O Círculo

Dave Eggers · Apêndice

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O Círculo

O Círculo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

verdade. Postou 33 comentários num site de produtos em fase de teste e galgou

posições até 2009. Olhou para o pulso esquerdo para ver como seu corpo estava

reagindo e se empolgou ao ver sua pulsação aumentando. Mae estava no

comando de tudo aquilo e precisava de mais. O número total de estatísticas que

ela estava monitorando era apenas 41. Havia sua pontuação no serviço de

cliente, que era 97. Havia sua última pontuação, que era 99. Havia a média de

sua turma, que era 96. Havia o número de pesquisas enviadas naquele dia, até

então, 221, e o número de pesquisas efetuadas naquela hora no dia anterior, 219,

e o número efetuado por ela em média, 220, e pelos outros membros de sua

turma: 198. Na sua segunda tela, havia o número de mensagens enviadas por

outros funcionários naquele dia, 1192, e o número de mensagens que ela havia

lido, 239, e o número de mensagens que ela havia respondido, 88. Havia o

número de convites recentes para eventos corporativos do Círculo, 41, e o

número de suas respostas, 28. Havia o número global de visitantes dos sites do

Círculo naquele dia, 3,2 bilhões, e o número de páginas visitadas, 88,7 bilhões.

Havia o número de amigos no Círculo Exterior de Mae, 762, pedidos pendentes de pessoas que queriam ser seus amigos, 27. Havia o número de zingadores que

ela estava seguindo, 10 343, e o número dos que a seguiam, 18 198. Havia o

número de zings não lidos. Havia o número de zingadores sugeridos para ela,

12 862. Havia o número de canções em sua biblioteca digital, 6877, o número de

artistas representados, 921, o número de artistas recomendados para ela com

base em seus gostos, 3 408. Havia o número de imagens em sua biblioteca,

33 002, e o número de imagens recomendadas para ela, 100 038. Havia a

temperatura no interior do prédio, 21, e a temperatura do lado de fora, 22. Havia

o número de funcionários presentes no campus naquele dia, 10 981, e o número

de visitantes no campus naquele dia, 248. Mae tinha alertas de notícia instalados

para 45 nomes e assuntos e toda vez que algum deles era citado por qualquer um

dos feeds novos que ela havia escolhido entre seus favoritos, recebia um alerta.

Naquele dia havia 187. Ela podia ver quanta gente tinha visto seu perfil naquele

dia, 210, e quanto tempo tinham gastado em média: 1,3 minuto. Se quisesse, é

claro, ela poderia ir mais a fundo e ver exatamente o que cada pessoa tinha

visualizado. Seus índices de saúde acrescentavam mais um punhado de números,

cada um deles lhe dava uma sensação de grande tranquilidade e controle. Sabia

qual era seu batimento cardíaco e sabia que estava bom. Sabia como andava a

contagem de seus passos, quase 8200 naquele dia, e sabia que podia alcançar

10 000 com facilidade. Sabia que ela estava devidamente hidratada e que sua

ingestão de calorias naquele dia estava dentro das normas aceitas para alguém

com seu índice de massa corporal. Num momento de repentina lucidez, ocorreu

a Mae que o que sempre havia provocado sua ansiedade, ou estresse, ou

preocupação, não era alguma força isolada, nada de independente e exterior —

não era o perigo a que ela mesma estava sujeita nem a constante calamidade que

rondava outras pessoas e os problemas delas. Era algo interno: era subjetivo: era

não saber. Não era ter tido uma discussão com uma amiga ou ter levado uma

bronca de Josiah ou Denise: era não saber o que aquilo significava, não conhecer

os planos deles, não saber as consequências, o futuro. Se ela soubesse, haveria

calma. Com certo grau de certeza, ela sabia onde estavam seus pais: em casa,

como sempre. Com a ajuda da Busca do Círculo, ela podia saber onde estava

Annie: em seu escritório, provavelmente ainda trabalhando, também. Mas onde

estava Kalden? Fazia duas semanas desde a última vez que tivera notícias dele.

Mandou uma mensagem de celular para Annie.

Está acordada?

Sempre.

Ainda não tive notícia do Kalden.

O coroa? Vai ver que morreu. Teve uma vida boa e longa.

Acha mesmo que era só um penetra?

Acho que você deu um tiro na água. Estou contente por ele não ter voltado.

Estava preocupada com as possibilidades de algum lance de espionagem.

Ele não era um espião.

Então era só um velho. Quem sabe era o avô de algum membro do Círculo

que veio visitar seu neto e se perdeu? Tanto faz. Você é jovem demais para ficar

viúva.

Mae pensou nas mãos dele. As mãos de Kalden acabaram com ela. Naquele

momento, tudo que ela desejava era ter as mãos dele sobre si outra vez. A mão

de Kalden em seu cóccix, puxando-a para perto. Será que seus desejos podiam

mesmo ser tão simples? E afinal onde é que ele tinha se metido? Ele não tinha

nenhum direito de sumir daquele jeito. Mae verificou a Busca do Círculo outra

vez; tinha procurado por ele cem vezes daquele modo, sem nenhum sucesso.

Mas Mae tinha o direito de saber onde ele estava. Pelo menos saber onde estava,

quem ele era. Aquilo era o desnecessário e antiquado fardo da incerteza. Ela

podia saber imediatamente qual era a temperatura em Jacarta, mas não conseguia

encontrar um homem no campus desse jeito? Por onde andava aquele homem

que a havia tocado de um modo diferente? Se ela conseguisse eliminar aquele

tipo de incerteza — onde e por quem ela seria tocada de novo de um modo

diferente —, poderia eliminar a maioria dos fatores de estresse do mundo e

talvez, também, a onda de desespero que vinha se acumulando em seu peito. Ela

vinha sentindo aquilo, aquele rasgão negro, aquele rasgo pesado dentro dela,

algumas vezes por semana. Em geral, não demorava muito tempo, mas quando

fechava os olhos via um rasgo pequenino no que parecia ser um pano preto, e

através daquele rasgo pequenino ouvia o grito de milhões de almas invisíveis.

Era uma coisa muito estranha, ela se deu conta, e era algo que ela nunca

mencionava para ninguém. Podia ter falado daquilo com Annie, mas, como

estava trabalhando havia tão pouco tempo no Círculo, não quis preocupar sua

amiga. No entanto que sentimento era aquele? Quem estava gritando através do

rasgo no pano? Mae descobriu que a melhor maneira de superar aquilo era

redobrar seu foco, manter-se ocupada, dar mais de si. Teve o pensamento breve e

tolo de que talvez encontrasse Kalden no programa LuvLuv. Foi conferir e

sentiu-se idiota quando suas dúvidas foram confirmadas. O rasgo estava se

abrindo dentro dela, um negror a dominava. Ela fechou os olhos e ouviu gritos

debaixo d’água. Mae praguejou o desconhecimento, e sabia que precisava de

alguém que pudesse ser conhecido. Que pudesse ser localizado.

