O Círculo

Dave Eggers · Apêndice

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O Círculo

O Círculo

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 11 partes.

zangado.

“Sim. Fui só jantar.”

Então Dan se levantou e deu as costas para Mae. Ela podia ouvir a respiração

de Dan, uma série de bufos irritados.

Mae teve a clara sensação de que seria demitida a qualquer momento. Então

se lembrou de Annie. Será que Annie podia salvá-la? Não dessa vez.

“Muito bem”, disse Dan. “Então você vai para casa, falta a uma porção de

atividades que ocorreram aqui e, quando está voltando de carro para cá, você

para no quiosque de aluguel de caiaques, já tarde da noite. E não vá me dizer que

não sabia que já tinham fechado o quiosque.”

“Imaginei que estivesse fechado, mas fui até lá para conferir.”

“E quando viu um caiaque do lado de fora da cerca, resolveu se apoderar

dele.”

“Pegar emprestado. Tenho ficha, sou cliente registrada lá.”

“Já viu a filmagem da cena?”, perguntou Dan.

Acendeu a tela grande na parede. Mae viu uma imagem clara da praia ao luar, filmada por uma câmera de lente grande-angular. A legenda na parte de baixo da

tela indicava que a imagem tinha sido gravada às 22h14. “Não acha que uma

câmera como essa seria útil para você?”, perguntou Dan. “No mínimo para saber

as condições do mar?” Ele não esperou a resposta. “Vamos ver você aqui.”

Adiantou alguns segundos e Mae viu seu vulto sombreado surgir na praia. Tudo

estava muito claro — sua surpresa ao descobrir o caiaque, seus momentos de

dúvida e reflexão, em seguida seu rápido trabalho para levar o caiaque para a

água e remar para fora da vista.

“Muito bem”, disse Dan. “Como pode ver, é bastante óbvio que você sabia

muito bem que estava fazendo uma coisa errada. Esse não é o comportamento de

alguém que tenha um acordo estável com Marge ou sei lá como se chama. Quero

dizer, estou feliz que vocês duas tenham combinado contar uma história razoável

e que você não tenha sido presa, porque isso teria tornado impossível para você

continuar trabalhando aqui. Delinquentes não trabalham no Círculo. No entanto,

tudo isso me deixa francamente nauseado. Mentiras e evasivas. É chocante ter de

lidar com isso.”

Mais uma vez, Mae teve a nítida sensação, uma vibração no ar que dizia que

ia ser demitida. Mas, se ia ser demitida, Dan não desperdiçaria todo aquele

tempo com ela, não é? E será que demitiria alguém que tinha sido contratado por

Annie, que ocupava um degrau muito mais elevado na hierarquia? Se Mae fosse

receber de alguém a notícia de sua demissão, teria de ser da própria Annie.

Portanto, Mae ficou quieta, esperando que aquela conversa tomasse outra

direção.

“Pois bem, o que está faltando aqui?”, perguntou ele, apontando para a

imagem congelada de Mae entrando no caiaque.

“Não sei.”

“Não sabe mesmo?”

“Autorização para usar o caiaque?”

“Claro”, respondeu secamente. “Mas o que mais?”

Mae balançou a cabeça. “Desculpe. Não sei.”

“Não costuma usar colete salva-vidas?”

“Uso, uso sim. Mas ele estava do outro lado da cerca.”

“E se, Deus nos livre, alguma coisa acontecesse com você no mar? Como seus

pais se sentiriam? Como a Marge se sentiria?”

“Marion.”

“Como ela se sentiria, Mae? Do dia para a noite, seu negócio de aluguel de

caiaques estaria terminado. Fechado para sempre. Todas as pessoas que

trabalham para ela. Todas demitidas. A praia fechada. O aluguel de caiaques na

baía, o negócio como um todo, iria todo para o buraco. E tudo por causa da sua falta de previdência. Desculpe a maneira bruta como falo, mas tudo por causa de

seu egoísmo.”

“Eu sei”, disse Mae, sentindo a pontada da verdade. Tinha sido egoísta. Não

tinha pensado em mais nada, senão no próprio desejo.

“É triste porque você estava fazendo muitos progressos. Seu PartiRank estava

em 1668. Seu Índice de Conversão e Varejo Bruto estavam no quartil superior. E

agora, isso.” Dan suspirou de modo acintoso. “Porém, por mais que tudo isso

seja inquietante, nos proporciona um momento instrutivo. Refiro-me a um

momento instrutivo no plano de uma mudança de vida. Esse episódio

vergonhoso lhe deu a chance de encontrar Eamon Bailey em pessoa.”

A arfada de Mae pôde ser ouvida.

“Sim. Ele se mostrou interessado pelo caso, vendo o quanto isso se sobrepõe

aos interesses dele e aos objetivos gerais do Círculo. Você está interessada em

conversar com Eamon sobre isso?”

“Sim”, Mae conseguiu responder. “É claro.”

“Ótimo. Ele está ansioso para falar com você. Às seis da tarde você será

conduzida ao escritório dele. Por favor, organize seus pensamentos até lá.”

 

A cabeça de Mae ecoava com autodenúncias. Ela detestava a si mesma. Como

tinha disso capaz de fazer aquilo, pôr em risco seu emprego? Deixar sua melhor

amiga em situação constrangedora. Pôr em perigo o plano de saúde de seu pai.

Ela era uma imbecil, sim, mas será que não era uma espécie de esquizofrênica

também? O que tinha dado nela na noite anterior? Que tipo de pessoa faz coisas

assim? Sua mente discutia consigo mesma enquanto Mae trabalhava com fervor,

tentando fazer algo visível para demonstrar seu compromisso com a empresa.

Despachou 140 pesquisas de cliente, seu recorde até então, ao mesmo tempo que

respondia 1129 perguntas da pesquisa do Círculo, tudo isso enquanto se

mantinha atenta aos novatos. A nota média de sua equipe estava em 98, do que

Mae se orgulhou, mesmo sabendo que havia ali uma dose de sorte, além do

envolvimento do Jared também — ele sabia o que estava acontecendo com Mae

e lhe havia penhorado sua ajuda. Às cinco horas da tarde, a comporta fechou e

Mae cuidou do PartiRank durante quarenta e cinco minutos, levando-o de 1827 a

1430, um processo que exigiu 344 comentários, postagens e quase mil sorrisos e

caras feias. Mae converteu 38 tópicos importantes e 44 secundários e seu Varejo

Bruto chegou a 24 050 dólares. Mae tinha certeza de que aquilo seria notado e

apreciado por Bailey, cuja concentração no PartiRank era a mais aguçada entre

os Três Sábios.

Às cinco e quarenta e cinco, uma voz chamou seu nome. Ela ergueu os olhos e

viu um vulto na porta, uma pessoa nova, um homem de uns trinta anos. Ela foi a seu encontro na porta.

