela foto, junto com a mentirinha de
que sabia qual era o sobrenome de Kalden, permitiriam que Mae continuasse a
ver aquele homem, Kalden, que poderia perfeitamente representar um perigo
para o Círculo, Mae sabia que podia usar aquela segunda mentira com Annie e
que ela iria acreditar mais uma vez — mais tempo para procurar e achar Kalden,
enquanto tentava verificar exatamente quem era ele e o que queria dela.
Uma foto em movimento, digitou Mae. Fiz um reconhecimento facial e tudo
bate.
Graças a Deus, escreveu Annie. Mas você é uma piranha mesmo.
Gina, que tinha lido a mensagem, ficou visivelmente ruborizada. “Talvez
fosse melhor a gente fazer isso mais tarde, não acha?”, perguntou, sua testa
começou a brilhar de repente.
“Não, desculpe”, disse Mae. “Vamos em frente. Vou virar a tela.”
Apareceu mais uma mensagem de Annie. Enquanto a tela girava, Mae viu de
relance o texto. Você ouviu o barulho de ossos fraturados quando estava
sentada em cima dele? Velhos têm ossos fracos, e pressões, como essa de que
você está falando, podem ser fatais.
“Muito bem”, disse Gina, engolindo em seco. “Há anos que empresas menores
têm rastreado e tentado influenciar a ligação entre menções na internet, resenhas,
comentários, avaliações e compras reais. Os desenvolvedores do Círculo
conceberam uma forma de medir o impacto desses fatores, de nossa
participação, na verdade, e articular isso com o Índice de Conversão.”
Apareceu outra mensagem, mas Mae ignorou-a e Gina foi em frente,
empolgada por ser considerada mais importante do que Annie, ainda que só por
um momento.
“Assim, toda compra iniciada ou estimulada por uma recomendação que
fazemos aumenta nosso Índice de Conversão. Se nossa compra ou recomendação
estimula outras cinquenta pessoas a fazer a mesma coisa, então nosso Índice de
Conversão é x50. Há membros do Círculo com um índice de conversão de
x1200. Isso significa que em média 1200 pessoas compram aquilo que elas
compram. Elas acumularam tanta credibilidade que seus seguidores acreditam
implicitamente nas recomendações delas e são profundamente gratos pela
segurança que sentem em suas compras. Annie, é claro, tem um dos ICs mais
elevados do Círculo.”
Naquele momento, soou mais um alerta de mensagem. Gina piscou, como se
tivesse levado um tapa, mas continuou.
“Muito bem, seu Índice de Conversão médio até agora é x119. Não é ruim. Mas numa escala de 1 a 1000, há muito espaço para melhorar. Abaixo do Índice
de Conversão fica seu Varejo Bruto, o preço bruto total das compras dos
produtos recomendados. Vamos dizer que você recomendou certo chaveiro e mil
pessoas acataram sua recomendação, então aqueles mil chaveiros, ao preço de
quatro dólares cada, levam seu Varejo Bruto para quatro mil dólares. É
simplesmente o preço bruto de varejo do comércio que você marcou. Divertido,
não é?”
Mae assentiu. Ela adorou a ideia de ser de fato capaz de rastrear o efeito de
seus gostos e aprovações.
Soou outro sinal de aviso. Gina piscou, como se estivesse contendo as
lágrimas. Levantou-se.
“Tudo bem. Estou com a sensação de que estou invadindo seu almoço e sua
amizade. Então isso é Índice de Conversão e o Varejo Bruto. Sei que você
entendeu. No fim do dia, você vai ter uma tela nova para medir esses índices.”
Gina tentou sorrir, mas pareceu que não conseguia erguer as pontas dos lábios
o bastante para se mostrar convincente. “Ah, e o mínimo que se espera para
membros do Círculo de alto desempenho é um índice de conversão de x250 e um
índice semanal de Varejo Bruto de quarenta e cinco mil dólares, ambos objetivos
modestos que a maioria dos membros do Círculo ultrapassa com folga. Se você
tiver dúvidas”, parou Gina, os olhos frágeis, “tenho certeza de que pode
perguntar para Annie.”
Deu meia-volta e foi embora.
Algumas noites depois, numa quinta-feira sem nuvens, Mae foi de carro para
casa, a primeira vez desde que o pai passara a ter direito ao plano de saúde do
Círculo. Mae sabia que o pai vinha se sentindo muito melhor e estava ansiosa
para falar com ele pessoalmente, na ridícula esperança de ver alguma mudança
milagrosa, mas sabendo que só poderia encontrar melhoras secundárias. No
entanto, as vozes dos pais no telefone e nas mensagens escritas eram
entusiasmadas. “Agora tudo é diferente”, diziam ambos havia semanas, e pediam
que ela fosse lá para comemorarem. E assim, ansiosa com a iminente
manifestação de gratidão, Mae foi de carro para o leste e, quando chegou, o pai a
cumprimentou na porta, parecendo estar bem mais forte e — o que era o
principal — mais confiante, mais semelhante a um homem — o homem que ele
tinha sido em outros tempos. Ele estendeu seu monitor de pulso e colocou-o em
paralelo com o de Mae. “Olhe só para nós. Estamos combinando. Quer vinho?”
Dentro de casa, os três se acomodaram como sempre faziam, junto à bancada
da cozinha, e beliscaram petiscos, beberam e falaram dos vários aspectos da
melhora de saúde do pai de Mae. Agora ele podia escolher seus médicos. Não tinha limitações dos remédios que podia tomar; todos estavam cobertos pelo
plano e não havia nenhuma cota de pagamento complementar. Enquanto os dois
contavam o histórico recente de sua saúde, Mae notou que a mãe estava mais
viva, mais animada. Estava usando shorts curtinhos.
“O melhor de tudo”, disse o pai, “é que agora sua mãe tem bastante tempo
livre para aproveitar. É tudo tão simples. Consulto o médico e o Círculo cuida do
resto. Nenhum intermediário. Nenhuma discussão.”
“Isto aqui é mesmo o que estou pensando?”, perguntou Mae. Sobre a mesa de
jantar, na sala, havia um candelabro de prata, mas examinando mais de perto
pareceu um dos objetos feitos por Mercer. Os braços de prata eram na verdade
chifres pintados. Mae tinha sido bem pouco entusiástica com qualquer um dos
trabalhos dele — quando os dois estavam namorando, ela inventava coisas gentis
para dizer, mas daquela peça Mae havia gostado de fato.