 

A batida na porta foi de leve e hesitante.

“Está aberta”, disse Mae.

Francis enfiou a cara na brecha e segurou a porta.

“Tem certeza?”, perguntou ele.

“Eu convidei você”, disse Mae.

Ele entrou ligeiro, fechou a porta, como se tivesse escapado por pouco de

algum perseguidor no corredor. Olhou em redor do quarto. “Gostei do que você

fez com o lugar.”

Mae riu.

“É melhor a gente ir para o meu”, disse ele.

Mae pensou em protestar, mas queria ver como era o quarto dele. Todos os

quartos dos dormitórios variavam de maneiras sutis e agora, de tão populares e

práticos, levavam muitos membros do Círculo a morar neles em caráter mais ou

menos permanente e a personalizá-los. Quando chegaram, Mae viu que o quarto

dele era um espelho do seu, embora com alguns toques de Francis, dos quais o

que chamava mais a atenção era uma máscara de papel machê que ele tinha feito

quando criança. Amarela e com enormes olhos e óculos, a máscara estava na

cama e encarava Mae. Francis viu que ela olhava fixamente para a máscara.

“O que foi?”, perguntou.

“É estranho, não acha? Uma máscara em cima da cama?”

“Quando durmo, não vejo a máscara”, respondeu Francis. “Quer beber alguma

coisa?” Olhou dentro da geladeira, achou sucos e um novo tipo de saquê numa

garrafa de vidro redonda de cor rosada.

“Tem uma cara boa”, disse Mae. “Não tenho isso no meu quarto. Minha

garrafa é do tipo padrão. Talvez seja uma marca diferente.”

Francis preparou drinques para os dois, enchendo os copos até a boca.

“Tomo uns goles toda noite”, disse ele. “É o único jeito de dar uma freada na

minha cabeça para eu conseguir apagar. Você também tem esse problema?”

“Levo uma hora para dormir”, disse Mae.

“Bem”, disse Francis, “isto aqui reduz o tempo de apagar de uma hora para

quinze minutos.”

Entregou o copo para Mae. Ela olhou para a bebida, no início achando aquilo

muito triste, o saquê toda noite, depois sabendo que iria experimentar aquilo no

dia seguinte.

Francis estava olhando para alguma coisa entre a barriga e o cotovelo de Mae.

“O que foi?”

“Essa sua cintura é que não dá para aguentar”, disse ele.

“O que disse?”, perguntou Mae, pensando que não valia a pena, não podia

valer a pena ficar com aquele homem que dizia coisas assim.

“Não, não!”, disse ele. “Quero dizer que é tão maravilhosa. A linha da cintura,

como ela faz uma curva feito uma espécie de arco.”

E então as mãos dele traçaram o contorno da cintura de Mae, desenhando um grande C no ar. “Adoro seus quadris e seus ombros. E com essa cintura.” Ele

sorriu, olhando fixamente para ela, como se não tivesse a menor ideia da

estranha franqueza do que tinha acabado de falar ou não se importasse com

aquilo.

“Acho que devo agradecer”, disse ela.

“Na verdade, é mesmo um elogio”, disse ele. “É como se essas curvas

tivessem sido criadas por alguém para a gente encaixar as mãos ali.” Fez a

mímica de pôr as palmas das mãos na cintura dela.

Mae ficou de pé, tomou um gole de seu drinque e pensou se não era melhor se

mandar. Porém aquilo era um elogio. Ele tinha feito um elogio inconveniente,

desajeitado, mas muito direto, que ela sabia que nunca iria esquecer e que já

havia impelido seu coração para um ritmo de batimento novo e irregular.

“Quer assistir a alguma coisa?”, perguntou Francis.

Mae deu de ombros, ainda perplexa.

Francis percorreu as opções. Eles tinham acesso a quase todos os filmes e

programas existentes na televisão. Passaram cinco minutos marcando coisas

diferentes que podiam ver, depois pensaram algo parecido, mas melhor.

“Ouviu falar desse lance novo do Hans Willis?”, perguntou Francis.

Mae tinha decidido ficar e tinha decidido que se sentia bem com Francis. Que

ela ali tinha poder e gostava daquele poder. “Não. Quem é?”

“É um dos músicos residentes. Gravou um show inteiro na semana passada.”

“Foi lançado?”

“Não. Mas se receber boas avaliações dos membros do Círculo, talvez o

lancem. Deixe ver se eu localizo.”

Tocou a música, uma peça delicada para piano, que soava como o início de

uma chuva. Mae levantou para apagar as luzes, deixando que a luminosidade

cinzenta do monitor permanecesse, lançando sobre Francis uma luz

fantasmagórica.

Mae viu um livro grosso de capa de couro e apanhou. “O que é isto? Não

tenho isto no meu quarto.”

“Ah, isso é meu. É um álbum. Só umas fotos.”

“Tipo fotos de família?”, perguntou Mae, e depois lembrou-se da história

complicada de Francis. “Desculpe. Sei que provavelmente não é a melhor

maneira de falar disso.”

“Tudo bem”, disse ele. “São meio que fotos de família mesmo. Minhas irmãs

aparecem em algumas. Mas na maioria são fotos de mim e das famílias adotivas.

Quer olhar?”

“Você guarda isto aqui no Círculo?”

Tomou o álbum da mão de Mae e sentou-se na cama. “Não. Em geral deixo

em casa, mas trouxe para cá. Quer dar uma olhada? É bem deprimente.”

Francis já havia aberto o álbum. Mae sentou-se a seu lado e ficou olhando

enquanto ele virava as páginas. Viu relances de Francis em quartos humildes,

mal iluminados, e em cozinhas, num parque de diversões eventual. Os pais

estavam sempre fora de foco ou fora do quadro das fotos. Francis chegou a uma

fotografia dele mesmo sentado numa prancha de skate, olhando para a lente

através de uns óculos enormes.

“Deviam ser os óculos da mamãe”, disse ele. “Olhe só para a armação.” Ele

passou o dedo sobre as lentes redondas. “É um modelo feminino, não é?”

“Acho que sim”, respondeu Mae, olhando para o rosto de Francis pequeno.

Tinha a mesma expressão franca, o mesmo nariz proeminente, o mesmo lábio

inferior grosso. Mae sentiu os olhos se encherem de lágrimas.

“Não consigo me lembrar dessa armação”, disse ele. “Não sei de onde veio.

