O Círculo
O Círculo
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.
vermelha, que tinha visto perto da ponta de uma península, já no fundo da baía.
Chegar lá levaria uns trinta minutos, mais ou menos, e no caminho ela passaria
por um punhado de saveiros e barcos a vela ancorados. Muitos tinham se
transformado em residências de vários tipos e Mae sabia que não devia olhar
pelas janelas, mas não conseguiu evitar; havia mistérios a bordo. Por que havia
uma motocicleta naquele saveiro? Por que havia uma bandeira dos Confederados
naquele iate? Mais ao longe, viu um hidroavião andando em círculos.
O vento aumentou por trás de Mae, levou o caiaque rapidamente para além da
boia vermelha e mais para perto da costa do outro lado. Ela não tinha planejado
ir para lá e nunca havia atravessado a baía, mas em pouco tempo a costa estava à
vista e ela ia ligeira em sua direção, as algas ficaram visíveis por baixo dela,
quando a água foi ficando mais rasa.
Mae desceu do caiaque, seus pés pisaram em pedras, todas redondas e lisas.
Quando estava puxando o caiaque, a água subiu e envolveu suas pernas. Não foi
uma onda; era antes uma subida repentina e uniforme do nível da água. Num segundo, Mae estava de pé no seco; no outro, a água batia em suas canelas e
Mae ficou encharcada. Quando a água baixou outra vez, deixou para trás uma
larga fileira de algas bizarras e enfeitadas — azuis, verdes e, sob a luz,
iridescentes. Segurou as plantas na mão e viu que eram lisas, borrachentas, as
beiradas tinham franzidos extravagantes. Os pés de Mae estavam molhados e a
água estava fria como neve, mas ela não se importou. Sentou-se na praia
rochosa, pegou um pedaço de pau e enfiou no meio das pedras lisas. Pequenos
caranguejos, incomodados, saíram de debaixo da terra, correndo em busca de
novos abrigos. Um pelicano pousou na ponta da praia, sobre o tronco de uma
árvore morta que se tornara muito branco, tombado numa diagonal, com uma
extremidade afundada na água cinzenta, cor de aço, e a outra apontando
preguiçosamente para o céu.
E então Mae se viu chorando. Seu pai era um desastre. Não, ele não era um
desastre. Estava enfrentando a situação toda com grande dignidade. Mas naquela
manhã havia nele um cansaço muito grande, uma derrota, uma resignação, como
se soubesse que não podia lutar ao mesmo tempo contra o que estava
acontecendo em seu corpo e contra as empresas que lhe prestavam assistência
médica. E não havia nada que ela pudesse fazer por ele. Não, havia coisas
demais para fazer por ele. Mae podia largar o emprego. Podia largar o emprego e
ajudar a dar os telefonemas, travar as muitas batalhas para manter seu pai bem.
Era isso que uma boa filha faria. O que uma boa filha, uma filha única, faria.
Uma boa filha única poderia passar ao lado do pai os próximos três ou cinco
anos, que poderiam ser os últimos anos de mobilidade dele, de plena capacidade,
ajudando, ajudando sua mãe, sendo parte da engrenagem da família. Mas Mae
sabia que os pais não permitiriam que fizesse aquilo tudo. Não permitiriam. E
assim ela ficava dividida entre o emprego que amava e de que precisava e os
pais, que não podia ajudar.
Mas chorar deu uma sensação boa, deixar os ombros sacudirem, sentir as
lágrimas quentes no rosto, sentir seu gosto salgadinho, enxugar o muco nasal
com o lado avesso de sua blusa. E quando terminou, Mae empurrou de novo o
caiaque de volta para a água e se viu remando num ritmo acelerado. Quando
chegou ao meio da baía, parou. Agora as lágrimas tinham secado, a respiração
estava normal. Ela estava calma e sentia-se forte, mas em vez de ir na direção da
boia vermelha, na qual não tinha mais nenhum interesse, Mae ficou parada com
o remo sobre as pernas, deixou que as ondas a balançassem de leve, sentiu o sol
morno secar suas mãos e seus pés. Muitas vezes fazia isso quando estava longe
da costa — apenas ficava parada, sentindo o vasto volume do oceano embaixo
dela. Naquela parte da baía havia tubarões-leopardo, arraias-morcego, águas-
vivas, um ou outro golfinho, mas ela não conseguia ver nada disso. Estavam ocultos na água escura, em seu negro mundo paralelo, e ter consciência de que
estavam lá, mas sem saber onde, ou sem saber qualquer outra coisa, dava em
Mae, naquele momento, uma sensação estranhamente justa. Muito além, ela
podia ver onde a entrada da baía dava para o oceano e lá, abrindo caminho numa
leve faixa de neblina, avistou um enorme navio porta-contêineres que rumava
para o mar aberto. Mae pensou em se pôr em movimento, mas não viu motivo.
Parecia não haver nenhuma razão para ir a lugar nenhum. Estar ali, no meio da
baía, sem nada para fazer ou ver, era mais do que suficiente. Ficou parada,
lentamente à deriva, durante quase uma hora. De repente sentiu de novo aquele
cheiro de cachorro e atum e virou-se para avistar outra foca curiosa, e as duas
ficaram se olhando, e ela se perguntava se a foca sabia, como ela, que aquilo era
bom, que sorte tinham ambas por dispor de tudo aquilo para si.
No fim da tarde, os ventos que vinham do Pacífico bateram mais fortes e
voltar para a costa foi penoso. Quando chegou em casa, seus braços estavam
pesados e a cabeça zonza. Fez uma salada, comeu meio saco de batatas fritas e
ficou olhando pela janela. Adormeceu às oito e dormiu por onze horas.
A manhã foi atarefada, como Dan avisou que seria. Às oito da manhã, ele
reuniu os aproximadamente cem representantes de EC, entre eles Mae, e
lembrou a todos que abrir as comportas da represa na segunda-feira de manhã
era sempre uma operação de risco. Todos os clientes que buscavam respostas
durante o fim de semana com certeza esperavam ver as suas dúvidas atendidas
na segunda-feira de manhã.
Ele tinha razão. A represa foi aberta, o dilúvio chegou, e Mae trabalhou contra
a corrente até onze horas, mais ou menos, quando veio algo semelhante a uma
pausa. Tinha tratado de quarenta e nove perguntas e estava com nota média 91,
sua nota mais baixa até então.
Não se preocupe, disse Jared numa mensagem. É o que se espera mesmo
numa segunda-feira. Faça o maior número de verificações que puder.