“Mae Holland?”

“Sim.”

“Sou Dontae Peterson. Trabalho com Eamon e ele me pediu que levasse você

ao escritório dele. Está pronta?”

Tomaram o mesmo caminho que Mae havia tomado com Annie e, ao longo do

trajeto, Mae se deu conta de que Dontae não sabia que Mae já estivera no

escritório de Bailey. Annie nunca havia pedido segredo daquilo para ela, mas o

fato de Dontae não saber indicava que Bailey também não sabia e que ela mesma

não devia revelar nada.

Quando entraram no corredor comprido e vermelho, Mae suava muito. Podia

sentir os filetes de suor escorrendo pelas axilas rumo à cintura. Mae não

conseguia sentir os pés.

“Aqui está um retrato engraçado dos Três Sábios”, disse Dontae quando

pararam na porta. “A sobrinha de Bailey foi quem pintou.”

Mae fingiu ficar surpresa, encantada com a inocência do quadro e com sua

visão bruta.

Dontae pegou a grande aldrava em forma de gárgula e bateu na porta. Ela

abriu e o rosto sorridente de Bailey preencheu o espaço.

“Alô!”, disse. “Oi, Dontae, oi, Mae!” Sorriu ainda mais, ciente da rima que

tinha feito. “Entrem.”

Vestia calça cáqui e camisa social branca de manga comprida, tinha o aspecto

fresco de quem acabou de tomar uma ducha. Mae seguiu-o, enquanto ele entrava

na sala, coçando a nuca, como se estivesse quase embaraçado com o fato de estar

tão bem instalado ali.

“Pois é, esta é minha sala predileta. Muito pouca gente já viu. Não que eu seja

supersecreto a respeito disso nem nada, mas o tempo simplesmente não permite

que eu promova visitas guiadas e coisas assim. Alguma vez já viu algo desse

tipo?”

Mae queria dizer, mas não podia, que tinha visto aquela mesma sala antes.

“Nem de longe”, respondeu.

Algo aconteceu naquele momento no rosto de Bailey, alguma torção que

pareceu levar o canto esquerdo de seus olhos e o lado esquerdo de sua boca mais

para perto um do outro.

“Obrigado, Dontae”, disse Bailey.

Dontae sorriu e saiu, fechando a pesada porta atrás de si.

“Então, Mae? Chá?” Bailey estava de pé diante de um serviço de chá de

antiquário, um bule prateado exalava uma espiral de vapor.

“Claro”, disse ela.

“Verde? Preto?”, perguntou Bailey. “Earl Grey?”

“Verde, obrigado. Mas não precisa.”

Bailey estava ocupado com os preparativos. “Você conhece nossa querida

Annie há muito tempo?”, perguntou, enquanto servia o chá com cuidado.

“Conheço. Desde o segundo ano da faculdade. Faz cinco anos agora.”

“Cinco anos! Isso é, digamos, trinta por cento de sua vida!”

Mae sabia que ele estava contornando um pouco o assunto principal, mas deu

uma ligeira risadinha. “Acho que sim. É muito tempo.” Bailey entregou-lhe um

pires, a xícara e fez sinal para ela sentar. Havia duas poltronas, ambas de couro e

muito estofadas.

Bailey deixou-se cair em sua poltrona com um alto suspiro e cruzou o

tornozelo sobre o joelho. “Bem, Annie é muito importante para nós aqui, assim

como você também é. Ela fala sobre você como se pudesse vir a se tornar muito

valiosa para esta comunidade. Você acredita que isso é verdade?”

“Que eu posso vir a ser valiosa aqui?”

Ele fez que sim com a cabeça. Olhou para ela por cima de sua xícara de chá,

os olhos firmes. Mae enfrentou seu olhar, depois, ligeiramente subjugada,

desviou os olhos, apenas para topar com o rosto de Bailey de novo, dessa vez

numa fotografia emoldurada numa estante próxima. Era um retrato formal da

família de Bailey, em preto e branco, suas três filhas de pé em redor da mãe e de

Bailey, os dois sentados. O filho de Bailey estava no seu colo, de roupa esportiva

e com um boneco articulado do Homem de Ferro nas mãos.

“Bem, espero que sim”, disse Mae. “Tenho me esforçado ao máximo. Adoro o

Círculo, nem consigo exprimir a que ponto sou grata pela oportunidade que me

deram aqui.”

Bailey sorriu. “Ótimo, ótimo. Então me diga, como se sente a respeito do que

aconteceu na noite passada?” Fez a pergunta como se estivesse sinceramente

curioso, como se a resposta de Mae pudesse tomar as mais diversas direções.

Agora Mae estava pisando em solo firme. Não era necessária nenhuma

enrolação. “Me sinto péssima”, disse ela. “Mal consegui dormir. Estou tão

envergonhada que tenho vontade de vomitar.” Não usaria aquela palavra

conversando com Stenton, mas achou que Bailey talvez gostasse do tom rude.

Ele sorriu de modo quase imperceptível e prosseguiu. “Mae, permita que eu

faça uma pergunta. Você teria agido de maneira diferente se soubesse das

câmeras SeeChange instaladas na marina?”

“Sim.”

Bailey fez que sim com a cabeça, enfaticamente. “Certo. E como?”

“Eu não teria feito o que fiz.”

“E por que não?”

“Porque eu teria sido apanhada.”

Bailey inclinou a cabeça. “Só isso?”

“Bem, eu não ia querer que alguém visse o que eu estava fazendo. Não foi

direito. É constrangedor.”

Bailey colocou a xícara sobre a mesa a seu lado e repousou as mãos no colo,

as palmas unidas num abraço gentil. “Portanto, no geral, você diria que se

comporta de maneira diferente quando sabe que está sendo observada?”

“Sim. Claro.”

“E quando você for chamada à responsabilidade pelo que fez.”

“Sim.”

“E quando houver um registro histórico. Ou seja, quando seu comportamento

ficar permanentemente acessível. Aquele vídeo do seu comportamento, por

exemplo, vai existir para sempre.”

“Sim.”

“Ótimo. E você lembra da minha palestra do início do verão, sobre o objetivo

supremo da SeeChange?”

“Sei que a maior parte dos crimes seria eliminada se houvesse uma saturação

total.”

Bailey pareceu ficar satisfeito. “Certo. Correto. Cidadãos comuns, como Gary

Katz e Walt Lefebvre nesse exemplo, porque se deram ao trabalho de instalar

suas câmeras, nos mantiveram a todos em segurança. O crime foi menor nesse

caso e não houve nenhuma vítima, graças a Deus. Você está viva. O negócio de

Marion e a indústria do aluguel de caiaques em geral vão prosseguir de vento em

popa. Mas uma noite de egoísmo de sua parte poderia pôr em risco tudo isso. O

ato individual tem reverberações que podem ser quase infinitas. Concorda?”