“É sim”, disse a mãe.
“Nada mau”, disse Mae.
“Nada mau?”, disse o pai. “É o melhor, de primeira. E você sabe disso. Esse
troço podia ser vendido por cinco mil numa daquelas butiques de San Francisco.
Ele nos deu de graça.”
Mae ficou impressionada. “Por que de graça?”
“Por que de graça?”, perguntou a mãe. “Porque é nosso amigo. Porque é um
rapaz gentil. E pense bem antes de revirar os olhos com desdém ou retrucar com
algum comentário sarcástico.”
Mae assim fez e, depois de recapitular meia dúzia de coisas desagradáveis que
podia dizer a respeito de Mercer, preferiu ficar calada e descobriu que se sentia
generosa em relação a ele. Porque já não precisava mais dele, porque agora
Mercer era um agente crucial e mensurável do comércio do mundo e porque
Mae tinha no Círculo dois homens para escolher — um deles um enigma
vulcânico, caligráfico, que galgava paredes para comer Mae por trás —, ela
podia se dar ao luxo de ser generosa com o coitado do Mercer, sua cabeleira
desgrenhada e suas costas pelancudas e grotescas.
“É bonito mesmo”, disse Mae.
“Estou contente por você pensar assim”, disse a mãe. “Vai poder dizer isso a
ele pessoalmente daqui a alguns minutos. Ele está vindo para jantar.”
“Não”, disse Mae. “Por favor, não.”
“Mae”, disse o pai com firmeza. “Ele vem, está certo?”
E ela sabia que não podia discutir. Em vez disso, serviu-se de mais uma taça
de vinho tinto e, enquanto punha a mesa, bebeu metade da garrafa. Na hora em
que Mercer bateu à porta e entrou, o rosto de Mae estava meio dormente e seus
pensamentos eram vagos.
“Oi, Mae”, disse ele, e lhe deu um abraço hesitante.
“Seu candelabro ficou muito bonito”, disse ela e, no instante mesmo em que
pronunciava as palavras, viu o efeito que causou sobre Mercer, por isso insistiu.
“É lindo mesmo.”
“Obrigado”, disse ele. Olhou em volta, para os pais de Mae, como se quisesse
confirmar que tinham ouvido a mesma coisa. Mae serviu-se de mais vinho.
“É mesmo”, continuou Mae. “Quero dizer, você sabe que faz um bom
trabalho.”
E quando falou aquilo, Mae tomou o cuidado de não olhar para ele, ciente de
que os olhos de Mercer a observariam com ar de dúvida. “Esse é o melhor que
você já fez. Estou muito feliz por você ter se empenhado tanto nesse que... É que
estou feliz porque minha peça predileta feita por você está aqui na sala de jantar
da casa dos meus pais.”
Mae pegou sua câmera e tirou uma fotografia.
“O que está fazendo?”, perguntou Mercer. Embora parecesse estar contente
por ver que ela julgava o candelabro digno de uma fotografia.
“Só quis tirar uma foto. Olhe”, disse ela e mostrou para ele.
Agora os pais de Mae tinham sumido, sem dúvida achando que ela queria
ficar a sós com Mercer. Eram ridículos e loucos.
“Ficou boa”, disse ele, olhando para a fotografia por um pouco mais de tempo
do que Mae havia esperado. Estava bem claro que ele não era imune a desfrutar
e sentir orgulho do próprio trabalho.
“Está incrível”, disse ela. O vinho tinha subido, ela estava alta. “Foi muita
gentileza sua. E sei que representa muito para eles, sobretudo agora. Traz uma
coisa muito importante para cá.” Mae estava eufórica e não era só o vinho. Era a
libertação. Sua família tinha sido libertada. “Este lugar era tão sombrio”, disse
ela.
E por um breve momento ela e Mercer pareceram encontrar as bases de seu
relacionamento anterior. Mae, que por anos pensava em Mercer com uma
frustração que beirava a piedade, agora lembrou que ele era capaz de fazer um
ótimo trabalho. Ela sabia que Mercer tinha compaixão e que era muito gentil,
embora a limitação de seus horizontes fosse exasperadora. Mas agora, vendo
aquilo — poderia chamar de obra de arte? Era algo semelhante à arte — e o
efeito que produzia na casa, a fé de Mae em Mercer renasceu.
Aquilo deu uma ideia a Mae. Sob o pretexto que ia a seu quarto trocar de
roupa, pediu licença e subiu a escada correndo. Em vez disso, sentada em sua
antiga cama, levou três minutos postando sua foto do candelabro em duas dúzias
de feeds de decoradores e designers de interiores, dando o link para o site de
Mercer — que trazia apenas o número de seu telefone e algumas poucas fotografias; fazia anos que ele não o atualizava — e também seu e-mail. Se
Mercer não era esperto o suficiente para cuidar sozinho de seus negócios, Mae
teria prazer de fazer aquilo para ele.
Quando terminou, Mercer estava sentado com os pais dela à mesa da cozinha,
coroada por uma salada, frango frito e legumes. Os olhos deles seguiram os
passos de Mae enquanto ela descia a escada. “Chamei você lá em cima”, disse o
pai.
“Gostamos de comer enquanto está quente”, acrescentou a mãe.
Mae não tinha ouvido. “Desculpe. É que eu estava... Puxa, parece bem
gostoso. Pai, não acha que o candelabro do Mercer é fantástico?”
“Acho sim. E disse isso para você e para ele também. Já fazia um ano que
pedíamos a ele uma de suas criações.”
“Eu tinha de achar os chifres certos”, disse Mercer. “Fazia tempo que não
achava nenhum que fosse bom de verdade.” Explicou qual era sua fonte, como
adquiria chifres só de colaboradores de confiança, pessoas que ele sabia que não
tinham caçado o veado, ou se tinham, haviam sido orientadas a agir assim pelo
Departamento de Caça e Pesca a fim de diminuir a superpopulação.
“Isso é fascinante”, disse a mãe. “Antes que eu esqueça, quero erguer um
brinde... O que foi isso?”