Só consigo imaginar que meus óculos devem ter se quebrado e que esses eram os

dela e ela deixou que eu usasse.”

“Você está bonitinho”, disse Mae, mas queria chorar e chorar.

Francis olhava para a foto estreitando as pálpebras, como se esperasse vislumbrar algumas respostas se a observasse por bastante tempo.

“Onde foi isso?”, perguntou Mae.

“Não tenho a menor ideia”, disse ele.

“Não sabe onde morava?”

“Nem de longe. Mesmo fotografias são uma coisa muito rara. Nem todas as

famílias adotivas dão fotos para a gente, mas quando fazem isso, tomam o

cuidado de não mostrar nada que possa ajudar a localizá-los. Nenhuma imagem

do exterior das casas, nenhum endereço nem placas de rua nem pontos de

referência.”

“Está falando sério?”

Francis olhou para ela. “É o jeito adotivo de criar um filho.”

“Por quê? Para que a criança não possa voltar?”

“É só uma regra. Sim, para que a criança não possa voltar. Se ficaram com

você por um ano, e se esse era o trato, e se eles não querem que você ponha mais

os pés na casa deles, sobretudo quando ficou mais velho. Algumas crianças têm

tendências graves, por isso as famílias têm de se preocupar quando elas ficam

mais velhas e podem ir atrás delas.”

“Eu não tinha a menor ideia disso.”

“Pois é. É um sistema estranho, mas faz sentido.” Ele bebeu o resto do saquê e

levantou-se para ajustar o volume do som.

“Posso olhar?”, perguntou Mae.

Francis deu de ombros. Mae folheou o álbum em busca de alguma

identificação nas imagens. Mas nas dúzias de fotos não viu nenhum endereço,

nenhuma casa. Todas as fotografias eram no interior de residências ou em

quintais impessoais.

“Aposto que algumas delas gostariam de ter notícias suas”, disse Mae.

Francis terminou de regular o som e agora tocava outra música, uma antiga

canção soul cujo nome Mae não sabia. Ele sentou ao lado dela.

“Talvez. Mas não é esse o trato.”

“Então você não tentou entrar em contato com elas? Quer dizer, por meio do

reconhecimento facial...”

“Não sei. Não decidi. Sabe, é por isso que trouxe o álbum para cá. Vou

examinar as fotografias amanhã para ver. Talvez consiga alguma coisa. Mas não

estou fazendo muitos planos para além desse ponto. Só preencher algumas

lacunas.”

“Você tem direito de saber pelo menos algumas coisas básicas.”

Mae estava folheando o álbum e se deteve numa foto de Francis pequeno, não

mais de cinco anos, com duas meninas, de nove ou dez anos, uma de cada lado.

Mae sabia que eram as irmãs dele, as duas que tinham sido assassinadas, e queria olhar para elas, embora não soubesse por quê. Não queria forçar Francis a falar

sobre as irmãs e sabia que ela não devia dizer nada, que devia deixar que ele

começasse a tratar do assunto, e se o próprio Francis não fizesse aquilo num

breve intervalo, ela devia virar a página.

Francis não falou nada, portanto Mae virou a página, sentindo uma onda de

afeto por ele. Tinha sido muito dura com Francis antes. Ele estava ali, gostava

dela, queria que Mae ficasse com ele, e era a pessoa mais triste que Mae tinha

visto em sua vida. Ela podia mudar aquilo.

“Sua pulsação está enlouquecendo”, disse ele.

Mae olhou para seu bracelete e viu que seus batimentos cardíacos estavam em

134.

“Deixe ver o seu”, disse ela.

Ele arregaçou a manga. Ela pegou seu pulso e virou-o. Estava em 128.

“Você também não está muito calmo”, disse Mae, e deixou sua mão pousada

na perna dele.

“Deixe sua mão aí e vai ver como meus batimentos ficam mais acelerados”,

disse ele, e logo os batimentos subiram mesmo. Foi espantoso. Rapidamente

subiu para 134. Mae ficou empolgada com seu próprio poder, a prova daquilo,

bem na sua frente e mensurável. Ele estava em 136.

“Quer que eu tente uma coisa?”, perguntou ela.

“Quero”, sussurrou Francis, controlando a respiração.

Ela estendeu a mão nas dobras da calça dele, achou seu pênis pressionado

contra a fivela do cinto. Mae esfregou a ponta dele com seu dedo indicador e,

juntos, os dois olharam o número subir para 152.

“Você é fácil de excitar”, disse ela. “Imagine se estivesse acontecendo alguma

coisa de verdade.”

Os olhos dele se fecharam. “Certo”, disse ele por fim, controlando a

respiração.

“Está gostando disso?”, perguntou Mae.

“Hm-hm”, conseguiu responder.

Mae ficou entusiasmada com seu poder sobre ele. Vendo Francis com as mãos

sobre a cama, seu pênis empurrando o tecido da calça, ela pensou numa coisa

para dizer. Era cafona e ela jamais diria aquilo se achasse que alguém viria a

saber que havia falado daquele jeito, mas pensar naquilo a fez sorrir, e Mae sabia

que faria Francis, aquele garoto tímido, perder o controle.

“O que mais isso mede?”, e deu um bote com a mão.

Os olhos dele ficaram transtornados, ele brigou com as calças, tentando tirá-

las. Mas na hora em que puxava a calça para baixo sobre as coxas, saiu um som

de sua boca, algo como “Ah, meu Deus” ou “Eu vou”, um segundo antes de ele se curvar para a frente, a cabeça virando para a esquerda e para a direita, até que

ele desabou na cama, com a cabeça virada para a parede. Mae recuou, olhando

para ele, sua camisa levantada, a virilha à mostra. Ela só conseguiu pensar numa

fogueira de acampamento, um pequeno toco de lenha, todo ele encharcado de

leite.

“Desculpe”, disse Francis.

“Não. Gostei disso”, respondeu Mae.

“Nunca me aconteceu assim tão de repente.” Francis ainda estava muito

ofegante. E então alguma sinapse traiçoeira dentro de Mae associou aquela cena

com seu pai, ver seu pai no sofá, impotente, sobre o próprio corpo. Mae teve

uma vontade terrível de estar longe dali.

“É melhor eu ir”, disse ela.

“É mesmo? Por quê?”, perguntou Francis.

“Já passa da uma, preciso dormir.”

“Está bem”, respondeu, de um jeito que ela achou desagradável. Francis

parecia querer que ela fosse embora tanto quanto ela mesma queria.

Ele se levantou e pegou seu telefone celular, que estava de pé na mesinha, de

frente para eles.

“O que é isso, estava filmando a gente?”, disse Mae de brincadeira.

“Talvez”, respondeu ele, e seu tom de voz deixava claro que tinha feito aquilo.