“Concordo. Eu sei. Foi uma irresponsabilidade.” E aqui de novo Mae teve a

sensação de ser uma pessoa de visão muito curta, que repetidamente punha em

risco tudo o que havia recebido no Círculo.

“Sr. Bailey, não consigo acreditar que eu tenha feito o que fiz. E sei que o

senhor está se perguntando se eu sou apta a trabalhar aqui. Só quero que o

senhor saiba como eu valorizo meu cargo e sua fé em mim. E quero honrar isso.

Farei qualquer coisa para compensar o que fiz ao senhor. Sério, vou fazer

trabalho extra, farei qualquer coisa. É só me dizer.”

O rosto de Bailey se abriu num sorriso extremamente simpático. “Mae, seu

emprego não está em questão. Você veio para cá para ficar, para sempre. Annie

está aqui para sempre. Lamento que você tenha pensado algo diferente, ainda

que só por um segundo. Não queremos que nenhuma das duas vá embora.”

“É bom ouvir isso. Obrigada”, disse Mae, embora seu coração agora batesse

com mais força ainda.

Bailey sorriu, fez que sim com a cabeça, como se estivesse feliz e aliviado por

ver que tudo estava esclarecido. “No entanto, esse episódio todo nos proporciona

um momento muito importante e instrutivo, não acha?” A pergunta parecia

retórica, mas Mae assentiu outra vez. “Mae”, disse ele, “quando um segredo é

algo bom?”

Mae pensou alguns segundos naquilo. “Quando pode proteger os sentimentos

de alguém.”

“Por exemplo?”

“Bem”, ela procurou. “Digamos que eu sei que o namorado de uma amiga está

traindo ela, mas...”

“Mas o quê? Não vai contar à sua amiga?”

“Está certo. Não é um bom exemplo.”

“Mae, você fica feliz quando um amigo tem um segredo que não conta para

você?”

Mae pensou em todas as pequenas mentiras que havia contado para Annie nos

últimos tempos. Mentiras que ela havia não só falado mas também digitado,

mentiras que se tornaram permanentes e incontestáveis.

“Não. Mas compreendo quando isso é necessário.”

“Isso é interessante. Pode lembrar um momento em que ficou feliz por um

amigo ter um segredo que não contou para você?”

Mae não conseguiu. “No momento, não.” Sentiu-se mal com isso.

“Muito bem”, disse Bailey, “por enquanto não conseguimos pensar em

segredos bons entre amigos. Vamos passar para as famílias. Numa família, um

segredo é uma coisa boa? Teoricamente, alguma vez você já pensou: Sabe o que

seria ótimo esconder de minha família? Um segredo.”

Mae pensou nas muitas coisas que seus pais provavelmente mantinham em

segredo dela — as diversas indignidades que a doença de seu pai causava para

eles. “Não”, respondeu.

“Nenhum segredo dentro de uma família?”

“Na verdade”, disse Mae. “Eu não sei. Existem coisas que positivamente a

gente não quer que os pais fiquem sabendo.”

“Seus pais podiam querer saber dessas coisas?”

“Talvez.”

“Então você está privando seus pais de algo que eles querem. Isso é bom?”

“Não. Mas talvez seja melhor para todos.”

“Melhor para você. Melhor para quem detém o segredo. É melhor guardar um

segredo sombrio e não contar para os pais. Esse segredo é sobre algo

maravilhoso que você fez? Talvez saber disso fosse provocar uma alegria grande

demais em seus pais?”

Mae riu. “Não. Obviamente, um segredo é algo que você não quer que eles

saibam sobre você porque tem vergonha ou porque quer poupá-los de saber que

fez uma besteira.”

“Mas concordamos que eles gostariam de saber.”

“Sim.”

“E que eles têm o direito de saber?”

“Acho que sim.”

“Muito bem. Então podemos concordar também que estamos falando de uma

situação em que, num mundo perfeito, você não faria nada que tivesse vergonha

de contar para os pais?”

“Claro. Mas existem outras coisas que eles talvez não compreendessem.”

“Porque eles mesmos nunca foram filhos e filhas?”

“Não. Mas...”

“Mae, você tem amigos ou parentes gays?”

“Claro.”

“Você sabe como o mundo era diferente para os gays, antes e depois que as

pessoas começaram a se declarar gays abertamente?”

“Tenho uma ideia de como era.”

Bailey levantou-se e foi até o serviço de chá. Serviu mais chá para si e para

Mae e sentou-se outra vez,

“Não sei se você tem de fato uma ideia. Eu fui da geração que lutou muito

para que as pessoas pudessem ser gays publicamente. Meu irmão é gay e só

admitiu isso para a família aos vinte e quatro anos. E até então o problema quase

o matava de angústia. Era um tumor fervilhando dentro dele e crescia a cada dia.

Mas por que ele achava que seria melhor manter escondido? Quando ele contou

para nossos pais, eles nem piscaram os olhos. Ele havia criado todo aquele

drama em sua mente — todo aquele mistério e peso em torno de seu grande

segredo. E parte do problema, historicamente, decorria do fato de outras pessoas

guardarem segredo de coisas semelhantes. Declarar-se gay era algo muito difícil,

até que milhões de homens e mulheres se declararam gays. Aí ficou muito mais

fácil, não concorda? Quando milhões de homens e mulheres saíram do armário,

a homossexualidade deixou de ser um suposto desvio misterioso e passou a ser

um caminho de vida como os outros. Está acompanhando?”

“Sim. Mas...”

“Eu acredito que, em qualquer lugar do mundo onde os gays ainda são

perseguidos, é possível alcançar um grande progresso se todos os gays e lésbicas

se declararem abertamente de uma vez. Então quem estiver perseguindo os gays

e todos os que tacitamente apoiam essa perseguição perceberão que isto significa

perseguir pelo menos dez por cento da população — inclusive seus filhos, filhas, vizinhos e amigos — e até os próprios pais. Seria algo instantaneamente

insustentável. Mas a perseguição de gays ou de qualquer grupo minoritário só é

possível graças ao segredo.”

“Está bem. Eu não tinha pensado no assunto nesses termos.”

“Está certo”, disse ele, satisfeito, e bebeu seu chá. Passou o dedo pelo lábio

superior para enxugá-lo. “Portanto já tratamos dos prejuízos que os segredos

causam na família e entre amigos, e também o papel do segredo na perseguição

de grandes grupos de pessoas. Prossigamos em nossa busca para descobrir

alguma utilidade para uma estratégia de segredo. Será que deveríamos olhar para

a política? Você acha que um presidente deve guardar segredos do povo que ele

ou ela governa?”

“Não, mas existem certas coisas que não podemos saber. Por razões de

segurança nacional apenas.”

Ele sorriu, feliz, pelo visto, por Mae ter dito o que ele esperava que dissesse.