O telefone de Mae tocou. “Nada”, disse ela. “Mas acho que vou ter uma boa
notícia para dar daqui a um segundo. Continue, mãe.”
“Eu estava só dizendo que queria fazer um brinde por estarmos...”
Agora foi o telefone de Mercer que tocou.
“Desculpe”, disse ele, e enfiou a mão no bolso da calça para apertar o botão
de desligar.
“Todo mundo pronto?”, perguntou a mãe de Mae.
“Desculpe, sra. Holland”, disse Mercer. “Prossiga.”
Mas naquele momento, o telefone de Mae tocou alto de novo e, quando Mae
olhou para a tela, viu que havia trinta e sete novos zings e novas mensagens.
“É uma coisa que você precisa atender?”, perguntou o pai.
“Não, ainda não”, respondeu Mae, embora estivesse tão excitada que mal
conseguia esperar. Estava orgulhosa de Mercer e dali a pouco poderia lhe
mostrar um pouco do público que ele havia conquistado fora de Longfield. Se
havia trinta e sete mensagens nos primeiros minutos, em vinte minutos haveria
uma centena.
A mãe de Mae continuou. “Eu ia agradecer a você, Mae, por tudo que tem
feito para melhorar a saúde do seu pai e a minha também. E queria brindar ao
Mercer também, como parte de nossa família, e agradecer por sua linda obra.”
Fez uma pausa, como se esperasse o toque de algum telefone a qualquer instante. “Bem, estou feliz por ter conseguido falar até o fim. Vamos comer. A comida
está esfriando.”
E começaram a comer, mas depois de alguns minutos, Mae tinha ouvido
tantos toques e tinha visto a tela de seu celular ser atualizada tantas vezes, que
não conseguiu mais esperar.
“Muito bem, não consigo mais aguentar. Eu postei aquela foto que tirei do seu
candelabro, Mercer, e as pessoas adoraram!” Ela ficou exultante e ergueu sua
taça. “É a isso que a gente devia brindar.”
Mercer não pareceu ficar contente. “Espere. Você postou onde?”
“Isso é ótimo, Mercer”, disse o pai de Mae, e ergueu sua taça também.
A taça de Mercer não foi erguida. “Onde você postou a foto, Mae?”
“Em todos os lugares importantes”, disse ela, “e os comentários são
maravilhosos.”
Ela procurou na tela. “Deixe-me ler o primeiro. Vou citar: Puxa. É fantástico.
Veio de um designer industrial bastante conhecido em Estocolmo. Aqui está
mais um: Muito bacana. Faz lembrar uma coisa que vi em Barcelona ano
passado. Este veio de uma designer em Santa Fe que é dona de uma loja. Ela deu
ao seu candelabro três estrelas, num total de quatro, e ainda dá algumas
sugestões de como aprimorá-lo. Aposto que você podia vender seus candelabros
lá, se quisesse. E aqui tem outro...”
Mercer pôs as palmas das mãos sobre a mesa. “Pare. Por favor.”
“Por quê? Você ainda não ouviu a melhor parte. No site DesignMind você já
recebeu 122 sorrisos. É uma marca incrível para alcançar em tão pouco tempo. E
eles também fazem uma classificação e hoje você está entre os cinquenta mais
bem colocados. Na verdade, eu sei que você pode ir além disso...” Ao mesmo
tempo, ocorreu a Mae que aquilo iria levar seu PartiRank para a casa dos 1800.
E caso ela conseguisse que uma quantidade suficiente daquelas pessoas
comprasse a peça, os números de seu Índice de Conversão e de Varejo Bruto
iriam aumentar de modo considerável...
“Mae, pare. Por favor, pare.” Mercer olhava fixamente para ela, os olhos
pequenos e redondos. “Não quero erguer a voz aqui na casa de seus pais, mas ou
você para ou vou ter de ir embora.”
“Espere um segundo”, disse Mae, e percorreu as mensagens em busca de
alguma que o deixasse impressionado de verdade. Tinha visto uma mensagem de
Dubai e, caso a encontrasse, sabia que a resistência de Mercer terminaria.
“Mae”, ela ouviu sua mãe falar. “Mae.”
Mas Mae não conseguia localizar a mensagem. Onde estava? Enquanto corria
as mensagens na tela, ouviu o barulho de uma cadeira arrastando no chão. Mas
ela estava perto demais de encontrar a mensagem para erguer os olhos. Quando fez isso, viu que Mercer tinha ido embora e seus pais olhavam para ela.
“Acho bom que você queira apoiar Mercer”, disse a mãe, “mas não consigo
entender por que fez isso logo agora. Estamos tentando ter um jantar agradável.”
Mae olhou fixamente para sua mãe, assimilando toda a frustração e espanto
que ela conseguia suportar, depois correu para fora e alcançou Mercer quando
ele fazia a manobra com seu carro para sair da garagem da casa.
Ela entrou e sentou no banco do carona. “Pare.”
Os olhos dele estavam turvos, sem vida. Estacionou o carro e pousou as mãos
no colo, suspirando com toda a condescendência que conseguiu reunir.
“Qual é seu problema, Mercer?”
“Mae, pedi para você parar e você não parou.”
“Te magoei?”
“Não. Magoou meu cérebro. Me fez pensar que você é doida de pedra. Pedi
para parar e você não quis.”
“Eu não queria parar de tentar ajudar você.”
“Não pedi sua ajuda. E não lhe dei permissão para postar uma fotografia da
minha obra.”
“Sua obra.” Mae ouviu algo cortante em sua voz, algo que ela sabia não ser
correto nem produtivo.
“Você é falsa, Mae, e você é má, e é insensível.”
“O quê? Sou o contrário de insensível, Mercer. Estou tentando ajudá-lo
porque acredito no que você faz.”
“Não, não acredita, Mae. Você é simplesmente incapaz de deixar que alguma
coisa viva dentro de uma sala. Minha obra vive dentro de uma sala. Não existe
em nenhum outro lugar. E é assim que quero que seja.”
“Então você não quer ganhar dinheiro?”
Mercer olhou através do para-brisa, depois se recostou no banco. “Mae, eu
nunca tive uma sensação tão forte de que existe um culto que está tomando conta
do mundo. Sabe o que me tentaram vender outro dia? Na verdade, aposto que é
uma coisa associada ao Círculo. Já ouviu falar de Homie? Aquele troço em que o
celular da gente faz uma varredura e escaneia os códigos de barra de todos os
produtos que a gente tem em casa...”