Mae tinha mandado questionários de verificação a manhã inteira, com
resultados limitados. Os clientes estavam azedos. A única notícia boa naquela
manhã veio do sistema de comunicação interno da empresa, quando apareceu
uma mensagem de Francis, convidando Mae para almoçar. Oficialmente ela e os
outros funcionários de EC tinham uma hora de almoço, mas Mae não viu
ninguém se afastar da cadeira por mais de vinte minutos. Mae deu a si mesma
aquele tempo, embora as palavras da mãe, que equiparavam o almoço a uma
falta ao dever, chocalhassem em sua cabeça.
Mae chegou tarde à Lanchonete de Vidro. Olhou em volta e para cima e afinal
localizou Francis sentado alguns níveis acima, seus pés balançando no ar, empoleirado num banco alto de acrílico. Mae acenou, mas não conseguiu atrair
sua atenção. Gritou para ele, da maneira mais discreta que pôde, inutilmente.
Então, sentindo-se tola, mandou uma mensagem de texto e ficou olhando para
ele, que, quando recebeu a mensagem, procurou em volta, viu Mae e acenou
para ela.
Mae avançou na fila, pegou um burrito vegetariano e uma espécie nova de
refrigerante orgânico, e sentou-se ao lado dele. Francis vestia camisa franzida e
clara e calça de carpinteiro. Do seu banco, ele podia ver a piscina externa, onde
um grupo de funcionários tentava jogar uma partida de vôlei.
“Não é um pessoal tão atlético assim”, observou Francis.
“Não”, respondeu Mae. Enquanto ele olhava para a caótica agitação da água
abaixo, Mae tentava sobrepor naquele rosto a sua frente o outro rosto, de que ela
se lembrava da primeira noite. Havia as mesmas sobrancelhas pesadas, o mesmo
nariz proeminente. Mas agora Francis parecia ter encolhido. Suas mãos, que
usavam garfo e faca para cortar o burrito em duas partes, pareciam
invulgarmente delicadas.
“É quase uma crueldade”, disse ele, “ter aqui tantos equipamentos de
atletismo quando não existe nenhuma aptidão atlética. É como uma família de
cientistas cristãos que moram ao lado de uma farmácia.” Então virou para ela.
“Obrigado por ter vindo. Eu não sabia se veria você de novo.”
“Pois é, ando tão atarefada.”
Ele apontou para sua comida. “Tive que começar. Desculpe. Para ser franco,
eu nem esperava que você viesse.”
“Desculpe o atraso”, disse Mae.
“Não, acredite, eu entendo. Você precisa encarar a enxurrada da segunda-
feira. Os clientes estão à espera. O almoço é muito secundário.”
“Preciso confessar que me senti mal pela maneira como terminou nossa
conversa naquela noite. Desculpe pela Annie.”
“Vocês duas realmente se beijaram? Tentei encontrar um lugar de onde eu
pudesse espiar, mas…”
“Não.”
“Achei que se eu subisse numa árvore…”
“Não. Não. É só o jeito da Annie. Ela é uma boba.”
“Ela é uma boba que por acaso está no grupo de um por cento de pessoas que
comandam isto aqui. Quem dera eu fosse esse tipo de bobo.”
“Mas você estava me contando sobre sua infância.”
“Meu Deus. Será que foi culpa do vinho?”
“Não precisa me contar nada.”
Mae sentiu-se péssima, sabendo o que já sabia, na esperança de que Francis lhe contasse e assim ela pudesse riscar a versão anterior, contada indiretamente,
da história dele e escrever por cima a versão contada por Francis.
“Não, tudo bem”, respondeu Francis. “Conheci uma porção de adultos
interessantes que foram pagos pelo governo para cuidar de mim. Foi
impressionante. Quanto tempo tem livre, dez minutos?”
“Até uma hora.”
“Bom. Mais oito minutos, portanto. Coma. Vou falar. Mas não sobre minha
infância. Você já sabe o bastante. Eu imagino que a Annie já tenha falado sobre
a parte macabra. Ela gosta de contar essa história.”
E então Mae tentou comer o máximo que pôde no menor tempo possível,
enquanto Francis falava sobre um filme que tinha visto no cinema do campus, na
noite anterior. Aparentemente a diretora havia comparecido para apresentar o
filme e respondido perguntas após a projeção.
“O filme era sobre uma mulher que mata o marido e os filhos e, durante a
sessão de perguntas, descobrimos que a tal diretora está envolvida numa longa
disputa com o ex-marido pela guarda dos filhos. Então ficamos todos olhando
uns para os outros, pensando: Será que essa senhora está elaborando algumas
questões pessoais na tela do cinema ou…”
Mae riu e depois, recordando a infância horrível de Francis, cortou o riso.
“Tudo bem”, disse ele, que imediatamente se deu conta do motivo por que
Mae tinha se contido. “Não quero que você pense que precisa pisar em ovos
comigo. Já faz muito tempo e, se eu não me sentisse à vontade nesse terreno, não
estaria trabalhando no ChildTrack, para o rastreamento de crianças.”
“Certo. Mesmo assim, me desculpe. Não sou boa para saber o que dizer na
hora certa. Mas e o projeto, está indo bem? Vocês já estão próximos de...”
“Você continua bastante abalada! Eu gosto disso”, falou Francis.
“Você gosta de uma mulher abalada.”
“Sobretudo na minha presença. Quero você alerta, abalada, intimidada,
algemada e com vontade de se prostrar ao meu comando.”
Mae queria rir, mas descobriu que não era capaz.
Francis estava olhando fixamente para seu prato. “Merda. Toda vez que meu
cérebro estaciona o carro direito na entrada da casa, minha boca arrebenta a
parede dos fundos da garagem. Desculpe. Juro que estou trabalhando para
resolver isso.”
“Tudo bem. Me conte sobre…”
“O ChildTrack.” Ele ergueu os olhos. “Quer mesmo saber?”
“Quero.”
“Porque, depois que eu começar, o seu dilúvio de segunda-feira vai parecer
uma goteira.”
“Ainda temos cinco minutos e meio.”
“Muito bem, você se lembra de quando tentaram fazer os implantes na
Dinamarca?”
Mae balançou a cabeça. Tinha uma vaga lembrança de um caso terrível de
sequestro e assassinato de criança…
Francis conferiu as horas no relógio de pulso, como se soubesse que explicar o
caso da Dinamarca fosse roubar um minuto. Suspirou e começou: “Então, faz
alguns anos, o governo da Dinamarca experimentou um programa em que
inseriam chips nos pulsos das crianças. É fácil, leva dois segundos, não tem nada
de prejudicial à saúde e funciona instantaneamente. Todos os pais sabem onde
estão seus filhos a qualquer momento. Restringiram o emprego a crianças com
menos de catorze anos e, de início, todo mundo gostou. As disputas judiciais
foram descartadas porque são muito poucas as objeções possíveis e o índice de
aprovação chegava à Lua. Os pais adoram. Mas adoram mesmo. São crianças e
vamos fazer tudo para que fiquem a salvo, certo?”