“É mesmo, Mae? Lembra quando um homem chamado Julian Assange surrupiou

milhões de documentos secretos dos Estados Unidos?”

“Li a respeito.”

“Bem, em primeiro lugar, o governo dos Estados Unidos ficou muito irritado,

assim como boa parte da mídia. Muita gente achou que era uma grave ruptura na

segurança e que representava um perigo claro e premente aos nossos homens e

mulheres de uniforme aqui e no exterior. Mas você se lembra de algum soldado

que tenha sofrido qualquer dano real por aqueles documentos terem sido

divulgados?”

“Não sei.”

“Nenhum foi prejudicado. Nenhum. O mesmo aconteceu na década de 70 com

os chamados Documentos do Pentágono. Nenhum soldado sofreu sequer um

arranhão por causa da divulgação daqueles documentos. O efeito principal da

divulgação daqueles documentos, me lembro, foi que descobrimos que muitos de

nossos diplomatas fazem fofocas sobre os líderes dos outros países. Milhões de

documentos e a principal descoberta foi que os diplomatas dos Estados Unidos

achavam que Gaddafi era pirado, com todas as mulheres que faziam sua

segurança e seus estranhos hábitos alimentares. No máximo, a divulgação dos

documentos levou aqueles diplomatas a adotarem um comportamento melhor.

Passaram a ter mais cuidado com o que diziam.”

“Mas a defesa nacional...”

“O que houve com ela? A única situação em que estamos em perigo é quando

ignoramos os planos ou os motivos dos países com os quais supostamente

estamos em atrito. Ou quando eles desconhecem nossos planos, mas ficam

preocupados com eles, certo?”

“Claro.”

“Mas e se eles conhecessem de fato nossos planos e nós soubéssemos os

deles? De repente estaríamos livres do que chamavam antigamente de risco da

certeza da destruição mútua e, em vez disso, alcançaríamos a certeza da

confiança mútua. Os Estados Unidos não têm motivações puramente nefastas,

não é? Não estamos planejando varrer nenhum país do mapa. Às vezes, porém,

damos passos sub-reptícios para obter o que desejamos. Mas e se todo mundo

fosse, e tivesse de ser, franco e aberto?”

“Seria melhor?”

Bailey deu um largo sorriso. “Ótimo. Eu concordo.” Colocou a xícara na mesa

e outra vez repousou as mãos no colo.

Mae sabia que não devia pressionar Bailey, mas sua língua se antecipou a ela.

“Porém o senhor não está dizendo que todo mundo devia saber tudo.”

Os olhos de Bailey se abriram muito, como se estivesse contente por Mae ter

conduzido a conversa para uma ideia que ele esperava com ansiedade. “Claro

que não. Mas digo que todo mundo devia ter o direito de saber tudo e devia ter

as ferramentas para saber tudo. Não existe tempo suficiente para saber tudo,

embora sem dúvida eu gostaria que existisse.”

Fez uma pausa, perdeu-se em pensamentos por um momento, depois voltou a

concentrar-se em Mae. “Compreendo que você não tenha ficado muito contente

por ter sido o tema da demonstração do LuvLuv, do Gus.”

“Fui pega de surpresa. Ele não me contou que ia fazer aquilo.”

“Só isso?”

“Bem, transmitiu uma impressão distorcida a meu respeito.”

“A informação que ele apresentou estava incorreta? Havia erros fatuais?”

“A questão não foi essa. Era só... parcial. E talvez isso tenha feito a imagem

parecer incorreta. Retirou algumas fatias de mim e apresentou como se fosse o

todo...”

“Pareceu incompleto.”

“Certo.”

“Mae, estou muito contente por você ter apresentado a questão dessa forma.

Como sabe, o Círculo está ele mesmo tentando se tornar completo. Estamos

tentando fechar o círculo do Círculo.” Riu de seu próprio jogo de palavras. “Mas

você conhece os objetivos gerais de completude, suponho.”

Ela não conhecia. “Acho que sim”, respondeu.

“Olhe para nosso logotipo”, disse Bailey, e apontou para uma tela grande na

parede, onde, em resposta a um gesto seu, surgiu o logotipo. “Está vendo como

aquele C no meio está aberto? Há anos que isso me incomoda, e tornou-se um

símbolo do que ainda falta fazer aqui, que é fechar o círculo.” O C na tela se fechou e tornou-se um círculo perfeito. “Está vendo?”, disse ele. “Um círculo é a

forma mais forte do universo. Nada pode vencê-lo, nada pode melhorá-lo, nada

pode ser mais perfeito. E é isso que desejamos ser: perfeitos. Portanto toda

informação que nos escapa, tudo que não é acessível, nos impede de sermos

perfeitos. Entende?”

“Entendo”, respondeu Mae, embora não tivesse certeza.

“Isso está de acordo com nossos objetivos, pois a maneira como o Círculo

pode nos ajudar, individualmente, a nos sentirmos mais completos e sentirmos

que as impressões dos outros sobre nós são completas se baseia na informação

completa. E assim evitaremos a sensação, como a que você teve, de que está

sendo apresentada ao mundo como uma imagem distorcida de nós mesmos. É

como um espelho partido. Se olhamos para um espelho partido, um espelho

rachado ou no qual falta um pedaço, o que obtemos?”

Agora fazia sentido para Mae. Qualquer abordagem, julgamento ou retrato

que utilizasse informação incompleta sempre estaria errado. “Obtemos um

reflexo distorcido ou partido”, respondeu ela.

“Certo”, disse Bailey. “E se o espelho estiver inteiro?”

“Vemos tudo.”

“Um espelho é fiel, certo?”

“Claro. É um espelho. É a realidade.”

“Mas um espelho só pode ser fiel quando for completo. E, pensando no seu

caso, o problema com a apresentação do LuvLuv por Gus é que não foi

completa.”

“Certo.”

“Certo?”

“Bem, isso é verdade”, disse Mae. Ela não tinha certeza do motivo por que

abriu a boca, mas as palavras saltaram antes que pudesse contê-las. “Mas ainda

acho que existem certas coisas, ainda que sejam poucas, que desejamos guardar

para nós mesmos. Todo mundo faz coisas sozinho, ou em seu quarto, de que

sente vergonha.”

“Mas por que devem sentir vergonha?”

“Talvez nem sempre seja vergonha. Mas coisas que não querem compartilhar.

Que talvez achem que os outros não vão compreender. Ou que vão modificar a

maneira como elas são vistas.”

“Muito bem. Com esse tipo de situação, no final, vão acontecer uma ou duas

coisas. Primeiro, vamos nos dar conta de que o comportamento de que estamos

falando, seja qual for, é tão disseminado e inofensivo que não precisa ser secreto.