“Certo. Depois pede produtos novos toda vez que a gente está com falta deles
em casa. É genial.”
“Você acha isso certo?”, perguntou Mercer. “Sabe como foi que me
abordaram? Com a visão utópica de sempre. Dessa vez disseram que assim eu ia
reduzir o desperdício. Se as lojas sabem o que os clientes querem, não precisam
produzir demais, não transportam produtos demais, não precisam jogar coisas
fora quando não são compradas. Veja, como tudo o mais que vocês ficam empurrando para a gente, dito assim parece perfeito, progressista, mas acarreta
mais controle, mais rastreamento de tudo o que fazemos.”
“Mercer, o Círculo é um grupo de pessoas feito eu. Você está dizendo que, de
algum jeito, estamos todos numa sala, em algum lugar, observando você,
fazendo planos de dominar o mundo?”
“Não. Em primeiro lugar, eu sei que são todas pessoas como você. E é isso
que é tão assustador. Individualmente vocês não sabem o que estão fazendo
coletivamente. Mas em segundo lugar não supõem a benevolência dos seus
líderes. Durante anos houve um tempo feliz em que aqueles que controlavam os
principais canais da internet eram de fato pessoas razoavelmente decentes. Ou
pelo menos não eram predatórias ou vingativas. Mas eu sempre me preocupei
com a possibilidade de alguém querer usar esse poder para punir quem os
contestasse.”
“O que está dizendo?”
“Você acha que é só uma coincidência que toda vez que alguma congressista
ou algum blogueiro fala em monopólio, de repente eles aparecem envolvidos em
alguma terrível controvérsia de pornografia ou de magia negra? Durante vinte
anos, a internet foi capaz de arruinar qualquer pessoa em minutos, mas antes dos
seus Três Sábios, ou pelo menos de um deles, ninguém se sentiu disposto a fazer
isso. Você está me dizendo que tudo isso é novidade para você?”
“Você é muito paranoico. Seu cérebro de teoria da conspiração sempre me
deixou deprimida, Mercer. Você parece tão ignorante. E dizer que o Homie é
uma novidade assustadora, puxa, veja, durante cem anos houve leiteiros que
levavam leite para a casa da gente. Eles sabiam quando as pessoas precisavam de
leite. Havia açougueiros que vendiam carne, padeiros que deixavam o pão na
porta das casas...”
“Mas o leiteiro não fazia uma varredura para saber quais os produtos que eu
tinha dentro de casa! Veja, qualquer coisa que tenha um código de barras pode
ser escaneada. Neste momento, milhões de celulares estão escaneando as casas
das pessoas e transmitindo todas as informações para o mundo.”
“E daí? Você não quer que uma fábrica de papel higiênico saiba quanto do
produto deles você está usando? Por acaso ela estaria oprimindo você de algum
modo?”
“Não, Mae, é diferente. Isso seria mais fácil de entender. No entanto, aqui não
existem opressores. Ninguém está nos forçando a fazer isso. Nós nos atrelamos
espontaneamente, de boa vontade, a essas amarras. E de bom grado nos
tornamos socialmente autistas. Não ligamos mais para os sinais básicos de
comunicação humana. Você está diante de uma mesa com três seres humanos,
todos olham para você e tentam falar com você, mas você fica olhando para uma tela, em busca de desconhecidos que estão em Dubai.”
“Você não é tão puro assim, Mercer. Você tem um e-mail. Tem um site na
internet.”
“Aí está a questão e é penoso dizer isso para você. Mas você já não está muito
interessada. Fica sentada numa mesa de trabalho vinte horas por dia e não tem
nada para mostrar, senão alguns números que daqui a uma semana não vão mais
existir ou não vão ser lembrados. Você não está deixando nenhum testemunho
de que viveu. Não existe prova nenhuma.”
“Vai à merda, Mercer.”
“Pior ainda, você não está mais fazendo nada de interessante. Não está mais
vendo nada, dizendo nada. O paradoxo bizarro é que você acha que está no
centro de tudo e que isso torna suas opiniões mais valiosas, só que você mesma
está ficando menos vibrante. Aposto que há meses que não faz nada longe das
telas. Não é verdade?”
“Você é um cretino, Mercer.”
“Você passeia ao ar livre?”
“Você é que é interessante, não é isso? O idiota que faz candelabros de partes
de animais mortos? Você é o garoto maravilha e tudo o que faz é fascinante,
né?”
“Sabe o que eu acho, Mae? Acho que você pensa que ficar sentada na sua
mesa de trabalho, mandando sorrisos e caras feias, de algum jeito faz parecer
que está levando uma vida de fato fascinante. Você faz comentários sobre coisas
e isso substitui fazer as coisas de fato. Olha fotos do Nepal, aperta o botão de
sorriso, e acha que é a mesma coisa que ir lá. Quer dizer, o que aconteceria se
você fosse lá de verdade? Seus Índices de Imbecilidade do Círculo, ou sei lá
como se chama essa merda, iam cair abaixo do nível aceitável! Mae, você se dá
conta de que virou uma pessoa muito sem graça?”
Fazia anos que Mercer era a pessoa que Mae mais detestava no mundo. Não
era novidade. Ele sempre tivera a singular capacidade de levá-la a um estado
apoplético. Sua presunção profissional. Sua conversa fiada de antiquário. E
acima de tudo seu pressuposto básico, tão equivocado, de que ele a conhecia.
Mercer conhecia, sim, as partes de Mae de que ele gostava, as partes com as
quais concordava, e fingia que elas constituíam a verdadeira personalidade de
Mae, sua essência. Mercer não sabia de nada.
Mas a cada quilômetro que passava, enquanto dirigia seu carro no caminho de
volta, Mae se sentia melhor. Melhor a cada quilômetro que se abria entre ela e
aquele babaca. O fato de ter ido para a cama com ele algum dia a deixava
fisicamente nauseada. Será que ela havia sido possuída por algum demônio bizarro? Durante aqueles três anos, o corpo de Mae devia ter sido dominado por
alguma força terrível que a deixava cega à infelicidade de Mecer. Desde aquele
tempo ele era gordo, não era? Que tipo de gente é gorda já no ensino médio? E
ele é que vem me falar de ficar sentada o dia inteiro diante de uma mesa de
trabalho, quando ele mesmo está uns vinte quilos acima do peso normal? O
homem estava com a cabeça virada.