Mae fez que sim com a cabeça, mas de repente lembrou-se de que aquela
história terminava de maneira horrível.
“Mas então sete crianças desapareceram no mesmo dia. A polícia, os pais,
todos pensam: Tudo bem, não tem problema. Sabemos onde estão as crianças.
Eles seguem o sinal dos chips, todos os sete apontam para um estacionamento,
eles encontram todos em um saco, todos ensanguentados. Só os chips.”
“Agora estou lembrando.” Mae sentiu-se enjoada.
“Encontraram os corpos uma semana depois e àquela altura o público estava
em pânico. Todos se comportavam de forma irracional. Acham que os chips
causaram os raptos e os assassinatos, que de alguma forma os chips induziram
quem quer que tenha feito aquilo a agir assim, que tornaram a tarefa mais
atraente.”
“Foi uma coisa horrorosa. Foi o fim da ideia dos chips.”
“Pois é, mas o raciocínio era ilógico. Sobretudo aqui. Temos, digamos, doze
mil sequestros por ano? Quantos assassinatos? O problema lá é que os chips
foram implantados muito superficialmente. Qualquer pessoa, se quisesse, podia
simplesmente cortar a pele e arrancar o chips do pulso. Muito fácil. Mas as
experiências que estamos fazendo aqui… Você conheceu a Sabine?”
“Conheci.”
“Bem, ela faz parte da equipe. Ela não vai contar nada disso para você, porque
está trabalhando num projeto correlato do qual não pode falar. Mas para isso ela
imaginou um jeito de colocar um chip no osso. E isso faz toda diferença do
mundo.”
“Ah, meu Deus. Que osso?”
“Não importa, nem penso nisso. Você está fazendo uma careta terrível.”
Mae corrigiu seu rosto, tentou mostrar-se neutra.
“Claro, é uma loucura. Quero dizer, algumas pessoas surtam com essa história
de pôr chips em nossas cabeças, nossos corpos, mas esse negócio é quase tão
tecnologicamente avançado quanto um walkie-talkie. Não faz nada senão
mostrar onde alguma coisa está. E afinal os chips já estão em toda parte.
Qualquer produto que a gente compre tem um desses chips. A gente compra um
som estéreo, tem um chip. A gente compra um carro, tem uma porção de chips.
Algumas empresas colocam chips em embalagens de alimentos para ter certeza
de que o produto está fresco quando chega ao supermercado. É só um rastreador
simples. E se a gente embutir no osso, ele fica lá e não pode ser visto a olho
nu… não é como o que puseram no pulso.”
Mae baixou seu burrito. “Mas é no osso mesmo?”
“Mae, pense num mundo onde nunca mais pudesse ocorrer um crime grave
contra uma criança. Nenhum crime possível. No mesmo segundo em que uma
criança não está onde deveria estar, um sinal de alerta geral dispara e a criança
pode ser rastreada imediatamente. Todo mundo pode rastreá-la. Todas as
autoridades sabem na mesma hora que ela desapareceu, mas sabem exatamente
onde ela está. Podem ligar para a mãe e dizer: ‘Ei, ela foi ao shopping, só isso’,
ou podem localizar o agressor em segundos. A única esperança que um
sequestrador pode ter é levar a criança correndo para o mato, fazer alguma coisa
e fugir antes que o mundo desabe em cima dele. Mas só vai ter um minuto e
meio para fazer isso.”
“Ou se conseguirem bloquear a transmissão do sinal do chip.”
“Claro, mas quem tem essa capacidade? Quantos pedófilos gênios da
eletrônica existem? Muito poucos, suponho. Portanto imediatamente você
apanha todos os sequestros de crianças, estupros, assassinatos e reduz em
noventa e nove por cento. E o preço é pôr um chip no tornozelo das crianças.
Você prefere uma criança viva com um chip no tornozelo, uma criança que você
sabe que vai crescer a salvo, uma criança que pode voltar a correr solta pelo
parque, ir de bicicleta para a escola, tudo isso?”
“Você ia completar a frase com um ou.”
“Certo, ou quer uma criança morta? Ou quer anos de preocupação toda vez
que seu filho vai para o ponto de ônibus? Quero dizer, a gente fez pesquisas com
pais em todo o mundo e, depois que superam a repulsa inicial, obtivemos um
índice de aprovação de oitenta e oito por cento. Depois que eles põem na cabeça
que isso é possível, eles nos dizem: ‘Por que não fazer isso tudo já, logo de uma
vez? Quando começamos?’. Veja, isso vai ser o início de uma nova era de ouro
para os jovens. Uma era sem preocupações. Merda. Agora você se atrasou. Olhe só.”
Apontou para o relógio. 1h02.
Mae correu.
A tarde foi implacável e sua nota média a duras penas chegou a 93. No fim do
dia, Mae estava exausta e voltou-se para a segunda tela e encontrou uma
mensagem de Dan. Tem um segundo? Gina do Círculo Social gostaria de alguns
minutos do seu tempo.
Mae respondeu: Que tal daqui a quinze minutos? Tenho de despachar um
monte de questionários de verificação e desde o meio-dia não faço xixi. Era a
verdade. Fazia três horas que ela não saía da cadeira e além do mais queria ver
se conseguia uma nota maior do que 93. Tinha certeza de que era por isso, sua
nota média baixa, que Dan queria que ela conversasse com Gina.
Dan só escreveu: Obrigado, Mae, palavras que ficaram rodando em sua
cabeça no caminho para o banheiro. Será que Dan estava agradecendo por estar
disponível dali a quinze minutos ou agradecendo, com severidade, por um nível
indesejável de intimidade higiênica?
Mae já estava quase na porta do banheiro quando viu um homem, de calça
jeans verde apertada e de camisa justa de manga comprida parado no corredor,
sob uma janela estreita e alta, olhando fixamente para seu celular. Banhado pela
luz branco-azulada, ele parecia estar à espera de instruções da tela do telefone.
Mae entrou.
Quando terminou, abriu a porta e deparou com o homem no mesmo lugar,
agora olhando para a janela.
“Você parece perdido”, disse Mae.
“Não. Estou só pensando numa coisa antes de, você sabe, subir de novo. Você
trabalha aqui?”
“Sim. Sou nova. Em EC.”
“EC?”
“Experiência do Cliente;”
“Ah, sim. Antigamente a gente chamava só de Atendimento ao Cliente.”