“Espere aí. É sério?”

Mae estendeu a mão para pegar o telefone.

“Não”, disse ele. “É meu.” Enfiou o celular no bolso.

“É seu? O que nós acabamos de fazer é seu?”

“É tão meu quanto seu. E fui eu que tive, sabe, um clímax. E afinal por que

você se importa? Não estava nua nem nada.”

“Francis, não consigo acreditar. Delete isso. Agora.”

“Você disse ‘delete’?”, perguntou ele, em tom de zombaria, mas o sentido

estava claro. Não deletamos no Círculo. “Eu preciso ter um jeito de eu mesmo

ver isso.”

“Mas depois todo mundo vai poder ver.”

“Não vou fazer propaganda nem nada.”

“Francis. Por favor.”

“Deixe disso, Mae. Você tem que entender como isso é importante para mim.

Não sou nenhum garanhão. É uma ocasião rara para mim uma coisa dessas me

acontecer. Não posso guardar uma recordação da experiência?”

 

“Você não pode ficar preocupada”, disse Annie.

Estavam no Auditório Principal do Iluminismo. Numa circunstância rara, Stenton ia dar a Palestra das Ideias, com a promessa de trazer um convidado

especial.

“Mas estou preocupada”, disse Mae. Desde seu encontro com Francis, Mae

não conseguia se concentrar. O vídeo não tinha sido visto por mais ninguém,

mas se estava no celular, estava na nuvem do Círculo, acessível a qualquer

pessoa. Acima de tudo, ela estava decepcionada consigo mesma. Deixara o

mesmo homem fazer a mesma coisa com ela duas vezes.

“Não me peça de novo para deletar o vídeo”, disse Annie, enquanto

cumprimentava com um aceno de mão alguns veteranos do Círculo, membros da

Gangue dos 40, na multidão.

“Por favor, delete.”

“Você sabe que não posso. Aqui, não deletamos, Mae. Bailey teria um troço.

Ele ia chorar. Ele fica pessoalmente magoado quando alguém sequer pensa em

deletar qualquer informação. É como matar bebês, diz ele. Você sabe disso.”

“Mas esse bebê está masturbando outra pessoa. Ninguém quer esse bebê.

Temos de deletar esse bebê.”

“Ninguém jamais verá você. Sabe disso. Noventa e nove por cento do material

que fica na nuvem nunca é visto por ninguém. Se for visto, mesmo que seja por

uma única pessoa, aí podemos conversar outra vez. Está certo?” Annie pôs a

mão sobre a mão de Mae. “Agora, veja só isso. Você não sabe como é raro o

Stenton dar uma palestra. Deve ser uma coisa muito séria e deve envolver algum

assunto relacionado ao governo. Esse é o nicho dele.”

“Você não sabe o que ele vai dizer?”

“Tenho alguma ideia”, respondeu.

Stenton subiu ao palco sem nenhuma apresentação. A plateia aplaudiu, mas de

um modo obviamente distinto do modo como haviam aplaudido Bailey. Bailey

era o tio talentoso deles, que havia salvado pessoalmente a vida de todos ali.

Stenton era seu patrão, com quem tinham de se comportar de maneira

profissional e a quem tinham de aplaudir de maneira profissional. Num terno

preto impecável, sem gravata, ele andou até o centro do palco e, sem se

apresentar ou dar bom-dia, começou.

“Como sabem”, disse, “a transparência é uma coisa que defendemos aqui no

Círculo. Vemos um sujeito como Stewart como uma inspiração — um homem

que está disposto a abrir sua vida a fim de ampliar nosso conhecimento coletivo.

Ele tem filmado e gravado todos os movimentos de sua vida já faz cinco anos e

isso tem representado uma vantagem inestimável para o Círculo e, em breve,

aposto, para toda a humanidade. Stewart?”

Stenton olhou para a plateia e localizou Stewart, o Homem Transparência, de

pé, com o que parecia uma pequena lente de telefoto pendurada no pescoço. Era careca, de uns sessenta anos, ligeiramente curvado, como se fosse por causa do

peso do dispositivo que repousava em seu peito. Recebeu uma salva de palmas

antes de se sentar.

“Enquanto isso”, disse Stenton, “existe outra área da vida pública da qual

queremos e esperamos transparência, e isso é democracia. Temos sorte de ter

nascido e crescido numa democracia, mas uma democracia que sempre passa por

aprimoramentos. Quando eu era criança, para combater acordos políticos feitos

por baixo dos panos, por exemplo, os cidadãos exigiram as Leis de Liberdade de

Informação. São leis que dão aos cidadãos acesso a reuniões, transcrições. Eles

podem assistir a audiências públicas e solicitar documentos. E no entanto, tanto

tempo passado desde a fundação desta democracia, todos os dias nossos líderes

eleitos ainda se veem embrulhados em algum escândalo, em geral relacionados

ao fato de terem feito algo que não deviam fazer. Algo secreto, ilegal, contra a

vontade e contra o melhor interesse da república. Não admira que a confiança

pública no Congresso esteja em onze por cento.”

Houve uma onda de murmúrios na plateia. Stenton confirmou. “O índice de

aprovação do Congresso está mesmo em onze por cento! E, como sabem, certa

senadora acabou de ser denunciada por envolvimento num negócio muito pouco

recomendável.”

A multidão deu uma gargalhada, aplaudiu, prendeu o riso.

Mae inclinou-se para Annie. “Espere aí, que senadora?”

“Williamson. Você não soube? Ela foi espinafrada por uma porção de coisas

bizarras. Está sob investigação por meia dúzia de questões, todas envolvem

violação da ética. Acharam tudo no computador dela, uma centena de buscas e

downloads bizarros, algumas coisas de arrepiar mesmo.”

Sem querer, Mae pensou em Francis. Voltou sua atenção de novo para

Stenton.

“Sua ocupação poderia ser jogar fezes humanas na cabeça de cidadãos

idosos”, disse ele, “e, ainda assim, o índice de aprovação seria mais alto do que

onze por cento. Portanto, o que pode ser feito? O que pode ser feito para

restaurar a confiança pública em seus líderes eleitos? Estou feliz por poder dizer

que existe uma mulher que está levando tudo isso muito a sério e que está

fazendo algo para tratar da questão. Permitam que apresente Olivia Santos,

representante do Décimo Quarto Distrito.”

Uma mulher corpulenta, de uns cinquenta anos, de terninho vermelho e

echarpe amarela com estampas de flores, saiu dos bastidores, acenando para a

plateia com os dois braços acima da cabeça. A julgar pelos aplausos escassos e

dispersos, estava claro que pouca gente no Auditório Principal sabia quem ela

era.