Mae nunca mais ia falar com ele. Sabia disso e havia nisso certo conforto. O
alívio jorrou sobre ela como água quente. Nunca mais falaria com ele nem
escreveria para ele. Exigiria que os pais cortassem toda relação com Mercer. Fez
planos de destruir o candelabro também; daria a impressão de um acidente.
Talvez um esbarrão disfarçado. Mae riu sozinha, pensando em exorcizar aquele
gordo imbecil de sua vida. Aquele homem com cara de alce, feio, sempre suado,
nunca mais meteria o bedelho em sua vida.
Mae viu a placa da empresa de aluguel de caiaques Viagens de Solteira e não
pensou nada. Passou pela saída da estrada e não sentiu nada. Segundos depois,
porém, ela saiu da estrada e fez a curva na direção da praia. Eram quase dez
horas, portanto Mae sabia que fazia horas que a loja estava fechada. Então o que
ela estava fazendo? Não estava reagindo à conversa fiada de Mercer e ao fato de
ele ter perguntado se ela vinha tendo alguma atividade ao ar livre. Mae
simplesmente foi ver se a loja de aluguel de caiaque estava aberta; sabia que
estava fechada, mas talvez Marion estivesse lá e talvez deixasse Mae andar de
caiaque uma meia hora. Marion morava no trailer ao lado, afinal. Talvez Mae
encontrasse Marion andando ali perto e a convencesse a alugar um caiaque.
Mae estacionou o carro, espiou através do alambrado e não viu ninguém, só o
quiosque de aluguel com as persianas arriadas, as fileiras de caiaques e de
pranchas de remar. Esticou-se, na esperança de ver alguma silhueta dentro do
trailer, mas não havia ninguém. A luz lá dentro era fraca, de cor rosada, o trailer
estava vazio.
Mae andou até a pequena praia e parou, olhando para o luar que dançava na
superfície parada da água da baía. Sentou-se. Embora não fizesse nenhum
sentido ficar ali, não queria voltar. Sua cabeça estava cheia de Mercer, seu rosto
infantil gigantesco, todas as bobagens que tinha dito naquela noite e que dizia
todas as noites. Mae tinha certeza de que seria a última vez que tentava ajudá-lo
de qualquer maneira que fosse. Mercer estava no seu passado, no passado, ele
era uma peça de antiquário, um objeto inanimado, sem graça, que ela largaria
esquecido no sótão.
Mae levantou-se, pensando que devia voltar a cuidar de seu PartiRank,
quando viu uma coisa estranha. Junto à extremidade da cerca, do lado de fora do
terreno cercado, viu um objeto grande encostado de forma precária. Ou era um caiaque ou uma prancha de remar, e Mae andou rapidamente até lá. Era um
caiaque, ela percebeu, estava encostado no lado de fora da cerca e havia uma pá
a seu lado. A posição do caiaque fazia pouco sentido. Mae nunca tinha visto um
caiaque assim, quase de pé, e tinha certeza de que Marion não aprovaria aquilo.
Mae só conseguiu imaginar que alguém tinha devolvido um caiaque alugado
depois de o quiosque estar fechado e havia tentado deixá-lo o mais perto
possível do terreno cercado.
Mae pensou que no mínimo devia pôr o caiaque no chão para reduzir a
possibilidade de ele tombar durante a noite. Assim fez, baixou com cuidado o
caiaque sobre a areia, surpresa ao ver como era leve.
Então teve uma ideia. A água estava apenas a trinta metros dali e ela sabia que
podia arrastar o caiaque com facilidade até a beirada. Seria um roubo pegar
emprestado um caiaque que já tinha sido alugado? Afinal, ela não estava tirando
o caiaque de dentro do terreno cercado; estava apenas prolongando o aluguel que
outra pessoa já havia prolongado. Devolveria o caiaque dali a uma ou duas horas
e ninguém ia notar a diferença.
Mae pôs a pá dentro do caiaque e arrastou-o sobre a areia por alguns metros,
verificando a sensação que aquele ato lhe dava. Era um roubo? Certamente
Marion compreenderia, se soubesse. Marion era um espírito livre, não era uma
ranzinza presa a regras e parecia o tipo de pessoa que, no lugar de Mae, faria a
mesma coisa. Não gostaria das implicações de responsabilidade civil, mas, de
novo, existiriam mesmo tais implicações? De que modo Marion poderia ser
responsabilizada, se o caiaque foi tomado sem seu conhecimento?
Agora Mae estava na beirada da praia e a proa do caiaque estava molhada. E
então, sentindo a água embaixo do casco, a maneira como a corrente parecia
puxar o caiaque de suas mãos para o denso volume da baía, Mae sabia que ia
fazer aquilo. A única complicação era que não teria um colete salva-vidas. Era a
única coisa que a pessoa que havia alugado o caiaque tinha conseguido jogar por
cima do alambrado. Mas a água estava tão serena que Mae não viu nenhuma
possibilidade de perigo real, se permanecesse perto da margem.
Uma vez na água, porém, sentindo o cristal pesado embaixo de si, o progresso
rápido que fazia, Mae achou que não precisava se manter na parte rasa. Que
aquela era a noite certa para chegar até a Ilha Azul. A Ilha do Anjo era fácil, as
pessoas iam lá toda hora, mas a Ilha Azul era estranha, agreste, nunca visitada.
Mae sorriu, imaginando-se lá, e sorriu ainda mais, pensando em Mercer, sua cara
presunçosa, surpresa, boquiaberta. Mercer era gordo demais para entrar num
caiaque, pensou Mae, e preguiçoso demais para remar para fora da marina. Um
homem que se aproximava rapidamente dos trinta anos, que fazia candelabros
com chifres e queria passar sermões nela — que trabalhava no Círculo! — sobre os caminhos da vida. Era uma piada. Mas Mae, que estava no grupo de elite
chamado T2K e que estava galgando posições rapidamente, era corajosa, capaz
de pegar um caiaque no meio da noite e remar para o centro da baía, explorar
uma ilha que Mercer só era capaz de avistar por meio de um telescópio, sentado
em cima daquela bunda que parecia um saco de batata, enquanto pintava
pedaços de bichos com tinta prateada.