Se o desmistificamos, se admitimos que é algo que todos fazemos, então ele

perde seu poder de chocar. Caminhamos rumo à honestidade e nos afastamos da vergonha. Ou então, segunda opção, e melhor ainda, se todos, enquanto

sociedade, decidimos que esse é um comportamento que preferimos não adotar,

o fato de todo mundo saber ou ter o poder de saber quem o está praticando

evitaria que o comportamento fosse adotado. É exatamente como você disse —

você não teria roubado, se soubesse que estava sendo vista.”

“Certo.”

“O cara que está lá no fundo da sala veria pornografia no trabalho se soubesse

que está sendo visto?”

“Não. Acho que não.”

“Então, problema resolvido, não é?”

“Sim, eu acho.”

“Mae, alguma vez você já teve um segredo que te envenenava por dentro e,

quando foi trazido à luz, você se sentiu melhor?”

“Claro.”

“Eu também. Essa é a natureza dos segredos. Quando guardados dentro de

nós, são cancerosos, mas são inofensivos quando ficam abertos para o mundo.”

“Então você está dizendo que não deveria haver segredos.”

“Faz anos que penso nisso e ainda não consigo imaginar uma situação em que

um segredo faça mais bem do que mal. Os segredos são os viabilizadores do

comportamento antissocial, imoral e destrutivo. Está vendo como é assim?”

“Acho que sim. Mas...”

“Você sabe o que minha esposa me disse, há muitos anos, quando nos

casamos? Disse que, toda vez que ficássemos separados, por exemplo, quando

eu estivesse numa viagem de trabalho, eu deveria me comportar como se

houvesse uma câmera em mim. Como se ela estivesse me vendo. Naquele

tempo, ela estava falando em termos puramente conceituais e num tom mais ou

menos de brincadeira, mas a imagem mental me ajudou. Se eu me visse sozinho

num quarto com uma mulher, uma colega de trabalho, eu pensava: O que a

Karen ia achar se estivesse vendo isso por uma câmera de circuito fechado?

Isso guiava sutilmente meu comportamento e me impedia de sequer me

aproximar de um comportamento do qual ela não fosse gostar e do qual eu não

teria orgulho nenhum. Aquilo me conservava honesto. Está vendo o que quero

dizer?”

“Estou”, respondeu Mae.

“Veja, a rastreabilidade dos carros robôs, que andam sozinhos, está

resolvendo boa parte disso, é claro. Os cônjuges sabem cada vez mais onde seu

parceiro esteve, pois o carro registra os lugares por onde passou. Mas meu

argumento é: e se todos nos comportássemos como se estivéssemos sendo

observados? Levaria a um modo de vida mais moral. Quem faria alguma coisa antiética ou imoral ou ilegal se estivesse sendo observado? Se sua transferência

ilegal de dinheiro estivesse sendo rastreada? Se seu telefonema para chantagear

estivesse sendo gravado? Se seu assalto à mão armada no posto de gasolina

estivesse sendo filmado por uma dúzia de câmeras e até suas retinas fossem

identificadas durante o assalto? Se sua promiscuidade estivesse sendo

documentada de um monte de maneiras diferentes?”

“Não sei. Imagino que tudo isso teria uma redução muito grande.”

“Mae, nós seríamos, no final, compelidos a mostrar o que temos de melhor. E

acho que as pessoas ficariam aliviadas. Haveria um formidável suspiro de alívio

mundial. Finalmente, finalmente, podemos fazer o bem. Num mundo onde as

opções ruins já não são mais opções, não temos outra escolha senão sermos

bons. Já imaginou?”

Mae fez que sim com a cabeça.

“Agora, por falar em alívio, há alguma coisa que você gostaria de me contar

antes de terminarmos?”

“Não sei. Muitas coisas, acho”, disse Mae. “Mas você foi tão gentil por me

conceder todo esse tempo que...”

“Mae, existe alguma coisa específica que você escondeu de mim enquanto

estivemos aqui nesta biblioteca?”

Na mesma hora, Mae se deu conta de que mentir não era uma opção.

“Que eu já estive aqui antes?”, disse ela.

“Já esteve?”

“Sim.”

“Mas quando entrou deu a entender que nunca tinha estado aqui.”

“Annie me trouxe aqui. Ela me disse que era uma espécie de segredo. Não sei.

Eu não sabia o que fazer. Eu não via nenhuma forma de agir que parecesse a

ideal. De um jeito ou de outro, eu ficaria em apuros.”

Bailey sorriu de forma extravagante. “Veja, isso não é verdade. Só mentiras

nos deixam em apuros. Só as coisas que escondemos. É claro que eu sabia que

você já havia estado aqui. Não me subestime! Mas fiquei curioso por você ter

escondido isso de mim. Me deu uma sensação de distância em relação a você.

Um segredo entre dois amigos, Mae, é um oceano. É largo e profundo e nós nos

perdemos dentro dele. E agora que sei seu segredo, você se sente melhor ou

pior?”

“Melhor.”

“Sente alívio?”

“Sim, alívio.”

Mae sentia alívio de fato, uma onda de alívio que dava uma sensação de amor.

Porque continuava a ter seu emprego e não teria de voltar para Longfield, e porque seu pai continuaria forte e sua mãe continuaria livre de um fardo pesado,

Mae queria ser tomada por Bailey, ser absorvida em sua sabedoria e

generosidade.

“Mae”, disse ele “acredito de verdade que se não tivermos outro caminho

senão o correto, o melhor caminho, isso traria uma espécie de alívio supremo e

universal. Não precisamos mais ser tentados pelas trevas. Perdoe-me por

apresentar a questão em termos morais. É o velho frequentador de igrejas do

Meio-Oeste que vive dentro de mim. Mas acredito na perfectibilidade dos seres

humanos. Acho que podemos melhorar. Acho que podemos ser perfeitos ou

chegar perto disso. E quando mostrarmos o que temos de melhor dentro de nós,

as possibilidades serão infinitas. Vamos poder resolver qualquer problema.

Vamos poder curar todas as doenças, acabar com a fome, tudo, porque não

seremos arrastados para baixo por todas nossas fraquezas, nosso segredinhos,

nossos depósitos trancados de conhecimentos e de informações. Finalmente

vamos concretizar nosso potencial.”

 

Durante dias, Mae ficou aturdida por causa da conversa com Bailey, e agora

era sexta-feira, e a ideia de subir ao palco no almoço tornava sua concentração

quase impossível. Mas ela sabia que tinha de trabalhar, dar um exemplo para sua

equipe, pelo menos, pois aquele provavelmente seria seu último dia em

Experiência do Cliente.

O fluxo estava grande, mas não esmagador, e Mae dera conta de 77 pesquisas

de consumidores naquela manhã. Sua nota estava em 98 e a média ponderada da

equipe estava em 97. Números bastante respeitáveis. Seu PartiRank era 1921,

outra bela cifra, um número que ela se sentia satisfeita de poder levar ao

Iluminismo.