“Então, pelo que vejo, você não é novo aqui.”
“Eu? Não, não. Estou aqui já faz certo tempo. Não neste prédio.” Sorriu e
olhou para fora, pela janela e, com o rosto dele virado, Mae observou-o com
atenção. Os olhos eram escuros, o rosto oval e o cabelo grisalho, quase branco,
mas ele não podia ter mais do que trinta anos. Era magro, robusto, a calça jeans
apertada e a camisa justa de manga comprida davam à sua silhueta rápidas
pinceladas finas e grossas de caligrafia.
Ele virou para Mae de novo, piscando os olhos, zombando de si mesmo e de suas maneiras desajeitadas. “Desculpe. Me chamo Kalden.”
“Kalden?”
“É tibetano”, explicou. “Significa alguma coisa dourada. Meus pais sempre
quiseram ir para o Tibete, mas o máximo que chegaram foi a Hong Kong. E seu
nome?”
“Mae”, disse ela, e os dois apertaram as mãos. O aperto de mão dele foi forte,
mas superficial. Tinham ensinado que ele devia apertar a mão das pessoas,
imaginou Mae, só que ele nunca entendera por quê.
“Então você não está perdido”, disse Mae, dando-se conta de que ela era
esperada em sua mesa de trabalho; já havia se atrasado uma vez naquele dia.
Kalden percebeu. “Ah, você precisa ir. Posso acompanhar você até lá? Só para
ver onde trabalha.”
“Hmm”, disse Mae, sentindo-se agora muito insegura. “Claro.” Se não
soubesse de antemão e se não pudesse ver o crachá pendurado em seu pescoço,
Mae teria imaginado que Kalden, com sua curiosidade aguçada, mas sem alvo,
ou era alguém que se perdeu na rua ou algum tipo de espião corporativo. Mas
Mae não sabia de nada. Fazia uma semana que trabalhava no Círculo. Aquilo
podia ser uma espécie de teste. Ou só algum colega excêntrico do Círculo.
Mae levou-o à mesa dela.
“Está muito arrumada”, disse ele.
“Eu sei. Acabei de começar, não esqueça.”
“E eu sei que alguns dos Sábios gostam que as mesas fiquem bem
organizadas. Você já viu algum desses caras por aqui?”
“Quem? Os Sábios?” Mae zombou. “Aqui, não. Pelo menos, ainda não.”
“É, acho que não”, disse Kalden e se agachou, a cabeça na altura do ombro de
Mae. “Posso ver o que você faz?”
“No meu trabalho?”
“Sim. Posso olhar? Quero dizer, se isso não for incomodar.”
Mae fez uma pausa. Tudo e todo mundo que ela havia conhecido no Círculo
obedeciam a um modelo lógico, a um ritmo, mas Kalden era uma anomalia. Seu
ritmo era diferente, atonal e estranho, mas não era desagradável. Tinha o rosto
tão franco, os olhos cristalinos, gentis, despretensiosos, e falava tão manso que
qualquer possibilidade de ameaça parecia algo remoto.
“Claro, eu acho”, respondeu Mae. “Mas não tem nada de emocionante.”
“Talvez sim, talvez não.”
E então ele viu Mae responder as perguntas dos clientes. Quando virava para
ele, depois de cada parte aparentemente trivial de seu trabalho, a tela dançava
reluzente nos olhos de Kalden, seu rosto enlevado — como se nunca tivesse
visto nada mais interessante em toda a vida. Em outros momentos, porém, ele parecia distante, vendo alguma coisa que ela não conseguia ver. Kalden olhava
para a tela, porém seus olhos enxergavam algo interior, profundo.
Mae prosseguiu e ele continuou a fazer perguntas eventuais. “Mas quem era
esse aí?” “Quantas vezes isso acontece?” “Por que você respondeu desse jeito?”
Ele estava perto dela, perto demais, se fosse uma pessoa normal com ideias
comuns sobre espaço pessoal, no entanto estava mais do que claro que Kalden
não era esse tipo de pessoa, um tipo de pessoa normal. Enquanto observava a
tela, e às vezes os dedos de Mae no teclado, o queixo de Kalden ficava quase
colado no ombro dela, sua respiração leve, mas audível, seu cheiro, um odor
simples de sabonete e xampu de banana, chegava a Mae no vento de suas
diminutas expirações. Toda aquela experiência era tão estranha que Mae ria
nervosa em intervalos de alguns segundos, sem saber o que mais devia fazer. E
então terminou. Ele pigarreou e se ergueu.
“Bem, é melhor eu ir embora”, disse. “Vou sair de fininho. Não quero
interromper seu ritmo. Vou encontrar você pelo campus, tenho certeza.”
E foi embora.
Antes que Mae conseguisse tirar da cabeça o que tinha acabado de acontecer,
um rosto novo apareceu a seu lado.
“Oi, sou Gina. O Dan disse que eu viria?”
Mae fez que sim com a cabeça, embora não se lembrasse de nada. Olhou para
Gina, alguns anos mais velha do que ela, na esperança de conseguir lembrar-se
de algo a seu respeito e daquele encontro. Os olhos de Gina, negros e carregados
de delineador e de rímel azul lunar, sorriam para ela, embora Mae não sentisse
nenhuma afeição emanando daqueles olhos, ou de Gina em seu todo.
“Dan disse que este seria um bom momento para organizar seus contatos
sociais. Está com tempo?”
“Claro”, respondeu Mae, embora não tivesse tempo nenhum.
“Acho que na semana passada você andou ocupada demais para criar sua
conta social na empresa, não é? E acho que você também não importou seu
perfil antigo, não é?”
Mae praguejou contra si mesma. “Desculpe. Andei soterrada de tanto trabalho
até agora.”
Gina franziu o cenho.
Mae voltou atrás, disfarçando sua falha com uma risada. “Não, de um jeito
positivo! Mas ainda não tive tempo para fazer as tarefas extracurriculares.”
Gina inclinou a cabeça e pigarreou de modo teatral. “É muito interessante a
maneira como você se exprime”, disse ela, sorrindo, embora não parecesse
contente. “Na verdade, encaramos seu perfil e a atividade nele como algo
integrante de sua participação aqui. É assim que seus colegas de trabalho, mesmo aqueles que estão do lado oposto do campus, sabem quem você é.
Comunicação certamente não é um assunto extracurricular, certo?”
Agora Mae ficou embaraçada. “Certo”, respondeu. “É claro.”
“Se você visita a página de um colega de trabalho e escreve algo no mural
dele, isso é uma coisa positiva. É um gesto de comunidade. Um gesto de
estender a mão. E é claro que nem preciso lhe dizer que esta empresa existe por
causa das mídias sociais, que você julga extracurriculares. Imagino que você
usava nossas ferramentas de mídia social antes de vir para cá, não é?”