Stenton lhe deu um forte abraço e, quando a mulher se pôs a seu lado, com as

mãos cruzadas na frente do corpo, ele prosseguiu. “Para aqueles que precisam

refrescar a memória cívica, a congressista Santos representa este mesmo distrito.

Se não a conheciam, tudo bem. Agora conhecem.” Virou-se para ela. “Como vai,

congressista?”

“Vou bem, obrigada, Tom, muito bem. Muito feliz de estar aqui.”

Stenton ofereceu a ela sua versão de um sorriso caloroso e em seguida se

voltou de novo para a plateia.

“A congressista Santos está aqui para anunciar o que devo chamar de um

passo muito importante na história do governo. E um passo rumo à transparência

suprema, que todos buscamos em nossos líderes eleitos, desde o nascimento da

democracia representativa. Congressista?”

Stenton deu um passo para trás e sentou-se num banco alto, atrás da deputada.

A deputada Santos foi para a parte da frente do palco, as mãos agora cruzadas

nas costas, e percorreu a sala com o olhar.

“Muito bem, Tom. Estou tão preocupada quanto você com a necessidade de os

cidadãos saberem o que seus líderes eleitos fazem. Quero dizer, é seu direito,

não é? É seu direito saber como passam seus dias. Com quem se encontram.

Com quem conversam. O que fazem com os tostões de quem paga os impostos.

Até agora, o que existe é um sistema precário de responsabilidade. Senadores e

deputados, prefeitos e vereadores eventualmente divulgam sua programação de

atividades e permitem aos cidadãos graus variáveis de acesso. Mas mesmo assim

nos perguntamos: Por que eles se reúnem com aquele ex-senador que virou

lobista? E como o congressista ganhou aqueles cento e cinquenta mil dólares que

o FBI achou escondidos na geladeira da casa dele? Como foi que aquele outro

senador combinou e teve encontros amorosos escondidos com uma porção de

mulheres, enquanto sua esposa estava tratando o câncer? Quero dizer, a profusão

de delitos praticados enquanto esses representantes estão sendo pagos por nós,

cidadãos, não é só deplorável, não é só inaceitável, mas também é uma coisa

desnecessária.”

Houve uma ligeira salva de palmas. Santos sorriu, fez que sim com a cabeça e

continuou.

“Todos queremos e esperamos transparência de nossos líderes eleitos, mas a

tecnologia não estava disponível para tornar isso viável. Porém hoje está. Como

Stewart demonstrou, é muito fácil proporcionar ao mundo total acesso ao nosso

dia, ver o que estamos vendo, ouvir o que estamos ouvindo e o que estamos

falando. Obrigado por sua coragem, Stewart.”

A plateia aplaudiu Stewart outra vez, com vigor renovado, alguns já

adivinhando o que Santos ia anunciar.

“Portanto resolvi seguir Stewart em sua marcha para o esclarecimento. E no

caminho pretendo demonstrar como a democracia pode e deve ser: inteiramente

aberta, inteiramente transparente. A partir de hoje, vou usar o mesmo dispositivo

que Stewart está usando. Todas as minhas reuniões, todos os meus movimentos,

todas as minhas palavras serão de livre acesso para meus eleitores e para o

mundo.”

Stenton levantou-se de seu banco e andou na direção de Santos. Olhou para os

membros do Círculo ali reunidos. “Vamos dar uma salva de palmas para a

congressista Santos?”

Mas a plateia já estava aplaudindo. Soaram gritos e assovios. Santos ficou

exultante. Enquanto as pessoas urravam, um técnico surgiu dos bastidores e

pendurou um colar no pescoço dela — uma versão menor da câmera que Stewart

estava usando. Santos levou a lente aos lábios e beijou-a. A plateia gritou.

Depois de um minuto, Stenton ergueu as mãos e a multidão silenciou. Voltou-se

para Santos.

“Então a senhora está dizendo que todas as conversas, todas as reuniões, todas

as partes de seus dias serão divulgadas na rede?”

“Sim. Tudo vai estar acessível na minha página do Círculo. Todos os

momentos, até eu dormir.” A plateia aplaudiu outra vez e Stenton deixou, mas

depois pediu novamente silêncio.

“E se aqueles que desejarem se reunir com a senhora não quiserem que a

reunião seja divulgada na rede?”

“Bem, nesse caso eles não irão se reunir comigo”, respondeu. “Ou somos

transparentes ou não somos. Ou somos responsáveis ou não somos. O que

alguém pode ter para me dizer que não possa ser dito em público? Que parte da

representação do povo não deve ser conhecida pelo próprio povo que estou

representando?”

O aplauso afogou sua voz.

“De fato”, respondeu Stenton.

“Obrigada! Obrigada!”, disse Santos, curvando-se, com as palmas das mãos

juntas em posição de prece. O aplauso se prolongou por alguns minutos. Afinal,

Stenton acenou mais uma vez para pedir silêncio.

“E quando a senhora vai começar esse programa novo?”, perguntou ele.

“Agora mesmo”, respondeu ela. Apertou um botão no dispositivo em seu

pescoço e lá estava a imagem da câmera projetada na tela gigantesca atrás dela.

A plateia viu a si mesma com grande nitidez e gritou em aprovação.

“Começa agora para mim, Tom”, disse ela. “E espero que comece em breve

para o restante dos líderes eleitos neste país — e para todos os outros de todas as

democracias do mundo.”

Curvou-se para agradecer, juntou as mãos outra vez e depois começou a sair

do palco. Quando estava chegando perto das cortinas no palco, ela parou. “Não

há nenhum motivo para eu ir nessa direção, está escuro demais. Vou para esse

outro lado”, disse ela, e as luzes na plateia acenderam na hora em que ela pôs os

pés no chão, sob a luz forte. Os milhares de rostos do salão que aplaudiam a cena

de repente ficaram visíveis. Ela caminhou em frente pelo corredor entre as

poltronas do auditório, mãos se estendiam para ela, rostos sorridentes lhe diziam

obrigado, obrigado, vá em frente, nos encha de orgulho.

 

Naquela noite, na Colônia, houve uma recepção para a congressista Santos e

ela continuou rodeada por um enxame de novos admiradores. Mae, por um breve

tempo, alimentou a ideia de tentar se aproximar da congressista o bastante para

apertar sua mão, mas a multidão a seu redor tinha dois metros de profundidade, a

noite inteira; portanto, em vez disso, Mae foi comer no bufê, escolheu uma

espécie de pernil desfiado que era feito no campus e esperou por Annie. Ela

dissera que ia tentar aparecer, mas estava com o prazo apertadíssimo para se

preparar para uma audiência na União Europeia. “Eles estão enchendo o saco de

novo por causa dos impostos”, disse ela.