Às 11h38, Mae saiu de sua mesa e andou até a porta da entrada lateral do

auditório, chegando dez minutos antes do meio-dia. Bateu e a porta abriu. Mae

encontrou o contrarregra, um homem mais velho, quase espectral, chamado

Jules, que a levou para um camarim simples, de paredes brancas e chão de

bambu. Uma mulher de movimentos rápidos chamada Teresa, olhos enormes

delineados em azul, acomodou Mae numa cadeira, deu um trato no seu cabelo,

pincelou seu rosto com um pincel felpudo e prendeu um microfone de lapela à

sua blusa. “Não precisa tocar em nada”, disse ela. “Ele liga assim que você

entrar no palco.”

Estava acontecendo muito depressa, mas Mae achava que era melhor assim.

Se tivesse mais tempo, acabaria apenas ficando ainda mais nervosa. Então

obedeceu a Jules e Teresa e, em minutos, estava nos bastidores do palco,

ouvindo o barulho de milhares de membros do Círculo que entravam no auditório, conversando, rindo e se deixando cair nas poltronas, com baques

felizes. Ela se perguntou por um momento se Kalden estaria em algum lugar na

plateia.

“Mae.”

Mae se virou para Eamon Bailey, logo atrás, de camisa azul-celeste, que sorria

afetuosamente para ela. “Está pronta?”

“Acho que sim.”

“Vai ser excelente”, disse ele. “Não se preocupe. Apenas seja natural. Vamos

somente recriar a conversa que tivemos na semana passada. Está certo?”

“Certo.”

E então ele foi para a frente do palco, acenou para a plateia, todos bateram

palmas, olharam uns para os outros, Bailey sentou numa cadeira e falou para o

escuro:

“Olá, membros do Círculo.”

“Olá, Eamon!”, bradaram em resposta.

“Obrigado por terem vindo aqui hoje, para uma Sexta de Sonho muito

especial. Achei que devíamos fazer uma pequena mudança hoje e apresentarmos

não uma palestra, mas uma entrevista. Como alguns de vocês sabem, de tempos

em tempos fazemos isso com a intenção de chamar a atenção para certos

membros do Círculo e seus pensamentos, suas esperanças e, neste caso, sua

evolução.”

Estava sentado numa das cadeiras do palco e sorriu para os bastidores. “Tive

uma conversa com uma jovem funcionária do Círculo alguns dias atrás e queria

compartilhá-la com vocês. Por isso pedi a Mae Holland, que alguns de vocês

talvez conheçam como uma de nossas novatas em Experiência do Cliente, que

me ajudasse hoje. Mae?”

Mae saiu para a luz. A sensação foi de uma instantânea leveza, de estar

flutuando no espaço negro, com dois sóis distantes, mas fortes, que a cegavam.

Mae não conseguia enxergar ninguém na plateia e mal se orientava no palco.

Mas conseguiu dirigir o corpo, as pernas feitas de palha, os pés de chumbo, na

direção de Bailey. Encontrou sua cadeira e, com as duas mãos, sentindo-se

entorpecida e cega, acomodou-se ali.

“Oi, Mae. Como está se sentindo?”

“Apavorada.”

A plateia riu.

“Não fique nervosa”, disse Bailey, sorrindo para a plateia e dirigindo para ela

um levíssimo olhar de preocupação.

“Para você, é fácil falar”, disse ela, e o riso se espalhou pelo auditório. Aquele

riso deu uma sensação boa e acalmou Mae. Ela respirou fundo, olhou para primeira fila e encontrou cinco ou seis rostos encobertos pela sombra, todos

sorriam. Agora ela se deu conta de que estava entre amigos e sentiu aquilo no

fundo da alma. Estava a salvo. Tomou um gole d’água, sentindo que se

refrescava toda por dentro, e pôs as mãos sobre as pernas. Sentiu que estava

pronta.

“Mae, descreva em uma palavra o despertar que você experimentou na

semana passada?”

Essa parte eles tinham ensaiado. “Foi exatamente isso, Eamon.” Mae havia

sido orientada a chamá-lo de Eamon. “Foi um despertar.”

“Opa. Acho que acabei roubando sua fala”, disse ele. A plateia riu. “Eu devia

ter dito: ‘O que houve com você esta semana?’. Mas nos explique por que essa

palavra?”

“Bem, ‘despertar’ me parece correto...”, disse Mae e em seguida acrescentou:

“... agora.”

A palavra “agora” veio uma fração de segundo depois do que deveria e o olho

de Bailey estremeceu. “Vamos conversar sobre esse despertar”, disse ele.

“Começou no domingo à noite. Muitas pessoas aqui no auditório já conhecem os

fatos em linhas gerais, com as câmeras SeeChange e tudo o mais. No entanto,

faça um resumo para nós.”

Mae olhou para suas mãos, no que ela se deu conta de ser um gesto teatral.

Nunca tinha olhado para as mãos a fim de indicar algum grau de vergonha.

“Cometi um crime, basicamente”, disse ela. “Peguei um caiaque emprestado

sem o conhecimento da proprietária e remei para uma ilha no meio da baía.”

“Foi a Ilha Azul, certo?”

“Foi.”

“E contou para alguém que ia fazer aquilo?”

“Não, não contei.”

“Pois bem, Mae: você tinha a intenção de contar a alguém sobre aquele

passeio?”

“Não.”

“E você o documentou de alguma forma? Fotos, vídeo?”

“Não, nada.”

Ouviram-se alguns murmúrios na plateia. Mae e Eamon já esperavam alguma

reação àquela revelação e ambos fizeram uma pausa para permitir que o público

assimilasse a informação.

“Você sabia que estava fazendo algo errado quando pegou o caiaque

emprestado sem o conhecimento da proprietária?”

“Sabia.”

“Mesmo assim, foi adiante. Por quê?”

“Porque achei que ninguém ia saber.”

Mais um murmúrio baixo na plateia.

“Esse é um ponto interessante. O mero fato de que você achava que sua ação

permaneceria um segredo possibilitou que cometesse o crime, correto?”

“Correto.”

“Você teria feito a mesma coisa se soubesse que havia alguém olhando?”

“Não, absolutamente.”

“Portanto, de certo modo, fazer tudo isso no escuro, sem ser observada e sem

ter de responder pelo que fez abriu caminho para impulsos de que você se

arrepende?”

“Não há dúvida. O fato de eu achar que estava sozinha, que não era

observada, possibilitou que eu cometesse um crime. E pusesse minha vida em

risco, pois não usei colete salva-vidas.”

De novo, um murmúrio irrompeu na plateia.

“Então você não só cometeu um crime contra a proprietária daqueles caiaques

como também pôs a própria vida em risco. Tudo porque estava autorizada por

uma, digamos assim, capa da invisibilidade?”

A plateia deu uma gargalhada. Os olhos de Bailey ficaram cravados em Mae,

dizendo: Está indo tudo bem.