Mae não tinha certeza do que devia dizer para tranquilizar Gina. Tinha ficado
muito atarefada com o serviço, não queria se distrair, por isso adiou a reativação
de seu perfil na mídia social.
“Desculpe”, conseguiu dizer Mae. “Eu não quis dizer que era uma coisa
extracurricular. Na verdade acho que é fundamental. É que estou ainda me
aclimatando com o trabalho aqui e queria me concentrar no aprendizado de
minhas novas responsabilidades.”
Mas Gina tinha entrado por uma trilha e não ia parar antes de levar seu
pensamento até o fim. “Você se dá conta de que comunidade e comunicação
provêm da mesma raiz lexical, communis, palavra latina para comum, público,
compartilhado por todos ou por muitos?”
O coração de Mae estava batendo forte. “Desculpe, Gina. Batalhei muito para
trabalhar aqui. Eu sei de tudo isso. Estou aqui porque acredito em tudo o que
você disse. Só que fiquei um pouco desorientada na semana passada e nem tive
tempo para fazer isso.”
“Tudo bem. Mas de agora em diante é bom você saber que ser social e ser
uma presença em seu perfil e em todas as contas correlacionadas faz parte do
motivo por que você está aqui. Consideramos sua presença na internet algo
intrínseco a seu trabalho aqui. Tudo está correlacionado.”
“Eu sei. Mais uma vez, me desculpe por ter exprimido mal meus
sentimentos.”
“Muito bem. Então vamos começar a pôr isso em ordem.” Gina estendeu a
mão por trás da divisória da mesa de Mae e pegou outra tela, maior do que a
segunda, que ela rapidamente arrumou e ligou ao computador de Mae.
“Muito bem. Então sua segunda tela vai continuar a ser a forma como você
mantém contato com sua equipe. Vai ser exclusiva para assuntos de EC. Sua
terceira tela é para sua participação na rede social, no Círculo da empresa e no
Círculo mais amplo. Faz sentido para você?”
“Faz, sim.”
Mae observou Gina ligar a tela e sentiu uma emoção. Nunca antes tivera uma
estrutura tão sofisticada. Três telas para alguém tão subalterno, tão inferior na hierarquia! Só no Círculo.
“Muito bem, primeiro quero voltar à sua segunda tela”, disse Gina. “Acho que
você não ativou a Busca do Círculo. Vamos fazer isso.” Surgiu um mapa
sofisticado e tridimensional do campus. “Isso é muito simples e permite que
você encontre qualquer um no campus, caso precise encontrá-lo pessoalmente.”
Gina indicou um pontinho vermelho que pulsava.
“Você está aqui. Você está pegando fogo! Brincadeira.” Como se admitisse
que aquilo talvez fosse considerado inconveniente, Gina seguiu adiante bem
depressa. “Você não disse que conhecia a Annie? Vamos digitar o nome dela.”
Um ponto azul apareceu no Velho Oeste. “Está em seu gabinete, que surpresa!
Annie é uma máquina.”
Mae sorriu. “É mesmo.”
“Tenho inveja de você por conhecer a Annie tão bem”, disse Gina, sorrindo,
mas só por um instante e de modo nada convincente. “E aqui neste ponto você
vai ver um novo aplicativo bem legal, que mais ou menos te dá um histórico
diário do prédio. Você pode ver quando cada funcionário entrou e saiu, todo dia.
Isso nos dá uma ótima visão da vida na empresa. Essa parte você não precisa
parar para atualizar, é claro. Se você for ao lago, sua identificação informa isso
automaticamente no aplicativo. Mas, fora o deslocamento, qualquer comentário
adicional fica por sua conta, e é claro que será muito bem-vindo.”
“Comentário?”, perguntou Mae.
“Sabe, algo como o que você achou do almoço, de um equipamento novo na
academia de ginástica, qualquer coisa. Apenas uma avaliação básica, uma nota,
um comentário. Nada fora do comum e, é claro, toda nova entrada nos ajuda a
aprimorar o serviço prestado à comunidade do Círculo. Agora, esse comentário
deve ser feito exatamente aqui”, disse ela e revelou que cada prédio e cada sala
podiam ser clicados e, lá dentro, ela podia acrescentar qualquer comentário sobre
qualquer coisa ou qualquer pessoa.
“Então esta é sua segunda tela. Trata-se de seus colegas de trabalho, sua
equipe, e tem a ver com localizar as pessoas no espaço físico. Agora é que vem a
parte de fato divertida. Tela três. É onde aparece sua rede social principal e o
Zing. Ouvi dizer que você não é usuária do Zing, é verdade?
Mae admitiu que não era, mas queria ser.
“Ótimo”, disse Gina. “Pois bem, agora você tem uma conta no Zing. Inventei
um nome para você: MaeDay. Como o nome do feriado da guerra. Não é
bacana?”
Mae não tinha tanta certeza assim a respeito do nome e não conseguia se
lembrar de nenhum feriado com aquele nome.
“E já conectei sua conta no Zing com toda a comunidade do Círculo, portanto você acabou de adquirir 10 041 seguidores novos! Muito legal. Em termos de
quanto você vai zingar, esperamos que seja mais ou menos dez vezes por dia,
mas isso é assim o mínimo, entende? Tenho certeza de que você terá mais a
dizer do que isso. Ah, e aqui fica sua playlist. Se você gosta de ouvir música
enquanto trabalha, o alimentador de dados automaticamente envia essa lista de
músicas para todo mundo e ela entra na lista coletiva de músicas, que faz a
classificação das mais tocadas todos os dias, semanas e meses. Ela apresenta as
cem mais tocadas no campus inteiro, mas você também pode personalizar a lista
de mil maneiras diferentes — hip-hop mais tocado, indie, country, qualquer
coisa. Você vai receber recomendações baseadas naquilo que você toca e
também informações sobre o que as pessoas com gosto semelhante ao seu
ouvem — enquanto você trabalha, tudo está se polinizando reciprocamente. Faz
sentido?”
Mae fez que sim com a cabeça.
“Agora, ao lado do feed do Zing, você vai ver a janela para seu feed social
primário. Você também vai notar que dividimos a janela em duas partes, o feed
do Círculo Interno e seu círculo social exterior, seu Círculo Externo. Não é
bonitinho? Você pode misturar os dois, mas achamos mais útil ver os dois feeds
distintos. Mas é claro que o Círculo Externo ainda está no Círculo, certo? Tudo
está. Até agora, deu para entender?”