Mae andou sem rumo pelo salão, que tinha sido decorado com uma temática

vagamente de deserto, alguns cactos e arenitos esparsos na frente de paredes

com pores do sol digitais. Mae viu e cumprimentou Dan, Jared e alguns novatos

que ela vinha treinando. Procurou Francis, na esperança de que ele não estivesse

ali, mas então lembrou, com grande alívio, que ele estava numa conferência em

Las Vegas — uma reunião de funcionários de instituições e organismos

incumbidos de aplicar a lei para os quais ele ia apresentar o ChildTrack, seu

programa para rastreamento de crianças. Enquanto Mae vagava pelo salão, uma

tela de pôr do sol se apagou e deu lugar ao rosto de Ty. Seu rosto não tinha sido

barbeado, trazia bolsas embaixo dos olhos, e embora estivesse nitidamente

esgotado, ostentava um largo sorriso. Vestia sua blusa de moletom com capuz de

costume, de tamanho grande demais para ele. Levou um instante para limpar

seus óculos na manga do moletom, antes de olhar para o salão, para a direita e

para a esquerda, como se pudesse ver todos lá de onde estava, onde quer que

fosse. Talvez pudesse mesmo. O salão rapidamente silenciou.

“Oi, pessoal. Desculpe não poder estar aí com vocês. Estou trabalhando em

projetos novos muito interessantes que me mantêm afastado de atividades sociais

incríveis, como essa que estão desfrutando. Mas faço questão de dar os parabéns

a todos vocês por esse novo e fenomenal avanço. Acho que é um passo novo e

crucial para o Círculo e vai ter uma grande importância para nossa excelência

geral.” Por um segundo, deu a impressão de que estava olhando para quem operava a câmera, como se quisesse a confirmação de que já havia falado o

suficiente. Em seguida seus olhos voltaram a olhar para o salão. “Obrigado a

todos pelo empenho, e que agora comece a festa para valer!”

Seu rosto desapareceu e a tela exibiu de novo o pôr do sol digital. Mae bateu

papo com alguns novatos de sua turma, alguns deles nunca tinham visto

apresentações ao vivo de Ty e estavam à beira da euforia. Mae fotografou a

cena, zingou a foto e acrescentou uma palavra: Eletrizante!

Mae apanhou sua segunda taça de vinho, pensando em como podia fazer

aquilo sem pegar o guardanapo por baixo dela, pois o guardanapo não servia

para nada e ia acabar no seu bolso, quando viu Kalden. Estava numa escada

sombria, sentado num degrau. Mae avançou para ele por um caminho sinuoso e,

quando Kalden a viu, seu rosto se iluminou.

“Ah, oi”, disse ele.

“Ah, oi?”

“Desculpe”, disse ele, e inclinou-se para ela, com a intenção de dar um

abraço.

Mae recuou. “Por onde você andou?”

“Andei?”

“Ficou sumido por duas semanas”, disse Mae.

“Não foi tanto tempo assim, foi? Mas eu andei por aí. Procurei você um dia,

mas você parecia muito ocupada.”

“Você foi à EC?”

“Fui, mas não quis incomodar você.”

“E não podia deixar um recado?”

“Eu não sabia seu sobrenome”, disse ele, sorrindo, como se soubesse muito

mais do que estava revelando. “Por que não entrou em contato comigo?”

“Eu também não sabia seu sobrenome. E não existe nenhum Kalden registrado

aqui, em lugar nenhum.”

“É mesmo? Como está escrevendo o nome?”

Mae começou a enumerar as variações que experimentou, quando ele a

interrompeu.

“Escute, isso não importa. Nós dois nos enrolamos. E agora estamos aqui.”

Mae recuou um passo para observá-lo melhor, pensando que talvez, em

alguma parte dele, pudesse descobrir alguma pista de que não era de verdade —

um membro do Círculo de verdade, uma pessoa de verdade. De novo ele vestia

uma apertada camisa de manga comprida, agora com listas horizontais finas,

verdes, vermelhas e marrons, e de novo tinha conseguido se enfiar numa calça

preta muito justa, que dava a suas pernas o aspecto de um V invertido.

“Você trabalha aqui, não é?”, perguntou Mae.

“Claro. De que outro modo eu poderia entrar? A segurança aqui é muito

rigorosa. Sobretudo num dia como hoje, com nossa convidada iluminada.”

Acenou com a cabeça na direção da congressista, que estava dando um autógrafo

no tablet de alguém.

“Você está com cara de quem está indo embora”, disse Mae.

“É mesmo?”, disse Kalden. “Não, não. Estou bem confortável aqui neste

canto. Gosto de ficar sentado durante essas coisas. E acho que gosto de ter a

opção de fugir.” Apontou com o polegar para a escada às suas costas.

“Estou contente por meus supervisores terem me visto aqui”, disse Mae. “Essa

era minha prioridade. Você também precisa ser visto aqui por um supervisor ou

algo assim?”

“Supervisor?” Por um momento, Kalden olhou para ela como se tivesse

acabado de falar uma coisa num idioma familiar, mas ainda incompreensível.

“Ah, sim”, respondeu, fazendo que sim com a cabeça. “Eles me viram aqui hoje.

Eu cuidei bem disso.”

“Você já me contou o que faz aqui?”

“Ah, não sei. Será que contei? Olhe só aquele cara.”

“Que cara?”

“Ah, deixe para lá”, disse Kalden, dando a impressão de que já havia

esquecido a pessoa para quem estava olhando. “Então você trabalha em RP, não

é?”

“Não. Em EC, Experiência do Cliente.”

Kalden inclinou a cabeça. “Ah! Ah! Eu sabia”, disse ele, de modo pouco

convincente. “E você já está aqui há algum tempo?”

Mae teve de rir. O sujeito não estava mesmo nem aí. Sua cabeça mal parecia

presa ao corpo, muito menos à Terra.

“Desculpe”, disse ele, voltando o rosto para ela, agora com um aspecto

extremamente sincero e perspicaz. “Mas eu quero lembrar essas coisas sobre

você. Na verdade eu estava com esperança de encontrar você aqui.”

“Quanto tempo faz que trabalha aqui mesmo?”, perguntou Mae.

“Eu? Hm.” Coçou a nuca. “Puxa. Não sei. Agora já faz um tempo.”

“Um mês? Um ano? Seis anos?”, perguntou Mae, achando que ele era mesmo

uma espécie de cientista maluco.

“Seis?”, confirmou ele. “Aí teria sido no início. Você acha que pareço velho o

bastante para estar aqui há seis anos? Não quero parecer tão velho assim. Será o

cabelo grisalho?”

Mae não tinha a menor ideia do que dizer. Claro que era o cabelo grisalho.