“Sim”, disse ela.

“Tenho uma pergunta, Mae. Você se comporta melhor ou pior quando é

observada?”

“Melhor. Sem dúvida nenhuma.”

“Quando está sozinha, sem ser observada, sem poder ser responsabilizada pelo

que faz, o que acontece?”

“Bem, por exemplo, eu roubo caiaques.”

A plateia riu, numa explosão repentina.

“Sério. Faço coisas que não quero fazer. Minto.”

“Outro dia, enquanto estávamos conversando, você se exprimiu de uma forma

que me pareceu muito interessante e sucinta. Pode nos repetir o que disse?”

“Eu disse que segredos são mentiras.”

“Segredos são mentiras. Isso é digno de guardar na memória. Pode expor para

nós a lógica dessa expressão, Mae?”

“Bem, quando algo é mantido em segredo, acontecem duas coisas. Uma é que

isso torna os crimes possíveis. Nós nos comportamos pior quando não somos

responsabilizados. Isso nem se discute. E em segundo lugar, os segredos

inspiram especulação. Quando não sabemos o que está sendo escondido,

tentamos adivinhar, inventamos respostas.”

“Bem, isso é interessante, não é?” Bailey virou para a plateia. “Quando não conseguimos fazer contato com a pessoa amada, especulamos. Ficamos em

pânico. Inventamos histórias sobre onde ela está, o que aconteceu. E caso

estejamos nos sentindo egoístas, ou ciumentos, inventamos mentiras. Às vezes,

mentiras muito prejudiciais. Supomos que a pessoa está fazendo alguma coisa

horrorosa. Tudo porque não sabemos.”

“É como quando vemos duas pessoas sussurrando uma para a outra”, disse

Mae. “Ficamos preocupados, nos sentimos inseguros, imaginamos coisas

terríveis que elas podem estar falando. Supomos que estão falando de nós, e isso

é catastrófico.”

“Quando na certa estão simplesmente perguntando onde fica o banheiro.”

Bailey obteve uma grande gargalhada e ficou satisfeito.

“Isso mesmo”, respondeu Mae. Ela sabia que estava chegando perto de

algumas expressões que precisava falar direito. Tinha dito aquelas expressões na

biblioteca de Bailey e precisava dizê-las de novo da mesma forma como tinha

dito naquele momento. “Por exemplo, se há uma porta trancada, começo a

imaginar todo tipo de histórias sobre o que pode estar atrás dela. Tenho a

impressão de que é algum tipo de segredo, e isso me leva a inventar mentiras.

Mas se todas as portas estiverem abertas, concreta e metaforicamente, só há uma

verdade.”

Bailey sorriu. Ela havia acertado em cheio.

“Eu gosto disso, Mae. Quando as portas estão abertas, só existe uma verdade.

Portanto vamos recapitular a primeira afirmação de Mae. Podemos mostrar na

tela?”

As palavras SEGREDOS SÃO MENTIRAS apareceram na tela atrás de Mae.

Ver suas palavras com mais de um metro de altura lhe deu uma sensação

complicada — algo entre o entusiasmo e o pavor. Bailey era só sorrisos,

balançando a cabeça, enquanto admirava as palavras.

“Muito bem, concluímos que, se você soubesse que teria de responder por

suas ações, não teria cometido esse crime. Seu acesso às sombras, nesse caso,

sombras ilusórias, possibilitou aquele comportamento. E quando você sabe que

está sendo observada é uma pessoa melhor. Correto?”

“Correto.”

“Agora vamos tratar da segunda revelação que você fez acerca do episódio.

Você mencionou que não documentou de nenhum modo o passeio para a Ilha

Azul. Por quê?”

“Bem, em primeiro lugar, eu sabia que estava fazendo algo ilegal.”

“Claro. Mas você disse que muitas vezes anda de caiaque na baía e nunca

documentou esses passeios. Não se filiou a nenhum clube do Círculo dedicado

ao caiaque e também não postou descrições, fotos, vídeos, comentários. Por acaso você deu esses passeios de caiaque protegida pela CIA?”

Mae e a plateia riram. “Não.”

“Então por que esses passeios secretos? Você não contou para ninguém seus

passeios, nem antes nem depois, não os mencionou em lugar nenhum. Não

existem relatos desses passeios, ou estou enganado?”

“Você está certo.”

Mae ouviu várias pessoas no auditório estalando a língua em sinal de

reprovação.

“O que você viu nesse último passeio, Mae? Eu soube que foi muito bonito.”

“E foi mesmo, Eamon. A lua estava quase cheia, a água estava muito tranquila

e eu tive a sensação de que estava remando sobre prata líquida.”

“Parece incrível.”

“Foi mesmo.”

“Animais? Vida selvagem?”

“Por um tempo, fui seguida por uma foca solitária que ficou mergulhando e

tornando à superfície, como se estivesse curiosa e também me incentivasse a ir

em frente. Eu nunca tinha ido àquela ilha. Muito pouca gente foi. Depois que

cheguei lá, subi ao topo e a vista do pico é incrível. Vi as luzes douradas da

cidade e os montes ao pé das montanhas mais altas voltadas para o Pacífico, e

cheguei até a ver uma estrela cadente.”

“Uma estrela cadente! Que sorte.”

“Foi muita sorte.”

“Mas não tirou nenhuma foto.”

“Não.”

“Nenhum vídeo.”

“Não.”

“Então não existe nenhum registro disso.”

“Não. Só na minha memória.”

Houve gemidos altos na plateia. Bailey virou-se para a plateia balançando a

cabeça, concordando com eles.

“Muito bem”, disse Bailey, como se estivesse reunindo forças. “Neste ponto

vamos entrar em algo mais pessoal. Como todos vocês sabem, tenho um filho,

Gunner, que nasceu com PC, paralisia cerebral. Embora leve uma vida bem

agitada e tentemos sempre ampliar suas oportunidades, ele vive confinado a uma

cadeira de rodas. Não pode andar. Não pode correr. Não pode andar de caiaque.

Então o que ele faz se quer experimentar algo assim? Bem, ele assiste vídeos. Vê

fotografias. Boa parte de suas experiências do mundo chegam por meio das

experiências de outras pessoas. E é claro que muitos de vocês, membros do

Círculo, têm sido muito generosos e o abastecem com fotos e vídeos de suas viagens. Quando ele vivencia a imagem da SeeChange de um membro do

Círculo subindo o monte Quênia, ele se sente como se estivesse escalando o

monte Quênia. Quando vê vídeos em primeira mão feitos por um velejador da

America’s Cup de iatismo, Gunner, de certo modo, sente que também participou

da America’s Cup. Tais experiências foram viabilizadas por pessoas generosas

que compartilharam com o mundo, com meu filho inclusive, aquilo que viram. E

podemos apenas imaginar quantas outras pessoas como Gunner existem pelo

mundo. Podem ser deficientes. Podem ser idosos, que não têm como sair de

casa. Podem ser mil outras coisas. Mas a questão é que existem milhões de

pessoas que não podem ver o que você viu, Mae. Parece justo privar essas

pessoas de ver o que você viu?”