O itinerário de Mae não se baseava em nenhuma lógica. Mae não tinha a
menor ideia das correntes mais profundas da baía nem da sensatez para manter
certa distância dos navios-petroleiros que usavam o canal de navegação mais
profundo, sobretudo porque ela estaria no escuro, invisível para eles. E na hora
que chegasse lá, ou se aproximasse da ilha, as condições poderiam ser hostis
demais para Mae conseguir voltar. No entanto, levada por uma força interior tão
poderosa e reflexiva quanto o sono, Mae sabia que não ia parar antes de chegar à
Ilha Azul ou ser impedida, de algum modo, de fazer isso. Se o vento se
mantivesse suave e a água continuasse parada, ela ia chegar lá.
Enquanto remava para além dos barcos a vela e saveiros, Mae olhou para o
sul, estreitando as pálpebras em busca da balsa onde o homem e a mulher
moravam, mas àquela distância as formas não estavam claras e, de todo modo,
era improvável que estivessem com as luzes acesas àquela hora da noite. Mae se
manteve no curso, passou ligeiro para além dos iates ancorados e entrou na
barriga redonda da baía.
Ouviu um rápido barulho de água atrás de si e virou-se para ver a cabeça preta
de uma foca, a menos de cinco metros. Esperou que a foca afundasse na água,
mas ela se manteve acima da superfície, olhando para Mae. Ela deu meia-volta,
continuou remando na direção da ilha e a foca a seguiu por um trecho, como se
também quisesse ver o que Mae queria ver. Por um momento Mae se perguntou
se a foca iria segui-la por todo o trajeto até a ilha, ou se estava, talvez, em seu
caminho para um grupo de pedras situado perto da ilha, onde muitas vezes,
quando passava em seu carro sobre a ponte, Mae tinha visto focas pegando sol.
Mas quando se virou para trás outra vez, o animal tinha ido embora.
A superfície da água continuou calma, mesmo quando ela se aventurou mais
para o fundo. Onde em geral a água ficava mais agitada, no ponto onde a baía se
encontrava exposta aos ventos do oceano, naquela noite a água estava
completamente serena e o avanço de Mae prosseguiu sem percalços. Em vinte
minutos, ela estava a meio caminho da ilha, ou era o que parecia. Era impossível
determinar as distâncias, sobretudo à noite, mas a ilha estava crescendo na visão
de Mae e contornos de rocha que ela nunca havia distinguido agora se
mostravam visíveis. Mae viu algo reflexivo no alto, o luar batendo em algo
prateado e reluzente. Viu os restos do que tinha certeza de que era uma janela, largada na areia preta da margem. Ao longe, ouviu uma buzina de nevoeiro
vindo da boca da Golden Gate. A neblina devia ser densa lá, pensou Mae,
mesmo naquela hora, no local onde ela estava, a poucos quilômetros de
distância, fazia uma noite clara, com a lua brilhante e quase cheia. Sua cintilação
na água era extraordinária, tão brilhante que Mae se viu estreitando as pálpebras
para proteger os olhos. Ela se perguntou sobre as rochas perto da ilha onde tinha
visto focas e leões-marinhos. Será que estavam lá, será que iam fugir antes de
sua chegada? Uma brisa veio do oeste, um vento do Pacífico que descia dos
montes. Mae ficou parada um momento, avaliando o vento. Se soprasse com
mais força, ela teria de voltar. Agora Mae estava mais perto da ilha do que da
margem, mas se a água se tornasse agitada, com ela ali, sentada num caiaque,
sozinha e sem colete salva-vidas, o perigo seria insustentável. Porém, tão
depressa quanto veio, o vento desapareceu.
O som alto de um murmúrio chamou sua atenção para o lado norte. Um barco,
algo semelhante a um rebocador, vinha na sua direção. No telhado da cabine,
Mae viu luzes brancas e vermelhas e entendeu logo que era algum tipo de
patrulha, na certa a Guarda Costeira, e estavam próximos o suficiente para vê-la.
Se continuasse sentada com as costas eretas, sua silhueta rapidamente a
denunciaria.
Deitou-se bem achatada no fundo do caiaque, na esperança de que, caso
vissem o contorno que ela traçava, imaginassem ser uma rocha, um tronco, uma
foca ou apenas uma ondulação negra e larga que interrompia a cintilação
prateada da baía. O gemido do motor do barco ficou mais alto, e Mae teve
certeza de que dali a pouco um jato de luz de holofote bateria em cheio sobre
ela, porém o barco passou direto e Mae continuou sem ser vista.
A última arrancada rumo à ilha foi tão rápida que Mae pôs em dúvida seu
senso de distância. Num momento sentia que estava no máximo na metade do
caminho e logo depois o caiaque estava correndo rumo à praia da ilha como se
fosse impelido por fortes ventos de popa. Mae saltou da proa, a água branca e
gelada a envolveu. Ela correu para levar o caiaque para a margem, puxou-o até
que ficasse todo fora d’água e sobre a areia. Lembrou-se de uma vez em que
uma rápida subida da maré quase levou seu caiaque embora, por isso virou-o
numa posição paralela à margem e colocou pedras grandes dos dois lados.
Ficou parada, a respiração ofegante, sentindo-se forte, sentindo-se enorme.
Que coisa estranha estar ali, pensou ela. Havia uma ponte nas proximidades.
Quando passava de carro por lá, tinha visto aquela ilha uma centena de vezes e
nunca vira ninguém, nada, nem gente, nem animal. Ninguém se atrevia ou se
dava ao trabalho. O que tinha dado nela que a deixava com tanta curiosidade?
Ocorreu a Mae que aquele era o único ou pelo menos o melhor meio de chegar lá. Marion não aceitaria que Mae fosse tão longe e poderia mandar uma lancha
para localizá-la e trazê-la de volta. E, por sua vez, a Guarda Costeira também
não dissuadia as pessoas de ir até lá? Seria uma ilha particular? Todas aquelas
perguntas e preocupações eram irrelevantes agora, porque estava escuro,
ninguém podia ver Mae e ninguém jamais saberia que ela esteve lá. Mas ela
sabia.