“Vamos tomar alguma coisa?”, perguntou ela.

“Não, pode ir”, respondeu Kalden.

“Tem medo de deixar seu esconderijo?”

“Não, é só que estou me sentindo pouco sociável.”

Mae foi até a mesa onde algumas centenas de taças de vinho tinham sido

cheias e estavam à espera.

“Mae, não é?”

Virou-se para duas mulheres, Dayna e Hillary, que estavam trabalhando na

construção de um submersível para Stenton. Mae lembrou-se de ter encontrado

as duas em seu primeiro dia de trabalho e desde então vinha recebendo as

atualizações delas em sua segunda tela, pelo menos três vezes por dia. Dali a

algumas semanas, iam terminar a construção do veículo; Stenton planejava levar

a máquina submersível para a Fossa das Marianas.

“Estou acompanhando o progresso de vocês”, disse Mae. “Incrível. Estão

construindo o submersível aqui mesmo?”

Mae olhou de relance por cima do ombro para conferir se Kalden não tinha

escapulido.

“Com os caras do Projeto 9, sim”, respondeu Hillary, acenando com a mão

para outra parte do campus desconhecida. “É mais seguro construir o

submersível aqui para manter em segurança os equipamentos patenteados.”

“É a primeira máquina grande o bastante para trazer alguma vida animal de

tamanho considerável”, disse Dayna.

“E vocês vão junto?”

Dayna e Hillary riram. “Não”, respondeu Hillary. “É um veículo construído

para um homem e só um homem: Tom Stenton.”

Dayna olhou para Hillary com o rabo do olho e depois olhou para Mae. “O

custo para construir um equipamento como esse com capacidade para levar mais

pessoas é bastante proibitivo.”

“Certo”, disse Hillary. “Foi o que eu quis dizer.”

Quando Mae voltou para a escada de Kalden, levando duas taças de vinho, ele

continuava no mesmo lugar, mas de algum jeito tinha conseguido duas taças de

vinho por conta própria.

“Passou uma pessoa com uma bandeja”, disse ele, e ficou de pé.

Ficaram parados um instante, os dois com as duas mãos ocupadas, e Mae não

conseguiu pensar em mais nada para fazer senão brindar tocando as quatro taças,

o que eles fizeram.

“Encontrei o pessoal que está fazendo o submersível”, disse Mae. “Você

conhece?”

Kalden rodou os olhos. Era espantoso. Mae não tinha visto mais ninguém

fazer aquilo ali no Círculo.

“O que foi?”, perguntou Mae

“Nada”, respondeu ele. “Gostou do discurso?”, perguntou.

“Aquela história toda da Santos? Gostei. Muito impressionante.” Mae tomou

cuidado com as palavras. “Acho que vai ser um significativo, eh, momento na

história da demo...” Ela parou, vendo que ele sorria. “O que foi?”, perguntou.

“Nada”, disse ele. “Não precisa fazer um discurso para mim. Ouvi o que

Stenton falou. Mas você acha mesmo que é uma boa ideia?”

“Você não acha?”

Ele deu de ombros e esvaziou metade de sua taça. “Só que aquele cara às

vezes me deixa preocupado.” Em seguida, ciente de que não devia ter falado

aquilo a respeito de um dos Sábios, mudou de direção. “É que ele é tão esperto.

É intimidador. Você acha mesmo que pareço velho? Quantos anos acha que

tenho? Trinta?”

“Não parece tão velho assim”, disse Mae.

“Não acredito em você. Sei que pareço.”

Mae bebeu de uma de suas taças. Olharam em volta e viram a imagem

transmitida pela câmera de Santos. Ela era projetada na parede do fundo. Um

grupo de membros do Círculo estava parado olhando, enquanto Santos se

misturava com as pessoas a poucos metros dali. Um membro do Círculo

encontrou sua própria imagem captada pela câmera da congressista e colocou a

mão para cobrir seu segundo rosto, projetado na parede.

Kalden observou com atenção, a testa enrugada. “Hm”, disse ele. Inclinou a

cabeça, como se fosse um viajante que tenta decifrar alguns estranhos costumes

locais. Em seguida se voltou para Mae e olhou para as duas taças dela e para as

suas como se só então se desse conta do que havia de engraçado no fato de

estarem ambos parados com todas as mãos ocupadas segurando taças. “Vou me

livrar desta aqui”, falou, e pôs no chão a taça da mão esquerda. Mae fez o

mesmo.

“Desculpe”, disse ela, sem nenhum motivo. Ela sabia que dali a pouco ia ficar

meio alta com o vinho, provavelmente alta demais para conseguir esconder; em

seguida viriam decisões ruins. Mae tentou pensar em algo inteligente para dizer,

enquanto ainda era capaz.

“Mas então onde é que tudo isso vai parar?”, perguntou ela.

“As imagens da câmera?”

“É, ficam armazenadas aqui? Na nuvem?”

“Bem, estão na nuvem, é claro, mas isso tem de ser armazenado num lugar

físico também. O material da câmera de Stewart... Espere. Quer ver uma coisa?”

Ele estava descendo a escada, já na metade do caminho, as pernas velozes

como as de uma aranha.

“Não sei”, disse Mae.

Kalden ergueu os olhos, como se seus sentimentos tivessem sido magoados.

“Posso lhe mostrar onde Stewart fica armazenado. Você quer? Não estou

levando você para uma masmorra nem nada.”

Mae olhou em redor do salão, para ver se achava Dan ou Jared, mas não

localizou nenhum dos dois. Mae tinha ficado ali uma hora e tinha sido vista por

eles, portanto achou que podia sair. Tirou algumas fotos, postou, mandou uma

série de zings, detalhando e comentando os acontecimentos. Depois foi atrás de

Kalden, escada abaixo, três andares, para o que ela supôs ser o porão. “Estou

confiando mesmo em você”, disse ela.

“É bom confiar”, disse Kalden, quando se aproximou de uma porta grande e

azul. Passou os dedos sobre um sensor na parede e a porta abriu. “Venha.”

Ela o seguiu por um corredor comprido e teve a sensação de que estava

passando de um prédio para outro, por dentro de uma espécie de túnel bem

subterrâneo. Logo surgiu outra porta e mais uma vez Kalden abriu a fechadura

com suas impressões digitais. Mae foi atrás dele, quase tonta, intrigada com seu

acesso extraordinário àquelas portas, alta demais com o vinho para avaliar a

sensatez de ir atrás daquele homem caligráfico por dentro daquele labirinto.

Desceram o que Mae calculou serem quatro andares, saíram num outro corredor

comprido e depois entraram em outra escada, onde voltaram a descer mais ainda.