Mae disse que sim.
“Não consigo acreditar que você ficou aqui uma semana sem fazer parte do
feed social principal. Pois você está prestes a ver seu mundo ser sacudido.” Gina
tocou na tela de Mae e o fluxo de dados do Círculo Interno de Mae se
transformou numa enxurrada de mensagens que inundaram o monitor.
“Está vendo? Você está recebendo também todas as mensagens da semana
passada. É por isso que agora tem tantas. Puxa, quanta coisa você perdeu.”
Mae seguiu o contador na parte de baixo da tela, que calculava todas as
mensagens enviadas para ela de todo mundo no Círculo. O contador fez uma
pausa em 1200. Depois em 4400. Os números se embaralharam e aumentaram,
parando periodicamente, mas estacionaram afinal em 8276.
“Essas são as mensagens da semana passada? Oito mil?”
“Você pode pôr isso em dia”, respondeu Gina, animada. “Talvez esta noite
mesmo. Agora vamos abrir sua conta social comum. Vamos chamar de Círculo
Externo, mas é o mesmo perfil, o mesmo feed que você já tem há anos. Se
importa se eu abri-lo?”
Mae não se importava. Observou seu perfil social, aquele que ela mesma
havia definido anos antes, que agora aparecia em sua terceira tela, ao lado do
feed do Círculo Interno. Uma cachoeira de mensagens e de fotografias, algumas centenas, encheram o monitor.
“Muito bem, parece que, aqui também, você vai ter certo trabalho pela frente
para pôr tudo em dia”, disse Gina. “Um banquete! Divirta-se.”
“Obrigada”, respondeu Mae. Tentou dar à voz o tom mais animado possível.
Precisava que Gina gostasse dela.
“Ah, espere. Mais uma coisa. Tenho de explicar a hierarquia das mensagens.
Merda! Quase me esqueci da hierarquia das mensagens. O Dan ia me matar.
Muito bem, então você sabe que suas reponsabilidades em EC na primeira tela
são supremas. Temos de oferecer a nossos clientes toda nossa atenção e todo
nosso coração. Portanto isso está entendido.”
“Certo.”
“Na sua segunda tela, você pode receber mensagens de Dan e de Jared, ou de
Annie ou de qualquer pessoa que supervisione diretamente seu trabalho. Essas
mensagens informam a qualidade de seu trabalho minuto a minuto. Então essa
vai ser sua segunda prioridade. Está claro?”
“Está claro.”
“A terceira tela é seu círculo social, o Círculo Interno e o Externo. Mas essas
mensagens não são, digamos, supérfluas. São tão importantes quanto quaisquer
outras mensagens, mas vêm em terceiro lugar na ordem de prioridade. E às vezes
elas são urgentes. Fique sempre de olho no feed do Círculo Interno em
particular, porque é ali que você vai saber das reuniões do pessoal da empresa,
das assembleias de presença obrigatória e de qualquer notícia urgente. Se existir
alguma informação do Círculo que for de fato premente, virá assinalada em cor
laranja. Algo extremamente urgente vai ser comunicado também numa
mensagem para seu celular. Você fica com o celular à mão?” Mae apontou com
a cabeça para o celular, que estava bem embaixo das telas em sua mesa de
trabalho. “Ótimo”, disse Gina. “Portanto essa é a ordem de prioridade, ficando
em quarto lugar sua participação em seu Círculo Externo. Que é tão importante
quanto qualquer outra coisa, porque damos valor ao equilíbrio entre sua vida e
seu trabalho, sabe, a calibração justa entre sua vida on-line aqui na empresa e
fora dela. Espero que isso esteja claro. Está?”
“Está.”
“Ótimo. Portanto acho que você já foi informada de tudo. Alguma pergunta?”
Mae disse que estava tudo bem.
A cabeça de Gina se inclinou para o lado com ar cético, indicando que sabia
que Mae na verdade ainda tinha muitas perguntas, mas não queria fazer por
medo de parecer desinformada. Gina se levantou, sorriu, deu um passo para trás,
porém depois parou. “Droga. Esqueci mais uma coisa.” Agachou-se ao lado de
Mae, digitou durante alguns segundos. Na terceira tela apareceu um número, do mesmo jeito que sua nota de avaliação média em EC. Dizia: MAE HOLLAND:
10 328.
“Essa é a sua posição no Ranking de Participação, PartiRank, como o usamos
na forma abreviada. Algumas pessoas por aqui chamam isso de Ranking de
Popularidade, mas na verdade não é isso. O PartiRank é baseado num número
gerado por um algoritmo que leva em conta sua atividade no Círculo Interno.
Faz sentido?”
“Acho que sim.”
“Esse número leva em conta os zings, os seguidores externos de seus zings
internos na empresa, os comentários sobre seus zings, seus comentários sobre os
zings dos outros, seus comentários sobre os perfis dos outros membros do
Círculo, as fotografias que você postou, a frequência em eventos no Círculo,
comentários e fotografias postadas sobre esses eventos — basicamente, ele reúne
e celebra tudo o que você faz aqui. Os membros mais ativos no Círculo são
classificados com índices mais altos, é claro. Como pode ver, sua classificação
agora é baixa, mas é porque você é nova e nós acabamos de ativar seu feed
social. Porém toda vez que você posta ou comenta ou acompanha alguma coisa,
isso vai ser computado e você vai ver como sua posição no ranking muda. É aí
que está a graça dessa história. Você posta, sua classificação sobe. Uma porção
de gente gosta do que você postou, e aí você dispara para valer. A coisa se
movimenta o dia inteiro. Não é legal?”
“Muito”, respondeu Mae.
“Para começar, demos um pequeno incentivo a você. Do contrário você teria
um índice de 10 411. E mais uma vez, é só para se divertir. Você não é avaliada
pelo seu índice nem por nada disso. Alguns membros do Círculo levam isso
muito a sério, é claro, e adoramos quando as pessoas querem participar, mas a
classificação na verdade é só uma forma divertida de ver sua participação em
relação às outras pessoas da comunidade do Círculo. Está bem?”
“Está bem.”
“Então está certo. Você sabe como entrar em contato comigo.”
E com isso Gina deu meia-volta e foi embora.
Mae abriu o fluxo de comunicações internas da empresa e começou. Ela
estava decidida a dar conta de todos os feeds Internos e Externos naquela noite.