Mae deu uma volta a pé em torno da ilha. A praia formava um colar na maior
parte do lado sul, depois dava lugar a um penhasco escarpado. Mae olhou para
cima, não viu pontos de apoio para os pés, e lá embaixo estava a água espumosa
na margem, por isso voltou pelo mesmo caminho, achando a encosta pedregosa e
difícil e a margem sem nada de interessante. Havia uma grossa faixa de algas,
misturada com carapaças de caranguejos e destroços que o mar largara na areia.
Mae enfiou os dedos naquilo. O luar dava às algas uma espécie de fosforescência
que ela já havia visto antes, despertando um resplendor de arco-íris, como se
fosse iluminada por dentro. Por um breve momento, teve a sensação de que
estava sobre uma superfície de água na própria lua, tudo tingido por uma
estranha paleta de cores invertidas. O que devia ser verde parecia cinzento, o que
devia ser azul era prateado. Tudo que Mae via nunca tinha visto antes. E no
instante em que teve esse pensamento, pelo canto do olho, ela viu o que teve
certeza de ser uma estrela cadente, caindo sobre o Pacífico. Só uma vez na vida
tinha visto uma estrela cadente e não podia ter certeza de que aquilo que viu era
a mesma coisa, um arco de luz que desapareceu por trás dos montes negros.
Porém o que mais poderia ser? Ficou sentada na praia por um momento, olhando
para o ponto onde tinha visto aquilo, como se pudesse aparecer outra, ou pudesse
ser o prenúncio de uma chuva de estrelas.
Mas ela estava, Mae sabia, adiando aquilo que mais desejava fazer, escalar o
pequeno pico de rocha, que ela logo atacou. Não havia nenhuma trilha, fato que
lhe deu um grande prazer — ninguém, ou quase ninguém já estivera ali onde ela
estava agora —, e assim Mae escalou usando tufos de capim e de raízes como
pontos de apoio para as mãos e colocando os pés em eventuais saliências de
rocha. Parou uma vez, pois havia encontrado um buraco grande, quase redondo,
quase limpo, na encosta. Só podia ser a toca de algum animal, mas que tipo de
animal, ela não podia saber com segurança. Imaginou uma toca de coelho ou
raposa, de cobra, toupeira ou rato, todas as opções igualmente possíveis e
impossíveis ali, e depois prosseguiu, sempre para cima. Não era difícil. Em
minutos chegou ao topo, encostou-se a um pinheiro solitário, não muito mais
alto do que ela. Ficou junto a ele, usou seu tronco áspero para se segurar e deu
meia-volta. Viu as janelinhas brancas da cidade ao longe. Observou o avanço de
um navio-petroleiro, o casco bem fundo na água, levando uma constelação de luzes vermelhas para o Pacífico.
De repente a praia pareceu estar muito longe, abaixo dela, e Mae sentiu o
estômago revirar-se. Olhou para o leste, agora com uma visão melhor das pedras
onde ficavam as focas, e viu mais ou menos uma dúzia delas deitadas lá,
dormindo. Ergueu os olhos para a ponte, não a Golden Gate, mas outra, menor,
sua correnteza branca de carros, ainda constante à meia-noite, e se perguntou se
alguém poderia avistar sua silhueta humana contra o fundo prateado da baía.
Lembrou o que Francis tinha dito certa vez, que ele nunca notara que havia uma
ilha embaixo da ponte. A maioria dos motoristas e seus passageiros não estariam
olhando para ela, lá embaixo, não teriam a mínima ideia de sua existência.
Então, ainda segurando-se ao áspero tronco de pinheiro, Mae percebeu pela
primeira vez um ninho preso nos galhos de cima da árvore. Ela não se atreveu a
tocar nele, sabendo que iria perturbar o equilíbrio dos cheiros e da construção,
mas sentiu uma terrível vontade de ver o que havia ali dentro. Subiu numa pedra
na tentativa de ficar mais alta do que o ninho e olhar dentro dele, mas não
conseguiu se posicionar numa altura suficiente para ter alguma visão de seu
interior. Será que podia erguer o ninho na mão e baixá-lo para espiar lá dentro?
Só por um segundo? Podia, não podia? E depois o colocaria de volta no lugar.
Não. Mae sabia muito bem que não podia fazer aquilo. Se fizesse, arruinaria o
que estivesse dentro do ninho.
Sentou-se de cara para o sul, onde podia avistar as luzes, as pontes, os morros
pretos e vazios que separavam a baía do Pacífico. Tudo aquilo tinha estado
debaixo d’água alguns milhões de anos antes, haviam contado para Mae. Todos
aqueles promontórios e ilhas tinham estado sob a água até então e mal seriam
percebidos como recifes na superfície do mar. Do outro lado da baía prateada,
Mae avistou um par de pássaros, garças talvez, deslizando num voo baixo rumo
ao norte, e ficou sentada por um tempo, enquanto a mente vagava à deriva rumo
ao vazio. Pensou nas raposas que talvez estivessem embaixo dela, nos
caranguejos que podiam estar escondidos sob as pedras na margem, nas pessoas
dentro dos carros que talvez estivessem passando no alto, acima dela, nos
homens e mulheres nos rebocadores e nos navios-petroleiros, chegando ao porto
ou partindo, suspirando, todos tendo visto tudo. Passou pela sua cabeça a ideia
de tudo aquilo que podia estar vivo e se movia, com um destino determinado ou
a esmo, sem rumo, debaixo da água profunda à sua volta, mas não chegou a
pensar demais em nada daquilo. Bastava ter consciência do milhão de
permutações possíveis ao seu redor e desfrutar o conforto de saber que ela não
ia, e na verdade não podia, saber grande coisa a respeito.
Quando Mae voltou à praia de Marion, de início pareceu que tudo estava como ela havia deixado. Não havia ninguém à vista e a luz dentro do trailer de
Marion estava como antes, rosada e fraca.
Mae pulou fora do caiaque e puxou-o para a margem, seus pés afundavam
muito na areia molhada, e ela arrastou o caiaque para a beira da praia. As pernas
estavam doloridas. Mae parou, largou o caiaque e alongou-se. Com as mãos
acima da cabeça, olhou para o estacionamento, viu seu carro, mas havia outro
carro ao lado. Enquanto estava olhando para aquele carro e imaginava que talvez
Marion tivesse voltado, foi cegada por uma luz branca.