A garganta de Mae estava seca e ela tentou não demonstrar sua emoção. “Não.

Parece muito injusto.” Mae pensou em Gunner, o filho de Bailey, e pensou no

próprio pai.

“Você acha que elas têm direito de ver coisas como as que você viu?”

“Acho.”

“Nesta vida breve”, disse Bailey, “por que alguém não deve ver qualquer

coisa que quiser ver? Por que todos não têm acesso igual às imagens do mundo?

Ao conhecimento do mundo? A todas as experiências que este mundo oferece?”

A voz de Mae soou apenas um pouco acima de um sussurro: “Todo mundo

deveria ter acesso a isso”.

“Mas essa experiência que você teve, você guardou só para si. O que é

curioso, porque você tem meios de compartilhá-lha pela internet. Você trabalha

no Círculo. Seu PartiRank está no T2K. Então por que acha que esse seu

passatempo específico, essas explorações extraordinárias, enfim, por que

esconder isso do mundo?”

“Para ser franca, não consigo de jeito nenhum imaginar o que eu estava

pensando”, disse Mae.

A plateia murmurou. Bailey fez que sim com a cabeça.

“Muito bem. Acabamos de conversar sobre como nós, seres humanos,

escondemos aquilo de que temos vergonha. Fazemos uma coisa ilegal ou

antiética e escondemos do mundo porque sabemos que está errado. Mas

esconder uma coisa maravilhosa, um passeio sensacional pela água da baía,

iluminado pelo luar, uma estrela cadente...”

“Foi puro egoísmo, Eamon. Foi egoísmo e mais nada. Da mesma forma como

uma criança não quer dividir seu brinquedo predileto. Entendo que o segredo faz

parte, digamos, de um sistema de comportamento inaceitável. Provém de um

lugar ruim, não de um lugar de luz e generosidade. E quando privamos os

amigos, ou alguém como seu filho, Gunner, de experiências como a que tive, no fundo estamos roubando delas essas experiências. Privamos essas pessoas de

algo a que elas têm direito. O conhecimento é um direito humano básico.”

Mae ficou surpresa com a própria eloquência, e a plateia reagiu com uma

estrondosa salva de palmas. Bailey olhava para ela como um pai orgulhoso.

Quando o aplauso cessou, Bailey falou com voz suave, como se relutasse em

interrompê-la.

“Você exprimiu a questão de uma forma que eu gostaria que repetisse.”

“Bom, é embaraçoso, mas eu disse que compartilhar é cuidar.”

A plateia riu. Bailey sorriu com afeição.

“Não acho embaraçoso. Essa expressão já circula faz algum tempo, mas se

aplica bem aqui, não é, Mae? Talvez com uma precisão singular.”

“Acho que é simples. Se a gente se importa com os seres humanos, nossos

irmãos, compartilhamos com eles o que sabemos. Compartilhamos o que vemos.

Damos para eles tudo o que pudermos. Se a gente se importa com seus apuros,

com seu sofrimento, com sua curiosidade, com seu direito de aprender e saber

tudo o que mundo contém, compartilhamos com eles. Compartilhamos o que

temos, o que vemos e o que sabemos. Para mim, a lógica disso é incontestável.”

A plateia aplaudiu, gritou e, enquanto fazia isso, três palavras novas,

COMPARTILHAR É CUIDAR, surgiram na tela, embaixo das três palavras

anteriores. Bailey balançava a cabeça, admirado.

“Adoro isso, Mae. Você tem muito jeito com as palavras. E há outra

afirmação que você fez que acho que sintetiza isto que me parece que todo

mundo aqui vai concordar que foi uma conversa inspiradora e incrivelmente

esclarecedora.”

A plateia aplaudiu com entusiasmo.

“Estávamos falando sobre como você encarava o impulso de guardar as coisas

para si.”

“Bem, é algo de que não me orgulho e não acho que seja nada mais do que

puro egoísmo. Agora entendo isso de fato. Entendo que, enquanto seres

humanos, somos obrigados a compartilhar o que vemos e sabemos. E que todo

conhecimento deve ficar democraticamente acessível.”

“Ser livre é o estado natural da informação.”

“Certo.”

“Todos temos o direito de saber tudo o que pudermos. Coletivamente, todos

possuímos o conhecimento acumulado do mundo.”

“Certo”, disse Mae. “Então o que acontece se eu privo alguém, ou todos, de

algo que eu conheço? Será que não estou roubando algo de meus irmãos

humanos?”

“De fato”, disse Bailey, fazendo que sim com a cabeça, com ar compenetrado. Mae olhou para a plateia e viu a primeira fila inteira, os únicos rostos visíveis,

também fazendo que sim com a cabeça.

“E, uma vez que você tem tanto jeito com as palavras, Mae, me pergunto se

você poderia nos contar a terceira e última revelação que fez. O que foi que você

disse?”

“Bem, eu disse que privacidade é roubo.”

Bailey voltou-se para a plateia. “Não é uma forma interessante de apresentar a

questão, pessoal? Privacidade é roubo.” Agora as palavras apareceram na tela

atrás dele, em letras grandes e brancas:

 

PRIVACIDADE É ROUBO

 

Mae virou-se para ver as três linhas juntas. Ela piscou para conter as lágrimas,

vendo tudo lá. Será que ela mesma havia de fato pensado tudo aquilo?

 

SEGREDOS SÃO MENTIRAS

COMPARTILHAR É CUIDAR

PRIVACIDADE É ROUBO

 

A garganta de Mae estava seca, contraída. Sabia que não ia conseguir falar,

por isso torcia para que Bailey não lhe pedisse para falar. Como se tivesse

percebido de que maneira ela estava se sentindo, que ela estava atônita, Bailey

piscou para Mae e virou-se para a plateia.

“Vamos agradecer a Mae por sua sinceridade, sua inteligência e sua suprema

humanidade, por favor.”

A plateia se pôs de pé. O rosto de Mae ficou em chamas. Ela não sabia se

devia ficar de pé ou sentada. Levantou-se por um instante, depois se sentiu tola,

por isso sentou-se de novo e acenou com a mão, acima das pernas.

Em algum ponto no meio do aplauso estrondoso, Bailey conseguiu anunciar o

arremate final de tudo aquilo — que Mae, para compartilhar tudo que via e podia

oferecer ao mundo, ia se tornar transparente a partir daquele exato instante.

 

* “SeeChange” significa literalmente “mudança de ver”; trocadilho com sea change, que também tem o sentido de “mudança de maré, mudança radical”, em inglês. (N. T.)