Havia avisos gerais da empresa sobre os cardápios de cada dia, a previsão do
tempo de cada dia, as palavras de sabedoria de cada dia — os aforismos da
semana anterior eram de Martin Luther King, Ghandi, Jonas Salk, Madre Teresa
de Calcutá e Steve Jobs. Havia avisos sobre os visitantes do campus de cada dia:
uma agência de adoção de animais, um senador, um deputado do Tennessee, o diretor dos Médicos Sem Fronteiras. Mae descobriu com uma ponta de remorso
que ela havia perdido, naquela manhã, uma visita de Muhammad Yunus, o
ganhador do prêmio Nobel. Ela abriu caminho a duras penas pelas mensagens,
uma a uma, em busca de algo que parecesse razoável para responder de forma
pessoal. Havia pesquisas, pelo menos cinquenta, para averiguar as opiniões dos
membros do Círculo sobre diversas políticas da empresa, sobre a definição das
datas para assembleias, grupos de interesse, festas e recessos que estavam por
vir. Havia dúzias de clubes solicitando membros e informando todas as reuniões:
havia grupos de donos de gatos — pelo menos dez —, alguns grupos de donos
de coelhos, seis grupos de donos de répteis, quatro inflexivelmente exclusivos de
serpentes. Acima de tudo, havia grupos de donos de cachorros. Mae contou vinte
e dois, mas tinha certeza de que não estavam todos ali. Um dos grupos dedicados
a donos de cães de pequeno porte, o Cachorrinhos Sortudos, queria saber quantas
pessoas gostariam de participar de encontros aos fins de semana para
caminhadas, passeios e apoio mútuo; Mae ignorou aquele. Depois, percebendo
que ignorar o grupo teria como única consequência a chegada de outra
mensagem ainda mais urgente, ela digitou uma resposta explicando que não
tinha cachorro. Recebeu um pedido de assinatura para uma petição por mais
opções veganas no almoço; assinou. Havia nove mensagens de vários grupos de
trabalho dentro da empresa, pedindo que ela se integrasse aos seus subcírculos
para receber atualizações mais específicas e compartilhar informações. Até
aquele momento, Mae havia entrado nos grupos de crochê, futebol e Hitchcock.
Parecia haver uns cem grupos de pais — pais de primeira viagem, pais
divorciados, pais de filhos autistas, pais de guatemaltecos adotados, etíopes
adotados, russos adotados. Havia sete grupos de comédia de improviso, nove de
equipes de natação — tinha ocorrido um torneio interno na quarta-feira anterior,
do qual participaram centenas de nadadores, e cem mensagens eram sobre aquela
competição, quem venceu, alguma discordância nos resultados e a informação de
que um mediador viria ao campus a fim de dirimir dúvidas ou contestações
pendentes. Havia visitantes, dez por dia, pelo menos, de empresas que
apresentavam novos produtos inovadores ao Círculo. Novos carros com baixo
consumo de combustível. Novos tênis com certificado de comércio justo. Novas
raquetes de tênis de fabricação local. Havia reuniões de todos os departamentos
imagináveis — de pesquisa e desenvolvimento, de seleção, social, de difusão, de
networking, de filantropia, de vendas e, com um aperto no estômago, Mae viu
que havia perdido uma reunião considerada “de presença indispensável” para
todos os novatos. Tinha ocorrido na quinta-feira passada. Por que ninguém
avisou? Bem, sua burra, respondeu para si mesma. Avisaram sim. Bem aqui.
“Merda!”, exclamou.
Às dez da noite, ela havia percorrido todas as mensagens e alertas internos da
empresa e então se voltou para sua conta do Círculo Externo. Fazia seis dias que
não visitava a conta e descobriu 118 avisos novos só daquele dia. Resolveu
passar os olhos pelas mensagens, a partir das mais novas para as mais antigas.
Pouco antes, uma colega da faculdade tinha postado uma mensagem sobre o fato
de estar com gastroenterite e seguia-se uma longa série de respostas, amigos
fazendo sugestões sobre remédios, alguns lhe davam apoio, alguns postavam
fotos para animá-la. Mae curtiu duas fotos, três comentários, postou seus
próprios votos de melhoras e mandou o link para uma música que ela havia
descoberto sobre uma garota que vivia vomitando, chamada “Puking Sally”. Isso
gerou mais uma série de respostas, 54 mensagens, sobre a música e sobre a
banda que compôs. Uma das amigas disse que conhecia o baixista da banda e
depois o trouxe para a conversa. O baixista, Damien Ghilotti, estava na Nova
Zelândia, agora era engenheiro de som num estúdio, mas ficou contente de saber
que “Puking Sally” ainda era apreciada por pessoas com gastroenterite. Seu post
causou sensação em todos os envolvidos e apareceram mais 129 mensagens,
todo mundo empolgado com a participação do verdadeiro baixista da banda e, já
nas últimas mensagens do post, Damien Ghilotti foi convidado para tocar num
casamento, se quisesse, ou visitar Boulder, ou Bath, ou Gainesville, ou St.
Charles, no Illinois, a qualquer momento em que estivesse de passagem pela
região, e lá ele teria um lugar para ficar e boa comida caseira. A referência a St.
Charles levou uma pessoa a perguntar se alguém de lá tinha ouvido falar de Tim
Jenkins, que estava lutando na guerra no Afeganistão; tinham ouvido a notícia de
um rapaz de Illinois que havia morrido com um tiro disparado por um insurgente
afegão que se fez passar por um policial. Sessenta mensagens depois, os
participantes concluíram que se tratava de outro Tim Jenkins, esse era de
Rantoul, e não de St. Charles. Houve um alívio geral, mas logo o tópico foi
dominado por um debate de muitos participantes acerca da eficácia daquela
guerra, da política externa dos Estados Unidos em geral, se tínhamos vencido ou
não no Vietnã e em Granada ou até mesmo na Primeira Guerra Mundial, e sobre
a capacidade dos afegãos se autogovernarem, sobre o financiamento dos
insurgentes pelo ópio e sobre a possibilidade da legalização de toda e qualquer
droga ilícita nos Estados Unidos e na Europa. Alguém mencionou a utilidade da
maconha para aliviar o glaucoma e outra pessoa mencionou que a maconha
também era útil para quem sofria de esclerose múltipla, e depois houve uma
frenética discussão entre três membros de famílias em que havia um parente com
esclerose múltipla, e Mae, sentindo que certa escuridão abria as asas dentro dela,
desconectou-se.
Mae já não conseguia mais manter os olhos abertos. Embora tivesse avançado apenas três dias de seu atraso social, ela desligou o computador e foi para o
estacionamento.