“Não se mexa”, bradou uma voz amplificada.
Instintivamente, ela deu meia-volta.
A voz amplificada ressoou de novo: “Não se mexa!”, disse, agora com
agressividade.
Mae ficou imóvel, desequilibrada, por um momento preocupada, sem saber
quanto tempo conseguiria aguentar naquela posição, mas não era necessário.
Duas sombras desceram em sua direção, agarraram seus braços com brutalidade
e algemaram suas mãos atrás das costas.
Mae sentou-se no banco de trás do carro patrulha da polícia. Os policiais,
agora mais calmos, avaliavam se o que Mae lhes contava — que costumava
alugar caiaques ali, tinha ficha, era registrada, e simplesmente havia demorado a
devolver um caiaque alugado — podia ser verdade. Eles ligaram para Marion e
ela havia confirmado que Mae era uma cliente habitual, mas quando
perguntaram se Mae tinha alugado um caiaque naquele dia e havia atrasado a
devolução, Marion desligou o telefone e disse que iria para lá naquele instante.
Vinte minutos depois, Marion chegou. Estava no banco do passageiro de uma
caminhonete vermelha antiga, de colecionador, o motorista era um homem
barbudo que parecia estupefato e aborrecido. Mae, ao ver que Marion caminhava
trôpega rumo à viatura de polícia, se deu conta de que ela havia bebido e
provavelmente o homem barbudo também. Ele continuava no carro e parecia
decidido a ficar lá.
Enquanto Marion caminhava para o carro, Mae captou seu olhar, e Marion, ao
ver que Mae estava no banco de trás do carro patrulha, as mãos algemadas nas
costas, deu a impressão de ficar sóbria instantaneamente.
“Ah, meu Deus”, disse ela, correndo para Mae. Virou-se para os policiais.
“Ela é Mae Holland. Vive alugando caiaques aqui. Conhece tudo. O que foi que
houve, afinal? O que aconteceu?”
O policial explicou que tinham recebido duas mensagens sobre um provável
roubo. “Recebemos um telefonema de um cidadão que não quis se identificar.” E
depois viraram para Marion. “O outro aviso veio de uma das suas câmeras, sra.
Lefebvre.”
Mae mal conseguiu dormir. Sua adrenalina obrigou-a a ficar andando de um
lado para o outro a noite inteira. Como pôde ser tão idiota? Não era uma ladra. E
se Marion não a tivesse salvado? Podia acabar perdendo tudo. Seus pais iriam
ser chamados para pagar sua fiança e perderia seu emprego no Círculo. Mae
nunca tinha sido multada por excesso de velocidade, nunca tivera problemas de
nenhum tipo, e agora estava roubando um caiaque de mil dólares.
Mas o caso estava encerrado e Marion, quando se despediram, tinha até
insistido para Mae voltar. “Sei que você está sem graça, mas quero que volte
aqui. Se não aparecer, vou atrás de você.” Marion sabia que Mae ia se sentir tão
arrependida e tão envergonhada que não ia ter mais vontade de encará-la.
No entanto, quando acordou depois de algumas horas de sono entrecortado,
Mae teve uma estranha sensação de libertação, como se tivesse acordado de um
pesadelo e descoberto que nada daquilo havia acontecido. O passado tinha sido
apagado e ela foi para o trabalho.
Registrou sua entrada às oito e meia. Sua posição no ranking estava em 3892.
Ela deu duro a manhã toda, sentindo a extraordinária concentração que é
possível durante algumas horas, após uma noite maldormida. Periodicamente,
vinham lembranças da noite anterior — o prateado silencioso da água, o pinheiro
solitário na ilha, a luz ofuscante do carro patrulha, o cheiro de plástico daquela
viatura, a conversa tola com Mercer —, mas tais lembranças estavam se
embotando, ou Mae estava forçando o embotamento delas, quando recebeu uma
mensagem de Dan na segunda tela: Por favor, venha ao meu escritório assim
que puder. Jared vai cobrir você.
Mae foi lá correndo e, quando chegou à porta, Dan estava de pé, a postos. O
rosto mostrava certa satisfação por Mae ter vindo depressa. Dan fechou a porta e
os dois sentaram.
“Mae, sabe sobre o que quero conversar?”
Seria aquilo um teste para ver se ela mentia?
“Desculpe, não sei”, respondeu tateante.
Dan piscou os olhos devagar. “Mae. Última chance.”
“É sobre a noite passada?”, perguntou. Se ele não sabia nada a respeito da
polícia, Mae podia inventar outra coisa, alguma outra coisa que tivesse
acontecido de madrugada.
“É sim. Mae, isso é um assunto muito sério.”
Ele sabia. Deus, ele sabia. Em algum recesso de sua mente, Mae se deu conta
de que o Círculo devia ter algum alerta na internet para notificá-los toda vez que
um funcionário fosse acusado ou interrogado pela polícia. Fazia todo sentido.
“Mas não houve nenhuma acusação”, protestou Mae. “Marion esclareceu
tudo.”
“Marion é a dona do quiosque?”
“Sim.”
“Mas, Mae, você e eu sabemos que um crime foi cometido, não sabemos?”
Mae não tinha a menor ideia do que dizer.
“Mae, vou poupar você. Sabia que um funcionário aqui do Círculo instalou
uma câmera SeeChange naquela praia?”
O estômago de Mae afundou até os pés. “Não. Não sabia.”
“E sabia que o filho da proprietária, Walt, também instalou uma câmera?”
“Não.”
“Muito bem, em primeiro lugar, isso já é algo perturbador em si. Você anda
de caiaque às vezes, não é? Vi em seu perfil que gosta de andar de caiaque.
Josiah e Denise contaram que já tiveram uma boa conversa com você sobre o
assunto.”
“Às vezes ando de caiaque. Já faz uns meses.”
“Mas você nunca pensou em verificar as condições do mar nas câmeras
SeeChange?”
“Não. Eu devia fazer isso. Mas toda vez que ando de caiaque, na verdade, é
uma coisa que me dá na hora, sem planejar. A praia fica no caminho para a casa
de meus pais e então...”
“E ontem você esteve na casa de seus pais?”, Dan perguntou, de um modo que
deixava bem claro que, se Mae respondesse que sim, ele ficaria ainda mais