Logo Mae achou incômodo ficar segurando sua segunda taça de vinho, por isso

bebeu tudo.

“Tem algum lugar onde eu possa deixar isto?”, perguntou. Sem dizer

nenhuma palavra, Kalden pegou a taça e colocou-a no degrau mais baixo da

escada que tinham acabado de descer.

Quem era aquela pessoa? Ele tinha acesso a todas as portas que encontrava,

mas tinha também um elemento anárquico. Ninguém mais no Círculo largaria

uma taça pelo caminho daquele jeito — algo que redundava num gesto grave de

poluição — nem daria tamanha escapada no meio de uma festa oficial da

empresa. Havia uma parte reprimida de Mae que sabia que Kalden

provavelmente era um encrenqueiro ali e que aquilo que os dois estavam fazendo

provavelmente era contrário a algumas ou a todas as regras e regulamentos.

“Ainda não sei o que você faz aqui”, disse ela.

Estavam andando por um corredor mal iluminado que descia suavemente e

que parecia não ter fim.

Ele se virou. “Não faço grande coisa. Vou a reuniões. Escuto, faço avaliações,

comentários. Não é muito importante”, disse ele enquanto caminhava com

agilidade à frente de Mae.

“Você conhece Annie Allerton?”

“Claro. Adoro a Annie.” Então se virou para ela. “Ei, você ainda tem aquele limão que lhe dei?”

“Não. Ele não ficou amarelo.”

“Ah”, disse ele, e seus olhos, por um momento, deixaram de focalizar Mae,

como se eles fossem necessários em outro lugar, algum local no fundo de sua

própria mente, para um cálculo rápido, mas crucial.

“Onde estamos”, perguntou Mae. “Tenho a sensação de que estamos a

trezentos metros debaixo da terra.”

“Nem tanto”, disse ele, enquanto o foco de seus olhos voltavam para ela.

“Mas quase. Já ouviu falar do Projeto 9?”

Projeto 9, até onde Mae sabia, era o nome abrangente da pesquisa secreta

realizada no Círculo. Tudo, desde tecnologia espacial — Stenton achava que o

Círculo podia projetar e construir uma nave espacial reutilizável muito melhor

— até o que se comentava na surdina, que seria um plano para implantar e tornar

acessíveis quantidades gigantescas de dados de DNA humano.

“É para lá que estamos indo?”, perguntou Mae.

“Não”, disse ele, e abriu outra porta.

Entraram numa sala ampla, mais ou menos do tamanho de uma quadra de

basquete, precariamente iluminada por uma dúzia de refletores apontados para

uma enorme caixa vermelha e metálica do tamanho de um ônibus. Todos os

lados eram lisos, polidos, toda ela envolta por uma rede de tubos prateados e

lustrosos que formavam uma complicada grade à sua volta.

“Parece uma espécie de escultura de Donald Judd”, disse Mae.

Kalden virou para ela, o rosto exultante. “Estou muito contente por você ter

falado isso. Ele foi uma grande inspiração para mim. Adoro aquele negócio que

ele disse um dia: ‘As coisas que podem existir existem e tudo está do lado delas’.

Você já viu as obras dele ao vivo?”

A familiaridade de Mae com a obra de Donald Judd era apenas superficial —

tinham tratado dele por alguns dias nas suas aulas de história da arte —, mas não

queria decepcionar Kalden. “Não, mas adoro”, disse ela. “Adoro seu peso.”

E com isso algo novo surgiu no rosto de Kalden, um novo interesse ou

respeito por Mae, como se naquele momento ela tivesse se tornado

tridimensional e permanente.

Então Mae estragou tudo. “Ele fez isso para a empresa?”, perguntou,

apontando com a cabeça para a enorme caixa vermelha.

Kalden riu, depois olhou para ela. Seu interesse não havia se apagado, mas

certamente havia diminuído. “Não, não. Ele morreu há décadas. Isto aqui foi só

inspirado na sua estética. Na verdade, é uma máquina. Ou, pelo menos, por

dentro é uma máquina. É uma unidade de armazenamento.”

Olhou para Mae à espera de que ela completasse o pensamento.

Ela não foi capaz.

“Isto é Stewart”, disse ele, afinal.

Mae não sabia nada sobre armazenamento de dados, mas tinha uma ideia geral

de que o armazenamento de informações podia ser feito num espaço muito

menor.

“Tudo isso só para uma pessoa?”, perguntou.

“Bem, é o armazenamento dos dados brutos, e também a capacidade de rodar

todos os tipos de cenários com esses dados. Cada bit de vídeo está sendo

mapeado de cem maneiras diferentes. Tudo que Stewart vê é correlacionado com

o resto dos vídeos que temos e isso ajuda a mapear o mundo e tudo que há nele.

E, é claro, aquilo que conseguimos por meio das câmeras de Stewart é

exponencialmente mais detalhado e estratificado do que qualquer outro

dispositivo disponível para o consumidor.”

“E por que fica aqui, em vez de ficar armazenado na nuvem ou em algum

lugar no deserto?”

“Bem, algumas pessoas gostam de espalhar suas cinzas, outras preferem ter

uma urna perto de casa, não é?”

Mae não tinha certeza do que aquilo queria dizer exatamente, mas teve a

sensação de que não devia exprimir sua dúvida. “E os tubos são para a

eletricidade?”, perguntou.

Kalden abriu a boca, fez uma pausa e depois sorriu. “Não, é água. É preciso

uma tonelada de água para manter os processadores resfriados. Portanto a água

corre por dentro do sistema, resfriando o aparato inteiro. Milhões de litros todo

mês. Quer ver a sala de Santos?”

Levou-a pela porta para outra sala idêntica, com outra enorme caixa vermelha

dominando o espaço. “Estava planejada para ser de outra pessoa, mas quando

Santos se apresentou, acabou destinada a ela.”

Mae já havia falado muitas coisas tolas naquela noite e estava se sentindo

zonza, por isso não fez as perguntas que queria fazer, como: Por que aquelas

coisas ocupavam tanto espaço? E por que usavam tanta água? E se mais cem

pessoas quisessem armazenar cada minuto delas — e sem dúvida milhões de

pessoas iriam optar por ser transparentes, iriam implorar por isso —, como seria

possível dar conta dessa demanda, quando cada vida ocupava tanto espaço?

Onde irão guardar todas essas caixas vermelhas?

“Ah, espere, algo está prestes a acontecer”, disse Kalden, pegando a mão de

Mae e levando-a de volta para a sala de Stewart, onde os dois ficaram parados,

escutando o rumor das máquinas.

“Aconteceu?”, perguntou Mae, empolgada com a sensação da mão dele, a

palma macia e os dedos quentes e compridos.

Continuar: parte 9 de 11