O dilúvio da manhã de terça-feira foi mais leve do que a de segunda, mas a
atividade na sua terceira tela manteve Mae colada na cadeira durante as três
primeiras horas do dia. Antes da terceira tela, sempre havia uma calmaria, dez ou
vinte segundos talvez, entre o momento em que ela terminava de responder uma
dúvida e o momento em que ficava sabendo se a resposta tinha sido satisfatória
ou não; Mae usava aquele tempo para memorizar o texto das respostas-padrão e
mandar alguns questionários de verificação, além de dar uma conferida no
celular. Mas agora aquilo havia se tornado mais desafiador. O feed da terceira
tela despejava quarenta mensagens novas do Círculo Interno em intervalos de
poucos minutos, mais ou menos quinze posts e zings do Círculo Externo, e Mae
usava todo e qualquer momento disponível de tempo ocioso para rolar o texto na
tela e verificar se não havia nada que exigia sua atenção imediata, e depois
voltava para sua tela principal.
No fim da manhã, o fluxo já estava controlável, até estimulante. Havia tanta
coisa acontecendo na empresa, era tanta humanidade e tantos bons sentimentos,
e havia ali um papel de pioneirismo tão grande em todas as frentes, que Mae
sabia que estava se aprimorando e crescendo apenas por se encontrar perto dos
colegas do Círculo. Era como um mercado de produtos orgânicos bem
gerenciado: comprando ali, a gente sabia que era mais saudável; não se podia
fazer uma escolha ruim, porque tudo havia sido verificado de antemão. Da
mesma forma, todo mundo no Círculo tinha sido selecionado e assim o acervo
genético era extraordinário, a força cerebral era fenomenal. Era um lugar onde
todo mundo se empenhava, de modo constante e fervoroso, a fim de aprimorar a
si mesmo e mutuamente, compartilhar seus conhecimentos, disseminá-lo para o
mundo.
Na hora do almoço, porém, ela estava destroçada, com seu córtex cerebral
removido, e ansiosa para sentar-se por uma hora no gramado com Annie, que a
havia convidado com insistência.
Às 11h50, no entanto, recebeu uma mensagem de Dan na segunda tela: Tem
um minutinho?
Mae avisou para Annie que talvez ela se atrasasse e, quando chegou ao
escritório de Dan, ele estava encostado no umbral da porta. Sorriu para Mae com
simpatia, mas com a sobrancelha erguida, como se houvesse algo em Mae que o
estava deixando perplexo, algo que ele não conseguia identificar. Apontou para
o escritório com o braço e Mae passou ligeira por ele. Dan fechou a porta.
“Sente, Mae. Conhece Alistair, não é mesmo?”
Ela não tinha visto o homem sentado no canto, mas agora que o tinha visto, se
deu conta de que não o conhecia. Era alto, quase trinta anos, um cuidadoso
topete de cabelo castanho-claro. Estava numa posição diagonal diante de uma
cadeira redonda, sua fina silhueta rija e parada, como um pedaço de pau. Não se
levantou para cumprimentá-la, portanto Mae estendeu a mão para ele.
“Prazer em conhecê-lo”, disse ela.
Alistair suspirou com grande resignação e estendeu a mão como se estivesse
prestes a tocar em algo que o mar jogou na praia e em putrefação.
A boca de Mae ficou seca. Havia algo muito errado.
Dan sentou-se. “Bem, espero que possamos esclarecer isso o mais depressa
possível”, disse ele. “Gostaria de começar, Mae?”
Os dois homens olharam para ela. Os olhos de Dan estavam firmes, ao passo
que o olhar de Alistair era melancólico, mas esperançoso. Mae não tinha a
menor ideia do que estava acontecendo. Como o silêncio fermentou e cresceu,
Alistair piscou os olhos com furor, contendo as lágrimas.
“Não consigo acreditar”, conseguiu pronunciar.
Dan virou-se para ele. “Alistair, por favor. A gente sabe que você está
magoado, mas vamos encarar isso em perspectiva.” Dan virou para Mae. “Vou
explicar o óbvio. Mae, estamos falando sobre o brunch de Portugal do Alistair.”
Dan deixou as palavras repercutirem, na expectativa de que Mae desse um
pulo, mas Mae não tinha a menor ideia do que significavam aquelas palavras: o
brunch de Portugal de Alistair? Será que ela podia dizer que não tinha a menor
ideia do que aquilo significava? Mae sabia que não podia. Ela estava atrasada
com as mensagens. Aquilo devia ter alguma relação com o assunto.
“Desculpe”, disse ela. Sabia que teria de andar na corda bamba até conseguir
entender do que se tratava.
“Já é um bom começo”, disse Dan. “Não é, Alistair?”
Alistair encolheu os ombros.
Mae continuou tateando. O que sabia? Tinha havido um brunch, isso era certo.
E obviamente ela não tinha comparecido. O brunch tinha sido organizado por
Alistair e agora ele estava magoado. Tudo isso era razoável supor.
“Eu queria ter ido”, arriscou dizer Mae, e imediatamente viu ligeiros sinais de
confirmação no rosto deles. Ela estava reconhecendo o terreno em que pisava.
“Só que eu não tinha certeza de...” Agora Mae deu um salto. “Eu não tinha
certeza de que eu seria bem-vinda, já que sou muito nova aqui.”
O rosto deles relaxou. Mae sorriu, ciente de que havia acertado o alvo. Dan
balançou positivamente a cabeça, feliz de ver confirmada sua hipótese — de que
Mae não era uma pessoa intrinsecamente má. Levantou-se de sua cadeira, deu a
volta pela mesa e recostou-se nela.
“Mae, nós não demos a você a sensação de que era bem-vinda?”, perguntou.
“Sim, deram sim! Deram mesmo, de verdade. Mas não sou membro da equipe
do Alistair e não tinha muita segurança de como são as regras, entende,
membros da minha equipe comparecendo a brunches de membros mais
experientes de outras equipes.”
Dan fez que sim com a cabeça. “Está vendo, Alistair? Eu falei que a
explicação era muito simples.” Agora Alistair estava sentado com as costas
retas, como se estivesse disposto a participar da conversa outra vez.
“Pois bem, é claro que você é bem-vinda”, disse ele, dando uma palmadinha
no joelho de Mae com ar alegre. “Mesmo que seja um pouco esquecida.”
“Ora, Alistair...”
“Desculpe”, disse ele, e respirou fundo. “Agora já me controlei. Estou muito
feliz.”
Houve mais alguns pedidos de desculpas e risos sobre entendidos e mal-
entendidos, e sobre comunicações, fluxos, enganos e sobre a ordem do universo,
e por fim estava na hora de deixar o assunto de lado. Todos se levantaram.
“Vamos selar as pazes com um abraço”, disse Dan. E assim fizeram, todos os
três, formando uma roda coesa num único abraço, numa comunhão recém-
descoberta.
Quando Mae voltou à sua mesa, havia uma mensagem à sua espera.